16 de janeiro de 2014

Felicidade


 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
A felicidade não será o coração desse momento culminante, “essa espécie de eternidade fugidia” (MF) em que o homem se encontra para logo se perder?

In “Felicidade em Albert Camus”
Marcello Duarte Mathias
D. Quixote

MFA Morte Feliz, Albert Camus

Nota: encontrei a imagem aqui reproduzida no Facebook há algum tempo, mas desconheço a sua autoria, o que lamento.
Foi tirada no final da guerra e nela um menino, que julgo austríaco, acaba de receber uns sapatos.
Reproduzo-a por ser tão comovedora e por nela encontrar “essa espécie de eternidade fugidia”, esse momento raro e fugaz de completa felicidade.

Nota 2: segundo informação que me chegou dum amigo através do Facebook, mas  posterior à publicação inicial deste post, trata-se de uma fotografia de Gerald Waller, tirada em 1946 num orfanato austríaco e publicada na revista Life
Já agradeci a informação, mas volto a fazê-lo aqui.



 


 

15 de janeiro de 2014

O futuro de Paulo












 
 
 
 
 
Que será que ele prepara para o seu futuro artístico no pós-espectáculo que está em cena há dois anos e meio?
Eis a pergunta que me coloco ultimamente quando assisto a alguma actuação do artista Paulo Portas.

É natural que o artista suspeite que o seu número já esgotou a atenção do digníssimo público e, como não descura a carreira, certamente lá terá os seus planos de desandar para outros palcos.

Daí que não me tenha admirado com esta notícia do Público do dia 11/01/2014 − Especulação cresce no CDS sobre possível escolha de Paulo Portas para comissário europeu.

Ora aí está um enorme palco que o artista consideraria digno de si, pensei, mas, como se lê na notícia, o próprio achou tal hipótese descabelada, uma vez que se estava a candidatar a presidente do CDS para mais dois anos de mandato.

Logo percebi que o artista tem razão, porque nunca uma tal coisa se viu por aqui – abandonar um lugar para que se foi eleito para ocupar outro para que se foi escolhido. Ora, ora, nunca, nunquinha, jamais!

Além do mais, se é o próprio Paulo Portas que nega uma tal hipótese, então só podemos acreditar; é que, por aqui, todos estamos carecas de saber que o mentiroso é só um − Sócrates.

14 de janeiro de 2014

Merkel já tem um javali













 
 
 
O acidente de frau Merkel, quando praticava esqui numa estância Suíça, provocou alguns sorrisos e algumas piadas, mas poucos repararam, julgo, na notícia mais completa do DN Economia – Esquis de Merkel tinham 25 anos e eram da RDA
“…as mais de duas décadas de uso terão deixado as suas marcas, sobretudo, em materiais como a madeira.”, escreve-se .

O título da notícia e o respectivo desenvolvimento, sabemo-lo hoje, constituem todo um programa e um modo de vida.

Esta aventesma que nos calhau em (pouca) sorte, gere a sua vida, provavelmente a sua casa, e seguramente o continente europeu, como uma dona de casa bronca e avarenta que não hesita em pôr a vida em risco por estar obcecada com a poupança.
O mealheiro é a sua prioridade (suponho que o porquinho já terá virado javali) e, por mais que lhe digam que, quem pode, deve consumir porque isso é bom para todos, ela não se deixa convencer.

Tramado mesmo, é que esta mulher, passados 24 anos sobre o fim da RDA, continua sem conseguir perceber um princípio elementar do sistema capitalista que professou − dinheiro faz dinheiro.

Não será burra, mas lá que tem uma estranha inteligência, isso tem.

13 de janeiro de 2014

Na “Estação Meteorológica”


 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Sinto sempre um misto de euforia e gratidão quando encontro alguém que consegue verbalizar o que apenas pressenti nas catacumbas de mim.

“Pela morte de Eusébio, as televisões subiram a um desses picos já conhecidos e mostraram, mais uma vez, a violência que são capazes de exercer sobre a nossa vergonha. A vergonha, cuja relação com a culpa foi estabelecida pela psicanálise freudiana, é o índice de uma intolerável proximidade de alguém, que é sempre outro, por mais familiar que seja, em relação à intimidade do Eu: é um mal-estar perante o sentimento do Eu mais íntimo. Sentimos vergonha por ouvir os relatos, os comentários e as reportagens dos jornalistas porque há algo em nós que se sente ameaçado, denudado, com tais palavras e atitudes.”

António Guerreiro, Estação Meteorológica, Ípsilon, 10 Janeiro 2014

Imagem: pintura de Anselm Kiefer, pintor alemão nascido em 1945, cujas pinturas, não raro, também provocam mal-estar, mas de sinal contrário.

10 de janeiro de 2014

Aniversário


 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 


Este blogue completa hoje três anos.

Nunca teve uma bonita epígrafe e, sobre ele, apenas escrevi que nascia “porque sim”.

Na verdade ele nasceu em resposta a um dos meus filhos que, depois duma muito aguerrida troca de emails sobre Cristiano Ronaldo (imagine-se), me desafiou a fazer um blogue. Respondi que não, claro, é um velho hábito; que não seria capaz de o “sustentar”, que era uma leitora e não uma escrevinhadora, etc..

Meses mais tarde, porém, aventurei-me.

Passaram três anos e 861 posts. Da experiência, destaco como mais importante a disciplina de pensar sobre o que vai acontecendo, também a disciplina da atenção ao que vai acontecendo, o “encontro” com outros bloggers, o prazer de escrever e, mais recentemente, o prazer de limpar a escrita, isto é, despojá-la do não essencial, o que, por enquanto, é mais um objectivo do que uma realização.

Por aqui vão passando leitores, frequentes ou esporádicos, para sempre desconhecidos.
Haverá outros menos desconhecidos. A todos agradeço a “viagem”, e, sem temer a pieguice, ouso dizer que essas vossas “viagens” me sensibilizam.

Três anos passados, preciso também de deixar aqui um agradecimento especial ao tal filho atrevido que, escrevendo mais e melhor que eu, me lançou o repto em 2011, sem o qual esta minha pequena aventura nunca teria existido.

Tchim, tchim!

9 de janeiro de 2014

Palavras - Cruciante


 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Cruciante – adj. unif. – angustiante, aflitivo, lancinante, mortificante, pungente.

Dicionário de Sinónimos, Porto Editora

Foto Flickr

8 de janeiro de 2014

A fita amarela
















Caros concidadãos, sabeis que raio de coisa é aquela espécie de minhoca gorda e amarela ali em cima na fotografia?
Pois ficai sabendo que é uma passadeira por onde eu devia atravessar a rua.

Explico: esta rua foi todinha asfaltada antes das eleições de Setembro.
Olaré! Ficou cá com uma pinta, toda vestida de preto escuro…
Como adereços, não sei se por falta de tempo ou de dinheiro, foram colocadas no chão umas fitas amarelas, usadas nas obras, antes das definitivas marcações brancas. Até hoje.

Com o passar dos dias e dos meses, estas fitas acabaram por entregar a alma ao criador, como se vê, e salvo seja.

Atravessar a rua de manhã é cena que podia figurar como “evento” no catálogo dum qualquer clube aventura.

Se ouso pôr o pé fora do passeio, para indicar a minha intenção, logo levo com um dedo médio em riste; por trás dos vidros vejo também bocas abertas, com mais ou menos dentes, vociferando contra o raio da cota, para o que lhe havia de dar, lembrar-se de atravessar a rua!
Uff, aguenta coração.

Quantos meses faltam, mesmo, para as eleições autárquicas?
Quarenta e cinco?
Estou tramada!

7 de janeiro de 2014

Do ciberbullying na idade madura



Se há coisa que não nos falta por cá é gente espirituosa.
As redes sociais são o laboratório liceal por excelência para os de espírito testarem a sua grandeza.
Podem postar qualquer parvoíce, ou brincadeira de gosto duvidoso, que logo uma centena de incondicionais sinaliza que gosta.

São coisas lá deles, mas há uma espirituoso mania que sempre me deixa “por cima das azinheiras” – a irresistível tentação de, jocosamente, julgar os outros pelo seu aspecto físico e, dentro dessa acanhada e púbere visão, ir insinuando que, se são assim feios, também serão, certamente, estúpidos e incapazes.

Assumo que não somos, de facto, um povo bonito nem refinado, e que olhar a maioria das nossas figuras públicas, sobretudo as da área política, não me proporciona nenhuma emoção estética, mas a sua falta de beleza não me agride.

O mesmo não posso dizer da falta de elegância e tino dos que, sendo já muito maduros, não desistem de praticar esta espécie de bullying.

6 de janeiro de 2014

A gente


 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Mesmo que se seja do tipo anglo-saxónico e se ache que eles devem sair de casa aos 18 anos, a gente sempre gosta de os saber perto.
Mesmo que as partidas não sejam impostas, a gente sente lonjuras.
Mesmo se é tudo por bem, a gente quer que o estrangeiro se dane.

E a gente pode deixar de gostar de coisas de que sempre gostou − aeroportos, viagens, e dessa entidade abstracta e mítica a que chamamos “lá fora”.
A gente pode, sim, oh! se pode!

3 de janeiro de 2014

Uma coisa boa do ano passado


 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
“Da orquestra, brotava, precisamente agora, o enigmático Leitmotiv: “Não perguntarás.” E parecia-me que, naquela mística sucessão de sons, naquelas duas palavras, eu decifrava a súbita revelação de uma sabedoria oculta e muito antiga. “Não perguntarás.” Não procures o fundo das coisas, ou acabarás por te afundar, também. Não busques a verdade: não a encontrarás e perder-te-ás a ti mesmo. “Não perguntarás.” A porção de verdade que te é útil é-te dada gratuitamente, e chega-te misturada com erro e mentira, mas é para teu bem, uma vez que, em estado puro, te queimaria as entranhas. Não tentes purgar a alma de mentiras, porque com elas, irão muitas outras coisas em que não pensaste, e ficarás vazio de ti mesmo, e de tudo o que tem valor para ti. “Não perguntarás.”

O Doutor Glas
Hjalmar Söderberg (2/7/1869, Estocolmo – 14/10/1941 Copenhaga)
Ed. Relógio D’Água

2 de janeiro de 2014

Apetites




















Ontem decidi que hoje escreveria aqui uma bela redacção onde encaixasse termos como: Ame, Acredite, Sorria, Relaxe, Chore, Faça Amigos, Reze, Sonhe, Perdoe, Viva, Seja Feliz, etc..
Era bonito, não era?
Era pois, mas não me apetece.

Até amanhã.

31 de dezembro de 2013

Ano Novo




No próximo ano talvez fiquemos sem a TAP.
Felizmente, os governantes/vendedores nunca conseguirão vender a cidade de Lisboa.

Neste vídeo vê-se a aproximação à pista e a serena aterragem dum Airbus A330 da TAP, filmadas pelo comandante, no aeroporto de Lisboa.

A cidade anoitece e apetece, à luz dum crepúsculo tão transparente e leve quanto tranquilo.

Soberbas imagens para, com elas, aqui deixar o desejo de um Bom Ano 2014 para todos nós.

30 de dezembro de 2013

Pangloss









 
 
 
Quem passou pela baixa lisboeta no fim de semana anterior ao Natal encontrou, nas ruas, uma multidão maior do que na maioria parte das manifestações.
Oiço agora que os hotéis na Serra da Estrela estão esgotados para o final do ano.
Concluo que, uma grossa fatia da classe média urbana não empobreceu.
Ainda bem. Não defendo o empobrecimento.

Devido à greve, as ruas de Lisboa estão cheias de lixo do que se comeu, do que se bebeu, do que se comprou e do que se ofereceu.
Não foi assim tão pouco, pelo que vejo.
Ainda bem, dado que não defendo o empobrecimento.

Os cantoneiros da Câmara de Lisboa fazem greve durante cinco dias, seguida de outros tantos com greve às horas extraordinárias.
Devem ganhar muito bem, para aguentarem tantos dias de greve.
Como não defendo o empobrecimento, volto a dizer, ainda bem para eles.

O pessoal anti-Costa (António) aproveita para nele malhar, culpando-o da estrumeira em que vivemos, mas nunca diz o que acha que ele devia fazer – ignorar a lei da greve e contratar substitutos, ou ceder à exigência dos cantoneiros que recusam a restruturação do serviço.

Pessoalmente, parece-me que ele está fazendo tudo bem, exactamente porque defendo a democracia e as suas leis – uns fazem greve, e os outros respeitam-na.

Pelo seu lado, a tal classe média que comeu, bebeu, comprou e ofereceu, não está disposta a guardar lixo no apartamento durante 10 dias, e larga-o na rua.
Cada um trata de si, como de costume. So what?

Olho à volta e decido, por uma vez, pensar como Pangloss: “as coisas não podem ser de outra forma” ou “tudo vai pelo melhor no melhor dos mundos possíveis”.
E assim pretendo terminar o ano.

27 de dezembro de 2013

Uma história com moral


 

 
 
 
 
 
 
 

 
 
Esta é a crónica que Miguel Esteves Cardoso assina hoje no Público.
A meu ver, a escrita está cada vez mais pobre, quando não com português “macarrónico” – efeito duma escrita que se faz da mão para a boca − mas a história é boa e bem adequada à época.
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Eis uma história que aconteceu. Aconteceu numa pequena loja japonesa em Paris. A dona – uma senhora gentil a quem aconteceu a história que nos contou – deu por falta de dois pacotes de chá Gyokuro, caríssimo, logo no dia em que chegaram.

Um mês depois apareceu na loja um cliente antigo, dono de um restaurante, a quem tinha sido dado o privilégio de levar o que precisava e pagar só três meses depois, depois de ter recebido as contas das pessoas que lá iam almoçar e jantar. Tratava-se de um empréstimo generoso: só pagava o que vendia depois de ter vendido, por quatro vezes o custo, aquilo que tinha comprado.

O dono do restaurante lucrou tanto com o roubo como com o crédito. Sendo um indivíduo ladrão mas honrado, voltou à loja para confessar que tinha roubado o chá e com o dinheiro, o valor exato do que tinha roubado. A dona da loja começou a chorar.

Nunca tinha pensado que aquela pessoa, tão amiga (conhecia e simpatizava com todas as dificuldades da família dela), era capaz de roubá-la. Recusou o pagamento. E disse-lhe: “O senhor roubou a minha alma e a minha confiança em si. E isso não pode ser pago em dinheiro. Eu perdi um cliente de quem gostava. Não há dinheiro que pague o que eu perdi”.

O marido e sócio da senhora, quando soube da recusa dela, compreendeu-a mas disse: “Tu és muito dura”.

Mas não foi dura: foi justa. E foi leal à amizade que o cliente quebrou. A confiança é um tesouro. E os tesouros roubados deixam de sê-lo.

23 de dezembro de 2013

Boas Festas



















Para os que gostam e para os que não gostam.
Para os crentes e para os não crentes.
Para os solitários e para os sociáveis.
Para os saudáveis e para os menos saudáveis.
Para os optimistas e para os menos optimistas.
Para os felizes e para os não felizes.
Para os resistentes e para os desistentes.
Para os que têm meios e para os que ficaram sem meios.
Para os que conheço e para os que invento.
Para os amigos reais e para os virtuais.
Para este, aquele, e toda a gente que por aqui passe
ou me encontre ao virar da “nuvem”…

Boas Festas

20 de dezembro de 2013

Palavras - Sublime


 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 Sublimeadj. unif. – transcendente, grandioso, magnífico, admirável, elevação de pensamento e beleza de expressão.
Dicionário Porto Editora
 
…divino, celeste, sobrenatural, superior, insigne…
Dicionário de sinónimos e antónimos Houaiss
 

 

19 de dezembro de 2013

A importância de se chamar Gato Fedorento









 
 
Espanta-me que, seis dias passados sobre uma porcaria dum programa humorístico, o país continue a discutir se o mesmo foi bom ou mau, por que razão não teve graça, ou será que teve mas poucos a viram, porque entrou o jornalista Rodrigues Guedes de Carvalho na farsa, mas terá sido uma farsa ou será tudo um mero golpe de marketing para o que virá a seguir, poderá um jornalista espirrar, tossir ou ter caspa e ainda assim continuar jornalista, poderá um jornalista do DN escrever sobre um seu colega da SIC pondo as coisas no seu lugar ou terá alguma coisa mais em vista, foi aquilo um sketch corajoso por se querer dar um banano no Paulo Portas e por chamar bandidos aos governantes ou, pelo contrário, sublimou os desejos reais de violência e ajudou à manutenção da paz social podre fazendo um frete ao governo?

Estas e outras questões, perguntas e conspirações continuam a ser discutidas nas redes sociais, tantos dias depois, como se se tratasse de algum acordão do Tribunal Constitucional, pr’aí, ou quiçá duma decisão irrevogável do do banano.

Uma pessoa quase se esquece que aquilo foi um programa de humor. Apenas.
Eu até acho que as redes sociais são, hoje em dia, o recreio dos adultos, mas, ó gente, há dias em que aquilo lá no Facebook já não me parece o pátio do recreio – parece-me mais o pátio dum manicómio.

18 de dezembro de 2013

Da falta de luz e do excesso de lata










Há um blogue no Expresso online, chamado Luz e Lata, alinhavado por uma senhora chamada Fátima Pinheiro, que me deixa muito perplexa, para não dizer mesmo desorientada.
Quanto à Luz, a Fátima deve-se ter esquecido de pagar a conta; já no que toca à Lata é, de facto, desmedida.

Devo confessar que, chegada ao fim da leitura, não percebi nada do que ela quis dizer -  se é que a Fátima quis dizer alguma coisa, porque desconfio que se fica apenas pelo gozo adolescente de juntar palavras e ver o efeito que fazem assim alinhadinhas, numa espécie de onanismo espiritual.

Deixo aqui o link, para apreciação na íntegra, do inenarrável post de segunda-feira, intitulado ” Há quem goste das segundas”, embora não resista a transcrever o seu final:

Hoje é 2ª feira, gosto dela, decidi querê-la. É a primeira. E ela é primeiro, convém lembrar-me.

MA-RA-VI-LHA!, clamo eu.
Mais maravilhoso, porém, é o comentário ao texto deixado por um leitor chamado LastMonk, que escreveu assim:

“Este blogue devia chamar-se: "Como eu enfrento a Menopausa e o Divórcio, com a ajuda de Cristo, seus discípulos e meia dúzia de filósofos, a Bimby e mil e uma maneiras de me ocupar, não vá ter, Cruz Credo, uns minutos para passar comigo mesma.”

E ainda dizem que as caixas de comentários dos jornais são meras caixas de esgoto. Pelo menos neste caso, o esgoto está fora da caixa.
 
 
 


 

17 de dezembro de 2013

De novo a interpretação











 
 
O humor em Portugal quase sempre foi curto e grosso, isto é, com muito recurso ao palavrão e ao sexo; o sarcasmo, mas sobretudo a ironia fina, nunca fizeram o nosso género.

O caso mais recente em que tal se verificou foi o da entrevista que Rodrigo Guedes de Carvalho deu a uma sua colega depois da exibição do programa dos Gato Fedorento.

Nessa entrevista, ele lamenta, com ar sério, a sua participação naquela “parvoíce” e diz que “foi atraído para uma armadilha”.

Rodrigo Guedes de Carvalho revela ser, ao contrário da colega que o entrevista, um excelente actor, respondendo assim a quem o atacou por, supostamente, um jornalista não poder entrar naquelas brincadeiras.

Contudo, parece ter sido entendido à letra por uma enormidade de pessoas inteligentes.

O programa certamente foi preparado durante semanas; o Rodrigo tinha na mão as “deixas” escritas; a SIC é um canal nacional cheio de profissionais onde as coisas não vão para o ar ao acaso.

Seria, então, crível que a SIC deixasse que um seu pivô fosse atraído para uma armadilha? E seria também crível que mandasse, logo de seguida, alguém fazer-lhe uma entrevista risonha como acto de contrição?

Não. O único “pecado” de Rodrigo Guedes de Carvalho foi ser convincente, e usar demasiada ironia e subtileza para um país que, cheio de pressa, só vê metade, só ouve metade, só lê metade, e logo tira as suas conclusões.
Que são sempre por inteiro.

A entrevista pode ser vista aqui.

16 de dezembro de 2013

Alegria no coração


 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Esta é uma semana que começo com verdadeiro alívio e alegria no coração – Nelson Mandela já foi enterrado e o museu do Ronaldo já foi inaugurado.
Vou, então, comprar o bacalhau.  

13 de dezembro de 2013

Uma biografia em 654 caracteres



 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Nasceu sob o signo do Sagitário.
À entrada da adolescência foi para casa aprender a ser doméstica.

Aos 20, casou e teve filhos.
Aos 40, viveu duramente a guerra colonial na pessoa do filho, e as lutas estudantis na pessoa da filha.

Na sua década dos 50 ficou viúva.

Na sua década dos 60 ajudou a educar netos.
Lá para o fim dos seus 70, teve telemóvel e aprendeu a enviar SMS aos netos. Também decidiu mudar de casa. E mudou.

Já nos 80 mexeu, pela primeira vez, num computador, e rapidamente se ligou à internet – lê notícias, fala com filhos, netos e amigos distantes pelo Skype, envia emails à sua médica de família a pedir receitas, visita os lugares onde a família vai ou foi, consulta o extracto bancário.

É uma resistente, é minha mãe, e faz hoje 87 anos.
Ah, ah, morram de inveja!
Parabéns, MÃE.

12 de dezembro de 2013

Artistas


 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Ontem, Manoel de Oliveira completou 105 anos de vida.
Diz ele que, como prenda de anos, queria financiamento para um novo filme orçado em 350000 euros.

Assumindo-me muito politicamente incorreta, acho que Manoel de Oliveira não terá o dinheiro, até porque não o há mas, se houvesse, defendo que também não o devia ter.

Cento e cinco anos são cento e cinco anos são cento e cinco anos.

Não vamos ser hipócritas, vamos antes assumir que com tão provecta idade ninguém está em pleno gozo das suas capacidades; ao contrário, está num processo evidente e acelerado de declínio e perda.
A sua vida de trabalho cumpriu-se, e cumpriu-se bem.

O reconhecimento internacional que teve está a ter continuidade em vários jovens cineastas portugueses, e são eles que agora precisam dos apoios de que Oliveira já bastamente usufruiu.

No fim de contas, talvez ninguém os venha a ter, nem velhos nem novos, por as suas consciências não lhes permitirem aceitar o novo regulamento de apoio ao cinema que, nas palavras de António Pinto Ribeiro no Ípsilon de 6 de Dezembro nos coloca à beira “de um racismo cultural onde tudo o que não for “bom português” – na representação nacionalista dos autores e dos governantes responsáveis por esta norma – não pode ser apoiado. Porquê? Por não ser reconhecido como cinema português”.

Este regulamento, segundo o mesmo autor, e no mesmo artigo de opinião, excluiria muitos dos filmes do próprio Manuel de Oliveira.

O título do artigo a que me refiro é “Normas para filmar, vigiar e punir”, e do que li pareceu-me que o que se perfila no horizonte é, tão-só, tenebroso.
No cinema, como em tudo o resto, afinal.

 
Ontem também tivemos notícia da morte do pintor Nadir Afonso, aos 93 anos.
Se Manoel de Oliveira diz "Eu penso que no país há uma grande indiferença pelo que já realizei. Tanto faz que o meu cinema exista ou não exista", que terá pensado Nadir ao longo da sua vida de trabalho?

11 de dezembro de 2013

A corrupção explicada às criancinhas













 
 
“Existe um núcleo duro da advocacia instalada nos grandes escritórios que é chamado para fazer as leis. Depois editam livros sobre essas leis que criaram. A seguir vendem formação relativamente à mesma legislação. Por fim atendem clientes sobre a aplicação dessa lei. São eles os primeiros a encontrar os buraquinhos da lei que eles próprios criaram, por negligência ou dolosamente. Tem que haver um revisitamento do regime das incompatibilidades do exercício de cargos públicos, em nome de um Estado de direito verdadeiramente democrático. O facto de não haver exclusividade dos deputados é um problema, porque de manhã ele pode atender um cliente na função de advogado e à tarde fazer uma lei que o favoreça.”

Elina Fraga, nova bastonária da Ordem dos Advogados, em entrevista ao Público em 7/12/2013

Vontade de perguntar: e então, Elina, que fará com esta sua (tão pouco recomendável) gente?