7 de agosto de 2014

Alter ego













 
 
 
 
 
 
Desde que o “caso” BES deitou ácido num país já em carne viva, desenvolvi um alter ego exposto na imagem ali em cima − Patti Smith, fotografada no Chelsea Hotel em 1970 (talvez por Robert Mapplethope).

Sinto-me tal qual.

Imagem daqui

4 de agosto de 2014

31 de julho de 2014

Olhando à volta











 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Encontrei e roubei esta imagem a um amigo do facebook porque, basicamente, com ela me identifiquei no que se refere à nova guerra israelo-palestiniana.

Este é um conflito mais velho do que eu, cresci com ele e envelheço com ele.

Novidades em 2014:

É a primeira vez que o acompanho nas redes sociais, e também não me lembro de alguma vez ter sentido tanto a sua dureza.

Os níveis de violência que chegam até nós são inauditos.

Vejo as notícias e dizem-me que 90% dos israelitas querem continuar a guerra até ao fim (não quero, sequer, imaginar o que entenderão eles por “até ao fim”); o Hamas, por seu lado, espumando da boca, nem aceita tréguas humanitárias para socorrer a sua gente.

Tento perceber o que será viver encurralado, sem lugar para onde fugir, e com as bombas a caírem em cima da minha família. É horror a mais.

Se é óbvio que ambos os povos têm lideranças que não os merecem (coisa que não acontece só a nós), isso também não me impede de ver a enorme desproporção de forças, o inenarrável sofrimento dum povo comparado com a normalidade tranquila do outro (também vi isso na mesma reportagem da televisão.)

A grande novidade em 2014 são as redes sociais, que tudo ampliam.

Por lá vejo gente histérica em defesa dos palestinianos, publicando imagens de todos os horrores sem saberem de onde realmente provêm, mas também gente a dizer-se não-alinhada, equidistante, que se entretém a tecer considerações sobre os “alinhados” com a Palestina −  em geral gente apalermada, incapaz de pensar, de seleccionar informação ou de decidir por si, segundo os seus doutos critérios.

O ruído provocado pelos primeiros não ajuda à ponderação, é certo, e também em nada ajuda a Palestina.

Aos segundos, fleumáticos sempre dispostos a insultar a inteligência dos outros, começo a dedicar muito desinteresse e pouca consideração; a estes, acabo por preferir um terceiro tipo − os assumidamente pró-Israel, opção que me parece mais limpa e corajosa. Mas o ruído de todos é infernal.

Quanto ao conflito, esse já acredito que perdurará para além de mim, com cortejos de horrores que doem cada vez mais.

 

29 de julho de 2014

Clara e João, combate de galácticos










 
 
 
 
 
 
 
A entrevista de Clara Ferreira Alves a João Magueijo, na Revista do Expresso de sábado passado, não é bem uma entrevista.

Quando se chega ao fim, percebe-se que aquilo não passa duma batalha verbal entre dois cabotinos.

Ela exibe-se formulando perguntas, que mais parecem orações de sapiência, em que consegue introduzir termos e nomes que todos os leitores do Expresso usam quando vão ao mercado comprar sardinhas. Por exemplo, Margate, englishness, understatement, Hawking (é uma obsessão), D. Afonso da Maia, stasis. E ainda encontra espaço para dizer que tem um aluno de doutoramento que é muçulmano.

Ele vai respondendo com merda, caralho, foda-se ou cu, q.b.

A dado passo, abandonando fugazmente a ciência e o vernáculo, Clara pergunta − “o que lê quando está triste?”. Logo ali me pareceu  que a pergunta estava quase, quase, ao nível da mais famosa pergunta da televisão portuguesa – “o que dizem os seus olhos?”, mas para melhor, claro.

Abreviando, e para quem não teve oportunidade de ler a entrevista, transcrevo uma pergunta/afirmação, e respectiva resposta, que resumem magistralmente o tom e conteúdo deste trabalho jornalístico:

 - Vamos falar de Hadron Collider. (diz ela)
 - Foda-se! (responde ele)

Um pouco de understatement até nem calhava aqui mal, pois não?!

Melhor calharia ainda sermos poupados a seis páginas de pornográfico exibicionismo de dois egos que se julgam a encarnação única da própria partícula de Deus.

23 de julho de 2014

Qual é a pressa?




Gostava que alguém me soubesse explicar o que é o que António Costa foi fazer àquela coisa, promovida pela TSF, com o Rui Rio.

A mim, pareceu-me que quis, desde cedo, deixar claro, num momento em que algumas pessoas de esquerda declararam explicitamente que se iam organizar para que o PS possa governar à esquerda no caso de não conseguir uma maioria absoluta, que, caso necessite, se encostará sempre à direita.

Assim como quem diz: não se macem, filhos, eu não vou desviar-me do melhor estilo dos partidos socialistas europeus nas últimas décadas.
E esse é, como sabeis, encostar à direita.

Contudo, agora pergunto eu: qual é a pressa?
Se ele esperasse mais um pouco, podia também enganar a esquerda mais um pouco, e, assim, levar-lhe os votos.

É que da direita, com o candidato Rui Rio, ele não levará nenhum. A direita não precisa do Costa para nada. E eu também não.

Por isso daqui o saúdo − Costa, vai à m@$&a.

21 de julho de 2014

Olha que coisa mais linda




 
 
“Um dia, Deus debruçou-se demasiado sobre um bocado de barro e caiu para dentro do Homem”.

Fragmentos persas
Anónimo, século I depois de Hégira
- Selecção e recolha de Téophile Morel)
In, Para onde vão os guarda-chuvas
Afonso Cruz
Alfaguara, Novembro 2013, 2ª edição

Nota: um bom texto sobre o livro pode ser lido aqui e começa assim:
Por vezes, somos deslumbrados por um livro que nos faz sentir pequenos.
“Para onde vão os guarda-chuvas” é um dos mais belos livros que li nos últimos anos.
Mário Rufino

Eu estou inteiramente de acordo!

18 de julho de 2014

A pergunta do arquitecto













 
 
 
 
 
Li no Público que o arquivo de Siza Vieira pode vir a acabar no Canadá, mais precisamente no Centre Canadien d’Architecture.

Felizmente é tempo de férias, e isso poupa-nos o enfado de ler um milhão de irados comentários, todos contra os habituais inconseguimentos da pátria.

Por mim, acho bem. Há pessoas que não cabem onde nasceram, seja qual for o sítio em que tenham nascido. O mundo tomou-as como suas, e não vejo nenhum mal em que seja o mundo a tomar conta do seu legado.

Não sou uma incondicional apreciadora do trabalho do Siza; amo Serralves ou o Pavilhão de Portugal, não gosto, nunca gostei do Bairro da Malagueira em Évora.

Mas foi precisamente em Évora, e por causa da Malagueira, mesmo no seu início, que conheci Siza Vieira, ao tempo um arquitecto desconhecido da maioria dos portugueses (eu incluída).

Um dia, nesse final da década de 1970, Siza foi a minha casa e, observando-me com o meu primeiro filho recém-nascido ao colo, perguntou mansamente na sua voz sempre enrolada no fumo:

- O que sentiu a primeira vez que olhou para ele?

Lembro-me que não respondi imediatamente. Não é suposto que nos façam perguntas destas. Mas vasculhei bem no meio da consciência e acabei encontrando a resposta:

- Respeito, disse.

Siza meneou um pouco a cabeça e nada disse; apenas deu mostras de ter satisfeito uma curiosidade sua.

Se aquele homem, quase um estranho, não tivesse ousado fazer-me uma tal pergunta eu, se calhar, nunca descobriria que tinha divergido do cânone que mandava que respondesse:

- Amor!

E foi assim que, para sempre, fiquei a dever a Álvaro Siza Vieira, arquitecto de profissão, uma das perguntas mais interessantes e esclarecedoras com que fui confrontada na vida.
Penso que nunca mais nos encontrámos.

11 de julho de 2014

Devíamos...










 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Há precisamente um ano, a empáfia da família Espírito Santo não tinha limites.

Ricardo Espírito Santo Salgado dizia que “Os portugueses não querem trabalhar, preferem o subsídio” (aqui)

Cristina Espírito Santo conversava sobre a Comporta com a Revista do Expresso e dizia que estar ali, na Comporta, em casas simples e no meio da natureza, era como brincar aos pobrezinhos.

Esta conversa deu brado nas redes sociais e também entrei nela.

A estes portugueses de primeira devíamos ser agora capazes de oferecer não um subsídio, nem sequer uma reforma confortável.

Antes devíamos ser suficientemente generosos para lhes proporcionarmos a absoluta despreocupação com a subsistência para o resto das suas vidas − a elas nas Mónicas e a eles no Linhó.

 

9 de julho de 2014

Abata-se













Eu sei que depois do grande desastre futebolístico de ontem já ninguém se lembra do que aconteceu anteontem.


Mas eu lembro-me, que não sou criatura de me esquecer do que me lixa assim do pé para a mão.Falo daquele ajuntamento lá no Mercado da Ribeira à volta do António Costa.


Seiscentos intelectuais? Gente da cultura? Ora, deixem-me rir. O país não tem nem 60 intelectuais, quanto mais 600! Gente da cultura? Então aquele Montez que, para além de ser genro da Cavaco ainda tem uma empresa de fazer festivais de música com um nome piroso é da cultura? E o Nicolau Breyner que, além de ter sido do CDS, não pára quieto nos seus encostos partidários e tem uma empresa de fazer telenovelas, se calhar de nome piroso, mas isso não sei, é da cultura?


Uma pinoia! Intelectual e culta sou eu, e não fui convidada.


Mas mesmo que fosse, não ia! Apoiar o Costa? Ora, ora, mais valia que mandasse varrer a minha rua que anda uma javardice.E aquilo foi kitsch, kitsch, kitsch, que eu bem vi as fotografias.


Além disso, o gajo nem sequer é de esquerda. De esquerda sou eu.


Ele não mora na Beloura? Ou será em Sintra? Ou em Alvalade? Bom, não sei onde é, mas isso pouco importa, porque o que eu quero mesmo é dizer que ele não tem nenhuma ideia de cidade (saudades do Abecassis, caramba!), que é um elitista, um arrivista que já se atreve a dizer que a cultura merece um ministério.


Li no Expresso, num artigo que adorei (e o Balsemão também) da autoria da Rosa Pedroso Lima, que o homem “ainda não tem programa mas já tem lei orgânica”. É assim mesmo, ó Rosinha, dá-lhe forte, acabem lá com a porcaria da boa imprensa que lhe deram enquanto ele esteve parqueado na Câmara. Agora é para abater!


Eu e os meus já iniciámos o assassinato de personalidade e vamos continuar, até porque ninguém me tira da cabeça que por ali anda o fantasma do Sócrates.


Quem é que eles pensam que são? E como é que a entourage deste homem teve o topete de fazer um encontro com gente da cultura e não me convidar?!


O aviso é sério − estou em luta, e quem quiser que me siga.
De agora em diante, o meu lema é − Abata-se o Costa, p@$$&!!! 


Nota: porque nunca tem mal avisar, este texto é, ou pretende ser, uma ironia. 

4 de julho de 2014

Uma fé dos diabos








 
 
 
 
 
 
 
 
Dizem que o Papa Francisco acredita no diabo.

E eu digo que ninguém tem nada com isso, cada um acredita no que quer, ora essa. Só tenho pena se ele vier a desiludir tanta gente que por aí anda toda babada com os seus sapatos pretos e cambados.

Uma prova desta sua crença, e também da retidão de procedimentos do Papa dos sapatos pretos será, talvez, a notícia da tvi24, segundo a qual a “Associação Internacional de Exorcistas, composta por 250 padres que alegam combater as forças do mal em mais de 30 países, viu os seus estatutos aprovados pela Congregação para o Clero. A decisão dá reconhecimento legal à prática do exorcismo.”.

Nada como levar uma vida legal, e o Papa dos sapatos cambados sabe-o; fica-se sem medo da ASAE, ou da Autoridade Tributária, ou do demo, em suma, vive-se tranquilo, e não há dinheiro que pague isso.

Agora, com tudo assim nos trinques, já posso dizer: eles que venham!
Todos! Todos os padres exorcistas!
Nem sei se os 250 chegarão para combater as forças do mal que por aqui estacionaram, mas talvez.

Eu, pelo menos, confesso, com o exorcismo tratado assim ao mais alto nível em 2014 estou com uma fé dos diabos.
A ver se arranjo bilhetes para o exorcismo do primeiro casal.

2 de julho de 2014

Ao espelho


 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Um dos grandes fascínios que a literatura exerce em mim é poder encontrar-me, inesperadamente, num qualquer recanto de página e, nesse momento, sentir que não estou sozinha, ninguém está sozinho, por mais esdrúxula que possa parecer a identificação encontrada. 

Comecei a ler “Para onde vão os guarda-chuvas” de Afonso Cruz (Editora Objectiva, 2013) e, logo nas epígrafes, lá estou:

De certeza que já te cruzaste comigo mil vezes, mas o teu olhar nunca se fixou em mim. Admiras-te? Sou assim: não atraio a atenção. Sou um camaleão humano ou algo parecido. Dissolvo-me no que me rodeia, faço parte da paisagem: não tenho nada em que os olhos se prendam. Tudo em mim é de tal forma comum que as pessoas olham e não me vêem.
(Testamento de um poeta judeu assassinado, Elie Wiesel)

Os que me são próximos sabem que sinto assim.
Dantes, talvez porque ainda quisesse deixar uma marca no mundo, havia decepção. Agora, uma bênção.

Imagem: Girl at mirror, 1954 – Capa de The Saturday Evening Post, 6 Março de 1954, de Norman Rockwell

30 de junho de 2014

Bandeiras que me desconfortam














 
 
 
 
 
José Mujica, presidente do Uruguai, é uma dessas “bandeiras” da esquerda que, às vezes, me desconfortam.
 
Querido das redes sociais, exemplo a seguir, homem desprendido, a viver pobremente como o seu povo, um presidente sem mácula e, chega a parecer, concebido sem pecado.
 
Ultimamente até vi uma fotografia do senhor, de pé ao léu, à espera de ser atendido numa sala de espera dum hospital, dizia-se, junto com o resto da maralha.
Afinal, a foto foi tirada na tomada de posse de um ministro durante uma vaga de calor no Uruguai.
 
Confesso que, depois de tudo o que já li, eu também tenho estado à espera, mas é de ver anunciar que começou a fazer milagres.
 
Mujica mostrou agora, para quem quis ver – e a maioria não quis, que das duas uma: ou está um velhote tan-tan, ou é mais um populista.
 
O presidente foi, por estes dias, ao aeroporto, saudar, no regresso a casa, o tal jogador que morde nos adversários – Suárez, carinhosamente chamado lá na terra de Luisito.
No momento, comentando o caso e o castigo que lhe foi aplicado, Mujica disse barbaridades assim:
 
Não o escolhemos para ser filósofo, mecânico nem para ter bons modos. É um excelente jogador.” (aqui)
 
"Sentimos que isto é um ataque contra os pobres, porque estes golpistas não lhe perdoam [a Luis Suárez] o facto de ele não ter frequentado uma universidade, de não ter tirado um curso, e de viver naturalmente as rebeldias e as dores dos que vêm de baixo. Não entendem nada, não perdoam" (Público)
 
E assim, duma penada, José Mujica, o agricultor e ex-guerrilheiro Tupamaro , mostra que também ele não tem bons modos. Nem sequer boa formação cívica.
 
Parece que andam a propô-lo para o Nobel da Paz.
Se ajudar, o Luisito que o morda.
 

 

26 de junho de 2014

Notícias do jogo da bola


 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
No Público online de ontem, dois títulos:

Paulo Bento não se demite, aconteça o que acontecer
Paulo Bento é um bom português, digo eu; logo se via que a notícia da sua demissão era manifestamente exagerada.

 Gana envia para o Brasil 2,2 milhões de euros para os jogadores defrontarem Portugal.
O dinheiro viajou num avião fretado para o efeito e era uma exigência dos internacionais ganeses para não faltarem à partida contra os portugueses.”
Estes inteligentes ganeses não jogam fiado nem aceitam cheques.
Parece que cresceram numa taberna do Alentejo, penso eu.

Na rádio ouvi, juro que ouvi, ontem logo de manhã, um tal Ricardo Costa, afirmar que o jogo de hoje com o Gana será encarado como “o último jogo” da vida deles.
Mais disse, eu ouvi, juro que ouvi, que, durante este equiparado a último jogo da vida deles, “umas vezes estaremos por cima, outras estaremos por baixo”.

Eu acho bem. E bom. E normal!

Contudo, não querendo imiscuir-me nas preferências de cada um, atrevo-me a sugerir-vos, rapazes, que hoje, se não for grande incómodo, seja um pouco mais por cima do que por baixo.
É só para variarmos um bocadinho. Nós, e vocês.

 

 

23 de junho de 2014

Hope so!


 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
…no fim de tudo ficamos modestos, mas, ao mesmo tempo, mais sofisticados.

Sándor Márai, “A Irmã”

Imagem: Paimio Chair, Alvar Aalto, 1931-32

20 de junho de 2014

Hoje jogo eu












 
 
 
 
 
Nas décadas de 1960 e princípio de 1970 do século passado, entre as várias actividades que arranjou para aumentar o ordenado, o meu pai foi correspondente, em Évora, do jornal “A Bola”.

Ao tempo, este era o mais respeitado jornal desportivo, sendo igualmente conhecido e reconhecido pelo seu engajamento contra a ditadura; publicava-se, salvo erro, três vezes por semana, e era recebido gratuitamente lá em casa.

Lá mais para o fim dos anos desta colaboração, meu pai sentiu-se orgulhoso e honrado por, certa vez, ter sido convidado a escrever uma coluna que, usualmente, ia rodando pelos jornalistas da redacção e que se chamava “Hoje jogo eu”.

Se bem me lembro, não escreveu sobre futebol, antes escolheu escrever sobre as qualidades humanas de um jogador do Lusitano de Évora.

Eu, no seu lugar, julgo que faria uma escolha semelhante – teria dito não ao pontapé na bola, que até pode ser artístico mas não me prende (ao contrário do que acontecia com o meu pai), e sim à parte boa, e tão profundamente humana, do que o futebol também é.

Neste, como nos outros campeonatos, o que gosto de ver é o que está antes e, se for uma final, o que está depois, isto é, a festa.

Gosto de ver as bancadas coloridas e ruidosas, gosto daquela megafesta de caras pintadas, cachecóis, bandeiras, cabeleiras e camisolas, gosto de ver os jogadores das duas equipas, ainda no túnel, aos abraços a companheiros de trabalho diário que, dentro de minutos, serão seus adversários, gosto de ver os seus saltinhos espanta-nervos, gosto da visível tensão que se lhes acumula por baixo da pele, gosto da entrada das bandeiras e das equipas, gosto dos hinos e de ver as pessoas a cantá-los, gosto do sentimento de pertença que nesse momento exibem, gosto de toda aquela sobrecarga energética. Gosto!

Este ano, gosto também de ver a determinação de brasileiros e chilenos (não sei se haverá mais), em enviar um belo manguito à FIFA enquanto cantam os seus hinos por inteiro, mesmo já sem música, porque inteira é a sua presença ali, plena de autoestima, orgulho e emoção, características de jovens países ainda capazes de todas as rebeldias.

Se procuro que nada do que é humano me seja estranho, facilmente reconheço que à volta destes grandes encontros futebolísticos há tanto de admirável como de venal, como em quase tudo na vida.
 
Por isso estamos sempre a escolher de que lado queremos jogar ou, simplesmente, ver o jogo.
“Hoje jogo eu”, e até 13 de Julho. Sempre do lado da festa.

16 de junho de 2014

Fake it













 
 
 
 
 
Ontem percebi que é já para a semana que faço anos outra vez.

Melhor do que falecer”, pensei, mas também pensei na fantástica força que continua a ter a narrativa-maravilha sobre o envelhecimento.

Por toda a parte se ouve e lê o mesmo discurso, sempre acompanhado das receitas que nos farão morrer saudáveis e viver o envelhecimento como uma parte maravilhosa da vida, cheia de beleza, encantos mil, etc. e tal.

Por mim, não escondo, detesto envelhecer, mas a toda a hora estou a levar com o discurso oficial e obrigatório, sobretudo para as mulheres:

− Continue activa, a menopausa, vendo bem, nem existe, a síndrome do ninho vazio só ataca as outras, as fracas, mantenha a cabeça activa e verá que também o corpo se manterá em óptimo estado de conservação sem necessidade de usar formol, os filhos partem, claro, porque não são nossos, são do mundo, dizem.

Segue-se a receita:

Vá ao ginásio, saia com as amigas, leia um livro, vá ao cinema, mantenha-se informada, faça palavras cruzadas, arranje um hobbie.

Os mais novos acreditam piamente nisto; tanto que até desprezam a tal sabedoria que vem com a idade no caso de ela ousar responder-lhes que não é bem assim, e que envelhecer é uma merda.

Confesso que tempos houve em que também eu acreditei no discurso maravilha, mas agora, quando levo com ele em cima, tenho sempre vontade de perguntar se me garantem que lendo um livro a cintura não engrossa, se for ao ginásio as bochechas não descaem, se sair com as amigas não tenho cataratas, se me mantiver informada as articulações não emperram, se fizer palavras cruzadas sou capaz de me voltar a lembrar das linhas de caminho-de-ferro de Angola, e, se até concordo que os filhos não são nossos, ainda gostava que me ensinassem como se abraça um filho no Skipe. Qual a app? Onde se compra?

Tretas, lérias, patranhas, cantigas, paleio fiado, habilidades, trampolinices discursivas que põem a velharia toda numa de fake it till you make it.

Lamentavelmente, comigo não dá; por mais que me impinjam a narrativa-maravilha continuo a achar que envelhecer é apenas, e exclusivamente, melhor do que falecer.
Mau feitio, claro.

 

12 de junho de 2014

O Marinho e o Hernâni












 
 
 
Outro dia perguntei como é que o Marinho Pinto tinha conseguido tantos votos se eu, que me considero informada, não dei pela campanha dele.
- Não houve sequer debates na televisão, argumentei.

Foi então que me explicaram, com alguma condescendência, que o novel eurodeputado é presença frequente nos programas diurnos das televisões onde se entretem, e entretem os espectadores, com contundentes discursos antissistema.

Fez-se-me luz, o que se traduziu por um prolongado e apalermado AHHHHHHHH!.

Às vezes ligo o aparelho de tv uns minutos antes dos telejornais dos canais generalistas e ainda vejo a parte final de algum programa, mas nunca vi o Marinho Pinto. Aquilo geralmente termina a dar dinheiro a um telespetador que já está a almoçar e pronto, é uma alegria. Daí o meu espanto.

Ontem, porém, vi um pouco mais. Quando liguei (calhou ser a Sic) estava lá um senhor de nome Hernâni a falar sobre as buscas por Maddie levadas a cabo por polícias ingleses no Algarve.

Pouco percebi, não consegui apanhar o fio da meada nem “pesquei” nada do raciocínio do tal Hernâni mas os apresentadores estavam com caras de caso, e o Hernâni proferia umas frases curtas logo seguidas duns silêncios que gritavam: sei muitas coisas mas não vos digo porque isto é tudo muito perigoso.

Eu até tive pena dele porque acho que ele tem muitas coisas “entaladas”, salvo seja, que precisava de deitar fora.

Na verdade, eu própria já me tinha perguntado: que é que Madeleine  McCann tem que os outros não têm?

É que se o governo britânico gastasse com todas as crianças desaparecidas no seu país tanto como tem gasto com esta, se calhar já se tinha visto obrigado a fazer um pedido de resgate ao FMI.

Mas o Hernâni sabe, tenho a certeza, e podia dizer ao governo britânico aquilo que estava cheio de vontade de nos dizer a nós mas não se atreveu.

Podia, digamos, “desentalar”.

Depois de o ver, lembrei-me da explicação que me deram para a eleição do Marinho e fiquei com a certeza de que, se este homem Hernâni se lembrar de se candidatar a qualquer lugar político, sem dúvida será eleito, como o Marinho. Claramente este também é antissistema, e o povo gosta disso.

Conclusão possível a extrair deste arrazoado: ninguém entende verdadeiramente o país se não se vir televisão de manhã, à tarde e à noite.

Felizmente eu já desisti de o entender. 

9 de junho de 2014

Sebastianismo














Não sou apreciadora da cabeça sempre fria nem da perene falta de emoção.
Nem mesmo na política, ou sequer no jornalismo. Talvez por isso não apreciei o artigo de Ana Sá Lopes no jornal i, sobre o “sebastianismo” à volta de António Costa.

É um desses momentos de frieza jornalística em que, deliberadamente, apenas se verifica e comenta o facto, omitindo sempre, e cuidadosamente, as suas causas. É também uma visão muito gauche e um bocadão complacente.

. Termina Ana Sá Lopes escrevendo: Convinha que se discutisse política. Retirando a saudação à herança Sócrates e uma avaliação mais correcta das origens da crise, Costa não disse nada que ficasse no ouvido. Mas parece que a sedução chega.

É bem possível que tenha razão, que Costa não faça muito melhor que Seguro mas, por mim, que pertenço ao grupo dos que o preferem mesmo posicionando-me muito à sua esquerda, a escolha é simples:

- Para começar, escolho entre um boneco de plástico e um ser pensante, ambos com provas dadas nesse tão singelo quanto relevante aspecto.
- Depois, escolho entre o prolongar da agonia e a ténue esperança do doente desenganado.
- Finalmente, escolho entre a dúvida razoável e a clara convicção, ou seja, tenho dúvidas que, daqui por um ano, Seguro consiga vencer as eleições e estou convicta que António Costa o conseguirá.

Se tal se verificar, terei de agradecer a António Costa por nunca mais precisar de ver as trombas de Passos e Portas no papel que têm vindo a desempenhar denodadamente - o de guardas sádicos desta coutada onde os nossos “irmãos” ricos da Europa se têm entretido a caçar pequenos animais − nós. E essa não será pequena dívida.
Não quero vê-los mais, e a quem mos tirar da frente ficarei eternamente grata.

Dado o ponto a que chegámos, Ana Sá Lopes, ainda nem é preciso discutir política; basta-me que mude alguma coisa para que possa acreditar que nem tudo vai ficar, para sempre, na mesma.
Que venha Costa, pois. Pior não ficaremos porque, nesse aspecto, pior é impossível