Para aprofundar o que, sumariamente, escrevi em "Murro na mesa" vale a pena ler Daniel Oliveira:
"O que a Fitch fez, e não é o primeiro caso, foi dar um conselho a Portugal. Sendo que Portugal não é seu cliente. E nesse conselho está implícita a ameaça: ou fazem o que os nossos clientes querem ou nós dizemos aos mercados que vocês não vão conseguir pagar, aumentando assim as vossas dificuldades de financiamento e, obviamente, a dificuldade em pagar. O que a Fitch fez não foi uma avaliação externa ao próprio mercado. Foi uma intervenção direta no mercado para determinar as políticas de um Estado. Foi lobby em favor dos seus clientes, usando o instrumento que tem para determinar decisões políticas."
Todo o artigo aqui
31 de março de 2011
Morreu o Ângelo
Era assim que todos falavam de Ângelo de Sousa; era simplesmente o Ângelo.
E o Ângelo era, a meu ver, o maior artista plástico no panorama da arte contemporânea portuguesa.
Apesar de serem as suas pinturas (aparentemente) monocromáticas, cruzadas por linhas rectas estruturantes, que o tornaram mais conhecido, nada lhe foi estranho e tudo dominou com mestria – pintura, desenho, escultura, vídeo, cinema, fotografia.
Figura maior na Arte, era também um homem singular, senhor de um humor ácido mas não isento de ternura para com a vida, o país e os homens. Era generoso e atento aos outros, que perscrutava com olhinhos vivos por trás dos óculos de lentes grossas.
Ao contrário de muitos outros conhecidos e reconhecidos, que desandam quando vislumbram alguém que os conhece porque sempre imaginam que têm alguma coisa para lhes pedir, o Ângelo não era fugidio. O Ângelo não fugia, apenas, quando estava farto, ia embora.
Não éramos amigos, mas entre nós havia empatia e confiança, bens muito raros de encontrar nos tempos modernos.
Dizer que, em tempo de empobrecimento, ficamos todos ainda mais pobres é o mais banal de todos os lugares-comuns, mas é verdadeiro. E é a única maneira que encontro de prestar homenagem ao Artista e ao Homem.
So long, Ângelo.
30 de março de 2011
Murro na mesa
Eles têm estado a empurrar todos os dias um bocadinho. Agora fartaram-se e deram um murro na mesa para nos lembrar quem é que manda.
Título do Público online
Fitch avisa que cortará o rating de Portugal se FMI não intervier
Notícia aqui
Título do Público online
Fitch avisa que cortará o rating de Portugal se FMI não intervier
Notícia aqui
Transparência do monopólio
No caderno de Economia do Expresso de 26 de Março, há duas notícias que ainda não percebi se se complementam ou se contradizem.
Nicolau Santos dedica uma coluna ao “Maravilhoso Mundo da Distribuição” onde se pode ler.
“ Os dois maiores distribuidores (Continente e Pingo Doce) representam mais de 50% do mercado de distribuição, mais do que a soma dos sete seguintes, uma estrutura que não existe em mais nenhum país da União Europeia. Em Espanha, por exemplo, Mercadona e El Corte Inglês têm quotas inferiores a 13%.”
Resultam daqui contratos leoninos com os fornecedores – “um contrato entre as duas partes tem 28 obrigações para os fornecedores (e respetivas penalizações) e apenas 3 para a distribuição; e nos direitos, 12 para a distribuição e 3 para os fornecedores”.
Acresce que, ao criarem as suas próprias marcas, os distribuidores vendem o mesmo produto mais barato, em concorrência desleal com o seu próprio fornecedor que, assim, se vê obrigado a tudo aceitar para escoar o produto.
Umas páginas mais à frente, leio: “Sonae entra no Ranking da Ética “tendo sido distinguida pelo americano Ethisphere Institute pelas suas “práticas de negócios transparentes e iniciativas em benefício da comunidade.”
Ora, sabemos como a transparência para os americanos pode ser, aos nossos olhos, tanto absolutamente cristalina como revestida duma certa opacidade.
Dou de barato que as práticas da Sonae são transparentes mas…serão justas? Serão redistribuidoras da riqueza?
Monopólio (ou quase), é monopólio. Sempre foi como o eucalipto – seca tudo à sua volta.
29 de março de 2011
INDIGNAI-VOS
O pequeno livro INDIGNAI-VOS de Stéphane Hesse, tem vendido como pãezinhos quentes por essa Europa fora. Eu não fui excepção e também comprei um.
Stéphane Hesse tem agora 93 anos, é uma figura muito respeitada em França, foi um dos redatores da Declaração Universal dos Direitos do Homem e integrou a resistência francesa durante a Segunda Guerra Mundial.
Não é um livro, é apenas um pequeno artigo que um (muito) sénior combatente sentiu necessidade de escrever neste momento tão difícil que o mundo atravessa.
Já ninguém escreve assim e o que tem para nos dizer é, basicamente, isso – Indignai-vos, fazendo apelo a que cada um encontre os seus próprios motivos para se indignar e participar, sempre pacificamente, contra o sistema desumano que se foi instalando e contra a perda das conquistas da Europa no pós-guerra, nomeadamente o “estado social”.
E argumenta: “Ousam dizer-nos que o Estado já não consegue suportar os custos destas medidas sociais. Mas como é possível que atualmente não tenha verbas para manter e prolongar estas conquistas, quando a produção de riqueza aumentou consideravelmente desde a Libertação, quando a Europa estava arruinada? Apenas porque o poder do capital, tão combatido pela Resistência, nunca foi tão grande, insolente, egoísta, com servidores próprios até nas maios altas esferas do Estado.”
Nada acrescentando aos debates sobre a evolução do sistema, fica a ideia de que o que se passa é tão escandaloso que mesmo um homem de 93 anos não se acha no direito de ficar calado e nos vem dizer apenas isso – INDIGNAI-VOS!
Indignai-vos
Stéphane Hesse
Ed. Objetiva, 2011
28 de março de 2011
Os políticos portugueses desprezam os portugueses
Depois de uma leitura mais atenta dos jornais no fim de semana sobre o turbilhão político da semana passada, só posso concluir que os nosso políticos, todos sem excepção, nos desprezam.
Sócrates andou durante meses a negociar com Bruxelas, ou Merkel, uma ajuda a Portugal em termos mais favoráveis e mais honrosos do que os que existiram para a Grécia e Irlanda. Estava à beira de o conseguir mas, durante o processo não se limitou a fazer como Mário Soares, que meteu o socialismo na gaveta; Sócrates meteu a democracia na gaveta e fechou-a à chave, não dando contas a ninguém do que andava a fazer.
Cavaco toma posse e faz um discurso de “sobressalto cívico” com implícitos e fortes ataques ao governo, fazendo, na prática, o papel de oposição.
Sócrates fica zangado e deita contas à vida sobre qual seria o momento mais vantajoso para si mesmo para abrir uma crise política. Decide então que o melhor é mandar o Teixeira dos Santos dar a boa notícia do PEC IV para desencadear o processo, sabendo muito bem que ia encurralar o PSD e hostilizar o PR.
Cavaco, patriota, não engole a afronta e decide não mexer um dedo para salvar o acordo de Bruxelas. O PSD, que nada tem de diferente para propor, como já se viu pelas declarações dos dias seguintes, e cujo líder parece ter a coluna vertebral dum caracol (palavras de Miguel Portas, que subscrevo) cai na esparrela, também não engole a afronta, até porque tem umas eleições para ganhar, e deita o governo abaixo. Sócrates parte para Bruxelas demissionários e os queridos mercados fazem a dança da Primavera e da fertilidade.
Cada um deles, Sócrates, PSD e Cavaco, pensou apenas em si próprio, borrifando-se para todos nós. Já nem falo dos partidos à esquerda do PS que, lamentavelmente, parecem ter optado por serem apenas do contra, não apresentando propostas exequíveis no sentido de defender os portugueses destes traficantes da política que, alternadamente, nos governam.
A pergunta é: que fazer? que fazer nas próximas eleições?
Há muito quem defenda o voto em branco; pessoalmente valorizo demais esse direito e dever para o poder usar numa tal situação. Além disso, não se pode convencer 6 ou 7 milhões a votar branco, sempre alguém votará por mim e, se tal, por absurdo, se conseguisse teríamos que perguntar – e depois, o que se segue?
Tenho a certeza que milhões de portugueses se sentem como eu e todos percebemos que este paradigma partidário não nos serve.
Está, portanto, criado o caldinho para o aparecimento de outro ou outros partidos. Poderia ser bom, mas temo que possa ser o contrário. Os portugueses gostam de homens providenciais e não foi por acaso que tivemos Salazar mais de 40 anos. Foi porque a grande massa dos portugueses não se incomodava muito com isso desde que pudesse levar a sua vidinha.
Com a falta de respeito que os partidos democráticos revelam por nós, não me admiraria que o povo achasse que um não-democratico servia muito melhor.
A política à portuguesa dá náuseas.
26 de março de 2011
"Marcha pela Alternativa"
Londres: 400 mil pessoas na rua contra austeridade
Os britânicos saíram hoje às ruas para protestar contra as medidas de austeridade do Governo. Os sindicatos dizem que o número de manifestantes pode chegar ao meio milhão.
Notícia aqui
25 de março de 2011
Blogosfera
Há muita gente inteligente e informada a escrever excelentes textos na blogosfera. Vale a pena desligar a televisão, onde estão os comentadores do costume, e "ouvir" outras vozes, bem mais inspiradoras, como, por exemplo, esta
O pior cego...
Mas ouçamos uma história (outra parábola?):
Um duro homem avança por uma rua
que termina numa floresta como antes na infância
avançava por uma floresta que terminava
numa rua.
Olha para todos os lados mas evita olhar para cima
pois alguém lhe dissera que os humanos
só participam nos acontecimentos
abaixo do nível dos olhos,
e esta expressão – abaixo do nível dos olhos –
torna-se tão forte como a velha expressão
- abaixo, ou acima, do nível do mar.
Gonçalo M. Tavares
Uma Viagem à Índia
Canto I, 36
Ed. Caminho, 2010
24 de março de 2011
23 de março de 2011
Comentar de novo o comentador Sousa Tavares
Lembro-me dos anos 1990, quando eu comprava o Público todos os dias e à 6ª feira (julgo) havia a crónica de Miguel Sousa Tavares. O articulado do seu pensamento e escrita valia todo o jornal do dia.
A crónica que publicou no Expresso do dia 19 de Março é, por sua vez, uma pérola de snobeira, cinismo e pensamento simplista.
É dedicada, toda ela, ao sábado, dia 12, em que passou o tempo agarrado à TV a ver as desgraças do Japão e a comparar isso com a piroseira e possidonice do que por cá se passava.
Fala, embevecido, das empregadas de supermercado japonesas que viu a segurarem as prateleiras “ a defender o seu posto de trabalho”; eu também vi e achei que elas estavam a ver se aquilo passava e se a tralha não lhes caía toda em cima, que é o reflexo humano normal num momento como aquele.
Fala também das maravilhosas criancinhas e seus professores que continuaram a sua labuta pela educação, fazendo o contraponto com os malandros dos professores portugueses, por quem desenvolveu um muito ativo ódio de estimação.
Fica a ideia que, para MST, nesse dia todos devíamos ter ficado em casa a chorar, e talvez a rezar, pelo Japão como, certamente, os japoneses fariam por nós se fosse ao contrário. Devíamos pôr os olhos no Japão e segurar as prateleiras em defesa do posto de trabalho!
Depois, dedica-se à manifestação desse dia que tantos engulhos lhe tem causado. E aquilo é um lençol cheio de ressentimento contra quem se manifestou na rua; talvez seja natural em quem envelhece pardo, sem entusiasmo e longe do engajamento que o caracterizava.
Tudo comenta com um toque de intelectual snob, muito acima da “rua” pífia, e um cinismo que é o pior defeito de qualquer comentador.
É demasiado duro o que digo? Pois afirmo que não é nada, comparado com o que sinto quando o vejo derramar tanto fel sobre o seu país e os seus compatriotas.
Dar-lhe-ia um conselho simples se ele me lesse – emigre, Miguel. Os tempos que aí vêm são só para resistentes e você é um desistente. Além disso já cá temos o Medina Carreira, o original e, logo, não precisamos de cópias de segunda ordem. Por mais letras azedas e de bota-abaixo que alinhe na enorme folha que o Expresso põe à sua disposição nunca deixará de ser uma cópia e, como sabe, as cópias não têm valor de mercado.
22 de março de 2011
Romeu e Julieta
com coreografia de John Cranko (sul-africano). A belíssima música de Prokofiev continua a ser peça fundamental para o entusiasmo que este clássico ainda suscita.
Assisti ao bailado no domingo à tarde, numa das chamadas Tardes Família, e é deveras entusiasmante ver o Teatro Camões cheio de famílias em que estão os avós, os pais e as crianças. Algumas destas são bem pequenas, mas a maneira como se comportam e assistem a todo o espectáculo podia servir de exemplo a alguns adultos. Elas não tossem, não se levantam, não enviam SMS, não falam alto.
Como ontem ouvi a escritora Lídia Jorge dizer na televisão, no programa da RTP2 Câmara Clara”, os portugueses são melhores que Portugal.
Já assisti a espetáculos da CNB verdadeiramente empolgantes, daqueles que nos deixam saciados e orgulhosos da nossa Companhia Nacional.
Este, devo confessar, achei-o apenas mediano. Tendo esta bela coreografia já sido apresentada pela CNB em 2001, a atenção centra-se na interpretação.
O elenco que dançou no domingo não comportava os nomes maiores e, reconheço, é preciso que os outros, sobretudo jovens, também dancem. Contudo, Solange Melo (Julieta) e Miguel Ramalho (Mercucio) pareceram-me apenas competentes e Maxim Clefos (Romeu) pareceu-me apenas suficiente. O desenho de luz, de Cristina Piedade, também não me entusiasmou.
Para a próxima será melhor porque a CNB é uma instituição cultural que nos honra, de que nos podemos orgulhar e que devemos apoiar sempre, mas especialmente em momentos como este em que todos lutamos contra tantas dificuldades.
Nota: imagem retirada do programa editado pela CNB
21 de março de 2011
O Japão e nós
Face ao desastre que o Japão vive, é impossível não reflectir, ao menos por um momento, na precariedade da vida humana. O que agora temos e no minuto seguinte já não temos; como tudo é fugaz, como tudo muda tão depressa, como nada é certo ou seguro, como tudo pode mudar a qualquer momento, inesperadamente e para sempre (Paul Auster escreveu isto, não sei onde)
O pensamento seguinte, fatalmente, será sobre o que cada um de nós faz, diariamente, com a sua vida. E, não, não vou citar o Pessoa, mas vem-me à memória Clarice Lispector
Há Momentos
Há momentos na vida em que sentimos tanto
a falta de alguém que o que mais queremos
é tirar esta pessoa de nossos sonhos
e abraçá-la.
Sonhe com aquilo que você quiser.
Seja o que você quer ser,
porque você possui apenas uma vida
e nela só se tem uma chance
de fazer aquilo que se quer.
Tenha felicidade bastante para fazê-la doce.
Dificuldades para fazê-la forte.
Tristeza para fazê-la humana.
E esperança suficiente para fazê-la feliz.
As pessoas mais felizes
não têm as melhores coisas.
Elas sabem fazer o melhor
das oportunidades que aparecem
em seus caminhos.
A felicidade aparece para aqueles que choram.
Para aqueles que se machucam.
Para aqueles que buscam e tentam sempre.
E para aqueles que reconhecem
a importância das pessoas que passam por suas vidas.
O futuro mais brilhante
é baseado num passado intensamente vivido.
Você só terá sucesso na vida
quando perdoar os erros
e as decepções do passado.
A vida é curta, mas as emoções que podemos deixar
duram uma eternidade.
A vida não é de se brincar
porque um belo dia se morre
19 de março de 2011
18 de março de 2011
Será doença? Será feitio?
Fomos aprendendo que prometem mas não cumprem, conhecendo os tiques de cada um, discernindo as meias-verdades do discurso, as personalidades e carateres.
José Sócrates, porém, ultrapassa tudo e todos os que conheci, e pelas piores razões.
Já ouvimos tanta coisa e o seu contrário ao longo de 6 anos de governo que, eu pessoalmente, já não acredito em nada.
Fartou-se de dizer, uma vez, duas vezes, três vezes – estas são as medidas necessárias e suficientes para ultrapassarmos a crise, para, passado um mês ou dois, vir acrescentar mais medidas às medidas garantindo sempre o “agora é que é”.
Chegámos ao momento Pedro e o Lobo, ou seja, o lobo vem lá e ninguém acredita no Pedro.
Alguém pode acreditar que não foi negociar as novas medidas com a Frau Merkel?
Alguém acredita que está pronto para (ou pode ainda) negociá-las com a oposição?
Alguém acredita que não haverá mais PEC (cujo número já perdi?)
O nosso primeiro-ministro tem mentido tanto que eu já não acredito nunca no que ouço e isso deixa-me tão insegura, mas tão insegura, que começo a achar que o nosso sistema democrático está, ele próprio, inseguro, porque está nas mãos dum mentiroso compulsivo que, às vezes, até parece acreditar nas suas próprias mentiras.
Talvez tenha sido ingénua até agora mas, achar que um primeiro-ministro mente de cada vez que ele abre a boca, juro que nunca me tinha acontecido nos últimos 36 anos.
Isso faz mal à saúde, ao país e à vida democrática.
17 de março de 2011
"O Deus das Moscas"
Quando acabei de ler “O Deus das Moscas” a única interjeição possível foi um prolongado “uffff”. Sofre-se a ler este livro, não só pelo conteúdo mas também porque é extraordinariamente cinematográfico, o que torna a experiência da sua leitura muito vívida.
Um grupo de crianças dum colégio inglês está sozinho numa ilha deserta do Pacífico. Nunca é explicado como lá foram parar, nem isso é importante.
Numa primeira tentativa de organização, é escolhido um (natural) chefe cuja principal preocupação é manter uma fogueira com fumo permanente para que possam ser vistos por algum barco que passe, bem como a construção de abrigos e a definição dos lugares para cada actividade. Bom senso, portanto.
Com o passar dos dias, outro candidato a chefe aparece, com base noutra necessidade – caçar para ter carne, mas também na natural, simples e humana ambição.
O desenrolar de toda a ação que se segue é uma enorme metáfora sobre o ser humano e a luta entre o seu lado luminoso ou sombrio, corajoso ou cobarde, inocente ou malvado, louco ou sensato, inteligente ou tosco, até descer progressivamente ao selvagem irracional, capaz de matar só por matar, numa enorme orgia de primarismo animalesco.
Com base nas grandes questões da sobrevivência, o que William Golding nos traz é uma profunda reflexão sobre a condição humana, a dualidade bem/mal que sempre lhe subjaz, e a fragilidade do verniz civilizacional que estala com demasiada facilidade face à tentação do caos.
Com uma escrita límpida e sem floreados, este é um livro duro de ler e que nos inquieta, porque nos confronta com aquilo que sabemos que somos, mas preferimos esquecer.
Um grande livro.
O Deus das Moscas
William Golding
Ed. D. Quixote, 2008
William Golding nasceu em 1911 no Reino Unido (Cornualha) e morreu em 1993
Recebeu o Prémio Nobel da Literatura em 1983.
Este continua a ser o seu livro mais conhecido.
16 de março de 2011
Estou preocupada
Os administradores da EDP receberam 1,8 milhões de euros em remunerações variáveis em 2010, menos 43% que no ano anterior.
...
Os administradores da eléctrica receberam um total de 3,64 milhões de euros em salários fixos, menos 3% do que em 2009. O CEO da empresa, António Mexia, auferiu 703 mil euros em 2010, exactamente a mesma quantia que no ano anterior
A continuarem assim qualquer dia já estão "à rasca"
Isto cheira mal como...
Cavaco Silva discursou ontem na homenagem aos combatentes do Ultramar (para mim, colónias) e disse coisas magníficas (para mim, terríficas), tais como:
“Importa que os jovens deste tempo se empenhem em missões e causas essenciais ao futuro do país com a mesma coragem, o mesmo desprendimento e a mesma determinação com que os jovens de há 50 anos assumiram a sua participação na guerra do Ultramar».
“Para lá da memória, impõe-se o reconhecimento de todos os que, pela sua acção na defesa de Portugal, sofreram no corpo e na alma o preço do dever cumprido. São merecedores do nosso profundo respeito», sublinhou, saudando também «com especial apreço» os militares de etnia africana que de «forma valorosa» lutaram ao lado dos portugueses”. Notícia aqui
Quem assim fala, mostra, finalmente, o seu pensamento e a sua postura face ao passado recente do país. Já aqui escrevi sobre essa guerra e ficou claro que sobre ela penso exactamente o oposto do Presidente. Não sou a única, tenho a certeza que milhões de portugueses que viveram a guerra colonial pensam como eu e nunca entenderão que havia desprendimento e determinação nos jovens que eram obrigados a combater; nunca entenderemos que se tratava da defesa de Portugal ou de cumprir um dever.
Esse era o discurso justificativo de Salazar e Caetano e não o sentimento do povo português. Angola, Moçambique e Guiné não eram Portugal, eram territórios africanos cujos povos lutavam para se libertarem do país colonizador; por isso também não me parece que os autóctones que lutaram ao lado dos portugueses, e contra o povo a que pertenciam, possam merecer grande apreço.
Não critico que se homenageiem os combatentes, critico os fundamentos da guerra e esta maneira de olhar para ela.
O demagógico discurso da tomada de posse e o discurso de ontem mostram que Cavaco Silva, não jogando já a reeleição, vai agir de acordo com aquilo que verdadeiramente é: um homem da direita ressentida, reacionário, demagogo, passadista, em suma, tudo o que o país não precisa em 2011.
Com o discurso de ontem, mostra também que não pretende ser o presidente de todos os portugueses, já que parece não ter sensibilidade para compreender o melindre de certas afirmações sobre um assunto que ainda está demasiado fresco na memória de toda uma geração.
Subscrever:
Comentários (Atom)







_1.jpg)
_2.png)



