“As palavras
são seres furtivos, capazes de sentidos onde não alcançam, pobres deles, os
dicionários. A palavra “amor”, por exemplo, não precisa de ser pronunciada para
significar, e (como se temesse mostrar-se) revela-se quase sempre sob a forma
de outras palavras ou de silêncio.”
27 de fevereiro de 2014
26 de fevereiro de 2014
Ele não sabe, nem sonha
Alertada por
um amigo da blogosfera e da FB, fui ler isto.
Quem tiver
boa resistência ao vómito deve ler também.Os de estômago sensível ficam isentos.
Eu, que só
me queixo da bílis, li a bosta toda, e, mal acabei, desatei logo a sonhar, nem
sei porquê.
Segundo o
anormal, sonhar é coisa ilícita, mas o meu sonho foi coisa pouca.
Sonhei que
pegava na mão do Nuno Ferreira (eu depois desinfecto), e o levava numa viagem
no tempo de regresso ao Alentejo dos anos 1940, em que ele seria um menino de 6
ou 7 anos, filho de assalariado rural, atravessando transbordantes ribeiros
invernais para chegar à escola, descalço todo o ano, estômago a digerir uma
fatia de pão e umas azeitonas, guardando porcos lá no montado antes e depois
das aulas.
E, o mais
importante, impossibilitado de sonhar.
No meu sonho,
eu vinha-me embora e deixava-o lá para sempre com os porcos e sem sonhos, mas
acontece que houve homens bons, e sem excesso de bílis, que sonharam que nenhum
menino devia viver assim.
Se bem o
sonharam, melhor o fizeram, e desse belo sonho usufruíram milhões de meninos; até
mesmo os anormais, como o Nuno Ferreira.
Mas ele não
sabe disso, claro. Nem sonha.24 de fevereiro de 2014
Circo sem pão
“Regresso de Miguel Relvas causa
incómodo no PSD”, titulava ontem o Público online.
E eu digo “Não acredito”.
Aquela gente
não tem incómodos, a não ser os da falta de poder; já com a falta de pudor, ao
contrário, sentem-se cómodos. É, julgo, a sua zona de conforto.
Tácticas.
Também têm muitas.
No Coliseu,
estavam felizes. Riam, sorriam, acenavam rindo, ou então, sorrindo.
Foi bonito
de ver − o sorriso de Passos por os ter “metido todos no bolso”; o sorriso de
Marques Mendes, a seu lado, era o do puto que faz qualquer coisa para o
deixarem jogar na equipa principal; o sorriso de Marcelo era o do acrobata no
fim do número de circo em que conseguiu cair de pé e não partir as costelas; o
sorriso de Menezes era o do pobrezinho, boa pessoa mas com azar na vida, que
aceita qualquer esmola; finalmente, o sorriso de Santana Lopes era o da velha
raposa que os “manca” a todos e nunca larga a presa. E nem o Relvas faltou.
Por mérito
próprio, Passos é o rei leão naquela selva.
Pelo caminho
que aquilo levava, ainda admiti que se pudesse passar da pornografia soft em que estávamos, para a
pornografia hard, se se verificasse
também a inopinada aparição de Ferreira Leite ou Pacheco Pereira.
Tal não
chegou a acontecer, felizmente. É que os congressos do PSD sempre foram
espetáculos pouco edificantes, mas classificáveis como “para toda a família”.
E assim devem
continuar.
O Coliseu
devia cheirar a futuro e às suas deliciosas promessas; por isso ninguém quis
ficar fora da fotografia − para mais tarde recordar, se necessário for.
A esquerda
que continue a apaparicar “os críticos” do PSD, citando-os, partilhando-os,
louvando-os, em vez de cuidar da sua vida e de pensar uma outra vida.
Eles
agradecem essa preciosa ajuda.
Ou talvez
nem agradeçam, por já não precisarem.21 de fevereiro de 2014
Olha, afinal também é daltónico

Sempre achei
que Octávio Teixeira pertencia ao grupo minoritário de comunistas que não sofre
de daltonismo e, se não consegue ver as sete cores do espectro, vê, pelo menos,
umas quantas.
Foi-se-me a
convicção ao ouvi-lo ontem no Conselho Superior da Antena 1.
Falando
sobre a grave situação de Kiev, e também da Venezuela, Octávio Teixeira reduziu
tudo aos interesses geoestratégicos das potências, e chegou a dizer que os
Estados Unidos querem fazer na Venezuela o que fizeram no Chile − como se Obama
fosse Nixon e nada tivesse mudado na vida, e no mundo, ao longo das
vertiginosas quatro décadas que vão de 1973 e 2014.
Por sua vez,
na Ucrânia, e para Octávio Teixeira, tudo se resume a uma luta entre os
interesses (ilegítimos) dos Estados Unidos e da União Europeia, por um lado, e
os (mais ou menos legítimos) da Rússia, por outro.
É absolutamente
certo que esses interesses existem e são poderosos; é também verdade que os
povos podem ser por eles instrumentalizados, mas não me parece que as pessoas,
de qualquer parte do mundo, venham para a rua e lá permaneçam (sobretudo com
temperaturas negativas) só porque sim.
Percebi
ontem que para o comunista Octávio Teixeira há certezas que, para mim, são um
pouco surpreendentes. A saber:
- os povos
não “riscam” nada – é tudo geoestratégia.
- na sua
visão a preto e branco, os maus são, em todas as situações, os EUA e a União
Europeia.
E aqui, deixo-me
rir.
É que eu
ainda sou do tempo em que, sendo a União Soviética e a China irmãs desavindas,
o PCP estava do lado da primeira. Quando ela se desfez em pó, passou a estar do
lado do anterior inimigo, a China, indiferente ao seu capitalismo selvagem.
Agora, com a
questão ucraniana, Octávio Teixeira volta à casa de partida e está do lado
desse grande democrata, comunista e paladino dos direitos humanos chamado Putin.
E eu, posto
isto, vou ali chorar um bocadinho que esta gente toda só me dá desgostos.
19 de fevereiro de 2014
Kiev não mora aqui
Ontem vi
Kiev em brasa, mas também a Bósnia e a Venezuela sobre brasas, como antes o
Brasil, a Turquia ou a Tailândia, locais onde as pessoas parecem determinadas a
inverter o curso dos acontecimentos que lhes querem impor.
Inconformadas
estão, aquelas gentes.
Enquanto
ontem em Kiev se morreu e se atearam fogos, por cá esteve sol.
Deu nas
televisões, e gostei muito de ver, o centrão todo à volta do Vítor Gaspar. Este
fez um discurso bonito, em que, por acaso, disse o contrário do que disse no
último, mas não faz mal porque o último também era muito bonito.
O Vitorino
falou bem, e a Avilez estava cheia de charme a agitar a melena.
Assim,
ontem, fazendo o balanço do dia antes de adormecer, verifiquei que só uma
coisita me aborreceu – a notícia do Público, segundo a qual, Joana
Vasconcelos “está sem tempo para
intervenção nas comemorações do 25 de Abril”.
Ora, isto
sim, é uma grande contrariedade.
É que precisávamos
mesmo da mais rebelde (!!!) artista deste
tempo para nos ajudar a comemorar aquele único momento da nossa história
recente em que todos (ou quase) fomos realmente rebeldes – há 40 anos houve um
dia em que nos mandaram ficar em casa e fomos logo todos para a rua.
Depois desse
dia de loucura, graças a Deus, sossegámos.
Definitivamente,
Kiev não mora aqui. Nem Caracas. Nem São Paulo.17 de fevereiro de 2014
45 Milhões de euros
Eu sou fã da Gulbenkian.
A bem dizer,
gosto de tudo ali – dos jardins, do museu, dos auditórios, do CAM, da
biblioteca, dos cafés e restaurantes, da livraria Almedina dentro do CAM − e
continuo a achar que aquele é um espaço único na cidade.
Porém, às
vezes também me merece reparos e críticas, o que nem é de estranhar, posto que
é dirigida pelos mesmos de sempre, aqueles que saltitam entre governos, bancos,
fundações, empresas públicas, como é agora o caso do banqueiro Artur Santos
Silva, e que, obviamente, têm a cabeça orientada no sentido inverso da minha.
Vem isto a
propósito das várias obras que têm vindo a ser feitas no espaço da Fundação,
com destaque para a inauguração, no último fim-de-semana, do renovado Auditório
1 e zonas adjacentes.
Há cerca de
um ano escrevi aqui que, nas actuais condições, cabia à Gulbenkian “voltar a ser o oásis e o motor da nossa vida
cultural, com iniciativas que nos galvanizem e nos façam acreditar que há vida
para além das crises. Não é o que se está a passar no CAM.” (Post de 25
Março 2013)
Pelos
vistos, o dinheiro nunca faltou para que tal se concretizasse, dado que,
segundo o Público, o conjunto das obras custou 45 milhões de euros; o que
faltou foi fazer essa escolha. Ao contrário, a Fundação escolheu investir em si
própria, em vez de investir nos criadores portugueses, que andam à míngua, ou
numa programação do CAM integrada nos circuitos internacionais, coisa que nunca
sai baratinha.
Temos,
assim, um auditório que era muito bom e que passou a excelente.
Ao mesmo
tempo, o CAM inaugura exposições quase só com a prata da casa.Ainda não vi as que inauguraram na semana passada, talvez até sejam boas mas, para já, quando no jardim passo por esta escultura Rui Chafes, até tenho pena de não ser pombo.
É tão
triste, o tempo que vivemos…
13 de fevereiro de 2014
Há os labregos, e há os outros
E o tema da semana passada foi: Miró e as telas do BPN.
No Público de ontem li, vindas de João Fernandes, ex-director do Museu de Serralves e actual director adjunto do Museu Rainha Sofia em Madrid, as mais sensatas opiniões sobre o assunto.
Resumidamente,
responde ele:
As telas
formam uma colecção?
Não, porque
não constituem um núcleo coeso e coerente.São todas da mesma qualidade?
Não. E o conjunto é menos bom que algumas telas isoladamente.
Devemos vender ou guardar?
Devemos ficar com as mais representativas.
E, se assim fosse, o que fazer com elas?
Depende do que o Estado quer para cada um dos seus museus de arte moderna e contemporânea. É preciso definir uma estratégia para esta área, disse.
Ora aqui é
que a porca torce o rabo, digo eu.
Estando fora,
é natural que o João Fernandes não se aperceba completamente do que por cá já
todos entendemos − política do governo, mesmo, a sério, só há uma: a defesa dos
credores.
Depois, há
umas políticas avulsas para destruir, tão rápido quanto possível, a saúde, a
educação, a ciência, o valor do trabalho e a segurança social.
Quanto à
cultura, não há, sequer, política; nem para as artes, nem para os museus, nem
para coisíssima nenhuma.
No lugar da
política cultural temos agora um bando de labregos pouco sérios que torpedeiam
as leis da república e que, sobre o que lhes competia saber, na verdade nada
sabem, não querem saber e têm raiva a quem sabe.
------------------
E agora vou
andando para norte, porque não quero faltar à inauguração da exposição que se
anuncia na imagem ali de cima.É que, se os artistas presentes são bons, o curador é fantástico.
Garanto eu.
12 de fevereiro de 2014
Género: terror
A imagem
mostra o mais novo livro do género terror,
já à venda numa livraria perto de si.
Melhor
pensando, a conjugação da autoria Avilez com o “enredo” Gaspar permite-me
acreditar que a boa escrita e a boa história não andarão por ali, pelo que,
aquilo talvez seja apenas uma coisa tenebrosa em forma de livro.
Mesmo assim,
dá medo.
E para o
adensar, a sinopse promete que “finalmente
se fica a saber quem é Vítor Gaspar.”
Se assim
for, admito que até o medo vá ficar assustado.10 de fevereiro de 2014
Os bravos do paredão

Da minha
porta para fora, ontem foi um dia de cão.
E eu com
tanta gente em trânsito – um desassossego.
Pedi a todos
que recomendassem, aos pilotos e maquinistas da CP, cuidado com a condução, porque
estava muito mau tempo (como se sabe, mães corujas e jarretas como eu, chegam a
pontos em que só servem, mesmo, para fazer recomendações assim, tão inteligentes
quanto eficazes).
Não sei se deram,
ou não, prosseguimento ao meu pedido, mas, pronto, sei que acabou por correr
tudo bem.
Também de
entre os bravos do paredão, aqueles imbecis que vimos na televisão muito embasbacados
a observar a braveza do mar, toda a gente se salvou. Com a graça de Deus, como
diria a minha avó.
A
tranquilidade total, porém, chegou à hora de jantar, quando Marcelo informou a
Judite, e a todos nós por acréscimo, que, apesar do temporal, tinha ido nadar,
como sempre. (no Guincho, suponho).
Aí, sim, tomou-me uma
descompressão total. Nem precisei do chazinho de cidreira para dormir.
Foi tiro e
queda.
Ah, grande
Marcelo!7 de fevereiro de 2014
Monólogo interior de altíssimo gabarito
No ano
passado, por esta altura, tive uma gripe.
Uma noite,
já com ela quase a deixar-me, estava eu, como habitualmente, a ler antes de
adormecer, quando ouvi “um passarinho a cantar dentro do peito”, só para dizer
uma coisa assim mais para o poético.
Seguiu-se um
monólogo interior de altíssimo gabarito:
“ Não
faltará muito para teres de escolher entre respirar ou fumar.
Chatice! Mas
nessa altura vais escolher respirar, certo?E se escolhesses já, antes que te mandem? Detestas ser mandada…
Uuummmm, está decidido, amanhã já não fumas.”
E pronto,
foi assim.
Depois de
quarenta anos, já lá vai um ano.Faz amanhã.
Bom
fim-de-semana.
6 de fevereiro de 2014
E eu lá ia ficar fora do tema Miró?
Após grande ponderação
reflexiva (com os dados que temos disponíveis sobre mais esta novela de grandes
e pequenos vigaristas), consigo, por fim, formular a pergunta que todos
gostaríamos de ver respondida:
Se o Miró tivesse visto na televisão,
como nós vimos, o homem ali da imagem, como o pintaria?
5 de fevereiro de 2014
10 anos de Facebook
O Facebook
fez ontem dez anos. Parabéns.
Eu gosto do
Facebook e do imenso espaço de liberdade que ele é.E não tenho nenhum medo.
No Facebook
como na vida, é preciso saber escolher os amigos e decidir com bom senso o que
pode ser público e o que deve permanecer privado.
Nada mais
que isso.
Há pessoas
de quem não sou “amiga”, sou apenas seguidora, e essas, no meu caso, são
figuras públicas das artes, das letras, do jornalismo.
Geralmente
são muito normais, mas às vezes dá-lhes para se armarem em divas.
E agora
conto o que me aconteceu por estes dias:
Uma das
pessoas que sigo é jornalista, participante dum conhecido programa de
televisão, comentador. Pertence a uma área política diferente da minha, mas
considero-o intelectualmente honesto e interessante.
Um destes
dias postou a seguinte frase:
“Já não lia uma coisa
tão imbecil como a que li hoje num jornal há muito tempo. E, como é público e
notório, imbecilidades não têm faltado.”
Logo 36
pessoas puseram “gosto”. Pensei: mas gostam de quê?
Seguiam-se
outros tantos “amigos” a tentar adivinhar de quê, ou quem, ele estava a falar
Não costumo
comentar estas coisas mas, não sendo a primeira nem a segunda vez que o vejo
escrever assim, digamos, NADA, não resisti e comentei:
“Essa sua mania de mandar bocas para
o ar e os papalvos que adivinhem, está a ficar um bocado irritante, ó
companheiro.”
Qual não é o
meu espanto, facto nunca visto numa figura pública, obtenho resposta. Assim:
“Tem
razão, Maria De Jesus Lourinho, mas este espaço também é meu e às vezes dá-me
para desabafar.”
Ainda
respondi dizendo que o Facebook era, no meu entender, um espaço de comunicação
e não de solitária meditação, mas que a razão estava do seu lado porque o
espaço é dele, de facto, e só o lê quem quer.
Eu deveria
ter dito que desabafar sem bafo é assim uma espécie de onanismo, mas não disse
nada disso, claro, e continuo a simpatizar com aquela figura pública.
Bem como com
o FB − espaço de ampla liberdade em que todos, até as simpáticas figuras
públicas, têm direito à parvoíce; e onde os zés-ninguéns, como eu, têm o direito
de lhes dizer que estão a ser parvas, mas que esse é um direito que também lhes
assiste.
4 de fevereiro de 2014
Portugueses no mundo
Eu já aqui
escrevi sobre ele, mas o diabo do programa anda-me mesmo a irritar. Todas as
manhãs, na Antena 1, uma tal Alice Vilaça conversa ao telefone com um português
que está fora – “portugueses no mundo”, assim se chama a rubrica.
Nela, todos
os entrevistados estão fora do país porque responderam a inopinadas
oportunidades, todos estão felizes, todos acham a experiência muito positiva,
todos têm saudades da família, do sol, do café, do bacalhau e tal.
Quase todos
são formados, mestrados ou doutoradas, quase todos estão entre os vinte e
muitos e os quarenta e poucos anos, todos são felizes, apreciados, bem
remunerados e, com uma tal imagem construída, todos devem ser lindos de morrer,
penso eu.
Entre os
portugueses no mundo não há falhados, ou tipos simplesmente sem sorte, não há
um só trolha ou ajudante de cozinha, ou alguém que não consegue adaptar-se, ou
ainda alguém que deteste o chefe e os indígenas locais; muito menos há alguém
que possa morrer às mãos de energúmenos xenófobos nos arredores de Londres por
ter tido de dormir na rua.
É um programa
feito com “emigras” de sucesso e, maioritariamente, por opção.
E não é
sério, porque não vale branquear assim a realidade.
Todos
sabemos que a realidade é, sobretudo, aquele português a quem perguntaram, no
aeroporto e em dia de greve europeia dos controladores aéreos, se um atraso de
2 horas lhe fazia transtorno, ao que ele respondeu que não, que o que lhe fazia
transtorno é ter de emigrar.
O programa
dura há mais de dois anos e ataca-me cinco dias na semana. Ou seja, já ouvi pr’aí
uns quinhentos a dizerem as mesmas coisas, mas verifiquei que a sua página no Facebook
tem 3458 “gosto”.
Ainda bem
que há quem goste. Talvez a Alice Vilaça não tenha de emigrar.
3 de fevereiro de 2014
Há gente com sorte
Pois há, há
gente com sorte. Eu, por exemplo.
Imagine-se
que uma nora chega e diz: comprei bilhetes para irmos as duas ao espetáculo do
Michael Bublé.
A sogra fica
um bocado aparvalhada, mas logo reage com satisfação, se não mesmo júbilo, por
muitos motivos, e todos fáceis de identificar.
E fomos.
Ontem.
E cantámos,
dançámos, batemos pé, e palmas, balançámos, rimos, assobiámos (ela, que eu não
sei).
Aquilo
estava cheiinho, e como sempre me sinto maravilhosamente no meio duma multidão
que se juntou pelos mesmos afectos, divertimentos ou reivindicações, escusado
será dizer, (ou não), que foi uma noite e peras, daquelas em que um peso nos
sai de cima, enquanto uma quase prece nos vai saindo das entranhas e sussurrando
– saudades de ti, ó normalidade!
Falta dizer
que, em palco, Michael Bublé é um jovem homem afável e feliz com o sucesso.
Falta ainda
dizer o mais importante: o Michael Bublé canta muito, muito bem.
Ooops, falta
ainda acrescentar que me diverti “à ganância” graças a uma nora, assim se
confirmando que isto anda tudo ao contrário, mas que isso nos pode surpreender
pela positiva mais vezes do que aquelas que conseguimos imaginar.
31 de janeiro de 2014
Pergunta retórica

“… mais cedo ou mais tarde, esta
mistura explosiva de ignorância e de poder vai rebentar-nos na cara.”
Carl Sagan,
“Um Mundo Infestado de Demónios”
(escrito em meados da década de 1990).
“Todos os
direitos das pessoas podem ser referendados”
Hugo Soares,
deputado do PSD (JSD), Janeiro 2014
Pergunto
retórica: Hugo Soares nasceu, exclusivamente, para dar razão ao Sagan, não foi?
É que não lhe consigo encontrar nenhuma outra utilidade.
É que não lhe consigo encontrar nenhuma outra utilidade.
30 de janeiro de 2014
A velhice é lixada (com f…)
Quando
acabei de ler este artigo de Mário Soares no Diário de Notícias fiquei, assim, como
dizer… envergonhada.
Nunca fui
socialista e, muito menos, soarista, mas, caramba, Soares foi Primeiro-ministro
e Presidente da República; não é pai da democracia, longe disso, mas é uma das
suas referências.
Fica-se
triste quando é tão evidente o declínio dum homem. E ainda mais quando a
direita trauliteira está com as garras de fora.
O citado
artigo, todo ele construído numa escrita demasiado pobre, quase infantil, não é
mais que uma amálgama de lugares-comuns, vacuidades, slogans mal alinhavados,
populismo básico, falta de pensamento político e até de incompreensíveis
“esquecimentos”.
Dizer que o
governo está paralisado é mera escrita automática, e escrever que no tempo de
Salazar, na província, as crianças andavam descalças mas não passavam fome só
se pode deixar passar se acreditarmos que o velhinho está senil; e eu acredito.
Assim sendo,
tenho pena que ninguém “tome conta dele”, e o impeça de continuar a escrever
estas pobres e patetas redacções, servidas gratuitamente a quem lhe guarda
rancor há quarenta anos.
Suspeito que
família e amigos talvez tentem, mas também suspeito que a soberba de Mário
Soares só a tumba a levará.
Mesmo assim,
não gosto de assistir à queda dum homem.
De nenhum
homem.A velhice é f*#%&@!
29 de janeiro de 2014
Há mais mundo
“Um pouco mais de sol - eu era brasa”
Mário de Sá-Carneiro,
Quási
Imagem:
Rússia, São Petersburgo, junto à Fortaleza de São Pedro e São Paulo.
Foto de
Alexander Demianchuk/Reuters28 de janeiro de 2014
Sim, proibir!
Tenho lido,
nos últimos dias, excelentes textos contra as praxes.
A maioria
dos seus autores, porém, manifesta-se contra a sua proibição, quer por serem naturalmente
contra as proibições e entenderem que elas estimulam o apetite pela coisa
proibida, quer por acharem que também é responsabilidade do aluno praxado dizer
“não”.
Tudo verdade,
democrático e aplicável, quando as coisas ainda não saíram fora do controlo, e
se quisermos fingir que ignoramos quão devastador é o ostracismo na vida dum
jovem estudante.
Não sendo
simpatizante das proibições, e nem as admitindo para as questões da vida privada,
parecem-me, contudo, frequentemente necessárias na vida pública; mais −
parece-me que elas nos têm ajudado a evoluir civilizacionalmente.
Só para
falar da contemporaneidade, vale a pena lembrar que, se a aplicação de penas
severas por conduzir com excesso de álcool no sangue não estivesse na lei, se
calhar ainda hoje estaríamos a pedir a última bebida “para o caminho”; se a lei
não tivesse criminalizado a violência doméstica, o mais certo era estarmos
ainda a encolher os ombros e a dizer - “entre marido e mulher, não metas a
colher”.
Nenhum dos
argumentos aduzidos me fez recuar na ideia que aqui deixei de que só a força proibicionista da lei pode parar esta agressão consentida.
Grandes
males, grandes remédios!
Temos pena,
mas é assim.27 de janeiro de 2014
O ovo da serpente
O país
acordou, subitamente, para o tema “praxes”.
Até aquele
homem muito perigoso, que resolve tudo sozinho ou com os seus amigalhaços –
desde os programas de matemática até às bolsas de doutoramento − e que dá pelo
nome de Nuno Crato, achou que não podia ficar de fora da refrega e continuar a
assobiar para o lado.
E que faz
este homem muito perigoso que não tem por hábito ouvir ninguém?
Ó céus, vai OUVIR
reitores e associações de estudantes.
Findas as audições,
já se sabe, cada um voltará para o seu canto, e dará, a seu modo, uso às
insígnias da praxe:
- O ministro
continuará a usar a tesoura para fazer mais cortes.- Os praxistas continuarão a brincar com colheres de pau e mocas.
- Os reitores ficam com os penicos (maravilhosas insígnias da insigne academia portuense) visto que se borram de medo quer do ministro, quer dos estudantes praxistas.
Periodicamente
voltaremos ao tema, provavelmente quando morrer mais alguém.
E o ovo da
serpente continuará, paulatinamente, a crescer entre nós.
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