14 de junho de 2013

Tudo isto existe

Pode passar meio século sobre um grupo de pessoas que nada nele muda.

E o grupo não muda porque as pessoas individualmente não mudam.

As condições de vida podem variar um pouco, mas a circunstância em que nascemos e crescemos nos nossos primeiros anos fica-nos para sempre colada à pele.

Pode-se crescer e mudar emocional e intelectualmente, mas a essência de cada um permanece.

Assim, tensões, cumplicidades, dissimulações, e, o mais espantoso, a luta de classes, continuam, sem que os elementos do grupo disso se apercebam (a maioria nunca se apercebeu, aliás).

Contudo, o que era divertido e normal aos 15 anos pode ser deplorável aos 60.

Passados 50 anos, olhar um grupo que a juventude juntou aleatoriamente é o mesmo que olhar um país inteiro, que, vivendo um momento particularmente difícil da sua história, se divide entre os que fazem de conta que nada se passa, assobiam para o lado e alimentam a portuguesíssima saudade, e uns quantos que esperneiam querendo agitar uma paz podre que, se umas vezes é de cemitério, outras é de jardim-de-infância à hora da sesta.
Vencem os primeiros, por serem largamente maioritários.

Sei que tudo isto existe, acho triste, só não sei se é fado.

13 de junho de 2013

O Mediterrâneo já está a arder?


 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Espanha, Itália, Grécia, Chipre, Turquia, Síria, e Portugal mais ao lado.

A brutalidade do que está a acontecer aos povos destes países faz pensar que estamos diante do desastre bíblico dos tempos modernos.

Num mesmo dia, vi o governo grego fechar a rádio e a televisão públicas, Erdogan não olhar a meios bélicos para retirar os turcos em protesto da praça Taksim, e o nosso pequenino Crato, que tem pena de não ser um Samaras ou um Erdogan a afiar os dentes, qual lobo esfaimada, contra os professores.

Ninguém dialogou, ninguém negociou, ninguém quer conversar. São todos ditadores, legitimamente eleitos (onde é que já ouvimos isto?), ao serviço dos credores, das troikas, dos seus projectos pessoais de poder, ou da religião.

Se algum dos políticos europeus se lembrar de perguntar “O Mediterrâneo já está a arder?” a resposta é, indubitavelmente – SIM.

O fogo está, por agora, circunscrito, mas ameaça ficar fora de controlo a qualquer momento. Acresce que, devido às medidas de austeridade na Europa, os bombeiros foram despedidos.

Sem combate às chamas, e com a barreira do mar a Sul, o fogo dirigir-se-á, inexoravelmente, para Norte, e a Europa corre o risco de ser engolida pelas chamas.

O Mediterrâneo já está a arder.

Nota: a fantástica imagem ali acima foi encontrada no Facebook, postada pela página Reflections on a Revolution, dedicada aos acontecimentos na Turquia, e tem com legenda em inglês:

If even grandma is attacking you, you definitely know you're on the wrong side..

12 de junho de 2013

Nicolau foi a Veneza

Não queria, juro que não queria voltar a falar disto, mas sou fraca.

Lendo o Atual do Expresso de 8 de Junho, topo com uma página inteirinha e laudatória dedicada à nossa Joana na Bienal de Veneza.

O texto deixava muito a desejar, mais parecia um panfleto publicitário carregado de banalidades e de afirmações encomendadas do tipo “o país sai honrado pela escolha de Joana Vasconcelos”.

A meio da leitura já eu me interrogava sobre a sua autoria – o escriba, afinal, era Nicolau Santos, o homem da economia, que “viajou a convite de Pré-Build”.

Ok, entendido.

Porém, uma dúvida me fica: será que o Celso Martins, ou o José Luís Porfírio, que costumam escrever sobre arte no Expresso, não quiseram ir?

Ou será que o Nicolau agarrou no convite e pensou: eu é que sou o director-adjunto e não vou perder esta borla com tudo aquilo a que tenho direito – viagem, jantar feito pelo chefe Avilez e degustado na companhia dos manos Portas, concertos e Dj no tombadilho do cacilheiro atirando música aos canais pela noite fora.

Com a dúvida ficarei, mas daqui te saúdo Joana, por fazeres tantos amigos felizes.

11 de junho de 2013

Estamos vivos

O fim de semana grande decorreu sem sobressaltos.

Continuou o tempo cinzento com chuviscos, Passos foi assobiado em Elvas, Aníbal aconselhou-nos a fazer desporto, Maduro disse mais umas parvoíces convencido que tem graça, e a Teresa Tarouca foi condecorada, provando-se assim que na casca dos fósseis também é possível pôr comendas.

Fartinha de tanto humor negro, também eu tranquei portas e janelas, desliguei a internet e fui para Serralves.

Encontrei lá muitos milhares, que era dia de festa, e pareceu-me que estávamos todos em busca duma normalidade perdida há demasiado tempo; o mesmo se passou depois na Feira do Livro de Lisboa, alameda acima alameda abaixo, milhares e milhares, todos com cara de quem pensou: queremos as nossas vidas!

Desejosa que estava de ver as exposições de Serralves, confesso que saí um bocadinho desiludida.
− Alberto Carneiro, ainda que mal lhe pergunte, tantos espelhos é para quê? E não lhe parece que anda a ver a natureza demasiado barroca?

Quanto aos desenhos de Jorge Martins, que os há magníficos, pareceu-me que talvez o artista tivesse tido necessidade de despejar o ateliê para pintar as paredes, e aproveitasse, para isso, a exposição de Serralves, com a conivência da curadora, claro está.
Eram centenas de desenhos. Por serem tantos, poluíam o espaço, não nos deixando margem para fruir. Uma pena.

Na Feira do Livro de Lisboa fiz o que sempre faço − comprei clássicos a menos de 5 euro, e gosto disso.
Entre Serralves e a Alameda do Parque pareceu-me que ainda estamos vivos.
E também gosto disso.

Do morto-vivo que falou de agricultura no 10 de Junho é que não gosto, nem vale a pena falar.



 

7 de junho de 2013

Estou indo
























Faça chuva ou faça sol, vou daqui até Serralves para ver Alberto Carneiro, Jorge Martins e quem mais quiser mostrar-se.
Bom fim-de-semana.

 
Imagem daqui


6 de junho de 2013

Não comprei "Servidões"



 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Acredito que Herberto Helder é um excelso poeta.
Acredito que eu sou demasiado “quadrada”para o ler com deleite.
A partir daqui, já não acredito em mais nada, mesmo correndo o risco de estar enganada:
Não acredito que a edição esgotou.
Não acredito que não haverá nova edição.
Não acredito que todos os que comparam “Servidões” estejam mortinhos por o ler.
Ah, afinal sempre acredito em mais qualquer coisa:
Acredito no marketing e nas suas artimanhas.


5 de junho de 2013

Pior é impossível


Eu já elegi a pior frase do primeiro semestre de 2013, porque me parece que daqui até ao fim do mês pior é impossível. Embora...

Mira Amaral sentenciou:

“Se a Alemanha gosta de Victor Gaspar, também temos que gostar”

Percebo que não há nesta “posição” nada de novo.
Quando a Alemanha toda gostou do Hitler, ”aconselhou” os outros povos a que gostassem também.
Uns resistiram, e outros baixaram as calças.

É estúpido comparar hoje o exercício do poder de Schauble com o de Hitler porque, na verdade, não há comparação possível.

Já quanto aos que baixam as calças diante de quem pode, difícil é não comparar, porque são todos iguais em qualquer tempo ou lugar.
E são execráveis.


4 de junho de 2013

Como?

Esta notícia do Público titula: Professores alertam para "sério retrocesso" com novo programa de Matemática.

A gente vai por ali afora a ler a notícia, e percebe que Associação de Professores de Matemática (APM) não podia estar mais em desacordo com o programa que Nuno Crato decidiu impor em Abril para entrar em vigor já em Setembro. Diz a APM, por exemplo, que o programa entra em “completa contradição” com a visão defendida pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico e que também “contraria as orientações curriculares actuais para o ensino da Matemática a nível internacional, não tendo em conta a investigação desenvolvida neste domínio, quer em Portugal, quer nos países de referência nesta matéria”.

No último parágrafo da notícia, porém, leio estupefacta:

“Já a Sociedade Portuguesa de Matemática (SPM), de que Crato foi presidente, defendeu no seu parecer que a implementação do novo programa da disciplina “será decisiva para que se atinja um patamar de exigência mais elevado, cujas consequências benéficas serão, a prazo, sentidas pelos níveis de ensino secundário e superior, e pela sociedade portuguesa em geral”.

Como? Então, duas organizações que têm o mesmo tema de estudo chegam a conclusões opostas? Uma delas há-de estar, no mínimo, a ser pouco séria.

Se calhar devíamos pedir uma 3ª opinião para desempatar, talvez ao ministro da educação finlandês.
Ou deveríamos antes pedir à troika que fizesse o programa de matemática?

É que me parece que alguma coisa tem de ser feita para salvar as nossas crianças dos bandos de mentecaptos que, a cada momento, se perfilam para jogar à batota com o seu futuro.

3 de junho de 2013

Pequena mas muito incorrecta reflexão, e consequente decisão.

A manifestação de sábado foi um poderoso fiasco nacional.

Pode haver mil argumentos que o justifiquem, mas quando eu estava ali na Avenida da República, frente ao FMI, numa tarde de sol, com mais umas mil pessoas pensei:

- Onde estarão as dezenas de milhares de desempregados, aqueles sem futuro que são velhos para trabalhar e novos para a reforma?
- Onde estarão as dezenas de milhares de jovens que ainda não conseguiram um primeiro emprego?
- Onde estarão as dezenas de milhares de trintões que nunca foram mais que precários?
- Onde estarão as dezenas de milhares de reformados a viver uma asfixia mensal?
- Onde estarão os milhares de casais em que ambos estão desempregados?

Não sei. Só sei que ali não estavam.

Talvez tivessem ido à praia, que o dia, finalmente, estava bom; ou levaram os meninos ao parque porque era o dia da criança.

Mas ali não estavam.

A pergunta seguinte foi inevitável: e tu, que não vives nenhuma dessas situações, que estás tu aqui a fazer?
Devo ter vindo por uma questão de consciência, pensei.

Mas aí a dita, a consciência, percebeu que estava ofendida com as outras consciências, e decidiu, ali mesmo, que enquanto não lhe passar a zanga não carrega o esqueleto para mais nenhuma manifestação.

Moral desta história imoral:

Não foi por acaso que, aqui, a ditadura, durou 48 anos.
Foi porque somos um povo que a tudo se acomoda.


1 de junho de 2013

31 de maio de 2013

Uma fotografia



 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Uma amiga virtual do Facebook que publica muitas fotografias, maioritariamente antigas, postou há tempos esta.
Eu não me canso de olhar para ela(s), e volto sempre.
Bom fim-de-semana.

30 de maio de 2013

Uma verdade elementar

Quem anda por aqui, perto de mim, gosta de me gozar dizendo que eu tenho um ódio de estimação por Jorge Sampaio.        
Não é verdade.

É certo que ele foi uma das pessoas que mais me desiludiu em política, e também continuo a achar que muitos dos males que vivemos hoje têm origem em decisões suas. Porém, isso não é nenhum ódio, muito menos de estimação. Foi apenas um desacordo político, embora dos grandes.

Desde que saiu da presidência, Sampaio remeteu-se ao silêncio sobre o país.
Até agora, quando, logo após o Conselho de Estado, deu uma entrevista a Maria Flor Pedroso na Antena 1 da RDP.

Nessa entrevista falou acertadamente, com base num pensamento político sólido, como lhe é próprio, mas sem proferir, sequer, uma frase susceptível de ser largamente citada ou tomada como bandeira.

O mais importante dessa entrevista, quanto a mim, foi o não-dito.

Creio que, com este seu reaparecimento, Jorge Sampaio tentou, in extremis, que os portugueses não esquecessem uma verdade elementar − a Presidência da República é um importante órgão de soberania que pode, e deve, ser ocupado e exercido com dignidade.

29 de maio de 2013

O incorruptível contra a corrupção

Paulo Morais é figura incontornável das redes sociais. Ele escreve e as pessoas partilham.

Não sei muito sobre este português, a não ser o que li aqui, mas parece-me que tomou a peito travar uma inquebrantável luta contra a corrupção.

Só tem um problema, para mim: é que essa luta parece ser travada contra a corrupção real, a putativa e a imaginada.
O seu artigo de ontem no Correio da Manhã é, como outros, todo um exercício prático sobre a teoria da conspiração, e um elencar de males que o destino nos reserva.
Contra o destino, como se sabe, nada podemos.

Ler sistematicamente Paulo Morais pode levar qualquer cidadão a:
- Cortar os pulsos.
- Tomar drogas duras tipo Valium ou Xanax, e outras cujo nome desconheço, por incapacidade de conciliar o sono.
- Sair de casa sempre armado porque nunca se sabe quando se vai encontrar um corrupto ou uma despesa inútil.

Porém, atenção, caros compatriotas: quem entrar por estes caminhos não verá, como eu tenciono ver, Paulo Morais chegar primeiro a secretário de estado, e, lá mais para a frente, a ministro, que ele ainda é novo e como se diz na minha terra, “faz-se”.

28 de maio de 2013

Trindade santíssima

Estava o Ministro dos Negócios Estrangeiros dum sítio sem liquidez às voltas com o magno problema de saber como resolver, sem cheta, a questão da representação do sítio na Bienal mais famosa da Europa quando lhe surge, vinda do tudo, a artista Joana que lhe diz duma assentada:

- Olhe, senhor ministro, aqui no sítio, como toda a gente sabe, “a artista sou eu” e eu quero ajudar a resolver o seu problema; por isso desde já me ofereço para representar a pátria lá na Bienal e o senhor ministro pode deixar de se preocupar que eu arranjo os patrocínios e tudo. Só lhe peço que indigite também o Miguel como comissário do nada, porque ele é um comissário muito lá de casa, sabe, e gostava.

Como todo o sítio já pôde observar, tudo em Joana é grande, incluindo o coração de talheres de plástico, e por isso ela acrescentou palavras vindas do dito:

− E olhe que ainda lhe faço mais uma atençãozinha, porque vou oferecer à sua mana Catarina a loja no deck do barquito para ela lá vender as bugigangas da A Vida portuguesa.

O Ministro dos Negócios Estrangeiros soltou um suspiro que se ouviu na laguna e fechou o dossiê, não sem antes agradecer a mais que certa intervenção de Nossa Senhora de Fátima (este ministro, quando a coisa mete água e barcos agradece-lhe sempre, desde que em 2003, sendo também ministro, a mesma Senhora nos livrou do derrame de crude do Prestige, segundo o próprio).

Pessoalmente acho que, com um final feliz assim, o país inteiro deve agradecer à Senhora de Fátima mas eu não ficaria bem com a minha consciência se não lhe recomendasse também muito cuidado e olho vivo.

É que, sendo ela tão portuguesa, arrisca-se a que a Catarina a meta no cacilheiro e a venda em Veneza entre vinhos, enchidos, bordados e andorinhas.
Ou que a Joana a forre com renda de bilros.

PS: acho tudo uma vergonha.


27 de maio de 2013

Jornalismo de investigação

Quando há poucos anos o WikiLeaks fez o seu estrondoso aparecimento nas nossas vidas, sob o aplauso quase geral dos jornalistas e ocupando imenso espaço na informação, não percebi tanto entusiasmo sem pitada de dúvida.

Sem negar a relevância da informação exposta, sempre me pareceu que ela tinha sido obtida como quem espreita o vizinho pelo buraquinho na parede.

Se calhar, até hoje ainda não percebi nada, visto que, até hoje, continuo a achar a mesmíssima coisa.

Ora, essa mesmíssima coisa não aconteceu quando este fim de semana, através do Expresso, tomei conhecimento da existência duma organização de jornalistas que dá pelo nome de International Consortium of Investigative Journalists (ICIJ).

Com sede em Washington, congrega 160 jornalistas de 60 países e está a fazer um importante trabalho sobre offshores, seus criadores e utilizadores.

Esta organização dedica-se ao sector (talvez) mais nobre do jornalismo − o jornalismo de investigação, cada vez mais escasso nos meios de comunicação social de todo o mundo.

Rui Araújo, jornalista português pertencente ao ICIJ desde o seu início, afirma no Expresso – “sem jornalismo não há democracia”, e eu acho que sem jornalismo de investigação ela fica pobrezita e periclitante.

Provavelmente, esta escassez de jornalismo de investigação tem que ver com o seu elevado custo face ao baixo interesse do chamado “público”, que, na sua imensa maioria, e cada vez mais, se está borrifando para a investigação e a informação séria e rigorosa.

Sei muito bem que o que estou para aqui a escrever também não interessa nada ao estimado “público”; por isso este post serve apenas para dizer que gostei muito de tomar conhecimento da existência do International Consortium of Investigative Journalists (ICIJ), e que, às vezes, gosto mesmo de ainda gastar dinheiro a comprar jornais.

24 de maio de 2013

A dona da greve

Ontem vi na televisão Ana Avoila, de CGTP, a dizer que marca a greve da função pública quando quiser e não tem que dar contas a ninguém, naquele jeito um bocado labrego que lhe é peculiar.

Quando ela desapareceu do ecrã fiquei a pensar que já não me basta indignar-me diariamente com o governo, com a oposição, com o Presidente da República, com a Justiça, com os bancos, com a Europa etc., ainda tenho de passar a indignar-me também com os sindicalistas. Malapata.

As Avoilas que povoam os nossos sindicatos são, mais ou menos, como os jotinhas, isto é, fazem toda a sua vida dentro da organização que os sustenta, vão ganhando poder, e quando já ocupam lugares com poder de decisão também não se atrapalham - decidem de acordo com o parecer do seu umbigo, indiferentes a uma realidade que desconhecem porque não a frequentam.

Ana Avoila é apenas mais uma que parece não entender nada do sentimento dos portugueses que ainda têm trabalho, e que querem uma greve tão grande quanto possível, para que tenha significado, peso político, e para que valha a pena o sacrifício que fazem e o que impõem.

Ana Avoila quer apenas a sua grevezinha, por si decidida e manobrada.
Ana Avoila é poucochinha.
Ana Avoila, a sindicalista, está tão impreparada para o tempo que vivemos como o governo.
Ana Avoila está há demasiados anos sem trabalhar.
Está só no sindicato.


23 de maio de 2013

Quem sai aos seus...

A entrevista que o pai de Passos Coelho deu ontem ao i é todo um programa do que não se deve dizer e, bem pior, do que não se deve ser.

Falta de tacto, de inteligência, de respeito, de chá, de carácter, mas muita vontade de ter os seus quinze minutos de fama.

Com um pai assim, um filho poderia ser diferente daquele que conhecemos?
Podia, mas era necessária, ao longo dos anos de educação, a intervenção e inspiração divinas de Nossa Senhora de Fátima, o que, manifestamente, não aconteceu.
Merecem-se.


22 de maio de 2013

Ó meus, é tudo para partir!

















Canoagem "chocada" com "corte cego" de 20 por cento no alto rendimento


Eu não percebo porque é que ainda se chocam. Estavam à espera que o quintal deles fosse poupado? Ainda não perceberam que é tudo para partir?
Que é para voltarmos a ser pobrezinhos, analfabetos, doentes e, ainda por cima, agradecidos?

Ó raios, tem povo que é cego.

21 de maio de 2013

Um cascudo no Cascada, ou a Alemanha na Eurovisão

Como a maioria dos portugueses, julgo, não pus nem um olho nem um ouvido no Festival da Eurovisão. Porém, ontem li uma divertida notícia no Público. Parece que a Alemanha foi olimpicamente ignorada por 34 países dum conjunto de 39, donde resultou uma classificação fraca e que produziu desconforto em quem se julgava favorito.

Thomas Schreiber, coordenador da estação de televisão pública ARD, comentou que “há obviamente uma situação política a ter em conta. Não quero dizer que foram 18 pontos para Merkel, mas temos de ter noção de que não foram apenas os Cascada [a banda concorrente] a serem julgados naquele palco, mas toda a Alemanha”, comentou, citado pela agência Reuters.
“É inexplicável”, disse o comentador Peter Urban. “Será que as pessoas não gostam de nós?”, perguntou Urban, antes de responder “há alguma verdade nisso.”

Foi bom rir com esta notícia, imaginando os alemães com uma casca de ovo na cabeça, armados em Calimero, choramingando que “é uma injustiça”.

Percebo que depois de intoxicados com a propaganda da Merkel e companhia, que lhes enfiou pelas goelas abaixo a ideia de que somos preguiçosos e que eles estão a gastar imenso dinheirinho connosco, não percebam o desamor demonstrado (coisa que nem sei se foi verdadeira mas, pelo menos, os homens citados sentiram com tal).

Não tenho muitas esperanças, mas gostava que, aos poucos, o povo alemão fosse deixando de acreditar em tudo, mas absolutamente tudo, o que os políticos lhe dizem.
Até porque já se viu que isso pode dar maus resultados.


20 de maio de 2013

Às vezes, o que se escreve é triste

No Expresso online de ontem, Henrique Monteiro compara os chorudos salários e prémios duma gestora do falido Banif, em que o povinho meteu recentemente 1100 milhões de euros, com os disparatados salários dos treinadores de futebol, e pretende dizer-nos que é tudo igual, só que nós, pobres tontos, nem damos por isso.

Ora, acontece que não é tudo igual.

O falido Banif e a sua gestora Conceição Leal, não fizeram nada por ninguém a não ser por si próprios; quanto aos clubes de futebol, se é certo que pagam salários extravagantes e que também vão recebendo apoios do Estado, não é menos certo que, melhor ou pior, e com muito desporto gratuito para crianças e jovens, os vão retribuindo à sociedade.

Os clubes não são só futebol, longe disso, embora o dinheiro venha, sobretudo, do que o futebol conseguir gerar.

Querer comparar o retorno do trabalho de Conceição Leal, que foi um desastre, com o retorno do trabalho de Jesus ou Pereira é mais ou menos o mesmo que querer “comparar o cu com a feira de Borba”.

A importância social do Banif não é comparável à do Benfica, Porto, Sporting ou mesmo do Clube da Ervilha.
Henrique Monteiro sabe-o melhor que eu, mas deve achar que ser populista não tem mal, desde que o seja com os ordenados do futebol que toda a gente critica porque são, de facto, criticáveis.
E se, pelo meio, der um ar de esperteza e de homem que vê mais longe do que os outros todos, tanto melhor.
Não, futebol não é santo, como já vi por aí, e pratica salários pornográficos, mas não, também, Henrique, não é a mesma coisa.

Quem está interessado em branquear a banca e os bancários de luxo que tanto agradam aos banqueiros, usando candidamente os seus próprios (deles) argumentos?

 

16 de maio de 2013

Estão à espera do quê para fazer a revolução?

Hoje de manhã, na Antena 1, ouvi apenas o final do comentário político semanal de Octávio Teixeira. Dizia ele que o povo precisava de reagir rapidamente contra esta indignidade – não sei qual era mas, tanto faz… era só mais uma.

Parece-me que há estudos que já provaram que, quanto mais se humilha  um povo e mais direitos se lhe retira, mais difícil fica que aconteça a sua revolta. Na prática, temos o exemplo da Grécia, que começou com uma violente reacção à austeridade e, passados 5 anos, está sem reacção nenhuma, como um cordeirinho na Páscoa.

Assim, do povo, preocupado com a subsistência no dia-a-dia, não me parece que se possa esperar grande reacção; porém, ainda que mal pergunte, o PCP, a que Octávio Teixeira pertence, não continua a definir-se  como um partido operário e REVOLUCIONÁRIO ?

Então, estão à espera de quê para fazer a revolução, ó camaradas?
Que o povo se levante, é? E depois, vão à frente ou atrás do povo?

Fartinha de conversa de chacha e sem inspiração divina para os continuar a ouvir.

15 de maio de 2013

Algumas (poucas) convicções


 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Todos somos donos do nosso corpo.

As decisões que sobre ele tomamos são, na sua maioria, do foro íntimo e assim devem permanecer.

Na vida, controlamos muito pouco, bem menos do que pensamos; feitas as contas, quase nada.

Assim, e no caso Angelina Jolie:

A actriz tem todo o direito de se desfazer das partes do corpo que entender; espero, sinceramente, que valha a pena; dispenso a informação.

14 de maio de 2013

Os loucos, o asilo, Nossa Senhora, eu e a Constança

Há no Facebook uma página que se chama Nossa Senhora, cuida de mim.
Acho uma ternura.

Ontem, 13 de Maio, a imagem da Santa circulou bastante, e eu cada vez tenho mais pena de não ter nascido com o chip da fé.
Deve ser um descanso dizer Nossa Senhora, cuida de mim, e pronto.

Nos últimos dias, por exemplo, tinha-me dado muito jeito confiar que Nossa Senhora estava a cuidar de mim, em vez de pensar que, ou eu estava a enlouquecer por não conseguir processar tanta informação contraditória, ou estava a ficar parecida com a Constança Cunha e Sá por achar tudo surreal como ela acha. Ora, entre estes dois males, venha o diabo e escolha.

É então que sou salva por um post do blogue Aspirina B em que eles compilaram, e até linkaram, toda a informação que me estava a confundir.

Sob o título “Os loucos tomaram conta do asilo” o blogger enumera:

- PSD congratula-se com acordo entre Governo e troika

- CDS «aceitou excecionalmente» contribuição sobre pensões

- Pires de Lima garante que quem cedeu foi a troika

- CDS recusa cedência e reclama vitória na taxa sobre pensões

- ‘Troika’ exige “clareza” e não dá por fechada sétima missão

- Cavaco convoca Conselho de Estado para dia 20 às 17h

- Passos garante que “não há divergência no Governo”

- Marques Guedes chama CDS “principal partido da oposição”

Concluí, então, que com chip ou sem chip Nossa Senhora deve estar a cuidar de mim, porque ainda não estou louca − os verdadeiros loucos são os que tomaram conta do asilo mas, face ao exposto, até a mim me apetece pedir com muito fervor - NOSSA SENHORA, CUIDA DE NÓS E LIVRA-NOS DOS LOUCOS. Please!

 

 

 

 

13 de maio de 2013

Ando só a lembrar-me disto




Não me apetece falar de Paulo Portas.

Mas lembro-me muito deste filme; transposto para hoje, nele teríamos Paulo Portas de smoking entre a assistência, sempre garantindo que o seu coração sangrava com os concorrentes e que os iria defender até à morte – deles, concorrentes, claro.

Filme de 1969, realizado por Sydney Pollack, com Jane Fonda e Michael Sarrazin baseado no livro “Os cavalos também se abatem” de Horace Maccoy

Sinopse do livro “Os cavalos também se abatem” de Horace Maccoy
 
É um clássico do romance negro americano. É uma história cruel que decorre na época da Grande Depressão dos E. U. A. Toda ela à volta de uma maratona de dança em Hollywood, onde os pares se agitam numa competição louca por forma a ganharem um prémio em dinheiro, ou, por vezes, simplesmente para se alimentarem à custa do concurso enquanto puderem.

 Quem não viu devia ver.

10 de maio de 2013

O bolçado de VPV

Hoje o nosso merceeiro mais popular resolveu fazer saldos, e por isso as filas para as caixas estavam longas e morosas.

Para matar o tempo, saquei do Público disposta a olhar a primeira e a última páginas, de modo a não ter de abrir o jornal. Tive tempo de ler o Vasco Pulido Valente que, a certa altura escreve: “…porque, dada a atitude de Cavaco Silva, só ele, Paulo Portas, está em posição para remover o Governo, como Jerónimo de Sousa e o sr. Seguro, e a miuçalha que os segue, ardentemente desejam (não se percebe bem porquê).

Sobre isto, quero dizer duas coisas:

1 – Apesar de eu não seguir ninguém acho que aquela de “miuçalha” deve ser comigo, e parece-me conter um indisfarçável tom de desprezo. Retribuído. Done.

2- Ao contrário dele, VPV, que começa por avisar que é amigo de Paulo Portas, eu termino já avisando que não conheço este homem de parte nenhuma, nunca o vi, nunca me cruzei com ele (sou miuçalha) mas sempre ouvi dizer que ele bebe que nem uma esponja.

Pelos vistos, e apesar da crise, continua. E depois, claro, vomita.

9 de maio de 2013

Levai a Crato as criancinhas

Os nossos comentadores geralmente conotados com o pensamento de direita têm-se empenhado bastante em demonstrar que os exames do 4º ano são uma bênção para a educação que, Deus nos acuda, tem andado entregue a um bando de incompetentes de esquerda.

Se eu fiz eles também podem fazer.
Se ficam nervosos, habituem-se.
É este o discurso, que me parece pobre como justificação.
Se é certo que temos exagerado um bocado no experimentalismo educacional, é também certo que ele não tem impedido a aprendizagem; vejam-se os milhares de jovens licenciados que, recentemente emigrados, têm encontrado trabalho compatível com as suas habilitações em muitos países que lhes louvam a excelente formação, desfazendo, duma penada, os discursos do “não sabem nada” e do “ter um curso não adianta”.

Sou da geração que fez todos os exames, começando na 4ª classe e até ao fim dos estudos.

Esse exame, aos 10 anos, serviu-me para alguma coisa?
Sim, serviu para ter medo – medo do poder e medo de falhar.

Incutir medo logo cedinho era uma estratégia que muito convinha à ditadura, que o acompanhava como o “encornanço” acéfalo das matérias do livro único. Assim se começava a garantir um rebanho pacífico e acrítico com consequências colectivas que ainda hoje se fazem sentir.

Ir para a escola e aprender sem medo foi uma conquista de Abril, de que os meus filhos usufruíram.
Não fizeram exame no 4º ano mas não estudaram menos que eu, ao contrário, e nem sabem menos que eu, ao contrário também.

Mas, como diria a outra, isso agora não interessa nada; Crato tem a sua agenda própria e quer cumpri-la, ainda que ela nos faça retroceder meio século.
Se o deixarmos ficar lá muito mais tempo, talvez ainda o vejamos a ordenar o regresso do crucifixo e da reza matinal à sala de aula.

 

8 de maio de 2013

Ler













Considero-me uma razoável leitora, mas não sei quanto livros leio por ano.

Uns são grossos e outros finos, uns são fáceis e outros não, o que torna a “coisa” certamente muito variável; além do mais, a contabilidade é ramo do saber que não me entusiasma.

Uma coisa, porém, de há muito eu sabia – o meu conhecimento da literatura de Espanha é altamente deficitário.
Retirando o Vila-Matas, de quem até li duas ou três obras, o resto era um imenso buraco negro de ignorância.

Vai daí, pedi a uma amiga que me emprestasse três livros de escritores espanhóis. Ela escolheu (e, logo nessa escolha, dois terços eram catalães), e emprestou-me:
“O Prémio” de Manuel Vázquez Montalbán
“Beatus Ille” de Antonio Muñoz Molina
“A Sombra do Vento” de Carlos Ruiz Zafón

Ocorre-me dizer que pronto, está bem, tomei conhecimento.
Eles contam muitas histórias, e eu até gosto de histórias bem contadas mas aquilo, de facto, não é a minha praia.
A minha praia é, por exemplo, ao terceiro parágrafo dum livro, topar com isto:

“ A história faz-se de anseios em grande escala. Trata-se de um mero garoto com um desejo bem restrito, mas faz parte de uma multidão que não cessa de engrossar, milhares de indivíduos anónimos que emergem dos autocarros e dos comboios, pessoas em colunas estreitas que calcorreiam a ponte giratória sobre o rio e, embora não formem uma migração nem uma revolução, um vasto abalo de alma colectiva, trazem consigo o calor do corpo de uma grande cidade e os seus próprios devaneios e desesperos insignificantes, essa coisa invisível que assombra o dia – homens de chapéu de feltro e marujos de licença, o tropel caótico dos seus pensamentos, a caminho duma partida de basebol.”

Don DeLillo
Submundo
Sextante Editora

Cumprida uma daquelas obrigações que inventamos para nós mesmos sem saber porquê, congratulo-me por ali na prateleira, escolhidos por mim e à minha espera, estarem livros de Philip Roth, Paul Auster, Lawrence Durrell e E.L. Doctorow.

Benza-a Deus, que aquela é uma prateleira que carrega consigo a promessa de muitas horas felizes enquanto não acontece por aqui um vasto abalo de alma colectiva nas palavras de Don DeLillo.