31 de outubro de 2012

Nova Iorque

A tempestade que se aproximava de Nova Iorque no início da semana, era, diziam, a tempestade perfeita, e prometia causar danos.

Começámos a “vê-la” dias antes nos telejornais, com os repórteres na rua, e na segunda-feira, na internet, podia até ver-se a cidade ao minuto.

Tanta foi a atenção dispensada ao assunto que quase parecia que nós mesmos teríamos que ir fechar portas e entaipar janelas, por ser a nossa casa e a nossa cidade que estavam no olho do furacão.

Metaforicamente, não se andava longe.

Congregação de grandezas e misérias humanas, plataforma de todas as raças e credos, cidade dos sonhos, do vidro e do aço, da arte e da música, da inovação e do luxo − tanto quanto da degradação e miséria, Nova Iorque é património e símbolo maior de toda a civilização ocidental a que pertencemos.

No nosso imaginário, e para sempre, a literatura, mas sobretudo o cinema, ajudaram a fixar-lhe as curvas e os ângulos, a violência e a poesia, os recantos e os grandes espaços.

Nova Iorque está colada à pele duma civilização e duma cultura.
Por isso é casa, sim, e é também nossa.

 

Aviso à navegação: não serão publicados comentários que, embora não sejam ofensivos, nada têm a ver com o que aqui foi escrito.
Igualmente não serão publicados comentários escritos numa linguagem vagamente semelhante ao português.


30 de outubro de 2012

A superfície das coisas

Na sua crónica no Expresso de 27 de Outubro, Clara Ferreira Alves traça o perfil dum subgrupo de jovens portugueses, que, no poder ou perto dele, está a querer destruir tudo o que é público sem nunca ter posto os pés na escola pública, por exemplo; serão possuidores dum MBA caro, feito com o dinheiro dos pais, e profundos desconhecedores da realidade que querem destruir.
Chama-lhes, “senhoritos dos mestrado de luxo”.

Joana Lopes pega nesse artigo e escreve o post “Os nossos jovens felizes”. Refere que os vê à hora de almoço, “bem trajados” (suponho que seja de fato e gravata) e que, ouvindo-os, se percebe que a crise lhes passa ao lado.

Sim, não o nego, o subgrupo existe, e está por aí bastante activo.

Porém, há no tom usado, sobretudo por CFA, um perfume a desdém pelos mestrados e MBA, como se isso fosse sinónimo de cabeça oca e neoloberalismo de pacotilha.

Não é, e, pessoalmente, estou convencida que muitos dos jovens referidos foram alunos medíocres, em escolas tanto públicas como privadas, e não fizeram nenhum mestrado ou MBA − nem de luxo nem pelintra.

Os seus percursos académicos são mais do tipo Passos e Relvas.

Por outro lado, se quisermos ter um olhar um pouco mais abrangente, poderemos encontrar jovens, desses “bem trajados”, que estudaram na escola pública da pré-primária ao último ano da universidade, arranjaram trabalho quando a coisa estava ainda um pouco menos difícil, e fizeram a sua própria poupança para com ela fazerem o tal MBA caro.

Eles também existem, e até os vi no 15 de Setembro, de jeans e t shirt, batendo furiosamente tachos e panelas enquanto gritavam as mesmas palavras de ordem que os desempregados.

No reverso da medalha, não os conhecendo, sei que há muitos “alternativos” com um pensamento neonazi.

Bem ou mal trajados, com ou sem MBA, há de tudo, como na farmácia.
A superfície das coisas é que é muito enganadora.

 

29 de outubro de 2012

Professor-modelo

O que é um professor-modelo?
O que é um médico-modelo?
O que é um metalúrgico-modelo?
O que é um padeiro-modelo?

Eu não sei, mas um iluminado e variado painel de respeitáveis cabeças, sob os auspícios do DN e duma empresa portuguesa de nome inglês, acha que o sabe, e vai escolher o professor-modelo, ou o professor do ano.

O referido painel é um verdadeiro melting pot - Adriano Moreira, Viriato Soromenho-Marques, Roberto Carneiro. Alice Vieira e o inevitável presidente das associações de pais, Albino Almeida (tudo ao molho e fé em deus!).

Porquê os professores? Trata-se, porventura, duma profissão em perigo de extinção como os amola-tesouras, dum subgrupo dos humanos, ou dum remeloso grupelho em que encontrar um “modelo” é como encontrar agulha em palheiro?

Distinguir um professor por ano parece-me uma brincadeira de mau gosto, desrespeitosa, até, para com os milhares de professores, competente e empenhados, que temos.

Se não fossem eles, a escola, no seu conjunto, sujeita permanentemente a experimentalismos e taras políticas, já teria dado um enorme estoiro.

A eleição de miss-qualquer-coisa sempre serviu, exclusivamente, para alimentar vaidades pessoais, e o que os professores exigem, e merecem, é respeito e condições de trabalho, coisas que cada vez têm menos.

E a defesa da escola pública também passa por aí.
Eu não gosto nada da eleição do caniche mais lindo da pradaria.
Eu gosto muito dos professores.


26 de outubro de 2012

A nódoa


Era uma vez uma nódoa.
Não se sabe exactamente donde veio, sabe-se apenas que veio da Europa.
Como no melhor pano cai a nódoa, esta caiu no Terreiro do Paço.
Faz aparições regulares, tipo Nossa Senhora de Fátima, mas em versão malévola.

É uma nódoa falante; fala em staccato, coisa própria de algumas patologias.
Há patologias neurológicas em que o doente perde a noção do que pode e não pode dizer, e diz tudo o que lhe vem à cabeça. Esta nódoa que fala em staccato também padece dessa patologia, bem como de megalomania, o que a leva a acreditar que vai ficar no Terreiro do Paço talvez vitaliciamente (já conhecemos outra nódoa com a mesma mania) mas, no mínimo, até 2015.

É uma daquelas nódoas tão irritantes que está disposta a não nos sair da vista, a menos que cortemos o pano.
Quando nos decidirmos por esta derradeira e radical solução, veremos quem é o melhor a fazer “cortes”.

25 de outubro de 2012

Mater

Em verso ou em prosa, com música ou sem música, com pincéis ou sem pincéis, com voz ou sem voz, já tudo se disse sobre as mães.
Disse-se isto, aquilo e o seu contrário, e tudo é verdadeiro porque, por mais díspares que sejam as afirmações, sempre haverá uma mãe a quem assentam bem. Caso para dizer: cada mãe é uma mãe.

A minha sempre foi guerreira, desdobrando-se em todas as frentes de batalha, socorrendo cada flanco em dificuldades, cada batalhão em perigo de ser dizimado.
Inteligente e despachada, sempre teve a arte de multiplicar pães, que nunca transformou em rosas porque ninguém come rosas.

No que toca ao açúcar, com ela sempre foi como na culinária – qb − mas a dose era largamente reforçada quando estávamos doentes.
Aí, não havia limite, e ele era-nos dado em pó, granulado, em ponto pérola, caramelo ou rebuçado, branco, amarelo ou mascavado.

Deve ser por isso que, ainda hoje, maduríssima que sou, suspiro por essas carradas de açúcar quando me dão uma porcaria duns pontinhos na boca.

Olá mãe, parece que há um ponto de açúcar que faz bolinhas quando se sopra e se chama Ponto de Voar.
Pode ser desse hoje?


24 de outubro de 2012

Parece no Togo, mas não é



 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Caro Presidente da CML

Com alguma regularidade, uso a passagem superior sobre a linha do comboio na zona do Hospital Curry Cabral.

É alta. De um lado tem 47 degraus, e do outro tem 38.

Como é natural, tem dois elevadores, um de cada lado. Infelizmente, como também é natural, é raro que os elevadores funcionem.

Se se tratasse dum particular a desrespeitar assim as leis da mobilidade já tinha apanhado uma série de multas, mas como o infractor é a Câmara, tomamos isso como uma fatalidade do ser português.

Aquilo é um dó d’alma, ver idosos de bengala, senhoras com carros de compras, ou jovens mulheres carregadas de filhos, sacos e carrinhos, no difícil exercício de subir e descer tantos degraus.

O senhor presidente já imaginou, se fosse a sua mãezinha com o carro das compras, ou o seu avozinho de bengala, ou a sua filha com os meninos, sujeitos àqueles tratos? Não gostava, pois não? Então por que se está nas tintas para os que não pertencem à parentela e até o elegeram?

Calculo que a pronta justificação para a constante inactividade do elevador será que não há dinheiro mas, se puxar por esse argumento, juro que vou achar que todas as taxas e taxinhas que pagamos servem apenas para pagar tachos e tachinhos dentro da Câmara.

Posso lá agora acreditar nisso!
Cuide da sua gente, senhor presidente, sobretudo daquela que mais precisa de ser cuidada.
E, se puder, de caminho “lave a cara” ao “bicho”, que bem precisa.

 
PS: a fotografia ali de cima não foi tirada no Togo ou na Guiné-Bissau. Acredite-se ou não, é o referido elevador lisboeta.

22 de outubro de 2012

Sou um estado de alma

Os alentejanos gostam de dizer que “ser alentejano é um estado de alma”.

Nós, alentejanos, somos comedores de pão, inventores da cozinha do nada e do “cante”, gente curtida pelo desalmado sol de verão e “enrijada “ pelas manhãs de geada, contadores de anedotas sobre nós mesmos, geralmente curtas, incisivas e espelho do destinatário, somos de poucas palavras e, regra geral, não temos pressa.
Somos, sobretudo, orgulhosos do que somos, e temos a particularidade de na lonjura nos encontrarmos, porque é sempre “já ali adiante”.

Não basta ter nascido no Alentejo para ser alentejano − pode-se sê-lo tendo nascido longe, porque ser alentejano é, de facto, um estado de alma.

Ora, se assim é, e se Relvas disse no Parlamento que não há espaço para estados de alma, a conclusão lógica, acho eu, é que não há espaço para os alentejanos.

Mas há, o ministro está enganado. O que não falta no Alentejo é espaço.

O senhor ministro que venha cá que a gente mostra-lhe a terra a perder de vista, os sobreiros, as azinheiras, os “montes”, a vinha, as oliveiras, as ovelhitas a pastar, tudo à larga.

E mais ainda: até temos umas grutas ali no Escoural que estamos mortinhos para lhe mostrar.
E pode ficar a ver o tempo que quiser, que agente fecha a porta por causa das correntes de ar que, volta não volta, se fazem sentir aqui no descampado.


19 de outubro de 2012

Um grande senhor












Manuel António Pina partiu hoje, deixando-nos ainda mais pobres e mais tristes.

Chamar nomes é feio, eu sei, mas...

Primeiro vieram as tropas dizer que, no estado em que as coisas estão, as forças armadas não estarão em condições de “defender a soberania do país”.
Independentemente das razões que possam assistir às tropas, perguntei aos meus botões – qual soberania?

Os botões responderam que podíamos tentar rapar o fundo do tacho a ver se ainda encontrávamos alguma, mas só isso.

De seguida, vem a notícia de que a Merkel reclama o direito de ingerência nos orçamentos dos outros Estados.
Aí, já nem perguntei nada aos botões; só exclamei de dentes cerrados – grande CABRA!
Acho que eles concordaram.


18 de outubro de 2012

Do título em inglês para a asneira em português

Volto ao Expresso de 13 de Outubro, jornal que dá direito a quase tantos comentários como os amuos do CDS, e que, na sua Revista, tem uma “coisa” que se chama login. Entende-se –o português é língua de fracos recursos!

No último sábado, a página foi dedicada à mudança de direcção do Museu de Serralves, que passará a ser assumida por Suzanne Cotter, substituindo João Fernandes.

Neste tal login, o director cessante passou a “chamar-se” João Gonçalves, e por duas vezes.

Não parece gralha, pois não?

João Fernandes está em Serralves desde 1996 e foi seu director nos últimos oito anos. Fez um trabalho tão notável que saiu para sub-director do Museu Rainha Sofia em Madrid, e, pasme-se, até foi condecorado pelo Governo francês como Cavaleiro das Artes e das Letras.

É portuguesinho de gema, com trabalho reconhecido “lá fora”, mas o jornalista do Expresso não lhe sabe o nome, e o editor também não, e o revisor também não e, se calhar, o director também não.

Analfabetismo cultural será, mas é sobretudo preguiça, muita preguiça.
Está tudo na internet, senhores jornalistas.

E, já agora, deixo ali em cima a fotografia de João Fernandes, para que o jornalista do Expresso, quando o vir em Espanha, o possa identificar correctamente, e não lhe venha a chamar Juan Fernandez, ou Gonçalvez, ou coisa que o valha.

17 de outubro de 2012

Troika lusa


É claro que eu não li a proposta de orçamento, mas colhi no Público online de ontem a seguinte informação:

A Saúde desce 19,8% e a Educação e Ciência 0,4%, o Subsídio de doença 5,3%,  mas a Defesa Nacional aumenta 10% e a Administração Interna 12%.

Mais palavras para quê? Está à vista a matriz ideológica da troika lusa − Passos +Gaspar + Relvas.

Mas eu hoje queria mandar um recado ao “troiko” Gaspar.

Disse ele, na conferência de imprensa, que está aqui para retribuir o dinheiro que o país gastou com a sua educação.

Só posso falar por mim, claro, mas gostava de lhe dizer que sou pessoa desprendida, que paguei com satisfação os estudos dele, os dos meus filhos e os de alguns milhares de outros jovens portugueses. Pena que a cabecinha dele não tenha dado para ir além do Excel, mas paciência. Não quero nada em troca, acho que deve considerar a dívida saldada e, pela minha parte, pode e deve ir embora o mais depressa possível.

Sei que não irá. Nem ele nem o resto da troika lusa, porque o trabalhinho que vieram fazer ainda não está pronto.

A grande questão que se põe é saber se seremos nós capazes de lhes dar um belo pontapé no traseiro. Não sorrateiramente, como quem não quer a coisa, mas bem às claras como QUEM-QUER-A-COISA.
 
Eles merecem a nossa frontalidade.



16 de outubro de 2012

Sousa Tavares e a Fundação Saramago

No seu artigo de opinião do Expresso de 13 de Outubro, Miguel Sousa Tavares escreve, muito bem como de costume, sobre a carga fiscal que aí vem. No fim, entende fazer um PS em que goza com o Congresso das Alternativas (reunião de marretas de esquerda, segundo ele) e, aproveitado o facto de este ter sido encerrado por Pilar del Rio, termina escrevendo:

Saberão os “alternativos” quanto já nos custou a Fundação Saramago e o que fez em troca pelo bem comum? Ou não lhes interessa saber?

Alternativos ou não, julgo que interessa a todos saber, mas eu lembro-me de sobre o assunto ter lido, por exemplo aqui, que a fundação não iria ter dinheiros públicos.

É certo que a obra na Casa dos Bicos foi levada a cabo pela Câmara de Lisboa; estava aos ratos, e sendo monumento nacional, não vejo por que não seria o dinheiro público a financiar a obra.

Ora, eu não sou mesmo nada admiradora da Presidenta (?) Pilar, mas ela é a mulher que Saramago escolheu para viver e para ser presidente vitalícia da sua fundação. Qual o mal? O senhor Gulbenkian não escolheu Azeredo Perdigão para presidente vitalício da fundação que leva o seu nome?

Se alguma coisa se modificou no financiamento da Fundação Saramago e o Miguel Sousa Tavares o sabe, é bom que o diga por inteiro, para todos sabermos, e não se limite a deixar no ar perguntas insidiosas que já contêm em si a resposta.

Fale, homem, eu quero saber a verdade, e um jornalista pode descobri-la muito mais facilmente que eu.

Fico à espera do esclarecimento para dar a mão à palmatória, se for caso disso. Caso ele não venha, vou continuar a pensar sobre o Miguel Sousa Tavares o que sempre pensei – excelente jornalista, quase sempre certeiro, mas, quando movido por ódios pessoais, pode espalhar verrina e suspeições de duvidosa seriedade intelectual.

15 de outubro de 2012

Relatório

Relatório do dia 13 de Outubro para a Rute

Pois, lá fui outra vez a caminho de Praça de Espanha mas, confesso, fiquei pouco tempo.

Estavam-me a dar demasiada música para tanta raiva.
Os artistas fizeram o seu papel; contudo, aquilo pareceu-me mais um espetáculo de rua do que uma acção de protesto. Mas gostei muito, por exemplo, de ouvir a Maria do Céu guerra dizer um poema da Ana Hatherly, grande poeta e artista visual que quase ninguém conhece neste país. Mas isso já é o costume, nem vale a pena lamuriar.

Era este o poema:

Esta Gente / Essa Gente

O que é preciso é gente
gente com dente
gente que tenha dente
que mostre o dente
 
Gente que não seja decente
nem docente
nem docemente
nem delicodocemente
 
Gente com mente
com sã mente
que sinta que não mente
que sinta o dente são e a mente
 
Gente que enterre o dente
que fira de unha e dente
e mostre o dente potente
ao prepotente
 
O que é preciso é gente
que atire fora com essa gente
 
Essa gente dominada por essa gente
não sente como a gente
não quer
ser dominada por gente
 
NENHUMA!
 
A gente
só é dominada por essa gente
quando não sabe que é gente


Sabes, eu acho que aquilo teria sido uma coisa bem diferente se a CGTP tivesse feito desaguar a marcha contra o desemprego lá, na Praça de Espanha. Mas isso teria sido um verdadeiro sismo nos estereótipos da CGTP. E depois como é que o Arménio falava, como é que se mostrava a força da Intersindical?
Lá por aquela banda, tudo como dantes − nós somos nós, quem quiser que venha atrás.
Nada a fazer.

Olha, esta história de andar sempre na rua também proporciona outras experiências - faz com que encontremos pessoas que já não víamos há muito tempo. E, caraças, como ficamos contentes de nos encontrarmos, e ainda mais de nos encontrarmos naqueles sítios.
Dias agridoces, os nossos, por aqui. Até breve.
Fim de relatório

 
PS: Aquela ali em cima é a Ana Hatherly há uns bons anos atrás. Escolhi-a em homenagem a todos os desprezados artistas deste país.


12 de outubro de 2012

Ena, pá, Seguro foi a Paris.




Seguro foi a Paris falar durante 30 minutos com François Hollande. Grande Seguro, isso é d’homem, e até parece alta política.

De que terão falado, interrogo-me. De política e de Europa não deve ter sido, visto que nenhum deles tem qualquer ideia firme naquelas cabecinhas sobre tais assuntos.

Hollande já mostrou que é mero “encarregado de negócios” dos patrões franceses e da Merkel (ao assinar o pacto de estabilidade que tinha jurado não assinar).

Seguro, por sua vez, sabe que nunca chegará a chefe de quadrilha, e os ensinamentos de Hollande nem lhe devem interessar por aí além; por isso me parece que o jovem estava com vontade de ir rever o outono em Paris e, de caminho, tomou um cafezinho no Eliseu.

Foi simpático, certamente, e fica bem no currículo, naquela parte da “experiência internacional”. Talvez se prepare para emigrar, quem sabe?!

PS: não encontrei fotos do encontro; por isso ponho outra, visto ser indiferente.

10 de outubro de 2012

Vivendo com a diferença

Ainda gosto de a recordar menina.
Baixinha, viva, olhos verdes e míopes, vaidosa, leitora compulsiva, parecia uma bailarina de caixa de música posta a tocar para que mostrasse graciosas habilidades.
O auditório familiar sonhava sonhos grandes para ela, menina com brilho extra, leitora precoce de Althusser e Rosa Luxemburgo.

Quando, adolescente, sobreveio o breackdown, e que raio seria isso, foi como uma bala no meio do peito do embevecido público. Havia de passar, havia de se curar.
O tapete vermelho passou a rampa de perigoso ângulo, resvalando para as alucinações, o real imaginário, os imprevisíveis humores, a esquizofrenia.
Como se um espírito mau tivesse puxado o fio do tricô tão laboriosamente tricotado, este começou a desfazer-se em brigas de amor-ódio, agressões verbais, fugas, relações cada vez mais perigosas com a vida, e lenta implosão familiar.

Nos dias bons, parodiava-se a normalidade, nos dias maus encetavam-se buscas ansiosas em pensões sórdidas da Baixa onde nunca estava só, e nem sequer aparecia, mas mandava recado, dizendo que ainda não era tempo de voltar para casa. Iniciava-se então o regresso, com uma dor que não devia ser permitida a nenhuma menina, para informar que parecia que sim, que estava viva, mas não se sabia dizer quanto.

Havia de passar, havia de se curar. E o plano inclinado cada vez mais íngreme, escorregadio e imprevisível.
Mas ainda gosto de a recordar menina.

 
PS: hoje é Dia Mundial da Saúde Mental


9 de outubro de 2012

Que se lixe a troika e o Gaspar - duas exposições


Esta exposição é um ensaio.
Um ensaio, ensinou-nos Montaigne, é um texto que explora um objeto por tentativas, e que assim se acerca do próprio ensaísta – sem a pretensão de argumentar uma tese metódica e conclusiva. (…) – assim poderá ser uma exposição.
Paulo Pires do Vale no catálogo da exposição Tarefas Infinitas.

Foi assim que as vi, como ensaios, as exposições de Renato Ferrão, no Chiado 8, e de Carlos Nogueira no Centro de Arte Moderna da Gulbenkian.
O primeiro ganhou o Prémio de Artes Plásticas União Latina 2010 e, na actual exposição, continua o seu trabalho de exploração do espaço e de mandar às malvas os conceitos clássicos de escultura.
Tudo nesta exposição é movimento tenso e repetido, tudo é frágil e pode cair-nos em cima – um belo ensaio sobre os “tempos modernos”.

A retrospectiva de Carlos Nogueira no CAM é, por sua vez, o culminar do ensaio que tem sido todo o seu percurso artístico.
Sistematicamente fora do mainstream, é autor duma obra tão consistente como coerente, e, para mim, das mais originais da sua geração.
Prova dessa coerência, ao fim de mais de 40 anos de trabalho, a afirmação proferida de que não faz distinção entre o que produziu na adolescência e o que faz agora – “ Faço sempre uma única obra”.

Melhor do que Xanax, mais barato e higiénico.
E, sim, há vida para além da troika e do Gaspar.

8 de outubro de 2012

Duas mulheres



Naquelas lamentáveis comemorações do 5 de Outubro, duas mulheres ousaram romper o anel protector do medo que o poder político levantou em redor de si mesmo.

Quase tudo foi mau demais naquele dia, e enquanto a maioria de nós ficou em casa a rir da bandeira de pernas para o ar ou a abrir a boca com a estupidez do discurso de Cavaco, aquelas duas mulheres – Luísa Trindade e Ana Maria Pinto, movidas pelo desespero, uma, e pela indignação, outra, tiveram a coragem de estragar o fino velório.

Entretanto, o inefável Jorge Sampaio dizia que não comentava nada porque já há ruído a mais.

Pois a mim parece-me que ainda há ruído a menos, e que os ouvidos ainda lhe vão doer por excesso de decibéis.
Estou grata àquelas duas mulheres por terem quebrado a paz de cemitério que reinava no Pátio da Galé.
 

4 de outubro de 2012

Desaparecido (s)em combate

Não, não ando à procura do Portas, que eu bem o vi lá na AR, caladinho, é certo, mas presente. Procuro o Viegas, esse carismático escritor e editor que aceitou ser Secretário de Estado da Cultura.

Anda desaparecido. Deve entrar e sair de parapente – ninguém o vê, ninguém o procura, e, provavelmente, já ninguém se lembra que ele existe, excepto eu.

A verdade é que a criatura existe, foi convidada para a governação (ih! ih!), encheu o peito (já de si um pouco cheio), e até repetiu aquela coisa linda de “fazer mais com menos”. Não é a primeira vez que aqui escrevo sobre o Viegas mas quero recordar que, no seu blogue, e antes das eleições, escreveu um texto de incitamento e apoio implícitos a Passos, que terminava com uma citação/recomendação assim:

 
Quando ofereceram o poder ao Mestre de Avis, explicaram-lhe: prometa o que não pode, ofereça o que não tem e perdoe a quem não o ofendeu. Aprendam. Aprendamos.

 
A coisa prometia, mas foi fogo de palha. É que nem mesmo agora, com aquela trapalhada das fundações, o ouvi lamentar o “inevitável” corte em Serralves, Casa da Música, Museu Paula Rego, Culturgest, Museu Vieira da Silva etc., enfim, aquelas casas que ainda se esforçam por não deixar que este retângulo se transforme num enorme deserto cultural.

Nada. Sumiu. Escafedeu-se.

Temo, por isso, que depois de ter escrito um policial que dava pelo nome de “Morte no Estádio”, possa estar agora a escrever, nas suas muitas horas vagas, a sequela − “Morte no Palácio da Ajuda”.

Novo modelo IRS