15 de novembro de 2013

Foi só uma lembrança


 

 
 
 
 
 
 
 
 
 
Senhor presidente Costa dá licença? Desculpe o incómodo.

Talvez tenha lido este meu postzinho, e se não leu não sabe o que perdeu, sobre as suas louváveis diligências, antes das eleições de Setembro, para informar os lisboetas sobre buracos que não eram da sua competência.
Eu até mostrei, na foto ali de cima, os adizeres que vexa mandou pôr para a gente saber que o Metropolitano de Lisboa é que tinha a responsabilidade.

 
Acontece que já choveu e ventou de novo, vexa já foi eleito e bem eleito, e agora os adizeres voaram e tornaram-se lixo. Ainda por cima caíram todos de borco e já não se consegue ler nada. A “paisagem” ficou assim:

 

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

 

 















 
 
 
 
 
Eu, confesso, estou muito entusiasmada porque, se chover mais um bocadinho, não será preciso muito mais tempo para estarmos ali sentados à espera do autocarro e a ver lá em baixo quantos minutos faltam para a chegada do próximo comboio. Fixe, não é?

Agora a porcaria dos seus papelões é que não está com nada, de tão inúteis que se tornaram.
Não quer ponderar a hipótese de os mandar remover? Foi só uma lembrança minha… e se incomodei, desculpe, mas é que tenho a mania que a via também é minha.

14 de novembro de 2013

Palavras – Plúmbeo


 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Plúmbeo - cinzento, carregado, opressivo, pesado, sombrio, sufocante.

Dicionário Houaiss de sinónimos e antónimos

13 de novembro de 2013

Um canalha convicto


 

 
 
 
 
 
 
 
 
 
Esta notícia quase passou despercebida, mas dizia coisas assim:

O presidente do Conselho Europeu, Herman Van Rompuy, elogiou hoje as reformas aplicadas em Portugal, Espanha e Irlanda…, e defendeu a necessidade de os Estados "do norte" seguirem este caminho.

…descreveu como um "êxito" as medidas adotadas na UE que permitiram ultrapassar "o risco existencial" que chegou a afetar a zona euro.

"A história dará conta do importante papel que a chanceler Angela Merkel e outros tiveram" nesta fase, realçou.

Depois de salientar a "solidariedade sem precedentes" entre os parceiros europeus durante esta crise…

Será que bebe? Pensei. Ou será antes alguma coisa que fuma?
Talvez beba, talvez fume, talvez quando acorda ponha os óculos ao contrário.

Ou talvez seja, tão-somente, um canalha convicto.

12 de novembro de 2013

Viver do lado de cá


 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
A 26 de Dezembro de 2004, um descomunal tsunami varreu a costa de vários países do sul da Ásia. Alguns desses locais eram estâncias de turismo onde muitos ocidentais passavam férias de Natal munidos de câmaras fotográfica e iphones; e falavam inglês.

Através dos seus registos de imagens e palavras, tivemos horas de reportagens televisivas, onde quase podíamos tocar o pânico, a dor, a perda e também o heroísmo.

Em Agosto de 2005, o furacão Katrina destruiu boa parte da cidade de New Orleans. Era a América nas suas imensas contradições. As televisões assentaram arraiais e forneceram centenas de horas de reportagem sobre o pânico, a dor, a perda e também o heroísmo. Todos falavam inglês.

Há poucos dias, o tufão Haiyan levou literalmente consigo a vida de milhares de filipinos – uns porque morreram, e outros porque ficaram sem passado.

As televisões mostram algumas imagens nos telejornais, entre declarações de treinadores de futebol, declarações de Rui Machete, e outros desastres.

Aqueles filipinos são todos pobres, e não falam inglês.
O pânico, a dor, a perda e o heroísmo também lá estão, mas por baixo da pele ou atrás das pálpebras.
Teremos que os adivinhar, se quisermos. Geralmente não queremos.

Neste caso, teríamos também que falar a sério de alterações climáticas e, geralmente, também não queremos.
Porque vivemos do lado de cá da vida e, se necessário, até falamos inglês.

 

 

11 de novembro de 2013

A estrela




 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
O PCP está a comemorar o centenário do nascimento de Álvaro Cunhal, e faz muito bem. Além de ter sido seu líder, Cunhal foi uma figura incontornável do século XX português.

Entre várias efemérides, contou-se, ontem, um comício no Campo Pequeno, em Lisboa, antecedido dum desfile.
Mas não foi um desfile comum. Veja-se aqui como foi programado:

O comício tem início marcado para as 15 horas, mas as celebrações começam antes, nas ruas em redor do Campo Pequeno. Às 13h45 arrancam para o local do comício quatro desfiles, que prometem dar a estas comemorações uma vibrante expressão de rua: quem venha dos distritos de Lisboa, Leiria e Santarém concentra-se em Entrecampos; os oriundos dos concelhos da Península de Setúbal partem da Avenida de Berna, junto à Fundação Calouste Gulbenkian; os que venham de Évora, Beja, Portalegre e Litoral Alentejano iniciam a marcha na Avenida de Roma; e a JCP começa a desfilar na Praça Duque de Saldanha. A chegada dos desfiles ao Campo Pequeno será, seguramente, um momento particularmente emocionante.

Segundo uma das televisões, o objectivo era fazer uma estrela.
Deve ter sido bonita de ver, a coreografia. Mas de helicóptero, claro.

Os comunistas sempre me garantiram que Cunhal tinha horror ao culto da personalidade, e que lhe dava um combate sem tréguas.
Posso até acreditar nisso, mas fica óbvio que não só perdeu essa batalha em vida, como continua a perdê-la depois de morto.

Ter-lhe-ia sido mais fácil se não tivesse uma presença tão magnética.
E sexy, já agora.

Nota: Foto de Rui Ochôa, retirada daqui

8 de novembro de 2013

Ver e Experienciar


 

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 


A parte boa da década de 1960 aqui representada pelo Canavial de Albert Carneiro (1968).

Já todos passámos por este Canavial, como escreve hoje Luísa Soares de Oliveira no suplemento Ípsilon (Público); por isso, o que é novo aqui, nesta exposição, não são as obras em si, “mas a abertura de sentidos que a sua conjugação provocará”

Com obras de Pedro Diniz Reis, Susana Themlitz, Armanda Duarte, Jorge Queiroz, Pedro Sousa Vieira, João Queiroz, rui Toscano, Alberto Carneiro, António Ole, Lourdes Castro, José Escada, Bruno Pacheco, Helena Almeida, Ana Jotta, Gaëtan, Jorge Molder, Julião Sarmento, Álvaro Lapa, Francisco Tropa, Noronha da Costa,, Rui Sanches, Rui Chafes, Michael Biberstein, Ana Vieira, Pedro Cabrita Reis, José Pedro Croft, José Loureiro e René Bértholo, a exposição “Sentido em deriva”  é o olhar do curador Bruno Marchand sobre a colecção da Culturgest (CGD), e a sua proposta para que a nossa visita, muito mais do que o mero acto de ver, seja uma experiência e uma descoberta dos possíveis, e surpreendentes, diálogos entre obras e artistas.

Uma coisa boa para ver em Lisboa.
 
 
 
 
Culturgest/Lisboa, até 12 de Janeiro 2014
Ao domingo a entrada é livre.

 

 

7 de novembro de 2013

O estado da interpretação


 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
É bom avisar logo de entrada que detesto Nuno Crato e as suas políticas; acho-o até um muito perigoso bandido político, dos piores do governo.

Porém, um destes dias, o homem defendeu a austeridade do orçamento para 2014 e explicou, como se fossemos muito burros, que sem essa austeridade, para pagar a nossa enooooooooorme dívida, "teríamos de trabalhar mais de um ano sem comer, sem utilizar transportes, sem gastar absolutamente nada só para pagar a dívida “.

A partir daqui, o jornal i titulou: "portugueses precisam de trabalhar um ano sem comer para pagar a dívida”.

Que faz a populaça em fúria com tudo e com todos? Vai ler o artigo e tentar perceber aquilo que à primeira vista parece um disparate? Não. Toda a gente interpreta como dá jeito ao seu ódio, ou seja − o fdp quer que a gente deixe de comer durante um ano.

A culpa, neste caso, nem foi da iliteracia, embora ela se faça sentir com grande vivacidade nas redes sociais; como parece óbvio que ninguém iria sugerir que morrêssemos todos para pagar a dívida, foi a irracionalidade do ódio e a satisfação com a superficialidade da informação absorvida que conduziram a comentários do tipo:

- Vómito.
- Ele devia passar um ano sem comer.
- Sujeito abjecto, desprezível.
- Um escarro com poder!
- Asqueroso
- Uma aberração! A estupidez típica deste regime: trabalhar um ano sem comer...
- Este tipo consegue é comer um ano sem trabalhar. Malandragem.
- Puta que o pariu
- Ficamos sem comer para dar milhões a colégios privados

É só uma pequena amostra.

Já é grave para um país ter um ministro como Crato; mais grave ainda é ter um população que não busca a verdade, que não quer entender, que não se esforça por se informar, que deturpa tudo para o lado que lhe dá jeito, que, no fundo, aceita iludir-se a si mesma.

Mas o mais preocupante de tudo é que, não raro, estes comentários têm início em pessoas que, apesar de terem responsabilidades na sociedade portuguesa, parecem ter desistido da boa-fé num combate político em que já vale tudo.

Não, as crises nunca são oportunidades. Para nada.
E sempre trazem ao de cima o que de pior há em nós.
Posto isto, claro que a conversa do Crato é cretina.
 

6 de novembro de 2013

Manias minhas








 

 
 
 
"Nos tribunais, pelo menos neste, os factos não são fatos, as actas não são uma forma do verbo atar, os cágados continuam a ser animais e não algo malcheiroso e a Língua Portuguesa permanece inalterada até ordem em contrário".

Isto escreveu o juiz Rui Teixeira, ao recusar-se aceitar um relatório escrito segundo o Acordo Ortográfico 1990. Os funcionários do Ministério da Justiça, obrigados por lei ao uso da nova ortografia, tiveram de reescrever o documento, infringindo a lei, sob pena de coima por parte do juiz.

Se é certo que os tribunais não estão ainda obrigados a cumprir o AO, devia ser igualmente certo que a magistratura estivesse proibida de acolher criaturas que se comportam como os palermas semianalfabetos que enxameiam as redes sociais a escrever coisas semelhantes.

Já aqui o disse: não gosto do acordo, não o uso quando não sou obrigada e ainda tenho esperança que se autodestrua.

Porém, dos três exemplos dados pelo juiz, apena acta sofre, de facto, alteração. Até os cágados já deviam saber isso.

Talvez alguns dos opositores do AO achem graça a que um alto magistrado assim proseie. Eu acho que o juiz Rui Teixeira faz mal à causa.
E continuo a não gostar de juízes desinformados, prepotentes e, ainda por cima, armados em engraçadinhos.
Manias minhas!

5 de novembro de 2013

Palavras - Diáfano






























 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Diáfano – delgado, delicado, frágil, transparente, claro, límpido, luminoso, translúcido (entre outros).

Dicionário Houaiss de sinónimos e antónimos
 

4 de novembro de 2013

O que eu não saberia dizer










…o escritor Claudio Magris diz que a Itália – esse laboratório de experiências políticas e sociais – assistiu na era Berlusconi ao triunfo de uma lumpen-burguesia “que tanto no plano intelectual como moral perdeu o sentido da decência e do respeito”. Esta categoria de lumpen-burguesia não é uma invenção de Magris, mas ele dá-lhe um novo sentido: é uma classe que vive a euforia de uma nova inocência, porque a vergonha, o mais íntimo sentimento do EU, é um bem que ela não possui. E por isso é incapaz de experimentar qualquer sensação de embaraço.
António Guerreiro, Público, 1/11/2013

Talvez eu ainda não esteja aí. Porque fico muito embaraçada.

1 de novembro de 2013

“Total repúdio”


 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Declaração de princípio: não sou amante de futebol nem simpatizante do Ronaldo.

Contudo, se longe de portas responder que venho de Portugal, o mais normal é que, com um sorriso, me digam – “ah, Ronaldo”, como antes diziam “ah, Amália” ou “ah, Eusébio”.

Ronaldo é uma marca, e é uma marca portuguesa de prestígio internacional.

Há dias, vimos na televisão uma patética performance dum velho chamado Blatter que, levado pelo desejo senil de fazer rir uma plateia jovem, não hesitou em denegrir, por comparação, a nossa marca.

Vai daí, o governo de Portugal, talvez exprimindo o sentimento da maioria dos portugueses, não sei, meteu-se em brios e fez um comunicado em que afirmava que o senhor Blatter “fez uma triste figura”, e em que exprimia “total repúdio” pelas suas declarações.

De lamentar, apenas o facto de esta gente só se lembrar de fazer comunicados, endireitar a espinha e encher o peito de ar em questões de futebol.

Chegando aos sítios certos, aos que contam, aos que importam, aos que nos têm agarrados por…, por onde todos sabemos, ficam caladinhos e de cócoras.

Não fosse o enfado de estar sempre a repetir-me, até ficava com vontade de dizer: total repúdio por répteis.

30 de outubro de 2013

A nossa vida exótica


 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
É um X, sim, leitor, e não um R, porque não nos têm faltado assuntos exóticos por estes dias. Vejamos:

1 – Só podemos ter dois cães e quatro gatos por casa. Cristas dixit.
Espero, impaciente, que ela regulamente o número de moscas que me podem entrar em casa, como já vi alguém sugerir-lhe. Quanto aos mosquitos, eu própria lhe sugiro a interdição absoluta (sou uma mártir deles).

2 – Um casal muito mediático está muito desavindo e faz porcaria e baixaria como todos os outros.
Neste caso, porém, é como se ambos fizessem nudismo na Praia da Saúde da Costa da Caparica. E com as câmaras do Correio da Manhã sempre ligadas e o povo todo a ver, a discutir e a tomar partido.
Sou feminista, aviso.

3- O ex-ministro Campos e Cunha mais a sua organização SEDES, qual bela adormecida, acordou dum sono de vinte e oito meses e disse que o governo faz mal à saúde do país. Agora que a bela acordou, o reino vai viver feliz para sempre.
Vivó Campos e Cunha.

4 – Houve um milagre, segundo o ministro Pires de Lima, na economia portuguesa. Não é por acaso que Nossa Senhora de Fátima apareceu aqui e não em Frankfurt, digo eu.

5 – Bernardino Soares, do PCP e novel presidente da câmara de Loures, precisando duma coligação, não foi de modas e aliou-se ao PSD. Ainda bem que não moro em Loures. Livra…!

6 – Lá para os lados de S. Bento discute-se mais um orçamento exótico mas, como diria a outra, “isso agora não interessa nada”.

29 de outubro de 2013

Do Santo Álvaro ao Tareco Jerónimo


 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
No Expresso online de ontem, Daniel Oliveira escreve sobre Álvaro Cunhal e a comemoração do seu centenário, dando como título ao artigo “O altar para o Santo Álvaro”. Vale a pena ler aqui.

Refere ele, a dado passo, que o PCP “vive com uma confrangedora e talvez inédita falta de quadros intelectuais… sem os quais um partido comunista dificilmente cumpre a sua função vanguardista ou pode bater-se por uma hegemonia ideológica.

É absolutamente verdade. Por isso temos hoje um PCP dirigido por Jerónimo de Sousa, com uma acção política que chega a ser patética.

Ora, essa manifesta falta de quadros intelectuais, germinou e consolidou-se durante a longa liderança de Cunhal.
Se logo após o 25 de Abril os intelectuais foram tolerados, até porque muitos tinham consumido os ossos na cadeia, aos poucos o PCP foi criando as condições para que se afastassem pelo seu pé.

Aquilo era um partido da classe operária, diziam, onde os intelectuais podiam caber, diziam também, mas apenas se aceitassem, sem estrilho nem interrogações, as orientações que o intelectual Cunhar escolhia para a dita classe operária, digo eu.

É absolutamente seguro que, depois de mortos, geralmente somos todos bons e, como escreve DO, “Cunhal passou a ser, da direita à esquerda, consensual”. Nada de novo, portanto. Está morto, está morto. Não entra na equação da nossa vida.

Porém, preocupante é que Jerónimo de Sousa seja também consensual.
Que simpático, que afável, que cordato, diz a direita em coro.
Eu, no lugar dele, ficava preocupada com tanta afectuosa unanimidade, mas ele, e o seu partido, não só não se importam como até parece que nasceram para agrada.

Como se Jerónimo tivesse tomado para si o papel de Tareco da direita, o gatinho que parece que vai estragar as cortinas mas, afinal, deixa-se apanhar e afagar. É um querido.

A nossa desgraça não consiste só em termos juntado num mesmo tempo histórico Cavaco, Passos, Portas e Seguro.
Geralmente não referimos Jerónimo de Sousa, mas ele não pode, nem deve, ficar fora deste desastrado ramalhete.

Sem negar as enormes qualidades de Álvaro Cunhal, é bom não esquecer que Jerónimo de Sousa e este PCP são herdeiros, e “filhos” legítimos, da sua liderança.

28 de outubro de 2013

Desolé











 
 
 
Uma jovem criatura muito cá de casa passou os últimos meses da sua vida junto dos gauleses.

A propósito de experiência dizia-me: a palavra francesa que passei a odiar é desolé, porque, basicamente, quando usada pelos franceses, quer dizer “vai à merda”.

Regressada de uns dias fora e sem internet, tentei apanhar as últimas no ar – entrevista do Sócrates, ausências do Seguro, programa cautelar ou segundo resgate, pouca gente nas manifestações.

Tudo na mesma, portanto.

Talvez por isso, neste belo tempo de romãs, só me apetece sair por aí, distribuindo a torto e a direito uns bem puxados e eufemísticos “desolé”, “desolé”, “desolé”.

17 de outubro de 2013

Vou ali, já volto




 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Este está à minha espera.

Na minha ausência, ninguém cairá das pontes.
O governo também não cairá nas pontes.
Vou indo.


16 de outubro de 2013

Dinheiro bom


 
 
 
 
 
 
 
 
 
Ouvi uma vez o actor brasileiro Lima Duarte dizer:
Cultura boa não é a que dá dinheiro, é ao contrário; dinheiro bom é o que dá cultura.
Não sei se a frase é dele, mas foi a ele que a ouvi.

Dinheiro bom, a dar cultura, é o da Fundação Caixa Geral d Depósitos −  Culturgest.

Na passada sexta-feira, esta comemorou vinte anos de existência.
Do programa de comemorações, destaque para um concerto com peças de Bach e Händel, e ainda uma magnífica obra encomendada e composta expressamente para a ocasião por António Pinho Vargas.

No mesmo dia inaugurou uma exposição comemorativa dos vinte anos da colecção de arte.
Esta, com curadoria de Bruno Marchand, ocupa todo espaço de exposições das galerias da Culturgest, mostrando trabalhos, quantas vezes esquecidos, mas absolutamente marcantes, no panorama artístico português a partir da segunda metade do século XX.

Música, dança, teatro, leitura, cinema, exposições, conferências e debates.
De tudo isto se tem feito a Culturgest, tentando sempre “contrariar a mercantilização da cultura” nas palavras do seu administrador Miguel Lobo Antunes.

Por isso a Culturgest se anuncia, e bem, como “uma casa do mundo”.
Venham mais vinte.
Dinheiro bom continua a ser o que dá cultura.

 

15 de outubro de 2013

Vivam as pessoas


 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Sempre houve pessoas que se acharam inteligentes e originais por afirmarem que preferem os animais às pessoas.
Lá por as frases do tipo “quanto mais conheço as pessoas mais gosto do meu cachorro” terem origem em pessoas inteligentes, isso não melhora automaticamente o Q.I. dos génios do copy/paste ideológico.
 
Porém, desde que mergulhámos nesta enorme crise, e com a ajuda potenciadora das redes sociais, coisas do género leem-se a cada passo.
A mim, fazem-me logo tocar campainhas no cérebro.
 
Entendo, sempre entendi, os animais como nossos companheiros de “casa”; com eles partilhamos um planeta que a todos acolhe e, provavelmente, uns não teriam sentido sem os outros, ou tudo isto seria muito diferente.
 
É também certo que muitos animais de estimação conseguem elevadíssimos, e até comovedores, graus de relacionamento afectivo com os seus donos.
 
Dou, também, de barato, que muitos deles poderão mesmo ser o mais fiel amigo, mas nunca o melhor amigo.
Esse, o melhor amigo, é o que dá resposta, contrapõe, mima, mas também se enfurece e diz o que não queremos ouvir.
O animal de estimação lambe-nos as mãos, mesmo que sujas; não critica, não incita, não vocifera, não nos abraça.
 
Dizer que se prefere os animais às pessoas parece-me desde logo uma insuportável arrogância moral, um inequívoco sinal do sentimento de superioridade em relação aos outros.
Desconfio disso, desconfio sempre.
 
De uma coisa tenho a certeza − nunca deixarei de preferir os humanos, mesmo que alguns, de entre eles, sejam verdadeiras bestas.
 
 

 


 

14 de outubro de 2013

Hannah














 
 
 
 
 
 
 
Muito se tem escrito ultimamente sobre Hannah Arendt e o filme, agora em exibição, que leva o seu nome.

Nesses escritos, encontra-se quem saiba muito sobre ela, sobre a sua obra e até sobre cinema. Encontra-se também quem escreva apoiado na mais profunda ignorância.

Deixando a sua filosofia para quem a estuda, confesso que há anos que a mulher/filósofa Hannah Arendt desperta também o meu interesse e curiosidade.

A paixão de Hannah Arendt pelo seu professor Martin Heidegger sempre se me afigurou tão poderosa quanto pouco entendível (como, afinal, é próprio de tantas paixões poderosas).

No livro “Hannah Arendt e Martin Heidegger” de Elzbieta Ettinger, encontrei  uma mulher inteligente, jovem judia na Alemanha de Hitler, que se apaixona pelo professor e  homem brilhante, mas de personalidade pouco recomendável, que se serviu dela inúmeras vezes.

Hannah não via isso, ou recusava ver. A sua paixão durou toda a vida.

No filme, numa brevíssima cena, o assunto é aflorado, e Hannah responde, secamente, enquanto puxa mais uma fumaça do seu eterno cigarro, qualquer coisa do tipo – “há coisas maiores que qualquer pessoa”.

Gostei do filme. Gostei da clareza com que o pensamento de Hannah é apresentado, e de confirmar, mais uma vez, que, por mais claro que seja o que dizemos, cada um dos nossos receptores entende sempre, e apenas, aquilo que está, à partida, predisposto para entender.

No filme, apenas me desagradou a cor e o ambiente sempre soturno; há nele momentos verdadeiramente luminosos que mereciam ser fisicamente acompanhados duma outra luz.
Mas isso, são opções estéticas.

Sobre o livro:
Hannah Arendt e Martin Heidegger
Elzbieta Ettinger
Ed: Relógio d’Água, 2009