Há dias em que olho para Ulrich e vejo uma picareta falante.
Noutros vejo um boneco de mola saído da caixa com a incumbência própria do bobo
da corte – bandear-se e fazer rir os cortesãos, seus donos. Tomou o gosto à
coisa, que é como quem diz, a fazer palhaçadas e a dizer alarvidades, e já nem quer
outra vida.
Está em todas, nem deve ter tempo para ir ao banco.
E como ele está contente consigo próprio, e como ele gosta
de dizer tudo o que lhe vem àquela cabeça pouco esperta, e como ele sente a
impunidade, e como ele gosta de achincalhar, e como ele é provocador.
“Aguenta, aguenta”, diz o boçal Ulrich sobre a nossa vida, e
eu pensei logo em ir fechar a continha lá na loja onde ele trabalha mas,
confesso, fiquei um bocado aflita.
Pensei, vou-me embora para onde?
Do BCP já fugi há anos, da Caixa Geral de Depósitos nunca me
aproximei porque não gosto de marajás com um séquito de burocratas, ao Salgado
não comprava nem uma vespa em segunda mão e, no que toca aos poucos restantes,
era só mudar as moscas.
Resolvi ficar, até porque, hoje, abrir uma conta num banco é
muito mais complicado, moroso e cansativo do que despedir 600 pessoas ou
declarar falência.
Outra razão para não me dar a esse incómodo é que me parece
que, qualquer dia, qualquer coisa, que não só as montras gregas, se vai partir
bem perto do palerma do Ulrich, e isso vai assustá-lo tanto que até talvez
fique gago.
Nesse dia, os donos do palhaço mandam-no bugiar e contratam
outro.
Sempre mudam as moscas.