26 de março de 2013

Com ou sem toalha


Há uma senhora deputada do PSD que há muito tempo, e certamente por distracção, pôs uma toalha de mesa ao pescoço e nunca mais se lembrou de a tirar. Chama-se Teresa qualquer coisa, e o PSD chegou a uma tal lástima que até a deixa falar em seu nome.

Quando ela abre a boca, eu lago tudo e fico atenta porque, nos dias que correm, temos que aproveitar o que nos possa fazer rir de borla.

Na sua última tirada a senhora da toalha acusou “o secretário-geral do PS de colocar a ordem constitucional em causa com o "anúncio não consumado" de uma moção de censura.

Confesso que desta vez me deixou a pensar; habituada que estou a tentar decifrar os discursos redondos do Coelho, em que ele fala muito em “calibragem” e até em coisas moralmente elevadas como seja a “constância na persistência”, pensei, pensei, e acho que o que a Teresa nos quis dizer foi simplesmente isto:

- Exijo a imediata consumação do acto! Os preliminares são inconstitucionais.

Gosto de mulheres assim despachadas. Com ou sem toalha.

25 de março de 2013

Pobrezinha mas honrada?


A exposição da australiana Narelle Jubelin (Sydney, 1960), patente no Centro de Arte Moderna da Gulbenkian, podia perfeitamente ser uma exposição apresentada num qualquer Centro Cultural duma capital de distrito.

Saímos dela com uma sensação de quase nada, entre bordados, uns vídeos com as reflexões da artista sobre arquitetura e uma suposta tensão criada entre a obra e a arquitetura do CAM, como vi escrito algures mas não descortinei.

A exposição não envergonha, mas só isso. Não é o que precisamos nem o que a Gulbenkian nos pode dar neste momento de definhamento geral e cultural em particular.

Se é certo que nos últimos vinte anos a Fundação Gulbenkian deixou de ter, no panorama cultural português, a centralidade que teve desde o seu início, isso deve-se em grande medida à existência de novas centralidades que foram surgindo à medida que o país se desenvolvia e modernizava.

Com a profunda crise que nos tomou de assalto, o desaparecimento de organizações culturais menos sólidas e mais dependentes de apoios foi uma fatalidade.

Julgo que é em momentos destes que uma instituição sólida, e com meios próprios, como a Gulbenkian, tem um papel, e quase um dever patriótico, de remar contra a maré, contra o miserabilismo, contra as poupanças de chacha, contra o ideário do “pobrezinho mas honrado” , contra o imaginário tacanho do Portugal dos pequeninos.

Cabe-lhe fazer exactamente o contrário: voltar a ser o oásis e o motor da nossa vida cultural, com iniciativas que nos galvanizem e nos façam acreditar que há vida para além das crises. Não é o que se está a passar no CAM.
 
Culpa da curadora Isabel Carlos ou da tesouraria?
Não sei. Apenas sinto que a Gulbenkian ameaça ficar mais um cadáver entre tantos que a crise vai deixando pelo caminho.
Oxalá me engane.


23 de março de 2013

O retorno

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Eu estava a pensar escrever alguma coisinha sobre o regresso de Sócrates, mas depois li este artigo de Pedro Santos Guerreiro e desanimei logo. É que ele escreve exactamente e o que eu penso, e ainda por cima tão bem, que um amador mete logo a viola no saco.
É ler.
Começa assim:
O homem é um colosso. Só alguém tão carismático como José Sócrates poderia regressar menos de dois anos depois. Mas mesmo isso não bastaria se as actuais lideranças políticas fossem fortes. Não o são: no Rato e na Lapa só há pão-de-ló. Em Belém, chá.
 
A imagem é de Yronikamente

22 de março de 2013

Antes Fria


Eu acho que a “coisa” está a ficar, subitamente, muito preta.

É assim como uma enorme trovoada, daquelas que chegam quase sem aviso, enegrecem o céu e produzem enxurradas capazes duma enorme devastação.

O Eurogrupo, (que é como quem diz, Merkel, o seu ministro das finanças e alguns países/boys), resolveu tratar Chipre à estalada, mas com humilhação pública. Não era costume. O costume era fazer como tem sido feito connosco: na ferida vai-se deitando sal e vinagre, um pouco todos os dias. O doente geme, a ferida vai gangrenando, mas não há escândalos públicos, é tudo em família.

Desta vez, em relação a Chipre, devem ter fumado umas ganzas pela noite fora, decidiram resolver o assunto à chapada mas, no meio da trip esqueceram-se de duas coisas importantes.

A primeira é que os cipriotas podiam ter alguma coisa a dizer sobre a sua vida, mas isso já é habitual neles; mais grave é que se esqueceram que do outro lado da cerca está uma vizinha, chamada Rússia, que gosta de soltar os cães

Agora está tudo à nora.

O metro e meio de Medvedev já chama burros aos europeus nas bochechas do Barroso (felizmente este é homem de grande estômago e tudo engole desde que o deixem ficar onde está), o BCE avisa que ou cipriotas fazem como lhes mandam ou fecha a torneira na segunda-feira, os ministros das Finanças reúnem de urgência por teleconferência, e a democracia na Europa está cada vez mais semelhante a uma batata.

Parece que toda a gente está a medir forças com toda a gente. Voltaremos à Guerra Fria? Estou tentada a desejar que sim: é que temo que “isto” aqueça.
Antes fria. Chiça!


21 de março de 2013

E o título de mais criminoso vai para…


Passaram agora (20 de Março) dez anos sobre o início da guerra do Iraque.

Esta notícia diz-nos que pelo menos 112.000 civis morreram nos últimos 10 anos no Iraque após a invasão das forças internacionais lideradas pelos Estados Unidos que derrubaram Saddam Hussein.”

As ditas forças internacionais iam à procura das armas de destruição maciça e também apear Saddam, o criminoso governante do pedaço.

Das primeiras, nem o rasto, e quanto ao criminoso, mesmo sendo criminoso encartado, duvido que conseguisse matar 112.000 dos seus em dez anos.

Para quem vai então o título de mais criminoso?
Sem dúvidas para o trio Bush, Blair e Aznar, e mais o porteiro – Durão Barroso.

20 de março de 2013

No reino animal


No mundo dos negócios e da finança em Portugal há dois grupos dominantes de animais: o das araras emplumadas que não se calam, e o das doninhas malcheirosas escondidas nas moitas mas silenciosas.

No primeiro grupo inserem-se Fernando Ulrich e Belmiro de Azevedo; sempre que lhes põem um microfone à frente não resistem a produzir o discurso do palhaço rico com o qual as televisões providenciam tempo de antena de baixo custo, e as redes sociais conseguem uma semana de ofendida cavaqueira.

Acontece, porém, que são discursos sentidos, e as araras acreditam no que dizem.

No outro grupo, o das doninhas, estão os que sabem a música toda mas preferem o silêncio, continuando a fazer os seus negócios, claros ou escuros, sempre que possível longe das luzes da ribalta; são, por exemplo, Ricardo Salgado e Américo Amorim.

Quando araras e doninhas, com a cultura que lhes é própria, viram elite económica e financeira dum país, fácil se torna perceber por que nele a finança estoira e a economia não medra.

19 de março de 2013

Outro Francisco, o meu


Foste-te embora há tantos anos!
Partiste sem aviso e sem tempo para despedidas.

Foi como se, de repente, tirassem uma perna à nossa velha mesa, aquela onde nos sentávamos e em que, desde cedo, nos falaste de política − ditadura e democracia, justiça e injustiça, igualdade e desigualdade, e onde também contaste de livros, valores, heróis, e outras grandezas.

Com essa tua saída apressada perdeste uma infinidade de coisas boas, e também algumas más.
Diria que merecias tê-las visto todas, mas não me parece que merecimento deva entrar nesta equação.

Hoje, 19 de Março 2013, acredita que não tenho a menor vontade de te falar das coisas desagradáveis que por aqui vão acontecendo.
Não trago pedras no bolso, não as quero.

Dentro do envelope apenas meia dúzia de palavras descuidadas, próprias de vidas simples e tempos normais:

“Allô pai, bom dia!
Acho que o teu Benfica é bem capaz de ganhar o campeonato este ano.
Beijos.”

 

18 de março de 2013

Só não os demitimos se não quisermos


Desde sempre foi claro, mas a partir de sexta-feira passada tornou-se nítido, que este governo, por causa da troika, por causa de si próprio ou por causa de ambos, declarou guerra ao povo que governa.

Em menos de dois anos errou todas as previsões, esgotou a nossa paciência, a nossa capacidade de sofrimento e, com o desprezo que usa para nos falar, está em vias de esgotar também o que nos resta de dignidade.

Este governo não nos governa nem não nos defende.
Não se demitirá, mas pode ser demitido por nós.

A receita para a sua demissão não precisa ser inventada; precisa apenas da coragem de não sairmos da rua, como fizeram os búlgaros em Fevereiro ou os checoslovacos em 1989. Ou nós mesmos por Timor.

E a quem me vier acenar com o horror (de que não duvido) que será o dia seguinte, direi apenas que um país de cócoras é mais insuportável e tem menos futuro que um país falido.

Ninguém me “passou a bola” mas também eu digo: Demissão, já!

15 de março de 2013

Francisco


Justin Bieber e o Papa, qualquer Papa, são, no meu entender, marcas, e o comportamento dos fãs da marca não difere substancialmente, seja no Pavilhão Atlântico, seja na Praça de São Pedro.

Não sendo crente, aquilo lá em Roma não me diz grandemente respeito; daí a possibilidade de ter um olhar mais desprendido sobre a escolha do novo Papa e respectivos rituais.

O que eu vi aparecer à janela do Vaticano foi uma figura que me agradou.

Simples e sereno, vi ali um alentejano ou beirão, parco em palavras e gestos, certamente consciente do peso que vai começar a carregar, mas que não aparenta nem temor nem júbilo excessivos. Como se sentisse, com naturalidade, que “aquilo” lhe tinha “acontecido”, e pronto.

A esquerda das redes sociais tratou de vasculhar o seu passado, e de logo se mostrar desiludida por anteriores declarações contra o aborto, a eutanásia o casamento gay, ou o uso das drogas leves. Em suma, ficou expressa uma grande desilusão por a Igreja não eleger alguém com o programa fracturante do Bloco de Esquerda.

Se o ridículo matasse tinham morrido todos.

Quanto ao passado político de Bergoglio, só quem não viveu em ditadura pode acreditar que alguém, com um lugar cimeiro em qualquer hierarquia, pode nele permanecer, em regime ditatorial, sem meter esqueletos no armário.

Se o Papa Francisco conseguir sanear a Igreja, defender e confortar a parte mais frágil do seu rebanho, recusar tentações hegemónicas da fé católica sobre as outras e evitar meter o bedelho onde não é chamado, já terá cumprido bem o seu papel e a poderosa marca continuará a ter o sucesso de que goza há mais de 2000 anos.

14 de março de 2013

Gonçalo Barreiros no Chiado 8


Vraum é o nome da exposição de Gonçalo Barreiros (Lisboa,1978) que pode ser vista até 10 de Maio 2013 no Chiado 8.

 “ Não é simples classificar o trabalho que Gonçalo Barreiros tem vindo a desenvolver sensivelmente desde 2003, ano em que iniciou o seu percurso público. Talvez a característica mais determinante na sua prática seja a tendência para tornar o espaço expositivo como um palco e para fazer das suas peças agentes de acções perturbadoras, sarcásticas, cómicas ou exasperantes.”

Isto escreveu o curador Bruno Marchand no catálogo da exposição e, se ele o diz, quem sou eu para o desdizer.

Mas, por acaso, também acho que não é simples classificar este trabalho, como não é simples classificar nenhum trabalho no campo das artes visuais hoje em dia.

Porém, nesta exposição há frescura, surpresa e ironia.

Todo o trabalho exposto remete para nosso imaginário da Banda Desenhada, sugerindo-o apenas, quer com peças que evocam o gesto de arremessar, quer com a linha da paisagem, quer com os balões de fala e a prancha da Banda Desenhada absolutamente em branco.

Neste último caso, que corresponde à parte final da exposição, o artista parece querer perguntar-nos se somos dos que acreditamos que a arte deve comunicar alguma coisa, e deixa-nos entregues à nossa sorte perante molduras que “nada enquadram, nada devolvem, que não respondem”.

Depois de séculos a acreditar que sim, que a arte deve comunicar, não se muda facilmente.

Prova bem divertida disso mesmo foi ouvir o comentário da jovem mulher que estava perto de mim no dia da inauguração (1 de Março, véspera da manifestação). Dizia ela para os seus companheiros: ali naquela prancha, e com uma parede tão branquinha apetece-me mesmo escrever “que se lixe a troika”.

Estávamos, pois, e como também se diz no catálogo, num “território fértil para a subjetividade”, que é o território por excelência da Arte Contemporânea.
Vale a pena ir ver e “experienciar”. A entrada é livre.  

 

13 de março de 2013

Perguntar não ofende. E que ofendesse!


Hoje só me apetece fazer perguntas. 
Por exemplo:
 
- Quantas pauladas nos dará hoje o Gaspar?
- E a gente vai continuar a levar na cabeça?
- Isaltino Morais ainda apresentará o 45º recurso em tribunal?
-E o Macário Correia alguma vez sairá da Câmara?
- O Tribunal Constitucional responderá antes de irmos para a praia em Agosto?
- Cavaco estará incontinente e por isso não sai de casa?
- PCP e Bloco alguma vez mudarão os seus estereótipos reactivos ao PS?
- Haverá Papa ainda hoje? Estou que nem posso!
- Esta minha vontade de andar à chapada ainda durará muitos dias?



12 de março de 2013

Mel

Mel, o último romance de Ian McEwan, é uma história com muitas estórias, muita História e muitas possibilidades interpretativas. De que quis falar Ian McEwan?

De espiões e espionagem? Da Grã-Bretanha dos anos 1970? De amor, sexo, traição e ciúme? De literatura e escritores? De si mesmo?

É com todos esses temas que McEwan, como lhe é habitual, e com fleumática mestria, constrói uma narrativa que suga o leitor para dentro dela soltando-o apenas na última página.

Se Mel tem muito de autobiográfico como se afirma, não sei, mas creio que quase só pode interessar uma geração mais velha, que tenha referências suficientes para se lembrar do IRA Provisório, da semana de três dias, da crise do petróleo, das greves dos mineiros britânicos, dos terrores da guerra fria, da ressaca dos sixty e de todo um caldo de cultura que conduziu Margaret Thatcher ao poder e lá a manteve mais de dez anos. Em resumo, a geração a que pertence o autor.

Ironicamente, os medos vividos neste período, desconhecidos dos leitores mais jovens, são, em grande medida, os mesmos que nos assaltam hoje –instabilidade política com políticos fracos, crise social,  terrorismo ou o medo dele, extremismo político, greves.

Quem tenha memória não se arrependerá de ler este livro.
Tampouco se arrependerá quem, não a tendo, seja apenas amante de boa ficção.

Ed: Gradiva



11 de março de 2013

Nascido para ser servido


Há frases que me escandalizam de tal forma que nem num puto de 19 anos as tolero.

No Expresso de sábado passado, José Gusmão Rodrigues, estudante de filosofia com 19 anos de idade e alguns prémios ganhos na sua área, afirma peremptório:

Acho uma loucura pessoas talentosas ficarem em Portugal”.

Ora, tendo eu chegado à idade de começar a passar o testemunho, de ser rendida pelos mais novos, é com perplexidade que vejo alguns tão individualistas, arrogantes e armados em finos como o autor da tirada – putos que se colocam num pedestal onde lhes devem ser servidas todas as condições para desenvolverem os seus superiores talentos.

Diz a criaturinha: “Lá fora há melhores condições”. Sem dúvida, mas convinha que alguém lhe dissesse que foi cá dentro que criámos as condições, todos juntos, para ele ser o que é, e talvez fosse bom que, chegada a sua vez, ele ajudasse a criar aqui condições ainda melhores para os seus próprios descendentes.

Tendo-lhe sido perguntado se haverá “bilhete de volta” responde, muito dono do seu nariz: “Talvez regresse, talvez não. Depende de como estiver o país nessa altura.

Ou seja: Se os sem-talento fizerem alguma coisa desta piolheira, talvez ele, pessoa talentosa, volte. Caso contrário, nada feito.
Mais um que nasceu para ser servido pela pátria.


8 de março de 2013

Mulheres

















Hoje é o Dia Internacional da Mulher.

Escolho três mulheres, influenciada pela leitura dos jornais de ontem.

A primeira é Sharon Stone, a mais famosa trocadora de pernas do globo, que aí vem para ser madrinha dum barco português do Douro.

Acho bem. Uma mulher tem que ganhar a vida de qualquer maneira, mas ela que não se venha queixar se descobrir que havia um milhão de portugueses com vontade de serem amadrinhados por ela.

Depois vem a abnegada Maria Cavaco Silva; imagino-a todas as noites na cozinha do palácio a fazer tisanas e biscoitos para o seu homem que, coitado, naquela idade ainda trabalha dez a doze horas por dia para o nosso verificável bem-estar. Vida sacrificada, a desta Maria, que apenas confirma que por trás dum pequeno homem há sempre uma pequena mulher.

Finalmente, a grande Joana Vasconcelos que vai encher outro palácio, o da Ajuda, com as suas tralhas, em parceria com o empresário Álvaro Covões e a empresa deste, a Everything Is New. Anuncia-se que no quarto da rainha estará uma enorme Vespa, loiça de Bordalo e bordados do Pico.

Em picos fico eu só de imaginar a ousadia da rapariga. E será que no quarto do rei vai haver um Bordalo daqueles que a gente sabe? Se houver deve ser grande, que a Joana gosta de tudo em grande.

 

Pessoalmente gosto de, a 8 de Março, lembrar os milhões de mulheres que, pelo mundo fora, vivem em condições deploráveis, sem direitos, e abaixo de todos os limiares de que nos possamos lembrar.
Dedicar um dia à Mulher continua a ter sentido, sim, mas por elas.

 

 

7 de março de 2013

Medidas sensatas



Ontem, no debate quinzenal, Passos Coelho disse:

"Medida mais sensata para combater desemprego é baixar o salário mínimo".

Certo que acrescentou que por aqui não é possível tomar essa medida sensata por o SM ser demasiado baixo, mas é igualmente certo que as soluções teórico/práticas deles passam sempre por lixar os de baixo.

 E eu pergunto-me e respondo-me:
− Qual seria a medida mais sensata para combatermos estas bestas?
− Acho que já a usámos!
− Se persistem em ficar, talvez acabem por nos empurrar para a insensatez! Quem sabe?!

6 de março de 2013

Tarte sueca

Segundo o Público de ontem “A IKEA Portugal garantiu que não foram comercializados em Portugal os lotes de uma tarte de chocolate na qual as autoridades chinesas detectaram um nível excessivo de coliformes fecais.”

O fornecedor é sueco e eu nem me dou ao trabalho de ir ver o que são ao certo coliformes fecais, mas…não me cheira bem.

Os suecos e outros povos “avançados” do Norte trataram de infestar a Europa com regras alimentares que mandaram os nossos produtos para o desemprego e substituíram-nos por outros que não sabem a nada.

Nós por cá, bons alunos e bons polícias, mandámos a ASAE do bigode dizimar os restaurantes chineses e mostrar na televisão que eles não obedeciam às regras suecas.

Agora, o grande mercado chinês detecta coliformes fecais na tarte sueca.

Fecha-se, assim, o círculo, e se não fosse triste eu podia até rir-me deste capitalismo global, modernaço, hipócrita e ganancioso, bem representado no meu imaginário, não por uma tarte, mas por um enorme …vá lá, coliforme fecal.

5 de março de 2013

Livrai-nos, Senhor


Ontem foi conhecido o acórdão do Tribunal da Relação do Porto sobre o processo de desaparecimento de Rui Pedro.

Se na primeira instância Afonso Dias foi considerado inocente, agora foi considerado, pela Relação do Porto, culpado do crime de rapto, e condenado a três anos e meio de cadeia.

O juiz presidente da secção votou vencido, pois entendeu que o crime não seria de rapto mas de abuso sexual de menor.

Toda esta história tresanda, e deixa terríveis dúvidas no espírito de qualquer cidadão que não ache que tenha que se descobrir à força um culpado em cada caso julgado, seja para apaziguar a populaça, seja para mitigar a dor da família.

É a vida dum homem que está em jogo.

Acresce que, se já é estranho que dum tribunal para outro se passe de inocente a culpado com base nos mesmos factos apurados, mais estranho ainda parece que, para o crime de rapto de menor, a pena a aplicar seja de apenas três anos e meio. A mim, nesta circunstância, parece-me muito pouco e nem percebo como a família do Rui Pedro e o seu advogado Sá Fernandes podem achar que “foi feita justiça”.

Este caso, como outros, suscita-me tantas dúvidas que só reforça o que há muito penso − da Justiça portuguesa, livrai-nos Senhor.

4 de março de 2013

Há sempre alguém que resiste



Esta mania do “quantos mil eram” serve a quem, e para quê?
Temos, por acaso, todos alma de contabilistas?
No sábado éramos muitos, muitos milhares; quem lá esteve sabe. Quem esteve de outras vezes sabe ainda melhor.
Eu sei, e tenho a certeza que o governo também sabe. Isso me basta.

Estávamos, sem dúvida, mais tristes, mais velhos, mais silenciosos, mas ainda vivos.

Éramos os milhares que nunca têm compromisso inadiáveis em dia de manifestação.
Os que não perguntam para que serve uma manifestação, que é a pergunta mais idiota que conheço.
Os que nunca sentem que não serviu para nada só porque o governo não caiu logo no dia seguinte.
Os que, porém, têm a certeza de que ajudaram a abrir o buraco em que ele vai tropeçar.
Os que não são assaltados por dúvidas existenciais sobre a legitimidade de querer derrubar um governo eleito, mesmo se esse governo enganou os eleitores e governa contra eles.
Os que não se deixam ir para o matadouro sem um balido.
Os que resistem ao medo e ao comodismo.

Éramos, tão só, aqueles anónimos em que o poeta seguramente pensava quando, há muitos anos, escreveu:
“…há sempre alguém que resiste, há sempre alguém que diz NÃO”.
E somos muitíssimos.