15 de outubro de 2013

Vivam as pessoas


 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Sempre houve pessoas que se acharam inteligentes e originais por afirmarem que preferem os animais às pessoas.
Lá por as frases do tipo “quanto mais conheço as pessoas mais gosto do meu cachorro” terem origem em pessoas inteligentes, isso não melhora automaticamente o Q.I. dos génios do copy/paste ideológico.
 
Porém, desde que mergulhámos nesta enorme crise, e com a ajuda potenciadora das redes sociais, coisas do género leem-se a cada passo.
A mim, fazem-me logo tocar campainhas no cérebro.
 
Entendo, sempre entendi, os animais como nossos companheiros de “casa”; com eles partilhamos um planeta que a todos acolhe e, provavelmente, uns não teriam sentido sem os outros, ou tudo isto seria muito diferente.
 
É também certo que muitos animais de estimação conseguem elevadíssimos, e até comovedores, graus de relacionamento afectivo com os seus donos.
 
Dou, também, de barato, que muitos deles poderão mesmo ser o mais fiel amigo, mas nunca o melhor amigo.
Esse, o melhor amigo, é o que dá resposta, contrapõe, mima, mas também se enfurece e diz o que não queremos ouvir.
O animal de estimação lambe-nos as mãos, mesmo que sujas; não critica, não incita, não vocifera, não nos abraça.
 
Dizer que se prefere os animais às pessoas parece-me desde logo uma insuportável arrogância moral, um inequívoco sinal do sentimento de superioridade em relação aos outros.
Desconfio disso, desconfio sempre.
 
De uma coisa tenho a certeza − nunca deixarei de preferir os humanos, mesmo que alguns, de entre eles, sejam verdadeiras bestas.
 
 

 


 

14 de outubro de 2013

Hannah














 
 
 
 
 
 
 
Muito se tem escrito ultimamente sobre Hannah Arendt e o filme, agora em exibição, que leva o seu nome.

Nesses escritos, encontra-se quem saiba muito sobre ela, sobre a sua obra e até sobre cinema. Encontra-se também quem escreva apoiado na mais profunda ignorância.

Deixando a sua filosofia para quem a estuda, confesso que há anos que a mulher/filósofa Hannah Arendt desperta também o meu interesse e curiosidade.

A paixão de Hannah Arendt pelo seu professor Martin Heidegger sempre se me afigurou tão poderosa quanto pouco entendível (como, afinal, é próprio de tantas paixões poderosas).

No livro “Hannah Arendt e Martin Heidegger” de Elzbieta Ettinger, encontrei  uma mulher inteligente, jovem judia na Alemanha de Hitler, que se apaixona pelo professor e  homem brilhante, mas de personalidade pouco recomendável, que se serviu dela inúmeras vezes.

Hannah não via isso, ou recusava ver. A sua paixão durou toda a vida.

No filme, numa brevíssima cena, o assunto é aflorado, e Hannah responde, secamente, enquanto puxa mais uma fumaça do seu eterno cigarro, qualquer coisa do tipo – “há coisas maiores que qualquer pessoa”.

Gostei do filme. Gostei da clareza com que o pensamento de Hannah é apresentado, e de confirmar, mais uma vez, que, por mais claro que seja o que dizemos, cada um dos nossos receptores entende sempre, e apenas, aquilo que está, à partida, predisposto para entender.

No filme, apenas me desagradou a cor e o ambiente sempre soturno; há nele momentos verdadeiramente luminosos que mereciam ser fisicamente acompanhados duma outra luz.
Mas isso, são opções estéticas.

Sobre o livro:
Hannah Arendt e Martin Heidegger
Elzbieta Ettinger
Ed: Relógio d’Água, 2009

 

 

 

11 de outubro de 2013

Hoje não há cá modéstias












 

 
 
Hoje não há cá modéstias. E eu não sou coruja.
Mas os meus filhos SÃO DOIS ASES!
Parabéns aos dois.
Era só isso.

9 de outubro de 2013

Esgotou logo, certo?



 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
O último livro de poesia de Herberto Helder, “Servidões”, foi posto à venda, salvo erro, no princípio de Junho deste ano.

Sabendo-se que só existiria uma edição, o livro esgotou enquanto o diabo esfrega um olho.

Eu ainda li uma ou outra crítica levezinha a esta ideia da edição única, imposta pelo autor, mas logo se levantaram vozes muito autorizadas a mandar calar o pessoal, quem são vocês, seus badamecos, para discutir as decisões do poeta (há por aqui uns quantos intocáveis; poucos, mas há.)

Ora, ontem dei com este anúncio no site do Pó dos Livros Vintage.
Lá está “Servidões” à venda. Assim:

estado de conservação: 5/5
presença no mercado: esgotado / raro / muito raro
pvp: 130.00 €
(sujeito a confirmação de stock)

Vejamos então: não só o livrinho está barato como tem que se confirmar o stock. Mas não tinha esgotado?
Na verdade, não há aqui nada de novo − Único, sempre foi uma palavra mágica para o mercado, um “abre-te Sésamo” para os bons negócios.

Por isso, é aproveitar, minha gente, que o livro está ao preço da chuva, e os portes são grátis para Portugal.

8 de outubro de 2013

Um dia a casa vem abaixo













 
Esta é uma imagem do exterior dum banco brasileiro em Manaus.

Os sem-abrigo costumavam abrigar-se ali do sol e da chuva. O banco acabou com o “abuso” (se é sem-abrigo não se pode abrigar, ora essa) mandando colocar pedras pontiagudas no passeio.












 
 
Aqui nas minhas bandas, como se pode ver nesta outra imagem, o banco espanhol BBVA resolveu o problema de “ocupação” das montras com outro material – aço inoxidável.

Um dia “a casa vem a baixo”.
Quando?

7 de outubro de 2013

Viram?


 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Este 5 de Outubro não teve grande piada. A bandeira, desta vez, subiu direitinha, os políticos chegaram em passo apressado e meteram-se logo lá para dentro, alérgicos que estão ao ar da rua.
Só os meus amigos da Facebook encheram os seus murais de VIVA A REPÚBLICA e eu gostei.

Mas houve outro momento que eu vi na televisão, várias vezes, e de que gostei muito.

Graças à norma, estabelecida pelas “tias”, de dar um só beijinho no acto de cumprimentar, foi lindo de ver, na hora da despedida, a Assunção Esteves deixar Passos Coelho de cabecinha à banda, oferendo-lhe a outra face, enquanto ela desandava ligeira, graciosa, fermosa e segura.

Ah, ah! Sempre ouvi dizer, lá no Alentejo, que quem se mete com rapazes amanhece mijado.
Pode-se deduzir que quem se mete com “tias” …

Ora, não vou acabar a frase. Cada um que escolha.
Desde que introduza uma palavra acabada em “ado” ou “ido”, deve estar bem, com certeza.
E completa o meu raciocínio.

4 de outubro de 2013

Um bom naco de prosa para o fim-de-semana


“É tarde, é muito tarde, cada vez mais tarde, já nem sei se dia se noite, perco-me de mim, as horas não me repelem nem me arrastam para o sono. Acho que faz dias que não acordo. Só sonho. A carta que não te escrevo é um sonho. Um sonho de saudade e de paciência, a mesma que me ensinaste. Quando só resta esperar só resta esperar. Eu espero. Não sei se são estas palavras que te não escrevo que trazem o meu resto de vida arrastado ou o contrário. Tanto faz. Atordoado, eu permaneço aceso. Tens de ser tu a soprar a vela, como sempre fazias ao deitar.
Sopra-me.”

A ler, a ler, a ler.
(e sem acordo ortográfico)

“Que Importa a Fúria do Mar”
Ana Margarida de Carvalho
Ed. Teorema

 

3 de outubro de 2013

Ainda mexe


 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Já quase me tinha esquecido dele.

Ontem, porém, soube que na Suécia tomou conhecimento, por interposto sueco, da fusão da Portugal Telecom com a brasileira OI.
Não sabia, o gajo, ninguém lhe disse.

Hoje, logo de manhã, ouvi-o dizer na rádio que “se os nossos credores dizem que a nossa dívida é sustentável nós, os devedores, só diremos o contrário se formos masoquistas”.
Perceberam esta última? Eu não.

É por estas e por muitas outras que o povo o despreza, o Governo o usa, e o dinheiro o ignora.
Tem o fim que merece. Sem dignidade.

2 de outubro de 2013

Não foi a obra que me encantou, foi a informação


 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 


Três dias depois das eleições autárquicas já toda a gente debitou opinião e fez contas.

Eu só venho aqui hoje dar os parabéns ao António Costa pela sua victória com números que já nem se usam.

Mas ele merece, trabalhou que nem um danado nesta campanha.

Suponho que se terá lembrado do que aconteceu ao João Soares há não sei quantos anos, quando prescindiu de fazer campanha porque “já tinha ganho”, e, afinal, não tinha.

Costa é criatura que aprende depressa e bem, e eu imagino que os homens do presidente bateram ruas, ruelas, praças e pracinha para ver o que podiam fazer para animar os munícipes.

Também fui agraciada com um pouco do bodo, mas o que mais gostei, afinal, foi duma informação.

No inverno 2012/2013, chuvoso como poucos, um troço duma rua perto de mim abateu.

Puseram-se umas grades e umas fitas e assim ficámos durante o resto do Inverno, a Primavera e todo o Verão, até agora ao Outono, uma semana antes das eleições. Estão a pensar que o buraco foi arranjado? Nada disso. Nas grades foi colocada a informação: Recuperação de Via a Cargo do Metropolitano de Lisboa.

Pronto, aí todos percebemos que a Câmara não tem nada que ver com aquela desgraceira, embora eu, como outros certamente, a tenha andado a culpar injustamente durante meses.

A culpa toda, todinha, afinal é do Metro.

Da informação, eu gostei, mas a grande chatice é que o Metropolitano de Lisboa não vai a votos. E já chove.

27 de setembro de 2013

Vamos a votos
















 
 
O meu post de ontem, em que lamentava a “machesa” duma comissão de honra para as autárquicas, não era contra ninguém nem a favor de alguém. Era apenas uma constatação de quão pouco a política partidária mudou em Portugal em 40 anos.

Digo-o sem medo de errar. Também eu já fui berloque há muitos, muitos anos.

Quanto ao post anterior (Nem lá vou) apesar do tom ligeiro, exprime o que realmente penso. Quem não sabe o que quer, quem não tem ideia do que será melhor para si e para a sua comunidade, quem assume com gosto e até com ares de superioridade que não percebe nada de política (mas acrescenta logo de seguida que” são todos iguais”) não deve, no meu entender, votar.

O direito de voto, tão duramente conquistado, é demasiado exigente, e por isso não se coaduna com a postura blasé que tantos portugueses exibem, e acham verdadeiramente cool, quando se fala de política.

Se não sabe nem quer saber, então não vá, não estrague. Deixe isso para quem tem convicções (de direita ou esquerda, tanto faz) e quer, de facto, decidir sobre o futuro, convicto de que está a fazer a melhor escolha (às vezes apenas a menos má).

Voto em Évora, onde a mudança me parece inadiável, e domingo lá vou. Vou, vamos de novo a votos. Para mim, é sempre dia de festa.
À noite, bem…”à noite logo se vê”, como diria o Mário Zambujal.

 
Nota: A imagem lá de cima é uma homenagem ao último a entrar nesta campanha. Quanto ao que ele diz, não posso estar mais de acordo.

26 de setembro de 2013

Mulher berloque


 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

O que estás aí a fazer Fernanda Lapa?
Estarás a fazer o papel do berloque que dá uma nota de garridice à toilette demasiado macha e cinzenta?

Esse é um “papel” já muito visto – o de berloque − que a Actriz não devia aceitar representar e contra o qual a Mulher se devia insurgir.
Acho eu.

Uma comissão de honra paritária é coisa que nem lhes ocorre.
E era tão fácil.
Canseira! Esta, a de ver sempre a mesma “peça”.

24 de setembro de 2013

Mãezinha (deles)













 
A esperada victória da Merkel não me aborreceu nem um bocadinho.
E por várias razões:

- Pertenço ao grupo dos que, cada vez mais, acreditam que só devemos contar connosco.
- Nos últimos anos comecei a detestar surpresas.
- Se há coisa que temos aprendido todos os dias é que pior é sempre possível.

Assim, a única coisa que me inquietou foi perceber que aqueles nossos parentes europeus chamam Mutti (mãezinha) à Merkel.

O vizinho (deles) Freud bem podia vir cá a baixo que há ali muito trabalhinho para fazer.
Mas depois nós é que somos os problemáticos da “família”. Livra!

23 de setembro de 2013

Sabeis quem é este jeitoso?














 
Eu não sabia, mas agora já sei.

Conto: estava eu ontem  posta em sossego, e cogitando sobre qual seria a cor do casaco da Merkel na hora da victória, quando pensei:

- Com mil diabos, será que a CDU portuguesa não concorre às autárquicas em Lisboa? Não tenho notícias de tal candidatura.

Inquieta com tamanho vazio, atirei-me à internet em busca exaustiva.

Pois que sim! Concorre, claro, e este é o seu candidato − João Ferreira, de sua graça, 34 anos, eurodeputado.

Respirei de alívio, mas outra dúvida se me instalou: por que andarão a esconder um rapaz assim tão bem-apessoado?

Se estão com medo que as mulheres o vejam, gostem, e votem nele, deveriam, então, ter escolhido ... o Mário Nogueira.

19 de setembro de 2013

Nem lá vou












Com a aproximação das eleições, quaisquer eleições, ouve-se cada vez mais a frase: “nem lá vou”, frequentemente seguida de “são todos iguais”.

Mais ou menos com a mesma filosofia de base, há sempre algumas freguesias que resolvem boicotar as eleições esperando assim alcançar objectivos que vêm reivindicando.

São acções e afirmações que mostram o quanto essas pessoas pensam que ir votar é um favor que fazem aos políticos, e que só lho fazem se lhes apetecer ou se eles o merecerem.

Esta pesporrência, este entendimento enviesado do acto eleitoral ao fim de 40 anos a exercê-lo, tem tanto de triste como de eloquente sobre o estado em que ainda estamos.

A estes bravos eu só peço uma coisa: façam o que prometem, e não vão votar, por favor, nem agora nem nunca.

Fiquem em casa, vão à bola, à pesca, ao jardim zoológico ou mesmo ao outro sítio (que a gente não pode estar aqui a enumerar tudo), mas não vão votar. É que eu, como tantos outros, que me esforcei por aprender a” ler” a democracia estou fartinha de pagar, com língua de palmo, as vossas asneiras de analfabetos políticos que só sabem assinar de cruz.

Mas esta cruz, por favor, não! Deixem que eu faço.
Sim, porque eu vou. Lá.

17 de setembro de 2013

Todas iguais, todas diferentes

















 
Pertenço à enorme multidão de mulheres portuguesas que tem Maria como primeiro nome.

Os pais e padrinhos da minha geração foram, talvez, dos que mais abusaram dessa escolha, mas dantes todas éramos Maria e mais qualquer coisa – Isabel, Antónia, Luísa, Lourdes, Carmo, João, José, Lúcia, Etelvina, Amélia, Conceição, Fátima, Teresa, Manuela, Deolinda, e por aí.

Era por esse segundo nome que éramos chamadas, e era ele que nos distinguia − olá Isabel, olha a Antónia, viste a Luísa? chama a Lourdes, convidei a Carmo, foi a João que me disse, fui com a Zé, a Lúcia cortou o cabelo, a Etelvina teve um rapaz, a Amélia foi promovida, há que tempos não vejo a Conceição, tens falado com a Fátima?, tenho saudades da Teresa, que é feito da Manuela? e da Deolinda?

De há um tempo para cá, contudo, não sei o que deu às mulheres Marias; subitamente, e sem aviso prévio, começaram todas a renegara o seu segundo nome assumindo exclusivamente Maria, seguido do apelido.

Episódio um pouco caricato, um destes dias fui apresentada, em simultâneo, a duas Maria Matos. Perguntei se aquilo lhes tinha acontecido logo à nascença ou se o “acidente” só se dera mais tarde; disseram que foi coisa tardia porque uma nasceu Maria João Matos, a outra Maria do Rosário Matos, e em diferentes famílias.

Se eu ligar para a empresa delas e pedir para falar com a Maria Matos vão-me perguntar “qual delas?” e eu talvez tenha que responder “a dos dentes tortos”. Convenhamos que não é uma grande conversa.

Só uma perguntinha que não pretende ofender:
− Estas modas são um bocadinho aparvalhadas, não são?

Maria de Jesus Lourinho

16 de setembro de 2013

A cena do ódio




















Satan Met a Lady,William Dieterle, 1936


Anda por aí agora muito discurso sobre o ódio.
Explicita e implicitamente, este é sempre considerado um sentimento indigno e impróprio.

Eu, que não sou “zen”, acho que o ódio, como o amor e a paixão, tem potencial para gerar energias capazes de mudar o mundo.
Acho até que o ódio, quando dirigido contra alvo que o mereça, pode mudar o mundo para muito melhor.

O amor é lindo, a paixão também, da compaixão nem se fala, mas, por mim, também sou capaz de me envolver numa relação séria com um sadio e bem estruturado ódio.

Só não gosto mesmo do ódio ao morto. Quando o destinatário do meu ódio morre, sinto-me defraudada; é como passar no exame administrativamente, ou ganhar o jogo por falta de comparência do adversário. Que graça é que isso tem?

No fundo, para odiar bem, exige-se o mesmo que para tudo o mais nesta vida - ou a gente se empenha, ou não vale a pena.

E pronto. Há muito tempo que não fazia aqui uma reflexão filosófica de tanta qualidade e tão mentirosa.
Há dias assim – inspirados.

 

 

13 de setembro de 2013

Formulação de desejo para esta sexta-feira 13












 
 
 
Hoje é sexta-feira, dia 13, do ano 2013.

Eu não acredito em bruxas, mas, por acaso, gostava que hoje todas elas juntassem os seus poderes para fazerem desaparecer, inteirinho, o governo da República Portuguesa.

Se sobrassem ainda uns pozinhos mágicos, podiam levar também para o inferno o residente da república

Teríamos assim um Bruxedo de Salvação Nacional.

Isso, sim, era uma união que valia a pena, e uma pitada de internacionalismo na acção podia até fazer tudo ainda mais bonito.

Elas que venham. A gente agradece.

12 de setembro de 2013

O tempo e a escola

Uma amiga da blogosfera contava ontem da emoção de ir hoje deixar o filho na escola pela primeira vez.

Como me lembro bem desses nossos emocionantes e emotivos dias.
Os catraios já não eram “meninos da mamã”, tinham feito todo o tirocínio de infantário e pré-primária, mas escola é escola, caramba!

E lá íamos, de mãos dadas, os calções limpíssimos, a risca do cabelo impecável e os olhos brilhantes, eles; eu, de coração ora apertadinho, ora ufano, ora aos saltos de canguru.

Os quatro anos da primária ainda levam algum tempo a passar, mas daí para a frente é uma cavalgada louca até à candidatura à universidade.

Depois, bom depois mais pareceu uma corrida de fórmula 1 – entre cursos de cinco anos, InterRails e Erasmus, primeiros trabalhos, mestrados, doutoramentos e MBA, até parece que entrámos num túnel do tempo que nos suga e nos leva às cambalhotas.

E os netos? Ah, esses ainda não chegaram, mas vão chegar, para começar tudo outra vez.
Poça, e como é que tudo isso já aconteceu se eu ainda me sinto tão nova?

11 de setembro de 2013

Portugueses que me fazem bem II - Trulé


















Portugueses premiados no maior festival de marionetes.

"A S.A. Marionetas - Teatro & Bonecos e a Trulé foram distinguidas no Wayang World Puppet Carnival, na Indonésia."


 O Trulé vive em Évora, a minha terra, e os seus bonecos nascem na alma e crescem nas mãos do Manuel Dias.

São bonecos de invejável inteligência, sensibilidade, humor e ternura, capazes de nos fazem rir e chorar, às vezes ao mesmo tempo.

Manuel Dias, Joana Dias e Gertrudes Pastor − portugueses que nos fazem bem.


10 de setembro de 2013

Questões intemporais

“Lembras-te”, disse um dia Arvid a Markel, “lembras-te do que é que o Balzac chamava aos jornais? Ces lupanars de la pensée. Esses bordéis do mundo pensante.
“Humm”, disse Markel. “O velho demónio disse mesmo isso?”
“Disse.”
“A sério que disse “pensante”? Isso é absolutamente delicioso! Seja como for, ele era um romântico incurável”

Depois, Markel acrescentou:
“Meu caro Arvid, tu escreves sobre música, e sobre o que te der na veneta. De que te queixas? Eu tenho de lidar com todo o lixo e iniquidade e não me queixo. Faço o que posso e tento impedir que saiam disparates e cretinices, mas quando vejo que não há nada a fazer deixo passar…Tu nunca és obrigado a escrever nada que não queiras, e eu também não. Contudo, como editor adjunto, e às vezes como diretor de edição, sou obrigado a deixar passar, muito contra vontade, “falsas notícias que confundem o público”. Tu não tens de fazer isso. Tu escreves simplesmente sobre música, ou o que quer que seja, e depois vais buscar o ordenado. Portanto, de que te queixas?”

“Também não me estava a queixar” disse Arvid. “Só que não consigo deixar de pensar, sempre que recebo o salário, que sem essas “falsas notícias que confundem o público” não haveria dinheiro para me pagarem”

“Oh, meu cordeirinho inocente”, disse Markel. “Tu não és só um moralista. És um supermoralista. “Falsas notícias”. Santo Deus, as falsas notícias são inevitáveis. Uma vez mais, temos pela frente a pergunta de Pilatos: “O que é a verdade?”

 
O Jogo Sério” (1912)
Hjalmar Söderberg (1869-1941)
Ed. Relógio D’Água

9 de setembro de 2013

Atendíveis, pois claro

No seu artigo de sexta-feira passada no Público, José Manuel Fernandes disseca longamente o chumbo do Tribunal Constitucional quanto à “requalificação” dos funcionários públicos.

Há uma chamada na página em que se pode ler:
Os juízes chegam ao ponto de dizer que as razões orçamentais não são atendíveis, como se o Palácio Ratton fosse a nova Casa da Moeda”.

Eu, que nunca tinha pensado nisso, percebo agora que as razões orçamentais têm mesmo que ser atendíveis pelo TC.

Não as constitucionais, como eu erradamente pensava até sexta-feira passada, mas as orçamentais, como ensina o Fernandes.

Assim, depois de JMF me ter derramado luz sobre este assunto, posso afirmar que, hoje, até já me parece que podíamos dispensar o Secretário de Estado do Orçamento e substituí-lo pelo Tribunal Constitucional, (13 marmanjos e marmanjas vestidos de preto que andam pelo Ratton com quase nada para fazer, e que ainda por cima gozam férias e tudo).

Este homem, o Fernandes, é que é um génio, mas está visto que o país continua a desperdiçar talentos.
Devia emigrar!

4 de setembro de 2013

“O Bloco já não é bom como o milho”, sentença do Henrique

A discussão sobre o piropo, iniciada no Bloco de Esquerda e que na semana passada tomou de assalto as redes sociais, proporcionou, a quem a acompanhou, a leitura de muita parvoíce, é certo, mas também a constatação duma capacidade argumentativa, por parte de inúmeros anónimos, capaz de fazer inveja a muitos deputados, demais políticos e comentadores.

Sabe-se que há o inocente piropo do tipo galanteio, o piropo ordinário que é realmente uma agressão à mulher, e o piropo geralmente ordinário com que eles e elas, hoje em dia, se “mimam” uns aos outros de igual para igual. Tudo isto se pode discutir, sim, e em qualquer altura, mesmo se temos problemas mais prementes por estes dias.

Tudo isto também dá pano para mangas, e o Henrique Raposo tem tanto direito a gastar deste “pano” como todos os outros, mas podia contribuir para a discussão com alguma ideia que se aproveitasse, se fosse capaz, claro.

Não foi, como de costume, e voltou a barricar-se na piadola de rapazola alarve e na preguiça mental, servindo-se do assunto apenas para mandar mais uns coices de macho latino ao Bloco de Esquerda sobre as gajas” boas como o milho” que este tinha mas já não tem.

E termina sentenciando: “buço por buço, prefiro o da Odete Santos”.
Eu podia aqui escrever que “buço por buço”, prefiro o da mãezinha dele, que deve ser uma santa senhora. Mas não digo, não digo, não digo.

Só me pergunto por que será que o BE, que até tem fraca expressão eleitoral e nunca chegará ao poder, incomoda tanto esta gente? Terão medo de quê?

Francamente não sei o que me deu na 2ª feira para me pôr a ler a crónica online do rapaz, coisa que raramente faço, mas devo aqui confessar uma coisa:
Eu, que sou de esquerda, costumo apreciar um gajo de direita que saiba argumentar. Acho isso sexy, pronto.

No caso do Raposo, porém, a sua escrita nem um saco lacrimal estimula.



2 de setembro de 2013

A senhora NÃ

Alguém podia fazer um grande favor a Ana Avoila, a nós todos, e à língua portuguesa: era explicar à senhora que, em português, não existe a palavra NÃ, só a palavra NÃO.

Ela anda há anos a dizer, aos microfones das rádios e televisões, que o governo NÃ pode fazer isto ou aquilo, e eu já não aguento mais ouvi-la.

Primeiro, porque é óbvio que o governo pode tudo, e depois porque detesto gente que, podendo não o ser, opta por ser bruta.

Ana Avoila vive rodeada de gente que não diz NÃ, mas ela insiste, não dá por nada.

De caminho, esse mesmo alguém podia dizer ao Cristiano Ronaldo que não se anda CA bola, mas sim COM a bola.
São coisinhas tão elementares que só gente burra não consegue mesmo assimilar, ainda mais se frequenta, todos os dias, os círculos do poder e do dinheiro.