9 de agosto de 2011

O elevador

O elevador do hotel da praia é uma espécie de Arca de Noé dos tempos modernos.
“Sobe que sobe, desce que desce”, sempre carregando gente no seu bojo, mas também tralhas, aromas e estados de alma
Pela manhã, o elevador transporta restos de sono e sonhos vestidos de calção, t-shirt e sandálias. Geralmente não tem cheiro, mas pode pairar no ar um subtil aroma a sabonete.
Ao longo do dia carrega homens, mulheres, velhos, novos, crianças de todos os tamanhos, mas também sacos de praia a abarrotar de “coisas”, toalhas, sombrinhas, cadeiras, colchões, carrinhos de bebé, cadeiras de rodas, baldes, pás, chapéus. Enfeita-se então de fato de banho ou biquíni, saída de praia, óculos de sol e chinela no pé. Cheira a sal e sol, protector solar e suor.
Leva sempre muitos, apertadinhos uns contra os outros; quase se pode apalpar a claustrofobia, o mal-estar ansioso, o desagrado pela excessiva proximidade de corpos estranhos, a sufocante ausência de espaço vital, o cansaço e o silêncio.
Ao pôr-do-sol o elevador desce já lavado; jovens de cabelo ainda molhado, senhoras bem penteadas (como o conseguirão?).
No ar misturam-se aromas de todas as águas-de-colónia da moda, e veste-se com vontade de parecer bem.
De noite, volta a subir e a cheirar de novo a sono e sonhos, mas também a sexo, álcool, erva, azia e escaldão.
Por umas horas, descansa.
Para logo recomeçar o seu interminável “sobe que sobe, desce que desce”.

8 de agosto de 2011

Estado-providência

O Estado-providência, em suma, nasceu dum consenso transpartidário do século xx. Foi implementado, na maioria dos casos, por liberais ou conservadores que haviam entrado na vida pública muito antes de 1914, e para quem o fornecimento público de serviços médicos universais, pensões de velhice, subsídios de desemprego e doença, educação gratuita, transportes públicos subsidiados, e outros pré-requisitos de uma ordem civil estável, representavam não o primeiro estádio do socialismo do século xx mas o culminar do liberalismo reformista do fim do século xx.
…os Estados-providência “socialistas” do século xx construíram-se não como uma guarda avançada da revolução igualitária, mas para proporcionar uma barreira contra o regresso do passado: contra a depressão económica e o seu resultado político polarizador na política desesperada, tanto do fascismo como do comunismo. Os Estados-providência eram portanto Estados profilácticos. Foram concebidos de forma muito consciente para responder ao anseio generalizado de segurança e estabilidade…
Graças a meio século de prosperidade e segurança, no Ocidente esquecemos os traumas políticos e sociais da insegurança em massa. E assim nos esquecemos do porquê de herdarmos esses Estados-providência, e o que os justificou.
Retirado de:
O Século XX Esquecido
Lugares e Memórias
Tony Judt, Tradução de Marcelo Felix, Edições 70, LDA., 2010

Está na hora de recordar ou aprender, digo eu, agora que tudo aponta para um regresso ao passado. O Estado-providência não foi uma boa invenção de políticos dados à caridade e que os estados hoje já não podem suportar; foi terapêutica profiláctica contra males, para nós inimagináveis, mas que nos espreitam de novo.

5 de agosto de 2011

E Pitta anima a silly season

Conhecido bloguista foi a Roma passar uns diazitos e comemorar 1 ano de casamento.
À chegada aqui à parvónia (ou será que reporta ainda de Roma? pelo menos ameaça com um continua), num post a que chama Férias Romanas 1, faz o relato pormenorizado de hotéis, cafés, esplanadas, preço de chá e bolo, dá nota a restaurantes numa escala de zero a vinte, escolhe a geladaria da sua preferência, analisa a “canalização” das empregadas da casa de chá achando-a em pior estado que a das freiras que viu no Vaticano e vai por aí fora até ao já anunciado jantar comemorativo. Termina nesse ponto para, segundo ele, “evitar provocar urticária à matilha soixante-huitard.”
Ó Eduardo, eu se calhar pertenço à matilha, mas olhe que urticária provoca-me o Sol, que é uma Estrela.
Posts destes mandam-me directa para o Kompensan.

Escalas do Levante

Quando me apetece um livro que me agarre desde a primeira frase e me envolta até ao fim, posso escolher vários autores, mas um valor seguro que nunca me desilude é Amin Maalouf.
Grande escritor e superlativo contador de histórias, libanês por nascimento e francês por adopção, faz como nenhum a ligação histórica e cultural do oriente/ocidente. As suas personagens corajosas, às vezes trágicas, são carregadas de humanidade e em todas podemos encontrar um pouco de nós
Neste livro, na página 170, encontrei uma frase do personagem principal que sabe bem ler nos tempos que vivemos – Mesmo quando não se vê luz ao fundo do túnel, é preciso continuar a acreditar que há uma luz, e que ela surgirá.
Quem não gosta duma boa história, ainda por cima bem contada?
Recomenda-se:
Escalas do Levante
Amin Maalouf
Difel

4 de agosto de 2011

Refugiados 2

Ouvi ontem dizer num telejornal que, actualmente, existem no mundo 44 milhões de refugiados.
O número é brutal mas António Guterres, Alto-comissário da ONU para os Refugiados, disse que este estava a ser um bom ano porque os países vizinhos dos emissores de refugiados (países árabes, sobretudo) estavam de fronteiras abertas e com boa colaboração, ao contrário da Europa.
Acrescentar o quê? Já aqui escrevi sobre isso e os Anders Breivik deste nosso velho continente mostram como é forte a nossa tendência para escolhermos os caminhos das trevas já bastas vezes trilhados.

3 de agosto de 2011

Dúvidas climáticas

Desde 2006, quando Al Gore apresentou Uma Verdade Inconveniente sobre as alterações climáticas, a paranóia tem vindo em crescendo na retórica, e quase exclusivamente na retórica.
Não duvido que podíamos ser muito melhores zeladores desta casa que a todos aloja e que se chama planeta Terra, mas parece-me que muitos vão ganhando bom dinheiro com a questão ecológica que se transformou, por um lado em medo (mais um medo), por outro em moda, e por outro ainda em negócio rentável.
Sempre me pareceu que o Homem, nos seus infinitos sonhos de grandeza, se considera muito mais importante do que aquilo que de facto é, talvez por ter sido tão marcada por Carl Sagan, que foi a primeira pessoa a dizer-me que nada mais somos que pó de estrela.
A revista Única do Expresso desta semana traz um interessante entrevista com Luís Carlos Molión, climatologista brasileiro, que vai bem mais longe que eu no seu cepticismo. Afirma ele que os responsáveis pelas alterações climáticas (que não são de agora, mas de sempre), são os oceanos e o sol, e que a terra vai arrefecer nos próximos 20 anos.
Quando lhe é perguntado se não há influência da actividade humana nas alterações climáticas da Terra responde que não, porque apenas 7% da superfície da Terra é manipulada pelo homem, e este apenas modifica o ambiente local em que vive.
Eu prefiro ter dúvidas a ter medo, detesto fundamentalistas de qualquer causa e penso – talvez Molión não tenha razão mas, e se tiver?
Bom, se tiver ninguém lha dará. Os negócios iniciados devem continuar, tal como o medo, não muito palpável mas já bem instalado, que sempre torna os homens mais pacíficos e acomodados.

2 de agosto de 2011

Liberdade

Quando se pretende vender alguma coisa com o artigo O em vez de UM, geralmente é conversa manifestamente exagerada.
Vem isto a propósito do romance Liberdade de Jonathan Franzen, lançado com grande estrondo em Abril deste ano. Quando em 2001 li Correcções do mesmo autor, achei que era um bom romance mas nunca mais ouvi falar em Franzen. Percebo agora que levou nove anos a publicar de novo e talvez com a pretensão de escrever O grande romance americano do século XXI.
Conseguiu-o mas apenas em tamanho; quase 700 páginas com a vida duma família americana na era Bush. Se tivesse menos 300 páginas não se teria perdido nada, ouso até pensar que seria mais difícil de realizar e mais estimulante para o leitor.
Lê-se com agrado mas está longe de ser um livro que nos fique na memória por muito tempo. Quanto a mim, também não cumpre o objectivo de Franzen em tocar o que, numa entrevista ao jornal brasileiro O Globo, classifica como o leitor ideal - alguém que “anda por aí sentindo que todo mundo parece saber o que fazer, menos ele, que todos estão seguros enquanto ele está cheio de conflitos, e que ninguém parece incomodado com as coisas que o incomodam”.
Um leitor assim sabe, mesmo sem ser cínico, que os finais felizes como o que o autor escolheu geralmente só acontecem nos filmes de domingo à tarde.
Mas, mesmo assim, vale a pena ler.

Ed. D. Quixote, 2011

1 de agosto de 2011

Ponham os olhos no Viola e metam a viola no saco

Deu-me a curiosidade para ir espreitar aqui as nomeações do governo para a Secretaria de Estado da Cultura.
Ao todo são 10 nomeações, menos que para a Caixa Geral de Depósitos, o que se percebe – cultura é cultura, Dinheiro é Dinheiro e não há cá comparações possíveis.
Foram nomeados:
3 Secretárias
2 Especialistas jurídicas
4 Colaborador/Especialista
1 Motorista
Tudo mais ou menos normal, se não se desse o caso de um colaborador/especialista ganhar 474,12€ e os outros três ganharem todos um pouco mais de 3000€.
Será especialista de quê, para ganhar tão mal, coitado? Se calhar do sabonete a usar nos WC.
Em compensação temos um motorista que deve ter abandonado a Fórmula 1 para conduzir o Viegas; é que o rapaz, de 21 anos, vai ganhar, como ordenado-base obviamente, 1866,73€.
Chama-se André Viola e é um exemplo para toda essa juventude que para aí anda a dizer que está à rasca. Vá, meninos, ponham os olhos no Viola que certamente foi à luta, não se acomodou, foi criativo e empreendedor, e por isso teve o justo prémio.
Ah, houvesse muitos Violas neste país e nem teríamos cá troikas nem coisas dessas com nomes esquisitos.

29 de julho de 2011

Pessoinhas



Sou como todos os portugueses. Se me perguntarem, respondo logo que sou contra toda e qualquer violência, mas não é assim tão raro ter vontade de bater em algumas criaturas. Lá me aconteceu hoje outra vez.
No Pessoas do Público de hoje diz-se sobre Rachel Zoe (para quem não se lembre é uma americana loira, enjoada, malcriada e neurótica que tem um programa que passa na SIC Mulher em que briga com os empregados, limpa os pés ao marido e, de vez em quando, veste umas celebridades lá do sítio), o seguinte e resumindo: o seu filho de quatro meses tem “pelo menos 14 pares de sapatos, de marcas como Ralph Lauren, ou seja, milhares de euros em sapatos que deixarão de servir ao bebé dentro de pouco tempo. Do guarda-roupa faz ainda parte um casaco de pele da Gucci.”
Ora digam lá se não apetece dar-lhe uns valentes tabefes naquela cara enjoada, seguidos de umas boas palmadas no sítio que eu cá sei. Só para ela acordar, claro.
E o Público bem podia criar uma rubrica para pessoas assim que se chamasse Pessoinhas.

28 de julho de 2011

Estamos cansados, ó bilionários!

Os 25 mais ricos de Portugal aumentaram fortunas para 17,4 mil milhões

Estamos cansados de ler sempre as mesmas notícias.
Estamos cansados de vós, ó bilionários, não por serem ricos, mas porque a vossa riqueza não produz nem redistribui riqueza.
Estamos cansados de 10 anos de crise enquanto vocês engordam.
Estamos cansados de impostos, enquanto vocês engordam.
Estamos cansados de “cortes”, enquanto vocês engordam.
Estamos cansados de aumentos, enquanto vocês engordam.
Estamos cansados de taxas, enquanto vocês engordam.
Estamos cansados de carregar a culpa, enquanto vocês engordam.
Estamos cansados. Estamos cansados. Estamos cansados.
Mas, povos cansados também fazem história. É só ler a História.

27 de julho de 2011

Olhando os outros

Elas chegavam impreterivelmente às 18h30. Todos os dias.
Iguais. Apenas separadas por trinta anos de vida vivida, ou por viver.
As cadeiras de praia e a sombrinha previamente alugadas lá estavam à espera,
paralelas mas ligeiramente oblíquas em relação ao mar. Procuravam o sentido do sol, uma um pouco atrás da outra.
O ritual começava então.
Dos enormes sacos saiam duas toalhas rigorosamente iguais, com riscas azuis e amarelas, que eram estendidas nas cadeiras e presas na parte superior da lona com gestos precisos e domésticos. Os sacos eram colocados nos assentos e tapados com a parte restante da toalha. A filha tirava rapidamente a “saída de praia”, calçava os sapatos de plástico, alinhava com o elástico o cabelo já alinhado, e dirigia-se para a beira da água. Para lá e para cá, trinta passos de cada vez. Tinha a posição corporal do atleta nos momentos de concentração antes da prova que preparou durante todo o ano. Cabeça ligeiramente flectida, passos certos e cadenciados, a suave palmada na coxa, como que para descontrair a mão, ou afugentar o medo de falhar.
Contudo, o seu corpo não tinha nada de atlético. Miúdo e magro, razoavelmente moldado no biquíni discreto.
De vez em quando permitia-se sair da concentração e, com um olhar furtivo, averiguava o estado de preparação de sua mãe para o banho de mar.
Esta, tomava o seu tempo. Despia a bata, colocava o boné verde, calçava uns ténis, punha batom protector, arrumava e tornava a arrumar. Quando terminava, com inequívoco sinal de maior minúcia materna, quebrava a sintonia recolhendo os cantos da toalha sob o saco, como quem faz a cama.
Finalmente pronta.
A filha prontamente acorria, dava-lhe um esvoaçante mas terno beijo no ombro, pegava-lhe na mão e caminhavam assim, durante muito tempo, por dentro do mar chão e prata do entardecer.
Nunca vi a mãe beijar a filha.

26 de julho de 2011

Bom apetite!

Podem homens inteligentes, subitamente, transformar-se em adoradores de nabos?
Podem. É só ver a devoção com que alguns, na disputa eleitoral do PS, se entregaram ao TÓ ZÉ. E que felizes ficaram!
Aqui deixo, para todos, sinceros votos de boa digestão do tubérculo que tanto apreciam.

25 de julho de 2011

Trilhos (ou o amor aos livros)

No meu caso, não há maneira mais rápida de fazer amigos que encontrar alguém que ame os livros; será assunto encerrado se amarmos os mesmos livros.
Começamos por os referir, depois trocamo-los, e por fim comentamo-los com aquele sorriso largo e cúmplice de puro deleite partilhado.
Recentemente, uma amiga assim ofereceu-me um livro que já me tinha emprestado há uns bons anos. Não foi um livro igual àquele, não, foi o mesmo livro, aquele cujas páginas eu já tinha percorrido bem envolvida na escrita, na aventura, na “moral da história”.
Pego-lhe, manuseio-o já bem usado, cheiro-o, acho que o acaricio até, olho de novo as palavras manuscritas de fresco e, nesse exacto momento, sou feliz.
Tem por título Trilhos – No deserto australiano com quatro camelos e um cão.
A autora é Robyn Davidson, foi escrito em 1980 e publicado em Portugal pela Quetzal em 1999.
Sobre ele Doris Lessing escreveu:
“Um livro forte e estimulante escrito por uma jovem e original escritora (…). Este livro figurará entre os melhores livros de exploração e viagem e, como eles, é um testemunho de auto-descoberta e auto-avaliação”.
É isso mesmo.
Talvez ainda se encontre por aí, não é certo, mas agora eu tenho-o.
A Paula ofereceu-mo.

24 de julho de 2011

Coisa ruim

Saí daqui há uma semana e parece que, entretanto, coisa ruim tomou conta da situação.
A Europa, como diria o Gedeão, "faz que anda mas não anda, parece de brincadeira"
Morreu Amy Winehouse.
Morreu Lucian Freud.
O atentado de Oslo matou quase 100 pessoas.
Portugal não escapou ao desastre e o PS acaba de eleger para secretário-geral António José Seguro.
Livra !

13 de julho de 2011

A TMN e as suas manigâncias

Há cerca de um ano comprei uma pen de banda larga da TMN.
As condições obrigavam-me a fazer um carregamento de 10 euros a cada seis meses.
Em contacto telefónico, feito por mim e por outros motivos, vim a saber que as regras mudaram e que agora é obrigatório o carregamento de 10 euros mas a cada 3 MESES.
Eu acho que isto tem um nome feio mas, como toda a gente sabe qual é nem vale a pena escrevê-lo.
Vale a pena é confirmar que a PT (e a sua TMN) é mesmo LIXO.

Um país às avessas

Eu nem sou admiradora do pensamento do João César das Neves mas este artigo de opinião que publicou no dia 11 de Julho no DN, e que transcrevo, tem muito de verdadeiro e mostra bem um país às avessas

Há dias um pobre pediu-me esmola. Depois, encorajado pela minha generosidade e esperançoso na minha gravata, perguntou se eu fazia o favor de entregar uma carta ao senhor ministro. Perguntei-lhe qual ministro e ele, depois de pensar um pouco, acabou por dizer que era ao ministro que o andava a ajudar. O texto é este:
"Senhor ministro, queria pedir-lhe uma grande ajuda: veja lá se deixa de me ajudar. Não me conhece, mas tenho 72 anos, fui pobre e trabalhei toda a vida. Vivia até há uns meses num lar com a minha magra reforma. Tudo ia quase bem, até o senhor me querer ajudar.
Há dois anos vierem uns inspectores ao lar. Disseram que eram de uma coisa chamada Azai. Não sei o que seja. O que sei é que destruíram a marmelada oferecida pelos vizinhos e levaram frangos e doces dados como esmola. Até os pastelinhos da senhora Francisca, de que eu gostava tanto, foram deitados fora. Falei com um deles, e ele disse-me que tudo era para nosso bem, porque aqueles produtos, que não estavam devidamente embalados, etiquetados e refrigerados, podiam criar graves problemas sanitários e alimentares. Não percebi nada e perguntei-lhe se achava bem roubar a comida dos pobres. Ele ficou calado e acabou por dizer que seguia ordens. Fiquei então a saber que a culpa era sua e decidi escrever-lhe. Nessa noite todos nós ali passámos fome, felizmente sem problemas sanitários e alimentares graves.
Ah! É verdade. Os tais fiscais exigiram obras caras na cozinha e noutros locais. O senhor director falou em fechar tudo e pôr-nos na rua, mas lá conseguiu uns dinheiritos e tudo voltou ao normal. Como os inspectores não regressaram e os vizinhos continuaram a dar-nos marmelada, frangos e até, de vez em quando, os belos pastéis da tia Francisca, esqueci-me de lhe escrever. Até há seis meses, quando destruíram tudo.
Estes não eram da Azai. Como lhe queria escrever, procurei saber tudo certinho. Disseram-me que vinham do Instituto da Segurança Social. Descobriram que estava tudo mal no lar. O gabinete da direcção tinha menos de 12 m2 e na instalação sanitária do refeitório faltava a bancada com dois lavatórios apoiados sobre poleias e sanita com apoios laterais. Os homens andaram com fitas métricas em todas as janelas e portas e abanaram a cabeça muitas vezes. Havia também um problema qualquer com o sabonete, que devia ser líquido

12 de julho de 2011

Dublinesca

Há livros que compramos sem entusiasmo, vá-se lá saber porquê. Pegamos-lhes também sem entusiasmo e, quando assim é, muito raramente eles nos conseguem agarrar.
Foi o que me aconteceu com Dublinesca de Enrique Vila-Matas, lido durante um ror de tempo mais por teimosia do que por cumplicidade.
Ele é considerado o grande autor contemporâneo espanhol (ou catalão), e esta já é a segunda vez que faço o esforço para gostar dos seus livros, mas agora acho que já chega.
O resumo do livro apresentado pelo editor está por toda a parte para quem quiser ter uma ideia sobre o seu conteúdo, e nem vale a pena falar dele aqui, mas vale a pena relembrar algumas frases proferidas pelo autor numa entrevista concedida a José Riço Direitinho no ípsilon  de 23/02/2011..

"a situação actual da literatura não poderia ser mais lamentável".
“O Auster decidiu que esse passado em comum nos unia. Creio que decidiu isso porque tinha vontade de encontrar um motivo razoável para começar a ser meu amigo.”
“O curioso é que no final do meu romance a pobre literatura acaba por estar mais viva do que nunca, como se o seu funeral em Dublin - ou o meu romance - a tivessem trazido de novo à vida, a tivessem ressuscitado.”
Ora aí está um homem/escritor contente consigo e que se tem em alta consideração; pois se até o Paul Auster quis à força encontrar um motivo para ser seu amigo e se o seu romance ressuscitou a literatura...

E acrescenta também:
"Não sabemos se a literatura está em crise, mas a crise do juízo literário salta à vista."
Não tenho dúvidas – é esse o mal de que padeço.

11 de julho de 2011

E agora, Tristane

Dominique Strauss-Kahn tem o seu assunto quase arrumado lá nas Américas, embora, para o comum dos mortais, todas as dúvidas sejam legítimas, qualquer que seja o resultado final, dada a enormidade de meios utilizados pelas partes.
Posto isto, eis que lhe aparece uma tal Tristane Banon, apresentando queixa em França por tentativa de violação em 2003, ou seja, há 8 anos.
Dá que pensar o que pode levar uma mulher, com as condições dela, a denunciar o caso apenas 8 anos depois, e como é que ela vai provar, ao fim de todo este tempo, a acusação que faz.
Diz Tristane que avançou com o processo por “não suportar ver as imagens de Dominique Strauss-Kahn a comer tranquilamente, com amigos, em restaurantes de luxo de Nova Iorque.” 
E nos outros oito anos ele levou vida de monge tibetano?
Diz também que foi aconselhada a calar-se mas, há 8 anos, Tristane já era uma mulher com meios para, em seu nome e em nome de outras mulheres com menos meios, apresentar queixa dum crime grave como é a tentativa de violação.
Acobardou-se, no caso de estar a falar verdade, mas na vida há um tempo para tudo.
DSK não é “flor que se cheire”, já o sabemos, mas esta queixa parece-me fora de prazo e desconfio que, num país misógino e machista como a França é, Tristane vai sair-se mal e terminará arrasada.
Quanto a DSK, provavelmente não será presidente de França nem qualquer outra coisa que valha a pena, mas vai continuar por aí a viver muito confortavelmente e a ser o velho baboso que já todos sabemos que é.
Teorias da conspiração? Neste caso não me convencem.

8 de julho de 2011

Lição prática sobre isto de ser LIXO

O país, finalmente, indignou-se por o classificarem como lixo. Por mim, já ando indignada desde aqui
Convém, contudo, juntar ao sentimento de ofensa algum conhecimento sobre os efeitos práticos da coisa.
Aqui fica uma liçãozinha que transcrevo dum artigo do Público de hoje, 8 de Julho:

A RTP assumiu ontem ao Público que foi obrigada a renegociar o pagamento da dívida devido às decisões anteriores da Moody’s que em Abril já tinha cortado a notação financeira da empresa. Esta renegociação fez disparar os empréstimos que a empresa terá de pagar já este ano, de 47,5 para 208 milhões de euros.
O credor é o DEPFA Bank, com sede na Irlanda.

O negócio do lixo é bom, por isso há tantos sucateiros.
Mas estes, nem um saco de robalos nos oferecem.

As saídas nocturnas de Passos Coelho

No dia em que, de manhã, levou um murro no estômago, à noite Passos Coelho foi ao teatro com a mulher e algumas filhas.
A escolha recaiu sobre "VIP Manicure - A Crise", com Maria Rueff e Ana Bola, no Casino de Lisboa. (Notícia e foto daqui)
Ainda pensei que, para uma primeira aparição, o Francisco José Viegas lhe recomendasse uma ida ao Teatro Nacional D. Maria, ou ao Teatro Camões para ver a Companhia Nacional de Bailado, ou mesmo ao Festival Ao Largo do S. Carlos que é mais levezinho mas muito agradável. Caramba, sempre são todos pagos por ele com o dinheiro que lhe entregamos, mas, pelos vistos o Francisco José Viegas estava distraído, ou não risca nada p’ra aí, e o príncipe de Massamá ficou-se com a manicure.
Parece que se riram muito. Oxalá não lhe tenha piorado a dor no estômago. Cruzes!

7 de julho de 2011

Choque e pavor

Tenho aprendido muito de economia nos últimos tempos; sobretudo palavras. Cá em casa é tudo mais para o lado da microeconomia, mas o país inteiro viu-se obrigado a aprender macroeconomia por via dos doutos economistas que nos enchem os écrans á hora da sopa, do café ou até do “digestivo”.
Rating, default, alavancagem, dívida soberana, eurobonds, são termos que entraram na nossa vida e se tornaram tão normais de ouvir ou dizer como pepino, amigdalite, virose ou “bica”
Segundo as agências de rating, há muito que nos aproximávamos do “lixo” mas agora  já está. Tudo LIXO. (Cá na minha rua, o carro do lixo só leva lixo doméstico 3 vezes por semana mas na rua do rating deve passar 7 dias na semana e fazer horas extraordinérias.)
Os queridos políticos e comentadores impingiram-nos, atempada e prolongadamente, que mudar para um governo de direita, aumentar impostos, impor mais sacrifícios, cortar direitos a quem trabalha e a TSU para os patrões, iria ajudar muito a que as ditas agências tivessem calminha. Isso era o que eles nos diziam porque era o que, de facto, queriam fazer, mas sabiam muito bem que a coisa não ia parar. Pois se até eu sabia! Sabiam que somos apenas amendoins para macaco e o que está em curso, há muito tempo, é o ataque ao euro e à UE. As vozes dos que hoje nos comandam nunca se fizeram ouvir quando esta brincadeira começou. Mas ouvem-se agora que já estão no poder.
Nunca antes ouvi Faria de Oliveira dizer que a descida do rating é “imoral e insultuosa” ou Mira Amaral proclamar que a decisão de descer o rating é “infeliz e terrorista” e, se não fossemos nós a pagar as favas, até seria divertido ver aquelas duas marionetas do sistema, Passos Coelho e o chefe da claque dos patrões a dizerem, os dois na mesma manhã, que levaram um murro no estômago.
Eles ficaram à rasca mas o principal, ou seja, as medidas draconianas que eles queriam, estão garantidas. Já chegaram umas e o resto vem a caminho, sempre para aplacar a ira dos mercados.
São assim as lutas pelo poder e pelo capital. A direita portuguesa lutou e ganhou. As agências de rating, verdadeira infantaria dos mercados, continuam a luta pelos seus clientes lá no assento etéreo onde quer que eles se assentem.
Operação "Choque e Pavor" foi o que ontem provaram governantes e empresários.
Nós? bom, para nós esse já é o estado natural.

6 de julho de 2011

Danos colaterais

Quem lê este blogue, já percebeu que tenho pouco apreço por Fernando Nobre e que ele consegue até bulir-me com os nervos.
Volto e ele, mas espero que seja a última vez.
Há cerca de dois anos, numa tarde tórrida de verão, suportei estoicamente o calor e fui até uma livraria de província para assistir ao lançamento dum dos seus livros, com a presença do autor.
Foi a primeira grande desilusão. Não ouvi falar de mais nada que não fosse o número de universidades pelas quais era doutor honoris causa e das suas "boas"origens familiares.
Quando anunciou a candidatura à Presidência da República pensei que raio teria passado pela cabeça do homem. A campanha foi o que se sabe, ficando-me a ideia duma cabeça cheia de nada, frases feitas e populistas, e uma consciência de si muito para além da realidade.
O episódio da candidatura pelo PSD mostrou um homem com práticas muito distantes dos princípios que nos quis fazer acreditar que eram os seus, e também com uma grande sede de poder e protagonismo.
Abandonou agora o lugar de deputado, o que se compreende à luz do seu passado recente, mas, se optasse por ficar, ainda poderia redimir-se um pouco, tentando ser no Parlamento uma voz independente em defesa dos mais desprotegidos, como prometeu na campanha presidencial.
Diz que volta para a acção humanitária, onde se sente mais útil, e eu acho que nunca devia ter de lá saído.
Contudo, a AMI está inexoravelmente ligada a Fernando Nobre, e vice-versa, o que a fará ressentir-se da actuação pública do seu presidente.
Acredito que o homem faz o lugar, e não o contrário. Ora, atendendo ao conhecimento que agora temos de Fernando Nobre, e depois de conhecer o organigrama da AMI, julgo que não serei a única a, de futuro, pensar muito bem a quem entrego aquilo que puder dar.
Será, contudo, uma pena que seja a AMI a sofrer os danos colaterais.

5 de julho de 2011

Anestesia geral

A 5 de Junho, os portugueses foram a votos apenas com vontade de mudar as pessoas. Já sabiam aquilo que comentadores e jornalistas parecem não saber ainda, visto mostrarem-se tão indignados com os últimos anúncios governamentais – que os políticos mentem em campanha, que mal tomam posse fazem exactamente o contrário do que disseram, que as contas são sempre mais alarmantes do que eles pensavam e que a culpa toda é de quem governou antes.
A este saber popular acresce uma campanha de muitos meses, antes das eleições, feita por economistas e comentadores em estereofonia, determinados em meterem-nos na cabeça que o caminho era só um – o dos sacrifícios.
A coisa foi tão bem feita que conduziu a uma enorme anestesia geral do tipo “porradão na cabeça” de que todos padecemos agora.
A juntar a isso, é verão; às vezes está calor, pensamos em férias, sol, praia, sesta e outras coisas próprias da época. Queremos partir por uns dias e “semear” o corpo moído na areia.
Havemos de acordar da anestesia geral com dor de cabeça lá para Setembro. Até lá, bebe-se uma cerveja e comem-se uns tremoços; depois? ora, depois logo se vê.

4 de julho de 2011

Good night and good luck


Vida portuguesa(Guedes, Moniz, Bairrão e etc.)

Era uma vez um senhor, chamado Bernardo Bairrão, que era administrador duma TV onde também trabalhava um casal de nome Moniz/Guedes. Eram próximos, muito próximos. A senhora Guedes tinha um programa de má-língua à sexta-feira onde dizia tudo e mais um par de botas do primeiro-ministro (o outro, o anterior). Digo isto porque me contaram; eu nunca vi porque tenho por norma nunca me aproximar duma boa peixeirada (cobardia minha).
No ano passado, não sei como, nem porquê, nem quem mandou, mas sei que a senhora Guedes foi despedida e acabou-se o palanque da má-língua. O extremoso marido saiu também daquela TV mas o senhor Bernardo lá continuou, impávido e sereno, sentado na mesa da administração, assistindo (talvez até participando) da saída do mega-casal. Suponho que o super-mega-casal não gostou. Com a chegada dum novo governo, o senhor administrador Bernardo B. foi convidado para secretário de estado do ministério das polícias e fogos e cheias e bombeiros e essas coisas todas, e aceitou. O casal ressentido parece que espreitou a oportunidade e insinuou, junto de quem de direito, algo mais nebuloso sobre o passado do ex-amigo. Resultado – o senhor Bernardo foi desconvidado.
A senhora Guedes, que tinha ficado desempregada, apressou-se a anunciar que ia para a outra TV, mas nunca mais ia. A outra TV manteve-a em banho-maria desde Novembro a ver em que paravam as modas e agora, com a chegada dum novo governo, argumentando com “uma alteração de contexto”, desconvidou-a. Acho normal. De facto, para que quer um homem na sua TV uma senhora a dizer mal do seu partido e do seu governo? Ainda se lá estivesse o outro, podia continuar a peixeirada.
Resumindo: em vez de uma desempregada, ficámos com dois.
Resumindo mais: a traição e a vingança fazem parte do código genético da humanidade.
Resumindo mais ainda: histórias assim, de tão banais, não são histórias não são nada.

Nota: estas instrutivas informações foram todas colhidas no Expresso de 2 de Julho.

1 de julho de 2011

Uma imagem vale mais que mil palavras


Esta imagem de satélite foi roubada ao blogue A Terceira Noite por a considerar tão impressionante. Integra, a preto e branco e com muito má qualidade, o livro A Longa Noite de um Povo, A vida na Coreia do Norte da jornalista Barbara Demick, e mostra a região da Coreia do Norte mergulhada na escuridão, ao lado da Coreia do Sul e do Japão imersos em luz (talvez até demasiada).
Apesar de a leitura do livro ainda estar no começo, parece ser um bom documento sobre um país de que, afinal, sabemos tão pouco.

A Longa Noite de um Povo
A vida na Coreia do Norte
Barbara Demick
Temas e Debates/Círculo de Leitores

O livro foi vencedor do prémio Samuel Johnson 2010, a mais importante distinção britânica para a não-ficção.

30 de junho de 2011

Jardim, versão de esquerda

Se alguém, alguma vez e injustamente, pensou que Alberto João Jardim não era um homem sensato, enganou-se redondamente.
É só ler a notícia

"Jardim recusa privatizar águas, electricidade e saúde" (aqui)

Um pouco mais à frente, pode ler-se que igualmente recusa o fecho do Jornal da Madeira de que o governo da região é único proprietário, e também aí revela sensatez – é que isso seria o mesmo que desligar o ventilador ao Alberto João.
Homem sensato vale por muitos, digo eu.

28 de junho de 2011

Parabéns ao Gonçalo M. Tavares


Ontem percebi, através de alguns blogues e do facebook, que Gonçalo M. Tavares ganhou o Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores (APE), com a obra "Uma Viagem à Índia".
Já tinha feito a ronda pelos jornais online e não tinha visto nada nesse sentido. Hoje googlei e lá descobri duas pequenas notícias.
Em compensação, o estado de saúde de Angélico está no topo da página dos mesmos jornais. Assim se vê onde está o interesse dos portugueses e o pouco que os media fazem para puxar esses interesses, nem que seja um degrauzinho só, mais para cima.
Parabéns, Gonçalo M. Tavares

O senhor deputado e a cervejinha

- Beber a cerveja pela garrafa é normal?
- Sim
- Sempre?
-Não, só às vezes.
- Então quando?
- Bom, por exemplo, num piquenique, em viagem, na praia, quando duvidamos da lavagem dos copos, num passeio a pé, num concerto rock, etc.
- E se for no restaurante do Centro de Arte Moderam da Gulbenkian?
- Bom, aí seria um caso de alguém que devia trocar a cerveja pelo chá.
Tive este diálogo imaginário com o meu imaginário neto quando vi um conhecido deputado da nação fazer exactamente isso – beber a cerveja pela garrafa no restaurante do CAM, na  5ªfeira da semana passada, dia feriado.
Eu sei que o homem é amigo do proletariado que bebe sempre pela garrafa lá na tasca ao pé de casa mas, caramba, está no parlamento desde que acabou a escola primária, faz leis, opina, nunca se ri, fala com a boquinha pequena, é homem de grandes responsabilidades e ainda não aprendeu os gestos mínimos de civilidade à mesa?
Pode-se argumentar que as pessoas são livres? Pode, e eu também sou livre de achar que “ter maneiras” nunca fez mal a ninguém, ainda mais se se é figura pública e deputado da nação.
Isto faz de mim uma bruxa elitista e reaccionária?
Então, é isso mesmo que eu sou.

27 de junho de 2011

A hipersensibilidade dos socialistas derrotados

Sempre tive coração mole e comoção fácil com o sofrimento dos outros se ele for silencioso. Ao contrário, quando o sofrimento lhes dá para fazer e dizer disparates, vai-se-me a compaixão e, às vezes, até o respeito.
Alguns socialistas não têm sabido digerir a derrota e têm entrado pelo caminho do disparate.
Já  aqui e aqui abordei inacreditáveis declarações que mostram desnorteio e mau perder.
Como se pode ler no post anterior, publiquei um comentário de um anónimo que se encaixa no paradigma do socialista em sofrimento. Como não me senti ofendida, continuo na onda da compaixão e respeito.
Segundo o artigo do Expresso, que li todo, Canavilhas não recebeu Francisco José Viegas com os argumentos já sabidos. O Expresso diz textualmente: “A ex-ministra proibiu, assim, a entrada dos novos titulares no “seu” Ministério. Viegas desceu de degrau e mudou de interlocutor”
Depois tudo se resolveu num encontro no parlamento e, claro está, vai recebê-lo para lhe passar a pasta depois de ele tomar posse. Era óbvio que isso iria acontecer e eu pergunto: então para quê a tentativa de humilhação?
Gabriela Canavilhas pode, como eu, discordar da “despromoção” da Cultura e disse-o logo, posto o que era escusado ter ido mais longe com uma atitude estúpida e arrogante, repito, e acrescento ainda, bacoca, ridícula e ressentida, que a deixou ficar mal na última fotografia e não chamou a atenção para coisíssima nenhuma a não ser para a sua vontade de ser pôr em bicos de pés.
Mas, como Gabriela Canavilhas é uma irrelevância política, amanhã já ninguém se lembra do que disse, do que fez e, em breve, ninguém se lembrará dela mesma.

25 de junho de 2011

As fotografias de Canavilhas

Durante quase dois anos habituámo-nos a uma ministra da Cultura que ficava sempre bem na fotografia. Se Sócrates cuidava da imagem, Gabriela podia ser sua professora.
De saída do governo recusou-se a passar a pasta a Francisco José Viegas porque ele é apenas Secretário de Estado e Ministro não se rebaixa assim (pensou a Gabriela).
Canavilhas é fotogénica mas a arrogância e a estupidez nunca o foram. Por isso ficou tão mal na última fotografia.
A propósito, que será que ela fez de tão grandioso naquele ministério que não possa passar a um Secretário de Estado? Alguém sabe? É que eu não estou mesmo a ver…

24 de junho de 2011

Os Vivos que paguem a crise

Já todos ouvimos e lemos que os nossos mortos se continuam a tratar e que os nossos médicos mortos continuam a receitar.
Ficámos agora a saber que também alguns magistrados mortos podem receber subsídios de compensação (aqui)
Ainda me indigno, estúpida que sou, mas de seguida rejubilo. É que isto de viver em democracia é mesmo porreiro, pá. Em ditadura acontece o mesmo mas ninguém sabe nada, em democracia está tudo escarrapachado no jornal.
Só me falta mesmo saber o que fazer com tanta informação.

22 de junho de 2011

Brevemente na sua PT

Todos estamos habituados a ligar para a PT (ou para a TMN) e sermos sucessivamente passados para outro operador que, supostamente, nos poderá dar a melhor resposta às nossas questões.
Entre “transferências” sempre nos perguntaram se podíamos aguardar um momento mas agora tudo mudou. A PT resolveu ser criativa na linguagem e agora os operadores pedem-nos um BREVEMENTE. Pode aguardar um BREVEMENTE? Ou então, um BREVEMENTE, por favor.
Quem terá sido a luminária criativa?
E quem será o chefe da luminária?
Brevemente e a longo prazo acho que não há Crato que nos valha.

21 de junho de 2011

Passos Perdidos de Passos

Confesso, deu-me gozo. De boca seca e cara de pau, ontem à tarde, e ao fim de duas rejeições, Fernando Nobre retirou-se da eleição para presidente da AR.
Deu-me gozo a sua derrota pessoal, que buscou com as próprias mãos.
Se fosse sério, depois duma campanha a dizer mal dos políticos, não aceitaria o convite dum partido e ainda mais para um lugar específico - nada mais, nada menos, que o segundo lugar do Estado. Se fosse sério, quando percebeu os problemas que a sua candidatura trazia ao partido que o convidou, ter-se-ia retirado rapidamente para lhe facilitar a vida, ainda mais num momento em que toda a direita apela ao “entendimento”.
Limitou-se a ser ambicioso, convencido de que valia alguma coisa; verificou agora, com um travo amargo, que não vale nada, que politicamente é zero e que o país o dispensa. Cada vez que foi a votos por si mesmo, perdeu.
Deu-me gozo também que Passos tenha percebido logo no primeiro dia que não terá vida fácil e que, em política, o voluntarismo raramente colhe (nem plano B ele tinha).
Finalmente, fiquei muito intrigada com aqueles dois senhores que se colocaram por trás de Nobre quando este veio fazer a sua declaração de boca seca e que, mal ele acabou, o retiraram dali quase ao colo. Não sei se serão colegas de bancada mas achei que tinham ar de capangas.
Que mau aspecto tinham todos.
Que mau aspecto teve tudo.

20 de junho de 2011

O BE vai implodir?

O desaire eleitoral do Bloco, para quem está de fora, era esperado. Nos últimos tempos de Sócrates, as linhas orientadoras do Bloco foram erráticas, inconsistentes, quando não arrogantes.
Quando nasceu, o Bloco foi uma esperança para todo um eleitorado de esquerda, na sua maioria educado e urbano, que já não se revia nos tradicionais partidos de esquerda. E conseguiu ser uma esperança transversal a várias gerações.
Era também alguma coisa em construção (como a Europa), nascido da vontade de entendimento entre vários pequenos partidos de esquerda, até aí sempre de candeias às avessas uns com os outros. Era, enfim, uma esperança, ainda que de contornos pouco definidos, para todo um povo de esquerda que se sentia órfão.
Esta “criança”, foi crescendo e engordando, sempre acarinhada, até se tornar num adolescente que, subitamente, se confronta com a dura realidade da vida – ela não é fácil.
É então que os genes de todas as famílias dão prova de vida, todos ao mesmo tempo, e temos um adolescente perturbado, com borbulhas e dentes tortos, que tende a fechar-se na cave, culpando o resto do mundo e curtindo apenas, e só, a sua própria música.
Pode, sem dúvida, estar a viver apenas uma crise de crescimento que será ultrapassada, mas pode também perder-se na sua caminhada para a vida adulta.
Os mais recentes sinais não são animadores. Daniel Oliveira e Rui Tavares são duas excelentes cabeças que, nos seus blogues e jornais em que colaboram, têm procurado pensar o passado, e sobretudo o futuro do seu partido, em público e sem tabus. O que eles escrevem é política pura e séria.
À extrema correcção com que o têm feito, alguns dirigentes do partido começam a responder ao velho estilo da esquerda estalinista, o que não augura nada de bom.
O tal povo de esquerda órfão, educado e urbano, fartou-se exactamente disso dentro do PCP e de outros.
A grande discussão interna estará marcada para Setembro mas, a continuar assim por tão “maus caminhos”, este adolescente problemático pode nem chegar à idade de votar.

18 de junho de 2011

Dignidade num país pouco dado a esses “devaneios”

Saramago: Fundação não vai "ter dinheiro do Estado"

A Fundação José Saramago não recebeu "nem um tostão do Estado" e assim continuará, tendo como princípio manter a sua independência, disse à Lusa a sua presidente, Pilar del Río.
"Não vamos ter dinheiro do Estado. A Fundação José Saramago não admite dinheiro público", realçou a jornalista e tradutora, que viveu com José Saramago durante mais de duas décadas.

"Temos que nos alimentar a nós mesmos, trabalhando, com todo o nosso empenho, toda a nossa energia e toda a nossa capacidade criativa", contrapõe, realçando que "a fundação buscará dinheiro como puder".

Tão raro que até espanta!

17 de junho de 2011

Se não fosse Pitta...

No seu blogue Da Literatura, e num post intitulado Habituem-se, Eduardo Pitta apresenta o resultado final da contagem dos votos: 132 de direita e 98 de esquerda. Termina dizendo Agradecer a Francisco Louçã e Mário Nogueira. (sublinhado meu)
Eu pensava que era para agradecer ao Sócrates e, vá lá, também àquelas do rating, mas parece que percebi tudo mal, e quem deu a vitória à direita foi o malvado do Louçã e o sindicalista Nogueira. Os portugueses também não foram para aí chamados.
Estamos sempre a aprender com os nossos intelectuais.
Valha-nos isso, já que o Paulo Macedo está de volta e desta vez para nos tratar da saúde
Cada vez que me lembro dos milhões de cartas que ele mandou aos contribuintes quando estava à frente da Direcção Geral de Impostos, admito seriamente que agora, em tempo de poupança, vá tratar da saúde dos doentes por email.  

Nobre sem nobreza

Porque é que o Nobre não tem a Nobreza de renunciar ao lugar de deputado e, assim, poupar engulhos àquela cabeça tonta que se lembrou de lhe garantir o lugar de Presidente da AR?
O doutor podia voltar, se tivesse coluna vertebral em vez de umbigo, àquele trabalho humanitário que lhe ficava tão bem.
Por mim, gostava.

"A Árvore da Vida"

Os que acham “A Árvore da Vida” o melhor filme do ano que me desculpem mas, na minha modestíssima opinião, aquilo é uma grande seca, e não é por ter ganho a Palma de Ouro em Cannes que lhe vou dar o (meu) benefício da dúvida
Tendo por base os eternos conflitos americanos entre pai e filho ao longo do crescimento deste - digamos que podia ter sido um pouco mais original no tema de fundo, Terence Malick constrói uma salada entre o catecismo e o National Geographic para deslumbrar o olho e (pretensamente) acordar a consciência do pagante.
Tem imagens belíssimas para quem não adormecer entretanto, a música é boa mas, no cômputo geral, é uma enorme chatice por um punhado de euros.
Os críticos também se dividem, mas eu estou com Vasco Câmara que no Público lhe atribuía duas estrelinhas; e vai cheio de sorte, que eu hoje estou bem-disposta.

16 de junho de 2011

Alguém viu por aí a ética?


A notícia é chocante, e a degradação moral que ela mostra leva-me a pensar que este país caminha para ser inviável.
Lembro-me de, há muitos anos, ter ouvido Laborinho Lúcio dizer que um jovem que não prevarica será um adulto malformado. Concordei com ele. Prevaricar e ter a respectiva consequência ajuda a formar uma personalidade saudável.
Porém, a educação moderna aceita a prevaricação sem consequência e assim criamos adultos tão malformados que se entregam ao copianço quando se preparam profissionalmente para decidir das nossas vidas.
Os seus superiores também não acham isso grave e optam por passar toda a gente com 10. O argumento usado – falta de tempo para repetir o exame (falta de tempo de quem?) mostra que o rigor e a ética também não fazem parte das suas preocupações.
Notícias destas dão-me calafrios na espinha.

15 de junho de 2011

"Viciado" em pornografia

O puritanismo dos americanos é bastante estranho para a maioria de nós, europeus. Entende-se por lá que os políticos devem ser bacteriologicamente puros, semideuses, e, caso se prove que não o são, têm assegurado um auto de fé com toda a nação a assistir.
Chegou agora a vez dum congressista do partido democrático, Anthony Weiner.
Constou que o senhor tem, desde há três anos, o hábito (vício?) de trocar mensagens eróticas na internet com seis mulheres, e isso foi suficiente para que vários congressistas do seu partido tenham já pedido a sua demissão, incluindo a imaculada líder da bancada, Nancy Pelosi.
Assim bem encostadinho à parede, o homem meteu férias e disse que ia procurar ajuda médica para tratar o “vício”da pornografia.
Obama viu-se obrigado a falar sobre o assunto classificando-o de “distracção” dos assuntos verdadeiramente importantes. E mais não disse.
Bom, é um primeiro passo, mas parece que nem Obama consegue dizer de caras aos seus compatriotas que têm que aprender a distinguir o que é público do que é privado, e que é um atentado às liberdades individuais, que tanto prezam quando lhes dá jeito, meterem-se no privado de cada um.
Com tanta exigência no que toca aos costumes dos políticos aquilo até parece um país em que ninguém espirra, ou tosse, ou tem caspa, ou mau hálito, sua dos pés, é adúltero ou promíscuo, ninguém bebe ou usa drogas, enfim, um país de gente completamente higiénica ou até mesmo asséptica.
O escrutínio exagerado, além de indecoroso, faz mal à política. Distrai.