27 de julho de 2011

Olhando os outros

Elas chegavam impreterivelmente às 18h30. Todos os dias.
Iguais. Apenas separadas por trinta anos de vida vivida, ou por viver.
As cadeiras de praia e a sombrinha previamente alugadas lá estavam à espera,
paralelas mas ligeiramente oblíquas em relação ao mar. Procuravam o sentido do sol, uma um pouco atrás da outra.
O ritual começava então.
Dos enormes sacos saiam duas toalhas rigorosamente iguais, com riscas azuis e amarelas, que eram estendidas nas cadeiras e presas na parte superior da lona com gestos precisos e domésticos. Os sacos eram colocados nos assentos e tapados com a parte restante da toalha. A filha tirava rapidamente a “saída de praia”, calçava os sapatos de plástico, alinhava com o elástico o cabelo já alinhado, e dirigia-se para a beira da água. Para lá e para cá, trinta passos de cada vez. Tinha a posição corporal do atleta nos momentos de concentração antes da prova que preparou durante todo o ano. Cabeça ligeiramente flectida, passos certos e cadenciados, a suave palmada na coxa, como que para descontrair a mão, ou afugentar o medo de falhar.
Contudo, o seu corpo não tinha nada de atlético. Miúdo e magro, razoavelmente moldado no biquíni discreto.
De vez em quando permitia-se sair da concentração e, com um olhar furtivo, averiguava o estado de preparação de sua mãe para o banho de mar.
Esta, tomava o seu tempo. Despia a bata, colocava o boné verde, calçava uns ténis, punha batom protector, arrumava e tornava a arrumar. Quando terminava, com inequívoco sinal de maior minúcia materna, quebrava a sintonia recolhendo os cantos da toalha sob o saco, como quem faz a cama.
Finalmente pronta.
A filha prontamente acorria, dava-lhe um esvoaçante mas terno beijo no ombro, pegava-lhe na mão e caminhavam assim, durante muito tempo, por dentro do mar chão e prata do entardecer.
Nunca vi a mãe beijar a filha.

26 de julho de 2011

Bom apetite!

Podem homens inteligentes, subitamente, transformar-se em adoradores de nabos?
Podem. É só ver a devoção com que alguns, na disputa eleitoral do PS, se entregaram ao TÓ ZÉ. E que felizes ficaram!
Aqui deixo, para todos, sinceros votos de boa digestão do tubérculo que tanto apreciam.

25 de julho de 2011

Trilhos (ou o amor aos livros)

No meu caso, não há maneira mais rápida de fazer amigos que encontrar alguém que ame os livros; será assunto encerrado se amarmos os mesmos livros.
Começamos por os referir, depois trocamo-los, e por fim comentamo-los com aquele sorriso largo e cúmplice de puro deleite partilhado.
Recentemente, uma amiga assim ofereceu-me um livro que já me tinha emprestado há uns bons anos. Não foi um livro igual àquele, não, foi o mesmo livro, aquele cujas páginas eu já tinha percorrido bem envolvida na escrita, na aventura, na “moral da história”.
Pego-lhe, manuseio-o já bem usado, cheiro-o, acho que o acaricio até, olho de novo as palavras manuscritas de fresco e, nesse exacto momento, sou feliz.
Tem por título Trilhos – No deserto australiano com quatro camelos e um cão.
A autora é Robyn Davidson, foi escrito em 1980 e publicado em Portugal pela Quetzal em 1999.
Sobre ele Doris Lessing escreveu:
“Um livro forte e estimulante escrito por uma jovem e original escritora (…). Este livro figurará entre os melhores livros de exploração e viagem e, como eles, é um testemunho de auto-descoberta e auto-avaliação”.
É isso mesmo.
Talvez ainda se encontre por aí, não é certo, mas agora eu tenho-o.
A Paula ofereceu-mo.

24 de julho de 2011

Coisa ruim

Saí daqui há uma semana e parece que, entretanto, coisa ruim tomou conta da situação.
A Europa, como diria o Gedeão, "faz que anda mas não anda, parece de brincadeira"
Morreu Amy Winehouse.
Morreu Lucian Freud.
O atentado de Oslo matou quase 100 pessoas.
Portugal não escapou ao desastre e o PS acaba de eleger para secretário-geral António José Seguro.
Livra !

13 de julho de 2011

A TMN e as suas manigâncias

Há cerca de um ano comprei uma pen de banda larga da TMN.
As condições obrigavam-me a fazer um carregamento de 10 euros a cada seis meses.
Em contacto telefónico, feito por mim e por outros motivos, vim a saber que as regras mudaram e que agora é obrigatório o carregamento de 10 euros mas a cada 3 MESES.
Eu acho que isto tem um nome feio mas, como toda a gente sabe qual é nem vale a pena escrevê-lo.
Vale a pena é confirmar que a PT (e a sua TMN) é mesmo LIXO.

Um país às avessas

Eu nem sou admiradora do pensamento do João César das Neves mas este artigo de opinião que publicou no dia 11 de Julho no DN, e que transcrevo, tem muito de verdadeiro e mostra bem um país às avessas

Há dias um pobre pediu-me esmola. Depois, encorajado pela minha generosidade e esperançoso na minha gravata, perguntou se eu fazia o favor de entregar uma carta ao senhor ministro. Perguntei-lhe qual ministro e ele, depois de pensar um pouco, acabou por dizer que era ao ministro que o andava a ajudar. O texto é este:
"Senhor ministro, queria pedir-lhe uma grande ajuda: veja lá se deixa de me ajudar. Não me conhece, mas tenho 72 anos, fui pobre e trabalhei toda a vida. Vivia até há uns meses num lar com a minha magra reforma. Tudo ia quase bem, até o senhor me querer ajudar.
Há dois anos vierem uns inspectores ao lar. Disseram que eram de uma coisa chamada Azai. Não sei o que seja. O que sei é que destruíram a marmelada oferecida pelos vizinhos e levaram frangos e doces dados como esmola. Até os pastelinhos da senhora Francisca, de que eu gostava tanto, foram deitados fora. Falei com um deles, e ele disse-me que tudo era para nosso bem, porque aqueles produtos, que não estavam devidamente embalados, etiquetados e refrigerados, podiam criar graves problemas sanitários e alimentares. Não percebi nada e perguntei-lhe se achava bem roubar a comida dos pobres. Ele ficou calado e acabou por dizer que seguia ordens. Fiquei então a saber que a culpa era sua e decidi escrever-lhe. Nessa noite todos nós ali passámos fome, felizmente sem problemas sanitários e alimentares graves.
Ah! É verdade. Os tais fiscais exigiram obras caras na cozinha e noutros locais. O senhor director falou em fechar tudo e pôr-nos na rua, mas lá conseguiu uns dinheiritos e tudo voltou ao normal. Como os inspectores não regressaram e os vizinhos continuaram a dar-nos marmelada, frangos e até, de vez em quando, os belos pastéis da tia Francisca, esqueci-me de lhe escrever. Até há seis meses, quando destruíram tudo.
Estes não eram da Azai. Como lhe queria escrever, procurei saber tudo certinho. Disseram-me que vinham do Instituto da Segurança Social. Descobriram que estava tudo mal no lar. O gabinete da direcção tinha menos de 12 m2 e na instalação sanitária do refeitório faltava a bancada com dois lavatórios apoiados sobre poleias e sanita com apoios laterais. Os homens andaram com fitas métricas em todas as janelas e portas e abanaram a cabeça muitas vezes. Havia também um problema qualquer com o sabonete, que devia ser líquido

12 de julho de 2011

Dublinesca

Há livros que compramos sem entusiasmo, vá-se lá saber porquê. Pegamos-lhes também sem entusiasmo e, quando assim é, muito raramente eles nos conseguem agarrar.
Foi o que me aconteceu com Dublinesca de Enrique Vila-Matas, lido durante um ror de tempo mais por teimosia do que por cumplicidade.
Ele é considerado o grande autor contemporâneo espanhol (ou catalão), e esta já é a segunda vez que faço o esforço para gostar dos seus livros, mas agora acho que já chega.
O resumo do livro apresentado pelo editor está por toda a parte para quem quiser ter uma ideia sobre o seu conteúdo, e nem vale a pena falar dele aqui, mas vale a pena relembrar algumas frases proferidas pelo autor numa entrevista concedida a José Riço Direitinho no ípsilon  de 23/02/2011..

"a situação actual da literatura não poderia ser mais lamentável".
“O Auster decidiu que esse passado em comum nos unia. Creio que decidiu isso porque tinha vontade de encontrar um motivo razoável para começar a ser meu amigo.”
“O curioso é que no final do meu romance a pobre literatura acaba por estar mais viva do que nunca, como se o seu funeral em Dublin - ou o meu romance - a tivessem trazido de novo à vida, a tivessem ressuscitado.”
Ora aí está um homem/escritor contente consigo e que se tem em alta consideração; pois se até o Paul Auster quis à força encontrar um motivo para ser seu amigo e se o seu romance ressuscitou a literatura...

E acrescenta também:
"Não sabemos se a literatura está em crise, mas a crise do juízo literário salta à vista."
Não tenho dúvidas – é esse o mal de que padeço.

11 de julho de 2011

E agora, Tristane

Dominique Strauss-Kahn tem o seu assunto quase arrumado lá nas Américas, embora, para o comum dos mortais, todas as dúvidas sejam legítimas, qualquer que seja o resultado final, dada a enormidade de meios utilizados pelas partes.
Posto isto, eis que lhe aparece uma tal Tristane Banon, apresentando queixa em França por tentativa de violação em 2003, ou seja, há 8 anos.
Dá que pensar o que pode levar uma mulher, com as condições dela, a denunciar o caso apenas 8 anos depois, e como é que ela vai provar, ao fim de todo este tempo, a acusação que faz.
Diz Tristane que avançou com o processo por “não suportar ver as imagens de Dominique Strauss-Kahn a comer tranquilamente, com amigos, em restaurantes de luxo de Nova Iorque.” 
E nos outros oito anos ele levou vida de monge tibetano?
Diz também que foi aconselhada a calar-se mas, há 8 anos, Tristane já era uma mulher com meios para, em seu nome e em nome de outras mulheres com menos meios, apresentar queixa dum crime grave como é a tentativa de violação.
Acobardou-se, no caso de estar a falar verdade, mas na vida há um tempo para tudo.
DSK não é “flor que se cheire”, já o sabemos, mas esta queixa parece-me fora de prazo e desconfio que, num país misógino e machista como a França é, Tristane vai sair-se mal e terminará arrasada.
Quanto a DSK, provavelmente não será presidente de França nem qualquer outra coisa que valha a pena, mas vai continuar por aí a viver muito confortavelmente e a ser o velho baboso que já todos sabemos que é.
Teorias da conspiração? Neste caso não me convencem.

8 de julho de 2011

Lição prática sobre isto de ser LIXO

O país, finalmente, indignou-se por o classificarem como lixo. Por mim, já ando indignada desde aqui
Convém, contudo, juntar ao sentimento de ofensa algum conhecimento sobre os efeitos práticos da coisa.
Aqui fica uma liçãozinha que transcrevo dum artigo do Público de hoje, 8 de Julho:

A RTP assumiu ontem ao Público que foi obrigada a renegociar o pagamento da dívida devido às decisões anteriores da Moody’s que em Abril já tinha cortado a notação financeira da empresa. Esta renegociação fez disparar os empréstimos que a empresa terá de pagar já este ano, de 47,5 para 208 milhões de euros.
O credor é o DEPFA Bank, com sede na Irlanda.

O negócio do lixo é bom, por isso há tantos sucateiros.
Mas estes, nem um saco de robalos nos oferecem.

As saídas nocturnas de Passos Coelho

No dia em que, de manhã, levou um murro no estômago, à noite Passos Coelho foi ao teatro com a mulher e algumas filhas.
A escolha recaiu sobre "VIP Manicure - A Crise", com Maria Rueff e Ana Bola, no Casino de Lisboa. (Notícia e foto daqui)
Ainda pensei que, para uma primeira aparição, o Francisco José Viegas lhe recomendasse uma ida ao Teatro Nacional D. Maria, ou ao Teatro Camões para ver a Companhia Nacional de Bailado, ou mesmo ao Festival Ao Largo do S. Carlos que é mais levezinho mas muito agradável. Caramba, sempre são todos pagos por ele com o dinheiro que lhe entregamos, mas, pelos vistos o Francisco José Viegas estava distraído, ou não risca nada p’ra aí, e o príncipe de Massamá ficou-se com a manicure.
Parece que se riram muito. Oxalá não lhe tenha piorado a dor no estômago. Cruzes!

7 de julho de 2011

Choque e pavor

Tenho aprendido muito de economia nos últimos tempos; sobretudo palavras. Cá em casa é tudo mais para o lado da microeconomia, mas o país inteiro viu-se obrigado a aprender macroeconomia por via dos doutos economistas que nos enchem os écrans á hora da sopa, do café ou até do “digestivo”.
Rating, default, alavancagem, dívida soberana, eurobonds, são termos que entraram na nossa vida e se tornaram tão normais de ouvir ou dizer como pepino, amigdalite, virose ou “bica”
Segundo as agências de rating, há muito que nos aproximávamos do “lixo” mas agora  já está. Tudo LIXO. (Cá na minha rua, o carro do lixo só leva lixo doméstico 3 vezes por semana mas na rua do rating deve passar 7 dias na semana e fazer horas extraordinérias.)
Os queridos políticos e comentadores impingiram-nos, atempada e prolongadamente, que mudar para um governo de direita, aumentar impostos, impor mais sacrifícios, cortar direitos a quem trabalha e a TSU para os patrões, iria ajudar muito a que as ditas agências tivessem calminha. Isso era o que eles nos diziam porque era o que, de facto, queriam fazer, mas sabiam muito bem que a coisa não ia parar. Pois se até eu sabia! Sabiam que somos apenas amendoins para macaco e o que está em curso, há muito tempo, é o ataque ao euro e à UE. As vozes dos que hoje nos comandam nunca se fizeram ouvir quando esta brincadeira começou. Mas ouvem-se agora que já estão no poder.
Nunca antes ouvi Faria de Oliveira dizer que a descida do rating é “imoral e insultuosa” ou Mira Amaral proclamar que a decisão de descer o rating é “infeliz e terrorista” e, se não fossemos nós a pagar as favas, até seria divertido ver aquelas duas marionetas do sistema, Passos Coelho e o chefe da claque dos patrões a dizerem, os dois na mesma manhã, que levaram um murro no estômago.
Eles ficaram à rasca mas o principal, ou seja, as medidas draconianas que eles queriam, estão garantidas. Já chegaram umas e o resto vem a caminho, sempre para aplacar a ira dos mercados.
São assim as lutas pelo poder e pelo capital. A direita portuguesa lutou e ganhou. As agências de rating, verdadeira infantaria dos mercados, continuam a luta pelos seus clientes lá no assento etéreo onde quer que eles se assentem.
Operação "Choque e Pavor" foi o que ontem provaram governantes e empresários.
Nós? bom, para nós esse já é o estado natural.

6 de julho de 2011

Danos colaterais

Quem lê este blogue, já percebeu que tenho pouco apreço por Fernando Nobre e que ele consegue até bulir-me com os nervos.
Volto e ele, mas espero que seja a última vez.
Há cerca de dois anos, numa tarde tórrida de verão, suportei estoicamente o calor e fui até uma livraria de província para assistir ao lançamento dum dos seus livros, com a presença do autor.
Foi a primeira grande desilusão. Não ouvi falar de mais nada que não fosse o número de universidades pelas quais era doutor honoris causa e das suas "boas"origens familiares.
Quando anunciou a candidatura à Presidência da República pensei que raio teria passado pela cabeça do homem. A campanha foi o que se sabe, ficando-me a ideia duma cabeça cheia de nada, frases feitas e populistas, e uma consciência de si muito para além da realidade.
O episódio da candidatura pelo PSD mostrou um homem com práticas muito distantes dos princípios que nos quis fazer acreditar que eram os seus, e também com uma grande sede de poder e protagonismo.
Abandonou agora o lugar de deputado, o que se compreende à luz do seu passado recente, mas, se optasse por ficar, ainda poderia redimir-se um pouco, tentando ser no Parlamento uma voz independente em defesa dos mais desprotegidos, como prometeu na campanha presidencial.
Diz que volta para a acção humanitária, onde se sente mais útil, e eu acho que nunca devia ter de lá saído.
Contudo, a AMI está inexoravelmente ligada a Fernando Nobre, e vice-versa, o que a fará ressentir-se da actuação pública do seu presidente.
Acredito que o homem faz o lugar, e não o contrário. Ora, atendendo ao conhecimento que agora temos de Fernando Nobre, e depois de conhecer o organigrama da AMI, julgo que não serei a única a, de futuro, pensar muito bem a quem entrego aquilo que puder dar.
Será, contudo, uma pena que seja a AMI a sofrer os danos colaterais.

5 de julho de 2011

Anestesia geral

A 5 de Junho, os portugueses foram a votos apenas com vontade de mudar as pessoas. Já sabiam aquilo que comentadores e jornalistas parecem não saber ainda, visto mostrarem-se tão indignados com os últimos anúncios governamentais – que os políticos mentem em campanha, que mal tomam posse fazem exactamente o contrário do que disseram, que as contas são sempre mais alarmantes do que eles pensavam e que a culpa toda é de quem governou antes.
A este saber popular acresce uma campanha de muitos meses, antes das eleições, feita por economistas e comentadores em estereofonia, determinados em meterem-nos na cabeça que o caminho era só um – o dos sacrifícios.
A coisa foi tão bem feita que conduziu a uma enorme anestesia geral do tipo “porradão na cabeça” de que todos padecemos agora.
A juntar a isso, é verão; às vezes está calor, pensamos em férias, sol, praia, sesta e outras coisas próprias da época. Queremos partir por uns dias e “semear” o corpo moído na areia.
Havemos de acordar da anestesia geral com dor de cabeça lá para Setembro. Até lá, bebe-se uma cerveja e comem-se uns tremoços; depois? ora, depois logo se vê.

4 de julho de 2011

Good night and good luck


Vida portuguesa(Guedes, Moniz, Bairrão e etc.)

Era uma vez um senhor, chamado Bernardo Bairrão, que era administrador duma TV onde também trabalhava um casal de nome Moniz/Guedes. Eram próximos, muito próximos. A senhora Guedes tinha um programa de má-língua à sexta-feira onde dizia tudo e mais um par de botas do primeiro-ministro (o outro, o anterior). Digo isto porque me contaram; eu nunca vi porque tenho por norma nunca me aproximar duma boa peixeirada (cobardia minha).
No ano passado, não sei como, nem porquê, nem quem mandou, mas sei que a senhora Guedes foi despedida e acabou-se o palanque da má-língua. O extremoso marido saiu também daquela TV mas o senhor Bernardo lá continuou, impávido e sereno, sentado na mesa da administração, assistindo (talvez até participando) da saída do mega-casal. Suponho que o super-mega-casal não gostou. Com a chegada dum novo governo, o senhor administrador Bernardo B. foi convidado para secretário de estado do ministério das polícias e fogos e cheias e bombeiros e essas coisas todas, e aceitou. O casal ressentido parece que espreitou a oportunidade e insinuou, junto de quem de direito, algo mais nebuloso sobre o passado do ex-amigo. Resultado – o senhor Bernardo foi desconvidado.
A senhora Guedes, que tinha ficado desempregada, apressou-se a anunciar que ia para a outra TV, mas nunca mais ia. A outra TV manteve-a em banho-maria desde Novembro a ver em que paravam as modas e agora, com a chegada dum novo governo, argumentando com “uma alteração de contexto”, desconvidou-a. Acho normal. De facto, para que quer um homem na sua TV uma senhora a dizer mal do seu partido e do seu governo? Ainda se lá estivesse o outro, podia continuar a peixeirada.
Resumindo: em vez de uma desempregada, ficámos com dois.
Resumindo mais: a traição e a vingança fazem parte do código genético da humanidade.
Resumindo mais ainda: histórias assim, de tão banais, não são histórias não são nada.

Nota: estas instrutivas informações foram todas colhidas no Expresso de 2 de Julho.

1 de julho de 2011

Uma imagem vale mais que mil palavras


Esta imagem de satélite foi roubada ao blogue A Terceira Noite por a considerar tão impressionante. Integra, a preto e branco e com muito má qualidade, o livro A Longa Noite de um Povo, A vida na Coreia do Norte da jornalista Barbara Demick, e mostra a região da Coreia do Norte mergulhada na escuridão, ao lado da Coreia do Sul e do Japão imersos em luz (talvez até demasiada).
Apesar de a leitura do livro ainda estar no começo, parece ser um bom documento sobre um país de que, afinal, sabemos tão pouco.

A Longa Noite de um Povo
A vida na Coreia do Norte
Barbara Demick
Temas e Debates/Círculo de Leitores

O livro foi vencedor do prémio Samuel Johnson 2010, a mais importante distinção britânica para a não-ficção.

30 de junho de 2011

Jardim, versão de esquerda

Se alguém, alguma vez e injustamente, pensou que Alberto João Jardim não era um homem sensato, enganou-se redondamente.
É só ler a notícia

"Jardim recusa privatizar águas, electricidade e saúde" (aqui)

Um pouco mais à frente, pode ler-se que igualmente recusa o fecho do Jornal da Madeira de que o governo da região é único proprietário, e também aí revela sensatez – é que isso seria o mesmo que desligar o ventilador ao Alberto João.
Homem sensato vale por muitos, digo eu.

28 de junho de 2011

Parabéns ao Gonçalo M. Tavares


Ontem percebi, através de alguns blogues e do facebook, que Gonçalo M. Tavares ganhou o Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores (APE), com a obra "Uma Viagem à Índia".
Já tinha feito a ronda pelos jornais online e não tinha visto nada nesse sentido. Hoje googlei e lá descobri duas pequenas notícias.
Em compensação, o estado de saúde de Angélico está no topo da página dos mesmos jornais. Assim se vê onde está o interesse dos portugueses e o pouco que os media fazem para puxar esses interesses, nem que seja um degrauzinho só, mais para cima.
Parabéns, Gonçalo M. Tavares

O senhor deputado e a cervejinha

- Beber a cerveja pela garrafa é normal?
- Sim
- Sempre?
-Não, só às vezes.
- Então quando?
- Bom, por exemplo, num piquenique, em viagem, na praia, quando duvidamos da lavagem dos copos, num passeio a pé, num concerto rock, etc.
- E se for no restaurante do Centro de Arte Moderam da Gulbenkian?
- Bom, aí seria um caso de alguém que devia trocar a cerveja pelo chá.
Tive este diálogo imaginário com o meu imaginário neto quando vi um conhecido deputado da nação fazer exactamente isso – beber a cerveja pela garrafa no restaurante do CAM, na  5ªfeira da semana passada, dia feriado.
Eu sei que o homem é amigo do proletariado que bebe sempre pela garrafa lá na tasca ao pé de casa mas, caramba, está no parlamento desde que acabou a escola primária, faz leis, opina, nunca se ri, fala com a boquinha pequena, é homem de grandes responsabilidades e ainda não aprendeu os gestos mínimos de civilidade à mesa?
Pode-se argumentar que as pessoas são livres? Pode, e eu também sou livre de achar que “ter maneiras” nunca fez mal a ninguém, ainda mais se se é figura pública e deputado da nação.
Isto faz de mim uma bruxa elitista e reaccionária?
Então, é isso mesmo que eu sou.

27 de junho de 2011

A hipersensibilidade dos socialistas derrotados

Sempre tive coração mole e comoção fácil com o sofrimento dos outros se ele for silencioso. Ao contrário, quando o sofrimento lhes dá para fazer e dizer disparates, vai-se-me a compaixão e, às vezes, até o respeito.
Alguns socialistas não têm sabido digerir a derrota e têm entrado pelo caminho do disparate.
Já  aqui e aqui abordei inacreditáveis declarações que mostram desnorteio e mau perder.
Como se pode ler no post anterior, publiquei um comentário de um anónimo que se encaixa no paradigma do socialista em sofrimento. Como não me senti ofendida, continuo na onda da compaixão e respeito.
Segundo o artigo do Expresso, que li todo, Canavilhas não recebeu Francisco José Viegas com os argumentos já sabidos. O Expresso diz textualmente: “A ex-ministra proibiu, assim, a entrada dos novos titulares no “seu” Ministério. Viegas desceu de degrau e mudou de interlocutor”
Depois tudo se resolveu num encontro no parlamento e, claro está, vai recebê-lo para lhe passar a pasta depois de ele tomar posse. Era óbvio que isso iria acontecer e eu pergunto: então para quê a tentativa de humilhação?
Gabriela Canavilhas pode, como eu, discordar da “despromoção” da Cultura e disse-o logo, posto o que era escusado ter ido mais longe com uma atitude estúpida e arrogante, repito, e acrescento ainda, bacoca, ridícula e ressentida, que a deixou ficar mal na última fotografia e não chamou a atenção para coisíssima nenhuma a não ser para a sua vontade de ser pôr em bicos de pés.
Mas, como Gabriela Canavilhas é uma irrelevância política, amanhã já ninguém se lembra do que disse, do que fez e, em breve, ninguém se lembrará dela mesma.

25 de junho de 2011

As fotografias de Canavilhas

Durante quase dois anos habituámo-nos a uma ministra da Cultura que ficava sempre bem na fotografia. Se Sócrates cuidava da imagem, Gabriela podia ser sua professora.
De saída do governo recusou-se a passar a pasta a Francisco José Viegas porque ele é apenas Secretário de Estado e Ministro não se rebaixa assim (pensou a Gabriela).
Canavilhas é fotogénica mas a arrogância e a estupidez nunca o foram. Por isso ficou tão mal na última fotografia.
A propósito, que será que ela fez de tão grandioso naquele ministério que não possa passar a um Secretário de Estado? Alguém sabe? É que eu não estou mesmo a ver…

24 de junho de 2011

Os Vivos que paguem a crise

Já todos ouvimos e lemos que os nossos mortos se continuam a tratar e que os nossos médicos mortos continuam a receitar.
Ficámos agora a saber que também alguns magistrados mortos podem receber subsídios de compensação (aqui)
Ainda me indigno, estúpida que sou, mas de seguida rejubilo. É que isto de viver em democracia é mesmo porreiro, pá. Em ditadura acontece o mesmo mas ninguém sabe nada, em democracia está tudo escarrapachado no jornal.
Só me falta mesmo saber o que fazer com tanta informação.

22 de junho de 2011

Brevemente na sua PT

Todos estamos habituados a ligar para a PT (ou para a TMN) e sermos sucessivamente passados para outro operador que, supostamente, nos poderá dar a melhor resposta às nossas questões.
Entre “transferências” sempre nos perguntaram se podíamos aguardar um momento mas agora tudo mudou. A PT resolveu ser criativa na linguagem e agora os operadores pedem-nos um BREVEMENTE. Pode aguardar um BREVEMENTE? Ou então, um BREVEMENTE, por favor.
Quem terá sido a luminária criativa?
E quem será o chefe da luminária?
Brevemente e a longo prazo acho que não há Crato que nos valha.

21 de junho de 2011

Passos Perdidos de Passos

Confesso, deu-me gozo. De boca seca e cara de pau, ontem à tarde, e ao fim de duas rejeições, Fernando Nobre retirou-se da eleição para presidente da AR.
Deu-me gozo a sua derrota pessoal, que buscou com as próprias mãos.
Se fosse sério, depois duma campanha a dizer mal dos políticos, não aceitaria o convite dum partido e ainda mais para um lugar específico - nada mais, nada menos, que o segundo lugar do Estado. Se fosse sério, quando percebeu os problemas que a sua candidatura trazia ao partido que o convidou, ter-se-ia retirado rapidamente para lhe facilitar a vida, ainda mais num momento em que toda a direita apela ao “entendimento”.
Limitou-se a ser ambicioso, convencido de que valia alguma coisa; verificou agora, com um travo amargo, que não vale nada, que politicamente é zero e que o país o dispensa. Cada vez que foi a votos por si mesmo, perdeu.
Deu-me gozo também que Passos tenha percebido logo no primeiro dia que não terá vida fácil e que, em política, o voluntarismo raramente colhe (nem plano B ele tinha).
Finalmente, fiquei muito intrigada com aqueles dois senhores que se colocaram por trás de Nobre quando este veio fazer a sua declaração de boca seca e que, mal ele acabou, o retiraram dali quase ao colo. Não sei se serão colegas de bancada mas achei que tinham ar de capangas.
Que mau aspecto tinham todos.
Que mau aspecto teve tudo.

20 de junho de 2011

O BE vai implodir?

O desaire eleitoral do Bloco, para quem está de fora, era esperado. Nos últimos tempos de Sócrates, as linhas orientadoras do Bloco foram erráticas, inconsistentes, quando não arrogantes.
Quando nasceu, o Bloco foi uma esperança para todo um eleitorado de esquerda, na sua maioria educado e urbano, que já não se revia nos tradicionais partidos de esquerda. E conseguiu ser uma esperança transversal a várias gerações.
Era também alguma coisa em construção (como a Europa), nascido da vontade de entendimento entre vários pequenos partidos de esquerda, até aí sempre de candeias às avessas uns com os outros. Era, enfim, uma esperança, ainda que de contornos pouco definidos, para todo um povo de esquerda que se sentia órfão.
Esta “criança”, foi crescendo e engordando, sempre acarinhada, até se tornar num adolescente que, subitamente, se confronta com a dura realidade da vida – ela não é fácil.
É então que os genes de todas as famílias dão prova de vida, todos ao mesmo tempo, e temos um adolescente perturbado, com borbulhas e dentes tortos, que tende a fechar-se na cave, culpando o resto do mundo e curtindo apenas, e só, a sua própria música.
Pode, sem dúvida, estar a viver apenas uma crise de crescimento que será ultrapassada, mas pode também perder-se na sua caminhada para a vida adulta.
Os mais recentes sinais não são animadores. Daniel Oliveira e Rui Tavares são duas excelentes cabeças que, nos seus blogues e jornais em que colaboram, têm procurado pensar o passado, e sobretudo o futuro do seu partido, em público e sem tabus. O que eles escrevem é política pura e séria.
À extrema correcção com que o têm feito, alguns dirigentes do partido começam a responder ao velho estilo da esquerda estalinista, o que não augura nada de bom.
O tal povo de esquerda órfão, educado e urbano, fartou-se exactamente disso dentro do PCP e de outros.
A grande discussão interna estará marcada para Setembro mas, a continuar assim por tão “maus caminhos”, este adolescente problemático pode nem chegar à idade de votar.

18 de junho de 2011

Dignidade num país pouco dado a esses “devaneios”

Saramago: Fundação não vai "ter dinheiro do Estado"

A Fundação José Saramago não recebeu "nem um tostão do Estado" e assim continuará, tendo como princípio manter a sua independência, disse à Lusa a sua presidente, Pilar del Río.
"Não vamos ter dinheiro do Estado. A Fundação José Saramago não admite dinheiro público", realçou a jornalista e tradutora, que viveu com José Saramago durante mais de duas décadas.

"Temos que nos alimentar a nós mesmos, trabalhando, com todo o nosso empenho, toda a nossa energia e toda a nossa capacidade criativa", contrapõe, realçando que "a fundação buscará dinheiro como puder".

Tão raro que até espanta!

17 de junho de 2011

Se não fosse Pitta...

No seu blogue Da Literatura, e num post intitulado Habituem-se, Eduardo Pitta apresenta o resultado final da contagem dos votos: 132 de direita e 98 de esquerda. Termina dizendo Agradecer a Francisco Louçã e Mário Nogueira. (sublinhado meu)
Eu pensava que era para agradecer ao Sócrates e, vá lá, também àquelas do rating, mas parece que percebi tudo mal, e quem deu a vitória à direita foi o malvado do Louçã e o sindicalista Nogueira. Os portugueses também não foram para aí chamados.
Estamos sempre a aprender com os nossos intelectuais.
Valha-nos isso, já que o Paulo Macedo está de volta e desta vez para nos tratar da saúde
Cada vez que me lembro dos milhões de cartas que ele mandou aos contribuintes quando estava à frente da Direcção Geral de Impostos, admito seriamente que agora, em tempo de poupança, vá tratar da saúde dos doentes por email.  

Nobre sem nobreza

Porque é que o Nobre não tem a Nobreza de renunciar ao lugar de deputado e, assim, poupar engulhos àquela cabeça tonta que se lembrou de lhe garantir o lugar de Presidente da AR?
O doutor podia voltar, se tivesse coluna vertebral em vez de umbigo, àquele trabalho humanitário que lhe ficava tão bem.
Por mim, gostava.

"A Árvore da Vida"

Os que acham “A Árvore da Vida” o melhor filme do ano que me desculpem mas, na minha modestíssima opinião, aquilo é uma grande seca, e não é por ter ganho a Palma de Ouro em Cannes que lhe vou dar o (meu) benefício da dúvida
Tendo por base os eternos conflitos americanos entre pai e filho ao longo do crescimento deste - digamos que podia ter sido um pouco mais original no tema de fundo, Terence Malick constrói uma salada entre o catecismo e o National Geographic para deslumbrar o olho e (pretensamente) acordar a consciência do pagante.
Tem imagens belíssimas para quem não adormecer entretanto, a música é boa mas, no cômputo geral, é uma enorme chatice por um punhado de euros.
Os críticos também se dividem, mas eu estou com Vasco Câmara que no Público lhe atribuía duas estrelinhas; e vai cheio de sorte, que eu hoje estou bem-disposta.

16 de junho de 2011

Alguém viu por aí a ética?


A notícia é chocante, e a degradação moral que ela mostra leva-me a pensar que este país caminha para ser inviável.
Lembro-me de, há muitos anos, ter ouvido Laborinho Lúcio dizer que um jovem que não prevarica será um adulto malformado. Concordei com ele. Prevaricar e ter a respectiva consequência ajuda a formar uma personalidade saudável.
Porém, a educação moderna aceita a prevaricação sem consequência e assim criamos adultos tão malformados que se entregam ao copianço quando se preparam profissionalmente para decidir das nossas vidas.
Os seus superiores também não acham isso grave e optam por passar toda a gente com 10. O argumento usado – falta de tempo para repetir o exame (falta de tempo de quem?) mostra que o rigor e a ética também não fazem parte das suas preocupações.
Notícias destas dão-me calafrios na espinha.

15 de junho de 2011

"Viciado" em pornografia

O puritanismo dos americanos é bastante estranho para a maioria de nós, europeus. Entende-se por lá que os políticos devem ser bacteriologicamente puros, semideuses, e, caso se prove que não o são, têm assegurado um auto de fé com toda a nação a assistir.
Chegou agora a vez dum congressista do partido democrático, Anthony Weiner.
Constou que o senhor tem, desde há três anos, o hábito (vício?) de trocar mensagens eróticas na internet com seis mulheres, e isso foi suficiente para que vários congressistas do seu partido tenham já pedido a sua demissão, incluindo a imaculada líder da bancada, Nancy Pelosi.
Assim bem encostadinho à parede, o homem meteu férias e disse que ia procurar ajuda médica para tratar o “vício”da pornografia.
Obama viu-se obrigado a falar sobre o assunto classificando-o de “distracção” dos assuntos verdadeiramente importantes. E mais não disse.
Bom, é um primeiro passo, mas parece que nem Obama consegue dizer de caras aos seus compatriotas que têm que aprender a distinguir o que é público do que é privado, e que é um atentado às liberdades individuais, que tanto prezam quando lhes dá jeito, meterem-se no privado de cada um.
Com tanta exigência no que toca aos costumes dos políticos aquilo até parece um país em que ninguém espirra, ou tosse, ou tem caspa, ou mau hálito, sua dos pés, é adúltero ou promíscuo, ninguém bebe ou usa drogas, enfim, um país de gente completamente higiénica ou até mesmo asséptica.
O escrutínio exagerado, além de indecoroso, faz mal à política. Distrai.

14 de junho de 2011

Frágil e preciosa - a ciência

Segundo notícia do Expresso de 9 de Junho, o Manifesto pela Ciência em Portugal já foi assinado, em pouco tempo, por 1100 cientistas, empresários e gestores.
Com a mudança de governo, é natural que estes profissionais estejam preocupados. Em Portugal, cada governo gosta de fazer as suas experiências, de deitar fora o que vem de trás, seja bom ao mau, para deixar a sua marca da governação. Assim caminhamos aos solavancos, por vezes com um passo para a frente e dois para trás.
Com uma década de desenvolvimento anémico, a ciência foi uma excepção e é hoje, em Portugal, uma realidade preciosa mas de estrutura frágil. Somos bons nela, se nos forem dadas condições mínimas. Fixámos jovens e menos jovens cientistas portugueses e atraímos muitos estrangeiros. Em 2010, uma notícia do Público, há sensivelmente um ano, dava-nos conta de que Portugal publica por ano 7 000 artigos científicos (cerca de 20 por dia), com relevância internacional, e que o país registou na última década o maior crescimento europeu na área.
No artigo do Expresso, Benedita Rocha Vieira, vice-reitora da Faculdade de Medicina da Universidade de Paris, Descartes, afirma: “ A riqueza de um país depende do seu nível científico”. Parece óbvio mas, sê-lo-á para a dupla Passos/Portas?

13 de junho de 2011

TAP 2



Poderia alguém falar-nos verdade uma vez só que seja?


TAP trava greve com oferta de viagens


TAP. Acordo para fim da greve passa 200 tripulantes a efectivos




11 de junho de 2011

De volta às galinhas


De cada vez que Cavaco discursa eu sinto-me de volta à infância e ao sabor do óleo de fígado de bacalhau.
Ontem falou do regresso à agricultura, esquecendo demagogicamente que foi ele que a vendeu à Europa por dez simples moeda, e louvou a frugalidade e espírito de sacrifício do interior.
Quando eu era menina já ouvia estas coisas vindas de outra garganta e desconfio que, para ajudar a pagar o empréstimo externo, ainda havemos de o ver a criar galinhas nos jardins do palácio, como fazia o dono da outra garganta.
Porque hoje é sábado, mais possíveis e desagradáveis semelhanças não descascarei.
Mas elas existem.

10 de junho de 2011

Até vão comer a relva

As paixões político-partidárias, em Portugal, assemelham-se cada vez mais às paixões clubísticas com o seu quê de hooliganismo e tudo. O adversário passa a inimigo, para ser destruído e feito em picado.
Sócrates foi vítima dessa postura até à exaustão, umas vezes com razão e outras sem ela. O elenco da tragicomédia mudou, mas o guião vai ser o mesmo, só que de sentido inverso.
Ana Gomes, mulher frontal e geralmente corajosa, revelou agora também o seu gosto pelo canibalismo. Perdidas as eleições trata de fazer declarações sobre Paulo Portas, trazendo à baila, e bem, a questão dos submarinos, mas acrescentando logo de seguida declarações sem nexo sobre Strauss-Kahn, Casa Pia, prostituição e cabeleiras loiras. Tudo muito ao jeito do célebre e inolvidável discurso da Zezinha Nogueira Pinto “eu sei que ele sabe que eu sei”. Ora, eu, por mim, não sei nada disso e se Ana Gomes sabe de alguma coisa era bom que usasse a sua frontalidade habitual, chamasse os bois pelos nomes e se deixasse do “sei mas não digo” que já enjoa.
No seu blogue Da Literatura (O Método, 9 de Junho) também Eduardo Pitta não esconde qual a disposição dos socialistas para a nova temporada e diz textualmente - “Quem instaurou o método vai ter de viver com ele.”, ficando assim tudo justificado. É mais que sabido que a vingança se serve fria  mas este primarismo do “cá se fazem cá se pagam” leva-me direitinha à Água das Pedras.
Que o povo da Musgueira sofra pelo Benfica e queira matar o adversário, eu até posso tentar entender, mas os intelectuais, senhor, porque lhes dais tanta dor, porque se comportam assim?

PS: Eu não gosto do Paulo Portas. Nem um bocadinho só.

9 de junho de 2011

A ver




Para esquecer os dias pouco felizes, vale a pena ir ver a exposição de José Pedro Croft no Chiado 8  (até 8 de Julho).
Fotografia de Teresa Santos, retirada de Artecapital e que acompanha um artigo chato e dúbio de alguém que assina Bruno Leitão.

8 de junho de 2011

A PT é (quase) LIXO

Estamos de volta à estrumeira e tudo por aqui volta a ser lixo.
A notícia vem no DN e diz que as agências de notação financeira estão a cortar o rating da PT, deixando-a à beirinha de ser lixo.
Justificação: “uma possível deterioração do consumo dos consumidores no mercado doméstico", “pelas prováveis medidas de austeridade adicionais e reformas estruturais que Portugal terá de efetuar no curto e no médio prazos para ultrapassar os problemas económicos e orçamentais do país", “apesar de reconhecer as posições fortes de mercado da PT quer no fixo quer no móvel e o sucesso com a banda larga e estratégias de TV paga.”
 O lixo português é como a pescada – antes de ser já o era. E, além disso, o lixo é coisa que se  compra a muito bom preço.
Eu acho que lixo mesmo, mesmo, é a que os pariu.

7 de junho de 2011

O discurso do derrotado

José Sócrates perdeu, e muito bem, as eleições. Porém, o seu discurso de derrota foi, talvez, o melhor que alguma vez proferiu. Ao contrário do discurso de victória de Passos Coelho, maçador e sem chama, que provocou a debandada da família em poucos minutos, o de Sócrates, que todos queríamos ver arredado do poder, manteve-nos a todos sentadinhos e em silêncio.
O homem é um animal político (ainda que de má qualidade) e embora não o tenha dito claramente como o outro, a mensagem subliminar estava lá – ele vai andar por aí.
Já uma vez aqui o classifiquei como Sócrates, o mau aluno de Guterres e agora é só esperar para ver.
Mas, quanto ao discurso, foi “Porreiro, pá!”

4 de junho de 2011

Reflectindo

É dia de reflexão e eu estou a fazê-la esforçadamente.

Sei, porém, que, seja qual for o resultado das eleições de amanhã, na 2ª feira este blogue vai estar de luto (ou deverei dizer nojo?), pelo que, não comparecerá.

3 de junho de 2011

TAP

Desde que me conheço que me defino como uma pessoa de esquerda. Apesar de a esquerda ter perdido a bússola em 1989 e de ainda andar à procura do caminho, há alguns valores que considero inequivocamente como de esquerda – a defesa de quem trabalha e a garantia dos seus direitos, a defesa dos mais pobres, a justa distribuição da riqueza criada, a igualdade de oportunidades no ensino, na saúde e na justiça, para só referir alguns.
Considero o direito à greve como um direito inalienável e, apesar dos incómodos geralmente causados a quem não o merece, também acho que, se não causar incómodo, não serve para nada. Dentro, ainda, do pensamento de esquerda, acho que algumas empresas e setores, ainda que deficitários, não devem ser privatizados porque prestam um serviço público que cabe ao Estado assegurar. É para isso que pagamos impostos.
Tudo isto muda, para mim, quando se trata da TAP, empresa de que muito me orgulhei durante muitos anos. De há um tempo para cá, os sindicatos da empresa parecem ter entrado numa roda livre de pensamento alienado da realidade que vivemos.
Todos nós, durante anos, metemos muitos milhões dos nossos impostos na empresa para que ela sobrevivesse; conseguimo-lo, ao mesmo tempo que se conseguiu assegurar condições de trabalho e salário dignas e bastante acima da média nacional. Agora, confesso, estou farta.
A próxima greve anunciada vai estender-se por dez dias e causar um prejuízo de 50 milhões de euros (5 milhões por dia), vai afetar a vida de 350 000 passageiros e tudo isto porquê? Porque em cada voo vai ser retirado um tripulante de cabine.
No momento em que mais de 12% dos portugueses estão desempregados, muitíssimos trabalham sem receber, muitíssimos fazem horas extraordinárias à borla, quando todos sabemos que a “coisa tá preta” e que a vida vai ser cada vez mais difícil, o pessoal de voo da TAP entende que não pode prescindir dum tripulante por voo para fazer aquele extenuante trabalho de nos servir uma comidinha de plástico e ficar a ver se o velhote consegue meter a mala na bagageira para depois apenas verificar se está bem fechada.
Meus senhores, estou farta das vossas birras e caprichos.
Senhores do próximo governo, por favor privatizem a TAP o mais depressa possível.
Ele que façam greve com novo patrão que os ajudará a descer à terra. Por mim, não quero mais ser dona dessa empresa.

2 de junho de 2011

Malevolamente curiosa, fui ver.

Aqui na minha paróquia, quer dizer, o meu círculo eleitoral, a bem dizer nem se dá pela campanha eleitoral. Os partidos foram sensíveis aos apelos de poupança e quase não usaram publicidade no espaço público. Por mim, acho bem, poupa-se dinheiro e lixo que costuma ficar por aí a esvoaçar durante meses.
A poupança foi ainda mais longe e, posso garantir, na minha caixa de correio não entrou nem um papelucho partidário.
Todos sabemos que o sistema parlamentar em que vivemos, em que supostamente os deputados que elegemos nos representam, também é uma treta; eles representam apenas os seus partidos.
Como tenho parado pouco por aqui, e na presença de tanta falta de informação, resolvi procurar saber na internet quem são os candidatos que representam os partidos que me podem representar na democracia representativa. Oh! surpresa das surpresas – pelos partidos que elegem, são os mesmos de sempre, quanto aos que não elegem, não os conheço e acho que eles não se deram a conhecer.
Parece-me natural que assim seja; no país não mudou nada, o futuro apresenta-se risonho, e por isso…siga o baile.

Lá fora

Esta notícia do Público é tão perturbadora que fica impossível de comentar.



Hamza, de 13 anos, torturado e morto pelo regime, é o rosto da revolução Síria
O primeiro vídeo era tão impressionante que já foi retirado do YouTube. Mas as imagens do corpo de Hamza Ali al-Khateeb, de 13 anos, morto pela polícia síria, ainda se encontram na Internet, com as marcas da tortura a que foi sujeito bem visíveis. Rosto desfigurado, buracos de balas e de queimaduras de cigarros no peito, pescoço partido, maxilar desfeito e pénis cortado (esta parte do corpo foi disfarçada na versão ainda disponível do vídeo).

Toda a notícia aqui

1 de junho de 2011

Ódio no feminino

Há mulheres capazes de odiar tanto um homem que até aceitam casar com o que detestam só para ajudar a derrubar o que odeiam.
Assim é Manuela Ferreira Leite. “Casou” com Passos Coelho (que abomina) para ir a Barcelos dizer:

“Passos Coelho vai desculpar-me, mas eu não ando à procura de um outro primeiro-ministro, ando à procura que o engenheiro Sócrates saia de primeiro-ministro e ele só sairá de primeiro-ministro no dia em que o PSD tiver mais votos que o PS”.
“Nem tranquila fico se ele ficar na oposição” (aqui)

Eu acho que isto ainda vai fazer mal à saúde da senhora.  Além disso, um bocadinho mais de subtileza na expressão do ódio só lhe ficava bem e dizia melhor com os seus tailleurs.
Contudo, sei bem, o ódio no feminino é muito mais violento e indomável do que no masculino.