30 de novembro de 2011

"O Retorno"

Ler ”O Retorno” de Dulce Maria Cardoso, lembrou-me a leitura de “As Cruzadas Vistas pelos Árabes” de Amin Maalouf; trata-se de ver o outro lado da história.

Aos meus olhos, em 1975, os retornados eram uns seres estranhos, ora humildes ora arrogantes, achando que tinham direito a coisas que, nós por cá, não tínhamos ainda, sequer, sonhado como direito nenhum; eram pobres e mal-agradecidos, vinham de explorar pretos e achavam que tudo lhes era devido. Quando me diziam que eles tinham ficado sem nada, encolhia os ombros com a frieza de quem ainda não tinha tido quase nada, e achava que o que eles tinham perdido lá também não era deles. Além do mais, para os defender, e aos seus haveres, a minha geração tinha sido sujeita a participar numa guerra ignóbil em terras longínquas onde os soldados portugueses nem sequer eram bem vistos pelos colonos.
Sinceramente, nos meus 20 anos revolucionários, o seu destino era-me indiferente. Eles eram exploradores de pretos, e ponto final.

Nada como a passagem dos anos, o distanciamento e um bom livro para nos fazer revisitar o que já fomos e recolocar as coisas no seu devido lugar.
O livro de Dulce Maria Cardoso é magnífico na sua capacidade de nos “meter” dentro da dor, da dúvida e medo do futuro daquelas pessoas, às vezes tão sofridas como nós por cá.
Pode dizer-se que tudo acabou bem e, aos poucos, fomos assimilando 600 000 almas que aqui chegaram de rompante exigindo casa, trabalho, alimentação, roupa, ensino, cuidados de saúde, etc.

Dessa enorme massa humana tive contacto próximo apenas com uma pessoa – uma senhora meiga casada com um homem ácido, que aceitava as boleias que lhe oferecia com um misto de agrado e estranheza, próprio de quem nada tem, nada espera, mas sabe, com enorme dignidade, aceitar aquilo que lhe é oferecido.
Aurora, de sua graça, fez com que eu guardasse, por fim, uma memória doce e maternal do único retornado que entrou na minha esfera privada.
O livro de Dulce Maria Cardoso é o livro que nos faltava.

29 de novembro de 2011

Troco um Pedro por uma Isabel

A campanha de recolha de alimentos do Banco Alimentar contra a Fome foi, apesar da enorme crise, mais uma vez um sucesso.
É certo que o Banco e as suas campanhas fazem apelo ao que de melhor há em nós, portugueses – a solidariedade generosa com os que estão em aflições aqui ou em qualquer parte do mundo.

Podemos não dar bom-dia ao vizinho, infernizar a vida do colega, roubar o lugar de estacionamento a quem chegou primeiro, não apanhar do chão o que um mais velho deixou cair, abandonar a velha mãe no hospital durante a Páscoa e o gato nas férias de verão, mas lá que somos solidários com os que não conhecemos mas sabemos que estão em apuros, ah! lá isso somos.

Claro está que o Banco é uma organização exemplar que, ao longo dos anos, ganhou a simpatia e confiança dos portugueses. A maneira como presta contas regularmente aos seus doadores é até estranha em Portugal, e isso leva-nos a confiar na seriedade da organização.
Tem mão da Igreja, é certo, mas o que a Igreja faz bem feito…faz bem feito.

A figura discreta, quase de missionária, de Isabel Jonet, escondeu durante anos aquilo que agora o país inteiro já sabe – que é uma mulher inteligente, determinada, imaginativa, organizadora, séria e com enorme capacidade para dirigir com alto grau de profissionalismo aquilo que já é uma grande organização; tão grande que é capaz de alimentar 329 000 pessoas, não directamente, mas através de 2047 instituições.

É pena que não lhe dê para a política. Gostava de a ver sentada a discutir o orçamento de Estado; não por ser mulher,  nem por eu achar que gerir um país é o mesmo que gerir uma casa, longe disso, é por me parecer que ela sabe o sentido exacto da palavra equidade.
Agora mais do que nunca, por mim, trocava um Pedro por uma Isabel.

28 de novembro de 2011

Classificados estamos

 

Chegou ontem, finalmente, a esperada notícia – o fado foi classificado como Património Cultural Imaterial da Humanidade pela UNESCO.
Uff, que alívio, aquilo nunca mais se despachava.

Não sendo apreciadora de fado, reconheço que oiço com agrado a voz poderosa, limpa e bem modulada de Amália quando, por acaso, subo a Rua do Carmo numa manhã clara e calma de verão. Há ali qualquer coisa que me vem de longe e a que não sou alheia.
Contudo, fado vadio, fado canalha, era outra coisa, pertença do povo antigo que já não tem lugar à mesa do Portugal modernaço. Agora é limpinho, cheirosinho e “beto”.

No dia 25 de Novembro (6ª feira passada), comemorou-se o 25º aniversário da classificação do Centro Histórico de Évora como Património da Humanidade.
Fruto do entusiasmo, visão estratégica, capacidade política e empenho do presidente, vereação e técnicos que ao tempo dirigiam a autarquia, foi possível conseguir essa classificação, reconhecimento bem raro nos idos de 80 em Portugal.

O mais extraordinário é que a candidatura quase não teve custos, visto que tudo foi feito com a “prata da casa”, ou seja, os técnicos da autarquia; ainda não tinham chegado os nossos tempos de novo-riquismo em que tudo se encomenda fora, como quando não apetece ou não se sabe cozinhar (e nem se quer aprender) e se come sempre fora; caso esteja a chover, manda-se vir.

Dá que pensar o que farão hoje tantos técnicos dentro das câmaras, se tudo o que é estudo, projecto ou parecer se encomenda no exterior.
É por isso que, há 25 anos, a classificação do Centro Histórico Évora custou quase nada (pouco mais que a deslocação à cidade de duas delegações do ICOMOS), e a classificação do fado custou 1,5 milhões de euros.
Mudam-se os tempos…

26 de novembro de 2011

A condição humana




Estas duas imagens do mesmo homem, Seif Al – Islam, filho de Kadhafi, dão que pensar, a quem tiver alguma vontade de o fazer, sobre os velhos temas da condição humana e da sua circunstância.

25 de novembro de 2011

“Plegaria Muda”

A informação que temos, à partida, é que se trata de uma instalação de Doris Salcedo no Centro de Arte Moderna da Fundação Gulbenkian.

Quando entramos na nave central do CAM, a sensação que temos é que chegámos a um lugar inventado por Doris Salcedo, como um memorial.
A instalação remete para a abertura duma vala comum na Colômbia, país da artista, onde se encontravam os corpos de 162 jovens mortos por um exército mercenário.

Com base nessa dolorosa e violenta vivência, a artista empilhou, duas a duas, 162 mesas. Entre elas, terra amassada onde se detectam pequenas raízes, e de cada mesa superior saem pequenas folhas de relva. Assim se constitui um labirinto que somos forçados a percorrer na sua interminável repetição.
É como visitar um cemitério (e os pés das mesas, no seu conjunto, lembram os alinhamentos das lápides nos cemitérios), onde não jaz ninguém que a gente conheça, mas onde mais não cabe que o silêncio ou uma “oração muda” .

Percorrendo o labirinto percebe-se a justeza do que Nuno Crespo escreveu no Ípsilon de 11 de Novembro –“A história do trabalho de Doris Salcedo é a história dos lugares em que a felicidade é um luxo e a tragédia humana quotidiana.”


No piso superior pode ver-se outra exposição – “Paisagem na colecção do CAM”. Com obras que vão de Amadeo de Souza-Cardoso aos jovens Nuno Cera ou Gabriela Albergaria, destaco, por gosto pessoal, 14 fabulosas aguarelas (de 1980) de Fernando Calhau. Se mais não houvesse, mas há, só por elas, vale a pena subir a escada.

É só para lembrar


Imagem roubada a Ana Vidigal aqui (e deixemos passar o português).

24 de novembro de 2011

Tahrir virtual

Ler as caixas de comentários dos blogues políticos dá uma boa ideia do estado anímico em que se encontra o país.

Há pedrada que ferve de e para todos os lados, mais parece uma Praça
Tahrir virtual.

Hoje, só me apetece plagiar a Ana Cristina Leonardo no seu blogue Meditação na Pastelaria e com ela dizer:
 Isto vai dar merda.

23 de novembro de 2011

A casa de correcção

Amanhã é dia de Greve Geral. Geral não será certamente. É a greve dos trabalhadores que, de alguma forma, trabalham para o Estado.
Os privados não farão greve, o comércio não fechará, os trabalhadores por conta própria… tomara que tenham trabalho.

Aos poucos, mas ao longo dos anos, o poder tem criado as condições para não haver condições de fazer greve, por muito descontentes que estejamos. O trabalho precário, os recibos verdes, o trabalho a prazo, os contratos individuais, são poderosas ferramentas para desincentivar qualquer tipo de manifestação grevista.

É verdade que, amanhã, 15% dos portugueses impedirão os outros 85% de trabalhar, mas a greve, em abstracto, é ainda um dos direitos que nos liga à democracia tal como a conhecemos até aqui, e que pode estar a mudar.

Num excelente artigo do Atual de 19 de Novembro, com o título O Rapto da Europa, António Guerreio escreve sobre dois livros – de Hans Magnus Enzensberger e Jurgen Habermas.
Estes autores analisam a forma como a Europa foi raptada por “funcionários esclarecidos” que em Bruxelas tudo regulamentam, desde a coloração dos alhos franceses e a curva máxima do pepino, até às lâmpadas ecológicas de uso doméstico cujo regulamento ocupa 14 páginas.

Os livros abordam aquilo a que chamam a Europa pós-democrática. Já não se trata de défice democrático, que pressupõe um desvio ou uma insuficiência como analisa António Guerreio, mas da “entrada num outro modelo que ainda não sabemos designar senão como inflexão, historicamente determinada, da democracia”.
Nesse modelo, segundo Enzensberger, “ não se está a construir uma nova prisão para os povos, mas uma casa de correcção”.

Ora, se nessa casa de correcção os” internados” se atirarem uns aos outros, discutindo acaloradamente se é ou não “correcto” fazer greve, por exemplo, quem sairá a ganhar é o detentor do poder, que assegurará a ordem, reforçará a repressão hard e soft e, no fim, terá alcançado os seus objectivos.

Eu acredito que estamos a iniciar o caminho pós-democrático, e que seria bom que reflectíssemos sobre o papel que cabe a cada um de nós nesse novo e desconhecido quadro organizacional.

22 de novembro de 2011

Nem um alfinete

À velha pergunta – “você comprava um carro em segunda mão a este homem?” eu responderia: nem um triciclo, quanto mais um carro.

Fomos educados, os que foram, claro, a não julgar as pessoas pela aparência, mas é quase impossível fugirmos ao sentimento de empatia, repulsa ou neutralidade que a aparência dos outros nos provoca.

Falo por mim, mas este senhor Paul Thomsen, funcionário de 5ª ou 7ª categoria do FMI, nas palavras do banqueiro Ulrich, faz-me cócegas no céu-da-boca, como as alergias primaveris.

De cabecinha sempre à banda e olhar de esguelha, dá o ar de não gostar de encarar nada de frente, ou não querer dar aos outros a oportunidade de o verem de frente.

Vive nos subterrâneos dos ministérios de países alheios a criar desespero, e tem ar de se sentir tão bem na sua actividade como os membros do Exército de Salvação com as suas filantrópicas acções.

Pensando bem, e olhando tanto quanto possível de frente para ele, eu nem um alfinete lhe comprava.
Mas o meu país comprou, através dele, uma porção de dinheiro, que, afinal, só dá mesmo para os alfinetes.

Nota: foto tirada do Expresso, edição de 19 Novembro 2011

21 de novembro de 2011

Carta (que ele não vai ler) a Henrique Raposo


Bom dia, Henrique

Já é 2ª feira e ainda não digeri a sua crónica de sábado no Expresso.
Tenho o hábito de o ler, mas é mesmo só hábito, porque raramente concordo consigo. Talvez eu tenha o hábito de discordar de si, mas desta vez você foi longe demais, ofendeu-me a mim e à minha geração.

O Henrique não me lê como eu o leio a si mas, se lesse, saberia que tenho grande apreço e carinho pela geração a que pertence, ao contrário de si que destila ódio pela geração dos seus pais e tios e avós que, curiosamente, muitas vezes refere com carinho. Deve ser só a sua família que tem qualidades; os outros da mesma geração são uns filhos da mãe, pendurados nos vossos descontos e sacrifícios, são “matronas anafadas” que vos roubam a cegonha, o bem-estar e a casinha no centro de Lisboa.

Saberá certamente o Henrique que os seus estimados pais, e todos os da sua geração, não esperaram ter uma casa no centro de Lisboa para o mandar vir, nem esperaram ter todas as condições desejáveis para ter filhos, ou você não estaria cá. Ao contrário, os seus amigos não querem nada com a cegonha antes de ter tudo nos trinques.

O Henrique saberá também, certamente, que a casinha que agora custa 20 euros, quando foi arrendada nos idos de 60 ou 70, custava os olhos da cara e levava grossa fatia do ordenado. Nada de novo, portanto. A habitação sempre foi cara para os jovens.

Não quero com isto defender a lei em vigor, de que, aliás, discordo profundamente, mas o Henrique também saberá que as rendas foram congeladas em Lisboa ainda por Salazar, e que nenhum governo, até hoje, foi capaz de resolver este assunto de maneira justa, razão pela qual tudo vai ficando na mesma.

O Henrique saberá ainda que os governos são eleitos por nós, e calculo que o menino, apesar de jovem, já elegeu vários, pelo que também contribuiu para o “peditório”.

As “matronas anafadas” que pagam rendas baratas usam a lei que os políticos não ousam mudar, mas o Henrique está em óptima idade para entrar na política e ajudar a resolver esta e outras miudezas da política portuguesa. Tem agora um governo a seu jeito e acho que devia tentar. Assim, poderia fazer leis que pusessem as velhas todas debaixo da ponte e acabar de vez com as reformas desses malandros da geração dos seus pais, cambada de parasitas que estão a viver dos seus descontos e a ocupar as casas que lhe são devidas a si e aos seus amigos.

Tenho estado a partir do princípio que o Henrique saberá uma série de coisas elementares mas há uma que me parece que desconhece completamente – chama-se Solidariedade Geracional, que faz com que os seus pais tenham pago a reforma dos seus avós e com que você pague a dos seus pais. Um dia, se não estragarem tudo até lá, os seus filhos pagarão a sua.

Enquanto o Henrique não aprender que tudo nesta vida é política e não conflito geracional, não será um verdadeiro homenzinho.

Mas olhe, eu acho que o menino não é parvo, e por isso, faz-se. Que diabo, apesar de eu os abominar, a democracia também precisa de políticos de direita.

18 de novembro de 2011

Reflexões inconsistentes

Reflexão inconsistente I: a chuva é minha amiga. Cada vez que decido sair para fazer uma coisa boa, ela diz-me: espera aí que eu vou contigo; é só ir buscar a gabardina.

Depois de ter saído enquanto a chuva foi buscar e gabardina, e ter voltado já com ela nos devidos preparos, passando os olhos pelos jornais, vejo que o João Mota aceitou o lugar do Diogo Infante no Teatro D. Maria.
Os desafios, a crise, todos temos que dar para o peditório e tal e coisa, disse.

Reflexão inconsistente II: Ó Mota, tu desculpa, mas desde quando, para ti, os desafios pessoais são mais importantes do que dizer a um governo estúpido e irracional que o orçamento é uma anedota e que vá pentear macacos? Se calhar desde há muito, eu é que não dei por isso.

A Cristas diz que quer acabar com a bandalheira da incineração de cadáveres de animais e que vai taxar a carne para financiar o novo sistema.

Reflexão inconsistente III: Ó Cristas, apoio as coisinhas bem feitas, mas para onde raio irão os meus impostos se para tudo tenho que pagar taxa?

Reflexão inconsistente IV: Não será melhor desligar o computador e dar descanso a esta pobre cabeça? Ainda para aí me ponho a achar que a cristas anda de mota ou ao mota cresceram cristas. Livra.

Pataniscas com arroz de feijão

Em Lisboa há imensos cafés e restaurantes “de esquina”. Essa localização leva-nos a reparar mais neles de cada vez que atravessamos uma rua. Ontem, passei por um que, na porta, anunciava Pataniscas com Arroz de Feijão.
Pode haver comida mais portuguesa do que essa? E quem resiste a tal pitéu na hora da fome?

Comida barata, ainda por cima - um bocadinho de bacalhau, água da cozedura, farinha, um ovo, um pouco de salsa e já está. Arroz e feijão também sempre foram comida de pobre.

Na minha terra (como noutras, certamente) aprendeu-se a cozinhar e comer com base em ingredientes muito baratos ou até selvagens. Hoje, a sopa de beldroegas ou de cação, os cardos com feijão, as cilarcas, as açordas de poejos ou coentros e as migas são realíssimos pitéus, um verdadeiro património que nos faz “aguar” e de que nos orgulhamos.
Qual nouvelle cuisine, qual carapuça? Migas de espargos com porco frito.

A criatividade gastronómica de cada povo, a sua capacidade para fazer muito ou pouco com o que tem ao seu dispor, diz-me muitíssimo sobre esse mesmo povo, e quer-me parecer que, se actualmente os nossos “manos” europeus desconfiam tanto de nós, é porque nunca comeram pataniscas com arroz de feijão.

17 de novembro de 2011

Não seria o caso de mudarmos de patrões?

Por esse mundo fora, onde trabalham, os portugueses são produtivos.
As multinacionais instaladas em Portugal, empregando portugueses e cumprindo as leis laborais do país, têm bons resultados.
Para a troika e para o governo o problema está sempre no custo do trabalho e na produtividade, ou seja, nos balúrdios de dinheiro que ganhamos para não fazermos nada.
Mudar de governo, não vale a pena; já tentámos várias vezes e cada um é pior que o outro.
E se mudássemos agora de patrões?

É caso para voltar a dizer - Fascismo nunca mais!

"A promoção de Portugal através da imagem ou do som deve ser enquadrada numa visão de política externa e portanto quase que sob a orientação ou em contrato de programa com o Ministério dos Negócios Estrangeiros”, afirmou o economista, que defendeu mesmo que a informação veiculada pelo canal internacional deve ser “filtrada” e “trabalhada” para passar a mensagem de promoção do país. Um tratamento da informação que, acrescentou, “não deve ser questionado”. “A bem da Nação”, rematou.

Estas declarações do fuinha Duque cheiram tanto ao passado nosso conhecido que tresandam. Segundo as suas propostas, o governo fará as notícias para o “exterior” e para o “interior” defende que os portugueses tenham a informação mínima. Tudo nos termos de Salazar – “A bem da Nação”.

Ao pé desta gentinha Paulo Portas é um perigoso esquerdista que até já disse que não quer ter nada a ver com a RTP Internacional.
Isto não é imbecilidade como já vi escrito; é um bando protofascista de cowboys a dar caça à democracia.

Cairão, tenho a certeza. E cairão por dentro porque este não é o PSD de Cavaco, Ferreira Leite, Sá Carneiro e muitos outros que nele votaram toda a vida.
Quanto aos estragos que farão pelo caminho, não sei se serão todos reparáveis.

16 de novembro de 2011

Virão um dia, ou não

“Amá-los (os filhos), disse, não era apenas um deleite, era uma lição sobre vulnerabilidade.”
Ian McEwan,  A Criança no Tempo

Sabemos que, neste início de década do século xxi, há muitos milhares de pessoas a sofrer em Portugal.
Porque perderam o emprego, porque perderam a casa, porque o salário não chega para as despesas ou porque nem sequer chega para alimentar a família. Essa dor passa todos os dias nos telejornais, sempre em jeito de punição para quem ainda lá não chegou, com forte apelo à lágrima ou à caridade cristã. Como se houvesse destino e esse fosse o nosso.

Há, porém, uma enorme dor, sempre bem escondida, e de que ninguém quer falar – a dos pais que vêem os seus filhos emigrar.
Meu pai costumava dizer que a vida dum menino é feita de “tomaras”: tomara que ande, tomara que vá para a escola, tomara que entre na universidade, tomara que seja independente, tomara que case, tomara que me dê netos.

Na década de 1960 a emigração partia das aldeias, com “malas de cartão”, levando na bagagem “uma mão cheia de nada e outra de coisa nenhuma”
Hoje, sai das cidades, de mochila às costas e trolley na mão, levando na bagagem um curso superior. E, mais uma vez, porque é preciso.

Filhos de pais dedicados e presentes que tudo fizeram para que tivessem a formação que dantes assegurava uma vida melhor, (e também de um país inteiro que pagou os seus estudos), partem em bandos para criar riqueza algures, deixando para trás, e sós, uns pais para quem, subitamente, se acabou o “tomara”.

Estes pertencem a uma geração que fez pinos e espargatas para que os seus filhos crescessem harmoniosamente e com pais, e esperavam morrer com filhos. Entretanto, haviam de viver tendo por perto jovens e belas criaturas a quem tinham dado o melhor de si, e em quem se poderiam rever; a velhice chegaria mais devagar com a sua presença, e ainda haveria tempo de gozar a felicidade de ver um neto a crescer.

Não foi apenas mais um sonho roubado, foi o mais simples e belo dos sonhos que lhes foi brutalmente arrancado. E a dor provocada é tão grande, tão muda, mas vivida com tanta coragem, que o desamparo quase nem se nota. Alguns deitam sal na ferida, acrescentando culpa e falhanço pessoal.
Os dias transformam-se, assim, numa sequência sem nexo; termos como alegria ou objectivos saem do vocabulário quotidiano, e o futuro parece já não existir.
Não foram eles que falharam, foi o país inteiro, como bem sabemos.

Sabemos também que os filhos não são nossos, são do mundo, mas todos gostamos de os ter perto. Hoje, milhares de pais da minha geração vivem o seu sonho estilhaçado em completo silêncio.
São corajosos anónimos deste país triste com quem me sinto solidária.

15 de novembro de 2011

Há eleições à vista?

Primeiro foi o Álvaro a anunciar o fim da crise em 2012, agora vem o Cavaco dizer que em 2013 já estaremos competitivos e a crescer.
Não sei se há eleições em breve e eu não dei por isso, se eles acham que somos todos totós ou se andam a tomar coisas esquisitas.

Humor nosso de cada dia

Este país é muito divertido. Nem sei porque é que o pessoal anda tão sorumbático se todos os dias temos um novo sketch humorístico.
Vejamos esta notícia do Público de ontem.

 A Redes Energéticas Nacionais (REN) activou um seguro que está a pagar a defesa de um antigo e de três actuais quadros que estão a ser julgados no processo Face Oculta, casos do ex-presidente da empresa José Penedos e de três funcionários que se mantêm em funções, após terem sido acusados e pronunciados por corrupção.

O mais divertido disto é que a REN é assistente no processo, logo, está do lado da acusação; contudo, como tem um seguro para todos os administradores e responsáveis pelas áreas operacionais da empresa, cobrindo o risco da existência de processos judiciais decorrentes do exercício das suas funções, accionou-o para pagar a… defesa.

Será que a hipotética corrupção é um risco decorrente do exercício de funções? Parece que, para a REN, sim. E para a companhia de seguros, também.

Diz ainda o artigo que a REN “não esconde, contudo, que, se os quatro arguidos forem condenados em tribunal, a companhia de seguros poderá pedir a restituição das verbas pagas.”

Vou tentar adivinhar quem é que, nesse caso, vai alombar com o pagamento.
Mas é tudo legal. Estranho, hilariante, mas legalíssimo.

14 de novembro de 2011

Sangue do Meu Sangue

Nem sei há quantos anos não via um filme português, mas sei que já lá vão muitos. Falta de oportunidade e também de vontade estão na raiz da ausência, coisa que, presumo, acontece com a maioria silenciosa dos portugueses que também lá não põe os pés.

Terá sido esta febre do “compre português”? terá sido a catadupa de prémios? terão sido as críticas laudatórias? Talvez tudo isso junto, e lá fui eu ver o filme.

Posso dizer, sem remorsos, que o filme é bom e eu gostei, mas chamar-lhe obra-prima parece-me tão exagerado como o moderno costume de aplaudir tudo e mais alguma coisa de pé. Ou as primas andam pela rua da amargura, ou as cadeiras são pouco cómodas, ou sentido crítico foi deixado em casa em nome do bem parecer e da paz social.

João Canijo, neste seu filme, consegue meter-nos mesmo no Bairro Padre Cruz e num Portugal que está já ali ao virar da esquina, esquina essa que, preferencialmente, não dobramos. É, no essencial, uma história sobre a força das mulheres na protecção dos mais novos, e a força do seu amor incondicional por eles. Afinal, sobre o melhor de nós – a capacidade de tomarmos conta uns dos outros, pelo menos dentro da família.

O ambiente quase claustrofóbico e sem privacidade que Canijo nos quer transmitir foi captado com grande sucesso, para o qual muito contribui o persistente som dos vizinhos e das televisões sempre ligadas.

Claro que se dispensava o tema do incesto (demasiado fácil) como se dispensavam algumas criativas opções na realização; umas são boas e outras, na minha modesta opinião, completamente falhadas.

A história é servida por muito boas prestações da maioria dos actores, exceptuando aquele cabotino que faz de dr. Alberto cujo nome desconheço.
Resumindo, vale a pena ir ver o filme. Compre português.

11 de novembro de 2011

In memoriam

Estava o século XIX a chegar ao fim quando ele nasceu numa aldeia perdia no meio do Alentejo.
Filho de pobre tinha o destino traçado – trabalho rural, a mando dos senhores da terra, mas só quando o havia; invernos de fome, verões escaldantes à soalheira no meio da seara tornada inferno.

Jovem, levaram-no para a Guerra, a 1ª das grandes, e sempre o recordo sorrindo com sarcasmo quando os noticiários, assinalando a efeméride, glorificavam o comportamento dos portugueses na batalha La Lys. De lá trouxe, para sempre, uns olhos vermelhos e lacrimejantes, e dela lhe ficou o nome que lhe deram na aldeia – João Soldado.

Foi na trincheira que aprendeu a ler, trocando a sua ração de cigarros pela aprendizagem da leitura. Não se pode dizer que lia, mas soletrava com tanto afinco que conseguia dar conta do seu jornal, o Século, de fio a pavio.
E assinava.

A guerra era assunto de que nunca ninguém o ouviu falar, e continuava a não falar mesmo quando, certa vez, um filho exaltado com a ditadura vociferou – isto só lá vai com uma guerra. A resposta veio calma mas firme e de olhos nos olhos – cala-te rapaz que não sabes do que falas. E o”rapaz” calou-se.

Num momento em que a miséria se agudizou, tentou ainda o contrabando, mas só lá foi uma vez; dizia, rindo, que se ia borrando todo de medo.

Um invulgar e apurado sentido de humor permitia-lhe rir, com um riso genuíno e contagiante, de tudo o que de caricato acontecia na vida, sobretudo se lhe acontecesse a ele.

O caminho era, então, só um - partir para a cidade; aí chegado, num rasgo de rural quase analfabeto mas inteligente, pôs os filhos a estudar e dedicou-se a mil e uma actividades, o possível, o que aparecia, o que tentava.

Dia sim, dia não, sobressaltava a família, porque, com ou sem razão, só ele enxergava a oportunidade de vender para comprar.

A sua companheira duma vida, lá ia pondo no papel o dedo com que assinava, frequentemente receosa dos devaneios do seu homem. Mas não era por submissão ao macho que o fazia. Era porque sabia que os olhos dele, vermelhos e lacrimejantes, viam mais longe e mais nítido que os dela, aqueles que a todos encantavam com a cor de céu alentejano em dia de sol e frio.

Homem que jogou sempre limpo e esqueceu as dívidas dos que estavam em dificuldades maiores que as suas, viveu feliz, mas morreu pobre. Não tão pobre como nasceu, mas pobre.

Eu disse que morreu? Bom, acho que não completamente. Pois se ainda pr’aqui estou a falar do meu avô João…

Nota final: em 11 de Novembro de 1918 (faz hoje 93 anos) terminou a 1ª Grande Guerra.