3 de outubro de 2012

Que se lixe a troika – um livro

FOME, de Knut Hamsun (1859-1952), Prémio Nobel da Literatura em 1920, é um livro soberbo. Na edição da Cavalo de Ferro, tem um longo prefácio de Paul Auster, que quase me fez desistir da leitura; não por ser mau, ao contrário, mas por achar que me ia mete com um louco, e estar farta deles.

Romance quase sem história nem personagens (apenas o narrador) conta-nos os dias difíceis dum aspirante a escritor na cidade de Kristiania, actual Oslo.

Na mais negra miséria, o jovem deambula pela cidade, para cima e para baixo, ou em círculos, escreve, ou tenta escrever, gela e alucina quando possuído pela fome de vários dias, descrita duma maneira tão vívida que dá medo.

As suas atitudes desconcertantes, pautadas por juízos pouco lógicos para quem está em tão terrível situação, fazem-nos, por vezes, pensar que está alienado, que busca a morte. Falso.

O instinto de sobrevivência acaba por falar mais alto, talvez porque o narrador tenha terminado a busca de identidade, e o teste aos limites, através da mais dolorosa das experiências físicas – a fome.

Livro publicado em 1890, não podia ser mais moderno; e o facto de o homem ter sido simpatizante nazi, aquando da ocupação da Noruega, não retira nem um pouco de valor à obra.

2 de outubro de 2012

Crises são oportunidades?

Está na moda dizê-lo, mas, pessoalmente, entendo-a como uma frase estouvada, perigosa e imoral, destinada, bastas vezes, a criar culpa nas vítimas.

Crises são oportunidades para quem já teve muitas oportunidades na vida.

Quem, por meios lícitos ou ilícitos, conseguiu amealhar um razoável pecúlio pode, durante as crises, aumentá-lo, geralmente cavando mais no sofrimento e desespero de outros. Pode comprar pechinchas, que, após a crise, valerão muitas vezes o preço por que foram compradas.

É assim que alguns fazem, ou aumentam, fortunas. Mas são apenas alguns.

A grande massa dos que são apanhados na malha apertada da crise não possui esses meios, prévios e indispensáveis, para agarrar as oportunidades – viveu sempre do trabalho assalariado ou da pequena empresa familiar, coisas que apenas dão para ir levando o dia-a-dia e criando os filhos com mais ou menos sacrifícios.

Para esses milhões que alastram pela Europa, crise é desemprego e desespero, em muitos casos para o resto da vida.

Crises são oportunidades? Uma ova!

E o bando de papagaios que por aí anda a repetir o slogan inventado pelos mesmos que os vão lixar, melhor faria se o trocasse pela única frase do papagaio Jacob − o Jacob é burro, burro, burro.

 

1 de outubro de 2012

Claro que fui

Fui, pois. Como não ir?
A Praça estava cheia como um ovo?
Não, mas estava cheia.

Foi então uma boa manifestação?
Foi, mas eu senti-me apenas a cumprir um dever, longe do que vivi há duas semanas - espontaneidade, desordem organizada, humor, convicção cívica e tomada pacífica, mas assertiva, da rua.
Seja assim ou seja assado, muito asfalto temos para calcorrear.
Ainda agora começámos.


28 de setembro de 2012

Vida e morte dos portugueses

Eu, confesso, não gosto muito deste nosso espírito, por vezes demasiado pequenino, que nos faz tomar como ofensa tudo o que seja o bem-estar dos outros.

Porém, quando a revolta com a magnitude das injustiças toma conta deste pedaço que sou eu, também sou capaz de resvalar para a demagogia e populismo.
Logo, eu pecadora me confesso.

Vem isto a propósito da conclusão do Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida que defende que o Ministério da Saúde pode e deve limitar o acesso aos medicamentos mais caros para tratar doenças como o cancro ou a sida.

Diz o médico Miguel Oliveira da Silva, presidente do dito Conselho : "não só é legítimo como, mais do que isso, desejável. Vivemos numa sociedade em que, independentemente das restrições orçamentais, não é possível, em termos de cuidados de saúde, todos terem acesso a tudo" (notícia aqui).

Sabemos, de experiência feita, que para os 21 elementos deste órgão e seus familiares, nunca haverá desperdícios. Quanto ao resto da escumalha, eles decidirão caso a caso quem deve viver e quem deve morrer.

Apetece-me gritar: valha-me nossa senhora que estamos entregues a um bando de bestas que diz tudo o que lhe vem à cabeça, mas, ao evocar a santa, logo  me ocorreu perguntar o que pensará disto, por exemplo, monsenhor Feytor Pinto, Coordenador Nacional da Pastoral da Saúde, e que ainda na quarta-feira vi entrar na sede do Movimento de Defesa da Vida, ali na Rua da Beneficência, saído dum belo Audi prateado, com motorista e vestido por Rosa e Teixeira ou aparentado; o cabeleireiro não sei quem será mas posso assegurar que o corte era excelente. Lá ia ele, todo lampeiro, defender a vida.

Desperdícios, são muitíssimos, sim, mas é com as mordomias deles todos.
Pata que os pôs, que até me fazem ser populista e demagoga.

PS: parece que a pilha da indignação já está quase carregada, e ainda bem.
Preciso da carga toda para amanhã.


27 de setembro de 2012

Quando Gaspar foi à escola


 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Daqui  Peço desculpa, mas hoje só me apetece avacalhar.

26 de setembro de 2012

Sem pilha

A minha pilha da indignação acabou-se, e ainda não a consegui recarregar. Talvez por isso, comecei, ainda que temporariamente, espero, a ver as declarações deste governo mais pelo lado do anedotário nacional.

Quando o Miguel Macedo veio com a conversa de haver muitas cigarras para poucas formigas, eu só me lembrei do Arnaldo Matos.

Para quem não se lembra ou nunca ouviu falar, recordo que Arnaldo Matos era dirigente máximo do PCTP-MRPP nos idos de 1974/75 e, na propaganda do seu partido, apresentava-se como o grande educador do proletariado português.
O homem intitulou-se assim enquanto durou a festa, depois foi tratar da sua vida e fez muito bem.
Delegou em Garcia Pereira que é ambidestro – trata da sua vida e faz política de quatro em quatro anos.

Eis que agora, na segunda década do segundo milénio, surge um governo todo ele formado por educadores do povo em geral, e não só do proletariado, que é coisa que até já nem existe. Diria, pois, que é o grande educador de todos os colaboradores.

Já nos deram aulas ensinando que não podemos ser piegas, nem preguiçosos, nem histéricos, nem cigarras, que crises são oportunidades, que ficar na zona de conforto é para maricas, etc., tudo muito bem explicadinho.

Eles tentam afincadamente, mas tenho para mim que, para educador de cigarras, o Matos tinha mais jeito.

25 de setembro de 2012

Prof. Marcelo e Água das Pedras ao serão de domingo

É-me difícil evitar o professor Marcelo e a sua missa dominical, posto que não vivo sozinha.

Porém, a cada semana que passa, sou mais atacada por azia, enfartamentos, e outros padecimentos digestivos, enquanto o oiço.

Náuseas, esqueci-me das náuseas que me provocam os seus recados ao governo tentando desesperadamente ensiná-lo a governar, as suas tentativas de justificar o injustificável, os argumentos fabricados apenas com metade da verdade e da realidade, os seus sorrisos de velha raposa, o seu cenho franzido simulando desgosto de pai desiludido.

Para já não falar das perguntas não formuladas por dona Judite.

A coisa atingiu proporções que me levam a ponderar a hipótese de vir a deitar-me em jejum ao domingo, e ainda antes de abrir aquele enorme pano de cena do teatro político em Portugal.

A representação é péssima, cabotina mesmo, mas o actor arrasta multidões e é bem pago.
Se calhar, é só embirração minha, mas lá que tenho náuseas, tenho.


24 de setembro de 2012

Fechar a porta

Há dias assim. Parece que uma fina cortina de nuvens baixas nos envolve a cabeça e deixa o corpo por sua conta.

Não é tristeza, não é nostalgia.

Não sei o que é. Não sei como se chama esse sentimento que nos vai tomando, sem sobressaltos mas inexoravelmente, quando encerramos um capítulo.

Não sei como chamar à percepção, tão nítida ao sair das nuvens baixas, de que haverá cada vez menos capítulos para ler.

Ainda que ela seja trazida por acontecimentos desejados, conquistados a pulso, e que se podem resumir como felizes, sei que ela vem quando, por exemplo, o último filho fecha a porta da casa; sei que se avoluma, mais tarde, quando somos nós mesmos que fechamos a porta da grande casa vazia.

21 de setembro de 2012

A ultrapassagem da crise política

Segundo e Expresso online:

Cavaco: crise política está ultrapassada

E o fotógrafo estava lá:


Exposição

Abre hoje às 22h00 a exposição de Renato Ferrão no Chiado 8

Lendo o texto do convite, aqui transcrito, parece uma exposição que tem tudo a ver com os tempos actuais.

Texto do convite

A ideia de tensão faz parte do conjunto de interesses que tem dominado as preocupações artísticas de Renato Ferrão (Vila Nova de Famalicão, 1975). Uma parte significativa das obras que apresentou nos últimos anos explorava aquele fenómeno através de instalações nas quais objetos quotidianos eram suspensos por intermédio de cabos extensores, por vezes mesmo, de simples elásticos, criando um jogo de dinâmicas que desafiava as leis da física e reagia às características arquitetónicas das salas de exposição. Extrapolando o seu resultado visual, estas explorações concorriam num efeito que confrontava o corpo do espectador na forma de uma ameaça iminente: se, por um lado, a rutura daqueles objetos parecia ser um dado a comprovar a qualquer momento, por outro, a sua confirmação comportava um risco evidente para a integridade de todo o espectador apanhado na trajetória daquela anunciada desagregação.
O projeto que Renato Ferrão traz ao Chiado 8 amplia significativamente os processos que tem desenvolvido nesta área, juntando-lhes outros dois dos seus interesses diletos: a mecânica interna dos objetos funcionais e a qualidade da luz como a mais abstrata e a menos tangível das matérias artísticas. Partindo de objetos compósitos formados pela associação de componentes avulsos, esta exposição coloca o espectador no centro de um universo onde a destabilização dos primados escultóricos e a velada sugestão cinética oferecem vislumbres claros da violência que se insinua por entre toda a tensão.
Renato Ferrão é licenciado em Escultura pela Faculdade de Belas-Artes do Porto, cidade onde vive e trabalha e onde cofundou o Salão Olímpico – espaço independente gerido e programado por artistas entre 2003 e 2006. Das suas exposições individuais, destaque para Longa Duração, mad woman in the attic, Porto (2006), A C ack of ence, A Certain Lack of Coherence, Porto (2008), Episódio 2: Senhor fantasma vamos falar, Emissores Reunidos – Fundação de Serralves, Porto (2009) e Vida Material,
Galeria Quadrado Azul, Porto (2010). Em 2010 foi-lhe atribuído o prémio de Artes Plásticas União Latina.

Texto e curadoria de Bruno Marchand

20 de setembro de 2012

Terapia de casal

Parece que a terapia do casal PSD/PP pode começar ainda hoje. É, de facto, urgente, dada a gravidade dos desentendimentos, e antes que se chegue a uma verdadeira “Guerra das Rosas”.

Não tenho dúvidas: quando a sessão acabar, surgirão com um sorriso de circunstância para as câmaras e dirão que tudo vai bem.

Lá dentro dirão que ainda se amam, mas que a rotina e consequentes facadas no casamento estão a pôr em perigo a relação. Farão juras de que tentarão o diálogo, darão atenção ao outro e às suas necessidades, farão jantares românticos, sairão juntos para cantar a Nini, tentarão surpreender-se com SMS, flores e chocolates, e puxarão pela imaginação na cama.

E a gente a vê-los, a saber que não têm vontade nenhuma de cumprir as promessas mas, de momento, terão que aguentar, porque também nenhum tem vontade de voltar para casa da mãe e a vida está muito cara.

Vai uma apostinha que vai ser mesmo assim?

Demasiado perigoso para continuar

Ângelo Correia disse, numa televisão qualquer que “a queda deste governo seria a pior coisa que podia acontecer ao país”.
Pois eu penso exactamente o contrário; mantê-lo, isso sim, seria o pior que podia acontecer ao país.

É um governo perigoso, que aproveitará cada dia restante da sua vida para continuar a “desmontagem” do país, pedra por pedra, por encomenda mas também por convicção.

É preciso que saia. Salteadores a soldo não podem ser governantes.
E não nos venham meter medo com o day after.
Medo e paciência já os mandámos juntos pelo cano.

 

 

19 de setembro de 2012

Não terão mais nada que fazer?

Discutir questões de fé é pura perda de tempo. Atacar a fé de alguém é pura questão de mau gosto.

Fé, temos todos – até um ateu como eu tem fé; se esta se caracteriza, precisamente, pela impossibilidade de provar a existência de alguma coisa (neste caso, Deus), também eu não posso provar que ele não existe.
Logo, ser ateu é uma questão de fé.

Nunca me lembraria de fazer um boneco do Papa com um preservativo no nariz, o que, sendo um acto de livre expressão, não deixa de conter a sua boa dose de provocação inútil, nesta minha perspectiva.

Porém, Europeia que sou, vivo essas questões com normalidade.

Daí que olhe com profunda estranheza a orgia incendiária que vai no mundo árabe por causa dum filme que, supostamente, insulta o profeta Maomé.

Dias a fio, e saltando de país para país, aquela turba movida por uma sanha assassina incomoda-me, por mais que respeite outras culturas e civilizações.

Ontem, dei comigo a pensar: e não terão mais nada que fazer?
Respondi-me de imediato: se calhar não têm mesmo.


18 de setembro de 2012

Nota breve


Partidos e sindicatos são organizações indispensáveis em democracia, acredito, mas face às manifestações de sábado também não podem assobiar para o ar.

Os portugueses mostraram que não precisam deles para se mobilizarem e fazerem uma imensa manifestação, forte e sem incidentes.

Ficou claro que o que nos une é maior e mais forte do que o que nos divide.

Partidos e sindicatos, se nos querem representar, devem pensar bastante sobre as razões por que ninguém lhes sentiu a falta.

17 de setembro de 2012

Como eu vivi a estuporada semana de Setembro

 

 

No dia 7 de Setembro, a meio da tarde e com a mala já desfeita, considerei-me instalada para gozar uma semana de férias.

Antes do pôr-do-sol, Passos, via televisão, lança a sua taxa Rabin dos Bosques vestida à pressa e do avesso; de seguida, parte para cantar a Nini, ou lá o que foi.

Mesmo antes de ele ter tempo de abandonar a sala, eu já tinha percebido
que aquele fedelho impreparado e mentiroso tinha acabado de me tirar também as férias.
Se aprendemos que a saúde não é a mera ausência de doença, é fácil perceber que férias também não são a mera ausência de trabalho.

Longe da internet, por ali andei a jiboiar ao redor da televisão.
Aos poucos, fui percebendo que o homem tinha feito o pleno, estava sozinho, e não havia uma única voz que se levantasse em defesa daquela coisa.

Um feito notável, que desde já lhe assegura um lugar cativo no panteão das nossas sinistras figuras históricas.

Cheguei a tempo de participar na 2ª maior manifestação da minha vida, com gente de todas as idades; tomando a rua, zangados mas bem-dispostos, afirmativos, sem medo, unidos, determinados (finalmente) a dizer BASTA.

Bati com uma colher de pau torta numa tampa velha, gritei que “o povo unido jamais será vencido”, “FMI fora daqui” e “gatunos”.

Senti-me num tempo circular, estranho, enérgico mas, simultaneamente, penoso – é que eu (como muitos outros que lá estavam) já gritei tudo isso há trinta anos atrás e nunca esteve nos meus planos de vida voltar a gritar as mesmas palavras três décadas depois.

5 de setembro de 2012

Vou



Quase toda a gente tem alguma coisa para cuidar - cão, gato, canário, tartaruga, peixes, plantas, etc.

Quando os meus filhos foram de férias, pediram-me que tomasse o seu lugar de cuidadores, o que fiz com prazer.

Infelizmente não posso pedir retribuição para este blogue.
Sendo assim, simplesmente, VOU.


4 de setembro de 2012

Uma grande teia

Há não muito tempo, li no Público uma notícia que dizia:
“465 mil desempregados não recebem proteção social há 9 meses”.
Apertou-se-me o estômago, mas pior fiquei quando esmiucei a situação.

É certo que hoje há muitas organizações que asseguram a alimentação básica, algum vestuário e até ajuda para manuais e material escolar mas, quem paga a renda da casa ou o empréstimo ao banco, quem paga a conta da água e da luz, quem compra a aspirina ou o antibiótico para a criança, quem paga o bilhete de autocarro para ir ao centro de emprego, quem, enfim, paga essa infinidade de pequenas coisas que nos fazem voar o dinheiro da carteira por mais despojada que seja a nossa vida?

Essas 465 mil pessoas estão entre nós, discretamente, silenciosas. A sua sobrevivência é um mistério mas, de certeza, só a conseguem com base numa enorme teia de solidariedade urdida sobretudo na família, mas às vezes também nos vizinhos e amigos.

Somos bons nisso. Mas tenho vergonha daquilo.

3 de setembro de 2012

Leveza opinativa


Quando os jornais querem uma opinião levezinha, rápida e pouco pensada, mas com um embrulho de respeitabilidade, chamam Maria Filomena Mónica. A senhora será, talvez, boa na sua área de investigação, mas para tudo o resto é duma “frescura” típica da portugalidade que tanto a agasta.

Esta semana, no Expresso, e a propósito da RTP escreve, e bem, sobre imemoriais vícios deste país.

Porém, não sabendo o que pensar nem como rematar o artigo, termina-o dizendo:

Perante isto, que pode um cidadão fazer? No meu caso, vou mandar selar o contador da EDP, após o que passarei a iluminar a minha casa à luz das velas. Julgo que, aqui, é suposto o leitor rir-se.

A mim, perante isto, parece-me que os opinadores pagos pelos jornais que eu compro, deviam ponderar os assuntos e formar uma opinião antes de enviarem a cronicazinha.

Mas este estilo levezinho e repentista de MFM está-se-lhe a colar à pele.

Noutra semana, em que o Expresso a levou a passear por Lisboa, foi à Gulbenkian para ver o mar dum quadro de Turner, mas também espreitou a exposição de que aqui falei bastante, “Tarefas infinitas”. Tendo lá encontrado Eduardo Lourenço, Maria Filomena Mónica dispara (e cito de cor):
- Não gosto!
Eduardo Lourenço respondeu:
- Também estranhei, mas acho que é a exposição mais original que já vi na minha vida.

Encontre as diferenças” entre os nossos intelectuais; que não são cinco, como nos passatempos, mas apenas uma - uns são e outros parecem.

31 de agosto de 2012

Dobrando a esquina

Não me importava de ter escrito isto;

“…a sua dicção possuía uma sonoridade tão casual e risonha que as suas frases pareciam fugir dobrando a esquina depois de serem pronunciadas.”

John Updike em
Coelho Enriquece

E, dobrando a esquina, bom fim de semana.

30 de agosto de 2012

Dia de adjectivos

Ontem, Passos Coelho, em Londres, fez-se fotografar com os paralímpicos portugueses, que costumam ter bons resultados, exactamente quando se prepara para lhes retirar, a eles e às suas famílias, os benefícios fiscais que ainda têm.

Achei a ação de marketing hipócrita e oportunista.

Embalado na asneira, como é de seu hábito, tratou de se insurgir contra as opiniões, contrárias à sua, sobre o futuro da RTP.

Chamou a isso Histeria.

Já chegámos ao ponto de até a simples expressão de diferentes opiniões dar direito a que nos cole mais um lindo adjetivo a juntar à sua lista.

Já nem me indigno, só me apeteceu responder:
Senhor primeiro-ministro, histérica talvez a sua tia, não? Que lhe parece?


29 de agosto de 2012

Repescagem

Retirei esta imagem da Revista do Expresso que evoca a década 1993/2002.

Lembro-me bem de o Público, em 1994, a acompanhar do célebre texto de Vicente Jorge Silva, “Geração rasca”. Foi uma manifestação de estudantes, salvo erro contra as propinas, e indignou o país pouco habituado a gestos “destemperados”. Como alguém escreveu logo de seguida, era, porém, uma “geração à rasca”.

Teriam na altura 18 ou 20 anos e, passados outros 18 anos, continuam à rasca, mas não estão sozinhos – é todo um país que está à rasca, mas que continua bem comportado, bom aluno das doutrinas alemãs, expectante sobre o que dirá a troika, temente dos “destemperos”.

Pois hoje eu aproprio-me da foto, e dedico-a exactamente à troika, à sua avaliação e às suas ordens.
Desprezo com desprezo se paga.

28 de agosto de 2012

O princípio de Peter

Quando no fim de semana o vi na televisão, a arengar sobre a RTP, assim munido de camisa e dentadura tão brancas que se podiam usar num anúncio de lixívia, pensei o mesmo de sempre – vai fermoso e não seguro.

Se eu quisesse explicar o princípio de Peter às criancinhas, usá-lo-ia como exemplo: em rapaz, se calhar, até foi bom mas juniores, mas promoveram-no e ele mostra claramente que não tem lugar na equipa sénior, muito menos como capitão.

Cada um tem o seu nível de incompetência, e ponto final.

27 de agosto de 2012

Neil Armstrong

Quando a tua grande bota lá poisou, Neil Armstrong, subitamente tornaste possível e real o que os adultos muitas vezes me diziam como metáfora recriminatória – “estás na lua”.

Confesso-te que, tantos anos depois, e quando tu já partiste na tua última viagem, a mulher que sou ainda fica muitas vezes como a menina que fui – na lua.

Mas tu personificaste um sonho vago e comum, transformaste-o em realidade em conjunto com muitos outros, e com os teus saltinhos lá em cima talvez tenhas ajudado a que os meninos que ficam “na lua” sejam hoje menos repreendidos.

Quanto aos homens e mulheres, depois de ti, e tal como antes, esses, continuarão simplesmente a sonhar, como lhes é próprio. Sempre.

24 de agosto de 2012

Franny e Zooey

Ao contrário de ilustres intelectuais americanos (Norman Mailer, George Steiner, Joan Didion, entre outros), eu gosto dos livros de J.D. Salinger.

Devo pertencer ao tal grupo dos leitores amadores no mundo – alguém que simplesmente leia por ler.

J.D. Salinger não escreveu muito, mas foi amado por milhões de leitores em todo o mundo e criticado pelos seus pares, acusado de ter uma escrita “menor”, de nada exigir aos seus leitores, de superficialidade, de ser zen, de querer ensinar como se deve viver, etc.

Ora, eu já estou velha para que me ensinem a viver, e por isso sou fácil de contentar com ritmo e diálogos brilhantes, humor e esperança que, no fim, persiste.

Era nova quando li e me encantei com “Uma agulha no palheiro”, actualmente chamado “À espera no centeio”; sou agora muito menos nova e voltei a encantar-me com “Franny e Zooey”.

O livro está dividido em duas partes e nele, devido à crise existencial que Franny atravessa, Salinger constrói, nos diálogos com o seu irmão Zooey, uma narrativa sedutora sobre religião, sabedoria, procura de si e da felicidade.

À luz dos grandes crânios americanos, de que também gosto, serei fraquinha de espírito e parca de exigência mas, paciência, gostei muito e recomendo.
 
Franny e Zooey
J.D. Salinger
Ed. Quetzal, 2011
 

23 de agosto de 2012

Português é fiiiino…

Vai por aí uma grande indignação com o Pingo Doce por deixar de aceitar  pagamentos com cartão em compras abaixo de 20 euros.

Já me indignei com o Pingo Doce e o sr. Alexandre várias vezes, mas não agora. Fiquei a saber que a empresa, com esta medida, poupará 5 milhões de euros, e também fiquei a saber que os nossos pagamentos com cartão rendem anualmente, às empresas que os gerem, 85 milhões de euros.

Eu, confesso, estou um bocado farta de engordar gulosos.

O pagamento com cartão é uma modernice, por isso me espanto com as velhinhas que vejo na televisão, que passaram três quartos da sua vida a pagar com dinheiro, muitíssimo indignadas com a decisão do Pingo Doce.

Dizem que têm medo de serem roubadas se andarem com dinheiro vivo, e apetece-me logo perguntar-lhes se não têm medo que as obriguem a levantar, na ponta da naifa, muito mais do que os 20 euros que agora devem trazer sempre na carteira para o caso de se lembrarem de ir ao Pingo Doce comprar uma bolachas de água e sal.

Estas decisões parecem-me acertadas e de boa gestão, e só penalizam os bancos – os tais que ganham 85 milhões por ano, sempre com o rabo na cadeira à espera que a gente saque do cartãozinho.

Mas português, que amocha perante o empobrecimento, as injustiças e o desfazer metódico dum país, indigna-se por não o deixarem pagar dois euros com cartão.
Uff! Português é modernaço e fiiiino…!


22 de agosto de 2012

O bolo de bolacha do Miguel

“Sou casado, tenho três filhos e sou muito guloso.
A minha mulher faz um excelente bolo de bolacha de que gosto muito. Quando ela o faz, eu como metade, e os meus três filhos comem a outra metade.

Feita a média, parece que cada um de nós comeu um quarto do bolo mas não é verdade; eu comi metade e os três miúdos tiveram que dividir a outra metade.”

Era com esta história que, nos idos do pós-25 de Abril, Miguel B. explicava as mais-valias e distribuição da riqueza aos trabalhadores rurais do Alentejo por essas aldeias fora.

Aqueles homens e mulheres estavam carecas de saber isto na própria carne, mas riam-se da historieta do comunicador e aquiesciam com a cabeça.

Lembrei-me de ti Miguel, e do teu bolo de bolacha quando li que a média salarial no Estado é de 1532 euros.

Lá onde estiveres deves estar admirado com a actualidade da tua história.
Passaram tantos anos, não é?


21 de agosto de 2012

Há mais pérolas

Sim, há mais pérolas escondidas na silly season.

Quem gosta mesmo de pintura, não tem hoje muitas oportunidades de ver uma exposição só de pintura e de grande qualidade.

Contudo, até 31 de Agosto, ainda estará no Chiado 8 a exposição de Pedro Casqueiro (exclusivamente pintura) com o título Tríptico.

Depois duma grande ausência do circuito expositivo lisboeta, Pedro Casqueiro regressa com obras realizadas nos últimos dez anos.

Como salienta Bruno Marchand no texto do convite, “A pintura de Pedro Casqueiro (Lisboa,1959) tem sido, em grande medida, um criterioso e sofisticado jogo entre a construção de uma identidade autoral e um conjunto de reações – talvez mesmo de testes – à sobrevivência da pintura face aos mais diversos modelos e protocolos da expressão visual.”

Pedro Casqueiro continua aqui o seu trabalho/busca, e não ir ver é pecado.
Bruno Marchand continua a escrever muito bons textos de catálogo.
O Chiado 8 continua só até ao fim do ano, que isto de gastar dinheiro a mostrar arte num local nobre da cidade é “vício” de gente rica −  nós somos pobres, como se sabe.
E os mercados, também, nem apreciam.

Nota: imagem extraída do catálogo.


20 de agosto de 2012

Tempestades tropicais


Os acontecimentos verdadeiramente fundadores da nossa identidade chegam como chegavam antigamente as tempestades tropicais.

Vinham não se sabia donde, nem porquê, derrubavam árvores velhas, levantavam telhas, derramavam toneladas de água.

Quando partiam, era preciso reconstruir, mas nada seria, nunca mais, exactamente  igual.

Hoje, as tempestades têm nomes de homem ou mulher, lançam-se alertas, trancam-se as portas, amarram-se os barcos.

Os corpos podem defender-se delas, mas continua a não haver alertas para os espíritos.

E ainda bem. Poderíamos perder verdadeiros "momentos de glória".

Não esqueçam a farinheira

Pelo que vou ouvindo na televisão, há festas por todo o país; o normal para a época, portanto. As televisões, querendo manter os seus noticiários com duração de uma hora, a todas dão cobertura.
Pelo resto do dia, segue o arraial.

Tudo o que seja comida, é festejável – o pão, o queijo, o marisco, o bacalhau, a sardinha, a omeleta, o presunto e o mais de que nos possamos lembrar.

Para tudo há uma festa, incluindo um tal Pontal que, confesso, nunca provei.

Como ajuda à produção, e para que não se pense que na TV há filhos e enteados, venho lembrar que ainda não vi nenhuma festa ou programa dedicados à farinheira, esse glorioso património gastronómico luso.

Falta ela, mas espero que até ao fim do verão ainda lhe concedam aquilo a que tem direito –os seus quinze minutos de fama (ou mais, pode ser a tarde toda), que ela merece e dará um bom programa de televisão.

Por favor, ó gentes da minha terra e da TV, não esqueçam a farinheira!

E depois não digam que eu não ajudei, ou que não tive participação cívica, ou, pior ainda, que sou ativista de sofá. Tá?!

17 de agosto de 2012

Tarefas Infinitas V






















O fogo e o livro por vir

Os livros são perigosos: ateiam-nos fogo. Temíveis: por isso, são atirados ao fogo. Há uma relação íntima entre o livro, o fogo e as cinzas. Como a consciência de que o livro da nossa vida nos pode queimar. De que somos livro a ser escrito. Como um mapa aberto à viagem. A fazer-se e a desfazer-se. De um monte de palavras ou imagens, dessa matéria, formar-se-ão outros livros possíveis, ainda por vir. Ou a reler. Desconhecidos. A biblioteca interminável de Babel. Tarefas infinitas, chamou-lhes Husserl, porque não se limitam ao tempo de vida de um indivíduo e são criação comunitária. O livro, a arte, o pensamento, a ciência. Vêm de longe e dirigem-se para longe. Ao virar a página, no infinito obscuro da origem, dá-se uma explosão de luz que é começo.”

Notas: Texto que acompanha o núcleo "o fogo e o livro por vir" da exposição Tarefas Infinitas na galeria de exposições temporárias do Museu C. Gulbenkian
Imagem do catálogo: António Areal (1928-1978) Confissão tenebrosa: primeira parte da autobiografia agora em edição ilustrada pelo autor, 1971

16 de agosto de 2012

Tarefas Infinitas IV















Tudo existe para chegar a um livro

Do mais comum quotidiano à mais extraordinária iluminação – e desorganizando essas categorias: tudo se dirige para um livro. O trabalho e o descanso, a dor e o prazer, a ficção e a realidade, o amor e a morte. As paredes grafitadas e a pele do corpo. O desejo enciclopédico de apreender todo o conhecimento do mundo. Refletir sobre a brevidade da existência ou prolongá-la numa imortalidade da memória. Estabelecer a normalidade ou desencadear a loucura. Heróis, cobardes, santos, loucos. O que podemos ser encontraremos num livro, ou resultará num livro: possibilidades-de-si desconhecidas. Existirá o mundo porque o livro existe?”

Notas: Texto que acompanha o núcleo "tudo existe para chegar a um livro" da exposição Tarefas Infinitas na galeria de exposições temporárias do Museu C. Gulbenkian
Imagem do catálogo: Pinturas do Mestre François, Livro de horas de René de Lorena, século XV

15 de agosto de 2012

Devaneios


Neste feriado de Agosto com tempo tosco, estava eu a ler a notícia do casal que ganhou os 190 milhões no Euromilhões e a pensar com os meus botões qual a extravagância que me concederia.
Pensei: comprava uma tela assim (mas tela, mesmo) do Julião Sarmento.







 









Depois, pensei melhor e decidi que antes queria uma parede inteira com árvores do Julião Sarmento; qualquer coisa assim:

 














Mulher de gostos simples, euzinha!


Tarefas Infinitas III





















Linha infinita: história interminável

Um ramo fértil tem origem no livro: a escrita e a leitura são tarefas inacabáveis. Demoradas. Uma linha atravessa o livro, reinventa-se a cada página e transita para outros: como se de um mesmo livro se tratasse. Uma linha imemorial que vem de trás e que nos ultrapassará. Linha infinita que atravessa a História. Os autores contaminam-se. As personagens, citações e ideias migram de uns livros para outros. As leituras cruzam-se criando novos sentidos. Abrem-se estradas, propõem-se passeios e deambulações. O livro exige de nós tempo.


Notas: Texto que acompanha o núcleo "linha infinita: história interminável" da exposição Tarefas Infinitas na galeria de exposições temporárias do Museu C. Gulbenkian
Imagem do catálogo: Ana Hatherly (1929), Mapas da imaginação e da memória, 1973

14 de agosto de 2012

Tarefas Infinitas II
















A fenda e a explosão: entrar/sair

Entre as mãos abre-se uma fenda. Uma entrada inesperada que altera a ordem do mundo. Um abismo. Ou uma casa – que oferece um outro modo de hospitalidade. Ou uma exposição no espaço do livro – outro modo de relação com a obra de arte. Mas aí não podemos permanecer. Pelas fissuras do livro saem novas e inesperadas realidades. Aparições. Anúncios que recriam o mundo. O livro tem algo de bomba. Explosão de palavras, ideias, imaginação, sentidos – que destroem e recriam o horizonte de possibilidades em que nos movemos.
E exigem de nós: faz, pensa, vê, sê!”

Notas: Texto que acompanha o núcleo "a fenda e a explosão: entrar/sair" da exposição Tarefas Infinitas na galeria de exposições temporárias do Museu C. Gulbenkian
Imagem do catálogo: Lawrence Weiner (1942), Deep blue sky light blue sky, 2007

13 de agosto de 2012

Tarefas Infinitas I

Para quem gosta de livros e arte há uma exposição imperdível Tarefas Infinitas – na galeria de exposições temporárias do Museu Calouste Gulbenkian, até 21 de Outubro 2012.

Com curadoria de Paulo Pires do Vale, a exposição está dividida em cinco núcleos, sendo cada um deles introduzido por um pequeno texto que, aqui confesso, não sei quem escreveu – se o curador, se Gonçalo M. Tavares. De qualquer forma, gostei tanto deles como da exposição e, por isso, os vou reproduzir aqui, um por dia, demonstrando assim que a silly season pode ter pérolas dentro.



“Com o infinito nas mãos

Abrir um livro é correr o risco de encontrar o infinito. Ter ao alcance das mãos, nos limites da página, o sem-limites. E de que outro modo poderíamos nós encontrar o infinito senão no finito?
Mensurável, palpável, visível. Nesse espaço aberto e branco da página, nas suas dobras, pode surgir o sem princípio, nem fim, nem centro: o Livro infinito. Liberdade que é também desorientação: perdem-se as certezas e as referências habituais; os caminhos e sentidos bifurcam-se; a noite cerca-nos. Uma espécie de cegueira: o livro abre uma obscuridade essencial. A dos novos começos.”

Imagem do catálogo: Raymond Queneau (1903-1976), Cent mille milliards de poèmes, 1961

10 de agosto de 2012

Uma grande ilusão?

Europa, Europa, Europa.

Agora que o velho continente se apresenta incontestavelmente velho e em perigo de colapso total; agora que o velho continente é governado por gente que não viveu a guerra, que não tem memória (na melhor das hipóteses) ou que nunca estudou história (na pior), aí está este ensaio de 140 páginas escrito por Tony Judt em 1996 sobre a Europa e a construção europeia.

“Uma grande ilusão?” – Um ensaio sobre a Europa, é factual e sem romantismos ideológicos, fácil de ler, quase didáctico.

Excelente para ser lido por quem sabe mas não se importa de recordar, mas sobretudo por quem não sabe mas gostava de saber como tudo começou e se desenrolou até 1996.

Não se busquem perspetivas sobre a situação actual, porque o euro (o centro do furacão) ainda nem sequer tinha nascido, mas não se pode compreender totalmente o presente sem termos uma luz sobre o passado.

Uma óptima leitura para quem também gosta de não-ficção.

Edições 70, Junho 1012

8 de agosto de 2012

Amigos inseparáveis


Nesta imensa mas prazeirosa tarefa a que o governo se propôs – a de desfazer um país peça a peça – seria falso dizer que desinvestiu em tudo. De facto, há uma excepção – a polícia.

Os polícias lá vão sendo promovidos, com atraso, é certo, mas vão sendo, o nosso primeiro vai assistir a umas macacadas de polícias aos tiros e leva com ele as televisões, e o ministro Miguel Macedo anunciou há pouco “novos investimentos” para 2013.

A ideia de polícia versus segurança dos cidadãos pode “colar” junto de muitos mas, cá para mim, o que “cola” é o medo que ELES têm e a necessidade que sentem de estar bem artilhados para o que der e vier.

Afinal, nada de novo; o poder e o medo sempre foram amigos inseparáveis.

6 de agosto de 2012

Oi, galera


Oi galera, tudo bem aí?

Esta é uma saudação em português do Brasil que ouço com frequência.

De facto, a generosidade dos brasileiros na internet não tem limites. Eles produzem vídeos domésticos que colocam no YouTube sobre tudo o que sabem fazer – desde modos de colocar um lenço ao pescoço até àquilo que mais uso – como fazer alguma coisa no computador que não estou a conseguir descobrir sozinha.

Depois de inúmeras cabeçadas solitárias, lá me lembro de pesquisar a minha dificuldade e, em pouco segundos, descubro um brasileiro com o seu vídeo que, frequentemente, começa por “oi, galera” e termina por “viu? fácil, né? Então até uma próxima.”

O meu problema fica resolvido num piscar de olhos e eu fico cheia de vontade de conhecer aquela generosa criatura para lhe dizer:

“Ei, cara, geniau! Váleu! Brigada mesmo, viu?!

Não deixem os brasileiros ir embora, não. Sem eles ficaremos uma mera enfermaria geriátrica.

3 de agosto de 2012

Telma

Não sei o que terá acontecido quando Telma chegou ao seu quartinho da Aldeia Olímpica mas, se fosse eu, tinha chorado baba e ranho durante horas.

Aquilo foi mais ou menos o mesmo que uma pessoa “marrar” um ano inteiro para um exame e depois chumbar por muitos.

Telma é campeã europeia e vice-campeã do mundo de judo mas foi eliminada à primeira.
Disse que estava “triste” mas sentia-se de “dever cumprido”, assim como diria um contabilista que tivesse sido despedido sem nunca ter errado uma conta.

Não, não a queria ver a chorar, e também sei que um atleta de alta competição tem que ter estrutura emocional e psicológica acima da média para aguentar a pressão.

Mas então, se está treinada para aguentar a pressão (não chora nem nada) e se é muito boa tecnicamente na sua área porque é que “vai ao tapete” logo à primeira num momento crucial da carreira?

Já todos vimos este “filme” muitas vezes.
De facto, chama-se Telma, mas podia ter muitos outros nomes.




1 de agosto de 2012

Turistas

O turismo é um desporto global, e os seus praticantes estão por todo o mundo – novos e velhos, bem ou mal vestidos, limpos ou sujos, pobres ou ricos, de ténis ou sandálias, nunca serão confundidos com não-turistas novos e velhos, bem ou mal vestidos, limpos ou sujos, pobres ou ricos, de ténis ou sandálias porque há uma peça que todos, devotamente, carregam: a máquina fotográfica.

Das mais simples à mais sofisticadas, levadas na mão, no bolso, ao pescoço ou em malas e maletas de marca, com filtros, palas, ou lentes várias, exigindo saber técnico ou tão fáceis de usar como um selo de correio, elas são o verdadeiro traço distintivo, o indispensável adereço do turista contemporâneo.

O turista militante vê tudo pelo menos duas vezes – uma pelo seu olho, e outra pela lente da máquina.

Estou até firmemente convencida de que só quando ouve o disparo da sua máquina fotográfica ele relaxa, e se convence de que realmente VIU.

Uma coisa linda de se ver!