18 de dezembro de 2012

Havemos de ser todos alemães


Querida Senhora Merkel

No passado domingo li e ouvi que a senhora está preocupada com a lentidão do nosso “ajustamento”.

Antes de mais, deixe-me dizer-lhe o quanto admiro a sua capacidade de trabalho – nem ao domingo descansa. Só tenho pena que também não nos deixe a nós descansar de si.

Somos um pouco lentos, é certo, mas já percebemos que, para seu contento, um dia havemos de ser todos alemães.

Eu, para aprender mais depressa, até fiz uns bonecos que tenho sempre diante de mim e que lhe venho mostrar; à esquerda, o que somos, à direita, o que seremos.

Por isso, tenha calma. Havemos de lá chegar.
Auf wiedersehen, liebe frau.

 
 
 
 
 






PS: imagens recebidas por e-mail
 
 
 
 
 

17 de dezembro de 2012

Suportes que ele não suporta

Um bom indicador do envelhecimento é a incapacidade para ser, no mínimo, tolerante com o novo, mesmo que não o entendamos completamente ou não nos consigamos adaptar a ele.

Essa é uma das razões por que a entrevista que Vargas Liosa dá ao Ípsilon da passada sexta-feira é tão deprimente.
Apocalíptico em sentido lato, reserva para si e para a literatura o papel de  salvadores do pensamento e da escrita, mas apenas, e repito APENAS, no formato de livro.

Llosa afirma : se os tablets e os ecrãs roubarem todo o protagonismo ao livro, assistiremos a um extraordinário empobrecimento da linguagem, haverá uma deterioração da comunicação e da racionalidade, as máquinas passarão a pensar por nossa conta e isso poderá trazer consequências gravíssimas, nomeadamente o desaparecimento da liberdade”.

Um susto, estas afirmações (reiteradas), vindas dum Nobel da Literatura que só tem 76 anos.

No que me diz respeito, gosto de livros. Gosto mesmo muito. E, apesar de reconhecer o prazer quase sensual de os manusear, cheirar etc. não fujo do digital como o diabo foge da cruz. Há livros que quero ter fisicamente ao pé de mim. Sempre. Esses, quero-os em papel. Há muitos outros que leio e esqueço. São os que podem vir em suporte digital − um dia vou apagá-los para dar lugar a outros. Esta mania de que as coisas não podem coexistir, nunca a entendi, até porque o passar do tempo nos vai mostrando que é o contrário que é verdadeiro.

Vargas Llosa ficou, precocemente, velho.
Compare-se a sua postura face ao ecrã com a da minha mãe, que no dia dos seus 86 anos recebeu livros, mas também foi à internet descobrir um truque para fazer crescer as farófias.
Quem é mais novo, quem é?
E, já agora, quem parece mais inteligente e disponível para a vida?

PS: sobre o mesmo assunto, recomendo o post de Rui Bebiano no seu blog A Terceira Noite

14 de dezembro de 2012

Há silêncios que entristecem

A TAP é mais um “luxo” que não podemos ter, está visto, e 20 milhões chegam para nos resgatar do vício.

O que eu estranho mesmo, é o silêncio dos pilotos e outros profissionais da TAP sempre tão prontos (desde o 25 de Abril) a fazer greve quando mais doesse aos passageiros e, sobretudo, às tentativas de recuperação financeira da empresa.

Não há uma grevezinha para o Natal? Nem sequer uma ameaça clara ou velada? Nem um comunicado com uma tomada de posição? Estarão contentes de ir trabalhar para o tal Efromovich, ou estarão a enfiar o rabinho entre as pernas?

Dúvidas, dúvidas, dúvidas. Mas que o silêncio deles é ensurdecedor, lá isso é. E triste!

Boa informação sobre as contas desta venda, aqui

13 de dezembro de 2012

De Caranguejo para Sagitário














Que laço tão forte é esse que nos une, apesar das diferenças tão grandes que nos separam?
Quem o deu?
Quem o apertou assim?
A ciência não explica, mãe.
Talvez, afinal, nem precise.

Imagem daqui


12 de dezembro de 2012

O Caderno Vermelho

A propósito do post de ontem, e das coisas estranhas ou difíceis de explicar que nos acontecem, lembrei-me do livro “O Caderno Vermelho” de Paul Auster.

São pequenas histórias, todas verídicas, segundo o autor, que assentam, sobretudo, no acaso (tema que lhe é caro), narrando acontecimentos bizarros e coincidências quase do outro mundo. São histórias que em algum momento da vida podem acontecer a qualquer pessoa, que impressionam no momento, mas depois esquecemos. Contudo, o escritor não esqueceu, e com elas compôs um pequeno e delicioso livro.

Quando, nos dias que correm, entro numa livraria, tenho frequentemente a sensação de que o mundo da edição, por aqui, é consumidor regular de cogumelos alucinogénicos; outras vezes, penso que adoptaram o modelo das fábricas de enchidos – entra porco e, logo, logo, sai salsicha.
Tantos livros, tantos autores, tanto colorido, tanto design kitsch, tudo reduzido a picado daí a poucas semanas.

Não estranhei, por isso, não ter encontrado, nas buscas que fiz na internet, O Caderno Vermelho”, livro publicado há já um bom par de anos, mesmo sendo este um país de leitores fiéis de Paul Auster.
Apenas a livraria Bulhosa me diz: “Disponível entre 3 a 5 semanas (sujeito a confirmação) ”, pelo preço de 1,50 €.

Assim sendo, este é um daqueles livros que vale a pena procurar na biblioteca pública. É tão pequeno que podemos ficar lá a lê-lo, e sair daí por uma hora com sentimentos misturados de encantamento e espanto.
E ainda com um sorriso nos lábios.

11 de dezembro de 2012

Eu não acredito em bruxas

Um destes dias, saí lampeira com o meu carrinho de compras para ir ao Pingo Doce cá do sítio comprar pão, legumes, fruta e pouco mais.

Não é uma loja grande, nem tinha muita gente.
Feitas as compras, escolhi, para pagar, a caixa central, que é a terceira de cinco. Larguei o meu cesto cinzento com rodinhas atrás da senhora que ia começar a fazer o seu pagamento e fui buscar o meu carrinho de compras, deixado na entrada a não mais de 7 ou 8 metros. Podia vê-lo, e devo ter demorado 30 segundos, ou menos.

Quando voltei, o meu cesto já não estava onde o tinha deixado. Olhei à volta e não o vi, perguntei ao segurança, ali especado como de costume, se tinha reparado em alguém que levasse o cesto por engano; que não. As pessoas à volta, ouvindo a conversa, em todas as filas de caixa começaram a olhar os seus cestos para verificar se não se teriam enganado. Nada.

Esperei um pouco. Que diabo, quem pegou no cesto por engano rapidamente se havia de dar conta disso. Nada. Resolvi eu própria dar uma vista de olhos aos cestos dos clientes que estavam nas filas. Nada. Venci a inércia e percorri todos os corredores do supermercado a olhar todos os cestos. Nada. Decidi voltar a fazer todas as compras sempre de olho nos cestos dos outros. Nada. Já de cesto cheio, voltei a percorrer todos os corredores, sempre espiando cestos. Nada. Voltei para a caixa e perguntei de novo ao segurança se alguém tinha dado sinal de se ter enganado. Nada. Paguei e saí.

Esta é uma daquelas situações em que, se persistirmos em encontrar uma explicação razoável, dado que compras não pagas não podiam interessar a ninguém, corremos o risco de ficar maluquinhos. O melhor mesmo é pôr uma pedra no assunto. É o que tenho tentado fazer, mas sem lograr completo sucesso – volta cá, volta lá, lá estou outra vez a pensar no mistério da cesta desaparecida.

Resolvi, pois, contá-la, como quem exorciza fantasmas.
É que eu não acredito em bruxas, mas lá que as há, há!

10 de dezembro de 2012

Barroso Twist, um contorcionista português

Há dez anos, foi como a foto mostra – Barroso Twist a fazer de porteiro aos três delinquentes que nas Lajes, nesse dia, decidiram a invasão do Iraque.

Hoje, Barroso Twist, ou o grande contorcionista português, igualmente bem acompanhado, vai receber em Oslo o Prémio Nobel da Paz, atribuído à Europa.

Do trio de presidentes (Barroso, presidentes da Comissão Europeia; Herman Van Rompuy, presidente do Conselho Europeu e Martin Schulz, presidente do Parlamento Europeu), dois não foram eleitos por ninguém. A Europa que eles representam, por sua vez, que já foi o território da esperança de milhões de homens e mulheres tem hoje 120 milhões de pessoas em risco de emergência social e 26 milhões de desempregados.

Uma verdadeira fábrica de fazer pobres em permanente laboração.

Barroso, Rompuy e Schultz são três bostas, dignos representantes da bosta que criaram.
Vou desligar a televisão. Esta não é a minha Europa e eles não me representam.

Quanto à Academia Sueca, depois de velha virou prostituta.
Como se pode ver, hoje a minha tolerância resolveu não se levantar.


7 de dezembro de 2012

Calafrios

No DN online de hoje, duas notícias  provocam-me calafrios.
Acho que encontro demasiadas semelhanças nos objectivos.
Gostava de estar só a ver "coisas".
















Pussy Riot colocada em cela isolada para reeducação

















Nuno Santos foi suspenso da RTP  (depois das declarações que fez no Parlamento)

Dois casos em que poder não olha a meios para dar o exemplo.

Filha de Rousseau

Deixando de lado as questões da pedagogia e do saber, e apesar de já ter idade para ter juízo, sei que ainda hoje, lá bem no fundo do fundo, sou um pouco “filha de Rousseau”, no sentido de acreditar que o homem é naturalmente bom.

Estúpido isto, eu sei que é estúpido, porque a toda a hora se demonstra que o contrário é que é verdadeiro, mas, como cada um tem direito à sua dose de parvoíce, eu tendo a tomar como seguro que os gestos bonitos nascem da bondade de corações puros. Pois!

O exemplo mais recente foi o da tal Adriana na manifestação de 15 de Setembro; achei que o sortudo do fotógrafo tinha conseguido captar um momento de fraternidade universal, em que o coração duma boa (!) garota ansiava pela paz e concórdia entre os homens, não temendo botas cardadas, bastões ou viseiras para alcançar tão nobre objectivo.
Vai na volta, viu-se que afinal a miúda tinha inclinação para o showbiz.

Daí que tenha estremecido quando li esta frase no Público, a propósito do polícia nova-iorquino que foi comprar umas botas para o sem-abrigo descalço:

Jeffrey Hillman ficou famoso como o sem-abrigo descalço a quem um polícia ofereceu um par de botas numa noite fria. A fotografia do momento emocionou o mundo. Mas nem tudo é o que parece.

Pensei: lá vem bomba de fragmentação para cima da minha fé nos homens. Até tive medo de ler. Mas li, e ainda bem. Afinal o polícia é mesmo um polícia bom, de coração puro e compassivo, e o sem-abrigo é apenas alguém, ou mais um, que perdeu o tino durante uma das muitas guerras americanas. Ufff…

Bom fim-de-semana para todos os corações bons e compassivos.

6 de dezembro de 2012

Coragem, gosto

Coragem intelectual é um bem escasso por aí.
Coragem física, idem.
Mas aprecio as duas, quer nos homens, quer nas mulheres.

Há dias critiquei aqui a “coragem” do fulano que chegou a mandar, num só dia, mais de 100 SMS a um outro que lhe assediou a mulher. Tinha a coragem toda na ponta dos dedos e atrás do telemóvel.

A José Mourinho, pelo contrário, não se pode negar coragem.
Não encontrei o vídeo que vi num noticiário mas encontrei a notícia. Resumindo-a, “o treinador do Real Madrid avisou que ia entrar sozinho em campo antes do dérbi com o Atlético para ser “assobiado à vontade”.

E assim fez. Quarenta minutos antes de o jogo começar, Mourinho ofereceu o “peito às balas” e ali ficou sozinho, especado, ouvindo assobios e aplausos. Entendeu que, se a causa da discórdia é ele, então ele vai aparecer sozinho para que a equipa não sofra os assobios que o têm como destinatário.

Teatral? Talvez, mas todo o espetáculo vive disso também.
 
Porém, se coragem se define como firmeza de ânimo na adversidade, goste-se ou não do estilo (e eu até nem sou fã), não se poderá nunca dizer que este homem não tem tudo en su sitio.

5 de dezembro de 2012

O Henrique e as malhas da Ti’ Maria


Quando eu levava a sério o Henrique Raposo, embirrava um bocado com ele mas, no momento em que percebi que o rapaz não podia ser levado a sério e que aquilo era mais ou menos um intermezzo humorístico do Expresso, passou a ser, para mim, o autor da semanal croniqueta light.

No sábado passado, voltou às origens e às camisolas de malha da Ti’ Maria, que lhe eram oferecidas no Natal e na Páscoa, e davam um jeitaço porque eram quentinhas e coloridas e tricotadas com amor e passavam de tronco para tronco.

Eram bons tempos, na perspetiva do Raposo, e estão de volta, com a graça de deus.

Então ter as tias todas a tricotar furiosamente para os ganapos ali à volta da braseira não é um ideal para o século XXI, para a refundação da família cristã e do próprio país?

Se o Henrique fosse um pouco mais velho ainda se havia de lembrar, com prazer, dum texto do livro único do Salazar para a escola primária.

Mas eu conto: era uma vez um menino mau que foi aos ninhos e rasgou as suas únicas calças. A irmã, depois de o admoestar por tão feia acção, e para que a mãe não percebesse, pegou na agulha, não a de tricotar da Ti’ Maria, mas a outra, a de coser, e arranjou as calças na perfeição. O texto terminava dizendo: “Que lindas que são as meninas que sabem costurar”.

Ó Henrique, caraças, isso é que eram bons tempos. Já viu só, se conseguisse juntar a Ti’ Maria a tricotar e a mana a coser para si? Era o paraíso na terra.

Porcaria de país este, que meteu na cabeça que havia de ir à Benetton comprar malhas.
Mas os “ontem que cantam” na cabeça do Henrique são um verdadeiro farol para o futuro do país.


4 de dezembro de 2012

A senhora na nuvem

Durante uns bons vinte anos, todos somos filhos de alguém. O menino ou a menina A ou B são filhos do senhor C e da senhora D.

Algures num tempo incerto, tudo se inverte − o senhor C e a senhora D passam a ser os pais de A ou B.

Profunda alteração, esta, que, muito prosaicamente, se pode resumir dizendo que os meninos já são adultos e os pais já estão a ficar velhos.

Se isto não tem lá grande piada, certo é que também pode proporcionar uma segunda e insuspeitada “existência”.

Por exemplo, a mãe do Herman José não teria existência pública sem o filho; Helena Sacadura Cabral sempre a teve, e continua a ter, mas ela foi potenciada pela subida à ribalta dos seus dois filhos.
Contudo, para o resto das suas vidas, ambas permanecerão, em grande medida, as mães do Herman, do Miguel e do Paulo.

Mesmo a um nível isento de exposição mediática, um filho respeitado e estimado no seu meio, quer pela seriedade e qualidade do trabalho que desenvolve quer pelo seu carácter, pode transformar o aparecimento da sua mãe numa espécie de descida à terra de Nossa Senhora da Conceição poisada na nuvem. Dar-lhe uma “existência” não expectável.

E isso é bom para quê, pode perguntar-se.
Pois, é bom para a alma, seja lá isso o que for.

Verdade, verdadinha, que dispenso o séquito de anjinhos e querubins que sempre acompanham a imagem da santa, mas lá que eu gosto muito de descer à terra encarrapitada na nuvem, lá isso gosto. E ponto final.

 

3 de dezembro de 2012

Posso escolher com quem ando?

O peditório do Banco Alimentar contra a Fome correu bem. Ainda bem.

Esta organização sempre foi muito acarinhada cá na família, com doações e respeito.
As já célebres declarações de Isabel Jonet que, aos meus olhos, não foram nada infelizes mas completamente genuínas, fizeram abanar os alicerces do afecto e empatia.

Afinal, as ideias dela nada tinham que ver com as minhas; eu pensava que o Banco era uma organização movida pela solidariedade e fiquei a perceber que o combustível era a caridade.

Nunca fui adepta da caridade, mas respeito-a como um pilar da fé católica – cada um gosta do que gosta.

Nestes tempos difíceis, é preciso acorrer a quem não tem comida no prato e por isso nem me passa pela cabeça deixar de o fazer. Tenho, porém, o direito de participar como e com quem eu quiser, e decidi ser preferível fazê-lo com quem nunca quis parecer aquilo que não é. Refiro-me à Igreja, através da sua organização Cáritas, que faz um trabalho que em nada fica a dever ao Banco, só que em surdina, sem happenings bianuais.

Assiste-me ou não o direito de escolher a companhia para atravessar o pântano? Entendo que sim, e por isso acho triste ver um certo fanatismo alarve, beato e leviano vertido para texto, como neste caso:

“Ser solidário é importante.
...e não se preocupem com a maltinha bem-pensante que vos vai dizer que ajudar o Banco Alimentar (eles dirão "tia Jonet") é fazer caridadezinha.
De facto, eles estão mais preocupados em ser coerentes com o próprio e adorado umbigo e é gente que nunca deu nem dará nada a ninguém, nem um beijo, nem um abraço, nem a ponta de um corno, nem nada...”
(retirado do Facebook)

Pensar pela própria cabeça e fazer escolhas de acordo com as convicções de toda uma vida parece transformar-nos em “bem-pensantes”, termo sempre usado com enorme carga negativa, e, simultaneamente, nuns estupores que nunca deram nada a ninguém.

Se é costume dizer que as acções ficam com quem as pratica, eu acrescento que as palavras desnudam quem as profere − seja a Isabel Jonet na televisão ou um cidadão anónimo no Facebook.
É por isso que elas, as palavras, são tão perigosas.
 


 

30 de novembro de 2012

É hoje



“Para quem há já demasiado tempo vive sob o jugo da especialização e daquela singela, porém brutal, ideia de que o caminho para a verdade das coisas não admite nem inflexões críticas nem deslumbramentos superficiais, o trabalho de Pedro Sousa Vieira (Porto, 1963) é uma espécie de grande exercício herético.”
Excerto do texto do convite.

Pedro Sousa Vieira, hoje às 22h00 no Chiado 8, até 15/02/2013


Eu também


















Roubado aqui a uma jovem
Bom fim-de-semana


29 de novembro de 2012

O pecado do gasto improdutivo


O que António Guerreiro escreve no Atual do Expresso é, para mim, de leitura obrigatória, e com grande prazer.

No passado sábado, escreveu sobre a moderna e perigosa “mania” de se dizer o preço de tudo, o que conduz a que se considere ” intolerável o que faz parte de uma economia não produtiva”. Referindo a teoria de Mauss, e simplificando eu o que ele escreve, assinala que não é possível uma sociedade sem a “festa”, mas o discurso político atual exclui-a liminarmente.

Deve ser esse facto o grande responsável pela mesquinhez e miopia que tomou de assalto os portugueses, levando-os a tudo considerarem má despesa pública.

Fico boquiaberta com o interesse que as pessoas têm pelo cardápio do restaurante da Assembleia da República, pelo café que as Câmaras compram e pela rápida quantificação dos gastos com as iluminações de Natal, por exemplo, tudo envolto num diáfano manto de censura moralista.

Estou cansada do desastre político bordado de mesquinhez cívica, e acredito que “não é possível uma sociedade sem o elemento heterogéneo, o gasto improdutivo, que transgride a homogeneidade da lógica da produção”, segundo a teoria do dom de Mauss, e segundo António Guerreiro.

Por mim, mesmo que ela não caiba no “elemento heterogéneo”, sinto absoluta saudade da alegria tout court.

 

28 de novembro de 2012

Habemus Orçamento


E pronto, temos Orçamento.

Parece que ter um mau Orçamento é melhor do que não ter Orçamento nenhum – acho que foi isso, mais ou menos, o que disse o deputado João Almeida do CDS.

Entregues que estamos a dois perigosos homens de mão – Passos e Gaspar, com uma oposição que foge da governação como o diabo foge da cruz, e um PR que não existe, ou, quando existe é para se fazer uma anedota, estamos por nossa conta.

A imensa teia de solidariedade que vai segurando centenas de milhares de vidas por aqui, corre o risco de ruir em breve, quando os reformados, hoje suporte de filhos e netos, verificarem que o que recebem não chega para continuar o apoio que lhes estão a prestar; o mesmo se passará com quem tem trabalho mas passará a não ganha para viver.

Não acredito que Passos e Gaspar acreditem na bondade do que estão a fazer.
Pois se ninguém acredita e já tantos demonstraram que este é o caminho do desastre, como podem acreditar eles? Não, não acreditam também.

Acredito, sim, que ambos estão a cumprir um programa que lhes foi encomendado por alguém, com a promessa de boa recompensa no final.
A isso chamo traição; espero que, no fim, lhes caiba o tradicional destino dos traidores.

27 de novembro de 2012

Coisas que fui lendo

“As pessoas destras tendem a ouvir os sons agudos do lado direito e os graves no esquerdo, venham eles de onde vierem.

Os canhotos são muito diferentes entre si, e existem neles muitos modelos de percepção.

Uma orquestra tem os músicos posicionados para que ouçam os sons mais agudos do seu lado direito e os graves do seu lado esquerdo.

O que quer dizer que o público, esse, está todo ao contrário, a menos que se pendurasse de cabeça para baixo.”

 
“Frente a frente com a vida, a mente e o universo”
De Eduardo Punset, divulgador científico entre outras coisas; mas é esta a parte dele de que gosto.


26 de novembro de 2012

Da conservação dos dinossauros

Não, não é em formol que se conservam.
É através do uso de leis moldadas em redes de pesca.

A Comissão Nacional de Eleições decidiu, finalmente, que a limitação de mandatos dos autarcas, expressa na lei, se refere ao território e não à função. Assim, Menezes vai para o Porto, Rui Rio pode ir para Gaia se lhe apetecer, Mário de Almeida pode ir para Viseu, Fernando Ruas para Vila do Conde, e assim sempre pelo país afora.

Por mim, de facto, até podiam ir todos para um sítio que eu cá sei, a povoá-lo de rotundas e fontanários, mas mais uma vez se confirma que o legislador português de hoje é mestre na redacção de leis pouco claras, se não mesmo obtusas, que acabam por servir não menos obtusos propósitos.

Paulo Rangel, redactor da lei de limitação de mandatos autárquicos, vai afirmando, com boca pequenina, que não foi esse o espírito com que a escreveu.
Ora, espírito é coisa etérea, e as leis devem ser bem terra-a-terra, acho eu. Não o sendo, deixam a porta aberta para o que der e vier, vai-se-lhe o espírito e a letra e, neste caso, segue o baile com a muito popular dança das cadeiras.

With a little help from Paulo Rangel, que assim alcança o merecido estatuto de grande engenheiro da conservação de dinossauros sem formol.

23 de novembro de 2012

Hard times

 
No degrau da porta ao lado da escola profissional está sentado um adolescente, isolado dos outros, com os braços cruzados sobre os joelhos e a cabeça escondida sobre eles.
 
Pergunto-me: estará com dor de cabeça, com sono, com problemas domésticos, mal de amores, a ressacar qualquer coisa, caiu-lhe mal o almoço? Ou terá FOME?
 
Há não muito tempo, e desde há muitos anos, tal hipótese nunca se me poria, pelo menos ali, onde o presenciei.
Mas ontem, literalmente, estoirou-me na cabeça com um misto de espanto, pânico, possibilidade e repulsa.
 
Não estava preparada para isto, e julgo que nunca estarei.
Porque não posso, e também não quero.
 
Nota: imagem roubada ao blogue Delito de Opinião


22 de novembro de 2012

"Uma história de amor e trevas"

Face ao recrudescimento do conflito israelo-palestiniano, e apesar do cessar-fogo anunciado, talvez seja boa altura para relembrar aqui um magnífico livro de Amos Oz − “Uma história de amor e trevas”.

Misto de autobiografia e romance, o livro leva-nos pelos caminhos da criação do Estado de Israel, da diáspora judaica à história do sionismo, sempre através do olhar do menino que se vai fazendo homem e criando a sua identidade a par da do seu país.

É uma bela história, comovente, trágica e, por vezes divertida, contada por um escritor (eterno candidato ao Nobel, mais um) que sempre se opôs ao fanatismo, e que afirma que a luta lá, como noutros lugares, não é entre judeus e árabes, mas entre fanatismo e tolerância.

Posso até estar de acordo com ele, mas também  nunca me poderei esquecer das inúmeras resoluções da ONU que Israel nunca cumpriu, bem como da desproporção de meios e danos que sempre se verifica de cada um dos lados do conflito e que tão bem conhecemos
Um belo livro que, em 2004, ganhou, entre outros, o Prémio France Culture.


Uma história de amor e trevas
Amos Oz

Asa Editores, S.A., 2007



21 de novembro de 2012

O velho "chega pra lá" foi substituído pelo SMS


As generalizações são perigosas, como é sabido, mas posso garantir que, na minha juventude, os homens, pelo menos a maioria deles, encarnava com gosto a figura do macho latino − durão, engatatão, marialva, dono da mulher, arrotador de postas de pescada do tipo “lá em casa quem veste as calças sou eu”.

Nunca apreciei o género, mas reconheço que, apesar de tanta parvoíce, nos momentos cruciais iam directos ao assunto e resolviam-no, geralmente dando o corpo ao manifesto, com limpeza e de cara destapada, não sendo sequer normal o uso de violência.

Vem isto a propósito da condenação dum homem que enviou inúmeros SMS (só num dia foram 110) ao fulano que lhe assediou a mulher.

Situações destas sempre aconteceram, e os tais durões de antigamente resolviam-nas com a chamada “conversa de pé de orelha” ou com um “chega pra lá” em que ficava claro que se tinha tomado conhecimento e que tal não era admissível para nenhuma das partes – nem para o homem nem para a mulher.

Não deixa de ser estranho para mim que, nos tempos actuais, quando tantos homens batem nas mulheres, chegando demasiadas vezes a matá-las, alguns, para resolver uma questão tão comezinha com outro homem, não usem a orelha, nem o largo peito, nem a cara descoberta, mas apenas as pontinhas dos dedos nas teclas do telemóvel.
Mudam-se os tempos…

 

20 de novembro de 2012

Sede

O presidente da Câmara de Silves pediu ajuda à população para, em conjunto com os serviços municipais, proceder à limpeza da cidade depois do tornado que a varreu.

Rapidamente apareceram mais de mil pessoas e rapidamente a cidade ficou limpa.
O presidente agradeceu e falou em bondade,"um tornado de bondade", disse.

O dicionário Houaiss define bondade como a “qualidade de quem tem alma nobre e generosa, é sensível aos males do próximo e naturalmente inclinado a fazer o bem “

Terá sido, então, a bondade que levou as pessoas a responderem em massa, mas, neste momento, creio que não foi só bondade – foi sede.

Sede de fazer parte de alguma coisa maior que cada um individualmente, sede de colectivo, sede de resolver, sede de entreajuda, sede de comunidade, sede de objetivos, sede de serem chamadas a qualquer coisa para a qual encontrem um sentido, sede do melhor que os homens e as comunidades podem conter, sede de um propósito para aquilo que lhes é pedido.

Os portugueses estão descrentes e vulneráveis, humilhados por um Estado que parece que os odeia, que os esmifra, que os recrimina, que, por vezes, parece que se compraz no seu sofrimento.

Os portugueses precisam urgentemente de acreditar, de fazer, de se sentirem membros duma comunidade que se levanta, que é capaz, que se mobiliza.
Que pena os políticos não perceberem isto.


19 de novembro de 2012

Se não existisse, ninguém o devia inventar

Mas existe, e no dia da Greve Geral ouvi o nosso Presidente Cavaco Silva dizer, textualmente:

«Apesar da greve, não deixei de trabalhar»

Mal pude, fui ver se o Sindicato dos Presidentes da República existia e se tinha aderido à greve.

Pois, não sei se existe, mas pelo menos não entregou nenhum pré-aviso de greve. Se existe, deve ser uma coisa assim bem internacionalista e com centena e meia de filiados, porque os reis não contam e o José Eduardo dos Santos também não.

Porém, fiquei chateada com o Google, porque se o meu presidente admite a possibilidade de fazer greve, é porque deve haver um sindicato que “organize” os presidentes. Ou não?
Talvez, afinal, o sindicato não exista mesmo e por isso ele ande tão “desorganizado”.

Olho-o e vejo um velhinho empertigado, com mais máscara do que cara, transtornado, e muito, muito confuso.
Ora fala muito, ora se cala por um mês inteiro, diz que sim mas que também, não faz sim nem faz também, pouco sai à rua e lê uns discursos fora do contexto.

Tenho sempre muita pena dos velhinhos confusos, e ainda mais dos velhinhos confusos que nem percebem que o estão.
Neste caso, até me condoí dele.

Alguém que lhe dê umas vitaminas, um relaxante muscular, um Centrum, e, sobretudo, alguém que lhe explique que não tem sindicato, e que não é costume os Presidentes da República aderirem às greves gerais – o papel deles, ao contrário, é mais evitá-las.

16 de novembro de 2012

A ver o mar

   
Na Galeria de Exposições Temporárias da Fundação Gulbenkian há para ver a excelente exposição denominada As Idades do Mar.
 
Dividida em seis núcleos − A Idade dos Mitos; A Idade do Poder; A Idade do Trabalho; A Idade das Tormentas; A Idade Efémera; A Idade Infinita, apresenta mais de 100 obras de 89 autores, dos séculos XVI ao XX, oriundas de 51 instituições nacionais e estrangeiras.
 
Nem todos os dias podemos ver obras de Turner, Constable, Friedrich, Courbet, Boudin, Manet, Monet, Klee, De Chirico ou Hopper, ao lado de Nikias Skapinakis, Vieira da Silva ou Menez.
 
Apesar de a cor, a pincelada forte e a representação serem predominantes nesta exposição, escolho, para a ilustrar, um pequeno trabalho (giz sobre papel sobre cartão, 1939) de Paul Klee, intitulado Barcos em Movimento.
 
O que me deixou “pregada” a ele, foi a espantosa relação entre a economia de meios usados pelo artista e o resultado final alcançado − movimento e equilíbrio com meia dúzia de traços.
 
A imagem foi retirada do site da FCB.
Aos domingos a entrada é livre, e há mais vida para além de…


15 de novembro de 2012

Sem ofensa

“A tradição bíblica ensina-nos que a felicidade do primeiro homem antes da queda consistia na ausência de trabalho, isto é, na ociosidade. O gosto da ociosidade manteve-se no homem réprobo, mas a maldição divina continua a pesar sobre ele, não só por ser obrigado a ganhar o pão de cada dia com o suor do seu rosto, mas também porque a sua natureza moral o impede de encontrar satisfação na inactividade. Uma voz secreta diz ao homem que ele é culpado de se abandonar à preguiça.

E, no entanto, se o homem pudesse achar um estado em que se sentisse útil e em que tivesse o sentimento de que cumpria um dever, embora inactivo, nesse estado viria a encontrar uma das condições da sua felicidade primitiva. Esta condição de ociosidade imposta e não censurável é aquela em que vive toda uma classe social, a dos militares. Em tal ociosidade está e estará o principal atractivo do serviço militar.”
Leão Tolstoi, “Guerra e Paz”
Publicações Europa-América

Sem ofensa para os militares que no sábado passado saíram à rua, e sem ofensa também para os que o são por gosto, e mesmo sabendo que quando a Merkel cá vier temos sempre que a proteger por terra, mar e ar, não consigo evitar a pergunta:

Por que temos de continuar a ter, já depois de todos os cortes, umas Forças Armadas de 18.308 almas, em que se incluem 67 oficiais-generais no Exército, 20 na Marinha e 19 na Força Aérea?
Vão-me dizer que é para defender a soberania?
Ou será que vêm aí os espanhóis?

 

14 de novembro de 2012

13 de novembro de 2012

Sintomas dum país em cacos

Portugal é um país à beira de um ataque de nervos, o que ficou muito bem provado com o “episódio” Jonet.

Nas redes sociais houve de tudo – os que carregaram o andor da santa até mais não poderem, os que se desdobraram a dizer que a santa não quis dizer o que disse, os que bramaram que abandonar o apoio ao Banco era criminoso, todos aproveitando para malhar na esquerda que, no fundo, odeiam, e imaginam toda igual e “formatada” como gostam de dizer.

Do outro lado, houve os que pediram a demissão do diabo (como se isso fosse possível, dado que Isabel Jonet dirige uma IPSS com os seus corpos sociais), houve quem usasse o vernáculo e o insulto soez, e até houve quem sentisse repugnância, imagine-se, pelo cabelo do diabo colado à cabeça.

Portugal está partido, desiludidos dos seus e dos de fora, sem esperança, sem sonhos e sem futuro. Tudo serve para atear a fogueira da raiva mal contida.
Portugal está à beira dum ataque de nervos.


12 de novembro de 2012

Estou bicéfala

Durante o fim-de-semana li e ouvi tanta opinião sobre a vinda da Merkel e sobre o Bloco de Esquerda e a sua Convenção que até tenho a cabeça a andar à roda.

Quanto à Merkel, as posições estão tão extremadas que vão dos que acham que é uma simples visita de estado até aos que a entendem como a visita do imperador que nos vem pisar com a sua bota cardada.
Uns abespinham-se e escrevem cartas para a gente ler a dizer-lhe que é mal-vinda, alguns até acham que a visita é sinónimo de dinheiro mal gasto e nem lhe devíamos dar o almoço; outros acham que é bom que venha, acreditam na bondade do gesto. Imagino, porém, que a maioria caiba na categoria NS/NR (não sabe/não responde).

Por mim, não ME entendo, pareço bicéfala.

Já aqui escrevi que não acho que tenha que ir gritar com a alemã mas, mesmo assim, apetece-me pôr um pano preto à janela. Quero ficar-lhe indiferente mas não me esqueço, nem por um minuto, que ela está cá, e se acho mesquinho não lhe dar o almoço, também gostaria que fosse igual ao nosso − apenas com o pão que o diabo amassou.

Depois vem o Bloco com a sua nova direcção.

Olho e oiço a Catarina e acho que está verde, olho e oiço o Semedo e acho que está maduro demais, oiço os dois e acho que falam para dentro e que, quando falarem para fora, não vão acertar no tom.

Finalmente, percebo que querem unir a esquerda mas exigem ao PS que se “refunde” rasgando o memorando da troika, e adoptando o programa do próprio BE.

Nem mesmo bicéfala consigo entender isto.
Tomara que o dia acabe. Tenho os miolos em água.


9 de novembro de 2012

Vem aí a Merkel

Geralmente em modo zangado, já muitas vezes aqui abordei o tema Merkel.
Ela vem aí, e à sua espera terá uma manifestação cujo slogan é – Que se lixe a troika, a Merkel não manda aqui.

Acontece que manda.

E manda sobretudo por causa do nosso comodismo e analfabetismo político, muito mais do que pelo facto de a Alemanha ser nossa credora.

Se o projecto de Europa a que aderimos está hoje completamente desfigurado pela existência dum directório em que a Merkel é soba, a culpa é nossa.

Se aqui estamos agora, pobres e sem soberania para sair da pobreza, é porque, de todas as vezes que houve um novo tratado, nunca exigimos conhecê-lo, discuti-lo ou referendá-lo, isto é, assinámos de cruz.

A Merkel é nossa credora usurária mas contra ela nada posso – não a elegi, e a sua permanência no poder não depende da minha vontade nem dos meus gritos, que também não a fariam mudar.

O que eu posso, e tenho o dever de fazer, é gritar aos ouvidos do meu governo que é ele que tem que gritar aos ouvidos da Merkel, e dos outros, que precisamos renegociar a dívida para que a possamos pagar; se o governo não o fizer ou nada conseguir, eu vou gritar-lhe aos ouvidos que tem que, ao menos, negociar a nossa saída do clube dos ricos a que, manifestamente, deixámos de poder pertencer.

É isso, e apenas isso, que estou disposta a gritar “até que a voz me doa”.
Quanto à Merkel, já está fora da minha “guerra”.

Assinar cartas a dizer-lhe que é mal-vinda, ou ir berrar-lhe coisas que ela não ouvirá, parecem-me actividades lúdicas e inconsequentes que, com franqueza, não me apetecem.
Posto isto, e como sempre preciso de encontrar algum sentido para o que faço, obviamente, não vou.

 
PS: Tudo o que disse não invalida que, após a sua saída, o país precisasse de muitos objectos como o da imagem acima, roubada há tempos ao blogue Delito de Opinião.

 

8 de novembro de 2012

A náusea

Em noite Obama, passai pela Sic Notícias e encontrei Rui Vilar, Manuela Ferreira Leite e Isabel Jonet a discutir o do costume. Confesso que só apanhei a parte final do programa, mas foi o suficiente para apreciar o pensamento e discurso daquela santa senhora, a D. Isabel Jonet do Banco Alimentar contra a Fome.

De repente, achei que estava a ver um filme antigo, a preto e branco, e que julgava já estar no caixote do lixo da história.

Pois, não está, e com ele vieram-me à memória o Movimento Nacional Feminino, o queijo e rosado e o leite em pó do senhor prior, e a morgada lá da aldeia que passava a vida na sacristia e, no tempo livre, fazia uma caridade repleta de censuras àqueles farrapilhas que não sabiam governar a casa com o mísero salário que o seu marido lhes pagava para trabalharem de sol-a-sol.

“Vivemos acima das nossas possibilidades”, pois claro, e temos que empobrecer. Imagine-se que os filhos dela não usam copo dos dentes, gastando assim imensa água (quem é que os educou? certamente a criada desgovernada enquanto ela estava na sacristia) e ainda deu sábios conselhos, como aquele de os jovens se deixarem de concertos rock e guardarem o dinheirinho para quando precisarem de fazer uma radiografia.

Esta maralha caridosa, esta casta superior, acha que, finalmente, podemos voltar aos gloriosos tempos, de tão boa memória para eles, de 1973, ou 1963 e por aí atrás. E di-lo.

Olhe, D. Isabel Jonet, eu também lhe vou dizer uma coisa: quando chegar o dia do seu peditório, eu vou seguir os seus pedagógicos conselhos, vou olhar para a carteira e ponderar se não tenho andado a viver acima das minhas possibilidades.
É que, ainda mais por já não ser jovem, vou ter de poupar para a radiografia.


7 de novembro de 2012

Para Obama















Do site IZ NOT ME IZ YOU

Bilhete-postal com destinatário

Lembras-te daquele 7 de Novembro em que não só virámos costas ao cânone como, a bem dizer, o insultámos?

Claro que te lembras, como eu.

E desde então, tantas milhas percorridas, em estrada batida ou asfaltada, ora árida ora verdejante, para já não falar das amplitudes térmicas com que nos deparámos − entre o tórrido e o frio, com longos períodos de repouso docemente tépido.

Procurámos companhia, de dois fizemos quatro, e todos juntos continuamos, até hoje, a percorrer milhas e a afastar as pedras do caminho.

A canção diz que “amor é prosa, sexo é poesia”.
Redutor, eu acho.
Só nós já escrevemos todos os géneros literários – épico, lírico e dramático, em que também se inscreveram o romance, a comédia, o drama e o humor.
Bora escrever agora uma enciclopédia?

 

 

6 de novembro de 2012

O pide, o preso e o barqueiro

Quando ouvi Passos Coelho dizer que ia refundar o Estado e que tinha mandado uma carta ao Seguro a convidá-lo para participar no trabalhinho, lembrei-me duma história que me contaram há muitos anos.

Um preso político, mesmo sujeito a todos os “mimos” que a pide conseguia dispensar, nunca, sequer, abriu a boca. Os pides, em desespero, resolveram mudar de estratégia e mandaram um outro de falas mansas que, com muito jeitinho, tentou convencer o preso da bondade de colaborar.
Este, ouviu-o calmamente e resolveu falar, o que muito animou o pide.

Contou, então, uma história:

“Havia um pobre homem, que vivia numa aldeia à beira do mediterrâneo, cujo trabalho era transportar figos, no seu pequeno barco, entre várias povoações vizinhas. Num dia de inverno, o mar apresentou-se tão calmo e convidativo que ele resolveu carregar o barco e ir fazer o seu trabalho. A meio da viagem, gerou-se uma tempestade que levou o barco, os figos e quase o levou a ele. No inverno seguinte, surgiu um dia exactamente igual ao anterior. O homem sentou-se, olhou para o mar e disse:

Ah, meu grande filho da p***, eu sei bem o que tu queres − o que tu queres, é figos.”

É fácil adivinhar o que se seguiu entre o pide “manso” e o preso mas, se eu fosse o Seguro (cruzes, credo) era com esta história que teria respondido à cartinha, e não com aquele relambório que publicou no facebook.

Ainda bem que não estou na política. O país corria o risco de a ver ainda mais debochada do que ela já está.