14 de março de 2012

Silêncio

Há dias, passou na RTP2 um filme com o nome “O meu amigo Michael ao trabalho”. Tratava-se de acompanhar a realização duma enorme tela de
Michael Biberstein, artista nascido na Suíça mas que vive em Portugal desde o final da década 1970.

Quando Michael entrava de manhã no ateliê sentava-se longamente diante da tela e observava o trabalho já feito.
O grande silêncio, a grande solidão do artista.
Do seu trabalho resultam telas que nos convidam também ao silêncio e onde, se nelas nos detivermos, podemos encontrar o sublime.

No Atual do Expresso de 3 de Março, Siza Vieira dizia:
"o nada, o aparente nada, às vezes é o mais importante, mas existe uma doença contemporânea muito grave que é o horror ao vazio.
O vazio, tal como o silêncio, provoca medo. Isso é algo de muito contemporâneo".

Rodeados que estamos de ruído visual e auditivo, escolhemos demasiadas vezes a fuga para a frente, para dentro dele, na esperança vã de fugir à grande solidão que a sociedade contemporânea toma por um grande mal, se não mesmo como um sinal de desadaptação.

Porém, a solidão, o vazio e o silêncio são as vias para a criação, o conhecimento de si, as descobertas, e o apaziguamento face a uma realidade cada vez mais dura.
Não se pode fugir do real, mas a forma como o encaramos e nos encaramos (e aos outros por arrasto) pode constituir mudança significativa.

Encontrar momentos de fuga do ruído, de todos os ruídos, ouvir o silêncio, morder o vazio, viver a solidão, continuam a ser actos decisivos e fundadores da nossa vivência para além dos ossos, dos músculos e das vísceras.
Seja isso o que for; a cada um, sua verdade. Ou dúvida.

Nota: na imagem, foto de tela de Michael Biberstein

13 de março de 2012

Guardemos um triplo para a avó do Mota Soares

Está agora ministro da Solidariedade e Segurança Social um moço simpático que gosta de Vespas e não foge das manifestações; enfim, um moço tão endiabrado como pode ser alguém que está no CDS desde o jardim-de-infância.

Dá pelo nome de Pedro Mota Soares.

O Pedro, para além da sua vocação assistencialista de que já deu provas, descobriu agora uma maneira de meter mais 10 000 idosos em lares sem gastar um tostão. Como? Ora, é simples – apertam-se um bocadinho.

Quarto onde estava um, passam a estar dois, e quartos onde havia dois, passam a estar três.

Tal e qual como um fabricante de salsichas poderia lembrar-se de nos dar um brinde metendo sete numa lata de seis.

A minha imaginação recusa-se a vislumbrar as noites passadas nos quartos com três idosos, um gemendo, outro tossindo, outro com insónias, ou, ou, ou…

Dir-me-ão que fazem companhia uns aos outro e se entreajudam. Pois!
Mas se o Pedro acha que é bom, e que criar assim 10 000 lugares é um avanço civilizacional, é porque é bom. Afinal, o ministro é ele.

Por isso espero que a sua avó ou avô, pais, tias e afins tenham à sua espera um quartinho triplo quando chegar a sua hora de entrarem para o lar, doce lar, para que possam provar a clarividência e bondade das políticas do seu iluminado descendente.

12 de março de 2012

Às malvas: Independência, República e Mortos

Já tínhamos percebido, estarrecidos, que o Papa também manda aqui no protetorado, mas, por mim, apesar de escandalizada, achei que aquilo era mais um assinar de cruz do que outra coisa. Puro engano.

Sua Santidade acha que o feriado de 15 de Agosto, que costumamos dedicar ao deus Sol, feiras, festarolas e arraiais, é mais importante que o de 1 de Novembro e, por isso, talvez se faça a troca.

Sua Santidade lá sabe aquilo que é melhor para a nossa alma.

Assim à primeira vista, eu diria que faz bem à alma de milhares de portugueses irem ao cemitério (no dia 1 de Novembro, por ser feriado, e não no dia 2 como marca o calendário) com as suas flores, vistosas ou campestres, aos molhos ou solitárias, modo de dizer aos seus mortos que ainda não foram esquecidos.

A Igreja portuguesa deve pensar como eu, mas Sua Santidade, que não é de cá e só nos visitou como um rei, com grande estilo e recursos, não sabe nem quer saber nada desta gente humilde que homenageia mortos.

Vai dai, se bem calhar, vai-se o dia que lhes dedicamos e fica o da tal Assunção que poucos sabem quem é. Por mim, não conheço essa nem nenhuma outra com o mesmo nome.

Apetece dizer - valham-nos Todos os Santos, mas parece que por agora, para os portugueses, nenhum está de serviço ou com disposição.

9 de março de 2012

Só não privatizam as mães porque já são privadas

O mundo, tal como o conheci, vai desaparecer muito mais depressa do que aquilo que eu imaginei. Só falo por mim, mas custo a dar conta a tanta mudança.

Segundo esta notícia, caminhamos para a privatização da polícia, tal como já está a acontecer noutros países (Reino Unido, por exemplo).

Ouvidos sobre o assunto, o presidente da Associação Sindical dos Profissionais de Polícia (ASPP), e um sociólogo do ISCTE acham a situação normal, desde que devidamente regulamentada.

Depois da polícia, se calhar, vamos privatizar as Forças Armadas e os tribunais e aí vai chiar mais fino. Esses terão potencial de grandes empresas, em que quem vai decidir é o acionista, como está bom de ver. E sobre o teor das decisões dos acionistas já temos vasta experiência.

Até somos capazes de imaginar, com uma imaginação doentia e tenebrosa, que um dia, com o passar do tempo, venderão o tribunal-empresa e a marinha-empresa aos chineses e angolanos ( brrrrrr, foi só um calafrio.)

Isto vai tão depressa que eu nem a galope consigo alcançar o alcance de tantas novidades.

Se calhar, a culpa nem é dos decisores, mas apenas da velocidade a que viajamos; segundo fiquei a saber outro dia num pequeno artigo do Expresso, se contarmos com todos os movimentos da terra e do cosmos, mesmo a dormir, estamos a viajar a 600 km por segundo.
Deve ser disso.

8 de março de 2012

8 de Março













Roubado a Joana Lopes no Facebook

Nós e a TAP

As reações ao não-corte de salários na TAP é o espelho quer do governo, quer da oposição, quer dos portugueses em geral.

O governo, cede mais uma vez a quem pode; os trabalhadores da TAP têm nas mãos, diariamente, milhões de euros, e isso confere-lhes um enorme poder negocial, quer para o melhor, quer para o pior. O governo cedeu.

Já aqui me insurgi com as frequentemente caprichosas e irrealistas reivindicações destes trabalhadores, mas não será hoje o caso.

Eles lutaram e ganharam. E nós, ou bem que somos contra todos os cortes salariais e devemos saudar esta vitória, ou nos refugiamos na estreita mesquinhez habitual e achamos que devemos nivelar tudo por baixo.

Aconteceu o mesmo com a nossa socialista oposição que pediu explicações pela voz de Basílio Horta, como quem diz – por que não batem também naqueles? são mais bonitos, é? ou há moralidade, ou comem todos!

Não estamos aqui a falar das exceções para banqueiros, gestores públicos amigalhaços ou de jovens assessores recém-empossados.
Estamos a falar de trabalhadores como nós, que lutaram e ganharam.

Por uma vez devíamos tomá-los como exemplo em vez de ficarmos ressentidos e invejosos.
Afinal, somos contra TODOS os cortes salariais. Ou não?


7 de março de 2012

Se calhar, devia ir

Os temas espiritualidade e esoterismo enchem prateleiras de livrarias. A procura é muita, os autores multiplicam-se, bem como as técnicas para alcançar os desejos de cada um.

A astrologia está em alta. Oiço até dizer que há gente importante que não toma decisões sem consultar o seu astrólogo, o que me leva a concluir que passou a ser tão imperioso ter astrólogo como ter médico, advogado ou personal trainer.
Tarot, cartas, búzios, números, pêndulos e outras miudezas mais, atraem milhões.

Eu, aqui sentada na cadeira, todos os dias recebo e-mails com propostas de cursos e workshops sobre o arquétipo de Peixes, a astrologia centrada no indivíduo, viagens da consciência, astrologia do relacionamento, a química dos elementos etc. E não são spam.

Sendo certo que a astrologia não me interessa nada, quando recebi a informação sobre a química dos elementos, dei comigo a pensar:
Se o meu signo é do elemento água, que tipo de água gostaria eu de ser?
Luso, Pedras, Carvalhelhos, Perrier, Evian?

Não, conclui que gostava mesmo era de ser água da torneira – completa mas com muitas impurezas.
Rematei este profundíssimo pensamento retirando a óbvia conclusão: a pensar assim, esta mulher não vai a lado nenhum.
Falta de ambição não vai com os dias de hoje.

Talvez, então, tenha chegado a hora de também eu fazer uma sessão de coaching, ou hélas!,  ir ao astrólogo.
Qualquer dia, menos hoje.


6 de março de 2012

Conversa para totós

O nosso primeiro-ministro vê os seus governados como um bando de totós a quem é necessário ensinar o básico, e fala com eles como um bom pai de Massamá fala com os filhos pré-púberes.

Vai daí, segundo o jornal Público, diz assim:


Interrogado sobre como é que os portugueses irão fazer férias, com que dinheiro, respondeu: “Fazendo uma boa aplicação dos recursos que têm, como é evidente. Quando há menos, tem de se gastar menos, quando há mais tem de se pensar em ficar com algum de lado para os tempos em que há menos. É isso que eu espero que os portugueses também possam fazer”.


Isto é o que ele espera. Por mim, espero que 850 000 desempregado montem uma tenda à porta dele e resolvam aí passar férias com tudo o que isso implica – banhos de sol, cozinhar o jantar, piquenicar ao almoço, lavar a loiça e usar regularmente os sanitários. E nada de inibições com os ruídos noturnos, porque férias são férias.
E que belas férias poderíamos proporcionar ao nosso primeiro-ministro.


5 de março de 2012

Demências

Hoje roubo posts que merecem ser lidos

Joana Lopes, Estranho modo de vida


Não é fácil imaginar a vida concreta de cerca de 500 mil pessoas que não trabalham porque tudo lhe é proporcionado gratuitamente e que ainda recebem cerca de 35.000 US$ / ano desde que nascem. Todas as tarefas são asseguradas por um milhão adicional de estrangeiros, bem pagos, mas que nunca adquirem a nacionalidade do país em que vivem, ou mesmo em que nascem: as segundas e terceiras gerações mantêm o «passaporte» dos seus ascendentes, o mesmo acontecendo às mulheres que casam com locais.
( continua)

Sérgi Lavos, Ladrões, corruptos, vigaristas

E enquanto vamos ficando todos mais pobres, há quem continue a não sentir os efeitos das medidas de austeridade, e até lucra com elas. A história divulgada esta semana é exemplar: uma das primeiras decisões do Governo depois de tomar posse foi introduzir portagens na ponte 25 de Abril durante o mês de Agosto, acabando com uma tradição antiga que beneficiava os lisboetas que não têm dinheiro para ir passar férias longe da cidade e apenas podem frequentar as praias da Costa da Caparica. A ideia seria aumentar a cobrança dos impostos pagos nas portagens mas sobretudo poupar na indemnização compensatória paga à Lusoponte pela quebra nas receitas, no valor de 4.4 milhões de euros. O problema é que a Lusoponte, cujo presidente é Joaquim Ferreira do Amaral, dirigente do PSD e antigo ministro das Obras Públicas que saiu directamente do executivo de Cavaco Silva para a administração desta empresa, exigiu ao Governo esses 4.4 milhões.
 ( continua)

2 de março de 2012

Sede nossa

O caso do entorneiro de cinco cervejas pelas costas da Merkel abaixo foi um sucesso. Não houve jornal ou televisão que não disponibilizasse o vídeo.

Em boa verdade, a senhora comportou-se com grande aprumo, reagindo como se estivesse habituada a tomar banho de cerveja, embora me pareça que aquela pele tão sedosa estará mais habituada a tomar banho em leite de burra como a Cleópatra.

Um “acidente” destes seria quase uma não-notícia, dada a ínfima reação da vítima, se não se desse o caso de lhe estarmos com uma tal “sede” que nem cinco cervejinhas são capazes de mitigar.

1 de março de 2012

Beatas e cocós

Segundo notícia do Expresso de 25 de Fevereiro 2012, a Câmara de Lisboa vai lançar uma campanha para uma cidade mais limpa, tendo como alvos a separação do lixo, as beatas, e os dejetos de cão.

Dá vontade de mandar tocar os sinos de todas as igrejas da capital num gesto de congratulação por tão luminosa ideia, que só peca por tardia.

Civismo é um conceito encarado muito restritamente pelos portugueses, e tem vindo a perder terreno desde que a estupidez e alarvidade tomaram conta das televisões.
Sem campanhas e ações concretas não chegaremos lá.

É bom mesmo que espalhem cinzeiros pelas portas de restaurantes e de serviços públicos porque, desde que só se pode fumar na rua, mesmo o fumador mais civilizado se vê frequentemente num excruciante dilema entre comer a beata ou deitá-la para o chão.

Quanto aos dejetos de cão, é outra história. Há por aí maravilhosos sanitários para cães que os donos nem veem. Os seus adorados animais fazem o cocó onde quiserem e fica lá, porque é tão bonito o que o meu cãozinho faz que todos devem poder apreciar.

Ai de quem manifeste incómodo com tão bela exposição – é logo mandado para todos os lados, e que o meu bichinho c*** onde quiser e tu, ó minha estúpida, não tens nada com isso, mete-te na tua vida.

Venham, então, de lá as campanhas (mais vale tarde que nunca) e, já agora, as coimas, porque sem elas continuaremos a caminhar pelas nossas ruas ao jeito de Paulo Portas a fazer slalom numa pista de Aspen.

29 de fevereiro de 2012

Conheço um país...

Conhecemos um país, o nosso, onde o Orçamento de Estado tem 600 milhões de euros para o aumento do capital do BPN segundo confirmou o secretário de Estado do Orçamento, Luís Morais Sarmento. “”Em outubro passado eram 350 milhões de euros, em dezembro Passos Coelho dizia que eram 500 milhões de euros e agora, apenas um mês depois, passou a 600 milhões de euros” (daqui)
De seguida, o BPN será vendido ao BIC por 40 milhões.

Nesse país, o mesmo Estado não consegue arranjar um chavo para começar a pagar à farmacêutica Roche uma dívida de 135 milhões de euros (não são eles que dizem que as dívidas são para pagar e no prazo acordado?)

A Roche fornece aos hospitais portugueses dois medicamentos sem rival no tratamento de cancro - Herceptin (cancro da mama) e MabThera (linfoma) que, a partir de agora, só fornecerá com dinheiro à vista. Como os hospitais só têm dinheiro para a gestão corrente, é fácil prever o que se passará.

Questão de simples prioridades: para o governo PSD/CDS as pessoas estão no fim (da linha) e servem, basicamente, para pagar impostos que
o mesmo governo se encarregará de “estafar” com os amigalhaços.
Alguém ainda tinha dúvidas?
Vale a pena indignarmo-nos?
Já NÃO!

28 de fevereiro de 2012

Amiguismo, miopia ou apenas humor?

A Sociedade Portuguesa de Autores (SPA) resolveu atribuir a Évora o prémio Melhor Programação Cultural. (Notícia aqui)

Se o prémio tivesse sido atribuído há 15 ou 20 anos, seria bem merecido; em 2012 só pode ser anedota, ou miopia ou amiguismo.

Évora tem sido, na última década, o excelente exemplo dum desastre de gestão autárquica.
Desde que, em 2001 o PS ganhou as eleições autárquicas, começou o desbaratar do património cultural laboriosamente construído durante vinte anos.

O Centro Histórico de Évora (CHE), classificado Património da Humanidade em 1986 foi deixado ao abandono no que constituiu um criminoso assassinato da “galinha dos ovos de ouro”.

Sendo uma cidade essencialmente de serviços, o que tornava aquele Centro Histórico único era a capacidade de preservar o edificado ao mesmo tempo que se mantinha um centro vivo e animado.

Ora, logo que o PS chegou ao poder, tratou de retirar a grande maioria dos seus próprios serviços do CHE, transferindo-os para um barracão que arrendou por uns milhares de euros no Parque Industrial.
Foi o tiro de partida para que muitos outros lhe seguissem o exemplo, conduzindo inexoravelmente à desertificação do CHE.

Hoje, ele é habitado por um punhado de velhos, o comércio definha e, em muitas ocasiões, parece uma cidade fantasma.
O edificado é deixado ao abandono, com inúmeras casa fechadas e sem que para alterar a situação se conheça qualquer plano.

Quanto à programação cultural, que foi pujante nos anos 1980, 1990 é agora escassa e paroquial.

O Cendrev (teatro) tem sido alvo de inúmeras tentativas de “morte matada”, as muitas organizações culturais de menor dimensão foram asfixiadas pela retirada de apoios, o embrião dum museu de arte contemporânea que existia em 2001 foi prontamente abandonado, bem como o festival de verão “Viva a Rua” que já se tinha afirmado a nível nacional. Finalmente, há três anos, fechou o cinema.

Excelência na conservação do património e na programação cultural?
Só dito por ironia.
O sentimento de quem lá vive resume-se nesta história que vi contada no Facebook:

PE foi buscar o filho à estação dos comboios. Quando este parou, uma rapariga saltou para a gare, olhou em volta e perguntou-lhe:
- Aqui é Évora?
Ao que ele respondeu:
- Não menina, aqui é o Desterro.
Amiguismo, miopia ou uma simples anedota?


Nota: foto de rua de Évora já publicada neste blogue num post com o título Notícias da Desolação

27 de fevereiro de 2012

Paulo Portas bateu com a cabeça?

Afirmações de Paulo Portas:

"ou Portugal quer ser Portugal, um caso específico, um país que honra a sua palavra", consegue cumprir as metas financeiras a que se propôs e recupera a sua "autonomia", ou pensa em "reestruturar ou renegociar a dívida" e vai "direitinho para a parede, ou dito de maneira mais clara, fica igual à Grécia".

Para Paulo Portas, "a conversa do não pagamos, reestruturamos e renegociamos", poderá originar situações de "prédios incendiados, carros destruídos, parlamentos cercados, uma sociedade completamente dividida e um país desmotivado", como acontece na Grécia. (ionline)

Quem é que pode pensar nisso, logo agora que estamos tão “motivados”?

Se até posso entender que ele não pode desdizer o chefe, também não precisa de se armar em paizinho que ameaça - filho, se não comes a sopa toda vem lá o papão que incendeia e parte tudo.

Melhor seria que continuasse calado como tem feito porque, com tais afirmações, e neste tom, fica-me a dúvida se Paulo Portas não terá batido com a cabeça, não na parede, mas na porta do avião, ou do submarino, quem sabe?
Oxalá que não, cruzes.

24 de fevereiro de 2012

O povo não é sereno

A célebre frase “O povo é sereno”, proferida por Pinheiro de Azevedo durante uma manifestação no longínquo PREC, encerrava, ao tempo, uma certa dose de verdade.

Há quarenta anos, o povo carregava algum fatalismo e conformismo, sem dúvida, mas geralmente acompanhava-os de sobriedade e dum saber de “experiência feito”.

Os tempos mudaram, mudaram muito, e até deixou de haver povo, passando a haver apenas “público”.
Porém, eu gosto desse ancestral termo - povo.

O moderno povo urbano que hoje vemos nos telejornais está cheio de si, das suas verdades indiscutíveis, das suas razões, e, demasiadas vezes, duma raiva quase assassina, pronta para o linchamento se houver oportunidade.

Dúvidas, não tem nunca. É um povo cheio de certezas, aquele que vai para a porta dos tribunais gritar “assassino” e demais impropérios ao arguido antes mesmo de qualquer julgamento, e no fim dele também, se o resultado não for a seu contento.

Arguido de caso mediático é, para este povo urbano e excitado, fatalmente culpado.
Foi assim com os McCann, com Carlos Cruz e agora com Afonso Dias, réu no caso do desaparecimento de Rui Pedro.
Este povo assusta.


23 de fevereiro de 2012

ZECA

Patrãozinho André

Por aqui, mesmo quem não é ligado ao futebol, desde que oiça notícias e leia jornais, vai acumulando muita informação sobre o tema, ainda que superficial.

Foi o que me aconteceu há dias com o título desta notícia, que nem li, mas que me disse alguma coisa, e por isso hoje a fui repescar (em linguagem desportiva, como convém).

Villas-Boas: “Não preciso do apoio dos jogadores, só do dono do clube”

Na altura pensei com os meus botões – és tu que jogas, rapaz, ou são eles? e achei muito estanho que um treinador diga que não precisa do apoio dos jogadores para o seu projeto, visto que são eles que o concretizarão.

Sabemos que o André tem uma importante costela inglesa mas essa deve-lhe ficar para os lados da rabadilha. A verdadeira costela lombar, a que sustenta, é bem portuguesa, diria até que é portuguesa dos sete costados.

É que o André tem os tiques duma grande parte dos patrões portugueses, os tais que acham sempre que quem trabalha é descartável.
Eles, os patrões, só precisam mesmo do banco e do Estado.
Como o André precisa, apenas e só, do Abramovich.

22 de fevereiro de 2012

As rapariguinhas do shopping

Terça-feira de carnaval num centro comercial de Lisboa quase deserto.

Pergunta uma das rapariguinhas do shopping –“ Évora é para cima, não é, para o Porto?
Ah! Então é para Faro.”
À saída uma outra rapariguinha do shopping – “afinal hoje é feriado, ou não? Uns dizem que é e outros dizem que não é, não percebo.”

Quase toda a gente, hoje em dia, está de acordo em dizer que Portugal nunca teve uma geração tão bem preparada, e eu estou de acordo.

Mas, senhores, e os que não se prepararam?

È confrangedor ver gente na casa dos seus vinte anos que não faz ideia para que lados fica uma das capitais de distrito, que até são só 18.

Também apetece perguntar em que planeta habita a rapariguinha que, ao fim de duas semanas de polémica em todas as televisões, ainda não tinha percebido se era feriado ou não.

Aos muito preparados o governo indica a porta de saída. Uns irão porque querem, outros porque nada mais lhes resta; e por aqui ficarão apenas estes impreparados.

É com eles que vamos construir um país moderno e dinâmico, senhor primeiro-ministro?

Se os preparados se virem obrigados a seguir o seu conselho e partirem em massa, restar-nos-á uma choça governada por uma choldra, de que o senhor será merecedor, mas eu não.
Estou zangada, pois estou, e depois?


21 de fevereiro de 2012

Já se sabe que os animais são todos iguais, mas há uns mais iguais que outros

Esta notícia do Público, leva-me a uma recorrente interrogação.

Sócrates mentia e já não havia bicho careto que não lhe chamasse MENTIROSO com todas as letras.

Quando será que os mesmos acusadores (é bom lembrar que foi Manuela Ferreira Leite a pioneira no uso do adjetivo) começam a chamar a Passos aquilo que ele é, tanto quanto Sócrates era, – MENTIROSO?!
Deu-lhes agora para a boa educação, foi?


20 de fevereiro de 2012

"O Sentido do Fim"


“Quantas vezes contamos a história da nossa vida?
Quantas vezes adaptamos, embelezamos, fazemos cortes matreiros? E, quanto mais a vida avança, menos são os que à nossa volta desafiam o nosso relato, para nos lembrar que a nossa vida não é a nossa vida, é só a história que contámos sobre a nossa vida. Que contámos aos outros mas – principalmente – a nós próprios”





“O Sentido do Fim”
Julian Barnes
Ed. Quetzal
pag. 100

Ao saber que “O Sentido do Fim” de Julian Barnes ganhou o Man Booker Prize 2011, não se estranha, mesmo não conhecendo a concorrência.

Através da história de vida de Tony Webster, Julian Barnes coloca-nos perante questões essenciais - como construímos as nossas memórias, qual o seu grau de veracidade, o que nos escapou, o que não quisemos saber, o que preferimos esquecer, o que presumimos, como escolhemos viver a nossa vida, onde nos perdemos daquilo que eramos na juventude, o que manipulámos?

Servidas por uma escrita prodigiosa, estas 152 páginas lêem-se dum rufo, ainda que nelas haja muito para meditar e muitos parágrafos para reler.
Grande literatura, sim.

18 de fevereiro de 2012

Um presente para Passos






















Neste carnaval, duas máscaras africanas para o nosso primeiro poder escolher com qual quer continuar a assustar-nos.
Para os outros todos, bom carnaval.

17 de fevereiro de 2012

Nem piegas nem medricas

Duas notícias.
Segundo o Público, a taxa de desemprego disparou para 14%; e acrescenta:
Se forem incluídas as pessoas desencorajadas mas que gostariam de encontrar trabalho, o número real deverá aproximar-se ou mesmo ultrapassar o milhão de pessoas.

Segundo o ionline, foi revelado pelo Indicador de Poupança APFIPP/Universidade Católica que a taxa de poupança das famílias desceu em janeiro.

Segundo o mesmo organismo, "as expetativas de desemprego registadas no inquérito às famílias … desceram ligeiramente em janeiro, apesar de se manterem em níveis muito elevados", facto que "pode reduzir a necessidade de poupança das famílias por motivo de precaução".

Está-se mesmo a ver. Com 14% de desempregados, cortes nos salários, aumentos nos transportes, na energia, na saúde, etc., os portugueses estão a poupar menos apenas porque têm menos medo do desemprego, ora essa. Nem sequer é porque não consigam poupar, ou por terem tido de deitar mão às poupanças, nada disso, só porque não são medrosos.

Ah! Nação valente, povo temerário.
E o que eu gostava que esta gente poupasse na asneira.  

16 de fevereiro de 2012

Salò

Eu dizia aqui ontem que todos os dias há, neste país, “uma guerra” para travar, um alvo a abater, um soundbite a esmiuçar”.

Não é o caso de hoje. Hoje é dia nem sei do quê.

A história dos livrinhos com o programa do governo ao custo unitário de 120 euros, que eu paguei enquanto deixava na livraria dois ou três que custavam 10% disso, mostra-me mais uma vez (mas é só mais uma vez), que este governo se ri de nós, cospe em nós e ainda raspa os pés no capacho que somos nós.

Porque será que me lembro duma cena do filme Salò de Pasolini, em que humanos nus e pela trela eram obrigados a comer o inominável?

15 de fevereiro de 2012

Se um blogue incomoda muita gente...

Recentemente, dois doutos crânios lusos entenderam escrever sobre a blogosfera.
José Pacheco Pereira escreveu no Público um longo artigo que Joana Lopes transcreve e comenta no seu blogue Entre as Brumas da Memória.
Talvez por ele próprio ser autor dum blogue, analisa a blogosfera com trambelhos, ainda que os seus trambelhos.

Pessoalmente não acredito que os blogues políticos tenham perdido influência; neste país há sempre uma “guerra” para travar, um alvo a abater, um soundbite a esmiuçar, e sobre eles há tantas e tão variadas opiniões, argumentações e ponderações, que os blogues se tornam uma fonte inesgotável de artigos de opinião, alguns bem melhores do que os que lemos nos jornais.

Já Miguel Sousa Tavares, que parece começar logo a espirrar de alergia quando lhe falam em internet, escreve na página/lençol do Expresso:”…essa terrível entidade a que hoje querem resumir a democracia chamada blogues”.

Não conheço ninguém que queira tal coisa, mas é certo que não me movo nos círculos seletos de MST; ao contrário, conheço muita gente que pensa que os blogues acrescentam democracia à democracia.
Os blogues políticos e de reflexão sobre a nossa sociedade são, frequentemente, muito bem escritos e pensados (é só passar pela minha lista de Gosto de), são gratuitos e feitos nas horas vagas de quem os escreve.

Sousa Tavares percebe, na blogosfera, que não é só ele que sabe escrever, ou pensar, e que hoje todos podem publicar "sem custos para o utilizador".
Talvez essa constatação o faça sentir-se um pouco ameaçado, talvez.

14 de fevereiro de 2012

Temo juízes justiceiros


Baltazar Garzón escolheu para si próprio a figura de juiz star que nunca me agradou; muitas das suas atuações também me levantaram, ao longo dos anos, as maiores reservas.

Entendo que um juiz deve ser discreto, e se nunca se falar dele, tanto melhor.
Ao contrário, Garzón há anos que procurava a ribalta, construindo laboriosamente uma imagem de justiceiro universal.

As minhas campainhas de alerta soaram a quando do seu mandato de prisão contra o ditador chileno, Augusto Pinochet.
E se eu abominava aquele homem! Mas, enquanto toda a gente batia palmas, eu franzia o sobrolho; aquilo tresandava a golpe mediático e, sobretudo, parecia-me um atestado de menoridade passado à ex-colónia, a quem não era reconhecida capacidade para acertar as contas com a sua própria história, como e quando o entendesse.

O mesmo se passou com a investigação aos crimes de guerra do franquismo.
Espanha fez, bem ou mal não interessa, um pacto de “esquecimento” sobre o qual construiu a sua atual democracia. Esse pacto será revisto quando, se, e como os espanhóis o entenderem, e não por capricho dum só juiz.

O que agora levou ao seu afastamento ultrapassou, em meu entender, todas as marcas; e não me venham dizer que os juízes do Supremo Tribunal, que votaram por unanimidade a sua suspensão, são todos franquistas ressabiados, porque não posso acreditar nisso.

Escutar as conversas entre presos e seus advogados não é admissível.
Num Estado de direito e democrático, há uma linha que não pode ser ultrapassada, os fins não podem justificar os meios, e as democracias não podem usar os métodos das ditaduras.
Ainda que o bandido nos fuja, ainda que a alma nos doa.

13 de fevereiro de 2012

Chefias intermédias

Nos últimos tempos, já todos percebemos que quem manda aqui neste pedacito de terra é uma senhora chamada Angela Merkel, outra chamada Cristine Lagarde e um senhor chamado Mário Draghi ; há ainda uma série de funcionários que gostam de debitar umas coisas mas esses, de facto, não mandam nada, e por isso não me afligem.

O que eu não sabia mesmo é que nesta república, que eu julgava laica, também manda o Papa.

Fiquei a saber, pelo Expresso do último sábado, que o expedito primeiro-ministro, que a maioria dos portugueses elegeu mas todos temos que gramar, afinal nem sequer consegue acabar com os feriados religiosos sem autorização do Papa.

Será santa ignorância, a minha, mas o facto é que tenho vindo a perceber que, por aqui, não há governantes – todos não passam de chefias intermédias equiparadas a, vá lá, a director-geral.

10 de fevereiro de 2012

Portuguesinha de gema

Lá em casa sempre ouvi um ditado assim: “dos teus dirás mas não ouvirás”.

As gerações que nos precederam eram fecundas em aforismos. Estes constituíam, no seu entender, verdades incontestáveis que lhes serviam para rematar, ou melhor dizendo, matar, as conversas em que nos mostrávamos mais “respondões”.

Certo é que eles me entraram no ouvido e muitas vezes me vêm à memória, embora hoje não sirvam para nadinha porque há muito tempo que ninguém está disposto a aceitar aforismos seguidos de ponto final.
Contudo, portuguesinha de gema que sou, tendo a descair para o lado do “dos teus dirás mas não ouvirás”

Vem de lá Merkel e diz que há túneis a mais na Madeira.
A gente sabe que os túneis foram feitos com dinheiro dos fundos estruturais, todos aprovados em Bruxelas, e por isso ela não pode pôr o corpinho todo de fora.
Mas, no fundo, e se virmos bem as coisas, a mulher até tem razão, só que aquilo dito por ela chateia-me, pá.

Depois vem um tal Schulz dizer que nos andamos a meter demais com más companhias – para ele Angola, para mim, China e Angola.
Ora, ele sabe que para pagar o que lhe devemos e mais os juros usurários que nos exigiram, vamos ter que vender as joias a quem der mais.
Quer receber o dinheirinho? O melhor é deixar- se de moralismos e nem perguntar por onde andámos para o arranjar.
Mas, no fundo, e se virmos bem as coisas, o homem até tem razão, só que aquilo dito por ele chateia-me, pá.

É óbvio que o velho “dos teus dirás mas não ouvirás” foi coisa que me ficou, o que, em boa verdade, também me chateia um bocado.

9 de fevereiro de 2012

La vie en rose

Na Antena 1 da RDP, no espaço da manhã dantes ocupado por Pedro Rosa Mendes e seus companheiros, existe agora uma rubrica sobre portugueses no mundo.

Durante alguns minutos, a jornalista fala com alguém que está a viver e a trabalhar noutro país e eu ponho uns óculos cor-de-rosa.

São sempre jovens com boa formação que encontraram um trabalho que os satisfaz. Todos falam de segurança no trabalho, organização e saudades do sol. Enfim, a vida é bela e cheia de oportunidades no largo mundo ao nosso dispor. O programa satisfaz plenamente a ideia do primeiro-ministro de que os jovens devem abandonar a sua “zona de conforto” e emigrar.

Noto, porém, que os entrevistados, não estando infelizes, ao contrário, têm saudades do país e da família. Presumo que, se aqui encontrassem maneira segura de empregar o seu inegável talento, na sua grande maioria, gostariam de estar na sua “zona de conforto”.

Reparo também que, no programa, nunca ouvi entrevistar nenhum dos muitos licenciados portugueses que mais não encontram lá fora do que a possibilidade de vender copos a bêbados de país alheio; também nunca ouvi um jovem com o 12º ano que só conseguiu ser trolha, nem um dos mais velhos que se sente enganado e bastamente explorado na sua condição de emigrante.

Mas é bom. O senhor Primeiro-ministro e o Dr. Relvas certamente gostam disto e eu, durante uns minutos, vejo o mundo em tons de rosa clarinho.

8 de fevereiro de 2012

Venerável Vasco

Vasco Graça Moura nunca escondeu que não gosta do AO, (eu também não) mas a atitude que tomou ao entrar no CCB é um ato de desobediência civil.

Ou talvez seja só rebeldia, não sei.

Se calhar nunca foi rebelde em novo e por isso, admito, resolve experimentar agora, numa altura da vida em que os atos de rebeldia podem ser desesperantemente parecidos com arrogância, mas nunca com coerência, como tenho visto por aí.

Sim, acho que é rebeldia tout court, daquela fácil de ter quando sabemos que nada nos acontece.

Venerável Vasco sabe disso.

Assim, à entrada, declara que naquele tasco, que parece ser só seu, ninguém vai escrever segundo as novas regras.

Que faz o governo que o nomeou?

Ora, o costume nestas situações que metem veneráveis: acobarda-se e desdiz o que está dito – o AO entra em vigor a 1 de Janeiro de 2012, não, não, foi engano, obrigatório mesmo só em 2014. Desculpe lá ó Vasco, faça como quiser, esteja em sua casa, disponha.

Da coluna vertebral do Viegas, que já tinha dado a “palavrinha” a Mega Ferreira e lha retirou prontamente quando lhe lembraram que ele não manda nada, e que é grande defensor do AO, nem digo nada. Não devemos falar daquilo que não existe senão em conversas de especulação filosófica, o que não é aqui o caso.

7 de fevereiro de 2012

Passos Coelho e o touro de Pamplona

A atuação política de Passos Coelho faz-me lembrar a largada de touros em Pamplona.

Aberta a porta do curro, a besta corre pelas ruas, marra a torto e a direito, corneando pelo caminho vários “piegas” que se meteram com ele e até os que não se meteram com ele.
Mais cedo ou mais tarde, tem o destino de todos os touros: é morto por homens

Vamos alargar o cinto

Há não muito tempo, o bastonário da Ordem dos Médicos surgiu na televisão com a ideia de criar uma taxa adicional sobre fast food.

Num tempo de cultura do corpo e do saudável, muitos acharam que talvez fosse uma boa ideia porque todos sabemos que aquilo não é a comida mais recomendável do mundo.

A mim pareceu-me, vagamente, que era uma ideia de alguém que vê o país a partir dos corredores do Hospital da Luz, ou da Cruz Vermelha, ou da Cuf e que lhe renderia alguns minutos de exposição televisiva, mas não seria uma ideia bem pensada e aprofundada por alguém que representa uma classe profissional que conhece, talvez como nenhuma outra, as fragilidades do país que habita.

Chegou-me agora às mãos um livrinho intitulado “Desigualdades em Portugal, problemas e propostas” (Edições 70+Le Monde diplomatique, edição portuguesa), em que Isabel do Carmo, conhecida militante antifascista e hoje Diretora do Serviço de Endocrinologia do Hospital de Santa Maria, escreve:

Os portugueses têm de apertar o cinto…trata-se apenas de uma metáfora, porque de facto deveríamos dizer “os portugueses vão ter de alargar o cinto”.
É entre as classes mais pobres que a obesidade aumenta.

Quando os salários descem

O cliente vai procurar aquilo que lhe possa trazer mais calorias, que seja mais saciante, por menos dinheiro. E o que preenche mais essas duas qualidades são as gorduras, os doces e o álcool. As fontes de proteínas são mais caras, como são caros os alimentos ricos em vitaminas e sais minerais.

Parece simples de entender – ficar saciado por poucos euros é o objetivo de quem é pobre, logo, quanto mais pobres, mais obesos.
O problema é que as verdades simples não dão direito a aparecer nos telejornais.

6 de fevereiro de 2012

Bandarilhas do nosso contentamento

Nós, portugueses, temos um estranho sentido quer de educação, quer de democracia.

Podemos não cumprimentar o vizinho, sujar o espaço público com o talão do multibanco e os dejetos do nosso cão, estacionar ocupando o lugar de três carros, não devolver chamadas telefónicas feitas, faltar aos compromissos assumidos e nem dizer água vai, soltar as crianças nos restaurantes como se estivessem no parque infantil, “atropelar” o idoso lento que vai à nossa frente, conduzir como assassinos, mas não podemos criticar ninguém, exceto os políticos.

Também não temos o hábito de louvar ninguém, exceto os jogadores de futebol.

Para nós, na maioria das vezes, crítica é sinónimo de ofensa, contundência é má-educação, da polémica fugimos como o diabo foge da cruz, e se ousássemos a antiga “bengalada” alguém ligaria para o 112.

Entendemos o democrático direito à opinião duma maneira beata, e expressar com veemência o desacordo é considerado impertinência de mau-gosto, se não mesmo injúria.

Mas isso é só o que se vê à superfície, o que gostamos de mostrar.

No fundo, continuamos a gostar de tourada, arena e sangue, mas na bancada. É de lá que gostamos de aplaudir aquelas almas simples que se dispõem a espetar as bandarilhas do nosso contentamento.

Respeitinho e dissimulação. Assim fomos moldados por 48 anos de ditadura, e assim continuamos.
Acredito que um dia passará. Mas leva tempo.

Nota: este post surge, não como resposta mas como reflexão, sobre a caixa de comentário do post abaixo

4 de fevereiro de 2012

Sábado frio


“A estação do frio é uma estação para pessoas felizes.”

Assim escreveu Adolfo Mesquita Nunes no 
Delito de Opinião, e eu gostei.

3 de fevereiro de 2012

Só uma ideia para nuestras hermanas

Sol não nos tem faltado, mas os dias continuam negro; não passa um que não nos traga notícias de retrocesso.

Em Espanha, o governo do PP vai alterar a lei do aborto com “o regresso ao sistema anterior, baseado em três pressupostos: violação, malformação do feto ou risco para a saúde da mulher.”

Não sei o que dirão as espanholas. Estarão dispostas a voltar à abortadeira de vão de escada num momento em que mais de cinco milhões de espanhóis estão sem emprego e não se podem dar a esse supremo luxo de ter filhos?
Nas crises, são sempre as mulheres as mais penalizadas, mas o que vivemos já não parece uma crise – assemelha-se mais a uma guerra sem bombas mas igualmente mortífera.

As espanholas, eu sei, e não precisam de conselhos, mas, mesmo assim, aqui lhes deixo uma ideiazinha:

Encontrem uma Lisístrata contemporânea.

A da antiguidade organizou uma greve de sexo, assim conseguindo a paz entre atenienses e espartanos. Talvez uma moderna e salerosa Lisistrata consiga de novo ”organizar as tropas”, chamando à luta os seus parceiros para, juntos, obrigarem os políticos (maioritariamente homens) a inverterem a tenebrosa marcha de regresso a um passado de trevas em que as mulheres se queriam dóceis, conformadas e amedrontadas.
É só uma ideia.

2 de fevereiro de 2012

O escritor e o blogger, J. Rentes de Carvalho

Acabei de ler, com agrado, “Os Lindos Braços da Júlia da Farmácia”, livro de contos de J. Rentes de Carvalho. Não sendo, no meu pobre entender, grande literatura, é, contudo, um livro cheio de narrativas limpas, escorreitas, com apurada sensibilidade e sentido de humor.

O autor, que vive em Amesterdão, tem um blogue – TEMPO CONTADO, onde no dia 1 de Fevereiro escreveu isto:

Estamos de parabéns. É admirável como há portugueses que, com aflições de sobra, de pouco tempo dispondo entre o futebol, a televisão e o café, arranjem oportunidade para, ferrenhos, erguendo o punho, brandindo a Moral, se mostrarem solidários com a Grécia.
É um exemplo que nos dignifica, uma atitude enérgica, muito capaz de levar a que a Alemanha reconsidere a teimosia de não satisfazer o calote.

Palavras cínicas, e até ofensivas, dum homem já entradote na idade.

Primeiro, alvitra que os seus compatriotas mais não são do que consumidores de futebol, televisão e café, isto é, não trabalham.
De seguida, mostra que o seu tempo está mesmo muito contado porque não usa nenhum dele para se informar sobre as causas da dívida grega ou a maneira como a união monetária foi construída à medida dos interesses germânicos.

Homem público com pretensões a intelectual não pode limitar-se a emprenhar de ouvido o que se diz lá no paraíso fiscal em que vive – a Holanda, e isso de escrever o que nos dá na real gana é bom para mim e para os meus colegas bloggers sem nome na praça nem livros no escaparate.

J. Rentes de Carvalho, se não quer perder o seu contado tempo com as toneladas de informação disponível, podia, ao menos, ler o seu colega Manuel António Pina

Resumindo: o livro “Os Lindos Braços da Júlia da Farmácia” recomenda-se, mas o blogue de J. Rentes de Carvalho – TEMPO CONTADO – esse, eu vou evitar, para não contaminar a imagem que criei do escritor.
Se é que ainda vou a tempo.

1 de fevereiro de 2012

O Bastonário está desassossegado

Confesso que sempre tive alguma simpatia por António Marinho Pinto; talvez por eu própria gostar de palavras, também gosto de quem as usa sem medo ainda que, com isso, possa correr o risco de, aqui ou ali, elas saírem mais desbragadas.

Desta vez acho que não é mero desbragamento, é desnorteio.

Quando alguém se insurge contra um ministro por ele pedir uma investigação às contas do seu próprio ministério, pelas quais, sejam atuais ou anteriores, terá que dar a cara, está-lhe a negar um direito e até um dever.

Quando alguém se socorre sistematicamente do “caso” da nomeação da irmã da ministra para o Ministério do Ambiente, parece estar sem argumentos.

Quando alguém diz que a ministra “parece uma barata tonta” está a deitar mão ao mero insulto.
Além disso, há nesta afirmação um subtil toque sexista que incomoda.
Duvido que Marinho Pinto usasse a mesma expressão referindo-se a um ministro homem.

Fica-me a ideia de que Marinho Pinto está, também ele, à rasca.
Por isso estas suas palavras já não são fortes e contundentes.
Apenas estouvadas e grosseiras.