27 de novembro de 2014

A mim chateiam-me, pá!




Gosto da diversidade, mas detesto os que têm que ser sempre diferentes.

Gosto da crítica, mas detesto que ela me apareça (mal) embrulhada em pensamento filosófico.

Gosto de alguma ambição, mas detesto ambiciosos que gostam tanto de subir como de puxar tudo o resto para baixo.

Hoje, o “cante” alentejano foi classificado (e não “elevado”, como dizem os ignorantes) como património imaterial da humanidade.

Eu alegrei-me, sou alentejana, mas também me alegrei quando foi a vez do Douro, ou de Sintra, ou de Angra e, sobretudo, de Évora.

Neste tempo tão desclassificado que vivemos, como escreveu o Daniel Oliveira, “continua a ser a cultura, essa inutilidade, a dar-nos quase todas as boas noticias”.

Classificar (pela Unesco) ajuda a divulgar, preservar, manter vivo.

E não é que, no entrementes, encontrei um intelectual que tem dificuldade em compreender isto, e que se perturba tentando entender o entusiasmo geral?

Ora bolas pr’ó intelectual!

Todos estão no seu direito de ficarem indiferentes, ou até de estarem contra, mas vir, num dia como o de hoje, questionar o unanimismo da alegria do povoléu, é de quem precisa, à força toda, de se pôr em bicos de pés.

Dizem que o país precisa de todos. Talvez, mas a mim chateiam-me, pá!

26 de novembro de 2014

Declaração: sou de Évora e não acredito na Justiça portuguesa








 
 
 
 
 
 
 
 
 
Desde há muito, quaisquer duas linhas de escrita sobre José Sócrates começam obrigatoriamente por uma declaração: não gosto de José Sócrates!
Às vezes acrescenta-se-lhe outra: e nunca votei nele!

Não entendo, e não me lembro de o mesmo se passar com qualquer outro político em 40 anos de democracia.
Não conheço a pessoa em causa e não me sinto obrigada a declarações além da que dá título a este post.

Conheço apenas o político e, nessa condição, penso que José Sócrates tomou boas e más decisões, havendo uma grande diferença entre o seu primeiro e o seu segundo mandato.

Porém, também não me lembro de, em democracia, alguém sofrer tantos ataques políticos e pessoais, ou duma perseguição tão sistemática, tão bem orquestrada e tão bem dirigida.

Não foi cabala, não, foi política pura, dura e suja.

Claro que Sócrates cedo se pôs a jeito e tinha telhados de vidro.

O curso “mal” tirado e as “casas” assinadas na Beira são coisas próprias dum pequeno trafulha português; há-os aos montes, mas não se pode fazer parte da horda dos pequenos vigaristas se se quer ser primeiro-ministro.

Vaidoso, arrogante, teimoso e auto-suficiente, José Sócrates ousou bulir com os interesses instalados, a começar pelos juízes e magistrados; e isso paga-se muito caro por aqui.

Ouso dizer que, mais cedo ou mais tarde, pode pagar-se com a cadeia.

E ouso dizê-lo porque esse é o corolário lógico do sentimento que há muito me domina: enquanto quase todos se apressam a dizer que confiam na justiça, eu por acaso não confio. Mesmo nada!

Estou convencida de que, daqui por vários anos, quando tudo isto acabar, estarei como hoje − se me perguntarem se Sócrates é culpado ou inocente, embora eu possa ter alguma convicção minha, honestamente, só poderei responder: Não sei!

Porque não acredito na Justiça portuguesa até que ela me dê provas de que posso acreditar, deixando de ser essa coisa opaca, burocrática e discricionária que é hoje.

Aqui chegados, quero saudar todos os amigos de Sócrates, quer os que já o visitaram, quer os que o vierem a visitar na cadeia.

Sou alentejana, de Évora (olha a coincidência). No resto do país, não sei, mas lá no Alentejo diz-se que os verdadeiros amigos se conhecem na cadeia e no hospital. Touché.

E agora, venha o próximo escândalo. Depois de, em poucos meses, termos visto a queda do BES, a ruína da PT, o escândalo dos vistos gold, a prisão dum ex-primeiro-ministro, e de nos termos distraído dum Orçamento para 2015 que nos fará ainda mais pobres, começo a acreditar no Ulrich: o povo aguenta.

Abençoado povo que tudo aguenta.

 

 

24 de novembro de 2014

Kit de sobrevivência






















 

Na sua crónica no Ípsilon de 21 de Novembro, António Guerreiro escreve a dado passo:

“A crónica Vale a pena ler livros novos? (de José Pacheco Pereira no Público) colocava, sem desvios, a questão de saber se algum ganho pode advir de gastarmos tempo a ler as novidades (…), um tempo precioso que nos faz falta para lermos os valores seguros do património literário do passado. A questão é muito pertinente. Podemos tentar responder-lhe desta maneira: se queremos compreender a nossa época, temos de correr o risco de sermos intoxicados por ela.”

Eu continuo a querer compreender mas, por estes dias, estou tão intoxicada que, se não “abrir as portas e janelas” corro risco de me ficar na intoxicação.

Ontem resolvi, portanto, ir ao Centro de Arte Moderna da Gulbenkian ver a exposição “Animalia e Natureza na Colecção do CAM” . Encontrei arte contemporânea (sobretudo a partir da década de 1960) a que se adere facilmente, e um grande número de trabalhos que nos lavam os olhos e a alma; diante deles, diremos simplesmente –  bonito, muito bonito.
E isso não é coisa pouca.

Aproveito e informo, com agrado, que a exposição dura até Maio de 2015, e ao domingo de manhã não se paga.
É que os tempos de grande intoxicação parece que estão para durar, e todos precisaremos de um kit de sobrevivência.

Nota: na imagem, um pássaro bem vivaço de Ana Marchand que integra esta exposição.

17 de novembro de 2014

Empanturrados













 
 
 
Pedro Santos Guerreiro escreveu ontem à noite, no Expresso online, sobre a demissão do ministro Miguel Macedo.

Termina dizendo:

“O ministro é inocente e fez bem em demitir-se. Mas apenas abriu a porta da rua por onde mais algumas pessoas vão ter de passar. Andamos empanturrados com tantos escândalos. Mas não acostumados a eles.”

Eu, pelo contrário, acho que nos habituamos a tudo, e cada vez mais depressa.

Peter Kassig, de 26 anos e ex-soldado no Iraque, tinha-se convertido ao islamismo e fundou uma organização humanitária em 2012 - "Resposta e Assistência Especial de Emergência" para auxiliar as populações na guerra da Síria. Foi lá que foi sequestrado.

A notícia da sua decapitação pelo Estado Islâmico, na semana passada, parece já não ter incomodado ninguém por aqui, ou quase.

Empanturrados de informação e escândalos domésticos que estamos, a notícia da sua morte horrível já foi empurrada um pouco mais para baixo nas páginas dos jornais.

O Pedro Santos Guerreiro se calhar ainda não reparou que até à barbárie nos vamos acostumando.

Mais cabeça, menos cabeça…

11 de novembro de 2014

Ide, ide pentear macacos












 
 
 
 
Estou fartinha de pagar para entrar em Lisboa, venha eu de onde vier.
Taxas sobre o turismo não me chocam.
O turismo não tem só vantagens, e há que reparar os danos.
Por essa Europa fora tudo é pago – até o inevitável xixi.

Mas, quando penso que os nossos filhos emigrados, chegando à Portela, vão ter que pagar uma taxa turistica, bom, aí fico mesmo enxofrada, e só me apetece dizer ao Costa que vá pentear macacos.

É o que estou fazendo, como se pode ver!

Imagem: Rumble Fish, Francis Ford Coppola, 1983

31 de outubro de 2014

Feminista, eu?




 
- A revista do Expresso de sábado passado trazia um artigo sobre a prática de excisão clitoriana, em meninas recém-nascidas, na Guiné-Bissau.
Como será viver uma vida inteira tendo sofrido excisão clitoriana?

 
- Em Portugal, este ano, aproximamo-nos das 30 mulheres mortas pelos maridos.
Como será viver no medo de ser agredida ou morta pelo homem com quem planeámos partilhar a vida?

 
- Tendo lido recentemente “O Livreiro de Cabul” é frequente lembrar-me de Leila, a jovem mulher que pensou em ser professora mas que, durante muito tempo, não se pôde candidatar porque não conseguia encontrar quem se dispusesse a acompanhá-la até ao ministério. Sozinha, segundo a lei islâmica no Afeganistão, não poderia caminhar pelas ruas da cidade.
Como será sentirmo-nos uma “coisa”?

 
- Há no Facebook uma página denominada My Stealthy Freedom que vou seguindo. Nela, mulheres iranianas denunciam a sua falta de liberdade, o medo de serem atacadas com ácido, por exemplo, e colocam também as suas fotos, sem lenço ou hijab, em furtivos momentos de liberdade carregados de contestação.
 
Como será viver com medo de ser atacada com ácido?
Como será nunca sentir o sol no corpo, a água do mar nos pés, o vento nos cabelos?

Parece que ser feminista está fora de moda, não é?
Então, pronto, não se fala mais nisso!

 

 

27 de outubro de 2014

Dormir com Poe












 
 
 
 
 
“Certa noite, ao voltar a casa, muito embriagado, de uma de minhas andanças pela cidade, tive a impressão de que o gato evitava a minha presença. Apanhei-o, e ele, assustado ante a minha violência, me feriu a mão, levemente, com os dentes. Uma fúria demoníaca apoderou-se, instantaneamente, de mim. Já não sabia mais o que estava fazendo. Dir-se-ia que, súbito, minha alma abandonara o corpo, e uma perversidade mais do que diabólica, causada pela genebra, fez vibrar todas as fibras de meu ser. Tirei do bolso um canivete, abri-o, agarrei o pobre animal pela garganta e, friamente, arranquei de sua órbita um dos olhos!”

Este é um pequeno excerto do conto “O Gato Preto” de Edgar Allan Poe que retirei daqui.

Lembrei-me dele, e doutros, quando no sábado li, na Revista do Expresso, uma entrevista com a filha mais velha de Paula Rego, Caroline Willing, em que ela afirma:

“A minha mãe lia-me livros de Edgar Allan Poe como histórias para dormir”.

Foi assim que, no meio duma inofensiva leitura de fim-de-semana, e subitamente, um frémito de horror e pasmo me percorreu o ser.

E interroguei-me:
 
Alguma vez te lembraste, Maria de Jesus, de pôr os putos a dormir com as histórias do velho Poe?
Nunca, nunquinha!
Porcaria de mãe que me saíste!

20 de outubro de 2014

Saída da caixa


















 
De vez em quando, é isto: saltas da caixa dos monos que nunca me decido a deitar fora.

Vagueias por aí uns dias e, no fim, antes de voltares para a caixa, a pergunta é sempre a mesma: o que me faltou conhecer de ti? A resposta também não varia: praticamente, tudo.

Foi uma amizade improvável, a nossa, tinha tudo para não chegar a ser e, contudo, durou anos.

Neles, estudámos juntas incontáveis horas, apresentámo-nos poemas de juventude, trocámos confidências de amores falhados e sucedidos, música, livros, frustrações e sucessos da juventude, sonhos e projectos, às vezes as lágrimas, às vezes as gargalhadas.

As tuas gargalhadas, tal como as recordo, nunca eram de pura alegria nem tinham a frescura límpida dos vinte anos. Vinham quase sempre acompanhadas de uma espécie de nostalgia, ou sarcasmo, ou dum olhar ora húmido ora embaraçado, como se tivesses nascido velha e carregasses o conhecimento duma longa vida já passada, porém tristonha ou mal cumprida.

Eras católica.
Se me perguntassem, diria que eras uma católica progressista quando eu era comunista. A política e a religião, porém, nunca nos aproximaram ou afastaram. Como se entre nós houvesse um acordo tácito, ou a percepção clara de que a discussão seria inútil, pois nem eu te faria comunista nem tu me farias católica. Éramos ambas “do contra”. E isso bastava.

A estranheza (mistério?) que, tantos anos depois, reconheço em ti, adensa-se quando lembro que falavas dum grande amor que, contudo, nunca conheci, nem tampouco vi – João, de sua graça.

Insinuavas clandestinidade no namoro, coisa de famílias, dizias, (Montecchios e Capuletos?) mas nunca houve o pormenor dum encontro, do onde ou do como, nunca um dia de inescapável felicidade no teu corpo, nunca a confidência de um beijo que, de tão urgente, se expôs a céu aberto ou, ao contrário, se consumou sôfrego e encapuçado num qualquer esconso da cidade triste.

Tinhas também, e até as nomeavas, muitas outras amigas, que eu também nunca conheci; em compensação, conheci quase toda a tua família.

Atacada de muitos achaques físicos, reais ou imaginários, ias ao médico num só ano mais vezes do que eu em vinte, mas, no meio de tudo, sempre te reconheci a força dos resistentes e uma disponibilidade amável para “o outro”.

Um dia falhaste um encontro comigo.
Estava tudo combinado, mas tu não vieste, e, curiosamente, nesse dia ninguém sabia de ti, ou sequer tinha conhecimento de que havíamos marcado um encontro. Nunca te justificaste.

Nasceu, nesse mesmo dia, o silêncio amargo e ressentido que viveu no meio de nós por mais de uma década.

Voltei a procurar-te, ainda no tempo em que se escreviam cartas e se colavam selos. E encontrei-te.
Também por carta, a minha amiga católica e “certinha” mentiu muito sobre números de telefone alterados e outras burocracias, mas parecia animada – sim, sim, sim, eu teria que ir à tua casa nova, dizias, onde contarias as muitas novidades que tinhas para contar.
Estavas feliz por eu te ter procurado, ó caramba, se estavas!

Quando chegou a hora de marcar o encontro… não mais te encontrei.
Nesse dia, não sei se alguém saberia onde estavas. Sei que não perguntei.
E agora, volta para dentro da caixa, anda!

 

10 de outubro de 2014

“A Instrumentalina”


 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
No último post, talvez eu tenha sido injusta com a escritora Lídia Jorge, talvez tenha sido injusta com os afectos dos outros, talvez tenha sido genericamente injusta.
Talvez tenha sido sombria também.

No Facebook, um amigo disse simplesmente – “eu gosto da Lídia” e, num comentário seguinte falou, breve mas sentidamente, dum conto dela chamado “A Instrumentalina”.

Fui ler. Encontrei-o por aí, em pdf, e gostei muito. Pensei, inclusive, que talvez a Lídia Jorge se devesse dedicar mais a essa difícil arte de escrever contos.

Deixo aqui “A Instrumentalina” como o encontrei, com um convite à leitura no fim-de-semana, e um agradecimento a quem mo apresentou e a quem o escreveu.

Com ele, saí um pouco da sombra de ontem para a luz de hoje.
E isso vale bem mais que uma moeda de ouro (quem ler perceberá).

A Instrumentalina

8 de outubro de 2014

Entre Céline e Lídia















L. F. Céline (1894-1961) era um grandíssimo filho da mãe mas também era um enorme escritor.
Numa entrevista à Paris Review, em 1960, ele disse:

“Chegará o tempo de toda a gente fazer uma cura de modéstia. Na literatura como em tudo o resto. Não há nada a fazer senão uma tarefa e calarmo-nos. É tudo. O público presta atenção ou não, lê ou não, e isso é com ele. O autor só tem de desaparecer”.

Pois bem, enganou-se: a cura de modéstia nunca chegou, os autores não “desaparecem” finda a tarefa e, pior ainda, não se calam.

Por um lado, o marketing obriga-os hoje a uma papagaiada nunca antes vista para promoverem o livro que está saindo para as livrarias; por outro, entre amores e ódios, grupos, grupinhos e muito despeito, e salvo honrosas excepções, apaparicam-se mutuamente enquanto falam, falam, falam.

A Escritaria de Penafiel, não sei porquê, parece-me um desses lugares de mimo e palração; este ano a homenageada foi Lídia Jorge.

Digo não sei porquê porque, na verdade, nunca fui à Escritaria, há muito que deixei de ler a Lídia Jorge e se fui alguma vez a Penafiel não me lembro. Contudo, vi alguns elucidativos vídeos, entre os quais um em que se descerrava uma frase da autora homenageada, escrita no chão.

Dizia assim:
“Não há livros de instruções para salvar a vida. Só a literatura se aproxima desse imenso livro”.

Ó meus amigos, sei que tenho mau feitio mas, dado o calibre do dito e do pensado, acho que posso contrapor em modo sportinguista: só eles sabem por que não ficam em casa.
E, já agora, por que não se calam.

6 de outubro de 2014

Ser escritor nos anos 1950


 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
“Gastar sete lápis número dois é um bom dia de trabalho”

Ernest Hemingway, em entrevista a George Plimpton, 1958.
Paris Review

Ed. Tinta da China, 2009
Selecção e Tradução de Carlos Vaz Marques

1 de outubro de 2014

Pergunta que talvez ofenda


 
Pode a esperança até ser pouca desde logo, mas PCP e BE não perdem tempo a arrasar-nos o ânimo.
Espertos e vivos como ninguém, madrugam a enxergar a direitice dos outros.

Reparemos no que dizem:
João Semedo disse no Fórum Socialismo 2014 que o resultado das primárias não é mais que a "alternância" e que "nasça o que nascer" do último domingo "há uma coisa que não vai nascer, é uma alternativa de esquerda". O PCP vê "a quase total identidade de propostas e projecto dos dois candidatos com o percurso e alinhamento do PS ao longo dos anos com a política de direita". (no i)

Trocado por miúdos, confirma-se:
PC e Bloco não quererão governar NUNCA! Sozinhos não conseguem, com o PS Deus os livre!

Estão no seu direito mas, então, quererão fazer a revolução?
Também não − três anos terríveis passados e nem uma intifadazinha os vi começar.

Reflexão cada vez mais frequente com pergunta que talvez ofenda:
Para que nos vão servindo estes partidos, a nós, gente de esquerda?

26 de setembro de 2014

Que ganhe António Costa











Ontem, na Antena 1, Maria Flor Pedroso cruzou duas entrevistas que fez, separadamente, a António Costa e a António José Seguro.

A última pergunta, igual para os dois, foi:

- António Costa, qual é a maior qualidade de António José Seguro?
- A persistência.

- E o maior defeito?
- Não vou responder, não quero ir por aí (não foi isto na forma, mas foi-o no conteúdo).

- António José Seguro, qual é a maior qualidade de António Costa?
- É um político hábil.

- E o maior defeito?
- É um político hábil.

Não se pode dizer que estas respostas sejam todo um programa, mas dizem muito sobre a índole e personalidade destes dois homens que se propõem governar-nos.

No domingo, socialistas e simpatizantes socialistas vão escolher um deles para seu candidato a primeiro-ministro.

Se estou muito cansada dum inaudito primeiro-ministro que, a juntar a tudo o que já fez e disse, descobre-se agora, é tão sério como os menos sérios que o antecederam, não estou menos cansada dum líder da oposição que se revelou pouco inteligente mas muito esperto, corporizando o pior da nossa mesquinha pequenez “tuga”.

Em política o carácter conta. E alguma inteligência é fundamental.
Que ganhe António Costa.

 

24 de setembro de 2014

10 LIVROS QUE NÂO MUDARAM EM NADA A MINHA VIDA















 
 
 
O Facebook tem a mania das “correntes”. Agora voltou a dos dez livros que mudaram a minha vida. Uma amiga, porém, fez uma coisa bem mais interessante – A LISTA DOS 10 LIVROS QUE NÂO MUDARAM EM NADA A MINHA VIDA.

Desafiei-me.

Alguns deles serão sempre maus, mas outros devem ser bons, já que tanta gente “encartada” acha que o são.

Talvez os tenha começado num momento que requeria outra coisa, talvez não tenham conseguido agarrar-me logo de início, talvez eu já (estupidamente) tivesse contra eles um parti-pris desconhecido, talvez as minhas celulazinhas cinzentas não cheguem para tanto, talvez.

As razões do desamor, em alguns casos, continuam vagas mas, pensando melhor, se calhar, e enquanto os lia, eles até mudaram a minha vida, sim senhor, mas para pior.

E os nomeados são:

O Código de Da Vinci − Dan Brown (um mero policial de segunda).

Sei Lá − Margarida Rebelo Pinto (sei lá por que é que se lê aquilo).

As Valquírias − Paulo Coelho (oferecido num Natal, foi o único que entrou cá em casa, e chegou).

O Segredo (não cheguei a meio, mas gostei que a senhora tivesse enriquecido).

Viver para contá-la − Gabriel Garcia Marquez (não estava interessada na vida dele; só pode ter sido isso).

Uma Viagem à Índia − Gonçalo M. Tavares (deu-lhe para ser pretensioso).

Adoecer − Hélia Correia (uma doença, essa de teimar em ler aquilo).

Os Detetives Selvagens − Roberto Bolaño (escrita ao quilómetro; pena que não lhe tivessem tirado o livro das mãos às 250 páginas, ou 300, vá. Agora 500…).

Austerlitz − W. G. Sebald (não faz o meu género; gosto mais de dicionários).

Hotel − Paulo Varela Gomes (li até ao fim, e fiquei a achar que o Paulo tem montes de amigos aqui no pedaço; ainda bem para ele).

Como meter uma citação no texto fica sempre bem, lá vai para terminar:
"Não sabemos se a literatura está em crise, mas a crise do juízo literário salta à vista."

Disse-o o escritor Enrique Vila-Matas e, se calhar, é carapuça para eu enfiar, até porque deixei de fora, por falta de espaço, quase todo o Lobo Antunes e também … Enrique Vila-Matas!!!
Que atrevimento!

 

 

22 de setembro de 2014

Governam a cores











 
 
 
 
 
 
 
Vem aí a fiscalidade verde, coisa que vi anunciada por aquele ministro que tem cara de Zezito, o melhor aluno da 4ª classe no ano 1960, mas que, realmente, se chama Jorge Moreira da Silva.

Diz que é para nos aliviar no IRS, e eu gosto de ouvir, porque acho mais graça a ministros que mentem do que aos que pedem desculpa (deve ser uma questão de hábito.)

Embalados pela frescura do verde, imagino que outros ministros em breve se lembrem duma fiscalidade, por exemplo, vermelha, a recair sobre as melancias, os tomates, os coletes dos campinos, o pai Natal, o PCP e os frutos do bosque.

Até ao fim do ano, para alívio das nossas carteiras e compostura do défice, talvez também ainda surja a fiscalidade preta, incidindo esta sobre funerais, miúdos góticos, chocolate negro, noites de lua nova e outros negrumes.

E p’ró ano logo se vê, que a paleta de cores deles é infinita.
Que sorte a nossa, esta de termos ministros que governam a cores.

Imagem: pormenor de peça da exposição Turvo, de Rui Horta Pereira
Galeria 3+1, Arte Contemporânea
Rua António Maria Cardoso, 31, Lisboa
A ver. Até 9 de Novembro.

 

17 de setembro de 2014

Cotação zero







 

 
 
 
 
 
 
 
 
A minha amiga Maria, chamemos-lhe assim, é professora.

Não tem filho nem filha, nem pai nem mãe, nem marido nem mulher, nem está numa relação como agora sói dizer-se; só tem um milhão de amigos e amigas.

Gosta de ser professora mas também gosta de fazer muitas outras coisas na vida. À beira dos 50, o senhor ministro propôs-lhe a rescisão do contrato com uma indemnização. Propôs a ela e a todos os outros, visto que, dizia, queria desfazer-se 6000 professores.

Maria arrebitou a orelha e achou que talvez devesse aproveitar o momento para partir para outras “aventuras”. Pensou, pensou muito, conversou com boa parte do tal milhão de amigos. Desses, para aí 99% disseram que ela estava louca porque, se era certo que não tinha ninguém a seu cargo, também era certíssimo que não tinha rede que a amparasse na queda, no caso de tal desastre se verificar.
Uma ínfima parte dos restantes amigos disseram que ela devia fazer o que lhe apetecia fazer, e que estar vivo passa também por correr riscos.

A decisão não era nada fácil.
Maria voltou a pensar, virou as ideias do avesso e tornou a pô-las do direito, chorou, teve palpitações, “rasgou as vestes” da alma, não dormiu, fez contas, disse que sim e logo que não, sofreu que nem uma danada e poucos dias antes de fazer os 50 anos, em Fevereiro de 2014, e porque isso lhe era mais vantajoso em termos de indemnização, assinou o papel dizendo ao senhor ministro que sim senhora, lhe ia desamparar a tenda como ele tanto queria.

Ela sabia que teria de ficar na escola até final do ano letivo, e isso era normal e sensato.

Chegado o fim do mês de Julho, e o início das férias, Maria despediu-se dos colegas. Todas as angústias voltaram por esses dias e houve muito choro, ranho, beijos, abraços, flores, discursos, despedidas sentidas e mensagens de afecto desejando sucesso na vida futura, porque, não esqueçamos, Maria tem um milhão de amigos e amigas também entre os colegas.

Voltou, portanto, a ser emocionalmente muito duro mas “estava feito”.

Maria não partiu de férias numa viagem para longínquas paragens como de costume, antes começou a saga de contar os tostões. E também de esperar um email do patrão ou um telefonema da escola a dizer que tudo estava pronto para a assinatura de rescisão de contrato.

Mulher de boa índole e carácter sem o mais pequeno aleijão, esperava confiante. Esperava e ainda espera, só que agora já dentro da escola, a dar aulas às seis turmas que lhe foram atribuídas.

As nossas vidas têm vindo a desvalorizar-se há muito tempo mas, com o actual governo, o seu valor caiu tão baixo que deixaram, sequer, de ter cotação.

Secretamente, ainda não perdi a esperança de um dia os ver pagar por isso.

15 de setembro de 2014

Agressão aos sentidos


















 
 
 
 
 
 
 
Num dos debates de Antónios, ouvi o Costa António dizer que a reforma das freguesias só correu bem em Lisboa, e porque a Câmara resolveu nela participar.

Territorialmente, pode até ter corrido bem, não sei, mas na reorganização dos serviços, como a limpeza do espaço público atribuída às freguesias, está à vista que correu pessimamente.

Num momento em que Lisboa pode receber, num só dia, sete barcos de cruzeiro, e ganhar um milhão de euros pelos serviços fornecidos aos “marujos”, nem assim alguém se mobiliza para lhe providenciar cuidados básicos de higiene.

Pelas ruas e avenidas voam sacos de plásticos e folhas de jornal, rolam garrafas de cerveja e latas de refrigerante; as folhas das árvores tapam as entradas de esgotos, os caixotes do lixo transbordam e tresandam, e as poias dos cães, a cada passo, são um insulto ao munícipe pagador de taxas.

Há meses que não vejo um varredor.

A incúria, a desmoralização, a badalhoquice, a falta de brio, o desmazelo, o feio, invadem-nos e agridem-nos os sentidos.

Correu mal, senhor Presidente, é óbvio que correu mal. 
Só não percebo por que são sempre precisos anos para corrigir os erros.


Imagem daqui

11 de setembro de 2014

Visto da janela




Não é só o António Costa que está sempre à janela.
Eu também gasto muito tempo a flanar de janela em janela, mas no meu caso é mais entre as janelas do Windows.
 
Logo de manhã abri várias destas, onde fiquei a saber coisas assim:
- em Londres há 900 cientistas de topo que são portugueses.
- por cá, e só até Agosto deste ano, nasceram menos 957 crianças que no mesmo período do ano passado.
 
Pensei −que sorte a nossa, hein?! − aqui nunca cheira a cocó na fralda, com a graça de Deus, e pode-se estar à janela; já em Londres, com todos aqueles cientistas portugueses em idade fértil a fazerem bebés, deve ser cá um pivete…
 
Outras janelas abertas relembraram-me outros 11 de Setembro, em Nova Iorque ou Santiago do Chile; não gosto de lembrar nenhum.
 
Por isso, vou para dentro. Mas vou tranquila, porque sei que o António Costa fica de atalaia. Se o Tozé Seguro o disse…
 
 
Nota: imagem roubada no Facebook à Gina Faria que, por sua vez, a roubou não sei a quem.
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