15 de abril de 2013

D. Manuela, faça um blogue


D. Manuela Ferreira Leite, faça um blogue.
A senhora precisa de o fazer rapidamente para ficar em pé de igualdade com o José Pacheco Pereira que há muito se assumiu como o verdadeiro líder da oposição através da Quadratura do Círculo e do seu blogue Abrupto.

Dispondo agora a senhora também de um espaço televisivo só seu em que, basicamente, “desfaz” o governo, os portugueses passaram a ter mais uma liderança bicéfala na oposição – já tínhamos o Bloco de Esquerda e agora temos a dupla Manuela/Pacheco.

Nos dias a seguir às vossas aparições, é ver a esquerda toda nas redes sociais a louvar-vos e a partilhar os vossos discursos metodicamente preparados para fazer golpes no tecido governamental onde, depois, vão deitando sal e vinagre semana a semana.

Não é que eu não goste de ver, porque gosto, mas não me parece que esse caminho nos sirva para alguma coisa, a nós, como colectivo.

Sempre achei que este governo haveria de cair “por dentro”, ou seja, apeado por Pachecos e Manuelas, no dia em que não suportassem mais ver desvirtuar a sacrossanta herança social-democrata de Sá Carneiro e antes que estivéssemos todos mortos, mas começo a duvidar de mim mesma.

Quando vos oiço, apesar de gostar, repito, sempre me lembro do velho sketch do Ricardo Araújo Pereira em que ele dizia com carinha de tolo:
- Eles falam, falam, falam, mas eu não os vejo a fazer nada…
Então, é isso!


12 de abril de 2013

Fartinha da excepção


Estou fartinha do “estado de excepção”.

Pensava eu que um estado desses tinha o nome com ele e seria excepcional, mas, no fim de contas, parece que pode ser uma moenga que serve para tudo e não tem prazo.

Há dois anos que me dizem que estamos “num estado de excepção”, mas todos os dias continuo a ouvir o mesmo dito com vozes e maneirismos de quem me está a avisar que vou cair no buraco se.

Outro dia até ouvi o José Gomes Ferreira da Sic, que, valha-nos a santa, também “tem dias”, afirmar que estamos num estado de excepção tão perigoso como aquele em que estávamos nas vésperas de pedir ajuda externa.

Ora bolas! Então de quem será a culpa? Ainda será nossa?

Mandaram-nos empobrecer, empobrecemos.
Mandaram-nos emigrar, emigrámos.
Mandaram-nos pagar mais impostos, pagámos.
Obedecemos sempre porque somos brandos e cordatos.
Então, por que estamos ainda num estado de excepção?

A resposta, todos a sabemos, mas lá que estes gajos, que saíram não se sabe de que esgoto, têm uma grande lata, lá isso têm.

Era tão bom que nós conseguíssemos inventar um estado de excepção novinho em folha, com p e tudo, em que os enfiássemos todos…
É que estão mesmo a pedi-lo – um estado de excepção.

 

11 de abril de 2013

Uma casa chamada Europa

 
 
Então, é assim que, hoje em dia, eu vejo a Europa e a sua construção.
 
Era uma casa muito engraçada
Não tinha tecto, não tinha nada
 
Ninguém podia entrar nela não
Porque na casa não tinha chão
 
Ninguém podia dormir na rede
Porque na casa não tinha parede
 
Ninguém podia fazer pipi
Porque penico não tinha ali
 
Mas era feita com muito esmero
Na rua dos bobos, número zero
 
A Casa
Vinicius de Moraes


10 de abril de 2013

Dois em um

Sentada na minha cadeira, e diante do meu computador, posso observar claramente a existência de dois países num só, um pouco como o “dois em um” do champô e amaciador.

As redes sociais são uma janela aberta para a sociedade, ou, pelo menos, para uma parte dela, que já não é tão pequena assim.

De um lado, o que vejo é a minha faixa etária, acompanhada por alguns mais novos, completamente obcecada com a situação política, económica e social do país.

Do outro lado vejo os mais novos, acompanhados por alguns mais velhos, que continuam entregues quase exclusivamente aos seus interesses de sempre, sejam a música, a arte, o futebol, a saúde, a moda, enfim, a normalidade.

Para estes últimos, parece que nada de novo está acontecendo por aqui e a vida continua no seu percurso doce e previsível.

Ao contrário, para o primeiro grupo, a vida transformou-se no ovo da serpente onde diariamente incubam novas ameaças, medos, inseguranças e pérfidos desígnios políticos.

A Pátria está com dupla personalidade.

9 de abril de 2013

Das bolachadas em falta


O discurso que Passos Coelho proferiu no domingo passado deixou-me, como é costume, muito mal disposta.

A questão nem é de conteúdo. Não gosto desse conteúdo, já se sabe, penso exactamento ao contrário do primeiro-ministro e do governo em geral mas, paciência, é a vida (democrática).

O que me deixa mesmo, mas mesmo muito desconfortável, é a forma e o tom.

Voltou a acontecer no discurso pós-decisão do Tribunal Constitucional − ai pensavam que se ficavam a rir, pois vão ver como vos vou castigar, seus palermas.

Desde que tomou posse, vai para dois anos, que Pedro Passos Coelho se nos dirige como se falasse com súbditos que não lhe merecem nenhum respeito, não exigem quaisquer cuidados de linguagem e devem ser permanentemente amedrontados.

Os dislates são incontáveis, mas, por mim, guardarei como afronta maior e imperdoável o ter mandado os meus filhos emigrar, coisa que uma mãe não poderá admitir a ninguém, muito menos a um imbecil qualquer que começou a trabalhar quase aos quarenta anos.

Como a inteligência também não fixou residência por ali, não consegue analisar-se nem extrair algum ensinamento das críticas que lhe têm sido feitas; por isso continua com o seu estilo de madrasta incompetente a distribuir bofetadas pelos enteados indesejáveis.

Sei que os políticos vão e vêm e os povos permanecem.

Não sei quanto tempo faltará para o Coelho ser obrigado a conjugar o verbo ir, mas duma coisa eu já tenho a certeza: daqui até lá não mudaremos, ou seja, ele vai continuar a achar que eu sou lixo e eu vou continuar a achar que ele é um rapazola grosseiro, desprezível, incompetente e a quem faltaram umas boas bolachadas na hora exacta.

8 de abril de 2013

A hora negra dum país



 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Sempre me pareceu que o sonho de Sá Carneiro – Um Governo, Uma Maioria, Um Presidente, seria o nosso pesadelo.
Confirma-se.

Imagem de Alex Gozblau retirada do Facebook


5 de abril de 2013

À janela


Foi ontem que o Relvas foi à sua vida e é hoje que o Tribunal Constitucional vai dar as respostas que esperamos há três meses, não é?

Bom, então vou falar de outra coisa.

O meu amigo Luís P. começou a escrever num novo blogue colectivo com um nome impronunciável – O Inaniloquente

Nos dois posts que escreveu até agora contou estórias da sua infância, e revelou-se um bom contador das mesmas. Diria que a sua narrativa nos agarra, mas não digo, porque suspeito que essa palavra está já proscrita.

Fiquei a pensar o que teria eu para contar da minha infância. Pouco.

Ao tempo, a infância duma menina em cidade de província tinha como espaço certo, seguro, e quase único, a casa e a sua janela.
Eu usava-a tanto, a janela, claro, que tinha calos nos cotovelos.
Era uma janela de peito, num rés-do-chão, e para poder “estar à janela” os meus pais tinham colocado a meia altura um estrado onde eu punha os pés.

Daí  observava épicas lutas de bandidos e cowboys, bem como jogos de hóquei em patins (com stiques e bola comprados na feira lá da terra mas, obviamente, sem patins). Eram os gloriosos tempos da equipa portuguesa de Moreira, Vaz Guedes, Adrião, Velasco e Bouçós, salvo erro.

Jogos e coboiadas eram protagonizados pelo bando de miúdos das redondezas onde plenamente se integrava o meu irmão que, esse sim, podia brincar na rua.

O incansável labor das formigas, que constantemente passavam carregadas a caminho do formigueiro por baixo da minha janela, também era por mim observado com a atenção da cientista que não fui, ou filósofa que não filosofou, durante horas, isto é, sempre que os xerifes iam dar tiros para a rua do lado.

Não vou aqui dizer que as formigas e os seus denodados esforços me ensinaram alguma coisa para a vida, porque isso seria uma rotunda mentira; eu era dona duma cabecinha infantil que não especulava sobre o bem e o mal, certo e o errado.

Essas aprendizagens, aliás, tinham um código simples – para bem e certo, silêncio, para o contrário, uma estalada. E a gente aprendia rapidinho, juro.
Também sei que já então não era uma santa, porque me lembro muito bem de cuspir repetidamente para ver se acertava nalguma formiga com que calhava a embirrar, sabe-se lá porquê.

Claro que conhecia as lojas das redondezas e os seus proprietários; a minha mãe, de vez em quando, mandava-me lá “fazer um mandado”, mas o meu reino era a janela. E não foram poucas as vezes em que, na correria para lá chegar, porque me parecia que algo de excitante se estava a passar na minha rua, esbarrei no dito estrado que tinha que subir e esfolei os joelhos ou as canelas.

Era normal que os rapazes aparecessem com mazelas/troféus após as suas brincadeiras vigorosas de pré-machos latinos, mas, como se vê, da vida à janela duma menina também podiam resultar sequelas que solicitavam o uso do garrido mercurocromo, e que depois competiam, cromaticamente, com os joelhos do rapaz da casa.

Tudo isto faz da minha infância um tempo infeliz? Nem por sombras. Era assim, e pronto. E cada um(a) sabia sempre encontrar no que “era”, o seu naco de felicidade.

PS: na foto ali de cima, sou mesmo eu à janela.
E bom fim de semana.


4 de abril de 2013

Sr. Crato/Sr. Relvas


Em verdade vos digo, meus amigos, que já nem os posso ver.
Estou farta deles todos, e cada vez mais me sinto à espera que caiam − da cadeira, da escada, ou mesmo da cama, tanto faz, o que é preciso é que caiam.

Exceptuando Paulo Macedo, não há ninguém naquele bando, que se intitula “governo de Portugal”, que me mereça um pingo de respeito, ou simpatia, ou consideração.

Quando o governo foi formado, alguns dos seus ministros deixavam-me uma pequena esperança de que talvez, pelo seu carácter ou competência profissional, pudessem melhorar um governo que já me parecia muito mau e iria aplicar políticas de desastre.

Afinal, também esses o integraram apenas porque o seu nível não destoava do conjunto.

Falo de, por exemplo, de Nuno Crato. Homem das matemáticas e crítico do sistema educativo, talvez aligeirasse a mediocridade governativa, pensei.

Ó mulher ingénua, ó grande lorpa!

Para além de outras suas malfeitorias que, por vezes, raiam a crueldade, acabámos de saber que tem na gaveta, há dois meses, o relatório sobre a licenciatura do Relvas, caso de que falou, e fala, o país inteiro.

Entre dar aos portugueses as respostas que eles esperam há demasiado tempo e a solidariedade com o trafulha do colega ministro, que escolhe o cretino do Crato?

A segunda hipótese, claro!
E porquê?
Porque, um com curso e outro sem ele, ambos são farinha do mesmo saco e merecem-se.
Eu é que, tenho a certeza, não os mereço a eles.

PS: a foto é pequenina porque, reafirmo, já nem os posso ver.


3 de abril de 2013

Modos de ajustar

Já faz um bom tempo que o Facebook me bombardeia, na coluna da direita, com publicidade a um produto para “Perder Barriga” que remete para o site barrigalinda.com.

O nome do site é uma beleza, e por ele dão a cara todas as “famosas” deste país, como, por exemplo, Alexandra Lencastre, Maya, Rita Pereira, Sónia Araújo, Fátima Lopes, Júlia Pinheiro, Luciana Abreu e mais uma infinidade delas cujo nome desconheço.

Todas afirmam: “eu perdi 12 kg em 30 dias” e, ainda por cima, anuncia-se que foi tudo conseguido sem dietas nem ginásio.

Caraças, que inveja. Poder ficar assim linda e maravilhosa sentada à mesa do restaurante!

Deixando de lado esta coincidência quase esotérica de todas estarem gordas e de todas terem perdido o mesmo peso no mesmo número de dias, a isto eu chamo o verdadeiro milagre do “ajustamento” sem dor.

No sec XIX, a elegância alcançava-se ajustando cinturas com espartilhos, que ora partiam as costelas, ora quase matavam por asfixia.

E é ainda esse o método que os troikos estão a usar para o nosso “ajustamentos” – falta de ar e costelas partidas.
Cambada de incompetentes.

Se não gostam da Alexandra Lencastre devem, ao menos, gostar da Soraia Chaves, que também por lá anda e é do melhorzinho que temos; tenho a certeza de que ela lhes poderia dar umas pistas de como nos obrigar a abater as gorduras do Estado, (coisa de que nunca mais ouvi falar mas que deve existir), com um sorriso nos lábios e uma apetitosa feijoada no bucho.

 

2 de abril de 2013

O mundo ao contrário


Faz hoje 30 anos, no Hospital de Évora, nasceram várias crianças. Não sei quantas foram, mas sei que começaram a nascer cedinho e continuaram pelo dia fora.

Uma dessas crianças era minha.

Estivemos lá cinco dias, como era prática nesse tempo, e, apesar de ser Páscoa, não nos faltou nada; nem médicos, nem cuidados de enfermagem, nem fraldas, nem medicamentos, nem vacinas, nem o teste do pezinho. À saída, também não pagámos nem um tostão.

Daí para a frente, o SNS sempre nos acolheu quando precisámos, a escola e universidade públicas também ensinaram a criança feita menino, depois adolescente e, finalmente, homem.

Há trinta anos éramos um país pobre e atrasado, o 25 de Abril estava a fazer apenas nove anos, o FMI andava por cá tal como agora anda a troika, mas as crianças continuavam a nascer.

E o Estado nunca deixou de cumprir as suas obrigações.

Saímos dessa crise e de outras; por várias vezes prosperámos.

A crise que agora vivemos, apesar de violenta, encontrou à chegada um país inegavelmente diferente do de 1983; um país que entretanto evoluiu, se modernizou e ficou, literalmente, mais rico.

Porém, é agora que nos vêm dizer que não há dinheiro para o SNS ou que é preciso pagar e degradar a escola pública.

E é também agora que as crianças não nascem.
É o fim da linha e dá vertigens − é o mundo ao contrário.


29 de março de 2013

“Páscoa Feliz”

“Páscoa Feliz” é o título esquecido de um também esquecido, mas muito recomendável, escritor português – José Rodrigues Miguéis (Lisboa 1901 – Nova Iorque 1980).

Li este romance há muitos, muitos anos, e ficou para sempre comigo.

Nada tendo que ver com a doçura duma amêndoa ou dum ovo de Páscoa, mas pertencendo ao grupo de coisas de que mais gosto na vida – livros, sirvo-me dele hoje, eu que não sou cristã, para aqui poder escrever PÁSCOA FELIZ.

28 de março de 2013

27 de março de 2013

Cara de pau e peito de ferro


Quando, em 2011, perdeu as eleições e saiu do país, José Sócrates deixou atrás de si um clima de ódio e crispação contra a sua pessoa como eu nunca tinha visto no Portugal democrático.

Dois anos não foram suficientes para atenuar esse clima; diria mesmo que, por cá, tudo continua em carne viva e que é muito cedo, mas Sócrates regressa.

Regressa, não para uma vida simples e normal de quem tem todo o direito de viver no seu país, mas para o espaço público, para nele opinar sobre a vida política portuguesa cujo palco central desocupou há tão pouco tempo.
É também um direito que lhe assiste.

Multiplicam-se os insultos e os palpites sobre os seus reais objectivos.
Pessoalmente estou apenas curiosa para perceber o que terá para nos dizer hoje este homem “com cara de pau e peito de ferro”, nas palavras de Pedro Santos Guerreiro.

As nuvens adensam-se sobre a nossa cabeça – Chipre, uma nave de loucos no comando da União Europeia, hegemonia da Alemanha e consequente ressentimento a alastrar pelo continente, o fim do silêncio ensimesmado do Tribunal Constitucional, as contas sempre a piorarem e, finalmente, o que parece uma ninharia mas não o é, este regresso de Sócrates.
 
Será esta a tempestade perfeita?
Mesdames et messieurs, faites vos jeux.


26 de março de 2013

Com ou sem toalha


Há uma senhora deputada do PSD que há muito tempo, e certamente por distracção, pôs uma toalha de mesa ao pescoço e nunca mais se lembrou de a tirar. Chama-se Teresa qualquer coisa, e o PSD chegou a uma tal lástima que até a deixa falar em seu nome.

Quando ela abre a boca, eu lago tudo e fico atenta porque, nos dias que correm, temos que aproveitar o que nos possa fazer rir de borla.

Na sua última tirada a senhora da toalha acusou “o secretário-geral do PS de colocar a ordem constitucional em causa com o "anúncio não consumado" de uma moção de censura.

Confesso que desta vez me deixou a pensar; habituada que estou a tentar decifrar os discursos redondos do Coelho, em que ele fala muito em “calibragem” e até em coisas moralmente elevadas como seja a “constância na persistência”, pensei, pensei, e acho que o que a Teresa nos quis dizer foi simplesmente isto:

- Exijo a imediata consumação do acto! Os preliminares são inconstitucionais.

Gosto de mulheres assim despachadas. Com ou sem toalha.

25 de março de 2013

Pobrezinha mas honrada?


A exposição da australiana Narelle Jubelin (Sydney, 1960), patente no Centro de Arte Moderna da Gulbenkian, podia perfeitamente ser uma exposição apresentada num qualquer Centro Cultural duma capital de distrito.

Saímos dela com uma sensação de quase nada, entre bordados, uns vídeos com as reflexões da artista sobre arquitetura e uma suposta tensão criada entre a obra e a arquitetura do CAM, como vi escrito algures mas não descortinei.

A exposição não envergonha, mas só isso. Não é o que precisamos nem o que a Gulbenkian nos pode dar neste momento de definhamento geral e cultural em particular.

Se é certo que nos últimos vinte anos a Fundação Gulbenkian deixou de ter, no panorama cultural português, a centralidade que teve desde o seu início, isso deve-se em grande medida à existência de novas centralidades que foram surgindo à medida que o país se desenvolvia e modernizava.

Com a profunda crise que nos tomou de assalto, o desaparecimento de organizações culturais menos sólidas e mais dependentes de apoios foi uma fatalidade.

Julgo que é em momentos destes que uma instituição sólida, e com meios próprios, como a Gulbenkian, tem um papel, e quase um dever patriótico, de remar contra a maré, contra o miserabilismo, contra as poupanças de chacha, contra o ideário do “pobrezinho mas honrado” , contra o imaginário tacanho do Portugal dos pequeninos.

Cabe-lhe fazer exactamente o contrário: voltar a ser o oásis e o motor da nossa vida cultural, com iniciativas que nos galvanizem e nos façam acreditar que há vida para além das crises. Não é o que se está a passar no CAM.
 
Culpa da curadora Isabel Carlos ou da tesouraria?
Não sei. Apenas sinto que a Gulbenkian ameaça ficar mais um cadáver entre tantos que a crise vai deixando pelo caminho.
Oxalá me engane.


23 de março de 2013

O retorno

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Eu estava a pensar escrever alguma coisinha sobre o regresso de Sócrates, mas depois li este artigo de Pedro Santos Guerreiro e desanimei logo. É que ele escreve exactamente e o que eu penso, e ainda por cima tão bem, que um amador mete logo a viola no saco.
É ler.
Começa assim:
O homem é um colosso. Só alguém tão carismático como José Sócrates poderia regressar menos de dois anos depois. Mas mesmo isso não bastaria se as actuais lideranças políticas fossem fortes. Não o são: no Rato e na Lapa só há pão-de-ló. Em Belém, chá.
 
A imagem é de Yronikamente

22 de março de 2013

Antes Fria


Eu acho que a “coisa” está a ficar, subitamente, muito preta.

É assim como uma enorme trovoada, daquelas que chegam quase sem aviso, enegrecem o céu e produzem enxurradas capazes duma enorme devastação.

O Eurogrupo, (que é como quem diz, Merkel, o seu ministro das finanças e alguns países/boys), resolveu tratar Chipre à estalada, mas com humilhação pública. Não era costume. O costume era fazer como tem sido feito connosco: na ferida vai-se deitando sal e vinagre, um pouco todos os dias. O doente geme, a ferida vai gangrenando, mas não há escândalos públicos, é tudo em família.

Desta vez, em relação a Chipre, devem ter fumado umas ganzas pela noite fora, decidiram resolver o assunto à chapada mas, no meio da trip esqueceram-se de duas coisas importantes.

A primeira é que os cipriotas podiam ter alguma coisa a dizer sobre a sua vida, mas isso já é habitual neles; mais grave é que se esqueceram que do outro lado da cerca está uma vizinha, chamada Rússia, que gosta de soltar os cães

Agora está tudo à nora.

O metro e meio de Medvedev já chama burros aos europeus nas bochechas do Barroso (felizmente este é homem de grande estômago e tudo engole desde que o deixem ficar onde está), o BCE avisa que ou cipriotas fazem como lhes mandam ou fecha a torneira na segunda-feira, os ministros das Finanças reúnem de urgência por teleconferência, e a democracia na Europa está cada vez mais semelhante a uma batata.

Parece que toda a gente está a medir forças com toda a gente. Voltaremos à Guerra Fria? Estou tentada a desejar que sim: é que temo que “isto” aqueça.
Antes fria. Chiça!


21 de março de 2013

E o título de mais criminoso vai para…


Passaram agora (20 de Março) dez anos sobre o início da guerra do Iraque.

Esta notícia diz-nos que pelo menos 112.000 civis morreram nos últimos 10 anos no Iraque após a invasão das forças internacionais lideradas pelos Estados Unidos que derrubaram Saddam Hussein.”

As ditas forças internacionais iam à procura das armas de destruição maciça e também apear Saddam, o criminoso governante do pedaço.

Das primeiras, nem o rasto, e quanto ao criminoso, mesmo sendo criminoso encartado, duvido que conseguisse matar 112.000 dos seus em dez anos.

Para quem vai então o título de mais criminoso?
Sem dúvidas para o trio Bush, Blair e Aznar, e mais o porteiro – Durão Barroso.

20 de março de 2013

No reino animal


No mundo dos negócios e da finança em Portugal há dois grupos dominantes de animais: o das araras emplumadas que não se calam, e o das doninhas malcheirosas escondidas nas moitas mas silenciosas.

No primeiro grupo inserem-se Fernando Ulrich e Belmiro de Azevedo; sempre que lhes põem um microfone à frente não resistem a produzir o discurso do palhaço rico com o qual as televisões providenciam tempo de antena de baixo custo, e as redes sociais conseguem uma semana de ofendida cavaqueira.

Acontece, porém, que são discursos sentidos, e as araras acreditam no que dizem.

No outro grupo, o das doninhas, estão os que sabem a música toda mas preferem o silêncio, continuando a fazer os seus negócios, claros ou escuros, sempre que possível longe das luzes da ribalta; são, por exemplo, Ricardo Salgado e Américo Amorim.

Quando araras e doninhas, com a cultura que lhes é própria, viram elite económica e financeira dum país, fácil se torna perceber por que nele a finança estoira e a economia não medra.

19 de março de 2013

Outro Francisco, o meu


Foste-te embora há tantos anos!
Partiste sem aviso e sem tempo para despedidas.

Foi como se, de repente, tirassem uma perna à nossa velha mesa, aquela onde nos sentávamos e em que, desde cedo, nos falaste de política − ditadura e democracia, justiça e injustiça, igualdade e desigualdade, e onde também contaste de livros, valores, heróis, e outras grandezas.

Com essa tua saída apressada perdeste uma infinidade de coisas boas, e também algumas más.
Diria que merecias tê-las visto todas, mas não me parece que merecimento deva entrar nesta equação.

Hoje, 19 de Março 2013, acredita que não tenho a menor vontade de te falar das coisas desagradáveis que por aqui vão acontecendo.
Não trago pedras no bolso, não as quero.

Dentro do envelope apenas meia dúzia de palavras descuidadas, próprias de vidas simples e tempos normais:

“Allô pai, bom dia!
Acho que o teu Benfica é bem capaz de ganhar o campeonato este ano.
Beijos.”

 

18 de março de 2013

Só não os demitimos se não quisermos


Desde sempre foi claro, mas a partir de sexta-feira passada tornou-se nítido, que este governo, por causa da troika, por causa de si próprio ou por causa de ambos, declarou guerra ao povo que governa.

Em menos de dois anos errou todas as previsões, esgotou a nossa paciência, a nossa capacidade de sofrimento e, com o desprezo que usa para nos falar, está em vias de esgotar também o que nos resta de dignidade.

Este governo não nos governa nem não nos defende.
Não se demitirá, mas pode ser demitido por nós.

A receita para a sua demissão não precisa ser inventada; precisa apenas da coragem de não sairmos da rua, como fizeram os búlgaros em Fevereiro ou os checoslovacos em 1989. Ou nós mesmos por Timor.

E a quem me vier acenar com o horror (de que não duvido) que será o dia seguinte, direi apenas que um país de cócoras é mais insuportável e tem menos futuro que um país falido.

Ninguém me “passou a bola” mas também eu digo: Demissão, já!

15 de março de 2013

Francisco


Justin Bieber e o Papa, qualquer Papa, são, no meu entender, marcas, e o comportamento dos fãs da marca não difere substancialmente, seja no Pavilhão Atlântico, seja na Praça de São Pedro.

Não sendo crente, aquilo lá em Roma não me diz grandemente respeito; daí a possibilidade de ter um olhar mais desprendido sobre a escolha do novo Papa e respectivos rituais.

O que eu vi aparecer à janela do Vaticano foi uma figura que me agradou.

Simples e sereno, vi ali um alentejano ou beirão, parco em palavras e gestos, certamente consciente do peso que vai começar a carregar, mas que não aparenta nem temor nem júbilo excessivos. Como se sentisse, com naturalidade, que “aquilo” lhe tinha “acontecido”, e pronto.

A esquerda das redes sociais tratou de vasculhar o seu passado, e de logo se mostrar desiludida por anteriores declarações contra o aborto, a eutanásia o casamento gay, ou o uso das drogas leves. Em suma, ficou expressa uma grande desilusão por a Igreja não eleger alguém com o programa fracturante do Bloco de Esquerda.

Se o ridículo matasse tinham morrido todos.

Quanto ao passado político de Bergoglio, só quem não viveu em ditadura pode acreditar que alguém, com um lugar cimeiro em qualquer hierarquia, pode nele permanecer, em regime ditatorial, sem meter esqueletos no armário.

Se o Papa Francisco conseguir sanear a Igreja, defender e confortar a parte mais frágil do seu rebanho, recusar tentações hegemónicas da fé católica sobre as outras e evitar meter o bedelho onde não é chamado, já terá cumprido bem o seu papel e a poderosa marca continuará a ter o sucesso de que goza há mais de 2000 anos.

14 de março de 2013

Gonçalo Barreiros no Chiado 8


Vraum é o nome da exposição de Gonçalo Barreiros (Lisboa,1978) que pode ser vista até 10 de Maio 2013 no Chiado 8.

 “ Não é simples classificar o trabalho que Gonçalo Barreiros tem vindo a desenvolver sensivelmente desde 2003, ano em que iniciou o seu percurso público. Talvez a característica mais determinante na sua prática seja a tendência para tornar o espaço expositivo como um palco e para fazer das suas peças agentes de acções perturbadoras, sarcásticas, cómicas ou exasperantes.”

Isto escreveu o curador Bruno Marchand no catálogo da exposição e, se ele o diz, quem sou eu para o desdizer.

Mas, por acaso, também acho que não é simples classificar este trabalho, como não é simples classificar nenhum trabalho no campo das artes visuais hoje em dia.

Porém, nesta exposição há frescura, surpresa e ironia.

Todo o trabalho exposto remete para nosso imaginário da Banda Desenhada, sugerindo-o apenas, quer com peças que evocam o gesto de arremessar, quer com a linha da paisagem, quer com os balões de fala e a prancha da Banda Desenhada absolutamente em branco.

Neste último caso, que corresponde à parte final da exposição, o artista parece querer perguntar-nos se somos dos que acreditamos que a arte deve comunicar alguma coisa, e deixa-nos entregues à nossa sorte perante molduras que “nada enquadram, nada devolvem, que não respondem”.

Depois de séculos a acreditar que sim, que a arte deve comunicar, não se muda facilmente.

Prova bem divertida disso mesmo foi ouvir o comentário da jovem mulher que estava perto de mim no dia da inauguração (1 de Março, véspera da manifestação). Dizia ela para os seus companheiros: ali naquela prancha, e com uma parede tão branquinha apetece-me mesmo escrever “que se lixe a troika”.

Estávamos, pois, e como também se diz no catálogo, num “território fértil para a subjetividade”, que é o território por excelência da Arte Contemporânea.
Vale a pena ir ver e “experienciar”. A entrada é livre.  

 

13 de março de 2013

Perguntar não ofende. E que ofendesse!


Hoje só me apetece fazer perguntas. 
Por exemplo:
 
- Quantas pauladas nos dará hoje o Gaspar?
- E a gente vai continuar a levar na cabeça?
- Isaltino Morais ainda apresentará o 45º recurso em tribunal?
-E o Macário Correia alguma vez sairá da Câmara?
- O Tribunal Constitucional responderá antes de irmos para a praia em Agosto?
- Cavaco estará incontinente e por isso não sai de casa?
- PCP e Bloco alguma vez mudarão os seus estereótipos reactivos ao PS?
- Haverá Papa ainda hoje? Estou que nem posso!
- Esta minha vontade de andar à chapada ainda durará muitos dias?



12 de março de 2013

Mel

Mel, o último romance de Ian McEwan, é uma história com muitas estórias, muita História e muitas possibilidades interpretativas. De que quis falar Ian McEwan?

De espiões e espionagem? Da Grã-Bretanha dos anos 1970? De amor, sexo, traição e ciúme? De literatura e escritores? De si mesmo?

É com todos esses temas que McEwan, como lhe é habitual, e com fleumática mestria, constrói uma narrativa que suga o leitor para dentro dela soltando-o apenas na última página.

Se Mel tem muito de autobiográfico como se afirma, não sei, mas creio que quase só pode interessar uma geração mais velha, que tenha referências suficientes para se lembrar do IRA Provisório, da semana de três dias, da crise do petróleo, das greves dos mineiros britânicos, dos terrores da guerra fria, da ressaca dos sixty e de todo um caldo de cultura que conduziu Margaret Thatcher ao poder e lá a manteve mais de dez anos. Em resumo, a geração a que pertence o autor.

Ironicamente, os medos vividos neste período, desconhecidos dos leitores mais jovens, são, em grande medida, os mesmos que nos assaltam hoje –instabilidade política com políticos fracos, crise social,  terrorismo ou o medo dele, extremismo político, greves.

Quem tenha memória não se arrependerá de ler este livro.
Tampouco se arrependerá quem, não a tendo, seja apenas amante de boa ficção.

Ed: Gradiva



11 de março de 2013

Nascido para ser servido


Há frases que me escandalizam de tal forma que nem num puto de 19 anos as tolero.

No Expresso de sábado passado, José Gusmão Rodrigues, estudante de filosofia com 19 anos de idade e alguns prémios ganhos na sua área, afirma peremptório:

Acho uma loucura pessoas talentosas ficarem em Portugal”.

Ora, tendo eu chegado à idade de começar a passar o testemunho, de ser rendida pelos mais novos, é com perplexidade que vejo alguns tão individualistas, arrogantes e armados em finos como o autor da tirada – putos que se colocam num pedestal onde lhes devem ser servidas todas as condições para desenvolverem os seus superiores talentos.

Diz a criaturinha: “Lá fora há melhores condições”. Sem dúvida, mas convinha que alguém lhe dissesse que foi cá dentro que criámos as condições, todos juntos, para ele ser o que é, e talvez fosse bom que, chegada a sua vez, ele ajudasse a criar aqui condições ainda melhores para os seus próprios descendentes.

Tendo-lhe sido perguntado se haverá “bilhete de volta” responde, muito dono do seu nariz: “Talvez regresse, talvez não. Depende de como estiver o país nessa altura.

Ou seja: Se os sem-talento fizerem alguma coisa desta piolheira, talvez ele, pessoa talentosa, volte. Caso contrário, nada feito.
Mais um que nasceu para ser servido pela pátria.