22 de junho de 2011

Brevemente na sua PT

Todos estamos habituados a ligar para a PT (ou para a TMN) e sermos sucessivamente passados para outro operador que, supostamente, nos poderá dar a melhor resposta às nossas questões.
Entre “transferências” sempre nos perguntaram se podíamos aguardar um momento mas agora tudo mudou. A PT resolveu ser criativa na linguagem e agora os operadores pedem-nos um BREVEMENTE. Pode aguardar um BREVEMENTE? Ou então, um BREVEMENTE, por favor.
Quem terá sido a luminária criativa?
E quem será o chefe da luminária?
Brevemente e a longo prazo acho que não há Crato que nos valha.

21 de junho de 2011

Passos Perdidos de Passos

Confesso, deu-me gozo. De boca seca e cara de pau, ontem à tarde, e ao fim de duas rejeições, Fernando Nobre retirou-se da eleição para presidente da AR.
Deu-me gozo a sua derrota pessoal, que buscou com as próprias mãos.
Se fosse sério, depois duma campanha a dizer mal dos políticos, não aceitaria o convite dum partido e ainda mais para um lugar específico - nada mais, nada menos, que o segundo lugar do Estado. Se fosse sério, quando percebeu os problemas que a sua candidatura trazia ao partido que o convidou, ter-se-ia retirado rapidamente para lhe facilitar a vida, ainda mais num momento em que toda a direita apela ao “entendimento”.
Limitou-se a ser ambicioso, convencido de que valia alguma coisa; verificou agora, com um travo amargo, que não vale nada, que politicamente é zero e que o país o dispensa. Cada vez que foi a votos por si mesmo, perdeu.
Deu-me gozo também que Passos tenha percebido logo no primeiro dia que não terá vida fácil e que, em política, o voluntarismo raramente colhe (nem plano B ele tinha).
Finalmente, fiquei muito intrigada com aqueles dois senhores que se colocaram por trás de Nobre quando este veio fazer a sua declaração de boca seca e que, mal ele acabou, o retiraram dali quase ao colo. Não sei se serão colegas de bancada mas achei que tinham ar de capangas.
Que mau aspecto tinham todos.
Que mau aspecto teve tudo.

20 de junho de 2011

O BE vai implodir?

O desaire eleitoral do Bloco, para quem está de fora, era esperado. Nos últimos tempos de Sócrates, as linhas orientadoras do Bloco foram erráticas, inconsistentes, quando não arrogantes.
Quando nasceu, o Bloco foi uma esperança para todo um eleitorado de esquerda, na sua maioria educado e urbano, que já não se revia nos tradicionais partidos de esquerda. E conseguiu ser uma esperança transversal a várias gerações.
Era também alguma coisa em construção (como a Europa), nascido da vontade de entendimento entre vários pequenos partidos de esquerda, até aí sempre de candeias às avessas uns com os outros. Era, enfim, uma esperança, ainda que de contornos pouco definidos, para todo um povo de esquerda que se sentia órfão.
Esta “criança”, foi crescendo e engordando, sempre acarinhada, até se tornar num adolescente que, subitamente, se confronta com a dura realidade da vida – ela não é fácil.
É então que os genes de todas as famílias dão prova de vida, todos ao mesmo tempo, e temos um adolescente perturbado, com borbulhas e dentes tortos, que tende a fechar-se na cave, culpando o resto do mundo e curtindo apenas, e só, a sua própria música.
Pode, sem dúvida, estar a viver apenas uma crise de crescimento que será ultrapassada, mas pode também perder-se na sua caminhada para a vida adulta.
Os mais recentes sinais não são animadores. Daniel Oliveira e Rui Tavares são duas excelentes cabeças que, nos seus blogues e jornais em que colaboram, têm procurado pensar o passado, e sobretudo o futuro do seu partido, em público e sem tabus. O que eles escrevem é política pura e séria.
À extrema correcção com que o têm feito, alguns dirigentes do partido começam a responder ao velho estilo da esquerda estalinista, o que não augura nada de bom.
O tal povo de esquerda órfão, educado e urbano, fartou-se exactamente disso dentro do PCP e de outros.
A grande discussão interna estará marcada para Setembro mas, a continuar assim por tão “maus caminhos”, este adolescente problemático pode nem chegar à idade de votar.

18 de junho de 2011

Dignidade num país pouco dado a esses “devaneios”

Saramago: Fundação não vai "ter dinheiro do Estado"

A Fundação José Saramago não recebeu "nem um tostão do Estado" e assim continuará, tendo como princípio manter a sua independência, disse à Lusa a sua presidente, Pilar del Río.
"Não vamos ter dinheiro do Estado. A Fundação José Saramago não admite dinheiro público", realçou a jornalista e tradutora, que viveu com José Saramago durante mais de duas décadas.

"Temos que nos alimentar a nós mesmos, trabalhando, com todo o nosso empenho, toda a nossa energia e toda a nossa capacidade criativa", contrapõe, realçando que "a fundação buscará dinheiro como puder".

Tão raro que até espanta!

17 de junho de 2011

Se não fosse Pitta...

No seu blogue Da Literatura, e num post intitulado Habituem-se, Eduardo Pitta apresenta o resultado final da contagem dos votos: 132 de direita e 98 de esquerda. Termina dizendo Agradecer a Francisco Louçã e Mário Nogueira. (sublinhado meu)
Eu pensava que era para agradecer ao Sócrates e, vá lá, também àquelas do rating, mas parece que percebi tudo mal, e quem deu a vitória à direita foi o malvado do Louçã e o sindicalista Nogueira. Os portugueses também não foram para aí chamados.
Estamos sempre a aprender com os nossos intelectuais.
Valha-nos isso, já que o Paulo Macedo está de volta e desta vez para nos tratar da saúde
Cada vez que me lembro dos milhões de cartas que ele mandou aos contribuintes quando estava à frente da Direcção Geral de Impostos, admito seriamente que agora, em tempo de poupança, vá tratar da saúde dos doentes por email.  

Nobre sem nobreza

Porque é que o Nobre não tem a Nobreza de renunciar ao lugar de deputado e, assim, poupar engulhos àquela cabeça tonta que se lembrou de lhe garantir o lugar de Presidente da AR?
O doutor podia voltar, se tivesse coluna vertebral em vez de umbigo, àquele trabalho humanitário que lhe ficava tão bem.
Por mim, gostava.

"A Árvore da Vida"

Os que acham “A Árvore da Vida” o melhor filme do ano que me desculpem mas, na minha modestíssima opinião, aquilo é uma grande seca, e não é por ter ganho a Palma de Ouro em Cannes que lhe vou dar o (meu) benefício da dúvida
Tendo por base os eternos conflitos americanos entre pai e filho ao longo do crescimento deste - digamos que podia ter sido um pouco mais original no tema de fundo, Terence Malick constrói uma salada entre o catecismo e o National Geographic para deslumbrar o olho e (pretensamente) acordar a consciência do pagante.
Tem imagens belíssimas para quem não adormecer entretanto, a música é boa mas, no cômputo geral, é uma enorme chatice por um punhado de euros.
Os críticos também se dividem, mas eu estou com Vasco Câmara que no Público lhe atribuía duas estrelinhas; e vai cheio de sorte, que eu hoje estou bem-disposta.

16 de junho de 2011

Alguém viu por aí a ética?


A notícia é chocante, e a degradação moral que ela mostra leva-me a pensar que este país caminha para ser inviável.
Lembro-me de, há muitos anos, ter ouvido Laborinho Lúcio dizer que um jovem que não prevarica será um adulto malformado. Concordei com ele. Prevaricar e ter a respectiva consequência ajuda a formar uma personalidade saudável.
Porém, a educação moderna aceita a prevaricação sem consequência e assim criamos adultos tão malformados que se entregam ao copianço quando se preparam profissionalmente para decidir das nossas vidas.
Os seus superiores também não acham isso grave e optam por passar toda a gente com 10. O argumento usado – falta de tempo para repetir o exame (falta de tempo de quem?) mostra que o rigor e a ética também não fazem parte das suas preocupações.
Notícias destas dão-me calafrios na espinha.

15 de junho de 2011

"Viciado" em pornografia

O puritanismo dos americanos é bastante estranho para a maioria de nós, europeus. Entende-se por lá que os políticos devem ser bacteriologicamente puros, semideuses, e, caso se prove que não o são, têm assegurado um auto de fé com toda a nação a assistir.
Chegou agora a vez dum congressista do partido democrático, Anthony Weiner.
Constou que o senhor tem, desde há três anos, o hábito (vício?) de trocar mensagens eróticas na internet com seis mulheres, e isso foi suficiente para que vários congressistas do seu partido tenham já pedido a sua demissão, incluindo a imaculada líder da bancada, Nancy Pelosi.
Assim bem encostadinho à parede, o homem meteu férias e disse que ia procurar ajuda médica para tratar o “vício”da pornografia.
Obama viu-se obrigado a falar sobre o assunto classificando-o de “distracção” dos assuntos verdadeiramente importantes. E mais não disse.
Bom, é um primeiro passo, mas parece que nem Obama consegue dizer de caras aos seus compatriotas que têm que aprender a distinguir o que é público do que é privado, e que é um atentado às liberdades individuais, que tanto prezam quando lhes dá jeito, meterem-se no privado de cada um.
Com tanta exigência no que toca aos costumes dos políticos aquilo até parece um país em que ninguém espirra, ou tosse, ou tem caspa, ou mau hálito, sua dos pés, é adúltero ou promíscuo, ninguém bebe ou usa drogas, enfim, um país de gente completamente higiénica ou até mesmo asséptica.
O escrutínio exagerado, além de indecoroso, faz mal à política. Distrai.

14 de junho de 2011

Frágil e preciosa - a ciência

Segundo notícia do Expresso de 9 de Junho, o Manifesto pela Ciência em Portugal já foi assinado, em pouco tempo, por 1100 cientistas, empresários e gestores.
Com a mudança de governo, é natural que estes profissionais estejam preocupados. Em Portugal, cada governo gosta de fazer as suas experiências, de deitar fora o que vem de trás, seja bom ao mau, para deixar a sua marca da governação. Assim caminhamos aos solavancos, por vezes com um passo para a frente e dois para trás.
Com uma década de desenvolvimento anémico, a ciência foi uma excepção e é hoje, em Portugal, uma realidade preciosa mas de estrutura frágil. Somos bons nela, se nos forem dadas condições mínimas. Fixámos jovens e menos jovens cientistas portugueses e atraímos muitos estrangeiros. Em 2010, uma notícia do Público, há sensivelmente um ano, dava-nos conta de que Portugal publica por ano 7 000 artigos científicos (cerca de 20 por dia), com relevância internacional, e que o país registou na última década o maior crescimento europeu na área.
No artigo do Expresso, Benedita Rocha Vieira, vice-reitora da Faculdade de Medicina da Universidade de Paris, Descartes, afirma: “ A riqueza de um país depende do seu nível científico”. Parece óbvio mas, sê-lo-á para a dupla Passos/Portas?

13 de junho de 2011

TAP 2



Poderia alguém falar-nos verdade uma vez só que seja?


TAP trava greve com oferta de viagens


TAP. Acordo para fim da greve passa 200 tripulantes a efectivos




11 de junho de 2011

De volta às galinhas


De cada vez que Cavaco discursa eu sinto-me de volta à infância e ao sabor do óleo de fígado de bacalhau.
Ontem falou do regresso à agricultura, esquecendo demagogicamente que foi ele que a vendeu à Europa por dez simples moeda, e louvou a frugalidade e espírito de sacrifício do interior.
Quando eu era menina já ouvia estas coisas vindas de outra garganta e desconfio que, para ajudar a pagar o empréstimo externo, ainda havemos de o ver a criar galinhas nos jardins do palácio, como fazia o dono da outra garganta.
Porque hoje é sábado, mais possíveis e desagradáveis semelhanças não descascarei.
Mas elas existem.

10 de junho de 2011

Até vão comer a relva

As paixões político-partidárias, em Portugal, assemelham-se cada vez mais às paixões clubísticas com o seu quê de hooliganismo e tudo. O adversário passa a inimigo, para ser destruído e feito em picado.
Sócrates foi vítima dessa postura até à exaustão, umas vezes com razão e outras sem ela. O elenco da tragicomédia mudou, mas o guião vai ser o mesmo, só que de sentido inverso.
Ana Gomes, mulher frontal e geralmente corajosa, revelou agora também o seu gosto pelo canibalismo. Perdidas as eleições trata de fazer declarações sobre Paulo Portas, trazendo à baila, e bem, a questão dos submarinos, mas acrescentando logo de seguida declarações sem nexo sobre Strauss-Kahn, Casa Pia, prostituição e cabeleiras loiras. Tudo muito ao jeito do célebre e inolvidável discurso da Zezinha Nogueira Pinto “eu sei que ele sabe que eu sei”. Ora, eu, por mim, não sei nada disso e se Ana Gomes sabe de alguma coisa era bom que usasse a sua frontalidade habitual, chamasse os bois pelos nomes e se deixasse do “sei mas não digo” que já enjoa.
No seu blogue Da Literatura (O Método, 9 de Junho) também Eduardo Pitta não esconde qual a disposição dos socialistas para a nova temporada e diz textualmente - “Quem instaurou o método vai ter de viver com ele.”, ficando assim tudo justificado. É mais que sabido que a vingança se serve fria  mas este primarismo do “cá se fazem cá se pagam” leva-me direitinha à Água das Pedras.
Que o povo da Musgueira sofra pelo Benfica e queira matar o adversário, eu até posso tentar entender, mas os intelectuais, senhor, porque lhes dais tanta dor, porque se comportam assim?

PS: Eu não gosto do Paulo Portas. Nem um bocadinho só.

9 de junho de 2011

A ver




Para esquecer os dias pouco felizes, vale a pena ir ver a exposição de José Pedro Croft no Chiado 8  (até 8 de Julho).
Fotografia de Teresa Santos, retirada de Artecapital e que acompanha um artigo chato e dúbio de alguém que assina Bruno Leitão.

8 de junho de 2011

A PT é (quase) LIXO

Estamos de volta à estrumeira e tudo por aqui volta a ser lixo.
A notícia vem no DN e diz que as agências de notação financeira estão a cortar o rating da PT, deixando-a à beirinha de ser lixo.
Justificação: “uma possível deterioração do consumo dos consumidores no mercado doméstico", “pelas prováveis medidas de austeridade adicionais e reformas estruturais que Portugal terá de efetuar no curto e no médio prazos para ultrapassar os problemas económicos e orçamentais do país", “apesar de reconhecer as posições fortes de mercado da PT quer no fixo quer no móvel e o sucesso com a banda larga e estratégias de TV paga.”
 O lixo português é como a pescada – antes de ser já o era. E, além disso, o lixo é coisa que se  compra a muito bom preço.
Eu acho que lixo mesmo, mesmo, é a que os pariu.

7 de junho de 2011

O discurso do derrotado

José Sócrates perdeu, e muito bem, as eleições. Porém, o seu discurso de derrota foi, talvez, o melhor que alguma vez proferiu. Ao contrário do discurso de victória de Passos Coelho, maçador e sem chama, que provocou a debandada da família em poucos minutos, o de Sócrates, que todos queríamos ver arredado do poder, manteve-nos a todos sentadinhos e em silêncio.
O homem é um animal político (ainda que de má qualidade) e embora não o tenha dito claramente como o outro, a mensagem subliminar estava lá – ele vai andar por aí.
Já uma vez aqui o classifiquei como Sócrates, o mau aluno de Guterres e agora é só esperar para ver.
Mas, quanto ao discurso, foi “Porreiro, pá!”

4 de junho de 2011

Reflectindo

É dia de reflexão e eu estou a fazê-la esforçadamente.

Sei, porém, que, seja qual for o resultado das eleições de amanhã, na 2ª feira este blogue vai estar de luto (ou deverei dizer nojo?), pelo que, não comparecerá.

3 de junho de 2011

TAP

Desde que me conheço que me defino como uma pessoa de esquerda. Apesar de a esquerda ter perdido a bússola em 1989 e de ainda andar à procura do caminho, há alguns valores que considero inequivocamente como de esquerda – a defesa de quem trabalha e a garantia dos seus direitos, a defesa dos mais pobres, a justa distribuição da riqueza criada, a igualdade de oportunidades no ensino, na saúde e na justiça, para só referir alguns.
Considero o direito à greve como um direito inalienável e, apesar dos incómodos geralmente causados a quem não o merece, também acho que, se não causar incómodo, não serve para nada. Dentro, ainda, do pensamento de esquerda, acho que algumas empresas e setores, ainda que deficitários, não devem ser privatizados porque prestam um serviço público que cabe ao Estado assegurar. É para isso que pagamos impostos.
Tudo isto muda, para mim, quando se trata da TAP, empresa de que muito me orgulhei durante muitos anos. De há um tempo para cá, os sindicatos da empresa parecem ter entrado numa roda livre de pensamento alienado da realidade que vivemos.
Todos nós, durante anos, metemos muitos milhões dos nossos impostos na empresa para que ela sobrevivesse; conseguimo-lo, ao mesmo tempo que se conseguiu assegurar condições de trabalho e salário dignas e bastante acima da média nacional. Agora, confesso, estou farta.
A próxima greve anunciada vai estender-se por dez dias e causar um prejuízo de 50 milhões de euros (5 milhões por dia), vai afetar a vida de 350 000 passageiros e tudo isto porquê? Porque em cada voo vai ser retirado um tripulante de cabine.
No momento em que mais de 12% dos portugueses estão desempregados, muitíssimos trabalham sem receber, muitíssimos fazem horas extraordinárias à borla, quando todos sabemos que a “coisa tá preta” e que a vida vai ser cada vez mais difícil, o pessoal de voo da TAP entende que não pode prescindir dum tripulante por voo para fazer aquele extenuante trabalho de nos servir uma comidinha de plástico e ficar a ver se o velhote consegue meter a mala na bagageira para depois apenas verificar se está bem fechada.
Meus senhores, estou farta das vossas birras e caprichos.
Senhores do próximo governo, por favor privatizem a TAP o mais depressa possível.
Ele que façam greve com novo patrão que os ajudará a descer à terra. Por mim, não quero mais ser dona dessa empresa.

2 de junho de 2011

Malevolamente curiosa, fui ver.

Aqui na minha paróquia, quer dizer, o meu círculo eleitoral, a bem dizer nem se dá pela campanha eleitoral. Os partidos foram sensíveis aos apelos de poupança e quase não usaram publicidade no espaço público. Por mim, acho bem, poupa-se dinheiro e lixo que costuma ficar por aí a esvoaçar durante meses.
A poupança foi ainda mais longe e, posso garantir, na minha caixa de correio não entrou nem um papelucho partidário.
Todos sabemos que o sistema parlamentar em que vivemos, em que supostamente os deputados que elegemos nos representam, também é uma treta; eles representam apenas os seus partidos.
Como tenho parado pouco por aqui, e na presença de tanta falta de informação, resolvi procurar saber na internet quem são os candidatos que representam os partidos que me podem representar na democracia representativa. Oh! surpresa das surpresas – pelos partidos que elegem, são os mesmos de sempre, quanto aos que não elegem, não os conheço e acho que eles não se deram a conhecer.
Parece-me natural que assim seja; no país não mudou nada, o futuro apresenta-se risonho, e por isso…siga o baile.

Lá fora

Esta notícia do Público é tão perturbadora que fica impossível de comentar.



Hamza, de 13 anos, torturado e morto pelo regime, é o rosto da revolução Síria
O primeiro vídeo era tão impressionante que já foi retirado do YouTube. Mas as imagens do corpo de Hamza Ali al-Khateeb, de 13 anos, morto pela polícia síria, ainda se encontram na Internet, com as marcas da tortura a que foi sujeito bem visíveis. Rosto desfigurado, buracos de balas e de queimaduras de cigarros no peito, pescoço partido, maxilar desfeito e pénis cortado (esta parte do corpo foi disfarçada na versão ainda disponível do vídeo).

Toda a notícia aqui

1 de junho de 2011

Ódio no feminino

Há mulheres capazes de odiar tanto um homem que até aceitam casar com o que detestam só para ajudar a derrubar o que odeiam.
Assim é Manuela Ferreira Leite. “Casou” com Passos Coelho (que abomina) para ir a Barcelos dizer:

“Passos Coelho vai desculpar-me, mas eu não ando à procura de um outro primeiro-ministro, ando à procura que o engenheiro Sócrates saia de primeiro-ministro e ele só sairá de primeiro-ministro no dia em que o PSD tiver mais votos que o PS”.
“Nem tranquila fico se ele ficar na oposição” (aqui)

Eu acho que isto ainda vai fazer mal à saúde da senhora.  Além disso, um bocadinho mais de subtileza na expressão do ódio só lhe ficava bem e dizia melhor com os seus tailleurs.
Contudo, sei bem, o ódio no feminino é muito mais violento e indomável do que no masculino.

31 de maio de 2011

“De Costas Viradas Para O Mundo”, Retratos da Sérvia

A propósito da prisão, há dias, de Ratko Mladic, verdadeiro “carniceiro de Srebrenica” voltei a pensar no pouco que vamos sabendo sobre o mundo quando não há um conflito grave que o traga para os jornais e televisões, enredados que andamos com os nossos problemas domésticos.
A Sérvia, fatia europeia aqui tão perto, continua a ser para nós um país desconhecido. Sabemos que quer entrar na UE, sabemos que lhe foram impostas condições para o conseguir, e que uma delas é a entrega ao tribunal de Haia dos criminosos da guerra dos Balcãs no início dos anos 1990 do século passado.
Têm sido difíceis de apanhar, certamente porque têm estado protegidos por muitos milhares de sérvios e, talvez até, pelos vários governos.
Asne Seierstad, jornalista norueguesa, fez várias viagens à Sérvia, falou com sérvios de toda a espécie e publicou um livro que em português se chama “De Costas Viradas para o Mundo” (Ed. Pedra da Lua, 2008).
No prefácio, redigido em 2004, ela escreve:


Desde que o tribunal para crimes de guerra na antiga Jugoslávia se formou, em 1993, que constituí para muita gente uma questão delicada. O tribunal foi criado, em grande medida, porque os Estados que antes constituíam a Jugoslávia ou não eram capazes ou não estavam dispostos a julgar os seus criminosos de guerra. Pelo contrário, muitas vezes os acusados eram apresentados e homenageados como heróis. Isto acontecia na Croácia, na Bósnia e, com toda a certeza, na Sérvia.

A síndrome da vitimização é, nos Balcãs, como um denso e impenetrável nevoeiro.

Contrariar os esforços do tribunal tornou-se uma forma de mostrar patriotismo. “Porquê nós? Porquê nós?”, perguntava a população na Sérvia, na Croácia e na Bósnia. “Foram os outros que atacaram, nós apenas nos defendemos”


A divisão entre os Sérvios que querem aderir à UE e os que se alimentam das grandezas do passado, que sonham com a “Grande Sérvia” e protegem os seus criminosos parece persistir até hoje. Desta vez ganharam os primeiros mas durante 17 anos os segundos deram mostras de serem numerosos e determinados.
Mladic é um monstro. Esperemos que se faça justiça.

30 de maio de 2011

"Sem Tecto Entre Ruínas"

Em 37 anos de democracia e de eleições, nunca me lembro de sentir uma tão grande aflição para decidir o meu voto.
Já vivi outras vindas do FMI, já vivi crises de toda a espécie, mas, honestamente, penso que os anos que se aproximam não se comparam com nada do que já conheci.
Nas outras crises com intervenção externa, o país tinha mecanismos de que hoje, por via do euro, não dispõe. Mesmo sem nada saber de economia, lembro-me das desvalorizações da moeda, da venda do ouro, da emissão de moeda pelo Banco de Portugal. Tudo isso hoje nos está vedado, restando um empréstimo externo concedido por alguém que não nos grama, tais as condições que exigiu.
Poderá pensar-se que ao próximo governo apenas lhe resta aplicar o plano dos prestamistas, mas não será exactamente assim. Ainda haverá coisas que podem ser decididas com mais ou menos sensatez, com mais ou menos liberalismo.
Daí, a enorme aflição que sinto quando olho para os dois putativos candidatos a primeiro-ministro.
Os erros de Sócrates são inúmeros e imensos; pior, o país não acredita nele, a toda a hora se brinca com as mentiras de Sócrates - do alto quadro empresarial à peixeira todos o acham um mentiroso. Pode um homem nesta situação continuar a governar o país? Não merece ser fortemente castigado nas urnas? Pode governar o país nos tempos difíceis que estão a chegar? Pode o povo português reconduzi-lo como quem diz “faça favor de continuar, nós tudo esquecemos e perdoamos”?  Podemos, se tal acontecer, considerar que vivemos numa democracia adulta e viável?
Quanto a Passos Coelho não há palavras para descrever o que temos visto e ouvido nos últimos tempos. Pode um homem que já disse mil coisas e seu contrário (tal e qual como Sócrates) merecer-nos alguma credibilidade? Pode um homem que está na política desde a pré-primária, como já aqui escrevi, estar tão impreparado para ser governante? Que andou ele a fazer desde que tomou posse do cargo? A pensar no país certamente que não foi porque cada dia tem uma ideia e um discurso diferente. Mente, sorri, diz e desdiz, ouve todos os conselheiros dos quais devia fugir, quer apanhar votos de todos os lados e fica “nem pão, nem bolo”. Em 3 dias disse sobre o aborto o contrário do que costumava dizer e quanto aos 10 ministros apenas, assim que Cavaco disse que era pouco apressou-se a remendar o que antes tinha dito. Isto para só falar dos últimos dias. Quem é este homem, alguém sabe? Mas, pode um homem assim merecer a confiança do país para governar? Não nos sairá outro Sócrates apenas ainda mais liberal?  Pelo menos quanto ao carácter, parece que estão empatados, mesmo sem sondagem. 
Os partidos à esquerda do PS também se acomodaram no facilitismo, limitando-se vezes de mais a ser apenas do contra, e a dar uns tirinhos no pé de vez em quando. Se eles congregam 20% dos eleitores, precisam de saber quem são, o que sentem, e parar com o infantil “quanto pior, melhor” que já fez escola mas já não faz.
Roubando o título de um livro de Augusto Abelaira, sinto-me “Sem tecto, entre ruínas”.
Pior, sinto-me também sem chão.

28 de maio de 2011

Coisas boas IV


Faculdade de Economia do Porto triunfa em competição mundial de casos empresariais
Para ler aqui#

27 de maio de 2011

Um aborto na campanha

O que Passos Coelho disse ontem sobre a lei da IVG, percorrendo os jornais online, pode traduzir-se assim:
A lei pode "ter ido um pouco longe demais" ( Visão)
… há grupos de cidadãos " que querem promover essa nova consulta popular, a qual, no seu entender, poderá ter lugar depois de se fazer uma "avaliação séria" (DN)
… apelou «a quem tenha ideia de propor um novo refendo por petição popular para que actue com rapidez» (Sol).
O que Passos, de facto, quer, é roubar votos ao CDS mas vai dizendo que, se tiver que meter a mão nessa massa, prefere que sejam os cidadãos a tratar do assunto primeiro e, já agora, rapidinho, ou qualquer coisa do género – Ó Portas, se tivermos que fazer governo juntos, e se quiseres mudar a lei, arregimenta lá as tuas tropas depressa, que eu tenho mais que fazer e não vou sujar as mãos com esse assunto até porque há uns anos já disse o contrário.
Passos não percebeu que este não foi um tema bem escolhido para os portugueses em geral. No último referendo o “SIM” ganhou porque a sociedade portuguesa mudou profundamente na última década, tanto que não houve prof. Marcelo, com todo o seu tempo de antena, que valesse ao “não”.
Se ousarem novo referendo, perdem outra vez, porque para as novas gerações de votantes, o senhor padre já não manda nada
É caso para dizer que só nos saem abortos.


26 de maio de 2011

Refugiados

Fome, miséria, falsa fé, vingança e medo, parecem ter tomado conta do mundo.
Aqui bem perto, o Mediterrâneo, geralmente tão aprazível e carregado de história, transformou-se num mar de morte, indiferença e medo.
Pessoas que fogem da Líbia e duma guerra apadrinhada pela União Europeia, bem como os pobres da África subsariana que fogem da fome, morrem aos milhares nas águas do Mediterrâneo na tentativa vã de chegarem à Europa. Esta, tolhida pelo medo e egoísmos vários, preocupada apenas com o processo eleitoral que se segue, fecha a porta e atira a chave ao mar.
Nós, cidadãos europeus, aconchegados na nossa indiferença, deixamos que morram.
Os países da Europa do sul têm fortes tradições de emigração – portugueses, espanhóis, e italianos estão espalhados pelo mundo e sabem, com um saber de experiência todo feito, que ninguém emigra por gosto, apenas por desespero.
Não se trata de deixar entrar milhões a quem também não poderíamos dar vida digna por cá; trata-se apenas de encontrar forma política e material de ajudar.
Porém, à luta corajosa destes homens e mulheres por uma vida mais digna, ou apenas pela sobrevivência, respondemos com aquilo em que nos tornámos bons - arrogância e indiferença.
Com tais traços de caráter, a Europa/fortaleza vai secar tanto que, quando morrer, já será múmia. Nem sei se não o será já; pelo menos coração já não tem.

25 de maio de 2011

Um socialista agastado

Paulo Pinto escrevia ontem no blogue Jugular um delirante texto em que acusa tudo e todos de xenofobia face ao maravilhoso espectáculo proporcionado pelo comício do PS em Évora. Vale a pena ler o post só para ver os argumentos esquizofrénicos que um PS “à rasca” consegue arranjar e, no fim, dar uma boa gargalhada.
É verdade que os grandes partidos sempre arregimentaram gente de todo o país para um comício em Xabregas ou Vila do Bispo, mas creio que nunca tinha sido necessário pedir uma ajudinha à embaixada de Moçambique e usar, sim, é esse o termo, USAR, emigrantes a quem, regra geral, não damos o mínimo de dignidade e respeito exigidos.
Quem nada tem, porque a vida dos emigrantes por aqui é vida sofrida e de escassez, é claro que aproveita um passeio e um lanche. Qual é o mal?
O mal é que o PS já não consegue sequer mobilizar portugueses de Miranda do Douro, como diz Paulo Pinto, para irem a Évora ouvir magníficos discursos de Capoulas Santos e Sócrates, nem que lhes acenem com passeio e lanche. Só mesmo a “mão-de-obra barata”, tão desprotegida e sem extras, responde ao convite e até consegue fazer daquilo uma festa.
O PS lixou-se com esta iniciativa, tanto que já mandou parar o “esquema”; só o estertor e desespero dos Paulo Pinto da pátria os leva a disparar para todos os lados, e a defender com seriedade o que nos provoca o riso até às lágrimas.

24 de maio de 2011

O senhor governador

Por acaso embirro com o senhor governador do Banco de Portugal, Carlos Costa.
Ele gosta de aparecer e aparece muito, trazendo sempre más notícias do tipo – isto está mau e vai ficar péssimo.
A gente já sabe disso e nem se questiona a necessidade de falar verdade, mas o que me embespinha é que o senhor governador tem ar de quem gosta de dar más notícias, pois sempre, enquanto as dá, exibe um sorriso que me parece demasiado rosado e demasiado escarninho.
No relatório anual do BdP, há dias apresentado, diz-se que o programa de “ajustamento” para Portugal negociado com a troika, é “equilibrado” e bom a médio prazo mas, a curto prazo traz “recessão prolongada” “acompanhada de uma contração sem precedentes” do rendimento das famílias e maior desemprego. Apesar disso, o BdP ainda acha que seria desejável “superar os exigentes objectivos fixados para Portugal”
Ou seja, a troika diz “mata-se” e Carlos Costa diz “ já devia estar morto e esfolado”
(sempre sorrindo, claro).
Não sei porquê, desconfio que, se o PSD ganhar as eleições, o quadro deixará de ser tão negro para o governador do BdP. Talvez até ganhe cores primaveris, ou talvez ele apareça menos e nos dê folga durante um tempo.
Se calhar isto são só os meus habituais maus pensamentos, se calhar o homem é um espírito independente, se calhar (de certeza) isto está mesmo mau e vai ficar péssimo.
Mas se ele, ao menos, parasse de se rir…
É que me irrita, e definitivamente embirro com aquele seu jeito de dar as más notícias.

23 de maio de 2011

O rapaz que não gostava de jogar à bola

Era uma vez um rapaz que não gostava de jogar à bola. Preferia as damas, mas o grupo a que pertencia gostava de futebol. Ele queria ser o chefe do grupo, mas este achava que só um bom jogador de bola o poderia ser. O rapaz, um dia, meteu-se em brios e jogou como se não houvesse amanhã. Meteu vários golos, acabou estafado mas, no fim, virou-se para o grupo e disse: viram? eu sei jogar, mas não quero. Foi só para mostrar que vou continuar a ser o chefe porque, disso, eu gosto.
Passos Coelho é como o rapaz que não gosta de jogar à bola. Nos debates apareceu sempre como quem fez os deveres da escola bem feitinhos e a seguir foi jogar damas, deixando o resto do grupo a dizer disparates, porque os seus próprios disparates só diz quando acha oportuno - afinal ele é o chefe. O seu grupo não estava contente e, no último jogo, esforçou-se, fez fintas e marcou golos. O grupo, então, gostou mas, para que ficasse claro que não lhe apetece jogar e ser capitão de equipa, logo no dia seguinte veio dizer aos portugueses que não podia haver tantos feriados e que as medidas de austeridade, se calhar, não eram suficientes.
Ora, Passos Coelho está na política desde a pré-primária e sabe que há coisas que não podem ser ditas em plena campanha eleitoral.
Não se trata de faltar à verdade, trata-se tão só de saber quanta verdade se pode dizer e quanta verdade os outros podem aguentar sem se enfurecerem. Ele parece não querer ser o capitão da equipa, nem querer jogar à bola; dá a impressão que só lhe apetece mostrar que é capaz de ser o chefe do grupo
Pode ser que o empurrem e se veja forçado a jogar, mas lá que ele está a fazer todos os possíveis para que isso não lhe aconteça, lá isso está.

21 de maio de 2011

20 de maio de 2011

O candidato semi

Há nestas eleições um candidato semi-trabalhista, semi-nacionalista, semi-democrático, semi-apalermado, semi-analfabeto, semi-apalhaçado,  semi-contente, semi-pensante, semi-troglodita, semi-tiririca, semi-boçal, semi-trapalhão, semi-ridículo, semi-presunçoso, semi-ingénuo, mas completamente populista.
Trata-se, claro está, do candidato José Manuel Coelho.
A ignorância é muito atrevida, como se sabe, mas o caso não é grave porque viver em democracia é também isso.
Grave mesmo é que 180 000 portugueses se tenham revisto nele durante a campanha para as presidenciais, e o tenham julgado digno do seu voto. Quantos serão desta vez?

18 de maio de 2011

Philip Roth


E hoje o meu escritor favorito, Philip Roth, ganhou o prémio Man Booker.
Eterno candidato ao Nobel que nunca ganhará por ser demasiado provocador, cru e sexuado, vai ficando com outros prémios menores, mas o mais importante é que vai ficando sempre na nossa memória de leitores. Roth é quase um vício, e inesquecíveis são livros como “Casei com um Comunista”, “Pastoral Americana”, “Teatro de Sabbath” ou “A Conspiração contra a América”.
Parabéns para ele!

Frau Merkel, de novo

Ela disse que a Alemanha está disposta a ajudar-nos (?) mas que a idade da reforma e tempo de férias têm de ser iguais aos da sua santa terrinha, farol da humanidade, como se sabe.
A pergunta óbvia é: e o resto, não? Por exemplo os salários, só para começar.

Por mim, aposto.

Sócrates repete em todos os debates que é impensável reestruturar a dívida portuguesa.
Eu aposto que ainda o vamos ouvir dizer, no poder ou fora dele, que é imperioso reestruturar a dívida. Vai uma apostinha?

17 de maio de 2011

Correcção

Sérgio Lavos limitou-se a transcrever e apoiar o post a que me refiro anteriormente, sendo este da autoria de Luís Januário

Disse puritanismo?

Sejamos sérios, para início de conversa – o caso Dominique Strauss- Kahn não é um caso da vida privada e íntima do senhor, como estou fartinha de ler por aí. É um caso de abuso sexual e tentativa de violação.
Sejamos claros – não sabemos, de facto, se é culpado do crime de que é acusado.
Mas sejamos também lógicos – não é a primeira vez que sofre esta acusação; é fumo a mais para não haver fogo nenhum. No caso de ser culpado, pergunta-se: o que leva um homem com o seu poder e estatuto a comportar-se como um marginal, deitando a perder o seu nome, família e futuro profissional?
Não me parece que haja nele apenas um sentimento de impunidade trazido pelo poder; ele sabe que o mundo, e sobretudo os EUA, hoje não fecha os olhos a estas situações (é só ver o caso de Roman Polanski), o que, diga-se, não desculpa o modo absolutamente repulsivo como se tratam por lá os presos, roubando-lhes toda a dignidade mesmo antes de serem julgados, como se todos fossem assassinos prontos para mais um acto tresloucado.
Neste caso como noutros, acredito, sim, numa distorção da personalidade que empurra constantemente para o abismo, retirando satisfação do perigo, da própria violação e do ilícito.
Porém, se o violador comum não tem grandes possibilidades de perceber a urgência de tratar o seu distúrbio, o mesmo não se passará, certamente, com Dominique Strauss-Kahn.
Homem do mundo, inteligente, já muito maduro, com meios financeiros, se não se tratou foi porque não quis. Salvaguardando sempre a possibilidade de estar, de facto, inocente.
Sérgio Lavos escrevia ontem no Arrastão: “o puritanismo hipócrita exulta”. É pena que não perceba que não se trata da vida íntima de cada um, como no caso Clinton, e com a qual nada temos. A existir culpa, trata-se de crime, e dos piores, do ponto de vista feminino. É uma coisa que não deve passar despercebida a um homem de esquerda.

16 de maio de 2011

Gostos simples

A crónica de Luís Filipe Borges no Sol online de 9 de Maio intitula-se Dulinesca, tal como o livro de Enrique Vila-Matas que também eu ando a ler.
Foi o título que me chamou a atenção. A certa altura, o cronista faz algumas piadas sobre as razões porque não acompanhou a transmissão televisiva do casamento real britânico.
As piadas não são nem de bom gosto nem verdadeiramente têm piada; prendem-se com a urgência do corte de unhas dos pés, de limpar a caixa do gato ou de contar carros encarnados. Quanto ao humor, estamos conversados.
Acrescenta, de seguida, que o mundo deve estar louco para tantos milhões ficarem a ver aquilo e diz “Somos, definitivamente, uma sociedade anestesiada por décadas de futilidade e entretém vazio.”
É verdade, mas não se aplica aqui.
Sempre me lembro de, quando era jovem, todas as mulheres da vizinhança irem para o adro da igreja para ver a noiva (e o resto, claro), quando se casava alguém que conheciam. Muitas entravam na igreja e, mesmo ficando ao fundo, assistiam a toda a cerimónia e festejavam a saída dos noivos como os convidados.
A realidade que permanece até hoje é que o povo sempre gostou de festa, pompa e ostentação de riqueza.
Porque pensará Luís Filipe Borges que, por exemplo, a Igreja Católica mantém a sua liturgia quase inalterada em 2000 anos?
Simplesmente porque o rito, a grandeza, o cerimonial, a pompa e circunstância, sempre atraíram e fascinaram. E assim continua, malgrado alguns jovens ainda não terem percebido isso e acharem que desdenhar dos gostos simples de gente simples é cool.

13 de maio de 2011

País macho


Relação do Porto absolveu psiquiatra com argumentos muito polémicos.

O Tribunal da Relação do Porto absolveu o psiquiatra João Villas Boas do crime de violação contra uma paciente sua, grávida de 34 semanas, que estava a ter acompanhamento devido à gravidez.
Segundo a maioria de juízes, os actos sexuais dados como provados no julgamento de primeira instância não foram suficientemente violentos. Agarrar a cabeça (ou os cabelos) de uma mulher, obrigando-a a fazer sexo oral e empurrá-la contra um sofá para realizar a cópula não constituíram actos susceptíveis de ser enquadrados como violentos.

DN online

Velha e matreira

Eu costumava achar que a Europa era a melhor parte do mundo para se viver, apesar de lhe reconhecer manhas de velha senhora interesseira e manipuladora.
Começo agora a achar que a senhora perdeu toda a vergonha, e, para além de se esforçar por desunir a família e ficar sentada a ver a casa arder, tornou-se ainda mais exímia e refinada na arte da duplicidade. Parece já não ser uma senhora mas apenas uma velha meretriz a soldo. É só ler esta notícia do ionline

Sanções da UE à Síria excluem presidente.

A lista dos nomes do regime sírio que serão alvos de sanções pela União Europeia foi ontem divulgada, em Bruxelas, e exclui o presidente do país, Bashar al-Assad. Sob condição de anonimato, um diplomata disse à AFP que "não há consenso sobre se Assad virá a ser incluído" na lista, composta por 13 nomes de nomes importantes do regime sírio, entre elas um irmão e um primo do líder sírio.
(continua)

Mulheres na China

O Público de dia 6 de Maio, no seu caderno P2, trazia um interessante artigo sobre Xinram, jornalista chinesa, e o seu livro Mensagem de uma Mãe Desconhecida (Bertrand), em que tenta responder a uma pergunta simples (ou talvez não), feita por si e por milhões de outras mulheres chinesas – “Porque é que a minha mãe não me quis?”.
Há na China uma prática milenar de as famílias preferirem ter filhos rapazes a ter raparigas, agravada pela política de filho único. A prática de matar as raparigas à nascença, ou enviá-las para orfanatos, continua a existir sobretudo no meio rural.
Conta Xinram que nas cozinhas rurais ainda existe um balde com tampa formado por duas partes, que os proprietários dizem que é para o lixo, mas não é bem assim. “Quando nascem as raparigas, serve para encher de água quente na parte de baixo e tapa-se com a outra parte. As parteiras põem-nas logo ali em água. Se for um rapaz, não se tapa, serve para o primeiro banho. É uma peça de mobiliário que continua ali.”
A jornalista chinesa conta ainda que, quando actualmente as mulheres, por via da industrialização, vão para as cidades e verificam que lá as famílias conservam as filhas e as tratam bem, sentem uma enorme dor. Uma dor tão grande como a das raparigas que já não foram mortas mas foram abandonadas, e que lhe perguntam “porque é que a minha mãe não me quis?”

11 de maio de 2011

Café Portugal

Quando eu era bem menina, havia na minha terra um grande café chamado Café Portugal. Parava por lá um sujeito, todo o dia e toda a noite sentado na mesma mesa, por quem o meu pai nutria uma óbvia antipatia. Um dia, mais crescidota, perguntei-lhe porque não gostava daquele senhor. Explicou-me que era um agiota, e explicou o que isso era, ou seja, que era um senhor que vivia de emprestar dinheiro a quem tinha dificuldades com juros usurários (também explicou o que isso era).
Ontem, quando percebi que taxa de juro vamos ter de pagar à Europa pelo EMPRÉSTIMO que nos faz, percebi que também ela veio para se sentar à mesa do café Portugal.

10 de maio de 2011

Sim, eu gosto.

No Expresso de 7 de Maio, Henrique Raposo, um cronista de quem até já discordei aqui publica uma crónica (sem link), que começa assim:
O cinismo é a base da cultura pós-modernista, uma peçonha cool que nos anestesia há décadas. E este cinismo assenta numa ordem muito simples: é proibido acreditar.
Desta vez concordo com o cronista. Vem isto a propósito do filmezinho que corre na internet, feito para as Conferências do Estoril, sobre Portugal, e dirigido aos finlandeses.
É um filme interessante, sobre um país periférico e mediterrânico que é desconhecido, hoje em dia, da maior parte dos povos de outros países. O filme mostra, com acerto, simplicidade e humor, que nem sempre estivemos de mão estendida, que chegámos a dividir o mundo com a Espanha, que houve muita glórias passadas mas também algumas actuais e, no fim, aborda, para os finlandeses, uma das nossas melhores características – ainda somos generosos e solidários.
Devíamos ver um filme destes todos os dias, como quem toma um remédio, para ver se mudávamos este permanente estado de descrença e lástima miserabilista, em que sempre nos achamos piores que todo os outros, coisa que não passa pela cabeça de nenhum outro povo europeu. Espanhóis, franceses, britânicos, italianos e gregos, por exemplo, acham-se sempre o supra-sumo quer no passado quer no presente.
À nossa tendência natural para nos acharmos uns “coitadinhos”, junta-se uma miríade de comentadores, em todos os meios de comunicação social, apostados em nos enterrarem ainda mais, sempre reforçando o que vai mal. São também os cínicos de que fala Henrique Raposo, para quem é proibido acreditar, e insinuar, sequer, que se ama este país, é sinal de piroseira reaccionária. Eles são, em suma, aqueles que costumo dizer que só se sentem bem quando se sentem mal.
Gostei do filme, sim, e tanto me orgulho da era dos descobrimentos como do Serviço Nacional de Saúde, das marcas arquitectónicas de Portugal espalhados pelo mundo como dos dois Pritzker, de ter uma língua falada em 5 continentes como da Expo 98, de termos abolido a pena de morte e a escravatura bem cedo, como das grandes e pequenas invenções dos nossos cientistas actuais.
Era bom que todos tomássemos consciência do que realmente somos, nem mais nem menos, e que percebêssemos que este é apenas mais um dos maus momentos dos muitos que Portugal já viveu e ultrapassou.
Já agora, de caminho, devíamos enfiar os cínicos de serviço onde eles merecem estar.

7 de maio de 2011

Bertolt Brecht



O que tem fome e te rouba
O último pedaço de pão chama-lo teu inimigo
Mas não saltas ao pescoço
Do teu ladrão que nunca teve fome

6 de maio de 2011

Hoje, no Chiado 8, em Lisboa


marcações e territórios

até 08/07/2011

O intelectual e os macacos

“Os jovens que abreviam palavras nas redes sociais e nos SMS pensam como macacos”, palavras de Vargas Llosa, Prémio Nobel da Literatura 2010.
Esta frase é pura bruteza, mas, não contente com ela, acrescenta ainda algumas alarvidades sobre os humanos que para ele são símios.
É patético, como patética é a velhice precoce de muitos intelectuais na casa dos 60 ou 70, cheios de nostalgia pela literatura que já não há, pela escrita que já não é, pelos “valores” que já foram.
Passam o tempo dizer que ninguém lê e ninguém escreve, o que é absolutamente falso; se ninguém lesse não se publicavam tantos livros e nem se vivia da literatura, como me parece ser o caso de Lhosa. Quanto à escrita, há 15 anos atrás, por exemplo, ninguém escrevia, só se telefonava. O email, o SMS, o Facebook, o Twitter, trouxeram a escrita de volta à nossa vida em todas as idades e em todas as línguas.
Escreve-se de maneira diferente? Sem dúvida. A língua é algo vivo, seja escrita ou falada, vai mudando com o tempo e com os seus utilizadores.
Estes filhos dum deus maior não são só patéticos, são também snobes. Repetem mil vezes que dantes é que se escrevia bem, e eu digo que dantes ALGUNS, e apenas ALGUNS, escreviam bem; os outros todos não escreviam nada porque nem sequer foram à escola. Agarrados aos seus privilégios de intelectuais julgam que os outros pensam como macacos apenas porque têm a ousadia de pensar como quiserem (ou de não pensarem de todo).
Choram o fim da boa literatura e da boa escrita, engolidas pela rede e pelo digital mas não reparam, talvez porque só olham para o umbigo, que continua a haver muito boa escrita feita por gente com metade da idade deles.
Também não repararam que a rádio não matou os livros nem os jornais, a televisão não matou a rádio e a internet não matou a televisão. Ao contrário, de todos nos fomos apropriando com grande proveito. Com estes meios, o conhecimento (mas não a cultura) está ao alcance de qualquer um, o que parece desagradar-lhes.
Sempre haverá literatura, e pintura, e escultura, arte em geral e música, embora com formas diferentes, porque isso faz parte do património humano. Sempre haverá quem escreva bem e haverá muitos mais que escreverão mal mas, felizmente, ao menos escrevem. E não são macacos. São apenas pessoas que os intelectuais desprezam.
Um intelectual devia ser alguém estimulante mas, demasiadas vezes, não o é. A arrogância e mania da superioridade colam-se-lhes à pele como uma indumentária que lhes fica tão mal que às vezes até parecem palhaços. Mas nunca macacos.