11 de julho de 2013

O oráculo de Belém

O oráculo de Belém falou ontem à tardinha.

Como é normal, logo apareceram pitonisas aos montes para decifrar a arenga, mas parece que cada uma ouviu sua coisa e, por isso, não se entenderam muito bem.

Não sou menos que as outras pitonisas e também tenho cá a minha interpretação “da coisa”, ou seja, do oráculo.

Este enumerou os malefícios das eleições se elas não forem como ele as quer.

Exige um governo de operários do PSD, CDS, e PS que executem o seu próprio programa, mas só até ao momento que acha adequado, ou seja, daqui por um ano.

O oráculo reconhece três partidos e ignora todos os outros.

O oráculo tratou o governo pior que cachorro tinhoso.

O oráculo continua a ter a língua grande e eu continuo a achar que lha devíamos cortar.

O oráculo não percebeu que o tempo dele passou porque, no tempo certo, não se deu ao respeito.

Quando estudei sobre o oráculo de Delfos, e era uma catraia, aquilo meteu-me medo. A caverna, a fenda, as fumarolas, as pitonisas que podiam morrer.

Este oráculo que nos calhou em sorte, o de Belém, é uma caricatura risível do que me metia medo.

Mas eu acho que sei o que ele quer: vai querer dizer-nos que teve que escolher alguém de fora para governar porque os partidos não se entenderam como o país precisa.

Veremos que tal me saio como pitonisa.

10 de julho de 2013

Portas e o camone

A mim, o calor, que costuma dilatar os corpos, mirra-me o raciocínio.
Assim tenho andado, mas ontem despertei um pouco.
 
Foi Paulo Portas, ouvido na rádio que, com aquela voz bem colocada e articulada, me informou que o Ministro dos Negócios Estrangeiros dos EUA tinha sido chamado por si, Ministro dos Negócios Estrangeiros de Portugal, para lhe dizer que Portugal não gosta nadinha que os Estados Unidos andem a espiar a Europa.
 
Imagino Paulo Portas de olhos bem abertos, voz grossa e dedo em riste para o Ministro dos Negócios Estrangeiros dos EUA.
 
Ah, ah, o camone deve ter saído das Necessidades borradinho de medo.


5 de julho de 2013

E é isso


Numa dependência dum banco português, bem no centro duma capital da Europa, as coisas não estão a correr bem – demasiados clientes para tão poucos funcionários activos.
 
A certa altura, um cliente no princípio da meia-idade insurge-se com a intolerável situação; fala sozinho, primeiro, e pergunta, depois, se os outros não estão de acordo. Uma mulher que já passou a meia-idade e que deve até ter passado uma ou mais fronteiras no tempo em que as havia mas que ainda tem agarrada à pele a rudeza do granito beirão responde a meia-voz:
 
- A gente está de acordo, mas toda a gente tem medo e cala-se.
Intrometida que sou, mesmo sentindo que não sou dali, pergunto:
- Medo de quê?
 
A resposta vem sob a forma dum breve encolher de ombros de resignação martirizada.
 
Quarenta anos de democracia, um quarto de século de integração europeia e meio século de emigração não foram suficientes para desvanecer em nós este sentimento que nos domina, tolhe e diminui – o medo.
 
Medo de tudo e de nada, com e sem razão, medo de existir, afinal, como dizia o filósofo.
 
É em grande medida graças a ele, a este medo atávico, que ainda hoje os políticos nos podem tourear e bandarilhar, com a certeza de que ficaremos sentados no sofá e diante da televisão, vendo-os entrar e sair, pôr e dispor como lhes apraz, decidindo das suas vidas mas sempre indiferentes à nossa.
 
Haja o que houver, não nos moveremos, porque “a gente tem medo e cala-se”.

27 de junho de 2013

Tudo como dantes

Quase, quase chegada em cima da greve geral, uma rápida vista de olhos pelos blogues e pelo facebook confirmam – os que sempre foram a favor da greve, continuam a favor da greve, os que sempre foram contra, continuam contra.

Verifico, porém, que, de entre estes últimos, alguns se afadigam a encontrar argumentos, às vezes até históricos, para dar bordoada na greve.

Outros mostram-se pragmáticos, e ficam-se pela esmerada demonstração da inutilidade da mesma.

Julgam também, e talvez tomando-se como padrão, que ninguém já tem convicções e falam em mainstream político, bem-pensantes e mais o blá blá do costume.
Esta última gentinha é a mesma que prega também a inutilidade das manifestações e ataca os sindicatos.

Sendo todas elas formas de protesto pacíficas e organizadas, não chego a perceber se as criaturas são a favor das bombas e revoluções ou se apenas de deleitam com a placidez dos rebanhos a caminho do abate.

Ou talvez se achem membros do restrito grupo dos que têm o terceiro olho e vêem mais do que os outros todos, embora não partilhem as suas visões com a arraia miúda.

Está-me a parecer que são seres ainda vivos, mas já incapazes, sequer, dum grito de alma que diga : BASTA.
E também não o toleram nos outros.

Eu, putativa bem-pensante, politicamente correta e de esquerda, ainda cheguei a tempo de dizer: SOU PELA GREVE, GRAÇAS A DEUS.

20 de junho de 2013

País da treta


Quando vemos imagens da resistência e da luta dos gregos contra o encerramento da sua rádio e televisão;

Quando vemos os turcos a levar com os canhões de água e gás pimenta em cima durante tantos dias, ou agora, de pé e em silêncio na praça Taksim;

Quando vemos milhares e milhares de brasileiros a levar pancada da polícia por se manifestarem contra os gastos com as “festas” vindouras enquanto lhes falta saúde, educação e transportes, por exemplo;

Quando vemos essas e outras lutas dos povos do mundo, percebemos que somos um povo e um país da treta.
Eu digo treta, mas toda a gente percebe que eu queria dizer outra coisa.

O país da treta é aquele em que até uma simples manifestação atrapalha o trânsito, e não vale a pena.
Onde uma greve é só um prejuízo para os pobres, e não vale a pena.
Onde interromper ou não deixar falar um ministro é um atentado à democracia e liberdade de expressão, e não vale a pena.

Não vale a pena, parece, é viver aqui, neste país da treta.
Não fora dar-se o caso de eu ainda acreditar que “tudo vale a pena se a alma não é pequena”.
E, nesta convicção, vou. Por uns dias. Matar saudades. Conto voltar.


19 de junho de 2013

As meninas de Odivelas

Nos meus tempos de menina e moça vivia-se por aqui, como é sabido, uma ditadura e uma guerra colonial.

Sobre “a família militar”, os do “contra” construíam uma caricatura a traço muito grosso, ou uma narrativa, se se preferir, em que, enquanto o pai oficial cumpria comissões de serviço nas colónias (eles diziam ultramar), a mãe integrava o Movimento Nacional Feminino, a filha frequentava o Instituto de Odivelas e o filho engravidava a criada.

O Instituto de Odivelas é uma vetusta instituição nacional – escola feminina para filhas das tropas, criada em 1900.
Às alunas, mais conhecidas por meninas de Odivelas, ensinava-se a fechar as pernas, isto é, a sentarem-se com decoro, bem como variadas artes do lar, conversa de sala, e ainda as matérias do curso dos liceus.

Mais tarde, era frequente as meninas acasalarem com o Colégio Militar.

Algumas meninas de Odivelas, chegadas cá fora, parecia que nem tinham ido à escola, ou que tinham tido amnésia, o que deu origem, naquele tempo, a pelo menos uma cançoneta muito, muito brejeira.
Coisas da luta de classes.

Este instituto, que de progressista nada tinha, sobreviveu ao 25 de Abril, ao PREC, ao apagamento do papel dos militares na sociedade portuguesa, em suma, sobreviveu a tudo, menos ao governo mais direitista que tivemos em democracia.

Vai morrer às mãos de Passos, Aguiar Branco e Crato.
Quem diria?


18 de junho de 2013

Mao Tsé-Crato e o Grande Salto em Frente

Nuno Crato não é fascista, nem sequer protofascista, afirmo-o eu aqui.

Com a confusão que armou ontem à volta da greve dos professores, tentando um óbvio braço de ferro que jogava com o medo dos professores e a fragilidade dos alunos mas que, na prática, apenas pretendia mostrar quem manda, Crato esclareceu, finalmente, que continua maoísta como na sua juventude.

Ao chegar ao governo deve ter-se convencido que ia fazer com que a Educação, neste país, desse finalmente o Grande Salto em Frente.

Se Mao Tsé Tung mandou apanhar e entregar ao Estado todo o prego, parafuso e asa de tacho para com eles fazer fazer aço, já o patrão Crato convocou todos os seus funcionários para fazer os exames.

O aço de Mao Tsé Tung não era aço, era uma grande bosta.
Uma grande bosta é, também, a actuação de Nuno Crato.

Apesar do enorme falhanço do Grande Salto em Frente, que matou muitos milhões de chineses, Mao manteve-se no poder.
Crato também.

Mas um dia Mao morreu, e hoje a China sabe fazer aço.
Crato também não durará muito mais (na pior das hipóteses, dois anos).

Nada é eterno, mas é absolutamente seguro que todos os países, em algum momento da sua história, vivem tempos negros com governantes miseráveis.
Depois, geralmente, passa.

Nota: Imagem roubada ao blogue AventarNuno Crato, a dama de lata


17 de junho de 2013

Um dia especial com a professora da “banana”

Dia de exames, dia de greve, dia de controvérsia.

Entre os meus e os dos meus filhos vivi umas boas dezenas de dias de exames. Sei como são dias especiais.

Porém, de todos esses exames, o que sempre recordo com um sorriso, é o meu exame de admissão ao Liceu que era, à época, vivido como um importantíssimo dia nas nossas vidas.

As provas faziam-se no próprio Liceu e, em boa verdade, não posso dizer que me lembre de tudo, mas lembro-me, por exemplo, que a minha mãe me vestiu e calçou com esmero para aquela solenidade.

A minha mais viva lembrança vai para a prova de ditado, sempre muito temida porque não se podia dar mais que um ou dois erros, sob pena de se chumbar e de se ficar logo com a carreira estragada; um pouco como o Crato quer fazer agora – és burro? vais para canalizador já (modelo alemão, e modelo jurássico do próprio Crato).

A professora do Liceu que estava a fazer as provas na minha sala era, de certeza, uma mulher mais nova do que eu sou hoje, mas guardo dela uma imagem de senhora de idade, com pernas grossas em cima duns saltos altos, e cabelo penteado ao estilo daquilo que se chamava “banana”.

Era muito cuidadosa e ditava pausadamente, com ritmo lento e repetindo bastantes vezes.
O diabo é que a senhora era “do Norte”, e estava ali, no meio do meu Alentejo, a fazer-me o ditado com a sua “pronúncia do Norte”.

Lá para meio do texto, a senhora disse “ulhando o campo”. Eu nunca tinha ouvido tal palavra, achei que seria “olhando o campo” mas ela insistia tanto, disse tantas vezes a palavra e com tanto cuidado que eu, depois de inúmeras hesitações, acabei por me decidir e escrevi mesmo “ulhando”.

Pois se ela era a senhora professora e já tinha pronunciado a palavra algumas dez vezes, eu é que devia estar com falha de preparação.
Não estava, mas como esse foi o meu único erro, safei-me.

 
Nota: era bom que alguém explicasse aos alunos que hoje não puderam fazer exame que foi por uma boa causa, e que há questões de cidadania que não têm que ver com o “safar-se” de cada um.

14 de junho de 2013

Tudo isto existe

Pode passar meio século sobre um grupo de pessoas que nada nele muda.

E o grupo não muda porque as pessoas individualmente não mudam.

As condições de vida podem variar um pouco, mas a circunstância em que nascemos e crescemos nos nossos primeiros anos fica-nos para sempre colada à pele.

Pode-se crescer e mudar emocional e intelectualmente, mas a essência de cada um permanece.

Assim, tensões, cumplicidades, dissimulações, e, o mais espantoso, a luta de classes, continuam, sem que os elementos do grupo disso se apercebam (a maioria nunca se apercebeu, aliás).

Contudo, o que era divertido e normal aos 15 anos pode ser deplorável aos 60.

Passados 50 anos, olhar um grupo que a juventude juntou aleatoriamente é o mesmo que olhar um país inteiro, que, vivendo um momento particularmente difícil da sua história, se divide entre os que fazem de conta que nada se passa, assobiam para o lado e alimentam a portuguesíssima saudade, e uns quantos que esperneiam querendo agitar uma paz podre que, se umas vezes é de cemitério, outras é de jardim-de-infância à hora da sesta.
Vencem os primeiros, por serem largamente maioritários.

Sei que tudo isto existe, acho triste, só não sei se é fado.

13 de junho de 2013

O Mediterrâneo já está a arder?


 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Espanha, Itália, Grécia, Chipre, Turquia, Síria, e Portugal mais ao lado.

A brutalidade do que está a acontecer aos povos destes países faz pensar que estamos diante do desastre bíblico dos tempos modernos.

Num mesmo dia, vi o governo grego fechar a rádio e a televisão públicas, Erdogan não olhar a meios bélicos para retirar os turcos em protesto da praça Taksim, e o nosso pequenino Crato, que tem pena de não ser um Samaras ou um Erdogan a afiar os dentes, qual lobo esfaimada, contra os professores.

Ninguém dialogou, ninguém negociou, ninguém quer conversar. São todos ditadores, legitimamente eleitos (onde é que já ouvimos isto?), ao serviço dos credores, das troikas, dos seus projectos pessoais de poder, ou da religião.

Se algum dos políticos europeus se lembrar de perguntar “O Mediterrâneo já está a arder?” a resposta é, indubitavelmente – SIM.

O fogo está, por agora, circunscrito, mas ameaça ficar fora de controlo a qualquer momento. Acresce que, devido às medidas de austeridade na Europa, os bombeiros foram despedidos.

Sem combate às chamas, e com a barreira do mar a Sul, o fogo dirigir-se-á, inexoravelmente, para Norte, e a Europa corre o risco de ser engolida pelas chamas.

O Mediterrâneo já está a arder.

Nota: a fantástica imagem ali acima foi encontrada no Facebook, postada pela página Reflections on a Revolution, dedicada aos acontecimentos na Turquia, e tem com legenda em inglês:

If even grandma is attacking you, you definitely know you're on the wrong side..

12 de junho de 2013

Nicolau foi a Veneza

Não queria, juro que não queria voltar a falar disto, mas sou fraca.

Lendo o Atual do Expresso de 8 de Junho, topo com uma página inteirinha e laudatória dedicada à nossa Joana na Bienal de Veneza.

O texto deixava muito a desejar, mais parecia um panfleto publicitário carregado de banalidades e de afirmações encomendadas do tipo “o país sai honrado pela escolha de Joana Vasconcelos”.

A meio da leitura já eu me interrogava sobre a sua autoria – o escriba, afinal, era Nicolau Santos, o homem da economia, que “viajou a convite de Pré-Build”.

Ok, entendido.

Porém, uma dúvida me fica: será que o Celso Martins, ou o José Luís Porfírio, que costumam escrever sobre arte no Expresso, não quiseram ir?

Ou será que o Nicolau agarrou no convite e pensou: eu é que sou o director-adjunto e não vou perder esta borla com tudo aquilo a que tenho direito – viagem, jantar feito pelo chefe Avilez e degustado na companhia dos manos Portas, concertos e Dj no tombadilho do cacilheiro atirando música aos canais pela noite fora.

Com a dúvida ficarei, mas daqui te saúdo Joana, por fazeres tantos amigos felizes.

11 de junho de 2013

Estamos vivos

O fim de semana grande decorreu sem sobressaltos.

Continuou o tempo cinzento com chuviscos, Passos foi assobiado em Elvas, Aníbal aconselhou-nos a fazer desporto, Maduro disse mais umas parvoíces convencido que tem graça, e a Teresa Tarouca foi condecorada, provando-se assim que na casca dos fósseis também é possível pôr comendas.

Fartinha de tanto humor negro, também eu tranquei portas e janelas, desliguei a internet e fui para Serralves.

Encontrei lá muitos milhares, que era dia de festa, e pareceu-me que estávamos todos em busca duma normalidade perdida há demasiado tempo; o mesmo se passou depois na Feira do Livro de Lisboa, alameda acima alameda abaixo, milhares e milhares, todos com cara de quem pensou: queremos as nossas vidas!

Desejosa que estava de ver as exposições de Serralves, confesso que saí um bocadinho desiludida.
− Alberto Carneiro, ainda que mal lhe pergunte, tantos espelhos é para quê? E não lhe parece que anda a ver a natureza demasiado barroca?

Quanto aos desenhos de Jorge Martins, que os há magníficos, pareceu-me que talvez o artista tivesse tido necessidade de despejar o ateliê para pintar as paredes, e aproveitasse, para isso, a exposição de Serralves, com a conivência da curadora, claro está.
Eram centenas de desenhos. Por serem tantos, poluíam o espaço, não nos deixando margem para fruir. Uma pena.

Na Feira do Livro de Lisboa fiz o que sempre faço − comprei clássicos a menos de 5 euro, e gosto disso.
Entre Serralves e a Alameda do Parque pareceu-me que ainda estamos vivos.
E também gosto disso.

Do morto-vivo que falou de agricultura no 10 de Junho é que não gosto, nem vale a pena falar.



 

7 de junho de 2013

Estou indo
























Faça chuva ou faça sol, vou daqui até Serralves para ver Alberto Carneiro, Jorge Martins e quem mais quiser mostrar-se.
Bom fim-de-semana.

 
Imagem daqui


6 de junho de 2013

Não comprei "Servidões"



 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Acredito que Herberto Helder é um excelso poeta.
Acredito que eu sou demasiado “quadrada”para o ler com deleite.
A partir daqui, já não acredito em mais nada, mesmo correndo o risco de estar enganada:
Não acredito que a edição esgotou.
Não acredito que não haverá nova edição.
Não acredito que todos os que comparam “Servidões” estejam mortinhos por o ler.
Ah, afinal sempre acredito em mais qualquer coisa:
Acredito no marketing e nas suas artimanhas.


5 de junho de 2013

Pior é impossível


Eu já elegi a pior frase do primeiro semestre de 2013, porque me parece que daqui até ao fim do mês pior é impossível. Embora...

Mira Amaral sentenciou:

“Se a Alemanha gosta de Victor Gaspar, também temos que gostar”

Percebo que não há nesta “posição” nada de novo.
Quando a Alemanha toda gostou do Hitler, ”aconselhou” os outros povos a que gostassem também.
Uns resistiram, e outros baixaram as calças.

É estúpido comparar hoje o exercício do poder de Schauble com o de Hitler porque, na verdade, não há comparação possível.

Já quanto aos que baixam as calças diante de quem pode, difícil é não comparar, porque são todos iguais em qualquer tempo ou lugar.
E são execráveis.


4 de junho de 2013

Como?

Esta notícia do Público titula: Professores alertam para "sério retrocesso" com novo programa de Matemática.

A gente vai por ali afora a ler a notícia, e percebe que Associação de Professores de Matemática (APM) não podia estar mais em desacordo com o programa que Nuno Crato decidiu impor em Abril para entrar em vigor já em Setembro. Diz a APM, por exemplo, que o programa entra em “completa contradição” com a visão defendida pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico e que também “contraria as orientações curriculares actuais para o ensino da Matemática a nível internacional, não tendo em conta a investigação desenvolvida neste domínio, quer em Portugal, quer nos países de referência nesta matéria”.

No último parágrafo da notícia, porém, leio estupefacta:

“Já a Sociedade Portuguesa de Matemática (SPM), de que Crato foi presidente, defendeu no seu parecer que a implementação do novo programa da disciplina “será decisiva para que se atinja um patamar de exigência mais elevado, cujas consequências benéficas serão, a prazo, sentidas pelos níveis de ensino secundário e superior, e pela sociedade portuguesa em geral”.

Como? Então, duas organizações que têm o mesmo tema de estudo chegam a conclusões opostas? Uma delas há-de estar, no mínimo, a ser pouco séria.

Se calhar devíamos pedir uma 3ª opinião para desempatar, talvez ao ministro da educação finlandês.
Ou deveríamos antes pedir à troika que fizesse o programa de matemática?

É que me parece que alguma coisa tem de ser feita para salvar as nossas crianças dos bandos de mentecaptos que, a cada momento, se perfilam para jogar à batota com o seu futuro.

3 de junho de 2013

Pequena mas muito incorrecta reflexão, e consequente decisão.

A manifestação de sábado foi um poderoso fiasco nacional.

Pode haver mil argumentos que o justifiquem, mas quando eu estava ali na Avenida da República, frente ao FMI, numa tarde de sol, com mais umas mil pessoas pensei:

- Onde estarão as dezenas de milhares de desempregados, aqueles sem futuro que são velhos para trabalhar e novos para a reforma?
- Onde estarão as dezenas de milhares de jovens que ainda não conseguiram um primeiro emprego?
- Onde estarão as dezenas de milhares de trintões que nunca foram mais que precários?
- Onde estarão as dezenas de milhares de reformados a viver uma asfixia mensal?
- Onde estarão os milhares de casais em que ambos estão desempregados?

Não sei. Só sei que ali não estavam.

Talvez tivessem ido à praia, que o dia, finalmente, estava bom; ou levaram os meninos ao parque porque era o dia da criança.

Mas ali não estavam.

A pergunta seguinte foi inevitável: e tu, que não vives nenhuma dessas situações, que estás tu aqui a fazer?
Devo ter vindo por uma questão de consciência, pensei.

Mas aí a dita, a consciência, percebeu que estava ofendida com as outras consciências, e decidiu, ali mesmo, que enquanto não lhe passar a zanga não carrega o esqueleto para mais nenhuma manifestação.

Moral desta história imoral:

Não foi por acaso que, aqui, a ditadura, durou 48 anos.
Foi porque somos um povo que a tudo se acomoda.


1 de junho de 2013

31 de maio de 2013

Uma fotografia



 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Uma amiga virtual do Facebook que publica muitas fotografias, maioritariamente antigas, postou há tempos esta.
Eu não me canso de olhar para ela(s), e volto sempre.
Bom fim-de-semana.

30 de maio de 2013

Uma verdade elementar

Quem anda por aqui, perto de mim, gosta de me gozar dizendo que eu tenho um ódio de estimação por Jorge Sampaio.        
Não é verdade.

É certo que ele foi uma das pessoas que mais me desiludiu em política, e também continuo a achar que muitos dos males que vivemos hoje têm origem em decisões suas. Porém, isso não é nenhum ódio, muito menos de estimação. Foi apenas um desacordo político, embora dos grandes.

Desde que saiu da presidência, Sampaio remeteu-se ao silêncio sobre o país.
Até agora, quando, logo após o Conselho de Estado, deu uma entrevista a Maria Flor Pedroso na Antena 1 da RDP.

Nessa entrevista falou acertadamente, com base num pensamento político sólido, como lhe é próprio, mas sem proferir, sequer, uma frase susceptível de ser largamente citada ou tomada como bandeira.

O mais importante dessa entrevista, quanto a mim, foi o não-dito.

Creio que, com este seu reaparecimento, Jorge Sampaio tentou, in extremis, que os portugueses não esquecessem uma verdade elementar − a Presidência da República é um importante órgão de soberania que pode, e deve, ser ocupado e exercido com dignidade.

29 de maio de 2013

O incorruptível contra a corrupção

Paulo Morais é figura incontornável das redes sociais. Ele escreve e as pessoas partilham.

Não sei muito sobre este português, a não ser o que li aqui, mas parece-me que tomou a peito travar uma inquebrantável luta contra a corrupção.

Só tem um problema, para mim: é que essa luta parece ser travada contra a corrupção real, a putativa e a imaginada.
O seu artigo de ontem no Correio da Manhã é, como outros, todo um exercício prático sobre a teoria da conspiração, e um elencar de males que o destino nos reserva.
Contra o destino, como se sabe, nada podemos.

Ler sistematicamente Paulo Morais pode levar qualquer cidadão a:
- Cortar os pulsos.
- Tomar drogas duras tipo Valium ou Xanax, e outras cujo nome desconheço, por incapacidade de conciliar o sono.
- Sair de casa sempre armado porque nunca se sabe quando se vai encontrar um corrupto ou uma despesa inútil.

Porém, atenção, caros compatriotas: quem entrar por estes caminhos não verá, como eu tenciono ver, Paulo Morais chegar primeiro a secretário de estado, e, lá mais para a frente, a ministro, que ele ainda é novo e como se diz na minha terra, “faz-se”.

28 de maio de 2013

Trindade santíssima

Estava o Ministro dos Negócios Estrangeiros dum sítio sem liquidez às voltas com o magno problema de saber como resolver, sem cheta, a questão da representação do sítio na Bienal mais famosa da Europa quando lhe surge, vinda do tudo, a artista Joana que lhe diz duma assentada:

- Olhe, senhor ministro, aqui no sítio, como toda a gente sabe, “a artista sou eu” e eu quero ajudar a resolver o seu problema; por isso desde já me ofereço para representar a pátria lá na Bienal e o senhor ministro pode deixar de se preocupar que eu arranjo os patrocínios e tudo. Só lhe peço que indigite também o Miguel como comissário do nada, porque ele é um comissário muito lá de casa, sabe, e gostava.

Como todo o sítio já pôde observar, tudo em Joana é grande, incluindo o coração de talheres de plástico, e por isso ela acrescentou palavras vindas do dito:

− E olhe que ainda lhe faço mais uma atençãozinha, porque vou oferecer à sua mana Catarina a loja no deck do barquito para ela lá vender as bugigangas da A Vida portuguesa.

O Ministro dos Negócios Estrangeiros soltou um suspiro que se ouviu na laguna e fechou o dossiê, não sem antes agradecer a mais que certa intervenção de Nossa Senhora de Fátima (este ministro, quando a coisa mete água e barcos agradece-lhe sempre, desde que em 2003, sendo também ministro, a mesma Senhora nos livrou do derrame de crude do Prestige, segundo o próprio).

Pessoalmente acho que, com um final feliz assim, o país inteiro deve agradecer à Senhora de Fátima mas eu não ficaria bem com a minha consciência se não lhe recomendasse também muito cuidado e olho vivo.

É que, sendo ela tão portuguesa, arrisca-se a que a Catarina a meta no cacilheiro e a venda em Veneza entre vinhos, enchidos, bordados e andorinhas.
Ou que a Joana a forre com renda de bilros.

PS: acho tudo uma vergonha.


27 de maio de 2013

Jornalismo de investigação

Quando há poucos anos o WikiLeaks fez o seu estrondoso aparecimento nas nossas vidas, sob o aplauso quase geral dos jornalistas e ocupando imenso espaço na informação, não percebi tanto entusiasmo sem pitada de dúvida.

Sem negar a relevância da informação exposta, sempre me pareceu que ela tinha sido obtida como quem espreita o vizinho pelo buraquinho na parede.

Se calhar, até hoje ainda não percebi nada, visto que, até hoje, continuo a achar a mesmíssima coisa.

Ora, essa mesmíssima coisa não aconteceu quando este fim de semana, através do Expresso, tomei conhecimento da existência duma organização de jornalistas que dá pelo nome de International Consortium of Investigative Journalists (ICIJ).

Com sede em Washington, congrega 160 jornalistas de 60 países e está a fazer um importante trabalho sobre offshores, seus criadores e utilizadores.

Esta organização dedica-se ao sector (talvez) mais nobre do jornalismo − o jornalismo de investigação, cada vez mais escasso nos meios de comunicação social de todo o mundo.

Rui Araújo, jornalista português pertencente ao ICIJ desde o seu início, afirma no Expresso – “sem jornalismo não há democracia”, e eu acho que sem jornalismo de investigação ela fica pobrezita e periclitante.

Provavelmente, esta escassez de jornalismo de investigação tem que ver com o seu elevado custo face ao baixo interesse do chamado “público”, que, na sua imensa maioria, e cada vez mais, se está borrifando para a investigação e a informação séria e rigorosa.

Sei muito bem que o que estou para aqui a escrever também não interessa nada ao estimado “público”; por isso este post serve apenas para dizer que gostei muito de tomar conhecimento da existência do International Consortium of Investigative Journalists (ICIJ), e que, às vezes, gosto mesmo de ainda gastar dinheiro a comprar jornais.

24 de maio de 2013

A dona da greve

Ontem vi na televisão Ana Avoila, de CGTP, a dizer que marca a greve da função pública quando quiser e não tem que dar contas a ninguém, naquele jeito um bocado labrego que lhe é peculiar.

Quando ela desapareceu do ecrã fiquei a pensar que já não me basta indignar-me diariamente com o governo, com a oposição, com o Presidente da República, com a Justiça, com os bancos, com a Europa etc., ainda tenho de passar a indignar-me também com os sindicalistas. Malapata.

As Avoilas que povoam os nossos sindicatos são, mais ou menos, como os jotinhas, isto é, fazem toda a sua vida dentro da organização que os sustenta, vão ganhando poder, e quando já ocupam lugares com poder de decisão também não se atrapalham - decidem de acordo com o parecer do seu umbigo, indiferentes a uma realidade que desconhecem porque não a frequentam.

Ana Avoila é apenas mais uma que parece não entender nada do sentimento dos portugueses que ainda têm trabalho, e que querem uma greve tão grande quanto possível, para que tenha significado, peso político, e para que valha a pena o sacrifício que fazem e o que impõem.

Ana Avoila quer apenas a sua grevezinha, por si decidida e manobrada.
Ana Avoila é poucochinha.
Ana Avoila, a sindicalista, está tão impreparada para o tempo que vivemos como o governo.
Ana Avoila está há demasiados anos sem trabalhar.
Está só no sindicato.


23 de maio de 2013

Quem sai aos seus...

A entrevista que o pai de Passos Coelho deu ontem ao i é todo um programa do que não se deve dizer e, bem pior, do que não se deve ser.

Falta de tacto, de inteligência, de respeito, de chá, de carácter, mas muita vontade de ter os seus quinze minutos de fama.

Com um pai assim, um filho poderia ser diferente daquele que conhecemos?
Podia, mas era necessária, ao longo dos anos de educação, a intervenção e inspiração divinas de Nossa Senhora de Fátima, o que, manifestamente, não aconteceu.
Merecem-se.


22 de maio de 2013

Ó meus, é tudo para partir!

















Canoagem "chocada" com "corte cego" de 20 por cento no alto rendimento


Eu não percebo porque é que ainda se chocam. Estavam à espera que o quintal deles fosse poupado? Ainda não perceberam que é tudo para partir?
Que é para voltarmos a ser pobrezinhos, analfabetos, doentes e, ainda por cima, agradecidos?

Ó raios, tem povo que é cego.

21 de maio de 2013

Um cascudo no Cascada, ou a Alemanha na Eurovisão

Como a maioria dos portugueses, julgo, não pus nem um olho nem um ouvido no Festival da Eurovisão. Porém, ontem li uma divertida notícia no Público. Parece que a Alemanha foi olimpicamente ignorada por 34 países dum conjunto de 39, donde resultou uma classificação fraca e que produziu desconforto em quem se julgava favorito.

Thomas Schreiber, coordenador da estação de televisão pública ARD, comentou que “há obviamente uma situação política a ter em conta. Não quero dizer que foram 18 pontos para Merkel, mas temos de ter noção de que não foram apenas os Cascada [a banda concorrente] a serem julgados naquele palco, mas toda a Alemanha”, comentou, citado pela agência Reuters.
“É inexplicável”, disse o comentador Peter Urban. “Será que as pessoas não gostam de nós?”, perguntou Urban, antes de responder “há alguma verdade nisso.”

Foi bom rir com esta notícia, imaginando os alemães com uma casca de ovo na cabeça, armados em Calimero, choramingando que “é uma injustiça”.

Percebo que depois de intoxicados com a propaganda da Merkel e companhia, que lhes enfiou pelas goelas abaixo a ideia de que somos preguiçosos e que eles estão a gastar imenso dinheirinho connosco, não percebam o desamor demonstrado (coisa que nem sei se foi verdadeira mas, pelo menos, os homens citados sentiram com tal).

Não tenho muitas esperanças, mas gostava que, aos poucos, o povo alemão fosse deixando de acreditar em tudo, mas absolutamente tudo, o que os políticos lhe dizem.
Até porque já se viu que isso pode dar maus resultados.


20 de maio de 2013

Às vezes, o que se escreve é triste

No Expresso online de ontem, Henrique Monteiro compara os chorudos salários e prémios duma gestora do falido Banif, em que o povinho meteu recentemente 1100 milhões de euros, com os disparatados salários dos treinadores de futebol, e pretende dizer-nos que é tudo igual, só que nós, pobres tontos, nem damos por isso.

Ora, acontece que não é tudo igual.

O falido Banif e a sua gestora Conceição Leal, não fizeram nada por ninguém a não ser por si próprios; quanto aos clubes de futebol, se é certo que pagam salários extravagantes e que também vão recebendo apoios do Estado, não é menos certo que, melhor ou pior, e com muito desporto gratuito para crianças e jovens, os vão retribuindo à sociedade.

Os clubes não são só futebol, longe disso, embora o dinheiro venha, sobretudo, do que o futebol conseguir gerar.

Querer comparar o retorno do trabalho de Conceição Leal, que foi um desastre, com o retorno do trabalho de Jesus ou Pereira é mais ou menos o mesmo que querer “comparar o cu com a feira de Borba”.

A importância social do Banif não é comparável à do Benfica, Porto, Sporting ou mesmo do Clube da Ervilha.
Henrique Monteiro sabe-o melhor que eu, mas deve achar que ser populista não tem mal, desde que o seja com os ordenados do futebol que toda a gente critica porque são, de facto, criticáveis.
E se, pelo meio, der um ar de esperteza e de homem que vê mais longe do que os outros todos, tanto melhor.
Não, futebol não é santo, como já vi por aí, e pratica salários pornográficos, mas não, também, Henrique, não é a mesma coisa.

Quem está interessado em branquear a banca e os bancários de luxo que tanto agradam aos banqueiros, usando candidamente os seus próprios (deles) argumentos?