30 de dezembro de 2011

Princesas e desempregados

No dia 4 de Maio 2011 publiquei um pequeno post sobre o hobby de fazer plásticas que Letízia Ortiz adquiriu, enquanto o número de desempregados em Espanha ia subindo, e já era de 5 milhões na altura.

Nunca imaginei que a realeza tivesse tanta procura. Passados todos estes meses, continua a ser um dos meus escritos mais vistos, o que quer dizer que a procura no Google é grande.
Em verdade se diga que o maior número de pesquisas vem do Brasil e vem às revoadas, ou seja, há dias de acalmia e dias de loucura. Presumo que isso tenha que ver com as notícias que vão saindo na imprensa cor-de-rosa, mas só presumo.

Pesquisa-se sobre o biquíni, as mãos, as brigas com a sogra e as cunhadas, as fotos do Natal, o casamento malparado e eu, confesso, acho muito esquisito estar metida no meio disto só por ter um blog(uinho) que fala quase sempre de política.
Certo é que ninguém me mandou misturar alhos com bugalhos, neste caso, princesas com desempregados.

Agora já aprendi que há temas que não se devem misturar sob pena de estar a defraudar o incauto leitor, se não mesmo a fazê-lo perder o seu belo tempo que podia e devia ser, exclusivamente, gasto com as princesas.
Os desempregados formam um grupo chato e não pesquisável, ao contrário das princesas.
Aprendi.

29 de dezembro de 2011

Dores

No blogue pegada, Luís Moreira escreve sobre a falta de planeamento no Serviço Nacional de Saúde e os seus malefícios.
Ao que ele escreve, eu acrescentaria “desvios”, corporativismos, má gestão e abusos graves da parte de todos – prestadores do serviço e seus utentes.

O nosso SNS foi-se tornando, em 30 anos, a menina dos nossos olhos, com médicos e outro técnicos competentes e atualizados, tecnologia moderna, atendimento universal e quase gratuito.
Era algo de que todos nos orgulhávamos e que, na generalidade, merecia a nossa confiança, mas estamos agora a começar a despedirmo-nos dele tal como o conhecemos.
Acredito que se pudesse fazer o mesmo com menos, mas dizer que se vai fazer “mais com menos” é demagogia rasteira e relapsa, e o resultado está a começar a aparecer.

Como já disse, acho que desperdícios e abusos são da responsabilidade de todos, tendo-se tornado os utentes, ao longo dos anos, tão abusadores como os restantes agentes envolvidos.
Mas esse é o meu lado da barricada, e por isso me sinto à vontade para contar esta história verídica e bem ilustrativa do que digo.

Passou-se nos Açores, não interessa em que ilha, mas poderia passar-se em qualquer ponto do país.
Às 3 horas da madrugada os bombeiros recebem uma chamada dum homem que pede para o irem buscar porque está muito doente. Tentam saber o que sente mas o homem apenas repete que está muito mal.

Os bombeiros iniciam uma viagem de 30 quilómetros (por estradas açorianas correspondem a uma muito razoável viagem) e, chegados ao local, um homem abre a porta e identifica-se como sendo o doente urgente.
Quando os bombeiros perguntam o que sente responde com prontidão:
− Dói-me um dente.

Oxalá daqui em diante não nos doa mais que a alma, porque os padres ainda não cobram pela confissão mas os bombeiros já não têm dinheiro para o transporte.

28 de dezembro de 2011

Cupidez alemã

Na nossa imparável marcha para vendermos os dedos depois dos anéis, a EDP lá foi vendida aos chineses. O governo disse que ia privatizar, mas apenas mentiu mais uma vez; aquilo foi apenas a venda dum Estado a outro Estado.

Não lamento a venda à China, apenas lamento a própria venda.

Todos temos alguma desconfiança em relação à China, e eu não sou exceção. Sabemos que é um gigante, que crescerá cada vez mais, que em breve será o país mais poderoso do mundo, mas também sabemos que é uma ditadura de partido único, dito comunista, onde vigora o mais puro dos capitalismos selvagens. Tudo, portanto, um pouco estranho e muito, muito assustador.

Porém, fiquei contente por a venda não se ter feito à alemã E.ON.
As políticas punitivas e de miséria que a Alemanha nos impõe, mais os juros usurários que nos cobra, devem ter levado os alemães a pensar que aos miseráveis, aos famintos e aos sem esperança se compra tudo por bom preço e que, chegando a hora, eles abocanhariam a EDP por tuta e meia.

O chairman da E.ON, de seu nome Teyssen, chegou a dizer que “a criação de valor do investimento na EDP não justificava um aumento da oferta”.
Pois! Estão verdes… E eles só nos queriam fazer um favor.

Fico desconfortável com os chineses na EDP?
Fico.
E se fossem os alemães?
Bom, se fossem os alemães também.
A verdade é que, hoje em dia, confio tanto num membro da União a que pertencemos como num chinês.

27 de dezembro de 2011

Elites saloias








A Fundação Champalimaud foi criada por um doador português, a sua presidente é portuguesa, a sua sede é em Lisboa, capital da República onde se fala português, língua falada também, e em números redondos, por mais 250 milhões de almas em cinco continentes.

Porém, a identificar o edifício pode ver-se escrito, como a imagem o comprova - CHAMPALIMAUD CENTRE FOR THE UNKNOWN.
Mais adiante, como a imagem também o comprova, lê-se Champalimaud Centre.

Nada tenho contra a identificação em inglês dum Centro que se pretende internacional, mas achava natural que a identificação viesse em português e também em inglês. Contudo, de português, nem sombra.

Sinais de soberba saloia, estes de tão apressadamente abandonarmos  o nosso mais poderoso aglutinador – a língua.
Rejeitar a língua em que todos nos entendemos substituindo-a por outra (que é franca mas não deixa de ser outra) é rejeitar, à partida, uma parte de nós, é empurrar para baixo achando, levianamente, que se está a empurrar para cima.

O pensamento das nossas elites é, demasiadas vezes, tosco e apagado.
Nelas, só a ambição individual é grande.

26 de dezembro de 2011

A ver os comboios parados

Em época de Festas, os maquinistas da CP ofereceram uma bofetada e uma cuspidela aos portugueses pobres que queriam ir a casa no Natal.

Só os trabalhadores realmente pobres e deslocados foram seriamente afetados. Os outros, resolveram com outros meios.
IMPERDOÁVEL.

23 de dezembro de 2011

Faz de conta que é um conto

Natalino não era isento de defeitos, mas também não era um homem sem qualidades.
Era banal.
Nem alto nem baixo, nem gordo nem magro, nem novo nem velho, nem bonito nem feio. Tinha família, trabalho, um T2 acanhado, uma gabardina para os dias de chuva, um blusão para os dias amenos, um bigode aparado ao domingo, uns sapatos para a semana e outros para os dias santos.
Português típico, portanto, porque tinha dois pares de sapatos podendo e devendo ter só um.
Funcionário sem rasgos, sem angústias, sem paixões, amava pai e mãe, mulher e filhos com amor comedido, nem grande nem pequeno, nem quente nem frio. Banal amor parental que, nem muitas nem poucas vezes, o levava a desejar ser sozinho, livre, sem compromissos nem dependências penduradas na aba do casaco. O pior era o jantar, raio, quem é que depois lhe faria o jantar?

Em sonhos voava baixinho; só um deles o fazia voar longe e alto como um grou – o que eu gostava de ver uma aurora boreal, o maior espectáculo do mundo.
Sonhou no sono, sonhou na vigília, e até estranhou tão estranho e persistente sonho.
Achava, puro engano, que nunca tinha vivido acima das suas possibilidades e ponderou seriamente fazê-lo por uma vez.

P’ro Alasca e em força, Natalino, gritou calado na Portela num dia de Outono, cego com sol baixo do sul.
Na viagem, entre pratos e copos de plástico, a perna do vizinho e o jornal desfeito, dava palmadinhas na barriga, satisfeito, antevendo a enormidade do espaço, do tempo e da liberdade. Tudo seu.

Quando a tão esperada noite limpa chegou, com luzes de todas as cores voando-lhe sobre a cabeça, no meio dum encantamento pueril, perguntou gritando - Digam lá se não é mesmo o maior espectáculo que já viram?!
Ali não havia montanha, nem eco; apenas o mais imaculado e eloquente silêncio que já ouvira. De súbito, sentiu que aquele espaço, tempo e liberdade talvez fossem, afinal, demasiado grandes e agrestes. Pela primeira vez, sentiu frio, um frio às avessas, que vinha de dentro para fora.

Na viagem de regresso, já sem palmadinhas na barriga nem jornal desfeito, mas ainda com a perna do vizinho, os grafos que não espetam e as facas que não cortam, lembrou-se dum escritor esquisito. Quando o leu, há muito tempo, pensou, “mariquices”, mas afinal o esquisito talvez tivesse razão.
Quem era o homem e que é ele dizia mesmo, Natalino? Agora não me lembro mas com tanta lonjura tenho tempo de me lembrar.

Ao acordar, torcido, seco, e cheio de dores pela espinha toda, senhora hospedeira, por favor, um copinho de água, ah! já sei, era o tal Beckett que dizia A estrada é longa quando viajamos sós.”
Vamos lá, senhor comandante, prego a fundo, estou cansado, o vento está de feição e daqui a pouco é Natal.

22 de dezembro de 2011

Aprender a escrever, de novo

Em 11 de Fevereiro 2011, publiquei neste blogue um post sobre o Acordo Ortográfico mas, quem me leu de Fevereiro a Dezembro, percebeu que acabei por não obedecer nem ao computador nem ao Acordo.

Sei que a escrita já mudou muitas vezes e ainda mudará muitas mais mas, sinceramente, não vejo a utilidade deste acordo que serve, supostamente, para aproximar as escritas de Portugal e Brasil quando, de facto, o que nos separa, e dificulta o entendimento, é o léxico, e muitas vezes a sintaxe e a morfologia. (Daí os brasileiros já legendarem os filmes portugueses).

No que toca à ortografia em si, também não se percebe que raio de “unificação” é esta que permite milhares de grafias diferentes entre a variante europeia e a brasileira.

Tendo resistido, até aqui, ao uso da nova grafia, parece que não terei outro remédio senão adoptá-la (ou adotá-la), porque é oficial – em Janeiro (ou janeiro) entregaremos o ouro ao bandido (entenda-se aqui ouro como a língua portuguesa e bandido o negociador medíocre).

Trata-se, portanto, de encerrar o ciclo da resistência, o que talvez até nem seja mau de todo; talvez seja sensato que se guardem as forças de “resistência” para a outras coisas bem mais importantes e urgentes que um apalermado Acordo Ortográfico.


Nota: No Portal da Língua portuguesa encontra-se o Vocabulário da Mudança, que pode ser útil a todos no início deste tempo em que teremos que aprender a escrever, de novo.

21 de dezembro de 2011

Submarino ao fundo

Segundo notícia do Público de ontem, terminou na Alemanha o processo contra a Ferrostaal, empresa que vendeu submarinos a Portugal e Grécia. A empresa (que reconheceu as práticas ilegais) bem como dois seus ex-gestores, foram condenados, e deu-se como provado que gastaram 62 milhões de euros, entre 2000 e 2003, a corromper alguém nos dois países.

O tribunal também deu como provado que os mesmos senhores pagaram como suborno 1,6 milhões de euros ao ex-cônsul honorário de Portugal em Munique, Juergen Adolff.

Bom, mas aqui, como diria o outro, é só fazer as contas: se o sr. Juergen Adolff recebeu 1,6 milhões dum total de 62 milhões, ainda sobram 60,4 milhões. Para onde foram? Mesmo admitindo que os corrompidos gregos são mais caros que os portugueses, parece lícito admitir, como mera hipótese teórica, que alguns milhões terão servido para corromper alguns portugueses no tempo do governo Durão/Portas.

Este meu raciocínio – se há corruptores, há corrompidos e seria bom investigar, deve ser completamente estúpido; tanto quanto sei, o nosso Ministério Público não entendeu nada disso e apenas tem a decorrer um processo relacionado com as prometidas contrapartidas alemãs.
Entende-se. É apenas uma questão de submarinos.
Ainda se houvesse robalos!

  

20 de dezembro de 2011

"A Natureza-Morta na Europa

Já não há muito tempo para ver esta imperdível exposição que o Museu Calouste Gulbenkiam exibe só até 8 de Janeiro 2012.

Com obras que vão de 1840 a 1955, não é todos os dias que podemos ver originais de Van Gogh, Cézanne, Magritte, Monet, Manet, Matisse, Juan Gris, Renoir, Picasso ou Braque.

Quanto à organização da exposição, pode ler-se no desdobrável (gratuito) que a acompanha:

A mostra não está organizada cronologicamente. Preferiu-se uma distribuição por temas, abordados em doze núcleos que exploram a diversidade de representação das “coisas”, deixando a escolha de um itinerário ao visitante.

Talvez por haver muito público, e a circulação não ser fácil, fica-me a dúvida se esta opção terá sido a melhor. Nada de novo, portanto; as opções do curador são sempre tão discutíveis como importantes para a leitura da exposição.

O público é muito e de todas as idades, felizmente, pelo que, a fila para entrar custou-me cerca de meia hora. Nos últimos dias promete ser pior.

Poderia agora puxar para aqui velhos lugares-comuns referindo a importância do “alimento do espírito” na dureza dos dias. Não o vou fazer.
Só que, por acaso, é mesmo verdade.


19 de dezembro de 2011

As meninas e as suas crónicas

Quando digo que nunca vi, nem passei perto, da Casa dos Segredos, as pessoas dividem-se em três grupos:
- As que acham que estou a mentir
- As que acham que sou snobe
- As que acham que estou a mentir e sou snobe.

Porém, é completamente verdade. A partir do primeiro Big Brother, percebi que, no género, as coisas só podiam piorar, e passei a seguir à letra a resposta que os liberais gostam de dar: ninguém é obrigado a ver, é só mudar de canal. Assim faço, mas ninguém acredita.

Contudo, também tenho a minha costela masoquista, que me leva a ler, todas as semanas, as crónicas de Ana Markl e de Inês Lopes Gonçalves, no Atual do Expresso.

A primeira baptizou a sua coluna de Procrastino Amanhã, o que me devia fazer logo procrastinar a leitura; mas não, teimo em meter-me por dentro daquilo que talvez seja “cultura pop”, sei lá, não tenho a certeza, ainda não percebi.
A segunda dedica-se à televisão, em crónicas ligeiríssimas sobre programas de alto gabarito, ao que me parece.

Ambas pretendem ser modernas, mordazes nas suas veladas ou claras críticas, mas cá a mim parece-me que estão a escrever um blogue dirigido a uma faixa etária que vai dos 18 aos 30.
Se a ideia é essa, juro que encontro na internet uma mão cheia de gente que o faz melhor; se a ideia não é essa…então, não sei qual será.

Porque continuo a lê-las todas as semanas? Bom, talvez eu não seja só masoquista; talvez esteja a torcer para que melhorem e sejam sinal duma nova geração de mulheres jornalistas com escrita forte e pensamento estruturado.

Ainda não aconteceu, mas nem por isso perco a esperança.
Força meninas, ao trabalho.
Eu, cota, vou continuar a autoflagelação até que um dia, que não hoje, as possa aplaudir.

18 de dezembro de 2011

Repulsa

Já é segunda vez que nos mandam emigrar. Desta vez foi o primeiro-ministro em recado aos professores.

Único sentimento possível: repulsa, por um governo que está morto por se livrar da nova geração, ou seja, morto por se livrar do futuro.

Este governo é doente, psicótico, autista, maníaco e desumano.

Já não basta a desgraça de termos caído num buraco, ainda faltava o salva-vidas a empurrar para baixo.

Repulsa e nojo por este governo. O tempo da indignação, já foi.

17 de dezembro de 2011

Ó p'ra ele


















Expressão e enquadramento.

Eu não resisti a rapinar esta imagem do Público de ontem, pensando no delicioso percurso deste homem: de jornalista traulireiro a homem da lavoura, de ministro dos submarinos a Paulinho das feiras e daí para Ministro dos Negócios Estrangeiros e Homem de Estado.
Um dia se fará a história.
Fará?

16 de dezembro de 2011

"O Chalet da Memória"

“ A seriedade moral na vida pública é como a pornografia, difícil de descrever mas imediatamente identificável quando a vemos.”, diz Tony Judt neste livrinho.  Já imobilizado, vai abrindo gavetas da sua memória e dita pequenos ensaios sobre o que o que viveu e pensou. Os temas são tão variados como: Maio 68, Comida, Crise da Meia-idade; Kibbutz, Cambridge ou Comboios.

Delicioso, para maiores de 50.


15 de dezembro de 2011

Lixo para debaixo do tapete

Segundo li há dias, o novo governo espanhol de Mariano Rajoy prepara-se para aceitar a prestimosa sugestão de BCE para baixar o salário mínimo em Espanha, que é actualmente de 641 euros, para 400 euros.
Estou mortinha por ver como vão os espanhóis responder a isto. Espanhol “tem pelo na venta”, não é cordeiro manso como o português, daí a minha curiosidade pela sua reacção se se vier a confirmar a redução do salário mínimo.

Ao contrário do que costumo ler por aí, parece-me que, dentro desta crise, e quando há eleições, os povos não querem simplesmente castigar o governo que está, querem mudar seja para o que for. Se o governo é de “esquerda” socialista, muda-se para o de direita e, com o passar do tempo, estou convencida que a maioria dos governos de direita que têm governado o continente europeu, quando tiverem eleições cairá também, optando os eleitores pelos que se dizem de esquerda, seja lá isso o que for.

Mudar, mudar, é só o que as pessoas querem, não prestando grande atenção ao que a mudança trará no ventre.
As viragens à direita nos casos de Portugal, Espanha ou Reino Unido deviam vir com o slogan – “Os Pobres que Paguem a Crise”, para que ninguém fosse ao engano.

Mas isto só se aplicaria aos que ainda ganham alguma coisa, pois os que perderam tudo e caíram na rua estão a ser tratados como lixo que se empurra para debaixo do tapete, como acontece em Marselha, Hamburgo e na Hungria.

A governação europeia pode, hoje em dia, resumir-se em três simples decisões:
Os pobres pagarão a crise, o lixo varre-se para debaixo do tapete mas salvaremos a City!


Nota: foto retirado do blogue ESQUERDA.NET com link neste post.

14 de dezembro de 2011

Íntimos conflitos

Na cultura de esquerda, em que julgo incluir-me, entende-se que ninguém deve precisar de pedir esmola. Os que são menos capazes de tomar conta de si (que os há em todas as sociedades e não são meros preguiçosos) devem poder contar com estruturas de apoio criadas pelo Estado, isto é, todos nós, quer para as necessidades mais imediatas, quer para ajudar a restruturar a vida e a criar uma via autónoma para ela.

A esmola, sempre a entendi como a humilhação do pedinte e um acto de alívio da consciência do próprio doador.
Caridade, irmã consanguínea da desigualdade

Durante anos, num Portugal democrático que foi construindo o seu estado social, pude conviver pacificamente com estas convicções, até porque o confirmava observando vizinhos que, sendo bastante pobres, tinham o básico para uma subsistência digna recorrendo a algum trabalho (o possível), mas também a apoios que a sociedade lhes disponibilizava.

Pagando todos os impostos que me cabiam, foram anos felizes, sem conflitos entre a consciência e o seu mero alívio.
Os tempos mudaram e os pedintes são cada vez mais nas ruas das nossas cidades. Calculo que a situação irá ainda piorar, e aqui estou eu, de novo, com os meus dilemas esquerdistas.

Mais frequentemente do que julgaria possível, dou comigo a procurar uma moeda para dar a alguém. Como os escolho entre tantos? Não sei, é um mistério para mim; fico mais bem-disposta com a acção praticada? Nem por sombras.

E vêm-me à memória palavras de Ian McEwan em “A Criança no Tempo”:

Não dar implicava um certo afastamento de olhos do infortúnio privado.
A arte de mal governar consistia em cortar o cordão entre actuação pública e sentimento íntimo, o instinto do que estava certo.

13 de dezembro de 2011

"Um Método Perigoso"

Como não sou uma Cronenbergiana, ao contrário dos que o são, achei “ Um Método Perigoso” um filme não apenas bom, mas perfeito.

Sendo uma adaptação duma peça de teatro, há nele, de facto, qualquer coisa de teatral, o que não me impede de o achar um filme belíssimo, denso e inquietante.

Da direcção de actores à reconstituição de ambientes da Belle Époque, da luz aos figurinos (ai os vestidos brancos da Keira Knightley) dos diálogos às interpretações, tudo tem o charme discreto da perfeição.

Se o filme parece plácido, é puro engano. Por baixo da aparência fervilha o mundo das contradições e pulsões do ser humano, nas pessoas de dois homens que a partir do início do século XX influenciaram de maneira drástica a forma de ver as pessoas, a sociedade, a religião, o sexo, as perturbações mentais – Sigmund Freud e Carl Jung.

Estes dois homens, que criam uma amizade e sintonia de pensamento que, aos poucos, se vai esboroando, são encarnados na tela por dois actores, Viggo Mortensen e Michael Fassbender, que nunca se afastam da excelência no seu trabalho. Já Keira Knightley, no papel de Sabina Spielrein, fica muito lá para trás como, subjectiva opinião minha, é claro, sempre acontece.
(Ela parece não saber o que fazer com tanto maxilar inferior).

Há quem goste, e quem saia desiludido. Para mim, é um dos grandes filmes do ano. Mas eu não sou Cronenbergiana, já disse.

12 de dezembro de 2011

Facebook

Ser figura pública no Facebook é ter o ego permanentemente no spa.
Ele (ou ela) levanta-se de manhã, escreve "bom dia" e tem logo 200 Gosto.
Se insinuar que está vagamente aborrecido tem 100 comentários a animar (que isso sempre dá um pouco mais de trabalho e pede investimento).
Se fizer anos, é felicitado por metade do país. Se tiver uma obra em gestação já tem 500 Gosto antes de se saber o que sairá dali.
Salamaleque, salamaleque, salamaleque.

Como, por lá, a privacidade é uma batata, a gente pode saltar do amigo para o amigo do amigo do amigo, sempre por aí afora, e ficamos a saber o que cada um quiser dizer da sua vida, mesmo que não façamos a menor ideia de quem seja a criatura.
É isso que eu faço, e assim me divirto, porque no Facebook sou uma verdadeira misantropa – 59 "amigos", imagine-se.

Opto, então, por saltitar e assim percebo que há alguns “amigos” e amigos dos amigos que só publicam política, e fazem do FB um verdadeiro e militante palanque partidário; outros, só falam de futebol; outros, devem passar o dia agarrados ao YouTube a descobrir o vídeo mais giro de todos e que ainda ninguém viu; outros, gostam de frases que aconchegam a alma; outros, publicam fotos do seu presente e passado; outros, entregam-se aos astros e seja o que os astros quiserem (são os do futuro); outros, só lhes interessa a moda e o físico; outros são mudos, isto é, não publicam uma linha e só temos notícias deles porque “são agora amigos de fulano e beltrano e sicrano”.

O Facebook é um livro aberto ao estudo psicossociológico.
Deuses, o que eu tenho perdido por só me ter "matriculado" há uns meses.

9 de dezembro de 2011

O mestre do ziguezague, Freitas do Amaral

Em termos políticos, parece que não há nada que se salve neste país (quiçá no mundo actual).

Freitas do Amaral, que há não muito tempo sonhou ser um dos “pais da Pátria” ou um Senador, ou coisa que o valha, não passa dum reles mestre do ziguezague.

Depois do seu bastamente conhecido percurso ao serviço de todos e mais alguns, serviu-se agora da tribuna anti-socrática de Mário Crespo (vídeo disponível aqui e notícia aqui) para dar um tiro nas costas do penúltimo que lhe deu trabalho, dizendo que Sócrates “nos conduziu para a tragédia em que nos encontramos” por achar que as dívidas não são para pagar, como teria afirmado.

Além de cuspir no prato que lhe foi oferecido, mente, porque, não sendo imbecil, Freitas sabe que, para além de Sócrates, houve muitos acontecimentos internacionais que nos conduziram à tragédia.

Mais, numa atitude populista e debilóide, ouviu e interpretou o que Sócrates disse como lhe deu jeito. Eu, que sou insuspeita de ser admiradora do antigo primeiro-ministro (e não tinha nenhumas saudades de o ver ou ouvir) mas também não o considero burro, consegui perceber o que ele disse. Porque é que Freitas não conseguiu? Claro que conseguiu, mas agora, para ele, o que importa é agradar ao último patrão que lhe ofereceu trabalho - o PSD e o seu novo lugarzinho de presidente do conselho de administração da Galp.

Será que nunca mais na vida conseguiremos sentir senão repulsa por esta gentinha que nos vai governando década após década?
PORCA MISÉRIA!

7 de dezembro de 2011

As nossas desculpas, Sr ª Merkel

Parece que é nos próximos dias que os do costume vão “refundar” a Europa e o euro. Se não resolverem adiar, como também é de costume, diz-se que o caminho da refundação já está mais ou menos traçado – mais austeridade, mais chibatadas nos malcomportados, policiamento atento desses “marginais” e castigo exemplar se pisarem o risco novamente.

A Merkel diz: estas são as minhas regras e quem não quiser pode ir morrer longe.
Eu não quero ir morrer longe, preferia morrer por aqui mesmo, e até gosto da Europa e de ser europeia. Por isso, antes que eles comecem a distribuir chibatadas, e na esperança de atenuar o castigo, quero pedir desculpa à senhora Merkel.

São muitas as faltas, eu sei, mas quero pedir desculpa, em nome de toda a classe média portuguesa, por nos últimos trinta anos termos comprado carro com o mesmo entusiasmo com que os americanos compraram o seu Ford T no princípio do século XX; por acharmos que tinhamos que morar em algum lado e termos comprado um T2 nos subúrbios com uma mensalidade que até era menor que qualquer arrendamento; por termos aceitado as “prendas” que o banco juntava à casa; por termos comprado mais uma televisão para a cozinha; por termos comprado dois pares de botas para o inverno, em vez de um só; por termos provado sushi e muffins; por termos ido tratar os dentes no dentista privado; por termos comprado vacinas “supérfluas” para as nossas crianças; por termos experimentado andar de avião para gozo de oito dias de férias na Tunísia; por termos ligado mais aquecedores em dias muito frios; por termos comprado aulas de música, ou de arte ou de informática ou de inglês para os nossos filhos; por gostarmos de ir à Fnac e, de vez em quando, cairmos na tentação de comprar um livro ou um CD; por em 2010 termos ido ao teatro para lá de 1 milhão e oitocentas mil vezes.

Por tudo isto, e mais umas quantas parvoíces que fizemos, peço desculpa.
Disseram-nos que éramos europeus e quisemos saber como era isso. Foi um erro, está visto, gastámos demais e vamos voltar a ser pobrezinhos mas honrados como o Dr. Salazar gostava.

Também nos disseram que “…a Europa foi construída com base na solidariedade e não da submissão dos fracos aos poderosos”. (editorial do Expresso de 3 de Dezembro), e nós acreditámos, tontos que somos.
Pedimos desculpa, senhora Merkel, mas pode ter a certeza que o fazemos com “uma raiva a nascer nos dentes”.
E isso, não sei porquê, não me parece um bom sinal; nem para si, nem para nós.

6 de dezembro de 2011

Ninguém lê?

O pessoal anda muito saudoso. De tudo.
Dantes isto, dantes aquilo, agora assim e agora assado, ficando o agora sempre muito mal na fotografia.

É certo que em tempo de crise e com fracas perspectivas de futuro há mais tendência para olhar para o passado, e também é certo que o país vive não só a crise económica e financeira mas também uma crise moral e dos chamados valores.

Daí até glorificar o passado como se ele tivesse sido uma orgia (sem pecado) de bem-estar e sapiência e hoje estivéssemos rodeados apenas de mediocridade, vai uma distância que não quero percorrer.
Não, não vou por aí, até porque acho que o presente, apesar de tudo, é infinitamente melhor que o passado que conheci.

Vem isto a propósito da recorrente cantilena - os portugueses não lêem.
Como frequentadora de livrarias, quando lá vou tenho sempre vontade (mas só vontade) de trazer uma meia dúzia de livros novos (ou reeditados)
Segundo os dados da APEL, em 2010 publicaram-se 17 329 livros e outras publicações não periódicas, e a mim parece-me que se publica muitíssimo para um país que, como se diz, não lê.

Se ninguém os lê, então para que se publicam? É para dar uso à guilhotina? As editoras nascem especificamente para perderem dinheiro?
E porque se meteu Paes do Amaral no mundo da edição com a sua Leya e Paulo Teixeira Pinto com a sua Babel? É para estafarem o seu dinheirinho? É por amor desinteressado à cultura? Não me parece.

Acho que se lê, sim, e estou a falar só de livros, porque quem mo diz é o sempiterno MERCADO.
Podia ler-se mais e melhor? Podia, e era desejável.
Mas, por acaso, nem mais nem melhor são o contrário de nada.

5 de dezembro de 2011

Há uma brisa no Chiado

Quem gosta de arte contemporânea e a frequenta, sabe que hoje os artistas, geralmente, não nos dão a ver. Propõem-nos experienciar, deixando, no seu trabalho, uma larga margem para a sensibilidade e subjectividade de cada um, sendo apenas conveniente ir preparado para ver com algo mais do que os olhos.

É o que acontece, mais uma vez, no Chiado 8, onde se pode visitar, até 30 de Dezembro, MA-A Dança dos Pirilampos de Pedro Morais (Lisboa 1944).
Não será, verdadeiramente, uma instalação, nem pintura, nem escultura mas talvez tudo isso em simultâneo.

Há um corredor para percorrer solitariamente na expectativa do que se seguirá, há uma espécie de pintura azul e negra que, ao caminhar, vamos vislumbrando; uns passos à frente, encontramos um enorme cubo azul com uma fenda negra e longitudinal assente em pó de pedra branco. Se nos aproximarmos mais e espreitarmos pela fenda, temos um pouco do tempo suspenso duma noite, talvez de verão, com uma suave brisa e uma dança de pirilampos.

É uma pequena viagem. Dura apenas um instante.
Ao viajante pede-se, tão só, que a empreenda sem guia, sem roteiro e sem preconceito.
No Chiado, há uma brisa à nossa espera.

2 de dezembro de 2011

Um Balanchine no Ministério das Finanças



Na 4ª feira passada ouvi Bagão Félix a insurgir-se contra os aumentos do IVA na restauração e na tributação do subsídio de refeição, falando, pelo meio, de Estado Fiscal e de “vale tudo”. É só mais um, entre os muitos da maioria a quem já vai chegando a mostarda ao nariz.

Mas o Orçamento lá passou, como já se sabia, trazendo consigo uma caravana de cortes e aumentos no que nos é essencial, nomeadamente alguns produtos alimentares. A mensagem que, com ele, o governo também passa para os portugueses em 2012 é simples: comam mas é…nada! (pensavam que eu ia dizer o quê?).

Segundo me contou o meu amigo António, era isso que o célebre coreógrafo Balanchine recomendava às suas bailarinas – comam, nada.
O ministro Gaspar, a avaliar pelas maravilhosas performances que nos proporciona, deve ser homem dado às artes, e certamente conhecia esta história, o que o levou a pensar: se elas podiam não comer e, ainda assim, dançavam, melhor podem os portugueses que estão fartos de não fazer nada.
Vai daí que, se bem o pensou, melhor o pôs no papel.

Para quem ainda não tenha percebido completamente, eu resumo: com um Balanchine no Ministério das Finanças a ordem em 2012 é para comer…NADA.
Só não sei quantos habitantes ainda teremos em 2013.

 

30 de novembro de 2011

"O Retorno"

Ler ”O Retorno” de Dulce Maria Cardoso, lembrou-me a leitura de “As Cruzadas Vistas pelos Árabes” de Amin Maalouf; trata-se de ver o outro lado da história.

Aos meus olhos, em 1975, os retornados eram uns seres estranhos, ora humildes ora arrogantes, achando que tinham direito a coisas que, nós por cá, não tínhamos ainda, sequer, sonhado como direito nenhum; eram pobres e mal-agradecidos, vinham de explorar pretos e achavam que tudo lhes era devido. Quando me diziam que eles tinham ficado sem nada, encolhia os ombros com a frieza de quem ainda não tinha tido quase nada, e achava que o que eles tinham perdido lá também não era deles. Além do mais, para os defender, e aos seus haveres, a minha geração tinha sido sujeita a participar numa guerra ignóbil em terras longínquas onde os soldados portugueses nem sequer eram bem vistos pelos colonos.
Sinceramente, nos meus 20 anos revolucionários, o seu destino era-me indiferente. Eles eram exploradores de pretos, e ponto final.

Nada como a passagem dos anos, o distanciamento e um bom livro para nos fazer revisitar o que já fomos e recolocar as coisas no seu devido lugar.
O livro de Dulce Maria Cardoso é magnífico na sua capacidade de nos “meter” dentro da dor, da dúvida e medo do futuro daquelas pessoas, às vezes tão sofridas como nós por cá.
Pode dizer-se que tudo acabou bem e, aos poucos, fomos assimilando 600 000 almas que aqui chegaram de rompante exigindo casa, trabalho, alimentação, roupa, ensino, cuidados de saúde, etc.

Dessa enorme massa humana tive contacto próximo apenas com uma pessoa – uma senhora meiga casada com um homem ácido, que aceitava as boleias que lhe oferecia com um misto de agrado e estranheza, próprio de quem nada tem, nada espera, mas sabe, com enorme dignidade, aceitar aquilo que lhe é oferecido.
Aurora, de sua graça, fez com que eu guardasse, por fim, uma memória doce e maternal do único retornado que entrou na minha esfera privada.
O livro de Dulce Maria Cardoso é o livro que nos faltava.

29 de novembro de 2011

Troco um Pedro por uma Isabel

A campanha de recolha de alimentos do Banco Alimentar contra a Fome foi, apesar da enorme crise, mais uma vez um sucesso.
É certo que o Banco e as suas campanhas fazem apelo ao que de melhor há em nós, portugueses – a solidariedade generosa com os que estão em aflições aqui ou em qualquer parte do mundo.

Podemos não dar bom-dia ao vizinho, infernizar a vida do colega, roubar o lugar de estacionamento a quem chegou primeiro, não apanhar do chão o que um mais velho deixou cair, abandonar a velha mãe no hospital durante a Páscoa e o gato nas férias de verão, mas lá que somos solidários com os que não conhecemos mas sabemos que estão em apuros, ah! lá isso somos.

Claro está que o Banco é uma organização exemplar que, ao longo dos anos, ganhou a simpatia e confiança dos portugueses. A maneira como presta contas regularmente aos seus doadores é até estranha em Portugal, e isso leva-nos a confiar na seriedade da organização.
Tem mão da Igreja, é certo, mas o que a Igreja faz bem feito…faz bem feito.

A figura discreta, quase de missionária, de Isabel Jonet, escondeu durante anos aquilo que agora o país inteiro já sabe – que é uma mulher inteligente, determinada, imaginativa, organizadora, séria e com enorme capacidade para dirigir com alto grau de profissionalismo aquilo que já é uma grande organização; tão grande que é capaz de alimentar 329 000 pessoas, não directamente, mas através de 2047 instituições.

É pena que não lhe dê para a política. Gostava de a ver sentada a discutir o orçamento de Estado; não por ser mulher,  nem por eu achar que gerir um país é o mesmo que gerir uma casa, longe disso, é por me parecer que ela sabe o sentido exacto da palavra equidade.
Agora mais do que nunca, por mim, trocava um Pedro por uma Isabel.

28 de novembro de 2011

Classificados estamos

 

Chegou ontem, finalmente, a esperada notícia – o fado foi classificado como Património Cultural Imaterial da Humanidade pela UNESCO.
Uff, que alívio, aquilo nunca mais se despachava.

Não sendo apreciadora de fado, reconheço que oiço com agrado a voz poderosa, limpa e bem modulada de Amália quando, por acaso, subo a Rua do Carmo numa manhã clara e calma de verão. Há ali qualquer coisa que me vem de longe e a que não sou alheia.
Contudo, fado vadio, fado canalha, era outra coisa, pertença do povo antigo que já não tem lugar à mesa do Portugal modernaço. Agora é limpinho, cheirosinho e “beto”.

No dia 25 de Novembro (6ª feira passada), comemorou-se o 25º aniversário da classificação do Centro Histórico de Évora como Património da Humanidade.
Fruto do entusiasmo, visão estratégica, capacidade política e empenho do presidente, vereação e técnicos que ao tempo dirigiam a autarquia, foi possível conseguir essa classificação, reconhecimento bem raro nos idos de 80 em Portugal.

O mais extraordinário é que a candidatura quase não teve custos, visto que tudo foi feito com a “prata da casa”, ou seja, os técnicos da autarquia; ainda não tinham chegado os nossos tempos de novo-riquismo em que tudo se encomenda fora, como quando não apetece ou não se sabe cozinhar (e nem se quer aprender) e se come sempre fora; caso esteja a chover, manda-se vir.

Dá que pensar o que farão hoje tantos técnicos dentro das câmaras, se tudo o que é estudo, projecto ou parecer se encomenda no exterior.
É por isso que, há 25 anos, a classificação do Centro Histórico Évora custou quase nada (pouco mais que a deslocação à cidade de duas delegações do ICOMOS), e a classificação do fado custou 1,5 milhões de euros.
Mudam-se os tempos…

26 de novembro de 2011

A condição humana




Estas duas imagens do mesmo homem, Seif Al – Islam, filho de Kadhafi, dão que pensar, a quem tiver alguma vontade de o fazer, sobre os velhos temas da condição humana e da sua circunstância.

25 de novembro de 2011

“Plegaria Muda”

A informação que temos, à partida, é que se trata de uma instalação de Doris Salcedo no Centro de Arte Moderna da Fundação Gulbenkian.

Quando entramos na nave central do CAM, a sensação que temos é que chegámos a um lugar inventado por Doris Salcedo, como um memorial.
A instalação remete para a abertura duma vala comum na Colômbia, país da artista, onde se encontravam os corpos de 162 jovens mortos por um exército mercenário.

Com base nessa dolorosa e violenta vivência, a artista empilhou, duas a duas, 162 mesas. Entre elas, terra amassada onde se detectam pequenas raízes, e de cada mesa superior saem pequenas folhas de relva. Assim se constitui um labirinto que somos forçados a percorrer na sua interminável repetição.
É como visitar um cemitério (e os pés das mesas, no seu conjunto, lembram os alinhamentos das lápides nos cemitérios), onde não jaz ninguém que a gente conheça, mas onde mais não cabe que o silêncio ou uma “oração muda” .

Percorrendo o labirinto percebe-se a justeza do que Nuno Crespo escreveu no Ípsilon de 11 de Novembro –“A história do trabalho de Doris Salcedo é a história dos lugares em que a felicidade é um luxo e a tragédia humana quotidiana.”


No piso superior pode ver-se outra exposição – “Paisagem na colecção do CAM”. Com obras que vão de Amadeo de Souza-Cardoso aos jovens Nuno Cera ou Gabriela Albergaria, destaco, por gosto pessoal, 14 fabulosas aguarelas (de 1980) de Fernando Calhau. Se mais não houvesse, mas há, só por elas, vale a pena subir a escada.

É só para lembrar


Imagem roubada a Ana Vidigal aqui (e deixemos passar o português).

24 de novembro de 2011

Tahrir virtual

Ler as caixas de comentários dos blogues políticos dá uma boa ideia do estado anímico em que se encontra o país.

Há pedrada que ferve de e para todos os lados, mais parece uma Praça
Tahrir virtual.

Hoje, só me apetece plagiar a Ana Cristina Leonardo no seu blogue Meditação na Pastelaria e com ela dizer:
 Isto vai dar merda.

23 de novembro de 2011

A casa de correcção

Amanhã é dia de Greve Geral. Geral não será certamente. É a greve dos trabalhadores que, de alguma forma, trabalham para o Estado.
Os privados não farão greve, o comércio não fechará, os trabalhadores por conta própria… tomara que tenham trabalho.

Aos poucos, mas ao longo dos anos, o poder tem criado as condições para não haver condições de fazer greve, por muito descontentes que estejamos. O trabalho precário, os recibos verdes, o trabalho a prazo, os contratos individuais, são poderosas ferramentas para desincentivar qualquer tipo de manifestação grevista.

É verdade que, amanhã, 15% dos portugueses impedirão os outros 85% de trabalhar, mas a greve, em abstracto, é ainda um dos direitos que nos liga à democracia tal como a conhecemos até aqui, e que pode estar a mudar.

Num excelente artigo do Atual de 19 de Novembro, com o título O Rapto da Europa, António Guerreio escreve sobre dois livros – de Hans Magnus Enzensberger e Jurgen Habermas.
Estes autores analisam a forma como a Europa foi raptada por “funcionários esclarecidos” que em Bruxelas tudo regulamentam, desde a coloração dos alhos franceses e a curva máxima do pepino, até às lâmpadas ecológicas de uso doméstico cujo regulamento ocupa 14 páginas.

Os livros abordam aquilo a que chamam a Europa pós-democrática. Já não se trata de défice democrático, que pressupõe um desvio ou uma insuficiência como analisa António Guerreio, mas da “entrada num outro modelo que ainda não sabemos designar senão como inflexão, historicamente determinada, da democracia”.
Nesse modelo, segundo Enzensberger, “ não se está a construir uma nova prisão para os povos, mas uma casa de correcção”.

Ora, se nessa casa de correcção os” internados” se atirarem uns aos outros, discutindo acaloradamente se é ou não “correcto” fazer greve, por exemplo, quem sairá a ganhar é o detentor do poder, que assegurará a ordem, reforçará a repressão hard e soft e, no fim, terá alcançado os seus objectivos.

Eu acredito que estamos a iniciar o caminho pós-democrático, e que seria bom que reflectíssemos sobre o papel que cabe a cada um de nós nesse novo e desconhecido quadro organizacional.

22 de novembro de 2011

Nem um alfinete

À velha pergunta – “você comprava um carro em segunda mão a este homem?” eu responderia: nem um triciclo, quanto mais um carro.

Fomos educados, os que foram, claro, a não julgar as pessoas pela aparência, mas é quase impossível fugirmos ao sentimento de empatia, repulsa ou neutralidade que a aparência dos outros nos provoca.

Falo por mim, mas este senhor Paul Thomsen, funcionário de 5ª ou 7ª categoria do FMI, nas palavras do banqueiro Ulrich, faz-me cócegas no céu-da-boca, como as alergias primaveris.

De cabecinha sempre à banda e olhar de esguelha, dá o ar de não gostar de encarar nada de frente, ou não querer dar aos outros a oportunidade de o verem de frente.

Vive nos subterrâneos dos ministérios de países alheios a criar desespero, e tem ar de se sentir tão bem na sua actividade como os membros do Exército de Salvação com as suas filantrópicas acções.

Pensando bem, e olhando tanto quanto possível de frente para ele, eu nem um alfinete lhe comprava.
Mas o meu país comprou, através dele, uma porção de dinheiro, que, afinal, só dá mesmo para os alfinetes.

Nota: foto tirada do Expresso, edição de 19 Novembro 2011

21 de novembro de 2011

Carta (que ele não vai ler) a Henrique Raposo


Bom dia, Henrique

Já é 2ª feira e ainda não digeri a sua crónica de sábado no Expresso.
Tenho o hábito de o ler, mas é mesmo só hábito, porque raramente concordo consigo. Talvez eu tenha o hábito de discordar de si, mas desta vez você foi longe demais, ofendeu-me a mim e à minha geração.

O Henrique não me lê como eu o leio a si mas, se lesse, saberia que tenho grande apreço e carinho pela geração a que pertence, ao contrário de si que destila ódio pela geração dos seus pais e tios e avós que, curiosamente, muitas vezes refere com carinho. Deve ser só a sua família que tem qualidades; os outros da mesma geração são uns filhos da mãe, pendurados nos vossos descontos e sacrifícios, são “matronas anafadas” que vos roubam a cegonha, o bem-estar e a casinha no centro de Lisboa.

Saberá certamente o Henrique que os seus estimados pais, e todos os da sua geração, não esperaram ter uma casa no centro de Lisboa para o mandar vir, nem esperaram ter todas as condições desejáveis para ter filhos, ou você não estaria cá. Ao contrário, os seus amigos não querem nada com a cegonha antes de ter tudo nos trinques.

O Henrique saberá também, certamente, que a casinha que agora custa 20 euros, quando foi arrendada nos idos de 60 ou 70, custava os olhos da cara e levava grossa fatia do ordenado. Nada de novo, portanto. A habitação sempre foi cara para os jovens.

Não quero com isto defender a lei em vigor, de que, aliás, discordo profundamente, mas o Henrique também saberá que as rendas foram congeladas em Lisboa ainda por Salazar, e que nenhum governo, até hoje, foi capaz de resolver este assunto de maneira justa, razão pela qual tudo vai ficando na mesma.

O Henrique saberá ainda que os governos são eleitos por nós, e calculo que o menino, apesar de jovem, já elegeu vários, pelo que também contribuiu para o “peditório”.

As “matronas anafadas” que pagam rendas baratas usam a lei que os políticos não ousam mudar, mas o Henrique está em óptima idade para entrar na política e ajudar a resolver esta e outras miudezas da política portuguesa. Tem agora um governo a seu jeito e acho que devia tentar. Assim, poderia fazer leis que pusessem as velhas todas debaixo da ponte e acabar de vez com as reformas desses malandros da geração dos seus pais, cambada de parasitas que estão a viver dos seus descontos e a ocupar as casas que lhe são devidas a si e aos seus amigos.

Tenho estado a partir do princípio que o Henrique saberá uma série de coisas elementares mas há uma que me parece que desconhece completamente – chama-se Solidariedade Geracional, que faz com que os seus pais tenham pago a reforma dos seus avós e com que você pague a dos seus pais. Um dia, se não estragarem tudo até lá, os seus filhos pagarão a sua.

Enquanto o Henrique não aprender que tudo nesta vida é política e não conflito geracional, não será um verdadeiro homenzinho.

Mas olhe, eu acho que o menino não é parvo, e por isso, faz-se. Que diabo, apesar de eu os abominar, a democracia também precisa de políticos de direita.

18 de novembro de 2011

Reflexões inconsistentes

Reflexão inconsistente I: a chuva é minha amiga. Cada vez que decido sair para fazer uma coisa boa, ela diz-me: espera aí que eu vou contigo; é só ir buscar a gabardina.

Depois de ter saído enquanto a chuva foi buscar e gabardina, e ter voltado já com ela nos devidos preparos, passando os olhos pelos jornais, vejo que o João Mota aceitou o lugar do Diogo Infante no Teatro D. Maria.
Os desafios, a crise, todos temos que dar para o peditório e tal e coisa, disse.

Reflexão inconsistente II: Ó Mota, tu desculpa, mas desde quando, para ti, os desafios pessoais são mais importantes do que dizer a um governo estúpido e irracional que o orçamento é uma anedota e que vá pentear macacos? Se calhar desde há muito, eu é que não dei por isso.

A Cristas diz que quer acabar com a bandalheira da incineração de cadáveres de animais e que vai taxar a carne para financiar o novo sistema.

Reflexão inconsistente III: Ó Cristas, apoio as coisinhas bem feitas, mas para onde raio irão os meus impostos se para tudo tenho que pagar taxa?

Reflexão inconsistente IV: Não será melhor desligar o computador e dar descanso a esta pobre cabeça? Ainda para aí me ponho a achar que a cristas anda de mota ou ao mota cresceram cristas. Livra.

Pataniscas com arroz de feijão

Em Lisboa há imensos cafés e restaurantes “de esquina”. Essa localização leva-nos a reparar mais neles de cada vez que atravessamos uma rua. Ontem, passei por um que, na porta, anunciava Pataniscas com Arroz de Feijão.
Pode haver comida mais portuguesa do que essa? E quem resiste a tal pitéu na hora da fome?

Comida barata, ainda por cima - um bocadinho de bacalhau, água da cozedura, farinha, um ovo, um pouco de salsa e já está. Arroz e feijão também sempre foram comida de pobre.

Na minha terra (como noutras, certamente) aprendeu-se a cozinhar e comer com base em ingredientes muito baratos ou até selvagens. Hoje, a sopa de beldroegas ou de cação, os cardos com feijão, as cilarcas, as açordas de poejos ou coentros e as migas são realíssimos pitéus, um verdadeiro património que nos faz “aguar” e de que nos orgulhamos.
Qual nouvelle cuisine, qual carapuça? Migas de espargos com porco frito.

A criatividade gastronómica de cada povo, a sua capacidade para fazer muito ou pouco com o que tem ao seu dispor, diz-me muitíssimo sobre esse mesmo povo, e quer-me parecer que, se actualmente os nossos “manos” europeus desconfiam tanto de nós, é porque nunca comeram pataniscas com arroz de feijão.

17 de novembro de 2011

Não seria o caso de mudarmos de patrões?

Por esse mundo fora, onde trabalham, os portugueses são produtivos.
As multinacionais instaladas em Portugal, empregando portugueses e cumprindo as leis laborais do país, têm bons resultados.
Para a troika e para o governo o problema está sempre no custo do trabalho e na produtividade, ou seja, nos balúrdios de dinheiro que ganhamos para não fazermos nada.
Mudar de governo, não vale a pena; já tentámos várias vezes e cada um é pior que o outro.
E se mudássemos agora de patrões?