26 de março de 2012

Cidadania, isso?

Isto da cidadania não é só para exercer quando se trata dos cocós dos cães!” Li estas palavras no Facebook.
Concordo com elas, e como até já aqui escrevi sobre "Beatas e cocós", enfiei a carapuça. Por isso ouso ir um pouco mais além no tema e naquilo que, no Facebook, originou as palavras citadas – a carga policial no Chiado.

A cidadania, em meu entender, exerce-se todos os dias, a todas as horas, em qualquer local. É transversal a todos os atos da nossa vida quotidiana.
Tal como a política, está em tudo.

Porém, pede-se no Facebook a identificação do apelidado “Valentão do Chiado”, aquele polícia que, na foto muito divulgada, está a bater na fotojornalista, e entende-se isso como um ato de cidadania – identificá-lo e, na melhor das hipóteses, castigá-lo, na pior talvez linchá-lo à bastonada. Ora, aqui não concordo; não acho que isso seja um ato de cidadania.

Os jovens fotojornalistas que foram para o terreno e foram agredidos, deviam saber que a polícia de choque tem o nome com ela, e quando intervém é para limpar o local, está cega, só obedece à ordem que recebeu. São assim todas as forças militares e paramilitares, sempre o foram. Quando aparecem, é bom que se fuja, seja-se ou não jornalista, porque ali já não estão homens – apenas máquinas bestiais treinadas para bater.

Identificar um polícia como alvo a abater, como se ele fosse causa e símbolo de todos os males da nossa democracia, pode ser um alívio para a raiva que vamos contendo, mas nada tem de exercício de cidadania.
Faz parte das regras do bom jogo democrático que protestemos sempre contra a violência policial mas, por aqui, nunca vi uma boa discussão democrática e cidadã sobre se queremos ter, ou não, um corpo de intervenção, qual o papel que lhe atribuímos e quais as suas baias, já que o pagamos.
Pedir a cabeça dum polícia (ainda que sádico) não é exercício de cidadania, é pura expressão de raiva, talvez mesmo de impotência, mas não deixa de ter um perigoso cheirinho de apelo à justiça popular.
Não, não vou por aí.

Nota: foto retirada do Facebook

23 de março de 2012

A greve geral, parte 2


Percorro o Facebook e vejo que é dado grande destaque aos incidentes com a polícia no Chiado.

Aquilo que me apetece dizer é que o dia foi bom, porque todos tiveram o que queriam. O governo fala tanto em prevenir tumultos porque, de facto, os deseja. Mostrar quem manda e “partir a espinha aos sindicatos”, qual Thatcher sem malinha, é o seu intento.

A polícia de choque nasceu para “molhar a sopa” e sempre atuou nos mesmos moldes, aproveitando agora para se vingar de agravos vários.

Os sindicatos nada tiveram que ver com a pancadaria no Chiado, mas sempre houve, fora deles, quem se dedicasse à provocação à polícia. Ouso até dizer que alguns quase iam meter a cabecita debaixo do bastão, como quem diz: bate aqui, bate aqui, eu quero ser a vítima e tu o brutamontes.

Porém, longe (felizmente) vão os tempos em que a maioria fugia a sete pés da polícia de choque porque ser apanhado implicava ir para à Pide e não, como agora, mostrar o sangue às televisões.

Nesses tempos sombrios também se aprendia a não responder às provocações dos infiltrados, porque sempre os houve e haverá.

Em suma, todos tiveram o que queriam – governo, polícia, plataforma 15 de Outubro e até as televisões. Só o Arménio Carlos não ganhou a taluda.

Ontem foi uma tarde terrível para a democracia portuguesa (como li por aí)? Ora poupem-me. Nos últimos anos todos os dias têm sido terríveis para a democracia portuguesa, só que o de ontem foi mais animado.

Não são os bastões que nos lixam, são as políticas.


A greve geral

A greve geral é a bomba atómica dos trabalhadores. Como tal, deve ser usada com parcimónia e muito cuidado, acho eu.
Na passada 4ª feira escrevi aqui que, face às políticas desenvolvidas por este governo, a imensa paciência dos portugueses parece não se esgotar nunca.
Como seria de esperar, ainda não foi com esta greve geral que ela deu mostras de se estar a esgotar.
Foi mais um dia de greve dos transportes, algumas autarquias, alguns trabalhadores do setor público.

Sem negar a absoluta necessidade de exprimir revolta e oposição, parece-me que esta fórmula está esgotada, e que os sindicatos deviam pôr os seus jovens a pensar em novas formas de protesto, mais imaginativas e adequadas à realidade que vivemos, com tantos precários e trabalhadores por conta própria para quem aderir a uma greve é um ato suicidário.

Tenho pena, mas acho que se está a banalizar a poderosa arma que pode ser uma greve geral, tornando-a assim improdutiva e repetitiva.

Assemelha-se à nossa morte – no dia seguinte vamos a enterrar mas cá em cima tudo continuará exatamente igual.

21 de março de 2012

Não é desespero, é estupidez

O DN noticia que a secretária-geral da Confederação Europeia de Sindicatos (CES), Bernadette Ségol, afirmou, sobre o incitamento à emigração jovem por parte do governo português, que o governo deve estar desesperado porque "é claro que se os jovens deixam os seus países, a sua força, as suas ideias e a sua capacidade para construir o futuro perdem-se".

Óbvio, não?
O que a senhora Ségol não sabe, porque não vive por cá, é que isto não é desespero, é estupidez, frieza, humilhação do povo que se governa, arruaça, delinquência.

Há um projeto político incendiário que chegou ao poder para impor a defesa da finança, do patronato e dos grandes interesses instalados, espezinhando, pelo caminho, toda uma população que nem pensa em defender-se, entregue que está ao seu ancestral fatalismo.

Morre de frio e de gripe, não vai ao hospital quando precisa, abandona a universidade, engrossa desde madrugada as filas dos centros de emprego, perde o trabalho e a casa, consegue um trabalho temporário com um salário de anedota, volta para casa dos pais, vende o ouro, pede ajuda às instituições de caridade para comer.

Tudo muda na sua vida, exceto esta imensa paciência portuguesa que parece não se esgotar nunca.
Por aqui, o velho lema “antes morrer de pé que viver vergado” vive-se ao contrário.
Passos e companhia sabem-no, e só por isso ousam uma afronta atrás da outra.


20 de março de 2012

O trabalho dá saúde

Os suíços fizeram mais um referendo.
A pergunta que nele se fazia era se queriam ter seis semanas de férias em vez de quatro.

A resposta foi NÃO.
Os suíços trabalham entre 45 a 50 horas semanais e um terço deles sofre de stresse no trabalho.

A passada utopia do futuro profetizava que os homens haveriam de trabalhar menos, ajudados pelas máquinas e que, com isso, seriam mais felizes.
A utopia, era utopia mesmo. Com as máquinas, cada vez um menor número de pessoas trabalha mais, deixando de fora uma grossa fatia de desempregados.

Quanto a serem mais felizes, não se sabe bem o que isso seria mas, pelo menos para os suíços, a felicidade não passa por mais tempo livre para si próprios, os seus hobbies, a sua família, o seu alívio do stresse.

Certamente muitos acharão louvável tal comportamento, e dirão que devíamos ser como eles, nós, os preguiçosos do sul.
Acontece que a maioria de nós ainda acha que há mais vida para além do trabalho.

Dou de barato que as seis semanas não seriam para gozar de seguida, e que melhorar as condições de trabalho seria mais eficiente na diminuição do cansaço.

Porém, recusar liminarmente mais tempo de férias num tecido social cansado parece-me mais uma aberração da sociedade que fomos criando, aquela em que muitos, cada vez mais, não sabem o que fazer com o seu tempo livre e, postos perante ele, também entram em stresse.

No país/lavandaria de dinheiro que é a Suíça, o povo quer é trabalhar muito.
Pois que continuem a contar as notas nos bancos, a bater o chocolate e a acertar os relógios.

Se o trabalho dá saúde, chegará o dia em que nem precisarão de férias nenhumas, e ficarão todos tão fresquinhos e viçosos como a Heidi e o avô lá no alto da montanha.

19 de março de 2012

Saudade





















Um cravo vermelho para o homem que me deixou há 26 anos e todos os dias me faz falta – MEU PAI.

17 de março de 2012

Potencialmente tóxico


Suponho que seja um novo e poderoso veneno. Vai estar à venda, engarrafado sob a forma de vinho, com o nome “Memórias de Salazar”.

Que ninguém diga que não foi avisado.

16 de março de 2012

Tiro ao Sócrates

A sensação que tenho é que o governo contratou uma empresa de marketing para nos entreter, sabe-se lá porquê (!)
Lá nessa empresa escolhida por adjudicação direta, reuniu-se o pessoal e fez-se o inevitável brainstorming.

Pensaram, pensaram e decidiram que o melhor e mais eficaz era chamar o Sócrates outra vez. Os jornalistas iam cair que nem patinhos.
Invadem então todo o “mercado”, esmiúçam, esmiúçam para nos dar circo.

Sai Sócrates sobre o Freeport – quantas vezes se pronunciou o seu nome na audiência? quantas?

Sai a licenciatura – os documentos estão quase, quase a ser entregues em tribunal. Quando?

Saem as contas da parentela em offshores – onde? quanto?

Sai uso de cartões de crédito pelos ministros de Sócrates – tinham? eh!, e usaram em despesas pessoais?

Vem Cavaco e dá uma ajuda pro bono à empresa de marketing  – Sócrates? nunca  houve ninguém tão desleal.

Retirando a cavacada, eu olho e penso com os meus botões – quem se mete com juízes ou magistrados, leva. Nunca é de mais lembrá-lo.
Ó deuses, eu só queria esquecer Sócrates, e o homem até ajudou; foi-se embora e ficou calado, mas eles não me deixam esquecer, aliás, não querem que eu esqueça.

O professor Marcelo bem me podia fazer um favorzinho lá numa das suas homilias dominicais, largando a sentença: parem com o tiro ao Sócrates!
Eu só quero esquecer. É pedir muito? Irra!

15 de março de 2012

Conheço um país II

Conheço um país, o nosso, em que o governo paga “rendas excessivas” às empresas de energia no valor de 4 mil milhões de euros. Foi dito pela troika que, para suportar os custos da eletricidade, havia que taxar as empresas produtoras e distribuidoras e não apenas os consumidores domésticos e as empresas. Que faz o governo? Despede o governante que acha que rendas de 4 mil milhões são excessivas assim nos mostrando, mais uma vez que a defesa e proteção dos grandes grupos económicos é para manter “custe o que (nos) custar”.

Nesse mesmo país, nos dias que correm, não se pode apresentar queixa em algumas esquadras da polícia porque não há como registá-las, visto que não há dinheiro para os tinteiros das impressoras. Nem para pequenos arranjos de centenas de viaturas. Nem para lhes mudar o óleo.

Acabou a tinta, sim, mas há cada vez mais “lata” para fazer tudo ao contrário do que se prometeu.

14 de março de 2012

Silêncio

Há dias, passou na RTP2 um filme com o nome “O meu amigo Michael ao trabalho”. Tratava-se de acompanhar a realização duma enorme tela de
Michael Biberstein, artista nascido na Suíça mas que vive em Portugal desde o final da década 1970.

Quando Michael entrava de manhã no ateliê sentava-se longamente diante da tela e observava o trabalho já feito.
O grande silêncio, a grande solidão do artista.
Do seu trabalho resultam telas que nos convidam também ao silêncio e onde, se nelas nos detivermos, podemos encontrar o sublime.

No Atual do Expresso de 3 de Março, Siza Vieira dizia:
"o nada, o aparente nada, às vezes é o mais importante, mas existe uma doença contemporânea muito grave que é o horror ao vazio.
O vazio, tal como o silêncio, provoca medo. Isso é algo de muito contemporâneo".

Rodeados que estamos de ruído visual e auditivo, escolhemos demasiadas vezes a fuga para a frente, para dentro dele, na esperança vã de fugir à grande solidão que a sociedade contemporânea toma por um grande mal, se não mesmo como um sinal de desadaptação.

Porém, a solidão, o vazio e o silêncio são as vias para a criação, o conhecimento de si, as descobertas, e o apaziguamento face a uma realidade cada vez mais dura.
Não se pode fugir do real, mas a forma como o encaramos e nos encaramos (e aos outros por arrasto) pode constituir mudança significativa.

Encontrar momentos de fuga do ruído, de todos os ruídos, ouvir o silêncio, morder o vazio, viver a solidão, continuam a ser actos decisivos e fundadores da nossa vivência para além dos ossos, dos músculos e das vísceras.
Seja isso o que for; a cada um, sua verdade. Ou dúvida.

Nota: na imagem, foto de tela de Michael Biberstein

13 de março de 2012

Guardemos um triplo para a avó do Mota Soares

Está agora ministro da Solidariedade e Segurança Social um moço simpático que gosta de Vespas e não foge das manifestações; enfim, um moço tão endiabrado como pode ser alguém que está no CDS desde o jardim-de-infância.

Dá pelo nome de Pedro Mota Soares.

O Pedro, para além da sua vocação assistencialista de que já deu provas, descobriu agora uma maneira de meter mais 10 000 idosos em lares sem gastar um tostão. Como? Ora, é simples – apertam-se um bocadinho.

Quarto onde estava um, passam a estar dois, e quartos onde havia dois, passam a estar três.

Tal e qual como um fabricante de salsichas poderia lembrar-se de nos dar um brinde metendo sete numa lata de seis.

A minha imaginação recusa-se a vislumbrar as noites passadas nos quartos com três idosos, um gemendo, outro tossindo, outro com insónias, ou, ou, ou…

Dir-me-ão que fazem companhia uns aos outro e se entreajudam. Pois!
Mas se o Pedro acha que é bom, e que criar assim 10 000 lugares é um avanço civilizacional, é porque é bom. Afinal, o ministro é ele.

Por isso espero que a sua avó ou avô, pais, tias e afins tenham à sua espera um quartinho triplo quando chegar a sua hora de entrarem para o lar, doce lar, para que possam provar a clarividência e bondade das políticas do seu iluminado descendente.

12 de março de 2012

Às malvas: Independência, República e Mortos

Já tínhamos percebido, estarrecidos, que o Papa também manda aqui no protetorado, mas, por mim, apesar de escandalizada, achei que aquilo era mais um assinar de cruz do que outra coisa. Puro engano.

Sua Santidade acha que o feriado de 15 de Agosto, que costumamos dedicar ao deus Sol, feiras, festarolas e arraiais, é mais importante que o de 1 de Novembro e, por isso, talvez se faça a troca.

Sua Santidade lá sabe aquilo que é melhor para a nossa alma.

Assim à primeira vista, eu diria que faz bem à alma de milhares de portugueses irem ao cemitério (no dia 1 de Novembro, por ser feriado, e não no dia 2 como marca o calendário) com as suas flores, vistosas ou campestres, aos molhos ou solitárias, modo de dizer aos seus mortos que ainda não foram esquecidos.

A Igreja portuguesa deve pensar como eu, mas Sua Santidade, que não é de cá e só nos visitou como um rei, com grande estilo e recursos, não sabe nem quer saber nada desta gente humilde que homenageia mortos.

Vai dai, se bem calhar, vai-se o dia que lhes dedicamos e fica o da tal Assunção que poucos sabem quem é. Por mim, não conheço essa nem nenhuma outra com o mesmo nome.

Apetece dizer - valham-nos Todos os Santos, mas parece que por agora, para os portugueses, nenhum está de serviço ou com disposição.

9 de março de 2012

Só não privatizam as mães porque já são privadas

O mundo, tal como o conheci, vai desaparecer muito mais depressa do que aquilo que eu imaginei. Só falo por mim, mas custo a dar conta a tanta mudança.

Segundo esta notícia, caminhamos para a privatização da polícia, tal como já está a acontecer noutros países (Reino Unido, por exemplo).

Ouvidos sobre o assunto, o presidente da Associação Sindical dos Profissionais de Polícia (ASPP), e um sociólogo do ISCTE acham a situação normal, desde que devidamente regulamentada.

Depois da polícia, se calhar, vamos privatizar as Forças Armadas e os tribunais e aí vai chiar mais fino. Esses terão potencial de grandes empresas, em que quem vai decidir é o acionista, como está bom de ver. E sobre o teor das decisões dos acionistas já temos vasta experiência.

Até somos capazes de imaginar, com uma imaginação doentia e tenebrosa, que um dia, com o passar do tempo, venderão o tribunal-empresa e a marinha-empresa aos chineses e angolanos ( brrrrrr, foi só um calafrio.)

Isto vai tão depressa que eu nem a galope consigo alcançar o alcance de tantas novidades.

Se calhar, a culpa nem é dos decisores, mas apenas da velocidade a que viajamos; segundo fiquei a saber outro dia num pequeno artigo do Expresso, se contarmos com todos os movimentos da terra e do cosmos, mesmo a dormir, estamos a viajar a 600 km por segundo.
Deve ser disso.

8 de março de 2012

8 de Março













Roubado a Joana Lopes no Facebook

Nós e a TAP

As reações ao não-corte de salários na TAP é o espelho quer do governo, quer da oposição, quer dos portugueses em geral.

O governo, cede mais uma vez a quem pode; os trabalhadores da TAP têm nas mãos, diariamente, milhões de euros, e isso confere-lhes um enorme poder negocial, quer para o melhor, quer para o pior. O governo cedeu.

Já aqui me insurgi com as frequentemente caprichosas e irrealistas reivindicações destes trabalhadores, mas não será hoje o caso.

Eles lutaram e ganharam. E nós, ou bem que somos contra todos os cortes salariais e devemos saudar esta vitória, ou nos refugiamos na estreita mesquinhez habitual e achamos que devemos nivelar tudo por baixo.

Aconteceu o mesmo com a nossa socialista oposição que pediu explicações pela voz de Basílio Horta, como quem diz – por que não batem também naqueles? são mais bonitos, é? ou há moralidade, ou comem todos!

Não estamos aqui a falar das exceções para banqueiros, gestores públicos amigalhaços ou de jovens assessores recém-empossados.
Estamos a falar de trabalhadores como nós, que lutaram e ganharam.

Por uma vez devíamos tomá-los como exemplo em vez de ficarmos ressentidos e invejosos.
Afinal, somos contra TODOS os cortes salariais. Ou não?


7 de março de 2012

Se calhar, devia ir

Os temas espiritualidade e esoterismo enchem prateleiras de livrarias. A procura é muita, os autores multiplicam-se, bem como as técnicas para alcançar os desejos de cada um.

A astrologia está em alta. Oiço até dizer que há gente importante que não toma decisões sem consultar o seu astrólogo, o que me leva a concluir que passou a ser tão imperioso ter astrólogo como ter médico, advogado ou personal trainer.
Tarot, cartas, búzios, números, pêndulos e outras miudezas mais, atraem milhões.

Eu, aqui sentada na cadeira, todos os dias recebo e-mails com propostas de cursos e workshops sobre o arquétipo de Peixes, a astrologia centrada no indivíduo, viagens da consciência, astrologia do relacionamento, a química dos elementos etc. E não são spam.

Sendo certo que a astrologia não me interessa nada, quando recebi a informação sobre a química dos elementos, dei comigo a pensar:
Se o meu signo é do elemento água, que tipo de água gostaria eu de ser?
Luso, Pedras, Carvalhelhos, Perrier, Evian?

Não, conclui que gostava mesmo era de ser água da torneira – completa mas com muitas impurezas.
Rematei este profundíssimo pensamento retirando a óbvia conclusão: a pensar assim, esta mulher não vai a lado nenhum.
Falta de ambição não vai com os dias de hoje.

Talvez, então, tenha chegado a hora de também eu fazer uma sessão de coaching, ou hélas!,  ir ao astrólogo.
Qualquer dia, menos hoje.


6 de março de 2012

Conversa para totós

O nosso primeiro-ministro vê os seus governados como um bando de totós a quem é necessário ensinar o básico, e fala com eles como um bom pai de Massamá fala com os filhos pré-púberes.

Vai daí, segundo o jornal Público, diz assim:


Interrogado sobre como é que os portugueses irão fazer férias, com que dinheiro, respondeu: “Fazendo uma boa aplicação dos recursos que têm, como é evidente. Quando há menos, tem de se gastar menos, quando há mais tem de se pensar em ficar com algum de lado para os tempos em que há menos. É isso que eu espero que os portugueses também possam fazer”.


Isto é o que ele espera. Por mim, espero que 850 000 desempregado montem uma tenda à porta dele e resolvam aí passar férias com tudo o que isso implica – banhos de sol, cozinhar o jantar, piquenicar ao almoço, lavar a loiça e usar regularmente os sanitários. E nada de inibições com os ruídos noturnos, porque férias são férias.
E que belas férias poderíamos proporcionar ao nosso primeiro-ministro.


5 de março de 2012

Demências

Hoje roubo posts que merecem ser lidos

Joana Lopes, Estranho modo de vida


Não é fácil imaginar a vida concreta de cerca de 500 mil pessoas que não trabalham porque tudo lhe é proporcionado gratuitamente e que ainda recebem cerca de 35.000 US$ / ano desde que nascem. Todas as tarefas são asseguradas por um milhão adicional de estrangeiros, bem pagos, mas que nunca adquirem a nacionalidade do país em que vivem, ou mesmo em que nascem: as segundas e terceiras gerações mantêm o «passaporte» dos seus ascendentes, o mesmo acontecendo às mulheres que casam com locais.
( continua)

Sérgi Lavos, Ladrões, corruptos, vigaristas

E enquanto vamos ficando todos mais pobres, há quem continue a não sentir os efeitos das medidas de austeridade, e até lucra com elas. A história divulgada esta semana é exemplar: uma das primeiras decisões do Governo depois de tomar posse foi introduzir portagens na ponte 25 de Abril durante o mês de Agosto, acabando com uma tradição antiga que beneficiava os lisboetas que não têm dinheiro para ir passar férias longe da cidade e apenas podem frequentar as praias da Costa da Caparica. A ideia seria aumentar a cobrança dos impostos pagos nas portagens mas sobretudo poupar na indemnização compensatória paga à Lusoponte pela quebra nas receitas, no valor de 4.4 milhões de euros. O problema é que a Lusoponte, cujo presidente é Joaquim Ferreira do Amaral, dirigente do PSD e antigo ministro das Obras Públicas que saiu directamente do executivo de Cavaco Silva para a administração desta empresa, exigiu ao Governo esses 4.4 milhões.
 ( continua)

2 de março de 2012

Sede nossa

O caso do entorneiro de cinco cervejas pelas costas da Merkel abaixo foi um sucesso. Não houve jornal ou televisão que não disponibilizasse o vídeo.

Em boa verdade, a senhora comportou-se com grande aprumo, reagindo como se estivesse habituada a tomar banho de cerveja, embora me pareça que aquela pele tão sedosa estará mais habituada a tomar banho em leite de burra como a Cleópatra.

Um “acidente” destes seria quase uma não-notícia, dada a ínfima reação da vítima, se não se desse o caso de lhe estarmos com uma tal “sede” que nem cinco cervejinhas são capazes de mitigar.

1 de março de 2012

Beatas e cocós

Segundo notícia do Expresso de 25 de Fevereiro 2012, a Câmara de Lisboa vai lançar uma campanha para uma cidade mais limpa, tendo como alvos a separação do lixo, as beatas, e os dejetos de cão.

Dá vontade de mandar tocar os sinos de todas as igrejas da capital num gesto de congratulação por tão luminosa ideia, que só peca por tardia.

Civismo é um conceito encarado muito restritamente pelos portugueses, e tem vindo a perder terreno desde que a estupidez e alarvidade tomaram conta das televisões.
Sem campanhas e ações concretas não chegaremos lá.

É bom mesmo que espalhem cinzeiros pelas portas de restaurantes e de serviços públicos porque, desde que só se pode fumar na rua, mesmo o fumador mais civilizado se vê frequentemente num excruciante dilema entre comer a beata ou deitá-la para o chão.

Quanto aos dejetos de cão, é outra história. Há por aí maravilhosos sanitários para cães que os donos nem veem. Os seus adorados animais fazem o cocó onde quiserem e fica lá, porque é tão bonito o que o meu cãozinho faz que todos devem poder apreciar.

Ai de quem manifeste incómodo com tão bela exposição – é logo mandado para todos os lados, e que o meu bichinho c*** onde quiser e tu, ó minha estúpida, não tens nada com isso, mete-te na tua vida.

Venham, então, de lá as campanhas (mais vale tarde que nunca) e, já agora, as coimas, porque sem elas continuaremos a caminhar pelas nossas ruas ao jeito de Paulo Portas a fazer slalom numa pista de Aspen.

29 de fevereiro de 2012

Conheço um país...

Conhecemos um país, o nosso, onde o Orçamento de Estado tem 600 milhões de euros para o aumento do capital do BPN segundo confirmou o secretário de Estado do Orçamento, Luís Morais Sarmento. “”Em outubro passado eram 350 milhões de euros, em dezembro Passos Coelho dizia que eram 500 milhões de euros e agora, apenas um mês depois, passou a 600 milhões de euros” (daqui)
De seguida, o BPN será vendido ao BIC por 40 milhões.

Nesse país, o mesmo Estado não consegue arranjar um chavo para começar a pagar à farmacêutica Roche uma dívida de 135 milhões de euros (não são eles que dizem que as dívidas são para pagar e no prazo acordado?)

A Roche fornece aos hospitais portugueses dois medicamentos sem rival no tratamento de cancro - Herceptin (cancro da mama) e MabThera (linfoma) que, a partir de agora, só fornecerá com dinheiro à vista. Como os hospitais só têm dinheiro para a gestão corrente, é fácil prever o que se passará.

Questão de simples prioridades: para o governo PSD/CDS as pessoas estão no fim (da linha) e servem, basicamente, para pagar impostos que
o mesmo governo se encarregará de “estafar” com os amigalhaços.
Alguém ainda tinha dúvidas?
Vale a pena indignarmo-nos?
Já NÃO!

28 de fevereiro de 2012

Amiguismo, miopia ou apenas humor?

A Sociedade Portuguesa de Autores (SPA) resolveu atribuir a Évora o prémio Melhor Programação Cultural. (Notícia aqui)

Se o prémio tivesse sido atribuído há 15 ou 20 anos, seria bem merecido; em 2012 só pode ser anedota, ou miopia ou amiguismo.

Évora tem sido, na última década, o excelente exemplo dum desastre de gestão autárquica.
Desde que, em 2001 o PS ganhou as eleições autárquicas, começou o desbaratar do património cultural laboriosamente construído durante vinte anos.

O Centro Histórico de Évora (CHE), classificado Património da Humanidade em 1986 foi deixado ao abandono no que constituiu um criminoso assassinato da “galinha dos ovos de ouro”.

Sendo uma cidade essencialmente de serviços, o que tornava aquele Centro Histórico único era a capacidade de preservar o edificado ao mesmo tempo que se mantinha um centro vivo e animado.

Ora, logo que o PS chegou ao poder, tratou de retirar a grande maioria dos seus próprios serviços do CHE, transferindo-os para um barracão que arrendou por uns milhares de euros no Parque Industrial.
Foi o tiro de partida para que muitos outros lhe seguissem o exemplo, conduzindo inexoravelmente à desertificação do CHE.

Hoje, ele é habitado por um punhado de velhos, o comércio definha e, em muitas ocasiões, parece uma cidade fantasma.
O edificado é deixado ao abandono, com inúmeras casa fechadas e sem que para alterar a situação se conheça qualquer plano.

Quanto à programação cultural, que foi pujante nos anos 1980, 1990 é agora escassa e paroquial.

O Cendrev (teatro) tem sido alvo de inúmeras tentativas de “morte matada”, as muitas organizações culturais de menor dimensão foram asfixiadas pela retirada de apoios, o embrião dum museu de arte contemporânea que existia em 2001 foi prontamente abandonado, bem como o festival de verão “Viva a Rua” que já se tinha afirmado a nível nacional. Finalmente, há três anos, fechou o cinema.

Excelência na conservação do património e na programação cultural?
Só dito por ironia.
O sentimento de quem lá vive resume-se nesta história que vi contada no Facebook:

PE foi buscar o filho à estação dos comboios. Quando este parou, uma rapariga saltou para a gare, olhou em volta e perguntou-lhe:
- Aqui é Évora?
Ao que ele respondeu:
- Não menina, aqui é o Desterro.
Amiguismo, miopia ou uma simples anedota?


Nota: foto de rua de Évora já publicada neste blogue num post com o título Notícias da Desolação

27 de fevereiro de 2012

Paulo Portas bateu com a cabeça?

Afirmações de Paulo Portas:

"ou Portugal quer ser Portugal, um caso específico, um país que honra a sua palavra", consegue cumprir as metas financeiras a que se propôs e recupera a sua "autonomia", ou pensa em "reestruturar ou renegociar a dívida" e vai "direitinho para a parede, ou dito de maneira mais clara, fica igual à Grécia".

Para Paulo Portas, "a conversa do não pagamos, reestruturamos e renegociamos", poderá originar situações de "prédios incendiados, carros destruídos, parlamentos cercados, uma sociedade completamente dividida e um país desmotivado", como acontece na Grécia. (ionline)

Quem é que pode pensar nisso, logo agora que estamos tão “motivados”?

Se até posso entender que ele não pode desdizer o chefe, também não precisa de se armar em paizinho que ameaça - filho, se não comes a sopa toda vem lá o papão que incendeia e parte tudo.

Melhor seria que continuasse calado como tem feito porque, com tais afirmações, e neste tom, fica-me a dúvida se Paulo Portas não terá batido com a cabeça, não na parede, mas na porta do avião, ou do submarino, quem sabe?
Oxalá que não, cruzes.

24 de fevereiro de 2012

O povo não é sereno

A célebre frase “O povo é sereno”, proferida por Pinheiro de Azevedo durante uma manifestação no longínquo PREC, encerrava, ao tempo, uma certa dose de verdade.

Há quarenta anos, o povo carregava algum fatalismo e conformismo, sem dúvida, mas geralmente acompanhava-os de sobriedade e dum saber de “experiência feito”.

Os tempos mudaram, mudaram muito, e até deixou de haver povo, passando a haver apenas “público”.
Porém, eu gosto desse ancestral termo - povo.

O moderno povo urbano que hoje vemos nos telejornais está cheio de si, das suas verdades indiscutíveis, das suas razões, e, demasiadas vezes, duma raiva quase assassina, pronta para o linchamento se houver oportunidade.

Dúvidas, não tem nunca. É um povo cheio de certezas, aquele que vai para a porta dos tribunais gritar “assassino” e demais impropérios ao arguido antes mesmo de qualquer julgamento, e no fim dele também, se o resultado não for a seu contento.

Arguido de caso mediático é, para este povo urbano e excitado, fatalmente culpado.
Foi assim com os McCann, com Carlos Cruz e agora com Afonso Dias, réu no caso do desaparecimento de Rui Pedro.
Este povo assusta.


23 de fevereiro de 2012

ZECA

Patrãozinho André

Por aqui, mesmo quem não é ligado ao futebol, desde que oiça notícias e leia jornais, vai acumulando muita informação sobre o tema, ainda que superficial.

Foi o que me aconteceu há dias com o título desta notícia, que nem li, mas que me disse alguma coisa, e por isso hoje a fui repescar (em linguagem desportiva, como convém).

Villas-Boas: “Não preciso do apoio dos jogadores, só do dono do clube”

Na altura pensei com os meus botões – és tu que jogas, rapaz, ou são eles? e achei muito estanho que um treinador diga que não precisa do apoio dos jogadores para o seu projeto, visto que são eles que o concretizarão.

Sabemos que o André tem uma importante costela inglesa mas essa deve-lhe ficar para os lados da rabadilha. A verdadeira costela lombar, a que sustenta, é bem portuguesa, diria até que é portuguesa dos sete costados.

É que o André tem os tiques duma grande parte dos patrões portugueses, os tais que acham sempre que quem trabalha é descartável.
Eles, os patrões, só precisam mesmo do banco e do Estado.
Como o André precisa, apenas e só, do Abramovich.

22 de fevereiro de 2012

As rapariguinhas do shopping

Terça-feira de carnaval num centro comercial de Lisboa quase deserto.

Pergunta uma das rapariguinhas do shopping –“ Évora é para cima, não é, para o Porto?
Ah! Então é para Faro.”
À saída uma outra rapariguinha do shopping – “afinal hoje é feriado, ou não? Uns dizem que é e outros dizem que não é, não percebo.”

Quase toda a gente, hoje em dia, está de acordo em dizer que Portugal nunca teve uma geração tão bem preparada, e eu estou de acordo.

Mas, senhores, e os que não se prepararam?

È confrangedor ver gente na casa dos seus vinte anos que não faz ideia para que lados fica uma das capitais de distrito, que até são só 18.

Também apetece perguntar em que planeta habita a rapariguinha que, ao fim de duas semanas de polémica em todas as televisões, ainda não tinha percebido se era feriado ou não.

Aos muito preparados o governo indica a porta de saída. Uns irão porque querem, outros porque nada mais lhes resta; e por aqui ficarão apenas estes impreparados.

É com eles que vamos construir um país moderno e dinâmico, senhor primeiro-ministro?

Se os preparados se virem obrigados a seguir o seu conselho e partirem em massa, restar-nos-á uma choça governada por uma choldra, de que o senhor será merecedor, mas eu não.
Estou zangada, pois estou, e depois?


21 de fevereiro de 2012

Já se sabe que os animais são todos iguais, mas há uns mais iguais que outros

Esta notícia do Público, leva-me a uma recorrente interrogação.

Sócrates mentia e já não havia bicho careto que não lhe chamasse MENTIROSO com todas as letras.

Quando será que os mesmos acusadores (é bom lembrar que foi Manuela Ferreira Leite a pioneira no uso do adjetivo) começam a chamar a Passos aquilo que ele é, tanto quanto Sócrates era, – MENTIROSO?!
Deu-lhes agora para a boa educação, foi?


20 de fevereiro de 2012

"O Sentido do Fim"


“Quantas vezes contamos a história da nossa vida?
Quantas vezes adaptamos, embelezamos, fazemos cortes matreiros? E, quanto mais a vida avança, menos são os que à nossa volta desafiam o nosso relato, para nos lembrar que a nossa vida não é a nossa vida, é só a história que contámos sobre a nossa vida. Que contámos aos outros mas – principalmente – a nós próprios”





“O Sentido do Fim”
Julian Barnes
Ed. Quetzal
pag. 100

Ao saber que “O Sentido do Fim” de Julian Barnes ganhou o Man Booker Prize 2011, não se estranha, mesmo não conhecendo a concorrência.

Através da história de vida de Tony Webster, Julian Barnes coloca-nos perante questões essenciais - como construímos as nossas memórias, qual o seu grau de veracidade, o que nos escapou, o que não quisemos saber, o que preferimos esquecer, o que presumimos, como escolhemos viver a nossa vida, onde nos perdemos daquilo que eramos na juventude, o que manipulámos?

Servidas por uma escrita prodigiosa, estas 152 páginas lêem-se dum rufo, ainda que nelas haja muito para meditar e muitos parágrafos para reler.
Grande literatura, sim.

18 de fevereiro de 2012

Um presente para Passos






















Neste carnaval, duas máscaras africanas para o nosso primeiro poder escolher com qual quer continuar a assustar-nos.
Para os outros todos, bom carnaval.

17 de fevereiro de 2012

Nem piegas nem medricas

Duas notícias.
Segundo o Público, a taxa de desemprego disparou para 14%; e acrescenta:
Se forem incluídas as pessoas desencorajadas mas que gostariam de encontrar trabalho, o número real deverá aproximar-se ou mesmo ultrapassar o milhão de pessoas.

Segundo o ionline, foi revelado pelo Indicador de Poupança APFIPP/Universidade Católica que a taxa de poupança das famílias desceu em janeiro.

Segundo o mesmo organismo, "as expetativas de desemprego registadas no inquérito às famílias … desceram ligeiramente em janeiro, apesar de se manterem em níveis muito elevados", facto que "pode reduzir a necessidade de poupança das famílias por motivo de precaução".

Está-se mesmo a ver. Com 14% de desempregados, cortes nos salários, aumentos nos transportes, na energia, na saúde, etc., os portugueses estão a poupar menos apenas porque têm menos medo do desemprego, ora essa. Nem sequer é porque não consigam poupar, ou por terem tido de deitar mão às poupanças, nada disso, só porque não são medrosos.

Ah! Nação valente, povo temerário.
E o que eu gostava que esta gente poupasse na asneira.  

16 de fevereiro de 2012

Salò

Eu dizia aqui ontem que todos os dias há, neste país, “uma guerra” para travar, um alvo a abater, um soundbite a esmiuçar”.

Não é o caso de hoje. Hoje é dia nem sei do quê.

A história dos livrinhos com o programa do governo ao custo unitário de 120 euros, que eu paguei enquanto deixava na livraria dois ou três que custavam 10% disso, mostra-me mais uma vez (mas é só mais uma vez), que este governo se ri de nós, cospe em nós e ainda raspa os pés no capacho que somos nós.

Porque será que me lembro duma cena do filme Salò de Pasolini, em que humanos nus e pela trela eram obrigados a comer o inominável?

15 de fevereiro de 2012

Se um blogue incomoda muita gente...

Recentemente, dois doutos crânios lusos entenderam escrever sobre a blogosfera.
José Pacheco Pereira escreveu no Público um longo artigo que Joana Lopes transcreve e comenta no seu blogue Entre as Brumas da Memória.
Talvez por ele próprio ser autor dum blogue, analisa a blogosfera com trambelhos, ainda que os seus trambelhos.

Pessoalmente não acredito que os blogues políticos tenham perdido influência; neste país há sempre uma “guerra” para travar, um alvo a abater, um soundbite a esmiuçar, e sobre eles há tantas e tão variadas opiniões, argumentações e ponderações, que os blogues se tornam uma fonte inesgotável de artigos de opinião, alguns bem melhores do que os que lemos nos jornais.

Já Miguel Sousa Tavares, que parece começar logo a espirrar de alergia quando lhe falam em internet, escreve na página/lençol do Expresso:”…essa terrível entidade a que hoje querem resumir a democracia chamada blogues”.

Não conheço ninguém que queira tal coisa, mas é certo que não me movo nos círculos seletos de MST; ao contrário, conheço muita gente que pensa que os blogues acrescentam democracia à democracia.
Os blogues políticos e de reflexão sobre a nossa sociedade são, frequentemente, muito bem escritos e pensados (é só passar pela minha lista de Gosto de), são gratuitos e feitos nas horas vagas de quem os escreve.

Sousa Tavares percebe, na blogosfera, que não é só ele que sabe escrever, ou pensar, e que hoje todos podem publicar "sem custos para o utilizador".
Talvez essa constatação o faça sentir-se um pouco ameaçado, talvez.

14 de fevereiro de 2012

Temo juízes justiceiros


Baltazar Garzón escolheu para si próprio a figura de juiz star que nunca me agradou; muitas das suas atuações também me levantaram, ao longo dos anos, as maiores reservas.

Entendo que um juiz deve ser discreto, e se nunca se falar dele, tanto melhor.
Ao contrário, Garzón há anos que procurava a ribalta, construindo laboriosamente uma imagem de justiceiro universal.

As minhas campainhas de alerta soaram a quando do seu mandato de prisão contra o ditador chileno, Augusto Pinochet.
E se eu abominava aquele homem! Mas, enquanto toda a gente batia palmas, eu franzia o sobrolho; aquilo tresandava a golpe mediático e, sobretudo, parecia-me um atestado de menoridade passado à ex-colónia, a quem não era reconhecida capacidade para acertar as contas com a sua própria história, como e quando o entendesse.

O mesmo se passou com a investigação aos crimes de guerra do franquismo.
Espanha fez, bem ou mal não interessa, um pacto de “esquecimento” sobre o qual construiu a sua atual democracia. Esse pacto será revisto quando, se, e como os espanhóis o entenderem, e não por capricho dum só juiz.

O que agora levou ao seu afastamento ultrapassou, em meu entender, todas as marcas; e não me venham dizer que os juízes do Supremo Tribunal, que votaram por unanimidade a sua suspensão, são todos franquistas ressabiados, porque não posso acreditar nisso.

Escutar as conversas entre presos e seus advogados não é admissível.
Num Estado de direito e democrático, há uma linha que não pode ser ultrapassada, os fins não podem justificar os meios, e as democracias não podem usar os métodos das ditaduras.
Ainda que o bandido nos fuja, ainda que a alma nos doa.

13 de fevereiro de 2012

Chefias intermédias

Nos últimos tempos, já todos percebemos que quem manda aqui neste pedacito de terra é uma senhora chamada Angela Merkel, outra chamada Cristine Lagarde e um senhor chamado Mário Draghi ; há ainda uma série de funcionários que gostam de debitar umas coisas mas esses, de facto, não mandam nada, e por isso não me afligem.

O que eu não sabia mesmo é que nesta república, que eu julgava laica, também manda o Papa.

Fiquei a saber, pelo Expresso do último sábado, que o expedito primeiro-ministro, que a maioria dos portugueses elegeu mas todos temos que gramar, afinal nem sequer consegue acabar com os feriados religiosos sem autorização do Papa.

Será santa ignorância, a minha, mas o facto é que tenho vindo a perceber que, por aqui, não há governantes – todos não passam de chefias intermédias equiparadas a, vá lá, a director-geral.

10 de fevereiro de 2012

Portuguesinha de gema

Lá em casa sempre ouvi um ditado assim: “dos teus dirás mas não ouvirás”.

As gerações que nos precederam eram fecundas em aforismos. Estes constituíam, no seu entender, verdades incontestáveis que lhes serviam para rematar, ou melhor dizendo, matar, as conversas em que nos mostrávamos mais “respondões”.

Certo é que eles me entraram no ouvido e muitas vezes me vêm à memória, embora hoje não sirvam para nadinha porque há muito tempo que ninguém está disposto a aceitar aforismos seguidos de ponto final.
Contudo, portuguesinha de gema que sou, tendo a descair para o lado do “dos teus dirás mas não ouvirás”

Vem de lá Merkel e diz que há túneis a mais na Madeira.
A gente sabe que os túneis foram feitos com dinheiro dos fundos estruturais, todos aprovados em Bruxelas, e por isso ela não pode pôr o corpinho todo de fora.
Mas, no fundo, e se virmos bem as coisas, a mulher até tem razão, só que aquilo dito por ela chateia-me, pá.

Depois vem um tal Schulz dizer que nos andamos a meter demais com más companhias – para ele Angola, para mim, China e Angola.
Ora, ele sabe que para pagar o que lhe devemos e mais os juros usurários que nos exigiram, vamos ter que vender as joias a quem der mais.
Quer receber o dinheirinho? O melhor é deixar- se de moralismos e nem perguntar por onde andámos para o arranjar.
Mas, no fundo, e se virmos bem as coisas, o homem até tem razão, só que aquilo dito por ele chateia-me, pá.

É óbvio que o velho “dos teus dirás mas não ouvirás” foi coisa que me ficou, o que, em boa verdade, também me chateia um bocado.

9 de fevereiro de 2012

La vie en rose

Na Antena 1 da RDP, no espaço da manhã dantes ocupado por Pedro Rosa Mendes e seus companheiros, existe agora uma rubrica sobre portugueses no mundo.

Durante alguns minutos, a jornalista fala com alguém que está a viver e a trabalhar noutro país e eu ponho uns óculos cor-de-rosa.

São sempre jovens com boa formação que encontraram um trabalho que os satisfaz. Todos falam de segurança no trabalho, organização e saudades do sol. Enfim, a vida é bela e cheia de oportunidades no largo mundo ao nosso dispor. O programa satisfaz plenamente a ideia do primeiro-ministro de que os jovens devem abandonar a sua “zona de conforto” e emigrar.

Noto, porém, que os entrevistados, não estando infelizes, ao contrário, têm saudades do país e da família. Presumo que, se aqui encontrassem maneira segura de empregar o seu inegável talento, na sua grande maioria, gostariam de estar na sua “zona de conforto”.

Reparo também que, no programa, nunca ouvi entrevistar nenhum dos muitos licenciados portugueses que mais não encontram lá fora do que a possibilidade de vender copos a bêbados de país alheio; também nunca ouvi um jovem com o 12º ano que só conseguiu ser trolha, nem um dos mais velhos que se sente enganado e bastamente explorado na sua condição de emigrante.

Mas é bom. O senhor Primeiro-ministro e o Dr. Relvas certamente gostam disto e eu, durante uns minutos, vejo o mundo em tons de rosa clarinho.