31 de julho de 2013

Se não fosse a minha mãe…



























Minha mãe tem 86 anos.

Lendo a Expresso de sábado passado, a certa altura mostra-me esta imagem e pergunta: não achas que esta fotografia é um sinal de esperança para nós?
Perante a minha estupefação, desatou a rir na minha cara.

Por mim, nem tinha percebido que era a imagem do “novo ciclo”.
Quando for grande quero ser assim viva como ela.

30 de julho de 2013

Onde pára o Álvaro?

Já não há ironia nesta pergunta; agora é literal – onde pára Álvaro Santos Pereira?

Saiu de ministro, não foi à tomada de posse da remodelação e nunca mais ouvimos falar dele.

Das duas, uma: ou já voltou para Vancouver ou, mais mês menos mês teremos notícias sobre a empresa que o acolheu e que lugar nela ocupa.

A opção que tiver tomado vai dar-nos a conhecer, finalmente, o verdadeiro Álvaro.

O Raposinho tem andado ocupadíssimo, em papel e online, a tecer a defesa do Álvaro, o que logo me dá ideias… como direi? Melhor não dizer!

Argumenta ele, o Henrique, entre outras coisas muito perspicazes e inteligentes, que a snobeira lisboeta achou que o Álvaro era um totó por pedir que o chamassem pelo nome próprio, como no Canadá.

Ora, a snobeira existe, de facto, mas não neste caso, e até eu, que sou alentejana, acho o Álvaro um verdadeiro totó, porque só um verdadeiro totó aceita ser ministro dum país que desconhece.

A mania dos doutores que existe por aqui, sim senhor, tem razões históricas e não desaparecerá só porque os Álvaros e Raposinhos acham que deve desaparecer; nem desaparecerá se se fizerem mil decretos. Desaparecerá a prazo, quando as razões que a criaram deixarem de existir.

Que o Henrique não perceba isto, não é grave, porque o rapaz se limita a escrever umas coisas que acha engraçadas e que, às vezes, também me fazem rir, mas para ser ministro, valha-nos a santa, não dá.

O Álvaro é um totó, sim, mas onde andará?

É esta a questão que agora me inquieta; temo que se deixe enrolar por alguma onda grande no mar português.
Queira Deus que não, e que a gente tenha notícias dele bem depressa. Já tenho saudades. É que, na verdade, era um ministro totó, mas era fofinho – ria-se das piadas dos deputados e até chegou a anunciar-nos o fim da crise. Só não disse quando. E continuamos sem saber.

29 de julho de 2013

Também posso brincar, Cristina?

É maravilhoso ver como os ricos deste país estão felizes e descontraídos.

Deve dizer-se, em abono da verdade, que os nossos ricos nunca foram exibicionistas, sempre deixaram isso para os novos-ricos.

Para eles, a riqueza é sua por desígnio divino, é coisa que não se discute nem há necessidade de exibir.

Há muitos, muitos anos, quase no tempo em que os animais falavam, apanharam uns sustos, mas tudo isso passou, graças a Deus, e a vida voltou a ser como sempre foi e deve ser – segura, mansa e discreta.

E assim continua, podendo até dizer-se que está cada vez mais segura.

Poucas vezes os nossos ricos aparecem, mas esta semana deram um ar de sua graça na Revista do Expresso.

Instalados nas suas casas muito simples da Comporta, o que lhes apraz dizer é que estar lá, nessas casinhas, com a natureza em estado puro, “é como brincar aos pobrezinhos”, nas palavras de Cristina Espírito Santo, que Deus a proteja.

Não é uma ternura? Eu adorei.

Nota: a imagem aqui reproduzida acompanha a reportagem do Expresso e mostra as delícias dum champanhe no areal. Também posso brincar, Cristina?

28 de julho de 2013

Onde estão?

















Onde estão as mulheres que, em 2011, lado a lado com os homens, ocuparam a Praça Tahrir e derrubaram Mubarak?
Olho a televisão e não vejo nenhuma.

26 de julho de 2013

Mentirosos e trambiqueiros

Esta noite sonhei que se tinha provado, sem margem para dúvidas, que a ministra Maria Luís Albuquerque NÃO tinha mentido ao parlamento.

Isto chegou a um ponto em que começo a achar que Sócrates e os seus rapazes não passavam de uma boys band ainda em estágio para a marginalidade.

Já não aguento mais mentirosos e trambiqueiros.
Quero muito, muito, muito, que a ministra, apesar do ar de sonsa, não seja mentirosa.

É que temo pela minha saúde mental.

25 de julho de 2013

Roupa velha


Um governo pouco novo tomou posse.
 
Antes, passando os olhos por jornais, blogues e televisões, constatei o afã de cada comentador/escrevinhador em encontrar o “vencedor” da crise política.
 
E houve para todos os gostos – para uns foi Passos, para outros Portas, para outros Cavaco (???), para outros Seguro. Só me falta mesmo encontrar alguém que, depois de aprofundada análise, prove que o grande vencedor foi Jerónimo de Sousa.
 
Enquanto eles esgrimiam argumentos para encontrar o vencedor, nós demonstrávamos total indiferença pelo tema, tal como agora com a constituição do remodelado governo.
 
Sabemos que o que nos servem não passa de roupa velha, aquele colestrólico prato que se faz para aproveitar restos de frango assado, mas quem se vai importar com isso?
 
Temos prática, muita prática, de comer e calar.  
Acho que até gostamos.

24 de julho de 2013

Eça Agora

O jornal Expresso continua apostado em meter-me em casa coisas que eu não quero, talvez por não saber que a minha aposta, ao contrário, passou a ser a de tirar de casa tudo o que não quero, viver apenas com as coisas de que gosto e um mínimo de coisas neutras mas imprescindíveis
 
Com a iniciativa Eça Agora, que se integra na comemoração dos seus 40 anos, decidiu o jornal oferecer-me, primeiro, Os Mais, de Eça de Queirós, em três fascículos, e depois o prolongamento do mesmo até 1973 pela lente da imaginação de alguns autores-amigos do Expresso; por fim, no lugar do posfácio, vai oferecer-me uma “Introdução à Leitura d’Os Maias”.
 
Eu não entendo o raciocínio por trás desta iniciativa, porque me parece que a grande massa de leitores do Expresso, por gosto ou por obrigação escolar, já leu Os Maias, estará agora numa altura da vida em que pouco lhe interessa a tal Introdução à Leitura e talvez não tenha grande paciência para os chamados Novos Maias, congeminados pelos tais escritores-amigos que aceitam encomendas (ah, a vida está difícil, todos sabemos).
 
Nada disto me chatearia se eu fosse capaz de pôr livros no lixo.
Não sou, mas finalmente decidi o que fazer com as prendinhas do Expresso – serão largadas num banco da praça, da avenida, ou do jardim.
 
Quem sabe, não nasce assim um BookCrossing cá no meu sítio.
Isso sim, teria a sua piada, e redimiria um pouco o jornal que, para ajudar os seus, me enche de papel que não quero e não pedi.
 
Nota: a imagem usada é parte da imagem promocional da iniciativa do Expresso


23 de julho de 2013

O Inverno da vida, e tal

Nos últimos anos, comparo os livros de Paul Auster com os filmes de Woody Allen – geralmente são uma grande pepineira; só de vez em quando sai um bom.

Acabei de ler “Diário de Inverno” de Paul Auster. Pepineira.

Auster escreveu este livro (porque precisa de pagar as contas, digo eu), porque está quase a completar 65 anos de vida, o que corresponde à idade oficial de entrada no Inverno da vida, diz ele.

A mania de comparar a vida com a sucessão das estações do ano é coisa que me chateia, e, de tão repetida, só denota uma grande falta de imaginação.

Eu, por exemplo, nasci no verão; na minha perspectiva, quando estiver com os pés p’rá cova deve ser Primavera, porque já passei pelo Verão, pelo Outono e pelo Inverno.

Este pessoal que insiste no Inverno da vida e tal, só pensa no esqueleto, parecendo esquecer-se de que sempre nos sentimos mais novos do que o que realmente somos.

Qual Inverno, qual carapuça!
Custa dar uma chance ao que a gente sente deixando as artroses fora da literatura?

Por mim, insisto em dizer que já não falta muito para entrar na Primavera da minha vida, com direito a descontos na CP e na Gulbenkian.

Cúmulo da sorte, não vou sozinha.
Por isso parabéns, hoje, para quem comigo faz, todos os dias, este caminho rumo à Primavera.
 
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22 de julho de 2013

Compromisso, salvação, emergência.


























Esta gentinha está quase a conseguir que eu passe a detestar algumas palavras −  compromisso, salvação, emergência, por exemplo.

E, no entanto, até há pouco, achava-as todas belas, adequadas, e ricas de sentido.

Compromisso tem uma sonoridade doce e amável.

Salvação sempre me apareceu associada a algo de grandioso, próximo, até, do heroísmo.

Emergência logo me punha um pinonim na cabeça, uma luzinha a andar à roda e a certeza de não haver tempo a perder - um, dois, três, ou vive ou morre.

O espaço mediático, hoje em dia, está permanentemente ocupado por seres, talvez vivos, quem sabe, que chamam Compromisso ao pensamento único, Salvação à morte certa sem honra nem glória, e admitem que uma Emergência pode ser por tempo indeterminado (por aqui, já vai em dois anos).

São eles que, às vezes, já me fazem detestar aquilo de que tanto gosto – palavras.

Nota: ontem houve palhaços, mas foi mais uma actuação sem brilho.
 
Imagem daqui

 

19 de julho de 2013

Eu desvinculo-me de; os outros, não sei


Já várias vezes escrevi neste blogue sobre o Acordo Ortográfico de 1990.
 
Em finais de 2011 fiz um honesto esforço para o começar a usar, em meados de 2012 desisti, e ganhei a firme convicção de que não voltaria a usá-lo.
O AO é, manifestamente, um acordo político que em nada ajuda à unificação do português; isto na eventualidade, não provada, de ele necessitar de ser unificado.
 
Circularam na internet várias petições contra a sua adopção, e assinei algumas.
Esta chega agora à Assembleia da República para ser discutida; justamente uma que não assinei.
 
O motivo por que não assinei prende-se com a estranheza que o título me provocou − Petição pela desvinculação de Portugal ao 'Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de 1990' (AO90).
Sempre achei este português muito macarrónico mas, se era escrito por tanta gente com pedigree linguístico, o problema devia ser meu; passei, pois, adiante.
Ontem, quando me deparei com a notícia do Público e, de novo, com o nome da petição, voltei a sentir o incómodo já anteriormente experimentado.
 
Para mim, sempre foi simples: vinculo-me a e desvinculo-me de, mas desta vez resolvi tirar o assunto a limpo. Peguei no dicionário de verbos da Porto Editora, nada de especial, portanto, e na parte das regências encontrei na página 707
 - desvincular (-se) – de: desvinculou-se do contrato; desvinculou-se da sociedade.
Na página 756:
- vincular-se – a: vinculou-se ao clube desportivo; por: vinculou-se por escrito.
 
Assim, a petição, no meu entender, devia ter como título:
Petição pela desvinculação de Portugal do 'Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de 1990' (AO90), ou Petição pela não vinculação de Portugal ao 'Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de 1990' (AO90).
 
Se eu estiver enganada, corrijam-me, por favor.
É que não tenho pedigree linguístico, mas sempre me desvinculei de.
Agradecida.

18 de julho de 2013

O Papa Francisco, as Indulgências, o Twitter e o Purgatório











 
 
 
 
 
 
Quando vi o Papa Francisco, logo depois de eleito, aparecer à janela do Vaticano, gostei dele. Pareceu-me um homem simples.
 
Com estas parvoíces começa antes a parecer-me um simplório.
Se assim for, a quem serve um Papa simplório?

17 de julho de 2013

Que pena















 
Que pena tenho de só as ilhas serem selvagens.

O que o homem estava mesmo a precisar era duns milhares de selvagens à porta.

12 de julho de 2013

Assunção Esteves

Quando em 2011 foi eleita Presidente da AR, com apoio mais ou menos generalizado dos deputados, não me pronunciei neste blogue, o que alguns, que me sabem apoiante das causas das mulheres, estranharam.

Assunção Esteves é “afilhada” de Cavaco Silva. Foi pela mão dele que entrou no Tribunal Constitucional e a ele deve a sua carreira política.

Como credenciais, não me pareceram as melhores do mundo e achei por bem esperar para ver.
Esteves e Silva, verifica-se, são criaturas que podiam ocupar os seus lugares em tempos mornos de salamaleques, mas mostram à saciedade que não servem para os  dias de tempestade que vivemos.

Quando, há umas semanas, um grupo de reformados se manifestou na AR, em silêncio e de costas para o hemiciclo, Assunção Esteves, reformada aos 42 anos com 7000 euros de reforma, ralhou-lhes e disse-lhes que respeitassem o Parlamento.
Ou seja, por aqui não se passa nada, e aquilo, quanto a ela, foi só um grupo de velhos malcriados que resolveu chatear a senhora Presidente que estava lá no alto posta em sossego.

Ontem houve novos protestos na Assembleia e Assunção Esteves disse:

“Nós não fomos eleitos para termos medo, para ser coagidos e provavelmente também não fomos eleitos para não ser respeitados".

Pois não. Os senhores deputados foram eleitos para representar os portugueses e devem ser respeitados, mas é preciso que mereçam o nosso respeito o que, manifestamente, vai sendo cada vez mais difícil de acontecer com a classe política. Toda.

Ainda bem que não deitei foguetes antes da festa, ou seja, quando foi eleita − a protegida de Cavaco Silva parece-me pouco preparada para dirigir a casa da democracia em tempos de cólera.
Além disso, também nunca gostei de sonsas.




11 de julho de 2013

O oráculo de Belém

O oráculo de Belém falou ontem à tardinha.

Como é normal, logo apareceram pitonisas aos montes para decifrar a arenga, mas parece que cada uma ouviu sua coisa e, por isso, não se entenderam muito bem.

Não sou menos que as outras pitonisas e também tenho cá a minha interpretação “da coisa”, ou seja, do oráculo.

Este enumerou os malefícios das eleições se elas não forem como ele as quer.

Exige um governo de operários do PSD, CDS, e PS que executem o seu próprio programa, mas só até ao momento que acha adequado, ou seja, daqui por um ano.

O oráculo reconhece três partidos e ignora todos os outros.

O oráculo tratou o governo pior que cachorro tinhoso.

O oráculo continua a ter a língua grande e eu continuo a achar que lha devíamos cortar.

O oráculo não percebeu que o tempo dele passou porque, no tempo certo, não se deu ao respeito.

Quando estudei sobre o oráculo de Delfos, e era uma catraia, aquilo meteu-me medo. A caverna, a fenda, as fumarolas, as pitonisas que podiam morrer.

Este oráculo que nos calhou em sorte, o de Belém, é uma caricatura risível do que me metia medo.

Mas eu acho que sei o que ele quer: vai querer dizer-nos que teve que escolher alguém de fora para governar porque os partidos não se entenderam como o país precisa.

Veremos que tal me saio como pitonisa.

10 de julho de 2013

Portas e o camone

A mim, o calor, que costuma dilatar os corpos, mirra-me o raciocínio.
Assim tenho andado, mas ontem despertei um pouco.
 
Foi Paulo Portas, ouvido na rádio que, com aquela voz bem colocada e articulada, me informou que o Ministro dos Negócios Estrangeiros dos EUA tinha sido chamado por si, Ministro dos Negócios Estrangeiros de Portugal, para lhe dizer que Portugal não gosta nadinha que os Estados Unidos andem a espiar a Europa.
 
Imagino Paulo Portas de olhos bem abertos, voz grossa e dedo em riste para o Ministro dos Negócios Estrangeiros dos EUA.
 
Ah, ah, o camone deve ter saído das Necessidades borradinho de medo.


5 de julho de 2013

E é isso


Numa dependência dum banco português, bem no centro duma capital da Europa, as coisas não estão a correr bem – demasiados clientes para tão poucos funcionários activos.
 
A certa altura, um cliente no princípio da meia-idade insurge-se com a intolerável situação; fala sozinho, primeiro, e pergunta, depois, se os outros não estão de acordo. Uma mulher que já passou a meia-idade e que deve até ter passado uma ou mais fronteiras no tempo em que as havia mas que ainda tem agarrada à pele a rudeza do granito beirão responde a meia-voz:
 
- A gente está de acordo, mas toda a gente tem medo e cala-se.
Intrometida que sou, mesmo sentindo que não sou dali, pergunto:
- Medo de quê?
 
A resposta vem sob a forma dum breve encolher de ombros de resignação martirizada.
 
Quarenta anos de democracia, um quarto de século de integração europeia e meio século de emigração não foram suficientes para desvanecer em nós este sentimento que nos domina, tolhe e diminui – o medo.
 
Medo de tudo e de nada, com e sem razão, medo de existir, afinal, como dizia o filósofo.
 
É em grande medida graças a ele, a este medo atávico, que ainda hoje os políticos nos podem tourear e bandarilhar, com a certeza de que ficaremos sentados no sofá e diante da televisão, vendo-os entrar e sair, pôr e dispor como lhes apraz, decidindo das suas vidas mas sempre indiferentes à nossa.
 
Haja o que houver, não nos moveremos, porque “a gente tem medo e cala-se”.

27 de junho de 2013

Tudo como dantes

Quase, quase chegada em cima da greve geral, uma rápida vista de olhos pelos blogues e pelo facebook confirmam – os que sempre foram a favor da greve, continuam a favor da greve, os que sempre foram contra, continuam contra.

Verifico, porém, que, de entre estes últimos, alguns se afadigam a encontrar argumentos, às vezes até históricos, para dar bordoada na greve.

Outros mostram-se pragmáticos, e ficam-se pela esmerada demonstração da inutilidade da mesma.

Julgam também, e talvez tomando-se como padrão, que ninguém já tem convicções e falam em mainstream político, bem-pensantes e mais o blá blá do costume.
Esta última gentinha é a mesma que prega também a inutilidade das manifestações e ataca os sindicatos.

Sendo todas elas formas de protesto pacíficas e organizadas, não chego a perceber se as criaturas são a favor das bombas e revoluções ou se apenas de deleitam com a placidez dos rebanhos a caminho do abate.

Ou talvez se achem membros do restrito grupo dos que têm o terceiro olho e vêem mais do que os outros todos, embora não partilhem as suas visões com a arraia miúda.

Está-me a parecer que são seres ainda vivos, mas já incapazes, sequer, dum grito de alma que diga : BASTA.
E também não o toleram nos outros.

Eu, putativa bem-pensante, politicamente correta e de esquerda, ainda cheguei a tempo de dizer: SOU PELA GREVE, GRAÇAS A DEUS.

20 de junho de 2013

País da treta


Quando vemos imagens da resistência e da luta dos gregos contra o encerramento da sua rádio e televisão;

Quando vemos os turcos a levar com os canhões de água e gás pimenta em cima durante tantos dias, ou agora, de pé e em silêncio na praça Taksim;

Quando vemos milhares e milhares de brasileiros a levar pancada da polícia por se manifestarem contra os gastos com as “festas” vindouras enquanto lhes falta saúde, educação e transportes, por exemplo;

Quando vemos essas e outras lutas dos povos do mundo, percebemos que somos um povo e um país da treta.
Eu digo treta, mas toda a gente percebe que eu queria dizer outra coisa.

O país da treta é aquele em que até uma simples manifestação atrapalha o trânsito, e não vale a pena.
Onde uma greve é só um prejuízo para os pobres, e não vale a pena.
Onde interromper ou não deixar falar um ministro é um atentado à democracia e liberdade de expressão, e não vale a pena.

Não vale a pena, parece, é viver aqui, neste país da treta.
Não fora dar-se o caso de eu ainda acreditar que “tudo vale a pena se a alma não é pequena”.
E, nesta convicção, vou. Por uns dias. Matar saudades. Conto voltar.


19 de junho de 2013

As meninas de Odivelas

Nos meus tempos de menina e moça vivia-se por aqui, como é sabido, uma ditadura e uma guerra colonial.

Sobre “a família militar”, os do “contra” construíam uma caricatura a traço muito grosso, ou uma narrativa, se se preferir, em que, enquanto o pai oficial cumpria comissões de serviço nas colónias (eles diziam ultramar), a mãe integrava o Movimento Nacional Feminino, a filha frequentava o Instituto de Odivelas e o filho engravidava a criada.

O Instituto de Odivelas é uma vetusta instituição nacional – escola feminina para filhas das tropas, criada em 1900.
Às alunas, mais conhecidas por meninas de Odivelas, ensinava-se a fechar as pernas, isto é, a sentarem-se com decoro, bem como variadas artes do lar, conversa de sala, e ainda as matérias do curso dos liceus.

Mais tarde, era frequente as meninas acasalarem com o Colégio Militar.

Algumas meninas de Odivelas, chegadas cá fora, parecia que nem tinham ido à escola, ou que tinham tido amnésia, o que deu origem, naquele tempo, a pelo menos uma cançoneta muito, muito brejeira.
Coisas da luta de classes.

Este instituto, que de progressista nada tinha, sobreviveu ao 25 de Abril, ao PREC, ao apagamento do papel dos militares na sociedade portuguesa, em suma, sobreviveu a tudo, menos ao governo mais direitista que tivemos em democracia.

Vai morrer às mãos de Passos, Aguiar Branco e Crato.
Quem diria?