16 de março de 2011

Isto cheira mal como...

Cavaco Silva discursou ontem na homenagem aos combatentes do Ultramar (para mim, colónias) e disse coisas magníficas (para mim, terríficas), tais como:

“Importa que os jovens deste tempo se empenhem em missões e causas essenciais ao futuro do país com a mesma coragem, o mesmo desprendimento e a mesma determinação com que os jovens de há 50 anos assumiram a sua participação na guerra do Ultramar».
“Para lá da memória, impõe-se o reconhecimento de todos os que, pela sua acção na defesa de Portugal, sofreram no corpo e na alma o preço do dever cumprido. São merecedores do nosso profundo respeito», sublinhou, saudando também «com especial apreço» os militares de etnia africana que de «forma valorosa» lutaram ao lado dos portugueses”. Notícia aqui
Quem assim fala, mostra, finalmente, o seu pensamento e a sua postura face ao passado recente do país. Já aqui escrevi sobre essa guerra e ficou claro que sobre ela penso exactamente o oposto do Presidente. Não sou a única, tenho a certeza que milhões de portugueses que viveram a guerra colonial pensam como eu e nunca entenderão que havia desprendimento e determinação nos jovens que eram obrigados a combater; nunca entenderemos que se tratava da defesa de Portugal ou de cumprir um dever.
Esse era o discurso justificativo de Salazar e Caetano e não o sentimento do povo português. Angola, Moçambique e Guiné não eram Portugal, eram territórios africanos cujos povos lutavam para se libertarem do país colonizador; por isso também não me parece que os autóctones que lutaram ao lado dos portugueses, e contra o povo a que pertenciam, possam merecer grande apreço.
Não critico que se homenageiem os combatentes, critico os fundamentos da guerra e esta maneira de olhar para ela.
O demagógico discurso da tomada de posse e o discurso de ontem mostram que Cavaco Silva, não jogando já a reeleição, vai agir de acordo com aquilo que verdadeiramente é: um homem da direita ressentida, reacionário, demagogo, passadista, em suma, tudo o que o país não precisa em 2011.
Com o discurso de ontem, mostra também que não pretende ser o presidente de todos os portugueses, já que parece não ter sensibilidade para compreender o melindre de certas afirmações sobre um assunto que ainda está demasiado fresco na memória de toda uma geração.

15 de março de 2011

Realidade surreal (continuação)

Capítulo II
A campanha “Direito à Alimentação”, apadrinhada há 3 meses por Cavaco Silva, para que os restaurantes possam doar as refeições que lhes sobram, está ainda só no papel.
Motivo: o doador pode doar, mas tem que pagar o IVA da refeição ao Estado.
Procura-se afanosamente um “regime de excepção” que parece estar prometido de viva voz mas não ainda comprometido no papel. E já lá vão 3 meses.
Cuidado com o que damos; podemos estar sujeitos a IVA.

Capítulo III
Um grupo de amigos de Carlos Castro já entregou na Câmara de Lisboa uma proposta para que seja dado o seu nome a uma rua da cidade. Porquê? Se calhar porque escrever crónicas de má-língua e morrer de morte matada é sinal de ter prestado relevantes serviços à cidade.
Este grau zero do discernimento é subscrito, entre outros, por Filipe La Féria, Vítor de Sousa, Eládio Clímaco, João Rolo e João Baião.

14 de março de 2011

Ainda o comentador

É justo dizer que, no Expresso de sábado passado (dia 12), Miguel Sousa Tavares pediu desculpa aos leitores pelos erros dos seus comentários, na SIC, no dia 7 de Março, a propósito da agendada manifestação de dia 12 de Março
Ora, sabe-se que MST é mais visto na SIC, onde teceu os comentários, do que lido no Expresso, e que o público não é exactamente o mesmo.
Porém, hoje, no telejornal, nada o ouvi dizer.
Admito que me tenha escapado!

Realidade surreal

O cidadão precisa de tirar o passaporte e, para o efeito, dirige-se ao Governo Civil.
Leva consigo, e apresenta, um Cartão de Cidadão que tem a tenra idade de 7 meses.
No computador da funcionária aparecem os dados que constam no CC e é dito ao cidadão: verifique se os dados estão todos correctos para, de seguida, assinar um documento a dizer isso mesmo – que estão correctos.
O cidadão olha e diz: não estão correctos porque aqui ainda diz que eu sou solteiro e eu, entretanto, casei.
Diz a funcionária:
 - Isso não tem grande importância porque no passaporte não consta o estado civil.
 - Mas então a senhora quer que eu assine um documento a dizer que estão correctos dados que o não estão?
O assunto sai do balcão e passa às chefias. Vários telefonemas depois, inclusive para a Conservatória do Registo Civil do local de nascimento do cidadão, conclui-se que, na certidão de nascimento está averbado o casamento, mas que só é possível alterar os dados do CC…tirando um novo.
Sete meses depois, o cidadão volta ao local onde gastou várias horas do seu tempo produtivo para começar tudo de novo.
Não é Kafka nem Ionesco, é Simplex à portuguesa.

12 de março de 2011

Rifca Stanescu

Rifca Stanescu tem apenas 25 anos mas é uma mãe adolescente e avó de um menino de dois anos.
"Estou contente por ser avó, mas desejava algo diferente para a Maria. E algo diferente também para mim", disse a jovem romena em entrevista ao jornal britânico "The Sun".
Rifca tem agora 25 anos e é a avó orgulhosa de Ion, com dois. Para contar fica uma história de amor que remonta aos seus onze anos, quando desafiou a família para casar com Ionel. "Queria casar com ele portanto dormi com ele uma vez, sabendo que assim já ninguém nos podia separar. Estava prometida a outro rapaz desde os meus dois anos, mas não queria viver com ele", conta Rifca.
 "Não impedi a minha filha de o fazer porque na tradição cigana casar cedo é normal".
Rifca Stanescu tinha 12 anos quando teve Maria, que deu à luz  Ion aos
Notícia tirada daqui

11 de março de 2011

Programa PSD

As linhas mestras do programa de governo do PSD saem agora em livro.
Foi feito com o contributo de gestores, empresários e banqueiros.
Ainda não ouvi falar na participação de associações cívicas ou estudantis, universidades, sindicatos, Igreja ou ONG.
Temo que esteja tudo dito. Temo o que vem por aí. Temo um país pensado apenas por gestores, empresários e banqueiros.

Manifestação

Amanhã, 12 de Março de 2011, será, provavelmente, para muitos milhares (espero) de jovens portugueses, a primeira experiência de participação coletiva (se descontarmos as celebrações futebolísticas), num grande encontro, por um mesmo objectivo.
Esta manifestação, malgrado o seu cariz quase romântico, não está isenta de perigos.
Apesar de muitas pessoas acharem que os sindicatos atrapalham mais do que ajudam, eles, bem como os partidos e outras organizações, são fundamentais para o sucesso das manifestações. São eles que organizam as pessoas, as palavras de ordem, expulsam arruaceiros aproveitadores e ensinam a não responder às provocações que podem gerar confrontos. Amanhã os jovens estão, aparentemente, por sua conta e risco. É um bom começo, e dele se tirarão muitas e variadas lições.
Como disse Villaverde Cabral (lamento mas já não sei onde li isto), “é mais fácil lutar contra a ditadura do que contra a ditamole”, contudo, quem aqui escreveu no dia 9 de Fevereiro, “organizem-se” só pode desejar que tudo corra sem incidentes e que sejam muitos milhares.



Já o sabíamos, mas havia quem duvidasse - afinal, a geração à rasca, desenrasca-se.

10 de março de 2011

Homens da Luta

Há anos que não via o Festival da Canção mas, este ano, fui ouvindo. Não vou, sequer, usar adjetivos. O festival teve os seus tempos de glória antes do 25 de Abril mas, hoje em dia, não passa da apoteose da dissonância mal-amanhada. Em termos europeus, tornou-se uma festa de adolescentes retardados em que vizinhos fazem declarações de amor aos vizinhos, sobretudo os europeus de leste. Chega a ser patético de tão despudorado.
A canção que ganhou este ano, e que tanta celeuma está a levantar, não sei se voluntária ou involuntariamente não podia representar melhor aquilo que hoje em dia domina o país – mau gosto, mediocridade, alarvidade, mas também um grande desejo de contestar.
A canção apenas é tão má como todas as outras, mas o voto do público foi político.
Espanta-me, porém, que alguns intelectuais estejam tão incomodados e possam até dizer, como ouvi Miguel Sousa Tavares na SIC, que não se percebe como se vai cantar esta canção para uma plateia de alemães de cujo dinheiro precisamos. É verdade que precisamos, mas também é bom ir sempre recordando que a Alemanha já precisou muito do dinheiro dos outros pelo menos em duas ocasiões – para se levantar dos escombros da 2ª Guerra Mundial e para fazer a sua reunificação.
Ora, se já custa um bocado ver Sócrates ir ao beija-mão da Merkel, que não representa a Europa mas manda na Europa, a mim custa-me ainda mais ver e ouvir alguns intelectuais, que se gabam de ser espíritos livres e democráticos, achando que nos temos de autocensurar diante dos alemães. Isso sim, é coisa que até dá pele de galinha.
No fundo, no fundo, toda a gente acha que a contestação a sério pode estar aí a chegar e há muitos que, só de pensar nisso, tremem de medo.
Estão bem na vida, acham que o país está mal, não gostam de pagar tantos impostos mas gostam ainda menos da perspectiva de o “povo sair à rua num dia assim”.
Estou convencida que nada de sério ou grave vai acontecer mas, que eles estão com medo, lá isso estão. E, se a subserviência é sempre uma coisa muito triste de se ver, vinda de quem se "vende" como livre e independente é, não só triste, como confrangedora.

9 de março de 2011

O discurso do Sr. Presidente

O Presidente disse que está na hora de termos um sobressalto cívico e eu fiquei logo sobressaltada com isso, apesar de o sobressalto já ser o meu estado natural cada vez que começa o telejornal. Deve passar a estado permanente, Sr. Presidente?
Porque é que o senhor não se sobressaltou nos últimos 5 anos?
Como é que nos sobressaltamos? Votamos PSD? Vamos todos para a rua? Vamos ser homens da luta? A luta é alegria ou o sobressalto é para ser à pancada?
Disse tudo o que nós “cá fora” dizemos há muito tempo mas, porque é que me parece que, usando as mesmas palavras, não estamos a falar das mesmas coisas?
Estou confusa!

Blogando



Quem não anda na blogosfera livra-se do mau e do péssimo, mas também perde a imaginação excelente

Foi ontem, mas é sempre tempo



Michelle Bachelet, ex-presidente do Chile e agora à frente da primeira Comissão da ONU para as Mulheres, saúda o centenário do Dia Internacional da Mulher

8 de março de 2011

Presidente Cavaco Silva

Amanhã Cavaco Silva toma posse, para o seu segundo mandato, como Presidente da República.
Não gosto dele. Nunca gostei. Nem como ministro das Finanças, nem como Primeiro-Ministro, nem como Presidente da República.
Sempre achei que ele representa a nossa parte mais provinciana, calculista e retrógrada.
Os seus tabus dão-me arrepios na espinha, a sua prudência com as palavras soa-me a falta de alma e ideias, o seu ar paternal faz-me virar adolescente desbocada.
Quando o vi levar um ralhete sem resposta do execrável presidente checo, tive vergonha.
Quando o vi de braço dado com Jardim, que lhe chamava sr. Silva, senti repulsa.
Ele está “entre nós” há mais de 20 anos, sempre a querer dizer-nos que não é político e que até está acima dessas “porcarias” que dão pelo nome de Política.
Também foi ele o pai do “monstro” que, anos mais tarde, veio denunciar, qual virgem ofendida.
Tem dito, repetidas vezes, que a despesa do Estado tem que baixar e que gastamos acima das nossas possibilidades. Seria de esperar que, com tais preocupações e com hábitos de pobre professor casado com pobre professora de mísera reforma, tomasse muito cuidadinho com os gastos da sua Presidência.
Ao que parece, será poupado lá em casa mas, com o dinheiro do Estado faz como todos os outros – é fartar, vilanagem.
Segundo o DN tem 500 pessoas a trabalhar para si e “para o primeiro ano deste segundo mandato de Cavaco Silva estão disponíveis 16 milhões de euros. Em 1976, havia apenas 99 mil euros para gastar. Mesmo sem contar com a inflação, em democracia, as despesas de Belém têm subido 18% por ano.”
As despesas crescem 18% ao ano, mesmo quando os ordenados dos funcionários públicos descem e, a bem ou a mal, (quase) todos os portugueses apertam o cinto.
Não sou miserabilista e gosto que o Estado democrático seja dignamente representado, com tudo o que for necessário para que tal aconteça mas, 500 pessoas? 16 milhões neste ano da desgraça? Mais um PURO, digo eu.
Contudo, quer eu goste, quer não goste, ele vai ser o meu presidente durante os próximos 5 anos.

7 de março de 2011

Comentadores

Já hoje aqui escrevi sobre as confusões de Mário Soares. Acontece que, no telejornal da SIC, Miguel Sousa Tavares comentou o mesmo assunto nos mesmos termos. Voltei a achar que eu é que estava enganada, voltei a ler tudo e voltei ao princípio. Os nossos comentadores estão preguiçosos e não lêem os documentos, ou tentam a desinformação?
Vou pela primeira hipótese. Hoje, Miguel Sousa Tavares até falou na necessidade de o Conselho de Segurança da ONU convencer A UNIÃO SOVIÉTICA a não vetar qualquer coisa. Uma pessoa pasma! Mas isso não deixou de existir há mais de 20 anos?
Ficamos com a ideia que, também eles, só pensam em ganhar uns trocos e despachar o serviço.

O 12 de Março inquieta muito, não é?

Tenho uma muito estranha relação com as crónicas de Vasco Pulido Valente no Público.
Eu, confesso, tenho medo dele. Quero dizer, VPV é tão pessimista, mas tão pessimista que eu, depois de o ler, penso que gostava de ser urso para hibernar.
Assim, começo por olhar de través para o título da crónica; se acho que me posso aventurar, fecho um olho e começo a ler só com o outro. Por vezes desisto, ou melhor, fujo, outras vezes acho que posso abrir o olho fechado e ler com mais comodidade. Foi o que aconteceu com a crónica de 6ª feira, dia 4 de Março.
Discordando profundamente, e com boa argumentação, da opinião de Mário Soares, de quem se confessa admirador, sobre a manifestação de jovens no dia 12 de Março, acabou por suscitar a minha curiosidade para ler o artigo de Mário Soares no DN.  A certa altura escreve:
“E agora pude, finalmente, ler um blogue que circula inspirado na canção - ou melhor, aproveitando-a - para convocar para o próximo dia 12 de Março uma manifestação de protesto, que querem tenha um milhão de participantes - imagine-se! - contra a política, os políticos, os partidos, sem excepção, o Parlamento, o Governo, a justiça, a economia, as finanças, etc.. Sem indicar qualquer alternativa relativamente ao que querem. Que objectivo move os autores deste blogue? E haverá outros? Querem alguma coisa mais do que o caos? Não se trata de anarquistas. Nem, muito menos ainda, de marxistas, nem sequer de islâmicos radicais. Serão movidos tão-só pelo desespero? Tratando-se de desempregados e de precários, pode-se talvez compreender. Mas não, seguramente, apoiar. Porque são perigosos, antidemocratas, niilistas. Parece que esperam que alguém lhes indique um caminho. Mas qual e quem? A isso respondo: não, muito obrigado! Já tivemos disso 48 longos anos e não queremos mais...
Pensei que eu é que não estava a ver bem o assunto e fui procurar o Protesto da "Geração à Rasca”. Encontrei, para além do Manifesto, isto:
“Reafirmamos a total independência do protesto face a qualquer estrutura ou movimento de cariz partidário, político ou ideológico.
Este é um protesto: Apartidário, aberto a todos os partidos e a quem não tem preferência partidária; Laico, aberto a todas as religiões e a quem não tem religião; e Pacífico!
Nunca foi enviada qualquer lista de reivindicações. O manifesto é o único documento associado ao protesto.
Não protestamos pela demissão de nenhum político ou governo.
Queremos reforçar a democracia participativa e nunca o seu contrário!

É uma fatalidade – envelhecemos e há coisas nas gerações mais novas que não percebemos mesmo, porque têm outra experiência de vida, outros códigos. Aceitar isso é sinal de lucidez, continuar a opinar sem ter percebido patavina e com a formatação mental de quem nasceu no princípio do século passado ainda activada, é senilidade.
O Dr. Mário Soares, na sua ligeireza, trocou tudo,  deixou-se enganar por uma coisa parasita que anda aí na internet a pedir um milhão na avenida, e que se limita a ser contra tudo e todos, confundindo-a com os propósitos da concentração de dia 12 de Março.
Acho que alguém devia ajudar o Dr. Mário Soares a acabar o seu “reinado” com dignidade, nem que fosse fazendo uma boa revisão do que ele escreve.

6 de março de 2011

Ele avisou...

O "menino guerreiro" avisou cedo que "ia andar por aí".
Ora aí está ele, opinando na TVI e quase, quase a anunciar a criação de um novo partido.
Finalmente, uma boa notícia!
Vai ser sempre Carnaval, e a direita divide-se, nem que seja um bocadinho só.
Valha-nos Sant'Ana.

5 de março de 2011

Só para olhar



Escultura de Isa Genzken (Alemanha)
Rose, 1997. Aço inoxidável, verniz, altura 8 m.Instalação permanente no recinto da feira industrial de Leipzig.
Retirado de: Arte Actual, TASCHEN

4 de março de 2011

A velha história do mexilhão


No dia 16 de Janeiro escrevi aqui que, aos poucos e como se não fosse nada muito importante, íamos ouvindo falar do aumento do preço dos alimentos. Terminava com uma nota optimista dizendo “A verdadeira boa notícia disto tudo é que o preço dos alimentos sobe, sobretudo, porque há mais gente no mundo que COME TODOS OS DIAS.”
Era verdade, mas não era a única razão. As secas, fogos, inundações (alterações climáticas, talvez) verificadas em vários países que são grandes produtores sobretudo de cereais, eram também causas importante. Mais procura, menor oferta, e as leis do mercado em funcionamento.
Foi esta escalada de preços que esteve na origem, e deu forte impulso, às grandes manifestações na Tunísia e no Egipto, manifestações que acabaram a derrubar regimes e a contaminar outros países árabes, como a Líbia, grande produtor de petróleo. Assim, com a incerteza, o petróleo aumenta de preço e os alimentos aumentam ainda mais, por causa do petróleo. Estamos, portanto, em roda livre. Tudo tem que ver com tudo.
A minha nota optimista de Janeiro continua a justificar-se, mas apenas em parte. É que, segundo li aqui " O Banco Mundial alertou hoje que a escalada nos preços dos produtos alimentares atiraram mais 44 milhões de pessoas para uma situação de “pobreza extrema”.
É a velha história – são sempre os mais pobres dos pobres que pagam os efeitos das intempéries, da especulação e da ganância, ou, usando a provérbio imortalizado pelo nosso querido José Cardoso Pires em Dinossauro Excelentíssimo, confirma-se que “quando o mar bate na rocha, quem se lixa é o mexilhão” - “esse marisco mais que todos humilde, só tripa e casca”

Nota: a minha edição de Dinossauro Excelentíssimo é de 1973, editora Arcádia, e custou 120$00 . Levei tempo a poupar para o comprar mas, na altura, não tinha importância, porque os livros mantinham-se nos escaparates das livrarias bem mais do que 3 ou 4 semanas como hoje acontece.

3 de março de 2011

Os puros


No verão de 2009, Manuela Ferreira Leite perdeu as maneiras de senhora de 70 anos, bem-educada e social-democrata, e, com elas, a elegância da linguagem na política. Adoptou o vernáculo e disse repetidas vezes – “o governo mente, José Sócrates mente”, desfazendo-se definitivamente  do tradicional “não fala verdade”.
Desde então, esta glosa parece ter virado hino nacional em época de um qualquer campeonato, e toda a gente grita “ o governo mente, o governo mentiu”.
Pensaríamos que quem faz parte do coro não devia ter telhados de vidro mas, como sabemos, e isso sabemos mesmo, tudo nesta vida é incerto.
O nosso mais querido e dinâmico comerciante, Alexandre Soares dos Santos, dono do Pingo Doce, veio há dias, qual solista do coro, dizer com voz grossa que “o governo mentiu aos portugueses sobre a real situação do país”.
Já sabíamos. Só não sabíamos que também ele, mas com subtileza, mente aos portugueses através da televisão.
A sua empresa gastou em publicidade durante o ano de 2010, €98,6 milhões para nos dizer que os preços lá são sempre baixos e que, apesar de o IVA subir 2 pontos, estes não seriam repercutidos nos preços pagos pelo consumidor.
Incautos, pensámos que o gesto do empresário merecia aplauso e que seria ele a suportar os novos custos.
Veio agora a saber-se que, de facto, o consumidor não paga o aumento do IVA no Pingo Doce, mas Alexandre Soares dos Santos também não.
Quem paga? Os fornecedores, muitos deles pequenos produtores.
Simultaneamente, também ficámos a saber que a empresa de Alexandre Soares dos Santos foi uma das que distribuiu dividendos antecipadamente para fugir às novas regras de tributação de 2011, ao contrário de muitas outras que não dão nas vistas porque os seus proprietários não se transformaram em pop-stars do mercado à portuguesa, sempre com um microfone e uma câmara apontados e prontinhos para que debitem o que lhes aprouver.
São assim os puros do sistema que falam muito em ética e abominam mentirosos.

2 de março de 2011

Hollywood e as suas idiossincrasias


De todos os filmes nomeados para os Óscares, apenas vi “O Discurso do Rei” e, confesso, gostei.
Se Colin Firth merecia o Óscar de melhor actor não posso avaliar, porque não vi os outros. Gostei daquele rei que ele compôs - bem-apessoado, contido, angustiado e gago. Justo será dizer que talvez a sua interpretação não tivesse o mesmo brilho se não tivesse a excelente réplica de Geoffrey Rush.
“O Discurso do Rei” ganhou e eu fiquei a pensar na enorme e comovente ternura que Hollywood demonstra por todas as deficiências. Assim de repente lembro-me de:

"Rain Man", 1988 (melhor filme)
Dustin Hoffman (melhor actor, no papel dum autista)

"Filhos de Um Deus Menor", 1987 (melhor filme)
Marlee Matlin (melhor actriz, no papel de surda)

"Forrest Gump", 1995 (melhor filme)
Tom Hanks (melhor actor, no papel de retardado mental)

"Uma Mente Brilhante", 2002 (melhor filme)
Russell Crowe (não ganhou, no papel de esquizofrénico, se calhar porque tinha ganho no ano anterior com “Gladiador”)

Este ano aí está:
“O Discurso do Rei” (melhor filme)
Colin Firth (melhor actor, no papel de gago).
Para além desta imensa e pungente tendência para acarinhar a deficiência, parece que, em Hollywood, se um actor ou actriz conseguir compor bem o “boneco” dum surdo, retardado, autista, esquizofrénico ou gago, tem o Óscar, garantidamente, na palminha da mão.

1 de março de 2011

Expresso light?



O semanário Expresso tem nova direcção encabeçada por Ricardo Costa.
É normal que cada novo director tenha o direito de escolher, além da sua equipa, também os seus cronistas. Uns saem e outros entram.
Inês Pedrosa foi uma das que saiu da revista Única. Não sendo uma fã incondicional das suas opiniões ou dos seus romances, foi um prazer vê-la crescer como cronista, semana após semana. Foi substituída não por um, mas por dois novos cronistas – Nuno Markl e Guta Moura Guedes.
Poder-se-ia pensar que o leitor ganharia com este inusitado “sai um, entram dois”, mas, pela amostra da primeira semana, não estou confiante; aquilo é muito, muito light e ambos escreveram crónicas fraquinhas, tão fraquinhas que até dói.
Inês Pedrosa, como todos os cronistas, tem temas de eleição, entre eles a situação das mulheres e a violência doméstica.
Ora, estes temas, como já aqui escrevi, não são modernaços nem sexy, e palpita-me que o jovem (?) Ricardo Costa não os deve apreciar.
Eu, ao contrário, gosto que eles não sejam esquecidos, e sempre digo que sou feminista.
Contudo, o meu feminismo apenas se alicerça no desejo dum mundo com direitos e deveres iguais para ambos os géneros, e nunca no domínio de um pelo outro.
Vem isto a propósito do que diz Maria Filomena Mónica, senhora com uma costela estrangeirada e outra medina-carreirada, para quem nada está bem, o país é uma “bosta”,  e que também passará a ter uma crónica (julgo que mensal) no Expresso.
Ela é uma das várias pessoas a quem é pedido, na revista Única desta semana, que antecipe o ano de 2049.
Depois de tecer várias considerações sobre o cromossoma Y termina dizendo (e transcrevo):
Em 2049 os homens ainda se passearão pela superfície da terra, mas já bastante debilitados. O mundo do século XXI, e por aí fora, pertence ao cromossoma X, ou seja, às mulheres, ironiza. E termina com uma frase-bomba. “ O cromossoma Y não tem mais do que o que merece.”.
Se eu dissesse à MFM que sou feminista, ela fugiria de mim como da peste.
Contudo, esta senhora, que não é feminista, odeia os homens e eu, que o sou, adoro-os.
Pai, marido, filhos, irmão, amigos homens, ADORO-VOS e peço-vos encarecidamente que não deixem definhar o cromossoma Y, apesar das suas sabidas fragilidades.
Nem quero imaginar o que seria um mundo repleto de Marias, Filomenas ou Mónicas!