12 de novembro de 2012

Estou bicéfala

Durante o fim-de-semana li e ouvi tanta opinião sobre a vinda da Merkel e sobre o Bloco de Esquerda e a sua Convenção que até tenho a cabeça a andar à roda.

Quanto à Merkel, as posições estão tão extremadas que vão dos que acham que é uma simples visita de estado até aos que a entendem como a visita do imperador que nos vem pisar com a sua bota cardada.
Uns abespinham-se e escrevem cartas para a gente ler a dizer-lhe que é mal-vinda, alguns até acham que a visita é sinónimo de dinheiro mal gasto e nem lhe devíamos dar o almoço; outros acham que é bom que venha, acreditam na bondade do gesto. Imagino, porém, que a maioria caiba na categoria NS/NR (não sabe/não responde).

Por mim, não ME entendo, pareço bicéfala.

Já aqui escrevi que não acho que tenha que ir gritar com a alemã mas, mesmo assim, apetece-me pôr um pano preto à janela. Quero ficar-lhe indiferente mas não me esqueço, nem por um minuto, que ela está cá, e se acho mesquinho não lhe dar o almoço, também gostaria que fosse igual ao nosso − apenas com o pão que o diabo amassou.

Depois vem o Bloco com a sua nova direcção.

Olho e oiço a Catarina e acho que está verde, olho e oiço o Semedo e acho que está maduro demais, oiço os dois e acho que falam para dentro e que, quando falarem para fora, não vão acertar no tom.

Finalmente, percebo que querem unir a esquerda mas exigem ao PS que se “refunde” rasgando o memorando da troika, e adoptando o programa do próprio BE.

Nem mesmo bicéfala consigo entender isto.
Tomara que o dia acabe. Tenho os miolos em água.


9 de novembro de 2012

Vem aí a Merkel

Geralmente em modo zangado, já muitas vezes aqui abordei o tema Merkel.
Ela vem aí, e à sua espera terá uma manifestação cujo slogan é – Que se lixe a troika, a Merkel não manda aqui.

Acontece que manda.

E manda sobretudo por causa do nosso comodismo e analfabetismo político, muito mais do que pelo facto de a Alemanha ser nossa credora.

Se o projecto de Europa a que aderimos está hoje completamente desfigurado pela existência dum directório em que a Merkel é soba, a culpa é nossa.

Se aqui estamos agora, pobres e sem soberania para sair da pobreza, é porque, de todas as vezes que houve um novo tratado, nunca exigimos conhecê-lo, discuti-lo ou referendá-lo, isto é, assinámos de cruz.

A Merkel é nossa credora usurária mas contra ela nada posso – não a elegi, e a sua permanência no poder não depende da minha vontade nem dos meus gritos, que também não a fariam mudar.

O que eu posso, e tenho o dever de fazer, é gritar aos ouvidos do meu governo que é ele que tem que gritar aos ouvidos da Merkel, e dos outros, que precisamos renegociar a dívida para que a possamos pagar; se o governo não o fizer ou nada conseguir, eu vou gritar-lhe aos ouvidos que tem que, ao menos, negociar a nossa saída do clube dos ricos a que, manifestamente, deixámos de poder pertencer.

É isso, e apenas isso, que estou disposta a gritar “até que a voz me doa”.
Quanto à Merkel, já está fora da minha “guerra”.

Assinar cartas a dizer-lhe que é mal-vinda, ou ir berrar-lhe coisas que ela não ouvirá, parecem-me actividades lúdicas e inconsequentes que, com franqueza, não me apetecem.
Posto isto, e como sempre preciso de encontrar algum sentido para o que faço, obviamente, não vou.

 
PS: Tudo o que disse não invalida que, após a sua saída, o país precisasse de muitos objectos como o da imagem acima, roubada há tempos ao blogue Delito de Opinião.

 

8 de novembro de 2012

A náusea

Em noite Obama, passai pela Sic Notícias e encontrei Rui Vilar, Manuela Ferreira Leite e Isabel Jonet a discutir o do costume. Confesso que só apanhei a parte final do programa, mas foi o suficiente para apreciar o pensamento e discurso daquela santa senhora, a D. Isabel Jonet do Banco Alimentar contra a Fome.

De repente, achei que estava a ver um filme antigo, a preto e branco, e que julgava já estar no caixote do lixo da história.

Pois, não está, e com ele vieram-me à memória o Movimento Nacional Feminino, o queijo e rosado e o leite em pó do senhor prior, e a morgada lá da aldeia que passava a vida na sacristia e, no tempo livre, fazia uma caridade repleta de censuras àqueles farrapilhas que não sabiam governar a casa com o mísero salário que o seu marido lhes pagava para trabalharem de sol-a-sol.

“Vivemos acima das nossas possibilidades”, pois claro, e temos que empobrecer. Imagine-se que os filhos dela não usam copo dos dentes, gastando assim imensa água (quem é que os educou? certamente a criada desgovernada enquanto ela estava na sacristia) e ainda deu sábios conselhos, como aquele de os jovens se deixarem de concertos rock e guardarem o dinheirinho para quando precisarem de fazer uma radiografia.

Esta maralha caridosa, esta casta superior, acha que, finalmente, podemos voltar aos gloriosos tempos, de tão boa memória para eles, de 1973, ou 1963 e por aí atrás. E di-lo.

Olhe, D. Isabel Jonet, eu também lhe vou dizer uma coisa: quando chegar o dia do seu peditório, eu vou seguir os seus pedagógicos conselhos, vou olhar para a carteira e ponderar se não tenho andado a viver acima das minhas possibilidades.
É que, ainda mais por já não ser jovem, vou ter de poupar para a radiografia.


7 de novembro de 2012

Para Obama















Do site IZ NOT ME IZ YOU

Bilhete-postal com destinatário

Lembras-te daquele 7 de Novembro em que não só virámos costas ao cânone como, a bem dizer, o insultámos?

Claro que te lembras, como eu.

E desde então, tantas milhas percorridas, em estrada batida ou asfaltada, ora árida ora verdejante, para já não falar das amplitudes térmicas com que nos deparámos − entre o tórrido e o frio, com longos períodos de repouso docemente tépido.

Procurámos companhia, de dois fizemos quatro, e todos juntos continuamos, até hoje, a percorrer milhas e a afastar as pedras do caminho.

A canção diz que “amor é prosa, sexo é poesia”.
Redutor, eu acho.
Só nós já escrevemos todos os géneros literários – épico, lírico e dramático, em que também se inscreveram o romance, a comédia, o drama e o humor.
Bora escrever agora uma enciclopédia?

 

 

6 de novembro de 2012

O pide, o preso e o barqueiro

Quando ouvi Passos Coelho dizer que ia refundar o Estado e que tinha mandado uma carta ao Seguro a convidá-lo para participar no trabalhinho, lembrei-me duma história que me contaram há muitos anos.

Um preso político, mesmo sujeito a todos os “mimos” que a pide conseguia dispensar, nunca, sequer, abriu a boca. Os pides, em desespero, resolveram mudar de estratégia e mandaram um outro de falas mansas que, com muito jeitinho, tentou convencer o preso da bondade de colaborar.
Este, ouviu-o calmamente e resolveu falar, o que muito animou o pide.

Contou, então, uma história:

“Havia um pobre homem, que vivia numa aldeia à beira do mediterrâneo, cujo trabalho era transportar figos, no seu pequeno barco, entre várias povoações vizinhas. Num dia de inverno, o mar apresentou-se tão calmo e convidativo que ele resolveu carregar o barco e ir fazer o seu trabalho. A meio da viagem, gerou-se uma tempestade que levou o barco, os figos e quase o levou a ele. No inverno seguinte, surgiu um dia exactamente igual ao anterior. O homem sentou-se, olhou para o mar e disse:

Ah, meu grande filho da p***, eu sei bem o que tu queres − o que tu queres, é figos.”

É fácil adivinhar o que se seguiu entre o pide “manso” e o preso mas, se eu fosse o Seguro (cruzes, credo) era com esta história que teria respondido à cartinha, e não com aquele relambório que publicou no facebook.

Ainda bem que não estou na política. O país corria o risco de a ver ainda mais debochada do que ela já está.

5 de novembro de 2012

Obama

Há quatro anos, por esta altura, o mundo estava expectante com as eleições americanas. Depois dos oito anos de chumbo de G. W. Bush, ansiávamos por algo de novo, mais leve e promissor, que viesse daquele lado do mundo. Podia ser uma mulher ou um negro, e isso, só por si, já era uma radical mudança, mas mesmo o candidato republicano tinha uma dignidade reconfortante.

Por mim, fui totalmente apanhada pelo carisma de Obama, e podia ficar horas a olhar para o homem na televisão.
Após a euforia da eleição, percebi quão difícil seria para aquela criatura satisfazer as expectativas de tanta e tão diversa gente.

Com os pés no chão, comecei a desejar apenas que ele não nos desiludisse muito.
Obama é homem do sistema, e a política é arte do possível, logo, não haveria espaço para transformações profundas.

Quando foi eleito, já tinha começado a crise do subprime, mas estávamos longe de saber como ela iria ser exportada para a Europa, e como iria mexer dramaticamente com as nossas vidas.
Chegados aqui, virados para dentro, lambendo as feridas, pouca atenção temos dispensado à eleição de amanhã, mas ela continua a ser importante também para nós.

Não sei em que proporção, internamente, Obama se saiu bem ou mal, mas sei que, cá fora, o ar continua mais respirável e menos ameaçador.
Romney tem-se apresentado como um homem de negócios de sucesso e um bom gestor. Acontece que, transportar a gestão para a política quase sempre dá mau resultado; a política, ainda mais numa potência, precisa de muito mais que gestores, precisa dos que são políticos até ao tutano.
 “Voto” Obama.


2 de novembro de 2012

Ulrich saído da caixa

Há dias em que olho para Ulrich e vejo uma picareta falante. Noutros vejo um boneco de mola saído da caixa com a incumbência própria do bobo da corte – bandear-se e fazer rir os cortesãos, seus donos. Tomou o gosto à coisa, que é como quem diz, a fazer palhaçadas e a dizer alarvidades, e já nem quer outra vida.

Está em todas, nem deve ter tempo para ir ao banco.

E como ele está contente consigo próprio, e como ele gosta de dizer tudo o que lhe vem àquela cabeça pouco esperta, e como ele sente a impunidade, e como ele gosta de achincalhar, e como ele é provocador.

“Aguenta, aguenta”, diz o boçal Ulrich sobre a nossa vida, e eu pensei logo em ir fechar a continha lá na loja onde ele trabalha mas, confesso, fiquei um bocado aflita.

Pensei, vou-me embora para onde?

Do BCP já fugi há anos, da Caixa Geral de Depósitos nunca me aproximei porque não gosto de marajás com um séquito de burocratas, ao Salgado não comprava nem uma vespa em segunda mão e, no que toca aos poucos restantes, era só mudar as moscas.

Resolvi ficar, até porque, hoje, abrir uma conta num banco é muito mais complicado, moroso e cansativo do que despedir 600 pessoas ou declarar falência.

Outra razão para não me dar a esse incómodo é que me parece que, qualquer dia, qualquer coisa, que não só as montras gregas, se vai partir bem perto do palerma do Ulrich, e isso vai assustá-lo tanto que até talvez fique gago.

Nesse dia, os donos do palhaço mandam-no bugiar e contratam outro.
Sempre mudam as moscas.


1 de novembro de 2012

Se calhar, já foi

Hoje é feriado e por isso não quero incomodar ninguém. Venho aqui só mesmo para exprimir uma dúvida:

Será que ainda temos Presidente da República, ou já emigrou também?

Há pouco tempo li este título na Imprensa Falsa:
 
“Enfermeiro escreveu a Cavaco a dizer que ia partir. Cavaco respondeu a pedir para ir com ele”.
Se calhar já foi, digo eu, sei lá.


31 de outubro de 2012

Nova Iorque

A tempestade que se aproximava de Nova Iorque no início da semana, era, diziam, a tempestade perfeita, e prometia causar danos.

Começámos a “vê-la” dias antes nos telejornais, com os repórteres na rua, e na segunda-feira, na internet, podia até ver-se a cidade ao minuto.

Tanta foi a atenção dispensada ao assunto que quase parecia que nós mesmos teríamos que ir fechar portas e entaipar janelas, por ser a nossa casa e a nossa cidade que estavam no olho do furacão.

Metaforicamente, não se andava longe.

Congregação de grandezas e misérias humanas, plataforma de todas as raças e credos, cidade dos sonhos, do vidro e do aço, da arte e da música, da inovação e do luxo − tanto quanto da degradação e miséria, Nova Iorque é património e símbolo maior de toda a civilização ocidental a que pertencemos.

No nosso imaginário, e para sempre, a literatura, mas sobretudo o cinema, ajudaram a fixar-lhe as curvas e os ângulos, a violência e a poesia, os recantos e os grandes espaços.

Nova Iorque está colada à pele duma civilização e duma cultura.
Por isso é casa, sim, e é também nossa.

 

Aviso à navegação: não serão publicados comentários que, embora não sejam ofensivos, nada têm a ver com o que aqui foi escrito.
Igualmente não serão publicados comentários escritos numa linguagem vagamente semelhante ao português.


30 de outubro de 2012

A superfície das coisas

Na sua crónica no Expresso de 27 de Outubro, Clara Ferreira Alves traça o perfil dum subgrupo de jovens portugueses, que, no poder ou perto dele, está a querer destruir tudo o que é público sem nunca ter posto os pés na escola pública, por exemplo; serão possuidores dum MBA caro, feito com o dinheiro dos pais, e profundos desconhecedores da realidade que querem destruir.
Chama-lhes, “senhoritos dos mestrado de luxo”.

Joana Lopes pega nesse artigo e escreve o post “Os nossos jovens felizes”. Refere que os vê à hora de almoço, “bem trajados” (suponho que seja de fato e gravata) e que, ouvindo-os, se percebe que a crise lhes passa ao lado.

Sim, não o nego, o subgrupo existe, e está por aí bastante activo.

Porém, há no tom usado, sobretudo por CFA, um perfume a desdém pelos mestrados e MBA, como se isso fosse sinónimo de cabeça oca e neoloberalismo de pacotilha.

Não é, e, pessoalmente, estou convencida que muitos dos jovens referidos foram alunos medíocres, em escolas tanto públicas como privadas, e não fizeram nenhum mestrado ou MBA − nem de luxo nem pelintra.

Os seus percursos académicos são mais do tipo Passos e Relvas.

Por outro lado, se quisermos ter um olhar um pouco mais abrangente, poderemos encontrar jovens, desses “bem trajados”, que estudaram na escola pública da pré-primária ao último ano da universidade, arranjaram trabalho quando a coisa estava ainda um pouco menos difícil, e fizeram a sua própria poupança para com ela fazerem o tal MBA caro.

Eles também existem, e até os vi no 15 de Setembro, de jeans e t shirt, batendo furiosamente tachos e panelas enquanto gritavam as mesmas palavras de ordem que os desempregados.

No reverso da medalha, não os conhecendo, sei que há muitos “alternativos” com um pensamento neonazi.

Bem ou mal trajados, com ou sem MBA, há de tudo, como na farmácia.
A superfície das coisas é que é muito enganadora.

 

29 de outubro de 2012

Professor-modelo

O que é um professor-modelo?
O que é um médico-modelo?
O que é um metalúrgico-modelo?
O que é um padeiro-modelo?

Eu não sei, mas um iluminado e variado painel de respeitáveis cabeças, sob os auspícios do DN e duma empresa portuguesa de nome inglês, acha que o sabe, e vai escolher o professor-modelo, ou o professor do ano.

O referido painel é um verdadeiro melting pot - Adriano Moreira, Viriato Soromenho-Marques, Roberto Carneiro. Alice Vieira e o inevitável presidente das associações de pais, Albino Almeida (tudo ao molho e fé em deus!).

Porquê os professores? Trata-se, porventura, duma profissão em perigo de extinção como os amola-tesouras, dum subgrupo dos humanos, ou dum remeloso grupelho em que encontrar um “modelo” é como encontrar agulha em palheiro?

Distinguir um professor por ano parece-me uma brincadeira de mau gosto, desrespeitosa, até, para com os milhares de professores, competente e empenhados, que temos.

Se não fossem eles, a escola, no seu conjunto, sujeita permanentemente a experimentalismos e taras políticas, já teria dado um enorme estoiro.

A eleição de miss-qualquer-coisa sempre serviu, exclusivamente, para alimentar vaidades pessoais, e o que os professores exigem, e merecem, é respeito e condições de trabalho, coisas que cada vez têm menos.

E a defesa da escola pública também passa por aí.
Eu não gosto nada da eleição do caniche mais lindo da pradaria.
Eu gosto muito dos professores.


26 de outubro de 2012

A nódoa


Era uma vez uma nódoa.
Não se sabe exactamente donde veio, sabe-se apenas que veio da Europa.
Como no melhor pano cai a nódoa, esta caiu no Terreiro do Paço.
Faz aparições regulares, tipo Nossa Senhora de Fátima, mas em versão malévola.

É uma nódoa falante; fala em staccato, coisa própria de algumas patologias.
Há patologias neurológicas em que o doente perde a noção do que pode e não pode dizer, e diz tudo o que lhe vem à cabeça. Esta nódoa que fala em staccato também padece dessa patologia, bem como de megalomania, o que a leva a acreditar que vai ficar no Terreiro do Paço talvez vitaliciamente (já conhecemos outra nódoa com a mesma mania) mas, no mínimo, até 2015.

É uma daquelas nódoas tão irritantes que está disposta a não nos sair da vista, a menos que cortemos o pano.
Quando nos decidirmos por esta derradeira e radical solução, veremos quem é o melhor a fazer “cortes”.

25 de outubro de 2012

Mater

Em verso ou em prosa, com música ou sem música, com pincéis ou sem pincéis, com voz ou sem voz, já tudo se disse sobre as mães.
Disse-se isto, aquilo e o seu contrário, e tudo é verdadeiro porque, por mais díspares que sejam as afirmações, sempre haverá uma mãe a quem assentam bem. Caso para dizer: cada mãe é uma mãe.

A minha sempre foi guerreira, desdobrando-se em todas as frentes de batalha, socorrendo cada flanco em dificuldades, cada batalhão em perigo de ser dizimado.
Inteligente e despachada, sempre teve a arte de multiplicar pães, que nunca transformou em rosas porque ninguém come rosas.

No que toca ao açúcar, com ela sempre foi como na culinária – qb − mas a dose era largamente reforçada quando estávamos doentes.
Aí, não havia limite, e ele era-nos dado em pó, granulado, em ponto pérola, caramelo ou rebuçado, branco, amarelo ou mascavado.

Deve ser por isso que, ainda hoje, maduríssima que sou, suspiro por essas carradas de açúcar quando me dão uma porcaria duns pontinhos na boca.

Olá mãe, parece que há um ponto de açúcar que faz bolinhas quando se sopra e se chama Ponto de Voar.
Pode ser desse hoje?


24 de outubro de 2012

Parece no Togo, mas não é



 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Caro Presidente da CML

Com alguma regularidade, uso a passagem superior sobre a linha do comboio na zona do Hospital Curry Cabral.

É alta. De um lado tem 47 degraus, e do outro tem 38.

Como é natural, tem dois elevadores, um de cada lado. Infelizmente, como também é natural, é raro que os elevadores funcionem.

Se se tratasse dum particular a desrespeitar assim as leis da mobilidade já tinha apanhado uma série de multas, mas como o infractor é a Câmara, tomamos isso como uma fatalidade do ser português.

Aquilo é um dó d’alma, ver idosos de bengala, senhoras com carros de compras, ou jovens mulheres carregadas de filhos, sacos e carrinhos, no difícil exercício de subir e descer tantos degraus.

O senhor presidente já imaginou, se fosse a sua mãezinha com o carro das compras, ou o seu avozinho de bengala, ou a sua filha com os meninos, sujeitos àqueles tratos? Não gostava, pois não? Então por que se está nas tintas para os que não pertencem à parentela e até o elegeram?

Calculo que a pronta justificação para a constante inactividade do elevador será que não há dinheiro mas, se puxar por esse argumento, juro que vou achar que todas as taxas e taxinhas que pagamos servem apenas para pagar tachos e tachinhos dentro da Câmara.

Posso lá agora acreditar nisso!
Cuide da sua gente, senhor presidente, sobretudo daquela que mais precisa de ser cuidada.
E, se puder, de caminho “lave a cara” ao “bicho”, que bem precisa.

 
PS: a fotografia ali de cima não foi tirada no Togo ou na Guiné-Bissau. Acredite-se ou não, é o referido elevador lisboeta.

22 de outubro de 2012

Sou um estado de alma

Os alentejanos gostam de dizer que “ser alentejano é um estado de alma”.

Nós, alentejanos, somos comedores de pão, inventores da cozinha do nada e do “cante”, gente curtida pelo desalmado sol de verão e “enrijada “ pelas manhãs de geada, contadores de anedotas sobre nós mesmos, geralmente curtas, incisivas e espelho do destinatário, somos de poucas palavras e, regra geral, não temos pressa.
Somos, sobretudo, orgulhosos do que somos, e temos a particularidade de na lonjura nos encontrarmos, porque é sempre “já ali adiante”.

Não basta ter nascido no Alentejo para ser alentejano − pode-se sê-lo tendo nascido longe, porque ser alentejano é, de facto, um estado de alma.

Ora, se assim é, e se Relvas disse no Parlamento que não há espaço para estados de alma, a conclusão lógica, acho eu, é que não há espaço para os alentejanos.

Mas há, o ministro está enganado. O que não falta no Alentejo é espaço.

O senhor ministro que venha cá que a gente mostra-lhe a terra a perder de vista, os sobreiros, as azinheiras, os “montes”, a vinha, as oliveiras, as ovelhitas a pastar, tudo à larga.

E mais ainda: até temos umas grutas ali no Escoural que estamos mortinhos para lhe mostrar.
E pode ficar a ver o tempo que quiser, que agente fecha a porta por causa das correntes de ar que, volta não volta, se fazem sentir aqui no descampado.


19 de outubro de 2012

Um grande senhor












Manuel António Pina partiu hoje, deixando-nos ainda mais pobres e mais tristes.

Chamar nomes é feio, eu sei, mas...

Primeiro vieram as tropas dizer que, no estado em que as coisas estão, as forças armadas não estarão em condições de “defender a soberania do país”.
Independentemente das razões que possam assistir às tropas, perguntei aos meus botões – qual soberania?

Os botões responderam que podíamos tentar rapar o fundo do tacho a ver se ainda encontrávamos alguma, mas só isso.

De seguida, vem a notícia de que a Merkel reclama o direito de ingerência nos orçamentos dos outros Estados.
Aí, já nem perguntei nada aos botões; só exclamei de dentes cerrados – grande CABRA!
Acho que eles concordaram.


18 de outubro de 2012

Do título em inglês para a asneira em português

Volto ao Expresso de 13 de Outubro, jornal que dá direito a quase tantos comentários como os amuos do CDS, e que, na sua Revista, tem uma “coisa” que se chama login. Entende-se –o português é língua de fracos recursos!

No último sábado, a página foi dedicada à mudança de direcção do Museu de Serralves, que passará a ser assumida por Suzanne Cotter, substituindo João Fernandes.

Neste tal login, o director cessante passou a “chamar-se” João Gonçalves, e por duas vezes.

Não parece gralha, pois não?

João Fernandes está em Serralves desde 1996 e foi seu director nos últimos oito anos. Fez um trabalho tão notável que saiu para sub-director do Museu Rainha Sofia em Madrid, e, pasme-se, até foi condecorado pelo Governo francês como Cavaleiro das Artes e das Letras.

É portuguesinho de gema, com trabalho reconhecido “lá fora”, mas o jornalista do Expresso não lhe sabe o nome, e o editor também não, e o revisor também não e, se calhar, o director também não.

Analfabetismo cultural será, mas é sobretudo preguiça, muita preguiça.
Está tudo na internet, senhores jornalistas.

E, já agora, deixo ali em cima a fotografia de João Fernandes, para que o jornalista do Expresso, quando o vir em Espanha, o possa identificar correctamente, e não lhe venha a chamar Juan Fernandez, ou Gonçalvez, ou coisa que o valha.

17 de outubro de 2012

Troika lusa


É claro que eu não li a proposta de orçamento, mas colhi no Público online de ontem a seguinte informação:

A Saúde desce 19,8% e a Educação e Ciência 0,4%, o Subsídio de doença 5,3%,  mas a Defesa Nacional aumenta 10% e a Administração Interna 12%.

Mais palavras para quê? Está à vista a matriz ideológica da troika lusa − Passos +Gaspar + Relvas.

Mas eu hoje queria mandar um recado ao “troiko” Gaspar.

Disse ele, na conferência de imprensa, que está aqui para retribuir o dinheiro que o país gastou com a sua educação.

Só posso falar por mim, claro, mas gostava de lhe dizer que sou pessoa desprendida, que paguei com satisfação os estudos dele, os dos meus filhos e os de alguns milhares de outros jovens portugueses. Pena que a cabecinha dele não tenha dado para ir além do Excel, mas paciência. Não quero nada em troca, acho que deve considerar a dívida saldada e, pela minha parte, pode e deve ir embora o mais depressa possível.

Sei que não irá. Nem ele nem o resto da troika lusa, porque o trabalhinho que vieram fazer ainda não está pronto.

A grande questão que se põe é saber se seremos nós capazes de lhes dar um belo pontapé no traseiro. Não sorrateiramente, como quem não quer a coisa, mas bem às claras como QUEM-QUER-A-COISA.
 
Eles merecem a nossa frontalidade.



16 de outubro de 2012

Sousa Tavares e a Fundação Saramago

No seu artigo de opinião do Expresso de 13 de Outubro, Miguel Sousa Tavares escreve, muito bem como de costume, sobre a carga fiscal que aí vem. No fim, entende fazer um PS em que goza com o Congresso das Alternativas (reunião de marretas de esquerda, segundo ele) e, aproveitado o facto de este ter sido encerrado por Pilar del Rio, termina escrevendo:

Saberão os “alternativos” quanto já nos custou a Fundação Saramago e o que fez em troca pelo bem comum? Ou não lhes interessa saber?

Alternativos ou não, julgo que interessa a todos saber, mas eu lembro-me de sobre o assunto ter lido, por exemplo aqui, que a fundação não iria ter dinheiros públicos.

É certo que a obra na Casa dos Bicos foi levada a cabo pela Câmara de Lisboa; estava aos ratos, e sendo monumento nacional, não vejo por que não seria o dinheiro público a financiar a obra.

Ora, eu não sou mesmo nada admiradora da Presidenta (?) Pilar, mas ela é a mulher que Saramago escolheu para viver e para ser presidente vitalícia da sua fundação. Qual o mal? O senhor Gulbenkian não escolheu Azeredo Perdigão para presidente vitalício da fundação que leva o seu nome?

Se alguma coisa se modificou no financiamento da Fundação Saramago e o Miguel Sousa Tavares o sabe, é bom que o diga por inteiro, para todos sabermos, e não se limite a deixar no ar perguntas insidiosas que já contêm em si a resposta.

Fale, homem, eu quero saber a verdade, e um jornalista pode descobri-la muito mais facilmente que eu.

Fico à espera do esclarecimento para dar a mão à palmatória, se for caso disso. Caso ele não venha, vou continuar a pensar sobre o Miguel Sousa Tavares o que sempre pensei – excelente jornalista, quase sempre certeiro, mas, quando movido por ódios pessoais, pode espalhar verrina e suspeições de duvidosa seriedade intelectual.

15 de outubro de 2012

Relatório

Relatório do dia 13 de Outubro para a Rute

Pois, lá fui outra vez a caminho de Praça de Espanha mas, confesso, fiquei pouco tempo.

Estavam-me a dar demasiada música para tanta raiva.
Os artistas fizeram o seu papel; contudo, aquilo pareceu-me mais um espetáculo de rua do que uma acção de protesto. Mas gostei muito, por exemplo, de ouvir a Maria do Céu guerra dizer um poema da Ana Hatherly, grande poeta e artista visual que quase ninguém conhece neste país. Mas isso já é o costume, nem vale a pena lamuriar.

Era este o poema:

Esta Gente / Essa Gente

O que é preciso é gente
gente com dente
gente que tenha dente
que mostre o dente
 
Gente que não seja decente
nem docente
nem docemente
nem delicodocemente
 
Gente com mente
com sã mente
que sinta que não mente
que sinta o dente são e a mente
 
Gente que enterre o dente
que fira de unha e dente
e mostre o dente potente
ao prepotente
 
O que é preciso é gente
que atire fora com essa gente
 
Essa gente dominada por essa gente
não sente como a gente
não quer
ser dominada por gente
 
NENHUMA!
 
A gente
só é dominada por essa gente
quando não sabe que é gente


Sabes, eu acho que aquilo teria sido uma coisa bem diferente se a CGTP tivesse feito desaguar a marcha contra o desemprego lá, na Praça de Espanha. Mas isso teria sido um verdadeiro sismo nos estereótipos da CGTP. E depois como é que o Arménio falava, como é que se mostrava a força da Intersindical?
Lá por aquela banda, tudo como dantes − nós somos nós, quem quiser que venha atrás.
Nada a fazer.

Olha, esta história de andar sempre na rua também proporciona outras experiências - faz com que encontremos pessoas que já não víamos há muito tempo. E, caraças, como ficamos contentes de nos encontrarmos, e ainda mais de nos encontrarmos naqueles sítios.
Dias agridoces, os nossos, por aqui. Até breve.
Fim de relatório

 
PS: Aquela ali em cima é a Ana Hatherly há uns bons anos atrás. Escolhi-a em homenagem a todos os desprezados artistas deste país.


12 de outubro de 2012

Ena, pá, Seguro foi a Paris.




Seguro foi a Paris falar durante 30 minutos com François Hollande. Grande Seguro, isso é d’homem, e até parece alta política.

De que terão falado, interrogo-me. De política e de Europa não deve ter sido, visto que nenhum deles tem qualquer ideia firme naquelas cabecinhas sobre tais assuntos.

Hollande já mostrou que é mero “encarregado de negócios” dos patrões franceses e da Merkel (ao assinar o pacto de estabilidade que tinha jurado não assinar).

Seguro, por sua vez, sabe que nunca chegará a chefe de quadrilha, e os ensinamentos de Hollande nem lhe devem interessar por aí além; por isso me parece que o jovem estava com vontade de ir rever o outono em Paris e, de caminho, tomou um cafezinho no Eliseu.

Foi simpático, certamente, e fica bem no currículo, naquela parte da “experiência internacional”. Talvez se prepare para emigrar, quem sabe?!

PS: não encontrei fotos do encontro; por isso ponho outra, visto ser indiferente.

10 de outubro de 2012

Vivendo com a diferença

Ainda gosto de a recordar menina.
Baixinha, viva, olhos verdes e míopes, vaidosa, leitora compulsiva, parecia uma bailarina de caixa de música posta a tocar para que mostrasse graciosas habilidades.
O auditório familiar sonhava sonhos grandes para ela, menina com brilho extra, leitora precoce de Althusser e Rosa Luxemburgo.

Quando, adolescente, sobreveio o breackdown, e que raio seria isso, foi como uma bala no meio do peito do embevecido público. Havia de passar, havia de se curar.
O tapete vermelho passou a rampa de perigoso ângulo, resvalando para as alucinações, o real imaginário, os imprevisíveis humores, a esquizofrenia.
Como se um espírito mau tivesse puxado o fio do tricô tão laboriosamente tricotado, este começou a desfazer-se em brigas de amor-ódio, agressões verbais, fugas, relações cada vez mais perigosas com a vida, e lenta implosão familiar.

Nos dias bons, parodiava-se a normalidade, nos dias maus encetavam-se buscas ansiosas em pensões sórdidas da Baixa onde nunca estava só, e nem sequer aparecia, mas mandava recado, dizendo que ainda não era tempo de voltar para casa. Iniciava-se então o regresso, com uma dor que não devia ser permitida a nenhuma menina, para informar que parecia que sim, que estava viva, mas não se sabia dizer quanto.

Havia de passar, havia de se curar. E o plano inclinado cada vez mais íngreme, escorregadio e imprevisível.
Mas ainda gosto de a recordar menina.

 
PS: hoje é Dia Mundial da Saúde Mental


9 de outubro de 2012

Que se lixe a troika e o Gaspar - duas exposições


Esta exposição é um ensaio.
Um ensaio, ensinou-nos Montaigne, é um texto que explora um objeto por tentativas, e que assim se acerca do próprio ensaísta – sem a pretensão de argumentar uma tese metódica e conclusiva. (…) – assim poderá ser uma exposição.
Paulo Pires do Vale no catálogo da exposição Tarefas Infinitas.

Foi assim que as vi, como ensaios, as exposições de Renato Ferrão, no Chiado 8, e de Carlos Nogueira no Centro de Arte Moderna da Gulbenkian.
O primeiro ganhou o Prémio de Artes Plásticas União Latina 2010 e, na actual exposição, continua o seu trabalho de exploração do espaço e de mandar às malvas os conceitos clássicos de escultura.
Tudo nesta exposição é movimento tenso e repetido, tudo é frágil e pode cair-nos em cima – um belo ensaio sobre os “tempos modernos”.

A retrospectiva de Carlos Nogueira no CAM é, por sua vez, o culminar do ensaio que tem sido todo o seu percurso artístico.
Sistematicamente fora do mainstream, é autor duma obra tão consistente como coerente, e, para mim, das mais originais da sua geração.
Prova dessa coerência, ao fim de mais de 40 anos de trabalho, a afirmação proferida de que não faz distinção entre o que produziu na adolescência e o que faz agora – “ Faço sempre uma única obra”.

Melhor do que Xanax, mais barato e higiénico.
E, sim, há vida para além da troika e do Gaspar.

8 de outubro de 2012

Duas mulheres



Naquelas lamentáveis comemorações do 5 de Outubro, duas mulheres ousaram romper o anel protector do medo que o poder político levantou em redor de si mesmo.

Quase tudo foi mau demais naquele dia, e enquanto a maioria de nós ficou em casa a rir da bandeira de pernas para o ar ou a abrir a boca com a estupidez do discurso de Cavaco, aquelas duas mulheres – Luísa Trindade e Ana Maria Pinto, movidas pelo desespero, uma, e pela indignação, outra, tiveram a coragem de estragar o fino velório.

Entretanto, o inefável Jorge Sampaio dizia que não comentava nada porque já há ruído a mais.

Pois a mim parece-me que ainda há ruído a menos, e que os ouvidos ainda lhe vão doer por excesso de decibéis.
Estou grata àquelas duas mulheres por terem quebrado a paz de cemitério que reinava no Pátio da Galé.
 

4 de outubro de 2012

Desaparecido (s)em combate

Não, não ando à procura do Portas, que eu bem o vi lá na AR, caladinho, é certo, mas presente. Procuro o Viegas, esse carismático escritor e editor que aceitou ser Secretário de Estado da Cultura.

Anda desaparecido. Deve entrar e sair de parapente – ninguém o vê, ninguém o procura, e, provavelmente, já ninguém se lembra que ele existe, excepto eu.

A verdade é que a criatura existe, foi convidada para a governação (ih! ih!), encheu o peito (já de si um pouco cheio), e até repetiu aquela coisa linda de “fazer mais com menos”. Não é a primeira vez que aqui escrevo sobre o Viegas mas quero recordar que, no seu blogue, e antes das eleições, escreveu um texto de incitamento e apoio implícitos a Passos, que terminava com uma citação/recomendação assim:

 
Quando ofereceram o poder ao Mestre de Avis, explicaram-lhe: prometa o que não pode, ofereça o que não tem e perdoe a quem não o ofendeu. Aprendam. Aprendamos.

 
A coisa prometia, mas foi fogo de palha. É que nem mesmo agora, com aquela trapalhada das fundações, o ouvi lamentar o “inevitável” corte em Serralves, Casa da Música, Museu Paula Rego, Culturgest, Museu Vieira da Silva etc., enfim, aquelas casas que ainda se esforçam por não deixar que este retângulo se transforme num enorme deserto cultural.

Nada. Sumiu. Escafedeu-se.

Temo, por isso, que depois de ter escrito um policial que dava pelo nome de “Morte no Estádio”, possa estar agora a escrever, nas suas muitas horas vagas, a sequela − “Morte no Palácio da Ajuda”.

Novo modelo IRS



3 de outubro de 2012

Que se lixe a troika – um livro

FOME, de Knut Hamsun (1859-1952), Prémio Nobel da Literatura em 1920, é um livro soberbo. Na edição da Cavalo de Ferro, tem um longo prefácio de Paul Auster, que quase me fez desistir da leitura; não por ser mau, ao contrário, mas por achar que me ia mete com um louco, e estar farta deles.

Romance quase sem história nem personagens (apenas o narrador) conta-nos os dias difíceis dum aspirante a escritor na cidade de Kristiania, actual Oslo.

Na mais negra miséria, o jovem deambula pela cidade, para cima e para baixo, ou em círculos, escreve, ou tenta escrever, gela e alucina quando possuído pela fome de vários dias, descrita duma maneira tão vívida que dá medo.

As suas atitudes desconcertantes, pautadas por juízos pouco lógicos para quem está em tão terrível situação, fazem-nos, por vezes, pensar que está alienado, que busca a morte. Falso.

O instinto de sobrevivência acaba por falar mais alto, talvez porque o narrador tenha terminado a busca de identidade, e o teste aos limites, através da mais dolorosa das experiências físicas – a fome.

Livro publicado em 1890, não podia ser mais moderno; e o facto de o homem ter sido simpatizante nazi, aquando da ocupação da Noruega, não retira nem um pouco de valor à obra.

2 de outubro de 2012

Crises são oportunidades?

Está na moda dizê-lo, mas, pessoalmente, entendo-a como uma frase estouvada, perigosa e imoral, destinada, bastas vezes, a criar culpa nas vítimas.

Crises são oportunidades para quem já teve muitas oportunidades na vida.

Quem, por meios lícitos ou ilícitos, conseguiu amealhar um razoável pecúlio pode, durante as crises, aumentá-lo, geralmente cavando mais no sofrimento e desespero de outros. Pode comprar pechinchas, que, após a crise, valerão muitas vezes o preço por que foram compradas.

É assim que alguns fazem, ou aumentam, fortunas. Mas são apenas alguns.

A grande massa dos que são apanhados na malha apertada da crise não possui esses meios, prévios e indispensáveis, para agarrar as oportunidades – viveu sempre do trabalho assalariado ou da pequena empresa familiar, coisas que apenas dão para ir levando o dia-a-dia e criando os filhos com mais ou menos sacrifícios.

Para esses milhões que alastram pela Europa, crise é desemprego e desespero, em muitos casos para o resto da vida.

Crises são oportunidades? Uma ova!

E o bando de papagaios que por aí anda a repetir o slogan inventado pelos mesmos que os vão lixar, melhor faria se o trocasse pela única frase do papagaio Jacob − o Jacob é burro, burro, burro.

 

1 de outubro de 2012

Claro que fui

Fui, pois. Como não ir?
A Praça estava cheia como um ovo?
Não, mas estava cheia.

Foi então uma boa manifestação?
Foi, mas eu senti-me apenas a cumprir um dever, longe do que vivi há duas semanas - espontaneidade, desordem organizada, humor, convicção cívica e tomada pacífica, mas assertiva, da rua.
Seja assim ou seja assado, muito asfalto temos para calcorrear.
Ainda agora começámos.