31 de janeiro de 2014

Pergunta retórica



 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
“… mais cedo ou mais tarde, esta mistura explosiva de ignorância e de poder vai rebentar-nos na cara.”
Carl Sagan, “Um Mundo Infestado de Demónios” (escrito em meados da década de 1990).











 
 
 
 
“Todos os direitos das pessoas podem ser referendados”
Hugo Soares, deputado do PSD (JSD), Janeiro 2014

Pergunto retórica: Hugo Soares nasceu, exclusivamente, para dar razão ao Sagan, não foi?
É que não lhe consigo encontrar nenhuma outra utilidade.

30 de janeiro de 2014

A velhice é lixada (com f…)















 
 
 
 
Quando acabei de ler este artigo de Mário Soares no Diário de Notícias fiquei, assim, como dizer… envergonhada.
Nunca fui socialista e, muito menos, soarista, mas, caramba, Soares foi Primeiro-ministro e Presidente da República; não é pai da democracia, longe disso, mas é uma das suas referências.

Fica-se triste quando é tão evidente o declínio dum homem. E ainda mais quando a direita trauliteira está com as garras de fora.

O citado artigo, todo ele construído numa escrita demasiado pobre, quase infantil, não é mais que uma amálgama de lugares-comuns, vacuidades, slogans mal alinhavados, populismo básico, falta de pensamento político e até de incompreensíveis “esquecimentos”.

Dizer que o governo está paralisado é mera escrita automática, e escrever que no tempo de Salazar, na província, as crianças andavam descalças mas não passavam fome só se pode deixar passar se acreditarmos que o velhinho está senil; e eu acredito.

Assim sendo, tenho pena que ninguém “tome conta dele”, e o impeça de continuar a escrever estas pobres e patetas redacções, servidas gratuitamente a quem lhe guarda rancor há quarenta anos.

Suspeito que família e amigos talvez tentem, mas também suspeito que a soberba de Mário Soares só a tumba a levará.

Mesmo assim, não gosto de assistir à queda dum homem.
De nenhum homem.
A velhice é f*#%&@!

29 de janeiro de 2014

Há mais mundo













 
 
 
 “Um pouco mais de sol - eu era brasa”
Mário de Sá-Carneiro, Quási

Imagem: Rússia, São Petersburgo, junto à Fortaleza de São Pedro e São Paulo.
Foto de Alexander Demianchuk/Reuters

28 de janeiro de 2014

Sim, proibir!














 
 
Tenho lido, nos últimos dias, excelentes textos contra as praxes.

A maioria dos seus autores, porém, manifesta-se contra a sua proibição, quer por serem naturalmente contra as proibições e entenderem que elas estimulam o apetite pela coisa proibida, quer por acharem que também é responsabilidade do aluno praxado dizer “não”.

Tudo verdade, democrático e aplicável, quando as coisas ainda não saíram fora do controlo, e se quisermos fingir que ignoramos quão devastador é o ostracismo na vida dum jovem estudante.

Não sendo simpatizante das proibições, e nem as admitindo para as questões da vida privada, parecem-me, contudo, frequentemente necessárias na vida pública; mais − parece-me que elas nos têm ajudado a evoluir civilizacionalmente.

Só para falar da contemporaneidade, vale a pena lembrar que, se a aplicação de penas severas por conduzir com excesso de álcool no sangue não estivesse na lei, se calhar ainda hoje estaríamos a pedir a última bebida “para o caminho”; se a lei não tivesse criminalizado a violência doméstica, o mais certo era estarmos ainda a encolher os ombros e a dizer - “entre marido e mulher, não metas a colher”.

Nenhum dos argumentos aduzidos me fez recuar na ideia que aqui deixei de que só a força proibicionista da lei pode parar esta agressão consentida.
Grandes males, grandes remédios!
Temos pena, mas é assim.

27 de janeiro de 2014

O ovo da serpente


 
 
 
 
 
 
 
 

 
 
 
 
 
O país acordou, subitamente, para o tema “praxes”.

Até aquele homem muito perigoso, que resolve tudo sozinho ou com os seus amigalhaços – desde os programas de matemática até às bolsas de doutoramento − e que dá pelo nome de Nuno Crato, achou que não podia ficar de fora da refrega e continuar a assobiar para o lado.

E que faz este homem muito perigoso que não tem por hábito ouvir ninguém?

Ó céus, vai OUVIR reitores e associações de estudantes.

Findas as audições, já se sabe, cada um voltará para o seu canto, e dará, a seu modo, uso às insígnias da praxe:
- O ministro continuará a usar a tesoura para fazer mais cortes.
- Os praxistas continuarão a brincar com colheres de pau e mocas.
- Os reitores ficam com os penicos (maravilhosas insígnias da insigne academia portuense) visto que se borram de medo quer do ministro, quer dos estudantes praxistas.

Periodicamente voltaremos ao tema, provavelmente quando morrer mais alguém.
E o ovo da serpente continuará, paulatinamente, a crescer entre nós.

24 de janeiro de 2014

Os meus sismos


 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Onde é que você estava na noite de 28 de Fevereiro de 1969?
 
Na minha geração, toda a gente tem resposta para esta pergunta se se lembrar que foi nessa noite que ocorreu o último grande sismo registado em Portugal.

Eu dormia na minha cama de adolescente que, por acaso, estava encostada à parede. Acordei com a parede a abanar mesmo junto à minha cabeça.

Quando percebi o que se passava, e durante aqueles segundos que sempre parecem horas, comecei por sentir a necessidade de fazer alguma coisa, logo depois uma urgência de fazer alguma coisa mas, faltando a electricidade, o corpo acabou por ficar quieto, esperando que a parede lhe caísse em cima, ainda que com uma remota esperança de que tal não viesse a acontecer.

Não aconteceu, mas nessa noite perdi um pouco a inocência, porque percebi a minha vulnerabilidade e a dos que, ao tempo, eram todo o meu suporte de vida.

E a que propósito vem isto?

Vem porque, frequentemente, dou comigo a encontrar semelhanças entre essa já longínqua noite e esta noite em que sinto que entrei há cerca de três anos.

Desta vez não estava a dormir, e cedo comecei a ouvir o ronco da besta.
Cedo surgiu, também, a necessidade de fazer alguma coisa, que se foi transformando, de novo, num sentimento de urgência – era preciso pará-los antes que a devastação fosse irreparável.

Com o tempo, percebi que não havia ninguém para travar o desastre, e voltei a ficar quieta, assistindo, todos os dias, à destruição da minha “casa”, pedra por pedra, meticulosamente.
Ensino público, Serviço Nacional de Saúde, Segurança Social e apoios sociais, Ciência, tudo vai caindo sob o efeito dum sismo político de magnitude pornográfica.

Tal como na noite do sismo de 1969, acabei simplesmente à espera que passe, desejando que dos destroços alguma coisa ainda se possa salvar. Sendo que nada é certo – nem que acabe, nem que haja salvados.

Certa, apenas a enorme vulnerabilidade do meu país às mãos dos mercados sem rosto, dos políticos sem ética, e dum povo sem ânimo – “o melhor povo do mundo”
Se isto não é um sismo…

22 de janeiro de 2014

Sobre a praxe, curto e grosso


 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
“Para um pacifista, o pior mal é a guerra. Para mim, é a agressão. E a agressão, por vezes, tem de ser travada pela força.”

Amos Oz
Entrevista ao Expresso, 23 Novembro 2013

A praxe é uma agressão. Só a força da lei a pode travar.
Proibir, sim. Cortar o mal pela raiz.

 
 
 
 

21 de janeiro de 2014

Injustiças


 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Anda um homem a ser um cabotino supercuidadoso – leva dois anos e meio a dizer malzinho da governança mas só quando é inevitável, e sempre com grande doçura; a dar ensinamentos sobre como governar e como acalmar o povo burro; a justificar o injustificável; a alertar para aquilo que pensa que se vai seguir e, apesar disso tudo, percebe, por interposto discurso, que não é amado.

Aí, Marcelo transtornou, e no passado domingo deu tudo por adquirido − que estamos em velocidade de cruzeiro para a prosperidade, que o céu é o limite, que Passos vai ganhar as próximas eleições, e as outras a seguir, e talvez até fique PM para sempre, e vai escolher um candidato a Presidente da República que não será ele, Marcelo.

O sonho duma vida...pfff!
Quê? Eu a rir do Marcelo? Não estou nada, ora essa!!!

20 de janeiro de 2014

Um post de gaja


 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

Vou já avisando que este é um post de gaja, e quem não gostar de conversa de gaja é melhor não ler.
Não que vá falar de trapos ou da cor do verniz para as unhas dos pés, mas vou falar do par de chavelhos que o Hollande pôs à Valérie.

Os homens que vou lendo apressaram-se (quase) todos a escrever que a vida sexual do presidente francês não lhes interessa.
Logo aí comecei a rir. Garanto que a mim também não me interessa, mas não senti nenhuma necessidade de o deixar escrito.

Contudo, uma boa história de amores canalhas, traições e ataques de nervos sempre interessou toda a gente, ou não se teriam escrito quilómetros de romances desenvolvendo o tema.

Por mim, confesso, as imagens de Hollande de lambreta e capacete a caminho do “ninho” de amor clandestino divertiram-me, e muito.
Ninguém diria que dentro daquele corpo de Zé-ninguém, habita um sedutor e um coração que nem é pinga-amor, antes deve chover-amor.

Ségolène, Valérie, Julie. Um verdadeiro trio maravilha. Todas lindas.

A Ségolène calou-se e foi à sua vida.
A Valérie, imagino que terá pegado nos tacos de golfe e começou a partir as porcelanas chinesas do Eliseu; não houve outro remédio senão mandá-la para o hospital e pô-la a dormir para acalmar.
Quanto à Julie, espero ter tempo de ver como reagirá quando o velhote fizer com ela o mesmo que fez com as outras − trocá-la por um modelo mais recente.

Ora isto sim, deita um pouco de sal e pimenta nos dias da crise europeia.
E se nós estamos necessitados disso.

Já imaginaram, se o Passos Coelho pusesse um capacete, subisse para a lambreta, dissesse à Laura que não ia jantar e fosse visitar… pr’aí a Rita Pereira, por exemplo?
Acho que merecíamos uma história assim, poça, com estes ou outros protagonistas. Com capacete ou com burka. Para variar.

É que, da porcaria de política que fazem já estamos todos mais que fartos.

16 de janeiro de 2014

Felicidade


 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
A felicidade não será o coração desse momento culminante, “essa espécie de eternidade fugidia” (MF) em que o homem se encontra para logo se perder?

In “Felicidade em Albert Camus”
Marcello Duarte Mathias
D. Quixote

MFA Morte Feliz, Albert Camus

Nota: encontrei a imagem aqui reproduzida no Facebook há algum tempo, mas desconheço a sua autoria, o que lamento.
Foi tirada no final da guerra e nela um menino, que julgo austríaco, acaba de receber uns sapatos.
Reproduzo-a por ser tão comovedora e por nela encontrar “essa espécie de eternidade fugidia”, esse momento raro e fugaz de completa felicidade.

Nota 2: segundo informação que me chegou dum amigo através do Facebook, mas  posterior à publicação inicial deste post, trata-se de uma fotografia de Gerald Waller, tirada em 1946 num orfanato austríaco e publicada na revista Life
Já agradeci a informação, mas volto a fazê-lo aqui.



 


 

15 de janeiro de 2014

O futuro de Paulo












 
 
 
 
 
Que será que ele prepara para o seu futuro artístico no pós-espectáculo que está em cena há dois anos e meio?
Eis a pergunta que me coloco ultimamente quando assisto a alguma actuação do artista Paulo Portas.

É natural que o artista suspeite que o seu número já esgotou a atenção do digníssimo público e, como não descura a carreira, certamente lá terá os seus planos de desandar para outros palcos.

Daí que não me tenha admirado com esta notícia do Público do dia 11/01/2014 − Especulação cresce no CDS sobre possível escolha de Paulo Portas para comissário europeu.

Ora aí está um enorme palco que o artista consideraria digno de si, pensei, mas, como se lê na notícia, o próprio achou tal hipótese descabelada, uma vez que se estava a candidatar a presidente do CDS para mais dois anos de mandato.

Logo percebi que o artista tem razão, porque nunca uma tal coisa se viu por aqui – abandonar um lugar para que se foi eleito para ocupar outro para que se foi escolhido. Ora, ora, nunca, nunquinha, jamais!

Além do mais, se é o próprio Paulo Portas que nega uma tal hipótese, então só podemos acreditar; é que, por aqui, todos estamos carecas de saber que o mentiroso é só um − Sócrates.

14 de janeiro de 2014

Merkel já tem um javali













 
 
 
O acidente de frau Merkel, quando praticava esqui numa estância Suíça, provocou alguns sorrisos e algumas piadas, mas poucos repararam, julgo, na notícia mais completa do DN Economia – Esquis de Merkel tinham 25 anos e eram da RDA
“…as mais de duas décadas de uso terão deixado as suas marcas, sobretudo, em materiais como a madeira.”, escreve-se .

O título da notícia e o respectivo desenvolvimento, sabemo-lo hoje, constituem todo um programa e um modo de vida.

Esta aventesma que nos calhau em (pouca) sorte, gere a sua vida, provavelmente a sua casa, e seguramente o continente europeu, como uma dona de casa bronca e avarenta que não hesita em pôr a vida em risco por estar obcecada com a poupança.
O mealheiro é a sua prioridade (suponho que o porquinho já terá virado javali) e, por mais que lhe digam que, quem pode, deve consumir porque isso é bom para todos, ela não se deixa convencer.

Tramado mesmo, é que esta mulher, passados 24 anos sobre o fim da RDA, continua sem conseguir perceber um princípio elementar do sistema capitalista que professou − dinheiro faz dinheiro.

Não será burra, mas lá que tem uma estranha inteligência, isso tem.

13 de janeiro de 2014

Na “Estação Meteorológica”


 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Sinto sempre um misto de euforia e gratidão quando encontro alguém que consegue verbalizar o que apenas pressenti nas catacumbas de mim.

“Pela morte de Eusébio, as televisões subiram a um desses picos já conhecidos e mostraram, mais uma vez, a violência que são capazes de exercer sobre a nossa vergonha. A vergonha, cuja relação com a culpa foi estabelecida pela psicanálise freudiana, é o índice de uma intolerável proximidade de alguém, que é sempre outro, por mais familiar que seja, em relação à intimidade do Eu: é um mal-estar perante o sentimento do Eu mais íntimo. Sentimos vergonha por ouvir os relatos, os comentários e as reportagens dos jornalistas porque há algo em nós que se sente ameaçado, denudado, com tais palavras e atitudes.”

António Guerreiro, Estação Meteorológica, Ípsilon, 10 Janeiro 2014

Imagem: pintura de Anselm Kiefer, pintor alemão nascido em 1945, cujas pinturas, não raro, também provocam mal-estar, mas de sinal contrário.

10 de janeiro de 2014

Aniversário


 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 


Este blogue completa hoje três anos.

Nunca teve uma bonita epígrafe e, sobre ele, apenas escrevi que nascia “porque sim”.

Na verdade ele nasceu em resposta a um dos meus filhos que, depois duma muito aguerrida troca de emails sobre Cristiano Ronaldo (imagine-se), me desafiou a fazer um blogue. Respondi que não, claro, é um velho hábito; que não seria capaz de o “sustentar”, que era uma leitora e não uma escrevinhadora, etc..

Meses mais tarde, porém, aventurei-me.

Passaram três anos e 861 posts. Da experiência, destaco como mais importante a disciplina de pensar sobre o que vai acontecendo, também a disciplina da atenção ao que vai acontecendo, o “encontro” com outros bloggers, o prazer de escrever e, mais recentemente, o prazer de limpar a escrita, isto é, despojá-la do não essencial, o que, por enquanto, é mais um objectivo do que uma realização.

Por aqui vão passando leitores, frequentes ou esporádicos, para sempre desconhecidos.
Haverá outros menos desconhecidos. A todos agradeço a “viagem”, e, sem temer a pieguice, ouso dizer que essas vossas “viagens” me sensibilizam.

Três anos passados, preciso também de deixar aqui um agradecimento especial ao tal filho atrevido que, escrevendo mais e melhor que eu, me lançou o repto em 2011, sem o qual esta minha pequena aventura nunca teria existido.

Tchim, tchim!

9 de janeiro de 2014

Palavras - Cruciante


 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Cruciante – adj. unif. – angustiante, aflitivo, lancinante, mortificante, pungente.

Dicionário de Sinónimos, Porto Editora

Foto Flickr

8 de janeiro de 2014

A fita amarela
















Caros concidadãos, sabeis que raio de coisa é aquela espécie de minhoca gorda e amarela ali em cima na fotografia?
Pois ficai sabendo que é uma passadeira por onde eu devia atravessar a rua.

Explico: esta rua foi todinha asfaltada antes das eleições de Setembro.
Olaré! Ficou cá com uma pinta, toda vestida de preto escuro…
Como adereços, não sei se por falta de tempo ou de dinheiro, foram colocadas no chão umas fitas amarelas, usadas nas obras, antes das definitivas marcações brancas. Até hoje.

Com o passar dos dias e dos meses, estas fitas acabaram por entregar a alma ao criador, como se vê, e salvo seja.

Atravessar a rua de manhã é cena que podia figurar como “evento” no catálogo dum qualquer clube aventura.

Se ouso pôr o pé fora do passeio, para indicar a minha intenção, logo levo com um dedo médio em riste; por trás dos vidros vejo também bocas abertas, com mais ou menos dentes, vociferando contra o raio da cota, para o que lhe havia de dar, lembrar-se de atravessar a rua!
Uff, aguenta coração.

Quantos meses faltam, mesmo, para as eleições autárquicas?
Quarenta e cinco?
Estou tramada!

7 de janeiro de 2014

Do ciberbullying na idade madura



Se há coisa que não nos falta por cá é gente espirituosa.
As redes sociais são o laboratório liceal por excelência para os de espírito testarem a sua grandeza.
Podem postar qualquer parvoíce, ou brincadeira de gosto duvidoso, que logo uma centena de incondicionais sinaliza que gosta.

São coisas lá deles, mas há uma espirituoso mania que sempre me deixa “por cima das azinheiras” – a irresistível tentação de, jocosamente, julgar os outros pelo seu aspecto físico e, dentro dessa acanhada e púbere visão, ir insinuando que, se são assim feios, também serão, certamente, estúpidos e incapazes.

Assumo que não somos, de facto, um povo bonito nem refinado, e que olhar a maioria das nossas figuras públicas, sobretudo as da área política, não me proporciona nenhuma emoção estética, mas a sua falta de beleza não me agride.

O mesmo não posso dizer da falta de elegância e tino dos que, sendo já muito maduros, não desistem de praticar esta espécie de bullying.

6 de janeiro de 2014

A gente


 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Mesmo que se seja do tipo anglo-saxónico e se ache que eles devem sair de casa aos 18 anos, a gente sempre gosta de os saber perto.
Mesmo que as partidas não sejam impostas, a gente sente lonjuras.
Mesmo se é tudo por bem, a gente quer que o estrangeiro se dane.

E a gente pode deixar de gostar de coisas de que sempre gostou − aeroportos, viagens, e dessa entidade abstracta e mítica a que chamamos “lá fora”.
A gente pode, sim, oh! se pode!

3 de janeiro de 2014

Uma coisa boa do ano passado


 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
“Da orquestra, brotava, precisamente agora, o enigmático Leitmotiv: “Não perguntarás.” E parecia-me que, naquela mística sucessão de sons, naquelas duas palavras, eu decifrava a súbita revelação de uma sabedoria oculta e muito antiga. “Não perguntarás.” Não procures o fundo das coisas, ou acabarás por te afundar, também. Não busques a verdade: não a encontrarás e perder-te-ás a ti mesmo. “Não perguntarás.” A porção de verdade que te é útil é-te dada gratuitamente, e chega-te misturada com erro e mentira, mas é para teu bem, uma vez que, em estado puro, te queimaria as entranhas. Não tentes purgar a alma de mentiras, porque com elas, irão muitas outras coisas em que não pensaste, e ficarás vazio de ti mesmo, e de tudo o que tem valor para ti. “Não perguntarás.”

O Doutor Glas
Hjalmar Söderberg (2/7/1869, Estocolmo – 14/10/1941 Copenhaga)
Ed. Relógio D’Água

2 de janeiro de 2014

Apetites




















Ontem decidi que hoje escreveria aqui uma bela redacção onde encaixasse termos como: Ame, Acredite, Sorria, Relaxe, Chore, Faça Amigos, Reze, Sonhe, Perdoe, Viva, Seja Feliz, etc..
Era bonito, não era?
Era pois, mas não me apetece.

Até amanhã.