17 de abril de 2012

Ó Júlio, já chega

Já disse aqui, a propósito de Pedro Rosa Mendes, que tenho, há muitos anos, o hábito de ir ouvindo o programa da manhã da Antena 1.

Não sei em que ano começou o programa de Júlio Machado Vaz, “O Amor É”, nem isso interessa; sei que dura há tantos anos que deve estar em competição com “O Preço Certo”.

Se durante muito tempo o ouvi com agrado e simpatia, confesso que agora já não o aguento.
O homem já deu várias vezes a volta a tudo o que podia dizer, e aquilo actualmente mais parece uma missa diária que apela à continuação do bocejo matinal.
Não se aguenta, seis dias por semana - programas curtos de 2ª a 6ª e programa de uma hora ao domingo.

Não sei o que leva a Antena 1 a manter o programa, mas se foi tão expedita a despachar o Rosa Mendes and friends, por mim não entendo um tal apego ao Júlio.
Por outro lado, o Júlio também não se enxerga, e não percebe que ele e aquele modelo já deram o que tinham a dar. É preciso saber partir, deixar o palco quando chega a hora, mas isso é ruptura muito difícil para a maioria dos egos.

Naqueles cinco minutos, seria bom ouvir vozes diferentes com assuntos diferentes. Seria bom ouvir, por exemplo, um escritor ou crítico recomendar um livro, um artista ou um curador escolher uma exposição, um cinéfilo entusiasmar-me com um filme, um melómano apontar-me um CD.

Júlio Machado Vaz e a RDP parecem o Carreras a Brightman no dueto Amigos para Siempre; porém, como quem paga essa amizade sou eu, tenho o direito de dizer que estão a abusar da minha paciência, e todas as manhãs me apetece dizer BASTA.

16 de abril de 2012

A escola do Nuno

Não se pode negar que o Ministro da Educação tem lá as suas ideias sobre a escola. Homem certamente saudoso do tempo feliz da sua infância nos longínquos anos 50/60 do século passado, imagina as maravilhas do regresso a essa escola. Por isso decide:

- Turmas de 30 alunos, e de 26 para o 1º ciclo.
Para se aproximar mais da escola do seu tempo podia até fazer turmas com as quatro classes, como antigamente acontecia lá na aldeia onde uns aprendiam e outros iam guardar porcos.

- Exames da 4ª classe.
Antigamente a 4ª classe era o fim da linha de estudos; agora ainda vão estudar mais oito ou dez anos mas é bom que se habituem a chumbar logo cedinho.

- Turmas de crânios e turmas de burros.
Aqui o ministro foge às regras do passado – os burros lá atrás e os espertos à frente; mas talvez esta seja uma nova forma de escola inclusiva, quem sabe.

- Fim das provas especiais para alunos especiais.
Esta é mesmo inclusiva. Não queremos cá estigmas, aqui é tudo igual (e desumano) como no tempo do senhor ministro.

E pronto, com umas poucas ideias bafientas se reforma o ensino do século XXI à luz do maravilhoso ensino de meados do século XX.

Se bem entendo, para o senhor ministro a vida não mudou nada, a sociedade não mudou nada, a escola (seu reflexo) não mudou nada, e o melhor mesmo é voltarmos aos saudosos anos 1950.
Ditosa pátria que tais ministros tem.


14 de abril de 2012

Corrente






















Vem da Ana Cristina esta é daquelas correntes que não pode mesmo ser quebrada! Camaradas Bloggers, obedecei ao que é pedido na imagem e sereis felizes. Se não para sempre, pelo menos durante uns tempitos.

Recebi-o assim de Joana Lopes e eu seja ceguinha se vou quebrar a corrente.





Sem título (cada um que escolha o seu)

13 de abril de 2012

Regresso à fisga

O léxico governamental português é pobrezinho. Resume-se, de facto, a três verbos – proibir, taxar, cortar.

O verbo proibir foi na 4ª feira conjugado, mais uma vez, na Assembleia da República, desta feita pelo Dr. Macedo que, depois de, há uns anos, muito usar o verbo taxar nas finanças, passou a usar os verbos proibir e cortar na saúde.

Este homem é o paradigma.
Decidiu o Macedo que vai proibir o fumo dentro de carros particulares que levem crianças; bom, eu há muito tempo que não tinha um ataque de riso tão convulsivo.

Estou a imaginar o polícia a abeirar-se do carro e dizer – cheira-me aqui a esturro, o senhor esteve a fumar com a criança no carro, eu senhor guarda, nada disso, pela sua saudinha, eu nem fumo.

Se o ridículo matasse, o ministro tinha saído da AR levado pelo INEM (se ele chegasse a tempo, claro), mas a fúria proibicionista é de tal ordem que nem deixa margem para pensar.
Uma campanha publicitária, tendo em vista quem ainda fuma no carro com crianças lá dentro, seria bem-vinda. Mas, qual o quê, eles gostam é de proibir e pronto.

Depois disto, fico à espera que me proíbam de fumar na minha própria casa. É só já o que falta.

Nessa altura, quando a ressuscitada polícia de costumes, alertada pelo pivete ou por denúncia de vizinho malvado, me bater à porta, não a receberei de caçadeira porque tenho horror a armas, mas uma boa fisga de caçar pardais vou ter na mão, de certeza. (Para a ter sempre à mão vou passar a usá-la no pé, como se vê na imagem).

E só espero ainda ter pontaria para lhe acertar nas nalgas.
Assim mesmo, bem à alentejana.


12 de abril de 2012

Uma agenda para a humilhação

Podemos dar quinhentos “abraços” à Maternidade Alfredo da Costa, podemos gritar e espernear, podemos provar por A+B+C+X+Y que é um erro fechá-la; porque é excelente, porque nela se investiu muito, porque é património emocional dos lisboetas, porque a sua existência nos dá segurança.
Ela vai fechar na mesma, porque o governo já decidiu.

Já tínhamos percebido, neste governo, uma agenda bem definida de protecção de grandes interesses, de empobrecimento colectivo, de precarização geradora de medo. Aos poucos, vamos descobrindo uma agenda escondida para a infelicidade geral.

Uma agenda para a humilhação, sem a ajuda da troika.

Se nós gostamos, se temos orgulho, se queremos, então o governo decide que é para acabar, fechar, destruir.

São as bastonadas no orgulho, na confiança e nos afectos colectivos que nos vão destruindo por dentro, fazendo perder o ânimo e a vontade de reivindicar um futuro.

Não se estranha, pois, a apatia generalizada, a indignação que definha, deixando em seu lugar apenas a uma “austera, apagada e vil tristeza” que por todo o lado se vai sentindo.

Nós não temos apenas um mau governo. O caso do fecho da Maternidade Alfredo da Costa prova que temos um governo macabro.

11 de abril de 2012

No comboio descendente

Que diz Seguro sobre o tratado orçamental que coloca a obrigatoriedade do défice em 0,5%? Que tem ali uns pozinho não sei de quê que quer juntar à receita mas que, com pozinhos ou sem pozinhos, ele vai dizer que SIM.


Quando imagino uma reunião do governo em que se fale da oposição/PS,  apetece-me logo cantar:

No comboio descendente
Vinha tudo a gargalhada
Uns por verem rir os outros
E os outros sem ser por nada

Quando imagino uma reunião da comissão política do PS, apetece-me logo cantar:

No comboio descendente
Mas que grande reinação
Uns dormindo outros com sono
E os outros nem sim nem não

Já não há bilhetes para o comboio descendente.

10 de abril de 2012

Nós não somos a Grécia

Em Janeiro tivemos a notícia de que, entre 2010 e 2011, desapareceram dos registos do fisco 111 000 crianças que estavam “a cargo” de muitas famílias portuguesas. O desaparecimento deu-se, precisamente, quando passou a ser obrigatório atribuir número de contribuinte aos menores para os pais os poderem declarar no IRS.


Na ilha de Zakynthos (Grécia), descobriu-se que dos 700 cegos declarados e que, como tal, recebiam subsídio, apenas 50 são de facto invisuais. (DN)

Não, é claro que nós não somos a Grécia.

Haverá muitas semelhanças no caminho que levamos mas as diferenças também são óbvias - por lá abundam os cegos, enquanto por cá o que não falta é olho vivo.

É apenas um detalhe na tragicomédia que nos é comum.


9 de abril de 2012

No limbo

Parece que já toda a gente tomou uma posição definitiva sobre o Acordo Ortográfico, excepto eu.

Comecei por ficar mais ou menos indiferente, e de raciocínio mais ou menos preguiçoso, no pressuposto de que já houve outros acordos a que toda a gente se habituou. O computador tratou do assunto e mesmo agora eu escrevi excepto e ele comeu-lhe logo o p; como insisti, ele marca-me erro.

Comecei, então, a escrever segundo o acordo, mas verifiquei que não sou capaz de escrever espetador em vez de espectador, ou para em vez de pára, entre outras.

Desta feita, já que, afinal, uns dizem que está em vigor e outros dizem que não, decidi voltar à escrita antiga até que os mandantes se entendam. Porém, isto de estar sempre a desfazer o que o computador me desfaz é muito cansativo.

Às tantas, e com todas as excepções, acho que já nem sei escrever, fico cheia de dúvidas atormentadoras. Será assim? será assado? levará hífen? dobrará a consoante? perdeu o acento? Uma canseira.

Leio jornais com Acordo e jornais sem Acordo, livros com Acordo e livros sem Acordo, legendas com Acordo e legendas sem Acordo. Só ainda não testei a bula dos medicamentos.

Dantes, com regras bem definidas ainda se percebiam os erros. Agora, cada um escreve como quer está sempre bem.

Podemos estar a viver no purgatório mas quanto à escrita, já não há “pecado”. O país escrevente vive no limbo, e eu com ele.

5 de abril de 2012

A fulanização de ideias e causas

Na semana passada, circulava no FacebooK a verdadeira caça ao polícia, o tal que andou pelo Chiado à bastonada. Critiquei a atitude aqui. Segundo notícia de ontem, o MAI decidiu abrir um processo disciplinar ao referido agente da PSP, e é assim que deve ser.
Agora, a propósito da vinda ao Coliseu do repelente rapper Sizzla, que incita o público a matar homossexuais, pergunta-se se alguém sabe quem é o dono do Coliseu.
Há na pergunta uma velada ameaça, como quem diz – “vamos-te fazer a cama, porque contratas um tipo execrável, de quem não gostamos”.

Se, na política, há evidentes sinais de deterioração da democracia, na sociedade civil não há menos.

Acho normal um movimento de repúdio pela contratação de tal personagem, e também acho normal que declaremos alto e bom som que, para nós, alguns visitantes não são bem-vindos.
Porém, já não acho nada normal, ao contrário, acho preocupante, que se fulanizem assim ideias políticas e causas. E isto está a ficar demasiado frequente.

Tenho o direito de dizer que, para mim, Sizzla não é bem-vindo, e que não gosto mesmo nada dum empresário voraz que o contrata mas, é tudo; aí acabam os meus direitos.
Pode argumentar-se que tudo não passa de brincadeira ou leviandade de espíritos “revolucionários”, mas continuo a achar que, mesmo nesse caso, são coisas que passam pela cabeça das pessoas, são sinais, e de muito mau gosto.

4 de abril de 2012

Maia





















É um herói da minha geração. Faz hoje vinte anos que morreu.

Um exército de crianças

Esta pequena notícia do DN, se bem atentarmos nela, indigna tanto como outras, a que se dá grande destaque, sobre o uso e abuso de crianças. Mas, para a comunidade internacional, a Coreia do Norte só é notícia importante quando ameaça com o seu poder nuclear ou quando nos oferece o espetáculo da morte do querido líder.

Ora, segundo a notícia, o exército norte-coreano passou a aceitar mancebos com a altura de 142 cm, em vez dos anteriores 145 cm, devido ao raquitismo da nova geração provocado pela grande fome dos anos 1990.
Este exército, o quarto maior do mundo, é composto por 1,2 milhões de soldados com 16 e 17 anos, que cumprem o serviço militar por um período mínimo de 10 anos.

Quando imaginamos rapazes/meninos de 16 anos, com um metro e quarenta e dois de altura, de arma na mão, cumprindo treino militar, quais os sentimentos que nos dominam? Muitos e todos desagradáveis.
Mas são meros sentimentos individuais, porque o mundo, como um todo, nem olha; e se olha pensa – que se lixe.
São as notas de rodapé no nosso dia-a-dia.


Nota: para quem quiser saber melhor o que foi a grande fome na Coreia do Norte volto a recomendar o livro que já referi aqui.

3 de abril de 2012

Confirma-se


"Troika não descarta corte definitivo dos subsídios de férias e de natal" (JN)


Confirma-se: os gajos decidiram ficar a mandar aqui para o resto da vida.

"Vieram como andorinhas"

As minhas leituras nunca se tinham cruzado com William Maxwell; calhou agora, e só posso lamentar que tenha sido agora.
Em menos de 130 páginas o autor aborda, em “Vieram como andorinhas”, a vida duma família americana no pós-1ª Guerra Mundial e no momento da pandemia de gripe espanhola que matou milhões de pessoas em todo o mundo.
Uma mãe, um pai, dois filhos rapazes e um ou outro elemento colateral da família. A história conta-se dando a vez a cada um dos filhos e ao pai.

Bunny, o filho mais novo é tão sensível e tem uma tão forte ligação à mãe que nos lembra Proust. Robert, o mais velho mas ainda um pré-adolescente, sofreu um acidente e tem uma perna de pau. O pai, James, é um pai à maneira da época – poucas falas, um tanto temido pelos filhos, nada de exprimir afetos.

Relacionamo-nos sobretudo com os filhos e, quando ouvimos Bunny achamos Robert arrogante e agressivo; quando ouvimos Robert achamos Bunny mimado e manipulador.

Quando a mãe, epicentro quase mudo da narrativa, morre, encontramos James confrontado consigo mesmo.
O que acontece quando o elemento aglutinador da família e dos seus afetos desaparece?
É a pergunta que fica no ar com o equilíbrio perfeito da simplicidade.
De mestre.

Sextante Editora, 2011




2 de abril de 2012

Deu-lhe para ser foleiro

Quando ouvi dizer que Ribeiro e Castro tinha votado contra a nova legislação laboral, deitei as mãos à cabeça e pensei – valham-me todos os santos que o homem virou à esquerda. Depois, lá acalmei porque percebi que, afinal, ele só está contra o fim do feriado de 1 de Dezembro por ser o dia da recuperação da independência.

Vem de lá o Paulo Portas, questionado sobre o assunto, e diz, mais coisa menos coisa – “para mim, o mais importante é cada um de nós, no dia da independência de Portugal, dar o seu contributo para que Portugal recupere a sua independência”.

Ó Paulo, é bem verdade que uma desgraça nunca vem só.
Se este fosse o tempo em que você vestia a roupinha de latifundiário patriota e telúrico, a gente ria-se e havíamos de o ouvir dizer que os patriotas, consigo à cabeça, estavam escandalizados com o fim do feriado em dia por demais importante para a nação.
Agora que tanto precisamos de rir, você trata de vestir a roupa de estadista e de debitar discursos tão patrioteiros como foleiros, que nem dão para rir.

O menino não imagina o tamanho do desejo que tenho de o ver voltar rapidamente ao armário para tirar o boné e o capote da naftalina.
Isso é que eram boas notícias.

30 de março de 2012

Não, eu não vi a entrevista do PM

A razão por que não vi a entrevista é simples - não era o meu dia de usar cilício.

Mas li as notícias, e fiquei a saber coisas e a pensar nelas.

1 - No final da década, 24 milhões de chineses não encontrarão mulher para acasalar. Bem feito, não as matem à nascença.

2 - Portugal já está a arder (333 fogos na 4ª feira) e parece que, para tristeza do governo, a culpa não é da greve geral nem dos manifestantes.
Assim fica mais difícil, porque polícias eles têm, bombeiros é que não.

3 - O Papa esteve meia hora com Fidel Castro. De que terão falado? De doenças, como todos os velhos, acho eu; das artroses, da próstata e assim…

São bichos espertos. Este artigo devia ser de leitura obrigatória para os nossos governantes. Nunca se sabe o que pode acontecer com os primatas que habitam a ponta ocidental da Europa, mesmo sendo menos inteligentes que os macacos capuchinhos.


29 de março de 2012

Boas notícias

No mesmo dia, li nos jornais online que quem come chocolate tem menos peso e que as pipocas são uma boa fonte de antioxidantes.

Depois de a sardinha e o azeite terem sido canonizados após excomunhão, fico ansiosamente à espero do estudo que me vai dizer que as trouxas-de-ovos e a encharcada diminuem o colesterol, e que o chouriço cura a miopia.
Como eu não duro para sempre, agradeço que se despachem a fazer os estudos e a pô-los cá fora, a ver se ainda aproveito alguma coisa.
Andem lá com isso, rapazes.


28 de março de 2012

Viegas em cima do muro

Há políticos com sorte. Talvez por terem boas relações nas redações dos jornais, têm sempre aquilo que se chama “boa imprensa”.
É o caso de Francisco José Viegas, Secretário de Estado da Cultura.

Desta vez, o Expresso foi entrevistá-lo e devem ter combinado qualquer coisa do género – O senhor Secretário põe-se em cima do muro e a gente não o empurra.

Assim foi; os jornalistas não empurraram e, diga-se em abono da verdade, Viegas também não caiu sozinho. Daí resultou uma entrevista frouxa e desinteressante, que não enche nem vaza. Apenas um assunto me despertou o sorriso e o temor em simultâneo.

Sob o signo das várias Rotas turísticas abordadas, Viegas parece ter particular carinho pela Rota das Judiarias, que vai desenvolver, com o “coração” em Belmonte.
Sabendo que o Secretário de Estado se converteu ao judaísmo, não estranho o seu entusiasmo.

Mas, no final de entrevista, ele afirma:
“A SEC vai colaborar com o Ministério da Economia nos investimentos que já estão previstos. Falo da construção de um hotel desenhado por Frank Gehry (arquiteto de origem judaica), que já está aprovado e espera-se a resposta dele para desenhar a primeira sinagoga da sua vida. Se for assim, imagine-se o que isso significará.”

Eu fico logo a imaginar charters de judeus para Belmonte, sorrio à fixação do PSD em Frank Gehry, mas tremo só de pensar quem lhe pagará a sinagoga e o hotel.

Nota: imagem retirado do Expresso de 24 Março 2012

27 de março de 2012

Para quem ontem desenhou uma linha

Para D.
“Provavelmente lembras-te da famosa afirmação do início de Anna Karénina, na qual Tolstói, envergando os trajes de uma serena divindade aldeã e debruçando-se sobre o nada cheio de bondosa tolerância e calma benevolência, declara lá do alto que todas as famílias felizes se parecem umas com as outras, ao passo que as famílias infelizes o são cada uma à sua maneira. Com todo o respeito devido a Tolstói, quero dizer-te que é o contrário que é verdade: as pessoas infelizes estão profundamente mergulhadas num sofrimento de convenção, vivendo uma rotina estéril de acordo com um de cinco ou seis clichés de desgraça já gastos. Ao passo que a felicidade é uma porcelana rara e preciosa, uma espécie de jarrão chinês, e as poucas pessoas que a conquistam desenham-na linha a linha, moldando-a ao longo dos anos, cada uma delas à sua imagem e semelhança, cada uma segundo o seu caráter, de tal modo que não há duas felicidades iguais.”

Amos Oz
A Caixa Negra
(prémio femina)
Q. Quixote, 2ª edição, 2012


Nota: na imagem, Desenho habitado de Helena Almeida, roubado aqui

26 de março de 2012

Cidadania, isso?

Isto da cidadania não é só para exercer quando se trata dos cocós dos cães!” Li estas palavras no Facebook.
Concordo com elas, e como até já aqui escrevi sobre "Beatas e cocós", enfiei a carapuça. Por isso ouso ir um pouco mais além no tema e naquilo que, no Facebook, originou as palavras citadas – a carga policial no Chiado.

A cidadania, em meu entender, exerce-se todos os dias, a todas as horas, em qualquer local. É transversal a todos os atos da nossa vida quotidiana.
Tal como a política, está em tudo.

Porém, pede-se no Facebook a identificação do apelidado “Valentão do Chiado”, aquele polícia que, na foto muito divulgada, está a bater na fotojornalista, e entende-se isso como um ato de cidadania – identificá-lo e, na melhor das hipóteses, castigá-lo, na pior talvez linchá-lo à bastonada. Ora, aqui não concordo; não acho que isso seja um ato de cidadania.

Os jovens fotojornalistas que foram para o terreno e foram agredidos, deviam saber que a polícia de choque tem o nome com ela, e quando intervém é para limpar o local, está cega, só obedece à ordem que recebeu. São assim todas as forças militares e paramilitares, sempre o foram. Quando aparecem, é bom que se fuja, seja-se ou não jornalista, porque ali já não estão homens – apenas máquinas bestiais treinadas para bater.

Identificar um polícia como alvo a abater, como se ele fosse causa e símbolo de todos os males da nossa democracia, pode ser um alívio para a raiva que vamos contendo, mas nada tem de exercício de cidadania.
Faz parte das regras do bom jogo democrático que protestemos sempre contra a violência policial mas, por aqui, nunca vi uma boa discussão democrática e cidadã sobre se queremos ter, ou não, um corpo de intervenção, qual o papel que lhe atribuímos e quais as suas baias, já que o pagamos.
Pedir a cabeça dum polícia (ainda que sádico) não é exercício de cidadania, é pura expressão de raiva, talvez mesmo de impotência, mas não deixa de ter um perigoso cheirinho de apelo à justiça popular.
Não, não vou por aí.

Nota: foto retirada do Facebook

23 de março de 2012

A greve geral, parte 2


Percorro o Facebook e vejo que é dado grande destaque aos incidentes com a polícia no Chiado.

Aquilo que me apetece dizer é que o dia foi bom, porque todos tiveram o que queriam. O governo fala tanto em prevenir tumultos porque, de facto, os deseja. Mostrar quem manda e “partir a espinha aos sindicatos”, qual Thatcher sem malinha, é o seu intento.

A polícia de choque nasceu para “molhar a sopa” e sempre atuou nos mesmos moldes, aproveitando agora para se vingar de agravos vários.

Os sindicatos nada tiveram que ver com a pancadaria no Chiado, mas sempre houve, fora deles, quem se dedicasse à provocação à polícia. Ouso até dizer que alguns quase iam meter a cabecita debaixo do bastão, como quem diz: bate aqui, bate aqui, eu quero ser a vítima e tu o brutamontes.

Porém, longe (felizmente) vão os tempos em que a maioria fugia a sete pés da polícia de choque porque ser apanhado implicava ir para à Pide e não, como agora, mostrar o sangue às televisões.

Nesses tempos sombrios também se aprendia a não responder às provocações dos infiltrados, porque sempre os houve e haverá.

Em suma, todos tiveram o que queriam – governo, polícia, plataforma 15 de Outubro e até as televisões. Só o Arménio Carlos não ganhou a taluda.

Ontem foi uma tarde terrível para a democracia portuguesa (como li por aí)? Ora poupem-me. Nos últimos anos todos os dias têm sido terríveis para a democracia portuguesa, só que o de ontem foi mais animado.

Não são os bastões que nos lixam, são as políticas.


A greve geral

A greve geral é a bomba atómica dos trabalhadores. Como tal, deve ser usada com parcimónia e muito cuidado, acho eu.
Na passada 4ª feira escrevi aqui que, face às políticas desenvolvidas por este governo, a imensa paciência dos portugueses parece não se esgotar nunca.
Como seria de esperar, ainda não foi com esta greve geral que ela deu mostras de se estar a esgotar.
Foi mais um dia de greve dos transportes, algumas autarquias, alguns trabalhadores do setor público.

Sem negar a absoluta necessidade de exprimir revolta e oposição, parece-me que esta fórmula está esgotada, e que os sindicatos deviam pôr os seus jovens a pensar em novas formas de protesto, mais imaginativas e adequadas à realidade que vivemos, com tantos precários e trabalhadores por conta própria para quem aderir a uma greve é um ato suicidário.

Tenho pena, mas acho que se está a banalizar a poderosa arma que pode ser uma greve geral, tornando-a assim improdutiva e repetitiva.

Assemelha-se à nossa morte – no dia seguinte vamos a enterrar mas cá em cima tudo continuará exatamente igual.

21 de março de 2012

Não é desespero, é estupidez

O DN noticia que a secretária-geral da Confederação Europeia de Sindicatos (CES), Bernadette Ségol, afirmou, sobre o incitamento à emigração jovem por parte do governo português, que o governo deve estar desesperado porque "é claro que se os jovens deixam os seus países, a sua força, as suas ideias e a sua capacidade para construir o futuro perdem-se".

Óbvio, não?
O que a senhora Ségol não sabe, porque não vive por cá, é que isto não é desespero, é estupidez, frieza, humilhação do povo que se governa, arruaça, delinquência.

Há um projeto político incendiário que chegou ao poder para impor a defesa da finança, do patronato e dos grandes interesses instalados, espezinhando, pelo caminho, toda uma população que nem pensa em defender-se, entregue que está ao seu ancestral fatalismo.

Morre de frio e de gripe, não vai ao hospital quando precisa, abandona a universidade, engrossa desde madrugada as filas dos centros de emprego, perde o trabalho e a casa, consegue um trabalho temporário com um salário de anedota, volta para casa dos pais, vende o ouro, pede ajuda às instituições de caridade para comer.

Tudo muda na sua vida, exceto esta imensa paciência portuguesa que parece não se esgotar nunca.
Por aqui, o velho lema “antes morrer de pé que viver vergado” vive-se ao contrário.
Passos e companhia sabem-no, e só por isso ousam uma afronta atrás da outra.


20 de março de 2012

O trabalho dá saúde

Os suíços fizeram mais um referendo.
A pergunta que nele se fazia era se queriam ter seis semanas de férias em vez de quatro.

A resposta foi NÃO.
Os suíços trabalham entre 45 a 50 horas semanais e um terço deles sofre de stresse no trabalho.

A passada utopia do futuro profetizava que os homens haveriam de trabalhar menos, ajudados pelas máquinas e que, com isso, seriam mais felizes.
A utopia, era utopia mesmo. Com as máquinas, cada vez um menor número de pessoas trabalha mais, deixando de fora uma grossa fatia de desempregados.

Quanto a serem mais felizes, não se sabe bem o que isso seria mas, pelo menos para os suíços, a felicidade não passa por mais tempo livre para si próprios, os seus hobbies, a sua família, o seu alívio do stresse.

Certamente muitos acharão louvável tal comportamento, e dirão que devíamos ser como eles, nós, os preguiçosos do sul.
Acontece que a maioria de nós ainda acha que há mais vida para além do trabalho.

Dou de barato que as seis semanas não seriam para gozar de seguida, e que melhorar as condições de trabalho seria mais eficiente na diminuição do cansaço.

Porém, recusar liminarmente mais tempo de férias num tecido social cansado parece-me mais uma aberração da sociedade que fomos criando, aquela em que muitos, cada vez mais, não sabem o que fazer com o seu tempo livre e, postos perante ele, também entram em stresse.

No país/lavandaria de dinheiro que é a Suíça, o povo quer é trabalhar muito.
Pois que continuem a contar as notas nos bancos, a bater o chocolate e a acertar os relógios.

Se o trabalho dá saúde, chegará o dia em que nem precisarão de férias nenhumas, e ficarão todos tão fresquinhos e viçosos como a Heidi e o avô lá no alto da montanha.

19 de março de 2012

Saudade





















Um cravo vermelho para o homem que me deixou há 26 anos e todos os dias me faz falta – MEU PAI.

17 de março de 2012

Potencialmente tóxico


Suponho que seja um novo e poderoso veneno. Vai estar à venda, engarrafado sob a forma de vinho, com o nome “Memórias de Salazar”.

Que ninguém diga que não foi avisado.

16 de março de 2012

Tiro ao Sócrates

A sensação que tenho é que o governo contratou uma empresa de marketing para nos entreter, sabe-se lá porquê (!)
Lá nessa empresa escolhida por adjudicação direta, reuniu-se o pessoal e fez-se o inevitável brainstorming.

Pensaram, pensaram e decidiram que o melhor e mais eficaz era chamar o Sócrates outra vez. Os jornalistas iam cair que nem patinhos.
Invadem então todo o “mercado”, esmiúçam, esmiúçam para nos dar circo.

Sai Sócrates sobre o Freeport – quantas vezes se pronunciou o seu nome na audiência? quantas?

Sai a licenciatura – os documentos estão quase, quase a ser entregues em tribunal. Quando?

Saem as contas da parentela em offshores – onde? quanto?

Sai uso de cartões de crédito pelos ministros de Sócrates – tinham? eh!, e usaram em despesas pessoais?

Vem Cavaco e dá uma ajuda pro bono à empresa de marketing  – Sócrates? nunca  houve ninguém tão desleal.

Retirando a cavacada, eu olho e penso com os meus botões – quem se mete com juízes ou magistrados, leva. Nunca é de mais lembrá-lo.
Ó deuses, eu só queria esquecer Sócrates, e o homem até ajudou; foi-se embora e ficou calado, mas eles não me deixam esquecer, aliás, não querem que eu esqueça.

O professor Marcelo bem me podia fazer um favorzinho lá numa das suas homilias dominicais, largando a sentença: parem com o tiro ao Sócrates!
Eu só quero esquecer. É pedir muito? Irra!

15 de março de 2012

Conheço um país II

Conheço um país, o nosso, em que o governo paga “rendas excessivas” às empresas de energia no valor de 4 mil milhões de euros. Foi dito pela troika que, para suportar os custos da eletricidade, havia que taxar as empresas produtoras e distribuidoras e não apenas os consumidores domésticos e as empresas. Que faz o governo? Despede o governante que acha que rendas de 4 mil milhões são excessivas assim nos mostrando, mais uma vez que a defesa e proteção dos grandes grupos económicos é para manter “custe o que (nos) custar”.

Nesse mesmo país, nos dias que correm, não se pode apresentar queixa em algumas esquadras da polícia porque não há como registá-las, visto que não há dinheiro para os tinteiros das impressoras. Nem para pequenos arranjos de centenas de viaturas. Nem para lhes mudar o óleo.

Acabou a tinta, sim, mas há cada vez mais “lata” para fazer tudo ao contrário do que se prometeu.

14 de março de 2012

Silêncio

Há dias, passou na RTP2 um filme com o nome “O meu amigo Michael ao trabalho”. Tratava-se de acompanhar a realização duma enorme tela de
Michael Biberstein, artista nascido na Suíça mas que vive em Portugal desde o final da década 1970.

Quando Michael entrava de manhã no ateliê sentava-se longamente diante da tela e observava o trabalho já feito.
O grande silêncio, a grande solidão do artista.
Do seu trabalho resultam telas que nos convidam também ao silêncio e onde, se nelas nos detivermos, podemos encontrar o sublime.

No Atual do Expresso de 3 de Março, Siza Vieira dizia:
"o nada, o aparente nada, às vezes é o mais importante, mas existe uma doença contemporânea muito grave que é o horror ao vazio.
O vazio, tal como o silêncio, provoca medo. Isso é algo de muito contemporâneo".

Rodeados que estamos de ruído visual e auditivo, escolhemos demasiadas vezes a fuga para a frente, para dentro dele, na esperança vã de fugir à grande solidão que a sociedade contemporânea toma por um grande mal, se não mesmo como um sinal de desadaptação.

Porém, a solidão, o vazio e o silêncio são as vias para a criação, o conhecimento de si, as descobertas, e o apaziguamento face a uma realidade cada vez mais dura.
Não se pode fugir do real, mas a forma como o encaramos e nos encaramos (e aos outros por arrasto) pode constituir mudança significativa.

Encontrar momentos de fuga do ruído, de todos os ruídos, ouvir o silêncio, morder o vazio, viver a solidão, continuam a ser actos decisivos e fundadores da nossa vivência para além dos ossos, dos músculos e das vísceras.
Seja isso o que for; a cada um, sua verdade. Ou dúvida.

Nota: na imagem, foto de tela de Michael Biberstein

13 de março de 2012

Guardemos um triplo para a avó do Mota Soares

Está agora ministro da Solidariedade e Segurança Social um moço simpático que gosta de Vespas e não foge das manifestações; enfim, um moço tão endiabrado como pode ser alguém que está no CDS desde o jardim-de-infância.

Dá pelo nome de Pedro Mota Soares.

O Pedro, para além da sua vocação assistencialista de que já deu provas, descobriu agora uma maneira de meter mais 10 000 idosos em lares sem gastar um tostão. Como? Ora, é simples – apertam-se um bocadinho.

Quarto onde estava um, passam a estar dois, e quartos onde havia dois, passam a estar três.

Tal e qual como um fabricante de salsichas poderia lembrar-se de nos dar um brinde metendo sete numa lata de seis.

A minha imaginação recusa-se a vislumbrar as noites passadas nos quartos com três idosos, um gemendo, outro tossindo, outro com insónias, ou, ou, ou…

Dir-me-ão que fazem companhia uns aos outro e se entreajudam. Pois!
Mas se o Pedro acha que é bom, e que criar assim 10 000 lugares é um avanço civilizacional, é porque é bom. Afinal, o ministro é ele.

Por isso espero que a sua avó ou avô, pais, tias e afins tenham à sua espera um quartinho triplo quando chegar a sua hora de entrarem para o lar, doce lar, para que possam provar a clarividência e bondade das políticas do seu iluminado descendente.

12 de março de 2012

Às malvas: Independência, República e Mortos

Já tínhamos percebido, estarrecidos, que o Papa também manda aqui no protetorado, mas, por mim, apesar de escandalizada, achei que aquilo era mais um assinar de cruz do que outra coisa. Puro engano.

Sua Santidade acha que o feriado de 15 de Agosto, que costumamos dedicar ao deus Sol, feiras, festarolas e arraiais, é mais importante que o de 1 de Novembro e, por isso, talvez se faça a troca.

Sua Santidade lá sabe aquilo que é melhor para a nossa alma.

Assim à primeira vista, eu diria que faz bem à alma de milhares de portugueses irem ao cemitério (no dia 1 de Novembro, por ser feriado, e não no dia 2 como marca o calendário) com as suas flores, vistosas ou campestres, aos molhos ou solitárias, modo de dizer aos seus mortos que ainda não foram esquecidos.

A Igreja portuguesa deve pensar como eu, mas Sua Santidade, que não é de cá e só nos visitou como um rei, com grande estilo e recursos, não sabe nem quer saber nada desta gente humilde que homenageia mortos.

Vai dai, se bem calhar, vai-se o dia que lhes dedicamos e fica o da tal Assunção que poucos sabem quem é. Por mim, não conheço essa nem nenhuma outra com o mesmo nome.

Apetece dizer - valham-nos Todos os Santos, mas parece que por agora, para os portugueses, nenhum está de serviço ou com disposição.

9 de março de 2012

Só não privatizam as mães porque já são privadas

O mundo, tal como o conheci, vai desaparecer muito mais depressa do que aquilo que eu imaginei. Só falo por mim, mas custo a dar conta a tanta mudança.

Segundo esta notícia, caminhamos para a privatização da polícia, tal como já está a acontecer noutros países (Reino Unido, por exemplo).

Ouvidos sobre o assunto, o presidente da Associação Sindical dos Profissionais de Polícia (ASPP), e um sociólogo do ISCTE acham a situação normal, desde que devidamente regulamentada.

Depois da polícia, se calhar, vamos privatizar as Forças Armadas e os tribunais e aí vai chiar mais fino. Esses terão potencial de grandes empresas, em que quem vai decidir é o acionista, como está bom de ver. E sobre o teor das decisões dos acionistas já temos vasta experiência.

Até somos capazes de imaginar, com uma imaginação doentia e tenebrosa, que um dia, com o passar do tempo, venderão o tribunal-empresa e a marinha-empresa aos chineses e angolanos ( brrrrrr, foi só um calafrio.)

Isto vai tão depressa que eu nem a galope consigo alcançar o alcance de tantas novidades.

Se calhar, a culpa nem é dos decisores, mas apenas da velocidade a que viajamos; segundo fiquei a saber outro dia num pequeno artigo do Expresso, se contarmos com todos os movimentos da terra e do cosmos, mesmo a dormir, estamos a viajar a 600 km por segundo.
Deve ser disso.

8 de março de 2012

8 de Março













Roubado a Joana Lopes no Facebook

Nós e a TAP

As reações ao não-corte de salários na TAP é o espelho quer do governo, quer da oposição, quer dos portugueses em geral.

O governo, cede mais uma vez a quem pode; os trabalhadores da TAP têm nas mãos, diariamente, milhões de euros, e isso confere-lhes um enorme poder negocial, quer para o melhor, quer para o pior. O governo cedeu.

Já aqui me insurgi com as frequentemente caprichosas e irrealistas reivindicações destes trabalhadores, mas não será hoje o caso.

Eles lutaram e ganharam. E nós, ou bem que somos contra todos os cortes salariais e devemos saudar esta vitória, ou nos refugiamos na estreita mesquinhez habitual e achamos que devemos nivelar tudo por baixo.

Aconteceu o mesmo com a nossa socialista oposição que pediu explicações pela voz de Basílio Horta, como quem diz – por que não batem também naqueles? são mais bonitos, é? ou há moralidade, ou comem todos!

Não estamos aqui a falar das exceções para banqueiros, gestores públicos amigalhaços ou de jovens assessores recém-empossados.
Estamos a falar de trabalhadores como nós, que lutaram e ganharam.

Por uma vez devíamos tomá-los como exemplo em vez de ficarmos ressentidos e invejosos.
Afinal, somos contra TODOS os cortes salariais. Ou não?


7 de março de 2012

Se calhar, devia ir

Os temas espiritualidade e esoterismo enchem prateleiras de livrarias. A procura é muita, os autores multiplicam-se, bem como as técnicas para alcançar os desejos de cada um.

A astrologia está em alta. Oiço até dizer que há gente importante que não toma decisões sem consultar o seu astrólogo, o que me leva a concluir que passou a ser tão imperioso ter astrólogo como ter médico, advogado ou personal trainer.
Tarot, cartas, búzios, números, pêndulos e outras miudezas mais, atraem milhões.

Eu, aqui sentada na cadeira, todos os dias recebo e-mails com propostas de cursos e workshops sobre o arquétipo de Peixes, a astrologia centrada no indivíduo, viagens da consciência, astrologia do relacionamento, a química dos elementos etc. E não são spam.

Sendo certo que a astrologia não me interessa nada, quando recebi a informação sobre a química dos elementos, dei comigo a pensar:
Se o meu signo é do elemento água, que tipo de água gostaria eu de ser?
Luso, Pedras, Carvalhelhos, Perrier, Evian?

Não, conclui que gostava mesmo era de ser água da torneira – completa mas com muitas impurezas.
Rematei este profundíssimo pensamento retirando a óbvia conclusão: a pensar assim, esta mulher não vai a lado nenhum.
Falta de ambição não vai com os dias de hoje.

Talvez, então, tenha chegado a hora de também eu fazer uma sessão de coaching, ou hélas!,  ir ao astrólogo.
Qualquer dia, menos hoje.


6 de março de 2012

Conversa para totós

O nosso primeiro-ministro vê os seus governados como um bando de totós a quem é necessário ensinar o básico, e fala com eles como um bom pai de Massamá fala com os filhos pré-púberes.

Vai daí, segundo o jornal Público, diz assim:


Interrogado sobre como é que os portugueses irão fazer férias, com que dinheiro, respondeu: “Fazendo uma boa aplicação dos recursos que têm, como é evidente. Quando há menos, tem de se gastar menos, quando há mais tem de se pensar em ficar com algum de lado para os tempos em que há menos. É isso que eu espero que os portugueses também possam fazer”.


Isto é o que ele espera. Por mim, espero que 850 000 desempregado montem uma tenda à porta dele e resolvam aí passar férias com tudo o que isso implica – banhos de sol, cozinhar o jantar, piquenicar ao almoço, lavar a loiça e usar regularmente os sanitários. E nada de inibições com os ruídos noturnos, porque férias são férias.
E que belas férias poderíamos proporcionar ao nosso primeiro-ministro.


5 de março de 2012

Demências

Hoje roubo posts que merecem ser lidos

Joana Lopes, Estranho modo de vida


Não é fácil imaginar a vida concreta de cerca de 500 mil pessoas que não trabalham porque tudo lhe é proporcionado gratuitamente e que ainda recebem cerca de 35.000 US$ / ano desde que nascem. Todas as tarefas são asseguradas por um milhão adicional de estrangeiros, bem pagos, mas que nunca adquirem a nacionalidade do país em que vivem, ou mesmo em que nascem: as segundas e terceiras gerações mantêm o «passaporte» dos seus ascendentes, o mesmo acontecendo às mulheres que casam com locais.
( continua)

Sérgi Lavos, Ladrões, corruptos, vigaristas

E enquanto vamos ficando todos mais pobres, há quem continue a não sentir os efeitos das medidas de austeridade, e até lucra com elas. A história divulgada esta semana é exemplar: uma das primeiras decisões do Governo depois de tomar posse foi introduzir portagens na ponte 25 de Abril durante o mês de Agosto, acabando com uma tradição antiga que beneficiava os lisboetas que não têm dinheiro para ir passar férias longe da cidade e apenas podem frequentar as praias da Costa da Caparica. A ideia seria aumentar a cobrança dos impostos pagos nas portagens mas sobretudo poupar na indemnização compensatória paga à Lusoponte pela quebra nas receitas, no valor de 4.4 milhões de euros. O problema é que a Lusoponte, cujo presidente é Joaquim Ferreira do Amaral, dirigente do PSD e antigo ministro das Obras Públicas que saiu directamente do executivo de Cavaco Silva para a administração desta empresa, exigiu ao Governo esses 4.4 milhões.
 ( continua)

2 de março de 2012

Sede nossa

O caso do entorneiro de cinco cervejas pelas costas da Merkel abaixo foi um sucesso. Não houve jornal ou televisão que não disponibilizasse o vídeo.

Em boa verdade, a senhora comportou-se com grande aprumo, reagindo como se estivesse habituada a tomar banho de cerveja, embora me pareça que aquela pele tão sedosa estará mais habituada a tomar banho em leite de burra como a Cleópatra.

Um “acidente” destes seria quase uma não-notícia, dada a ínfima reação da vítima, se não se desse o caso de lhe estarmos com uma tal “sede” que nem cinco cervejinhas são capazes de mitigar.

1 de março de 2012

Beatas e cocós

Segundo notícia do Expresso de 25 de Fevereiro 2012, a Câmara de Lisboa vai lançar uma campanha para uma cidade mais limpa, tendo como alvos a separação do lixo, as beatas, e os dejetos de cão.

Dá vontade de mandar tocar os sinos de todas as igrejas da capital num gesto de congratulação por tão luminosa ideia, que só peca por tardia.

Civismo é um conceito encarado muito restritamente pelos portugueses, e tem vindo a perder terreno desde que a estupidez e alarvidade tomaram conta das televisões.
Sem campanhas e ações concretas não chegaremos lá.

É bom mesmo que espalhem cinzeiros pelas portas de restaurantes e de serviços públicos porque, desde que só se pode fumar na rua, mesmo o fumador mais civilizado se vê frequentemente num excruciante dilema entre comer a beata ou deitá-la para o chão.

Quanto aos dejetos de cão, é outra história. Há por aí maravilhosos sanitários para cães que os donos nem veem. Os seus adorados animais fazem o cocó onde quiserem e fica lá, porque é tão bonito o que o meu cãozinho faz que todos devem poder apreciar.

Ai de quem manifeste incómodo com tão bela exposição – é logo mandado para todos os lados, e que o meu bichinho c*** onde quiser e tu, ó minha estúpida, não tens nada com isso, mete-te na tua vida.

Venham, então, de lá as campanhas (mais vale tarde que nunca) e, já agora, as coimas, porque sem elas continuaremos a caminhar pelas nossas ruas ao jeito de Paulo Portas a fazer slalom numa pista de Aspen.