22 de fevereiro de 2012

As rapariguinhas do shopping

Terça-feira de carnaval num centro comercial de Lisboa quase deserto.

Pergunta uma das rapariguinhas do shopping –“ Évora é para cima, não é, para o Porto?
Ah! Então é para Faro.”
À saída uma outra rapariguinha do shopping – “afinal hoje é feriado, ou não? Uns dizem que é e outros dizem que não é, não percebo.”

Quase toda a gente, hoje em dia, está de acordo em dizer que Portugal nunca teve uma geração tão bem preparada, e eu estou de acordo.

Mas, senhores, e os que não se prepararam?

È confrangedor ver gente na casa dos seus vinte anos que não faz ideia para que lados fica uma das capitais de distrito, que até são só 18.

Também apetece perguntar em que planeta habita a rapariguinha que, ao fim de duas semanas de polémica em todas as televisões, ainda não tinha percebido se era feriado ou não.

Aos muito preparados o governo indica a porta de saída. Uns irão porque querem, outros porque nada mais lhes resta; e por aqui ficarão apenas estes impreparados.

É com eles que vamos construir um país moderno e dinâmico, senhor primeiro-ministro?

Se os preparados se virem obrigados a seguir o seu conselho e partirem em massa, restar-nos-á uma choça governada por uma choldra, de que o senhor será merecedor, mas eu não.
Estou zangada, pois estou, e depois?


21 de fevereiro de 2012

Já se sabe que os animais são todos iguais, mas há uns mais iguais que outros

Esta notícia do Público, leva-me a uma recorrente interrogação.

Sócrates mentia e já não havia bicho careto que não lhe chamasse MENTIROSO com todas as letras.

Quando será que os mesmos acusadores (é bom lembrar que foi Manuela Ferreira Leite a pioneira no uso do adjetivo) começam a chamar a Passos aquilo que ele é, tanto quanto Sócrates era, – MENTIROSO?!
Deu-lhes agora para a boa educação, foi?


20 de fevereiro de 2012

"O Sentido do Fim"


“Quantas vezes contamos a história da nossa vida?
Quantas vezes adaptamos, embelezamos, fazemos cortes matreiros? E, quanto mais a vida avança, menos são os que à nossa volta desafiam o nosso relato, para nos lembrar que a nossa vida não é a nossa vida, é só a história que contámos sobre a nossa vida. Que contámos aos outros mas – principalmente – a nós próprios”





“O Sentido do Fim”
Julian Barnes
Ed. Quetzal
pag. 100

Ao saber que “O Sentido do Fim” de Julian Barnes ganhou o Man Booker Prize 2011, não se estranha, mesmo não conhecendo a concorrência.

Através da história de vida de Tony Webster, Julian Barnes coloca-nos perante questões essenciais - como construímos as nossas memórias, qual o seu grau de veracidade, o que nos escapou, o que não quisemos saber, o que preferimos esquecer, o que presumimos, como escolhemos viver a nossa vida, onde nos perdemos daquilo que eramos na juventude, o que manipulámos?

Servidas por uma escrita prodigiosa, estas 152 páginas lêem-se dum rufo, ainda que nelas haja muito para meditar e muitos parágrafos para reler.
Grande literatura, sim.

18 de fevereiro de 2012

Um presente para Passos






















Neste carnaval, duas máscaras africanas para o nosso primeiro poder escolher com qual quer continuar a assustar-nos.
Para os outros todos, bom carnaval.

17 de fevereiro de 2012

Nem piegas nem medricas

Duas notícias.
Segundo o Público, a taxa de desemprego disparou para 14%; e acrescenta:
Se forem incluídas as pessoas desencorajadas mas que gostariam de encontrar trabalho, o número real deverá aproximar-se ou mesmo ultrapassar o milhão de pessoas.

Segundo o ionline, foi revelado pelo Indicador de Poupança APFIPP/Universidade Católica que a taxa de poupança das famílias desceu em janeiro.

Segundo o mesmo organismo, "as expetativas de desemprego registadas no inquérito às famílias … desceram ligeiramente em janeiro, apesar de se manterem em níveis muito elevados", facto que "pode reduzir a necessidade de poupança das famílias por motivo de precaução".

Está-se mesmo a ver. Com 14% de desempregados, cortes nos salários, aumentos nos transportes, na energia, na saúde, etc., os portugueses estão a poupar menos apenas porque têm menos medo do desemprego, ora essa. Nem sequer é porque não consigam poupar, ou por terem tido de deitar mão às poupanças, nada disso, só porque não são medrosos.

Ah! Nação valente, povo temerário.
E o que eu gostava que esta gente poupasse na asneira.  

16 de fevereiro de 2012

Salò

Eu dizia aqui ontem que todos os dias há, neste país, “uma guerra” para travar, um alvo a abater, um soundbite a esmiuçar”.

Não é o caso de hoje. Hoje é dia nem sei do quê.

A história dos livrinhos com o programa do governo ao custo unitário de 120 euros, que eu paguei enquanto deixava na livraria dois ou três que custavam 10% disso, mostra-me mais uma vez (mas é só mais uma vez), que este governo se ri de nós, cospe em nós e ainda raspa os pés no capacho que somos nós.

Porque será que me lembro duma cena do filme Salò de Pasolini, em que humanos nus e pela trela eram obrigados a comer o inominável?

15 de fevereiro de 2012

Se um blogue incomoda muita gente...

Recentemente, dois doutos crânios lusos entenderam escrever sobre a blogosfera.
José Pacheco Pereira escreveu no Público um longo artigo que Joana Lopes transcreve e comenta no seu blogue Entre as Brumas da Memória.
Talvez por ele próprio ser autor dum blogue, analisa a blogosfera com trambelhos, ainda que os seus trambelhos.

Pessoalmente não acredito que os blogues políticos tenham perdido influência; neste país há sempre uma “guerra” para travar, um alvo a abater, um soundbite a esmiuçar, e sobre eles há tantas e tão variadas opiniões, argumentações e ponderações, que os blogues se tornam uma fonte inesgotável de artigos de opinião, alguns bem melhores do que os que lemos nos jornais.

Já Miguel Sousa Tavares, que parece começar logo a espirrar de alergia quando lhe falam em internet, escreve na página/lençol do Expresso:”…essa terrível entidade a que hoje querem resumir a democracia chamada blogues”.

Não conheço ninguém que queira tal coisa, mas é certo que não me movo nos círculos seletos de MST; ao contrário, conheço muita gente que pensa que os blogues acrescentam democracia à democracia.
Os blogues políticos e de reflexão sobre a nossa sociedade são, frequentemente, muito bem escritos e pensados (é só passar pela minha lista de Gosto de), são gratuitos e feitos nas horas vagas de quem os escreve.

Sousa Tavares percebe, na blogosfera, que não é só ele que sabe escrever, ou pensar, e que hoje todos podem publicar "sem custos para o utilizador".
Talvez essa constatação o faça sentir-se um pouco ameaçado, talvez.

14 de fevereiro de 2012

Temo juízes justiceiros


Baltazar Garzón escolheu para si próprio a figura de juiz star que nunca me agradou; muitas das suas atuações também me levantaram, ao longo dos anos, as maiores reservas.

Entendo que um juiz deve ser discreto, e se nunca se falar dele, tanto melhor.
Ao contrário, Garzón há anos que procurava a ribalta, construindo laboriosamente uma imagem de justiceiro universal.

As minhas campainhas de alerta soaram a quando do seu mandato de prisão contra o ditador chileno, Augusto Pinochet.
E se eu abominava aquele homem! Mas, enquanto toda a gente batia palmas, eu franzia o sobrolho; aquilo tresandava a golpe mediático e, sobretudo, parecia-me um atestado de menoridade passado à ex-colónia, a quem não era reconhecida capacidade para acertar as contas com a sua própria história, como e quando o entendesse.

O mesmo se passou com a investigação aos crimes de guerra do franquismo.
Espanha fez, bem ou mal não interessa, um pacto de “esquecimento” sobre o qual construiu a sua atual democracia. Esse pacto será revisto quando, se, e como os espanhóis o entenderem, e não por capricho dum só juiz.

O que agora levou ao seu afastamento ultrapassou, em meu entender, todas as marcas; e não me venham dizer que os juízes do Supremo Tribunal, que votaram por unanimidade a sua suspensão, são todos franquistas ressabiados, porque não posso acreditar nisso.

Escutar as conversas entre presos e seus advogados não é admissível.
Num Estado de direito e democrático, há uma linha que não pode ser ultrapassada, os fins não podem justificar os meios, e as democracias não podem usar os métodos das ditaduras.
Ainda que o bandido nos fuja, ainda que a alma nos doa.

13 de fevereiro de 2012

Chefias intermédias

Nos últimos tempos, já todos percebemos que quem manda aqui neste pedacito de terra é uma senhora chamada Angela Merkel, outra chamada Cristine Lagarde e um senhor chamado Mário Draghi ; há ainda uma série de funcionários que gostam de debitar umas coisas mas esses, de facto, não mandam nada, e por isso não me afligem.

O que eu não sabia mesmo é que nesta república, que eu julgava laica, também manda o Papa.

Fiquei a saber, pelo Expresso do último sábado, que o expedito primeiro-ministro, que a maioria dos portugueses elegeu mas todos temos que gramar, afinal nem sequer consegue acabar com os feriados religiosos sem autorização do Papa.

Será santa ignorância, a minha, mas o facto é que tenho vindo a perceber que, por aqui, não há governantes – todos não passam de chefias intermédias equiparadas a, vá lá, a director-geral.

10 de fevereiro de 2012

Portuguesinha de gema

Lá em casa sempre ouvi um ditado assim: “dos teus dirás mas não ouvirás”.

As gerações que nos precederam eram fecundas em aforismos. Estes constituíam, no seu entender, verdades incontestáveis que lhes serviam para rematar, ou melhor dizendo, matar, as conversas em que nos mostrávamos mais “respondões”.

Certo é que eles me entraram no ouvido e muitas vezes me vêm à memória, embora hoje não sirvam para nadinha porque há muito tempo que ninguém está disposto a aceitar aforismos seguidos de ponto final.
Contudo, portuguesinha de gema que sou, tendo a descair para o lado do “dos teus dirás mas não ouvirás”

Vem de lá Merkel e diz que há túneis a mais na Madeira.
A gente sabe que os túneis foram feitos com dinheiro dos fundos estruturais, todos aprovados em Bruxelas, e por isso ela não pode pôr o corpinho todo de fora.
Mas, no fundo, e se virmos bem as coisas, a mulher até tem razão, só que aquilo dito por ela chateia-me, pá.

Depois vem um tal Schulz dizer que nos andamos a meter demais com más companhias – para ele Angola, para mim, China e Angola.
Ora, ele sabe que para pagar o que lhe devemos e mais os juros usurários que nos exigiram, vamos ter que vender as joias a quem der mais.
Quer receber o dinheirinho? O melhor é deixar- se de moralismos e nem perguntar por onde andámos para o arranjar.
Mas, no fundo, e se virmos bem as coisas, o homem até tem razão, só que aquilo dito por ele chateia-me, pá.

É óbvio que o velho “dos teus dirás mas não ouvirás” foi coisa que me ficou, o que, em boa verdade, também me chateia um bocado.

9 de fevereiro de 2012

La vie en rose

Na Antena 1 da RDP, no espaço da manhã dantes ocupado por Pedro Rosa Mendes e seus companheiros, existe agora uma rubrica sobre portugueses no mundo.

Durante alguns minutos, a jornalista fala com alguém que está a viver e a trabalhar noutro país e eu ponho uns óculos cor-de-rosa.

São sempre jovens com boa formação que encontraram um trabalho que os satisfaz. Todos falam de segurança no trabalho, organização e saudades do sol. Enfim, a vida é bela e cheia de oportunidades no largo mundo ao nosso dispor. O programa satisfaz plenamente a ideia do primeiro-ministro de que os jovens devem abandonar a sua “zona de conforto” e emigrar.

Noto, porém, que os entrevistados, não estando infelizes, ao contrário, têm saudades do país e da família. Presumo que, se aqui encontrassem maneira segura de empregar o seu inegável talento, na sua grande maioria, gostariam de estar na sua “zona de conforto”.

Reparo também que, no programa, nunca ouvi entrevistar nenhum dos muitos licenciados portugueses que mais não encontram lá fora do que a possibilidade de vender copos a bêbados de país alheio; também nunca ouvi um jovem com o 12º ano que só conseguiu ser trolha, nem um dos mais velhos que se sente enganado e bastamente explorado na sua condição de emigrante.

Mas é bom. O senhor Primeiro-ministro e o Dr. Relvas certamente gostam disto e eu, durante uns minutos, vejo o mundo em tons de rosa clarinho.

8 de fevereiro de 2012

Venerável Vasco

Vasco Graça Moura nunca escondeu que não gosta do AO, (eu também não) mas a atitude que tomou ao entrar no CCB é um ato de desobediência civil.

Ou talvez seja só rebeldia, não sei.

Se calhar nunca foi rebelde em novo e por isso, admito, resolve experimentar agora, numa altura da vida em que os atos de rebeldia podem ser desesperantemente parecidos com arrogância, mas nunca com coerência, como tenho visto por aí.

Sim, acho que é rebeldia tout court, daquela fácil de ter quando sabemos que nada nos acontece.

Venerável Vasco sabe disso.

Assim, à entrada, declara que naquele tasco, que parece ser só seu, ninguém vai escrever segundo as novas regras.

Que faz o governo que o nomeou?

Ora, o costume nestas situações que metem veneráveis: acobarda-se e desdiz o que está dito – o AO entra em vigor a 1 de Janeiro de 2012, não, não, foi engano, obrigatório mesmo só em 2014. Desculpe lá ó Vasco, faça como quiser, esteja em sua casa, disponha.

Da coluna vertebral do Viegas, que já tinha dado a “palavrinha” a Mega Ferreira e lha retirou prontamente quando lhe lembraram que ele não manda nada, e que é grande defensor do AO, nem digo nada. Não devemos falar daquilo que não existe senão em conversas de especulação filosófica, o que não é aqui o caso.

7 de fevereiro de 2012

Passos Coelho e o touro de Pamplona

A atuação política de Passos Coelho faz-me lembrar a largada de touros em Pamplona.

Aberta a porta do curro, a besta corre pelas ruas, marra a torto e a direito, corneando pelo caminho vários “piegas” que se meteram com ele e até os que não se meteram com ele.
Mais cedo ou mais tarde, tem o destino de todos os touros: é morto por homens

Vamos alargar o cinto

Há não muito tempo, o bastonário da Ordem dos Médicos surgiu na televisão com a ideia de criar uma taxa adicional sobre fast food.

Num tempo de cultura do corpo e do saudável, muitos acharam que talvez fosse uma boa ideia porque todos sabemos que aquilo não é a comida mais recomendável do mundo.

A mim pareceu-me, vagamente, que era uma ideia de alguém que vê o país a partir dos corredores do Hospital da Luz, ou da Cruz Vermelha, ou da Cuf e que lhe renderia alguns minutos de exposição televisiva, mas não seria uma ideia bem pensada e aprofundada por alguém que representa uma classe profissional que conhece, talvez como nenhuma outra, as fragilidades do país que habita.

Chegou-me agora às mãos um livrinho intitulado “Desigualdades em Portugal, problemas e propostas” (Edições 70+Le Monde diplomatique, edição portuguesa), em que Isabel do Carmo, conhecida militante antifascista e hoje Diretora do Serviço de Endocrinologia do Hospital de Santa Maria, escreve:

Os portugueses têm de apertar o cinto…trata-se apenas de uma metáfora, porque de facto deveríamos dizer “os portugueses vão ter de alargar o cinto”.
É entre as classes mais pobres que a obesidade aumenta.

Quando os salários descem

O cliente vai procurar aquilo que lhe possa trazer mais calorias, que seja mais saciante, por menos dinheiro. E o que preenche mais essas duas qualidades são as gorduras, os doces e o álcool. As fontes de proteínas são mais caras, como são caros os alimentos ricos em vitaminas e sais minerais.

Parece simples de entender – ficar saciado por poucos euros é o objetivo de quem é pobre, logo, quanto mais pobres, mais obesos.
O problema é que as verdades simples não dão direito a aparecer nos telejornais.

6 de fevereiro de 2012

Bandarilhas do nosso contentamento

Nós, portugueses, temos um estranho sentido quer de educação, quer de democracia.

Podemos não cumprimentar o vizinho, sujar o espaço público com o talão do multibanco e os dejetos do nosso cão, estacionar ocupando o lugar de três carros, não devolver chamadas telefónicas feitas, faltar aos compromissos assumidos e nem dizer água vai, soltar as crianças nos restaurantes como se estivessem no parque infantil, “atropelar” o idoso lento que vai à nossa frente, conduzir como assassinos, mas não podemos criticar ninguém, exceto os políticos.

Também não temos o hábito de louvar ninguém, exceto os jogadores de futebol.

Para nós, na maioria das vezes, crítica é sinónimo de ofensa, contundência é má-educação, da polémica fugimos como o diabo foge da cruz, e se ousássemos a antiga “bengalada” alguém ligaria para o 112.

Entendemos o democrático direito à opinião duma maneira beata, e expressar com veemência o desacordo é considerado impertinência de mau-gosto, se não mesmo injúria.

Mas isso é só o que se vê à superfície, o que gostamos de mostrar.

No fundo, continuamos a gostar de tourada, arena e sangue, mas na bancada. É de lá que gostamos de aplaudir aquelas almas simples que se dispõem a espetar as bandarilhas do nosso contentamento.

Respeitinho e dissimulação. Assim fomos moldados por 48 anos de ditadura, e assim continuamos.
Acredito que um dia passará. Mas leva tempo.

Nota: este post surge, não como resposta mas como reflexão, sobre a caixa de comentário do post abaixo

4 de fevereiro de 2012

Sábado frio


“A estação do frio é uma estação para pessoas felizes.”

Assim escreveu Adolfo Mesquita Nunes no 
Delito de Opinião, e eu gostei.

3 de fevereiro de 2012

Só uma ideia para nuestras hermanas

Sol não nos tem faltado, mas os dias continuam negro; não passa um que não nos traga notícias de retrocesso.

Em Espanha, o governo do PP vai alterar a lei do aborto com “o regresso ao sistema anterior, baseado em três pressupostos: violação, malformação do feto ou risco para a saúde da mulher.”

Não sei o que dirão as espanholas. Estarão dispostas a voltar à abortadeira de vão de escada num momento em que mais de cinco milhões de espanhóis estão sem emprego e não se podem dar a esse supremo luxo de ter filhos?
Nas crises, são sempre as mulheres as mais penalizadas, mas o que vivemos já não parece uma crise – assemelha-se mais a uma guerra sem bombas mas igualmente mortífera.

As espanholas, eu sei, e não precisam de conselhos, mas, mesmo assim, aqui lhes deixo uma ideiazinha:

Encontrem uma Lisístrata contemporânea.

A da antiguidade organizou uma greve de sexo, assim conseguindo a paz entre atenienses e espartanos. Talvez uma moderna e salerosa Lisistrata consiga de novo ”organizar as tropas”, chamando à luta os seus parceiros para, juntos, obrigarem os políticos (maioritariamente homens) a inverterem a tenebrosa marcha de regresso a um passado de trevas em que as mulheres se queriam dóceis, conformadas e amedrontadas.
É só uma ideia.

2 de fevereiro de 2012

O escritor e o blogger, J. Rentes de Carvalho

Acabei de ler, com agrado, “Os Lindos Braços da Júlia da Farmácia”, livro de contos de J. Rentes de Carvalho. Não sendo, no meu pobre entender, grande literatura, é, contudo, um livro cheio de narrativas limpas, escorreitas, com apurada sensibilidade e sentido de humor.

O autor, que vive em Amesterdão, tem um blogue – TEMPO CONTADO, onde no dia 1 de Fevereiro escreveu isto:

Estamos de parabéns. É admirável como há portugueses que, com aflições de sobra, de pouco tempo dispondo entre o futebol, a televisão e o café, arranjem oportunidade para, ferrenhos, erguendo o punho, brandindo a Moral, se mostrarem solidários com a Grécia.
É um exemplo que nos dignifica, uma atitude enérgica, muito capaz de levar a que a Alemanha reconsidere a teimosia de não satisfazer o calote.

Palavras cínicas, e até ofensivas, dum homem já entradote na idade.

Primeiro, alvitra que os seus compatriotas mais não são do que consumidores de futebol, televisão e café, isto é, não trabalham.
De seguida, mostra que o seu tempo está mesmo muito contado porque não usa nenhum dele para se informar sobre as causas da dívida grega ou a maneira como a união monetária foi construída à medida dos interesses germânicos.

Homem público com pretensões a intelectual não pode limitar-se a emprenhar de ouvido o que se diz lá no paraíso fiscal em que vive – a Holanda, e isso de escrever o que nos dá na real gana é bom para mim e para os meus colegas bloggers sem nome na praça nem livros no escaparate.

J. Rentes de Carvalho, se não quer perder o seu contado tempo com as toneladas de informação disponível, podia, ao menos, ler o seu colega Manuel António Pina

Resumindo: o livro “Os Lindos Braços da Júlia da Farmácia” recomenda-se, mas o blogue de J. Rentes de Carvalho – TEMPO CONTADO – esse, eu vou evitar, para não contaminar a imagem que criei do escritor.
Se é que ainda vou a tempo.

1 de fevereiro de 2012

O Bastonário está desassossegado

Confesso que sempre tive alguma simpatia por António Marinho Pinto; talvez por eu própria gostar de palavras, também gosto de quem as usa sem medo ainda que, com isso, possa correr o risco de, aqui ou ali, elas saírem mais desbragadas.

Desta vez acho que não é mero desbragamento, é desnorteio.

Quando alguém se insurge contra um ministro por ele pedir uma investigação às contas do seu próprio ministério, pelas quais, sejam atuais ou anteriores, terá que dar a cara, está-lhe a negar um direito e até um dever.

Quando alguém se socorre sistematicamente do “caso” da nomeação da irmã da ministra para o Ministério do Ambiente, parece estar sem argumentos.

Quando alguém diz que a ministra “parece uma barata tonta” está a deitar mão ao mero insulto.
Além disso, há nesta afirmação um subtil toque sexista que incomoda.
Duvido que Marinho Pinto usasse a mesma expressão referindo-se a um ministro homem.

Fica-me a ideia de que Marinho Pinto está, também ele, à rasca.
Por isso estas suas palavras já não são fortes e contundentes.
Apenas estouvadas e grosseiras.