25 de julho de 2013

Roupa velha


Um governo pouco novo tomou posse.
 
Antes, passando os olhos por jornais, blogues e televisões, constatei o afã de cada comentador/escrevinhador em encontrar o “vencedor” da crise política.
 
E houve para todos os gostos – para uns foi Passos, para outros Portas, para outros Cavaco (???), para outros Seguro. Só me falta mesmo encontrar alguém que, depois de aprofundada análise, prove que o grande vencedor foi Jerónimo de Sousa.
 
Enquanto eles esgrimiam argumentos para encontrar o vencedor, nós demonstrávamos total indiferença pelo tema, tal como agora com a constituição do remodelado governo.
 
Sabemos que o que nos servem não passa de roupa velha, aquele colestrólico prato que se faz para aproveitar restos de frango assado, mas quem se vai importar com isso?
 
Temos prática, muita prática, de comer e calar.  
Acho que até gostamos.

24 de julho de 2013

Eça Agora

O jornal Expresso continua apostado em meter-me em casa coisas que eu não quero, talvez por não saber que a minha aposta, ao contrário, passou a ser a de tirar de casa tudo o que não quero, viver apenas com as coisas de que gosto e um mínimo de coisas neutras mas imprescindíveis
 
Com a iniciativa Eça Agora, que se integra na comemoração dos seus 40 anos, decidiu o jornal oferecer-me, primeiro, Os Mais, de Eça de Queirós, em três fascículos, e depois o prolongamento do mesmo até 1973 pela lente da imaginação de alguns autores-amigos do Expresso; por fim, no lugar do posfácio, vai oferecer-me uma “Introdução à Leitura d’Os Maias”.
 
Eu não entendo o raciocínio por trás desta iniciativa, porque me parece que a grande massa de leitores do Expresso, por gosto ou por obrigação escolar, já leu Os Maias, estará agora numa altura da vida em que pouco lhe interessa a tal Introdução à Leitura e talvez não tenha grande paciência para os chamados Novos Maias, congeminados pelos tais escritores-amigos que aceitam encomendas (ah, a vida está difícil, todos sabemos).
 
Nada disto me chatearia se eu fosse capaz de pôr livros no lixo.
Não sou, mas finalmente decidi o que fazer com as prendinhas do Expresso – serão largadas num banco da praça, da avenida, ou do jardim.
 
Quem sabe, não nasce assim um BookCrossing cá no meu sítio.
Isso sim, teria a sua piada, e redimiria um pouco o jornal que, para ajudar os seus, me enche de papel que não quero e não pedi.
 
Nota: a imagem usada é parte da imagem promocional da iniciativa do Expresso


23 de julho de 2013

O Inverno da vida, e tal

Nos últimos anos, comparo os livros de Paul Auster com os filmes de Woody Allen – geralmente são uma grande pepineira; só de vez em quando sai um bom.

Acabei de ler “Diário de Inverno” de Paul Auster. Pepineira.

Auster escreveu este livro (porque precisa de pagar as contas, digo eu), porque está quase a completar 65 anos de vida, o que corresponde à idade oficial de entrada no Inverno da vida, diz ele.

A mania de comparar a vida com a sucessão das estações do ano é coisa que me chateia, e, de tão repetida, só denota uma grande falta de imaginação.

Eu, por exemplo, nasci no verão; na minha perspectiva, quando estiver com os pés p’rá cova deve ser Primavera, porque já passei pelo Verão, pelo Outono e pelo Inverno.

Este pessoal que insiste no Inverno da vida e tal, só pensa no esqueleto, parecendo esquecer-se de que sempre nos sentimos mais novos do que o que realmente somos.

Qual Inverno, qual carapuça!
Custa dar uma chance ao que a gente sente deixando as artroses fora da literatura?

Por mim, insisto em dizer que já não falta muito para entrar na Primavera da minha vida, com direito a descontos na CP e na Gulbenkian.

Cúmulo da sorte, não vou sozinha.
Por isso parabéns, hoje, para quem comigo faz, todos os dias, este caminho rumo à Primavera.
 
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22 de julho de 2013

Compromisso, salvação, emergência.


























Esta gentinha está quase a conseguir que eu passe a detestar algumas palavras −  compromisso, salvação, emergência, por exemplo.

E, no entanto, até há pouco, achava-as todas belas, adequadas, e ricas de sentido.

Compromisso tem uma sonoridade doce e amável.

Salvação sempre me apareceu associada a algo de grandioso, próximo, até, do heroísmo.

Emergência logo me punha um pinonim na cabeça, uma luzinha a andar à roda e a certeza de não haver tempo a perder - um, dois, três, ou vive ou morre.

O espaço mediático, hoje em dia, está permanentemente ocupado por seres, talvez vivos, quem sabe, que chamam Compromisso ao pensamento único, Salvação à morte certa sem honra nem glória, e admitem que uma Emergência pode ser por tempo indeterminado (por aqui, já vai em dois anos).

São eles que, às vezes, já me fazem detestar aquilo de que tanto gosto – palavras.

Nota: ontem houve palhaços, mas foi mais uma actuação sem brilho.
 
Imagem daqui

 

19 de julho de 2013

Eu desvinculo-me de; os outros, não sei


Já várias vezes escrevi neste blogue sobre o Acordo Ortográfico de 1990.
 
Em finais de 2011 fiz um honesto esforço para o começar a usar, em meados de 2012 desisti, e ganhei a firme convicção de que não voltaria a usá-lo.
O AO é, manifestamente, um acordo político que em nada ajuda à unificação do português; isto na eventualidade, não provada, de ele necessitar de ser unificado.
 
Circularam na internet várias petições contra a sua adopção, e assinei algumas.
Esta chega agora à Assembleia da República para ser discutida; justamente uma que não assinei.
 
O motivo por que não assinei prende-se com a estranheza que o título me provocou − Petição pela desvinculação de Portugal ao 'Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de 1990' (AO90).
Sempre achei este português muito macarrónico mas, se era escrito por tanta gente com pedigree linguístico, o problema devia ser meu; passei, pois, adiante.
Ontem, quando me deparei com a notícia do Público e, de novo, com o nome da petição, voltei a sentir o incómodo já anteriormente experimentado.
 
Para mim, sempre foi simples: vinculo-me a e desvinculo-me de, mas desta vez resolvi tirar o assunto a limpo. Peguei no dicionário de verbos da Porto Editora, nada de especial, portanto, e na parte das regências encontrei na página 707
 - desvincular (-se) – de: desvinculou-se do contrato; desvinculou-se da sociedade.
Na página 756:
- vincular-se – a: vinculou-se ao clube desportivo; por: vinculou-se por escrito.
 
Assim, a petição, no meu entender, devia ter como título:
Petição pela desvinculação de Portugal do 'Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de 1990' (AO90), ou Petição pela não vinculação de Portugal ao 'Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de 1990' (AO90).
 
Se eu estiver enganada, corrijam-me, por favor.
É que não tenho pedigree linguístico, mas sempre me desvinculei de.
Agradecida.

18 de julho de 2013

O Papa Francisco, as Indulgências, o Twitter e o Purgatório











 
 
 
 
 
 
Quando vi o Papa Francisco, logo depois de eleito, aparecer à janela do Vaticano, gostei dele. Pareceu-me um homem simples.
 
Com estas parvoíces começa antes a parecer-me um simplório.
Se assim for, a quem serve um Papa simplório?

17 de julho de 2013

Que pena















 
Que pena tenho de só as ilhas serem selvagens.

O que o homem estava mesmo a precisar era duns milhares de selvagens à porta.

12 de julho de 2013

Assunção Esteves

Quando em 2011 foi eleita Presidente da AR, com apoio mais ou menos generalizado dos deputados, não me pronunciei neste blogue, o que alguns, que me sabem apoiante das causas das mulheres, estranharam.

Assunção Esteves é “afilhada” de Cavaco Silva. Foi pela mão dele que entrou no Tribunal Constitucional e a ele deve a sua carreira política.

Como credenciais, não me pareceram as melhores do mundo e achei por bem esperar para ver.
Esteves e Silva, verifica-se, são criaturas que podiam ocupar os seus lugares em tempos mornos de salamaleques, mas mostram à saciedade que não servem para os  dias de tempestade que vivemos.

Quando, há umas semanas, um grupo de reformados se manifestou na AR, em silêncio e de costas para o hemiciclo, Assunção Esteves, reformada aos 42 anos com 7000 euros de reforma, ralhou-lhes e disse-lhes que respeitassem o Parlamento.
Ou seja, por aqui não se passa nada, e aquilo, quanto a ela, foi só um grupo de velhos malcriados que resolveu chatear a senhora Presidente que estava lá no alto posta em sossego.

Ontem houve novos protestos na Assembleia e Assunção Esteves disse:

“Nós não fomos eleitos para termos medo, para ser coagidos e provavelmente também não fomos eleitos para não ser respeitados".

Pois não. Os senhores deputados foram eleitos para representar os portugueses e devem ser respeitados, mas é preciso que mereçam o nosso respeito o que, manifestamente, vai sendo cada vez mais difícil de acontecer com a classe política. Toda.

Ainda bem que não deitei foguetes antes da festa, ou seja, quando foi eleita − a protegida de Cavaco Silva parece-me pouco preparada para dirigir a casa da democracia em tempos de cólera.
Além disso, também nunca gostei de sonsas.




11 de julho de 2013

O oráculo de Belém

O oráculo de Belém falou ontem à tardinha.

Como é normal, logo apareceram pitonisas aos montes para decifrar a arenga, mas parece que cada uma ouviu sua coisa e, por isso, não se entenderam muito bem.

Não sou menos que as outras pitonisas e também tenho cá a minha interpretação “da coisa”, ou seja, do oráculo.

Este enumerou os malefícios das eleições se elas não forem como ele as quer.

Exige um governo de operários do PSD, CDS, e PS que executem o seu próprio programa, mas só até ao momento que acha adequado, ou seja, daqui por um ano.

O oráculo reconhece três partidos e ignora todos os outros.

O oráculo tratou o governo pior que cachorro tinhoso.

O oráculo continua a ter a língua grande e eu continuo a achar que lha devíamos cortar.

O oráculo não percebeu que o tempo dele passou porque, no tempo certo, não se deu ao respeito.

Quando estudei sobre o oráculo de Delfos, e era uma catraia, aquilo meteu-me medo. A caverna, a fenda, as fumarolas, as pitonisas que podiam morrer.

Este oráculo que nos calhou em sorte, o de Belém, é uma caricatura risível do que me metia medo.

Mas eu acho que sei o que ele quer: vai querer dizer-nos que teve que escolher alguém de fora para governar porque os partidos não se entenderam como o país precisa.

Veremos que tal me saio como pitonisa.

10 de julho de 2013

Portas e o camone

A mim, o calor, que costuma dilatar os corpos, mirra-me o raciocínio.
Assim tenho andado, mas ontem despertei um pouco.
 
Foi Paulo Portas, ouvido na rádio que, com aquela voz bem colocada e articulada, me informou que o Ministro dos Negócios Estrangeiros dos EUA tinha sido chamado por si, Ministro dos Negócios Estrangeiros de Portugal, para lhe dizer que Portugal não gosta nadinha que os Estados Unidos andem a espiar a Europa.
 
Imagino Paulo Portas de olhos bem abertos, voz grossa e dedo em riste para o Ministro dos Negócios Estrangeiros dos EUA.
 
Ah, ah, o camone deve ter saído das Necessidades borradinho de medo.


5 de julho de 2013

E é isso


Numa dependência dum banco português, bem no centro duma capital da Europa, as coisas não estão a correr bem – demasiados clientes para tão poucos funcionários activos.
 
A certa altura, um cliente no princípio da meia-idade insurge-se com a intolerável situação; fala sozinho, primeiro, e pergunta, depois, se os outros não estão de acordo. Uma mulher que já passou a meia-idade e que deve até ter passado uma ou mais fronteiras no tempo em que as havia mas que ainda tem agarrada à pele a rudeza do granito beirão responde a meia-voz:
 
- A gente está de acordo, mas toda a gente tem medo e cala-se.
Intrometida que sou, mesmo sentindo que não sou dali, pergunto:
- Medo de quê?
 
A resposta vem sob a forma dum breve encolher de ombros de resignação martirizada.
 
Quarenta anos de democracia, um quarto de século de integração europeia e meio século de emigração não foram suficientes para desvanecer em nós este sentimento que nos domina, tolhe e diminui – o medo.
 
Medo de tudo e de nada, com e sem razão, medo de existir, afinal, como dizia o filósofo.
 
É em grande medida graças a ele, a este medo atávico, que ainda hoje os políticos nos podem tourear e bandarilhar, com a certeza de que ficaremos sentados no sofá e diante da televisão, vendo-os entrar e sair, pôr e dispor como lhes apraz, decidindo das suas vidas mas sempre indiferentes à nossa.
 
Haja o que houver, não nos moveremos, porque “a gente tem medo e cala-se”.

27 de junho de 2013

Tudo como dantes

Quase, quase chegada em cima da greve geral, uma rápida vista de olhos pelos blogues e pelo facebook confirmam – os que sempre foram a favor da greve, continuam a favor da greve, os que sempre foram contra, continuam contra.

Verifico, porém, que, de entre estes últimos, alguns se afadigam a encontrar argumentos, às vezes até históricos, para dar bordoada na greve.

Outros mostram-se pragmáticos, e ficam-se pela esmerada demonstração da inutilidade da mesma.

Julgam também, e talvez tomando-se como padrão, que ninguém já tem convicções e falam em mainstream político, bem-pensantes e mais o blá blá do costume.
Esta última gentinha é a mesma que prega também a inutilidade das manifestações e ataca os sindicatos.

Sendo todas elas formas de protesto pacíficas e organizadas, não chego a perceber se as criaturas são a favor das bombas e revoluções ou se apenas de deleitam com a placidez dos rebanhos a caminho do abate.

Ou talvez se achem membros do restrito grupo dos que têm o terceiro olho e vêem mais do que os outros todos, embora não partilhem as suas visões com a arraia miúda.

Está-me a parecer que são seres ainda vivos, mas já incapazes, sequer, dum grito de alma que diga : BASTA.
E também não o toleram nos outros.

Eu, putativa bem-pensante, politicamente correta e de esquerda, ainda cheguei a tempo de dizer: SOU PELA GREVE, GRAÇAS A DEUS.

20 de junho de 2013

País da treta


Quando vemos imagens da resistência e da luta dos gregos contra o encerramento da sua rádio e televisão;

Quando vemos os turcos a levar com os canhões de água e gás pimenta em cima durante tantos dias, ou agora, de pé e em silêncio na praça Taksim;

Quando vemos milhares e milhares de brasileiros a levar pancada da polícia por se manifestarem contra os gastos com as “festas” vindouras enquanto lhes falta saúde, educação e transportes, por exemplo;

Quando vemos essas e outras lutas dos povos do mundo, percebemos que somos um povo e um país da treta.
Eu digo treta, mas toda a gente percebe que eu queria dizer outra coisa.

O país da treta é aquele em que até uma simples manifestação atrapalha o trânsito, e não vale a pena.
Onde uma greve é só um prejuízo para os pobres, e não vale a pena.
Onde interromper ou não deixar falar um ministro é um atentado à democracia e liberdade de expressão, e não vale a pena.

Não vale a pena, parece, é viver aqui, neste país da treta.
Não fora dar-se o caso de eu ainda acreditar que “tudo vale a pena se a alma não é pequena”.
E, nesta convicção, vou. Por uns dias. Matar saudades. Conto voltar.


19 de junho de 2013

As meninas de Odivelas

Nos meus tempos de menina e moça vivia-se por aqui, como é sabido, uma ditadura e uma guerra colonial.

Sobre “a família militar”, os do “contra” construíam uma caricatura a traço muito grosso, ou uma narrativa, se se preferir, em que, enquanto o pai oficial cumpria comissões de serviço nas colónias (eles diziam ultramar), a mãe integrava o Movimento Nacional Feminino, a filha frequentava o Instituto de Odivelas e o filho engravidava a criada.

O Instituto de Odivelas é uma vetusta instituição nacional – escola feminina para filhas das tropas, criada em 1900.
Às alunas, mais conhecidas por meninas de Odivelas, ensinava-se a fechar as pernas, isto é, a sentarem-se com decoro, bem como variadas artes do lar, conversa de sala, e ainda as matérias do curso dos liceus.

Mais tarde, era frequente as meninas acasalarem com o Colégio Militar.

Algumas meninas de Odivelas, chegadas cá fora, parecia que nem tinham ido à escola, ou que tinham tido amnésia, o que deu origem, naquele tempo, a pelo menos uma cançoneta muito, muito brejeira.
Coisas da luta de classes.

Este instituto, que de progressista nada tinha, sobreviveu ao 25 de Abril, ao PREC, ao apagamento do papel dos militares na sociedade portuguesa, em suma, sobreviveu a tudo, menos ao governo mais direitista que tivemos em democracia.

Vai morrer às mãos de Passos, Aguiar Branco e Crato.
Quem diria?


18 de junho de 2013

Mao Tsé-Crato e o Grande Salto em Frente

Nuno Crato não é fascista, nem sequer protofascista, afirmo-o eu aqui.

Com a confusão que armou ontem à volta da greve dos professores, tentando um óbvio braço de ferro que jogava com o medo dos professores e a fragilidade dos alunos mas que, na prática, apenas pretendia mostrar quem manda, Crato esclareceu, finalmente, que continua maoísta como na sua juventude.

Ao chegar ao governo deve ter-se convencido que ia fazer com que a Educação, neste país, desse finalmente o Grande Salto em Frente.

Se Mao Tsé Tung mandou apanhar e entregar ao Estado todo o prego, parafuso e asa de tacho para com eles fazer fazer aço, já o patrão Crato convocou todos os seus funcionários para fazer os exames.

O aço de Mao Tsé Tung não era aço, era uma grande bosta.
Uma grande bosta é, também, a actuação de Nuno Crato.

Apesar do enorme falhanço do Grande Salto em Frente, que matou muitos milhões de chineses, Mao manteve-se no poder.
Crato também.

Mas um dia Mao morreu, e hoje a China sabe fazer aço.
Crato também não durará muito mais (na pior das hipóteses, dois anos).

Nada é eterno, mas é absolutamente seguro que todos os países, em algum momento da sua história, vivem tempos negros com governantes miseráveis.
Depois, geralmente, passa.

Nota: Imagem roubada ao blogue AventarNuno Crato, a dama de lata


17 de junho de 2013

Um dia especial com a professora da “banana”

Dia de exames, dia de greve, dia de controvérsia.

Entre os meus e os dos meus filhos vivi umas boas dezenas de dias de exames. Sei como são dias especiais.

Porém, de todos esses exames, o que sempre recordo com um sorriso, é o meu exame de admissão ao Liceu que era, à época, vivido como um importantíssimo dia nas nossas vidas.

As provas faziam-se no próprio Liceu e, em boa verdade, não posso dizer que me lembre de tudo, mas lembro-me, por exemplo, que a minha mãe me vestiu e calçou com esmero para aquela solenidade.

A minha mais viva lembrança vai para a prova de ditado, sempre muito temida porque não se podia dar mais que um ou dois erros, sob pena de se chumbar e de se ficar logo com a carreira estragada; um pouco como o Crato quer fazer agora – és burro? vais para canalizador já (modelo alemão, e modelo jurássico do próprio Crato).

A professora do Liceu que estava a fazer as provas na minha sala era, de certeza, uma mulher mais nova do que eu sou hoje, mas guardo dela uma imagem de senhora de idade, com pernas grossas em cima duns saltos altos, e cabelo penteado ao estilo daquilo que se chamava “banana”.

Era muito cuidadosa e ditava pausadamente, com ritmo lento e repetindo bastantes vezes.
O diabo é que a senhora era “do Norte”, e estava ali, no meio do meu Alentejo, a fazer-me o ditado com a sua “pronúncia do Norte”.

Lá para meio do texto, a senhora disse “ulhando o campo”. Eu nunca tinha ouvido tal palavra, achei que seria “olhando o campo” mas ela insistia tanto, disse tantas vezes a palavra e com tanto cuidado que eu, depois de inúmeras hesitações, acabei por me decidir e escrevi mesmo “ulhando”.

Pois se ela era a senhora professora e já tinha pronunciado a palavra algumas dez vezes, eu é que devia estar com falha de preparação.
Não estava, mas como esse foi o meu único erro, safei-me.

 
Nota: era bom que alguém explicasse aos alunos que hoje não puderam fazer exame que foi por uma boa causa, e que há questões de cidadania que não têm que ver com o “safar-se” de cada um.

14 de junho de 2013

Tudo isto existe

Pode passar meio século sobre um grupo de pessoas que nada nele muda.

E o grupo não muda porque as pessoas individualmente não mudam.

As condições de vida podem variar um pouco, mas a circunstância em que nascemos e crescemos nos nossos primeiros anos fica-nos para sempre colada à pele.

Pode-se crescer e mudar emocional e intelectualmente, mas a essência de cada um permanece.

Assim, tensões, cumplicidades, dissimulações, e, o mais espantoso, a luta de classes, continuam, sem que os elementos do grupo disso se apercebam (a maioria nunca se apercebeu, aliás).

Contudo, o que era divertido e normal aos 15 anos pode ser deplorável aos 60.

Passados 50 anos, olhar um grupo que a juventude juntou aleatoriamente é o mesmo que olhar um país inteiro, que, vivendo um momento particularmente difícil da sua história, se divide entre os que fazem de conta que nada se passa, assobiam para o lado e alimentam a portuguesíssima saudade, e uns quantos que esperneiam querendo agitar uma paz podre que, se umas vezes é de cemitério, outras é de jardim-de-infância à hora da sesta.
Vencem os primeiros, por serem largamente maioritários.

Sei que tudo isto existe, acho triste, só não sei se é fado.

13 de junho de 2013

O Mediterrâneo já está a arder?


 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Espanha, Itália, Grécia, Chipre, Turquia, Síria, e Portugal mais ao lado.

A brutalidade do que está a acontecer aos povos destes países faz pensar que estamos diante do desastre bíblico dos tempos modernos.

Num mesmo dia, vi o governo grego fechar a rádio e a televisão públicas, Erdogan não olhar a meios bélicos para retirar os turcos em protesto da praça Taksim, e o nosso pequenino Crato, que tem pena de não ser um Samaras ou um Erdogan a afiar os dentes, qual lobo esfaimada, contra os professores.

Ninguém dialogou, ninguém negociou, ninguém quer conversar. São todos ditadores, legitimamente eleitos (onde é que já ouvimos isto?), ao serviço dos credores, das troikas, dos seus projectos pessoais de poder, ou da religião.

Se algum dos políticos europeus se lembrar de perguntar “O Mediterrâneo já está a arder?” a resposta é, indubitavelmente – SIM.

O fogo está, por agora, circunscrito, mas ameaça ficar fora de controlo a qualquer momento. Acresce que, devido às medidas de austeridade na Europa, os bombeiros foram despedidos.

Sem combate às chamas, e com a barreira do mar a Sul, o fogo dirigir-se-á, inexoravelmente, para Norte, e a Europa corre o risco de ser engolida pelas chamas.

O Mediterrâneo já está a arder.

Nota: a fantástica imagem ali acima foi encontrada no Facebook, postada pela página Reflections on a Revolution, dedicada aos acontecimentos na Turquia, e tem com legenda em inglês:

If even grandma is attacking you, you definitely know you're on the wrong side..

12 de junho de 2013

Nicolau foi a Veneza

Não queria, juro que não queria voltar a falar disto, mas sou fraca.

Lendo o Atual do Expresso de 8 de Junho, topo com uma página inteirinha e laudatória dedicada à nossa Joana na Bienal de Veneza.

O texto deixava muito a desejar, mais parecia um panfleto publicitário carregado de banalidades e de afirmações encomendadas do tipo “o país sai honrado pela escolha de Joana Vasconcelos”.

A meio da leitura já eu me interrogava sobre a sua autoria – o escriba, afinal, era Nicolau Santos, o homem da economia, que “viajou a convite de Pré-Build”.

Ok, entendido.

Porém, uma dúvida me fica: será que o Celso Martins, ou o José Luís Porfírio, que costumam escrever sobre arte no Expresso, não quiseram ir?

Ou será que o Nicolau agarrou no convite e pensou: eu é que sou o director-adjunto e não vou perder esta borla com tudo aquilo a que tenho direito – viagem, jantar feito pelo chefe Avilez e degustado na companhia dos manos Portas, concertos e Dj no tombadilho do cacilheiro atirando música aos canais pela noite fora.

Com a dúvida ficarei, mas daqui te saúdo Joana, por fazeres tantos amigos felizes.

11 de junho de 2013

Estamos vivos

O fim de semana grande decorreu sem sobressaltos.

Continuou o tempo cinzento com chuviscos, Passos foi assobiado em Elvas, Aníbal aconselhou-nos a fazer desporto, Maduro disse mais umas parvoíces convencido que tem graça, e a Teresa Tarouca foi condecorada, provando-se assim que na casca dos fósseis também é possível pôr comendas.

Fartinha de tanto humor negro, também eu tranquei portas e janelas, desliguei a internet e fui para Serralves.

Encontrei lá muitos milhares, que era dia de festa, e pareceu-me que estávamos todos em busca duma normalidade perdida há demasiado tempo; o mesmo se passou depois na Feira do Livro de Lisboa, alameda acima alameda abaixo, milhares e milhares, todos com cara de quem pensou: queremos as nossas vidas!

Desejosa que estava de ver as exposições de Serralves, confesso que saí um bocadinho desiludida.
− Alberto Carneiro, ainda que mal lhe pergunte, tantos espelhos é para quê? E não lhe parece que anda a ver a natureza demasiado barroca?

Quanto aos desenhos de Jorge Martins, que os há magníficos, pareceu-me que talvez o artista tivesse tido necessidade de despejar o ateliê para pintar as paredes, e aproveitasse, para isso, a exposição de Serralves, com a conivência da curadora, claro está.
Eram centenas de desenhos. Por serem tantos, poluíam o espaço, não nos deixando margem para fruir. Uma pena.

Na Feira do Livro de Lisboa fiz o que sempre faço − comprei clássicos a menos de 5 euro, e gosto disso.
Entre Serralves e a Alameda do Parque pareceu-me que ainda estamos vivos.
E também gosto disso.

Do morto-vivo que falou de agricultura no 10 de Junho é que não gosto, nem vale a pena falar.



 

7 de junho de 2013

Estou indo
























Faça chuva ou faça sol, vou daqui até Serralves para ver Alberto Carneiro, Jorge Martins e quem mais quiser mostrar-se.
Bom fim-de-semana.

 
Imagem daqui


6 de junho de 2013

Não comprei "Servidões"



 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Acredito que Herberto Helder é um excelso poeta.
Acredito que eu sou demasiado “quadrada”para o ler com deleite.
A partir daqui, já não acredito em mais nada, mesmo correndo o risco de estar enganada:
Não acredito que a edição esgotou.
Não acredito que não haverá nova edição.
Não acredito que todos os que comparam “Servidões” estejam mortinhos por o ler.
Ah, afinal sempre acredito em mais qualquer coisa:
Acredito no marketing e nas suas artimanhas.


5 de junho de 2013

Pior é impossível


Eu já elegi a pior frase do primeiro semestre de 2013, porque me parece que daqui até ao fim do mês pior é impossível. Embora...

Mira Amaral sentenciou:

“Se a Alemanha gosta de Victor Gaspar, também temos que gostar”

Percebo que não há nesta “posição” nada de novo.
Quando a Alemanha toda gostou do Hitler, ”aconselhou” os outros povos a que gostassem também.
Uns resistiram, e outros baixaram as calças.

É estúpido comparar hoje o exercício do poder de Schauble com o de Hitler porque, na verdade, não há comparação possível.

Já quanto aos que baixam as calças diante de quem pode, difícil é não comparar, porque são todos iguais em qualquer tempo ou lugar.
E são execráveis.