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quarta-feira, novembro 16, 2011

Virão um dia, ou não

“Amá-los (os filhos), disse, não era apenas um deleite, era uma lição sobre vulnerabilidade.”
Ian McEwan,  A Criança no Tempo

Sabemos que, neste início de década do século xxi, há muitos milhares de pessoas a sofrer em Portugal.
Porque perderam o emprego, porque perderam a casa, porque o salário não chega para as despesas ou porque nem sequer chega para alimentar a família. Essa dor passa todos os dias nos telejornais, sempre em jeito de punição para quem ainda lá não chegou, com forte apelo à lágrima ou à caridade cristã. Como se houvesse destino e esse fosse o nosso.

Há, porém, uma enorme dor, sempre bem escondida, e de que ninguém quer falar – a dos pais que vêem os seus filhos emigrar.
Meu pai costumava dizer que a vida dum menino é feita de “tomaras”: tomara que ande, tomara que vá para a escola, tomara que entre na universidade, tomara que seja independente, tomara que case, tomara que me dê netos.

Na década de 1960 a emigração partia das aldeias, com “malas de cartão”, levando na bagagem “uma mão cheia de nada e outra de coisa nenhuma”
Hoje, sai das cidades, de mochila às costas e trolley na mão, levando na bagagem um curso superior. E, mais uma vez, porque é preciso.

Filhos de pais dedicados e presentes que tudo fizeram para que tivessem a formação que dantes assegurava uma vida melhor, (e também de um país inteiro que pagou os seus estudos), partem em bandos para criar riqueza algures, deixando para trás, e sós, uns pais para quem, subitamente, se acabou o “tomara”.

Estes pertencem a uma geração que fez pinos e espargatas para que os seus filhos crescessem harmoniosamente e com pais, e esperavam morrer com filhos. Entretanto, haviam de viver tendo por perto jovens e belas criaturas a quem tinham dado o melhor de si, e em quem se poderiam rever; a velhice chegaria mais devagar com a sua presença, e ainda haveria tempo de gozar a felicidade de ver um neto a crescer.

Não foi apenas mais um sonho roubado, foi o mais simples e belo dos sonhos que lhes foi brutalmente arrancado. E a dor provocada é tão grande, tão muda, mas vivida com tanta coragem, que o desamparo quase nem se nota. Alguns deitam sal na ferida, acrescentando culpa e falhanço pessoal.
Os dias transformam-se, assim, numa sequência sem nexo; termos como alegria ou objectivos saem do vocabulário quotidiano, e o futuro parece já não existir.
Não foram eles que falharam, foi o país inteiro, como bem sabemos.

Sabemos também que os filhos não são nossos, são do mundo, mas todos gostamos de os ter perto. Hoje, milhares de pais da minha geração vivem o seu sonho estilhaçado em completo silêncio.
São corajosos anónimos deste país triste com quem me sinto solidária.