29 de setembro de 2012
28 de setembro de 2012
Vida e morte dos portugueses
Eu, confesso, não gosto muito deste nosso espírito, por
vezes demasiado pequenino, que nos faz tomar como ofensa tudo o que seja o
bem-estar dos outros.
Porém, quando a revolta com a magnitude das injustiças toma
conta deste pedaço que sou eu, também sou capaz de resvalar para a demagogia e
populismo.
Logo, eu pecadora me confesso.
Vem isto a propósito da conclusão do Conselho Nacional de
Ética para as Ciências da Vida que defende que o Ministério da Saúde pode e
deve limitar o acesso aos medicamentos mais caros para tratar doenças como o
cancro ou a sida.
Diz o médico Miguel Oliveira da Silva, presidente do dito
Conselho : "não só é legítimo como,
mais do que isso, desejável. Vivemos numa sociedade em que, independentemente das
restrições orçamentais, não é possível, em termos de cuidados de saúde, todos
terem acesso a tudo" (notícia aqui).
Sabemos, de experiência feita, que para os 21 elementos
deste órgão e seus familiares, nunca haverá desperdícios. Quanto ao resto da
escumalha, eles decidirão caso a caso quem deve viver e quem deve morrer.
Apetece-me gritar: valha-me nossa senhora que estamos
entregues a um bando de bestas que diz tudo o que lhe vem à cabeça, mas, ao evocar a santa, logo me ocorreu
perguntar o que pensará disto, por exemplo, monsenhor Feytor Pinto, Coordenador
Nacional da Pastoral da Saúde, e que ainda na quarta-feira vi entrar na sede do
Movimento de Defesa da Vida, ali na Rua da Beneficência, saído dum belo Audi
prateado, com motorista e vestido por Rosa e Teixeira ou aparentado; o
cabeleireiro não sei quem será mas posso assegurar que o corte era excelente.
Lá ia ele, todo lampeiro, defender a vida.
Desperdícios, são muitíssimos, sim, mas é com as mordomias
deles todos.
Pata que os pôs, que até me fazem ser populista e demagoga.
PS: parece que a pilha da indignação já está quase carregada,
e ainda bem.
Preciso da carga toda para amanhã.
27 de setembro de 2012
26 de setembro de 2012
Sem pilha
A minha pilha da indignação acabou-se, e ainda não a
consegui recarregar. Talvez por isso, comecei, ainda que temporariamente,
espero, a ver as declarações deste governo mais pelo lado do anedotário
nacional.
Quando o Miguel Macedo veio com a conversa de haver muitas cigarras para poucas formigas, eu só me lembrei do Arnaldo Matos.
Para quem não se lembra ou nunca ouviu falar, recordo que Arnaldo Matos era dirigente máximo do PCTP-MRPP nos idos de 1974/75 e, na propaganda do seu partido, apresentava-se como o grande educador do proletariado português.
Eis que agora, na segunda década do segundo milénio, surge um governo todo ele formado por educadores do povo em geral, e não só do proletariado, que é coisa que até já nem existe. Diria, pois, que é o grande educador de todos os colaboradores.
Já nos deram aulas ensinando que não podemos ser piegas, nem preguiçosos, nem histéricos, nem cigarras, que crises são oportunidades, que ficar na zona de conforto é para maricas, etc., tudo muito bem explicadinho.
Eles tentam afincadamente, mas tenho para mim que, para educador de cigarras, o Matos tinha mais jeito.
Quando o Miguel Macedo veio com a conversa de haver muitas cigarras para poucas formigas, eu só me lembrei do Arnaldo Matos.
Para quem não se lembra ou nunca ouviu falar, recordo que Arnaldo Matos era dirigente máximo do PCTP-MRPP nos idos de 1974/75 e, na propaganda do seu partido, apresentava-se como o grande educador do proletariado português.
O homem intitulou-se assim enquanto durou a festa, depois
foi tratar da sua vida e fez muito bem.
Delegou em Garcia Pereira que é
ambidestro – trata da sua vida e faz política de quatro em quatro anos.
Eis que agora, na segunda década do segundo milénio, surge um governo todo ele formado por educadores do povo em geral, e não só do proletariado, que é coisa que até já nem existe. Diria, pois, que é o grande educador de todos os colaboradores.
Já nos deram aulas ensinando que não podemos ser piegas, nem preguiçosos, nem histéricos, nem cigarras, que crises são oportunidades, que ficar na zona de conforto é para maricas, etc., tudo muito bem explicadinho.
Eles tentam afincadamente, mas tenho para mim que, para educador de cigarras, o Matos tinha mais jeito.
25 de setembro de 2012
Prof. Marcelo e Água das Pedras ao serão de domingo
É-me difícil evitar o professor Marcelo e a sua missa
dominical, posto que não vivo sozinha.
Porém, a cada semana que passa, sou mais atacada por azia,
enfartamentos, e outros padecimentos digestivos, enquanto o oiço.
Náuseas, esqueci-me das náuseas que me provocam os seus
recados ao governo tentando desesperadamente ensiná-lo a governar, as suas
tentativas de justificar o injustificável, os argumentos fabricados apenas com
metade da verdade e da realidade, os seus sorrisos de velha raposa, o seu cenho
franzido simulando desgosto de pai desiludido.
Para já não falar das perguntas não formuladas por dona
Judite.
A coisa atingiu proporções que me levam a ponderar a
hipótese de vir a deitar-me em jejum ao domingo, e ainda antes de abrir aquele
enorme pano de cena do teatro político em Portugal.
A representação é péssima, cabotina mesmo, mas o actor
arrasta multidões e é bem pago.
Se calhar, é só embirração minha, mas lá que tenho náuseas,
tenho.
24 de setembro de 2012
Fechar a porta
Há dias assim. Parece que uma fina cortina de nuvens baixas
nos envolve a cabeça e deixa o corpo por sua conta.
Não é tristeza, não é nostalgia.
Não sei o que é. Não sei como se chama esse sentimento que nos
vai tomando, sem sobressaltos mas inexoravelmente, quando encerramos um
capítulo.
Não sei como chamar à percepção, tão nítida ao sair das
nuvens baixas, de que haverá cada vez menos capítulos para ler.
Ainda que ela seja trazida por acontecimentos desejados, conquistados
a pulso, e que se podem resumir como felizes, sei que ela vem quando, por
exemplo, o último filho fecha a porta da casa; sei que se avoluma, mais tarde,
quando somos nós mesmos que fechamos a porta da grande casa vazia.
21 de setembro de 2012
Exposição
Abre hoje às
22h00 a exposição de Renato Ferrão no
Chiado 8
Lendo o texto
do convite, aqui transcrito, parece uma exposição que tem tudo a ver com os
tempos actuais.
Texto do
convite
A ideia de
tensão faz parte do conjunto de interesses que tem dominado as preocupações
artísticas de Renato Ferrão (Vila Nova de Famalicão, 1975). Uma parte
significativa das obras que apresentou nos últimos anos explorava aquele
fenómeno através de instalações nas quais objetos quotidianos eram suspensos
por intermédio de cabos extensores, por vezes mesmo, de simples elásticos,
criando um jogo de dinâmicas que desafiava as leis da física e reagia às
características arquitetónicas das salas de exposição. Extrapolando o seu
resultado visual, estas explorações concorriam num efeito que confrontava o
corpo do espectador na forma de uma ameaça iminente: se, por um lado, a rutura
daqueles objetos parecia ser um dado a comprovar a qualquer momento, por outro,
a sua confirmação comportava um risco evidente para a integridade de todo o
espectador apanhado na trajetória daquela anunciada desagregação.
O projeto que Renato Ferrão traz ao Chiado 8 amplia significativamente os processos que tem desenvolvido nesta área, juntando-lhes outros dois dos seus interesses diletos: a mecânica interna dos objetos funcionais e a qualidade da luz como a mais abstrata e a menos tangível das matérias artísticas. Partindo de objetos compósitos formados pela associação de componentes avulsos, esta exposição coloca o espectador no centro de um universo onde a destabilização dos primados escultóricos e a velada sugestão cinética oferecem vislumbres claros da violência que se insinua por entre toda a tensão.
Renato Ferrão é licenciado em Escultura pela Faculdade de Belas-Artes do Porto, cidade onde vive e trabalha e onde cofundou o Salão Olímpico – espaço independente gerido e programado por artistas entre 2003 e 2006. Das suas exposições individuais, destaque para Longa Duração, mad woman in the attic, Porto (2006), A C ack of ence, A Certain Lack of Coherence, Porto (2008), Episódio 2: Senhor fantasma vamos falar, Emissores Reunidos – Fundação de Serralves, Porto (2009) e Vida Material, Galeria Quadrado Azul, Porto (2010). Em 2010 foi-lhe atribuído o prémio de Artes Plásticas União Latina.
O projeto que Renato Ferrão traz ao Chiado 8 amplia significativamente os processos que tem desenvolvido nesta área, juntando-lhes outros dois dos seus interesses diletos: a mecânica interna dos objetos funcionais e a qualidade da luz como a mais abstrata e a menos tangível das matérias artísticas. Partindo de objetos compósitos formados pela associação de componentes avulsos, esta exposição coloca o espectador no centro de um universo onde a destabilização dos primados escultóricos e a velada sugestão cinética oferecem vislumbres claros da violência que se insinua por entre toda a tensão.
Renato Ferrão é licenciado em Escultura pela Faculdade de Belas-Artes do Porto, cidade onde vive e trabalha e onde cofundou o Salão Olímpico – espaço independente gerido e programado por artistas entre 2003 e 2006. Das suas exposições individuais, destaque para Longa Duração, mad woman in the attic, Porto (2006), A C ack of ence, A Certain Lack of Coherence, Porto (2008), Episódio 2: Senhor fantasma vamos falar, Emissores Reunidos – Fundação de Serralves, Porto (2009) e Vida Material, Galeria Quadrado Azul, Porto (2010). Em 2010 foi-lhe atribuído o prémio de Artes Plásticas União Latina.
Texto e curadoria de Bruno
Marchand
20 de setembro de 2012
Terapia de casal
Parece que a terapia do casal PSD/PP pode começar ainda
hoje. É, de facto, urgente, dada a gravidade dos desentendimentos, e antes que se
chegue a uma verdadeira “Guerra das Rosas”.
Não tenho dúvidas: quando a sessão acabar, surgirão com um
sorriso de circunstância para as câmaras e dirão que tudo vai bem.
Lá dentro dirão que ainda se amam, mas que a rotina e
consequentes facadas no casamento estão a pôr em perigo a relação. Farão juras
de que tentarão o diálogo, darão atenção ao outro e às suas necessidades, farão
jantares românticos, sairão juntos para cantar a Nini, tentarão surpreender-se
com SMS, flores e chocolates, e puxarão pela imaginação na cama.
E a gente a vê-los, a saber que não têm vontade nenhuma de
cumprir as promessas mas, de momento, terão que aguentar, porque também nenhum
tem vontade de voltar para casa da mãe e a vida está muito cara.
Vai uma apostinha que vai ser mesmo assim?
Demasiado perigoso para continuar
Ângelo
Correia disse, numa televisão qualquer que “a queda deste governo seria a pior
coisa que podia acontecer ao país”.
Pois eu penso exactamente o contrário; mantê-lo, isso sim, seria o pior que podia acontecer ao país.
Medo e paciência já os mandámos juntos pelo cano.
Pois eu penso exactamente o contrário; mantê-lo, isso sim, seria o pior que podia acontecer ao país.
É um
governo perigoso, que aproveitará cada dia restante da sua vida para continuar
a “desmontagem” do país, pedra por pedra, por encomenda mas também por
convicção.
É preciso
que saia. Salteadores a soldo não podem ser governantes.
E não nos
venham meter medo com o day after.Medo e paciência já os mandámos juntos pelo cano.
19 de setembro de 2012
Não terão mais nada que fazer?
Discutir questões de fé é pura perda de tempo. Atacar a fé de
alguém é pura questão de mau gosto.
Fé, temos todos – até um ateu como eu tem fé; se esta se
caracteriza, precisamente, pela impossibilidade de provar a existência de
alguma coisa (neste caso, Deus), também eu não posso provar que ele não existe.
Logo, ser ateu é uma questão de fé.
Nunca me lembraria de fazer um boneco do Papa com um preservativo
no nariz, o que, sendo um acto de livre expressão, não deixa de conter a sua
boa dose de provocação inútil, nesta minha perspectiva.
Porém, Europeia que sou, vivo essas questões com normalidade.
Daí que olhe com profunda estranheza a orgia incendiária que
vai no mundo árabe por causa dum filme que, supostamente, insulta o profeta
Maomé.
Dias a fio, e saltando de país para país, aquela turba
movida por uma sanha assassina incomoda-me, por mais que respeite outras
culturas e civilizações.
Ontem, dei comigo a pensar: e não terão mais nada que fazer?
Respondi-me de imediato: se calhar não têm mesmo.
18 de setembro de 2012
Nota breve
Partidos e sindicatos são organizações indispensáveis em
democracia, acredito, mas face às manifestações de sábado também não podem
assobiar para o ar.
Os portugueses mostraram que não precisam deles para se
mobilizarem e fazerem uma imensa manifestação, forte e sem incidentes.
Ficou claro que o que nos une é maior e mais forte do que o
que nos divide.
Partidos e sindicatos, se nos querem representar, devem
pensar bastante sobre as razões por que ninguém lhes sentiu a falta.
17 de setembro de 2012
Como eu vivi a estuporada semana de Setembro
No dia 7 de Setembro, a meio da tarde e com a mala já desfeita, considerei-me instalada para gozar uma semana de férias.
Antes do pôr-do-sol, Passos, via televisão, lança a sua taxa
Rabin dos Bosques vestida à pressa e do avesso; de seguida, parte para cantar a
Nini, ou lá o que foi.
Mesmo antes de ele ter tempo de abandonar a sala, eu já
tinha percebido
que aquele fedelho impreparado e mentiroso tinha acabado de
me tirar também as férias.Se aprendemos que a saúde não é a mera ausência de doença, é fácil perceber que férias também não são a mera ausência de trabalho.
Longe da internet, por ali andei a jiboiar ao redor da
televisão.
Aos poucos, fui percebendo que o homem tinha feito o pleno,
estava sozinho, e não havia uma única voz que se levantasse em defesa daquela
coisa.
Um feito notável, que desde já lhe assegura um lugar cativo
no panteão das nossas sinistras figuras históricas.
Cheguei a tempo de participar na 2ª maior manifestação da
minha vida, com gente de todas as idades; tomando a rua, zangados mas bem-dispostos,
afirmativos, sem medo, unidos, determinados (finalmente) a dizer BASTA.
Bati com uma colher de pau torta numa tampa velha, gritei
que “o povo unido jamais será vencido”, “FMI fora daqui” e “gatunos”.
Senti-me num tempo circular, estranho, enérgico mas,
simultaneamente, penoso – é que eu (como muitos outros que lá estavam) já
gritei tudo isso há trinta anos atrás e nunca esteve nos meus planos de vida
voltar a gritar as mesmas palavras três décadas depois.
5 de setembro de 2012
Vou
Quase toda a gente tem alguma coisa para cuidar - cão, gato, canário, tartaruga, peixes, plantas, etc.
Quando os meus filhos foram de férias, pediram-me que
tomasse o seu lugar de cuidadores, o que fiz com prazer.
Infelizmente não posso pedir retribuição para este blogue.
Sendo assim, simplesmente, VOU.
4 de setembro de 2012
Uma grande teia
Há não muito tempo, li no Público uma notícia que dizia:
“465 mil desempregados não recebem proteção social há 9 meses”.
Apertou-se-me o estômago, mas pior fiquei quando esmiucei a situação.
“465 mil desempregados não recebem proteção social há 9 meses”.
Apertou-se-me o estômago, mas pior fiquei quando esmiucei a situação.
É certo que hoje há muitas organizações que asseguram a
alimentação básica, algum vestuário e até ajuda para manuais e material escolar
mas, quem paga a renda da casa ou o empréstimo ao banco, quem
paga a conta da água e da luz, quem compra a aspirina ou o antibiótico para a
criança, quem paga o bilhete de autocarro para ir ao centro de emprego, quem,
enfim, paga essa infinidade de pequenas coisas que nos fazem voar o dinheiro da
carteira por mais despojada que seja a nossa vida?
Essas 465 mil pessoas estão entre nós, discretamente,
silenciosas. A sua sobrevivência é um mistério mas, de certeza, só a conseguem com
base numa enorme teia de solidariedade urdida sobretudo na família, mas às
vezes também nos vizinhos e amigos.
Somos bons nisso. Mas tenho vergonha daquilo.
3 de setembro de 2012
Leveza opinativa
Quando os jornais querem uma opinião levezinha, rápida e
pouco pensada, mas com um embrulho de respeitabilidade, chamam Maria Filomena
Mónica. A senhora será, talvez, boa na sua área de investigação, mas para tudo
o resto é duma “frescura” típica da portugalidade que tanto a agasta.
Esta semana, no Expresso,
e a propósito da RTP escreve, e bem, sobre imemoriais vícios deste país.
Porém, não sabendo o que pensar nem como rematar o artigo,
termina-o dizendo:
Perante isto, que pode
um cidadão fazer? No meu caso, vou mandar selar o contador da EDP, após o que
passarei a iluminar a minha casa à luz das velas. Julgo que, aqui, é
suposto o leitor rir-se.
A mim, perante isto, parece-me que os opinadores pagos pelos
jornais que eu compro, deviam ponderar os assuntos e formar uma opinião antes
de enviarem a cronicazinha.
Mas este estilo levezinho e repentista de MFM está-se-lhe a
colar à pele.
Noutra semana, em que o Expresso
a levou a passear por Lisboa, foi à Gulbenkian para ver o mar dum quadro de
Turner, mas também espreitou a exposição de que aqui falei bastante, “Tarefas
infinitas”. Tendo lá encontrado Eduardo Lourenço, Maria Filomena Mónica dispara
(e cito de cor):
- Não gosto!Eduardo Lourenço respondeu:
- Também estranhei, mas acho que é a exposição mais original que já vi na minha vida.
“Encontre as
diferenças” entre os nossos intelectuais; que não são cinco, como nos passatempos,
mas apenas uma - uns são e outros parecem.
31 de agosto de 2012
Dobrando a esquina
Não me importava de ter escrito isto;
“…a sua dicção possuía uma sonoridade tão casual e risonha
que as suas frases pareciam fugir dobrando a esquina depois de serem
pronunciadas.”
John Updike em
Coelho Enriquece
E, dobrando a esquina, bom fim de semana.
30 de agosto de 2012
Dia de adjectivos
Ontem, Passos Coelho, em Londres, fez-se fotografar com os
paralímpicos portugueses, que costumam ter bons resultados, exactamente quando
se prepara para lhes retirar, a eles e às suas famílias, os benefícios fiscais
que ainda têm.
Achei a ação de marketing
hipócrita e oportunista.
Embalado na asneira, como é de seu hábito, tratou de se
insurgir contra as opiniões, contrárias à sua, sobre o futuro da RTP.
Chamou a isso Histeria.
Já chegámos ao ponto de até a simples expressão de
diferentes opiniões dar direito a que nos cole mais um lindo adjetivo a juntar
à sua lista.
Já nem me indigno, só me apeteceu responder:
Senhor primeiro-ministro, histérica talvez a sua tia, não? Que
lhe parece?
29 de agosto de 2012
Repescagem
Retirei esta imagem da Revista do Expresso que evoca a década 1993/2002.
Lembro-me bem de o Público, em 1994, a acompanhar do célebre
texto de Vicente Jorge Silva, “Geração rasca”. Foi uma manifestação de
estudantes, salvo erro contra as propinas, e indignou o país pouco habituado a
gestos “destemperados”. Como alguém escreveu logo de seguida, era, porém, uma “geração
à rasca”.
Teriam na altura 18 ou 20 anos e, passados outros 18 anos,
continuam à rasca, mas não estão sozinhos – é todo um país que está à rasca, mas
que continua bem comportado, bom aluno das doutrinas alemãs, expectante sobre o
que dirá a troika, temente dos “destemperos”.
Pois hoje eu aproprio-me da foto, e dedico-a exactamente à
troika, à sua avaliação e às suas ordens.
Desprezo com desprezo se paga.28 de agosto de 2012
O princípio de Peter
Quando no fim de semana o vi na televisão, a arengar sobre a
RTP, assim munido de camisa e dentadura tão brancas que se podiam usar num
anúncio de lixívia, pensei o mesmo de sempre – vai fermoso e não seguro.
Se eu quisesse explicar o princípio de Peter às criancinhas,
usá-lo-ia como exemplo: em rapaz, se calhar, até foi bom mas juniores, mas
promoveram-no e ele mostra claramente que não tem lugar na equipa sénior, muito
menos como capitão.
Cada um tem o seu nível
de incompetência, e ponto final.
27 de agosto de 2012
Neil Armstrong
Quando a tua grande bota lá poisou, Neil Armstrong, subitamente
tornaste possível e real o que os adultos muitas vezes me diziam como metáfora
recriminatória – “estás na lua”.
Confesso-te que, tantos anos depois, e quando tu já partiste
na tua última viagem, a mulher que sou ainda fica muitas vezes como a menina
que fui – na lua.
Mas tu personificaste um sonho vago e comum, transformaste-o
em realidade em conjunto com muitos outros, e com os teus saltinhos lá em cima
talvez tenhas ajudado a que os meninos que ficam “na lua” sejam hoje menos
repreendidos.
Quanto aos homens e mulheres, depois de ti, e tal como antes,
esses, continuarão simplesmente a sonhar, como lhes é próprio. Sempre.
24 de agosto de 2012
Franny e Zooey
Ao contrário de ilustres intelectuais americanos (Norman Mailer, George Steiner, Joan Didion, entre outros),
eu gosto dos livros de J.D. Salinger.
Devo pertencer ao tal grupo dos leitores amadores no mundo – alguém que
simplesmente leia por ler.
J.D. Salinger não escreveu muito,
mas foi amado por milhões de leitores em todo o mundo e criticado pelos seus
pares, acusado de ter uma escrita “menor”, de nada exigir aos seus leitores, de
superficialidade, de ser zen, de
querer ensinar como se deve viver, etc.
Ora, eu já estou velha para que me
ensinem a viver, e por isso sou fácil de contentar com ritmo e diálogos
brilhantes, humor e esperança que, no fim, persiste.
Era nova quando li e me encantei
com “Uma agulha no palheiro”, actualmente chamado “À espera no centeio”; sou
agora muito menos nova e voltei a encantar-me com “Franny e Zooey”.
O livro está dividido em duas
partes e nele, devido à crise existencial que Franny atravessa, Salinger
constrói, nos diálogos com o seu irmão Zooey, uma narrativa sedutora sobre
religião, sabedoria, procura de si e da felicidade.
À luz dos grandes crânios
americanos, de que também gosto, serei fraquinha de espírito e parca de
exigência mas, paciência, gostei muito e recomendo.
Franny e Zooey
J.D. Salinger
Ed. Quetzal, 2011
23 de agosto de 2012
Português é fiiiino…
Vai por aí uma grande indignação com o Pingo Doce por deixar
de aceitar pagamentos com cartão em
compras abaixo de 20 euros.
Já me indignei com o Pingo Doce e o sr. Alexandre várias
vezes, mas não agora. Fiquei a saber que a empresa, com esta medida, poupará 5
milhões de euros, e também fiquei a saber que os nossos pagamentos com cartão
rendem anualmente, às empresas que os gerem, 85 milhões de euros.
Eu, confesso, estou um bocado farta de engordar gulosos.
O pagamento com cartão é uma modernice, por isso me
espanto com as velhinhas que vejo na televisão, que passaram três quartos da
sua vida a pagar com dinheiro, muitíssimo indignadas com a decisão do Pingo
Doce.
Dizem que têm medo de serem roubadas se andarem com dinheiro
vivo, e apetece-me logo perguntar-lhes se não têm medo que as obriguem a
levantar, na ponta da naifa, muito mais do que os 20 euros que agora devem
trazer sempre na carteira para o caso de se lembrarem de ir ao Pingo Doce
comprar uma bolachas de água e sal.
Estas decisões parecem-me acertadas e de boa gestão, e só
penalizam os bancos – os tais que ganham 85 milhões por ano, sempre com o rabo
na cadeira à espera que a gente saque do cartãozinho.
Mas português, que amocha perante o empobrecimento, as
injustiças e o desfazer metódico dum país, indigna-se por não o deixarem pagar dois
euros com cartão.
Uff! Português é modernaço e fiiiino…!
22 de agosto de 2012
O bolo de bolacha do Miguel
“Sou casado, tenho três filhos e sou muito guloso.
A minha mulher faz um excelente bolo de bolacha de que gosto muito. Quando ela o faz, eu como metade, e os meus três filhos comem a outra metade.
Feita a média, parece que cada um de nós comeu um quarto do bolo mas não é verdade; eu comi metade e os três miúdos tiveram que dividir a outra metade.”
A minha mulher faz um excelente bolo de bolacha de que gosto muito. Quando ela o faz, eu como metade, e os meus três filhos comem a outra metade.
Feita a média, parece que cada um de nós comeu um quarto do bolo mas não é verdade; eu comi metade e os três miúdos tiveram que dividir a outra metade.”
Era com esta história que, nos idos do pós-25 de Abril,
Miguel B. explicava as mais-valias e distribuição da riqueza aos trabalhadores
rurais do Alentejo por essas aldeias fora.
Aqueles homens e mulheres estavam carecas de saber isto na
própria carne, mas riam-se da historieta do comunicador e aquiesciam com a
cabeça.
Lembrei-me de ti Miguel, e do teu bolo de bolacha quando li
que a média salarial no Estado é de 1532
euros.
Lá onde estiveres deves estar admirado com a actualidade da
tua história.
Passaram tantos anos, não é?
21 de agosto de 2012
Há mais pérolas
Sim, há mais pérolas escondidas na silly season.
O Chiado 8 continua só até ao fim do ano, que isto de gastar dinheiro a mostrar arte num local nobre da cidade é “vício” de gente rica − nós somos pobres, como se sabe.
E os mercados, também, nem apreciam.
Nota: imagem extraída do catálogo.
Quem gosta mesmo de pintura, não tem hoje muitas
oportunidades de ver uma exposição só de pintura e de grande qualidade.
Contudo, até 31 de Agosto, ainda estará no Chiado 8 a
exposição de Pedro Casqueiro (exclusivamente pintura) com o título Tríptico.
Depois duma grande ausência do circuito expositivo lisboeta,
Pedro Casqueiro regressa com obras realizadas nos últimos dez anos.
Como salienta Bruno Marchand no texto do convite, “A pintura de Pedro Casqueiro
(Lisboa,1959) tem sido, em grande medida, um criterioso e sofisticado jogo
entre a construção de uma identidade autoral e um conjunto de reações – talvez
mesmo de testes – à sobrevivência da pintura face aos mais diversos modelos e
protocolos da expressão visual.”
Pedro Casqueiro continua
aqui o seu trabalho/busca, e não ir ver é pecado.
Bruno Marchand continua
a escrever muito bons textos de catálogo.O Chiado 8 continua só até ao fim do ano, que isto de gastar dinheiro a mostrar arte num local nobre da cidade é “vício” de gente rica − nós somos pobres, como se sabe.
E os mercados, também, nem apreciam.
Nota: imagem extraída do catálogo.
20 de agosto de 2012
Tempestades tropicais
Os acontecimentos verdadeiramente fundadores da nossa
identidade chegam como chegavam antigamente as tempestades tropicais.
Vinham não se sabia donde, nem porquê, derrubavam árvores
velhas, levantavam telhas, derramavam toneladas de água.
Quando partiam, era preciso reconstruir, mas nada seria,
nunca mais, exactamente igual.
Hoje, as tempestades têm nomes de homem ou mulher, lançam-se
alertas, trancam-se as portas, amarram-se os barcos.
Os corpos podem defender-se delas, mas continua a não haver
alertas para os espíritos.
E ainda bem. Poderíamos perder verdadeiros "momentos de
glória".
Não esqueçam a farinheira
Pelo que vou ouvindo na televisão, há festas por todo o
país; o normal para a época, portanto. As televisões, querendo manter os seus
noticiários com duração de uma hora, a todas dão cobertura.
Pelo resto do dia, segue o arraial.
Pelo resto do dia, segue o arraial.
Tudo o que seja comida, é festejável – o pão, o queijo, o
marisco, o bacalhau, a sardinha, a omeleta, o presunto e o mais de que nos
possamos lembrar.
Para tudo há uma festa, incluindo um tal Pontal que,
confesso, nunca provei.
Como ajuda à produção, e para que não se pense que na TV há
filhos e enteados, venho lembrar que ainda não vi nenhuma festa ou programa
dedicados à farinheira, esse glorioso património gastronómico luso.
Falta ela, mas espero que até ao fim do verão ainda lhe
concedam aquilo a que tem direito –os seus quinze minutos de fama (ou mais,
pode ser a tarde toda), que ela merece e dará um bom programa de televisão.
Por favor, ó gentes da minha terra e da TV, não esqueçam a
farinheira!
E depois não digam que eu não ajudei, ou que não tive
participação cívica, ou, pior ainda, que sou ativista de sofá. Tá?!
17 de agosto de 2012
Tarefas Infinitas V
“ O fogo e o livro por vir
Os livros são perigosos:
ateiam-nos fogo. Temíveis: por isso, são atirados ao fogo. Há uma relação
íntima entre o livro, o fogo e as cinzas. Como a consciência de que o livro da nossa vida nos pode queimar. De
que somos livro a ser escrito. Como um mapa aberto à viagem. A fazer-se e a
desfazer-se. De um monte de palavras ou imagens, dessa matéria, formar-se-ão
outros livros possíveis, ainda por vir. Ou a reler. Desconhecidos. A biblioteca
interminável de Babel. Tarefas infinitas,
chamou-lhes Husserl, porque não se limitam ao tempo de vida de um indivíduo e
são criação comunitária. O livro, a arte, o pensamento, a ciência. Vêm de longe
e dirigem-se para longe. Ao virar a página, no infinito obscuro da origem, dá-se
uma explosão de luz que é começo.”
Notas: Texto que acompanha o núcleo "o fogo e o livro por vir" da
exposição Tarefas Infinitas na
galeria de exposições temporárias do Museu C. Gulbenkian
Imagem do catálogo: António Areal (1928-1978) Confissão tenebrosa: primeira parte da autobiografia agora em edição
ilustrada pelo autor, 1971
16 de agosto de 2012
Tarefas Infinitas IV
“Tudo existe para chegar a um livro
Do mais comum quotidiano à mais
extraordinária iluminação – e desorganizando essas categorias: tudo se dirige
para um livro. O trabalho e o descanso, a dor e o prazer, a ficção e a
realidade, o amor e a morte. As paredes grafitadas e a pele do corpo. O desejo
enciclopédico de apreender todo o conhecimento do mundo. Refletir sobre a
brevidade da existência ou prolongá-la numa imortalidade da memória.
Estabelecer a normalidade ou desencadear a loucura. Heróis, cobardes, santos,
loucos. O que podemos ser encontraremos num livro, ou resultará num livro:
possibilidades-de-si desconhecidas. Existirá o mundo porque o livro existe?”
Notas: Texto que acompanha o núcleo "tudo existe para chegar a um
livro" da exposição Tarefas Infinitas na galeria de exposições temporárias
do Museu C. Gulbenkian
Imagem do catálogo: Pinturas do Mestre François, Livro de horas de René de Lorena, século XV
15 de agosto de 2012
Devaneios
Neste feriado de Agosto com tempo tosco, estava eu a ler a notícia do casal que ganhou os 190 milhões no Euromilhões e a pensar com os meus botões qual a extravagância que me concederia.
Pensei: comprava uma tela assim (mas tela, mesmo) do Julião
Sarmento.
Depois, pensei melhor e decidi que antes queria uma parede inteira com árvores do Julião Sarmento; qualquer coisa assim:
Mulher de gostos simples, euzinha!
Tarefas Infinitas III
“Linha infinita: história interminável
Um ramo fértil tem origem no
livro: a escrita e a leitura são tarefas inacabáveis. Demoradas. Uma linha
atravessa o livro, reinventa-se a cada página e transita para outros: como se
de um mesmo livro se tratasse. Uma
linha imemorial que vem de trás e que
nos ultrapassará. Linha infinita que atravessa a História. Os autores
contaminam-se. As personagens, citações e ideias migram de uns livros para
outros. As leituras cruzam-se criando novos sentidos. Abrem-se estradas,
propõem-se passeios e deambulações. O livro exige de nós tempo.”
Notas: Texto que acompanha o núcleo "linha infinita: história
interminável" da exposição Tarefas Infinitas na galeria de exposições
temporárias do Museu C. Gulbenkian
Imagem do catálogo: Ana Hatherly (1929),
Mapas da imaginação e da memória, 1973
14 de agosto de 2012
Tarefas Infinitas II
“A fenda e a explosão: entrar/sair
Entre as mãos abre-se uma fenda.
Uma entrada inesperada que altera a ordem do mundo. Um abismo. Ou uma casa –
que oferece um outro modo de hospitalidade. Ou uma exposição no espaço do livro
– outro modo de relação com a obra de arte. Mas aí não podemos permanecer.
Pelas fissuras do livro saem novas e inesperadas realidades. Aparições.
Anúncios que recriam o mundo. O livro tem algo de bomba. Explosão de palavras,
ideias, imaginação, sentidos – que destroem e recriam o horizonte de
possibilidades em que nos movemos.
E exigem de nós: faz, pensa, vê,
sê!”
Notas: Texto que acompanha o núcleo "a fenda e a explosão: entrar/sair" da exposição Tarefas Infinitas na galeria de exposições temporárias do Museu C. Gulbenkian
Imagem do catálogo: Lawrence Weiner (1942), Deep blue sky
light blue sky, 2007
13 de agosto de 2012
Tarefas Infinitas I
Para quem gosta de livros e arte há uma exposição imperdível
– Tarefas Infinitas – na galeria de
exposições temporárias do Museu Calouste Gulbenkian, até 21 de Outubro 2012.
Imagem do catálogo: Raymond Queneau (1903-1976), Cent mille milliards de poèmes, 1961
Com curadoria de Paulo Pires do Vale, a exposição está
dividida em cinco núcleos, sendo cada um deles introduzido por um pequeno texto
que, aqui confesso, não sei quem escreveu – se o curador, se Gonçalo M.
Tavares. De qualquer forma, gostei tanto deles como da exposição e, por isso,
os vou reproduzir aqui, um por dia, demonstrando assim que a silly season pode ter pérolas dentro.
“Com o infinito nas
mãos
Abrir um livro é correr o risco de encontrar o infinito. Ter ao alcance das mãos, nos
limites da página, o sem-limites. E de que outro modo poderíamos nós encontrar
o infinito senão no finito?
Mensurável, palpável, visível. Nesse espaço aberto e branco
da página, nas suas dobras, pode surgir o
sem princípio, nem fim, nem centro: o Livro infinito. Liberdade que é também desorientação: perdem-se as certezas e as referências habituais; os
caminhos e sentidos bifurcam-se; a noite
cerca-nos. Uma espécie de cegueira: o
livro abre uma obscuridade essencial. A dos novos começos.”Imagem do catálogo: Raymond Queneau (1903-1976), Cent mille milliards de poèmes, 1961
10 de agosto de 2012
Uma grande ilusão?
Europa, Europa, Europa.
Agora que o velho continente se apresenta incontestavelmente velho e em perigo de colapso total; agora que o velho continente é governado por gente que não viveu a guerra, que não tem memória (na melhor das hipóteses) ou que nunca estudou história (na pior), aí está este ensaio de 140 páginas escrito por Tony Judt em 1996 sobre a Europa e a construção europeia.
Agora que o velho continente se apresenta incontestavelmente velho e em perigo de colapso total; agora que o velho continente é governado por gente que não viveu a guerra, que não tem memória (na melhor das hipóteses) ou que nunca estudou história (na pior), aí está este ensaio de 140 páginas escrito por Tony Judt em 1996 sobre a Europa e a construção europeia.
“Uma grande ilusão?” –
Um ensaio sobre a Europa, é factual e sem romantismos ideológicos, fácil de
ler, quase didáctico.
Excelente para ser lido por quem sabe mas não se importa de
recordar, mas sobretudo por quem não sabe mas gostava de saber como tudo
começou e se desenrolou até 1996.
Não se busquem perspetivas sobre a situação actual, porque o
euro (o centro do furacão) ainda nem sequer tinha nascido, mas não se pode
compreender totalmente o presente sem termos uma luz sobre o passado.
Uma óptima leitura para quem também gosta de não-ficção.
Edições 70, Junho 1012
8 de agosto de 2012
Amigos inseparáveis
Nesta imensa mas prazeirosa tarefa a que o governo se propôs – a de desfazer um país peça a peça – seria falso dizer que desinvestiu em tudo. De facto, há uma excepção – a polícia.
Os polícias lá vão sendo promovidos, com atraso, é certo,
mas vão sendo, o nosso primeiro vai assistir a umas macacadas de polícias aos
tiros e leva com ele as televisões, e o ministro Miguel Macedo anunciou há
pouco “novos investimentos” para 2013.
A ideia de polícia versus segurança dos cidadãos pode “colar”
junto de muitos mas, cá para mim, o que “cola” é o medo que ELES têm e a
necessidade que sentem de estar bem artilhados para o que der e vier.
Afinal, nada de novo; o poder e o medo sempre foram amigos
inseparáveis.
6 de agosto de 2012
Oi, galera
Oi galera, tudo bem
aí?
Esta é uma saudação em português do Brasil que ouço com frequência.
De facto, a generosidade dos brasileiros na internet não tem
limites. Eles produzem vídeos domésticos que colocam no YouTube sobre tudo o
que sabem fazer – desde modos de colocar um lenço ao pescoço até àquilo que
mais uso – como fazer alguma coisa no computador que não estou a conseguir
descobrir sozinha.
Depois de inúmeras cabeçadas solitárias, lá me lembro de
pesquisar a minha dificuldade e, em pouco segundos, descubro um brasileiro com
o seu vídeo que, frequentemente, começa por “oi, galera” e termina por “viu? fácil,
né? Então até uma próxima.”
O meu problema fica resolvido num piscar de olhos e eu fico
cheia de vontade de conhecer aquela generosa criatura para lhe dizer:
“Ei, cara, geniau! Váleu! Brigada mesmo, viu?!
Não deixem os brasileiros ir embora, não. Sem eles ficaremos
uma mera enfermaria geriátrica.
3 de agosto de 2012
Telma
Não sei o que terá acontecido quando Telma chegou ao seu
quartinho da Aldeia Olímpica mas, se fosse eu, tinha chorado baba e ranho
durante horas.
Aquilo foi mais ou menos o mesmo que uma pessoa “marrar” um
ano inteiro para um exame e depois chumbar por muitos.
Telma é campeã europeia e vice-campeã do mundo de judo mas
foi eliminada à primeira.
Disse que estava “triste” mas sentia-se de “dever cumprido”,
assim como diria um contabilista que tivesse sido despedido sem nunca ter
errado uma conta.
Não, não a queria ver a chorar, e também sei que um atleta
de alta competição tem que ter estrutura emocional e psicológica acima da média
para aguentar a pressão.
Mas então, se está treinada para aguentar a pressão (não
chora nem nada) e se é muito boa tecnicamente na sua área porque é que “vai ao
tapete” logo à primeira num momento crucial da carreira?
Já todos vimos este “filme” muitas vezes.
De facto, chama-se Telma, mas podia ter muitos outros nomes.
1 de agosto de 2012
Turistas
O turismo é um desporto global, e os seus praticantes estão
por todo o mundo – novos e velhos, bem ou mal vestidos, limpos ou sujos, pobres
ou ricos, de ténis ou sandálias, nunca serão confundidos com não-turistas novos
e velhos, bem ou mal vestidos, limpos ou sujos, pobres ou ricos, de ténis ou
sandálias porque há uma peça que todos, devotamente, carregam: a máquina
fotográfica.
Das mais simples à mais sofisticadas, levadas na mão, no
bolso, ao pescoço ou em malas e maletas de marca, com filtros, palas, ou lentes
várias, exigindo saber técnico ou tão fáceis de usar como um selo de correio,
elas são o verdadeiro traço distintivo, o indispensável adereço do turista
contemporâneo.
O turista militante vê tudo pelo menos duas vezes – uma pelo
seu olho, e outra pela lente da máquina.
Estou até firmemente convencida de que só quando ouve o
disparo da sua máquina fotográfica ele relaxa, e se convence de que realmente
VIU.
Uma coisa linda de se ver!
19 de julho de 2012
Uma estranha mania
Chegando a esta altura do ano, os jornais têm o hábito de
nos recomendar livros para férias. Nunca percebi o que são livros para férias.
Livros são livros e pronto. No máximo tomo atenção ao peso que terei de
carregar para a praia e, se não estiver mortinha por ler um em especial, levo o
mais fininho. Questão meramente prática e defensiva, portanto.
“ A Sorte de Jim” (Quetzal Editores) é um livro divertido do grande escritor inglês Kingsley Amis.
O tema muito explorado da vida dos professores nas Universidades inglesas com o seu mau-carácter, grandes egos, equívocos, maquinações, favorecimentos, amores e traições etc., é aqui tratado com graça e muito talento.
E agora, vou. Levo comigo “Goodbye Columbus” do meu muito estimado
Philip Roth, que nunca me desilude; também não será desta, tenho a certeza.
Para ler em qualquer tempo, lugar ou suporte, recomendo
estes dois:
“ A Sorte de Jim” (Quetzal Editores) é um livro divertido do grande escritor inglês Kingsley Amis.
O tema muito explorado da vida dos professores nas Universidades inglesas com o seu mau-carácter, grandes egos, equívocos, maquinações, favorecimentos, amores e traições etc., é aqui tratado com graça e muito talento.
“ O Legado de Humboldt” (Quetzal Editores) é um monumento à literatura,
erguido pelo grande, enorme, Saul Bellow. Mais de 500 páginas densas e
poderosas, para quem não tiver medo de muitas letras, algum esforço, muitas
ideias a assimilar, grandezas e misérias dos humanos.
A propósito deste livro houve aqui uma divertida alfinetada
da crítica Ana Cristina Leonardo sobre o que foi escrito aqui pelo crítico
Eduardo Pitta.
VOLTO JÁ!
18 de julho de 2012
Januário, o incendiário
Quem me lê sabe que não sou católica, nem sequer crente;
sabe também como sou muito crítica deste governo, dos seus ministro e da sua
política. Porém, também não gosto nadinha de ouvir D. Januário Torgal Ferreira considerar
que o Governo liderado por Passos Coelho é “profundamente corrupto”.(aqui)
D. Januário é cidadão deste país, e terá as suas opiniões,
mas quando abre a boca, queira ou não, é sempre bispo, é a Igreja que fala, e
eu gosto da Igreja a tratar dos assuntos divinos.
A política e, sobretudo, a avaliação dos políticos, está
claramente fora do seu âmbito de acção.
Haverá muita gente a bater palmas, a aplicar adjetivos como
corajoso ou desassombrado, mas quem o faz esquece-se que está a abrir a porta
para tolerar que a Igreja se meta em muitos outros aspectos da vida secular,
nos quais, pessoalmente, não admito que se meta – caso do aborto, do uso do
preservativo, ou dos apelos feitos do púlpito para votar no partido A ou no
partido B.
O desbragamento oratório do senhor bispo é, quanto a mim,
intolerável; viveremos sempre muito melhor continuando com a sólida separação entre
a Igreja e o Estado.
Ou, mais prosaicamente, cada macaco em seu galho.
Trate das almas, D. Januário, ajude os pobres, cumprindo a vocação
assistencialista da Igreja, mas deixe a política, os políticos, as leis e a
vida privada connosco.
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