7 de janeiro de 2013

Mau feitio, graças a Deus

É o meu.
Já aqui e aqui demonstrei a minha embirração com o Francisco José Viegas e não tinha intenção de bater mais neste ceguinho, mas ontem lembrei-me de ter lido que, depois da sua fulgurante passagem pelo governo, o amigo de Joana Vasconcelos reabriu o seu blogue A Origem das Espécies

Fui ver. Li vários posts e até teria alguma coisinha para dizer mas, naquela "rua”, nunca ninguém pode comentar nada – só partilhar ou pôr nos favoritos.
E embirrei com aquilo.

A mim ensinaram-se que só se partilha o que é bom, e continuo a respeitar esse conspícuo ensinamento.
Nos favoritos guardo coisas úteis, como o Google Maps, o horário dos comboios ou as farmácias de serviço.
Logo, não sabia o que fazer.
Pronto, já disse.

Imagem daqui

4 de janeiro de 2013

Sem nome

Há dias em que leio as notícias e tenho a sensação de estar a entrar num túnel do tempo que me conduzirá à idade das trevas.

Foi assim quando li que os taliban estão a impedir (a tiro) a vacinação contra a poliomielite de 240 000 crianças no Paquistão.

Porém, das notícias recentes, a mais nauseante, a que dá volta ao estômago pela barbaridade do acto, foi a da violação e posterior morte da jovem indiana cujo nome não foi revelado (na Índia, pelos vistos, uma mulher não tem identidade própria nem depois de morta).

Habituados que estamos a saber que, numa grande parte do mundo, nascer mulher é uma maldição e, sendo-o, ousar lutar por direitos básicos é um acto de coragem com consequente perigo de vida, mesmo assim, a ferocidade do que aconteceu naquele autocarro não pode ser ignorada por se passar longe, ou branqueada em nome duma “cultura”.

Daí que a solidariedade com as manifestações de milhares de mulheres indianas que reclamam, tão só, segurança para andar na rua, seja um mero imperativo moral.

Porém, os apóstolos do regresso às trevas estão por todo o lado, como se constata num artigo de Naomi Wolf, no Público, em que a autora escreve que em Itália está a haver um debate sobre “se o vestuário e o comportamento das mulheres encorajam a violação” e “até mesmo na Suécia, os violadores que conhecem as mulheres que atacam não são processados, porque as vítimas não são vistas como “meninas bem-comportadas”.

Cuidemo-nos, pois. Cuidemos deste legado das nossas avós, porque os direitos que temos hoje não nos foram dados, antes foram conquistados a pulso, − o poder (aqui congregado nos homens), mas, de facto, qualquer poder, nunca dá nada, apenas se conforma e cede.

O que temos hoje pode desaparecer a qualquer momento; como o último ano português se encarregou de nos mostra muito claramente, não há direitos adquiridos. Sobretudo para quem, a cada momento, for o elo mais fraco.


 

3 de janeiro de 2013

Sair a uivar

Fui ver o filme “Amor” no 1ºdia do ano.
Tinha saudades do Trintignant, e o filme está a ser muito aplaudido.

Devia ter ficado com ciática dez minutos antes de sair de casa.

Resumindo, pode dizer-se que o filme é bom, mas também o achei voyeur e às vezes sádico.
O realizador mete-se (nos) em casa dum casal de idosos (donde não mais saímos) e faz-nos assistir ao colapso dela e à sua lenta perda de capacidades, humanidade e dignidade; simultaneamente, Georges passa de marido a devotado cuidador.

Uma história de todos os dias, multiplicada por milhões, fruto da longevidade característica da época contemporânea.
Ouso dizer que o filme de Haneke é neo-realista, o que não é aqui um elogio.
Sim, eu já vi aquilo, e bem próximo, não preciso que me expliquem, nem que mo mostrem, nem que me aticem um medo que, hoje, é de todos.

Por isso, quando saí, só me apetecia uivar.
 
Uivar curto e longo, agudo e grave, angustiado e enfurecido.
Um uivo de tristeza (pela morte) de terror (pelo futuro), de raiva (pelo presente), de dor (pela humanidade), de irritação (com quem se apropria da indignidade da velhice e ainda consegue fazer disso uma obra de arte).
Não invento − eu só queria uivar. E ainda quero.


2 de janeiro de 2013

Recado a Camilo

Ando aqui com um recado para o Camilo Lourenço atrasado uma porção de dias, tudo por culpa das  Festas. Mas de hoje não passa.

Para quem não sabe, a actriz Maria do Céu Guerra, mulher com décadas de guerras pelo teatro português e anti-salazarista convicta, lamentou no Facebook que, com tantos actores sem trabalho, Paulo Futre tenha sido chamado para dobrar um filme infantil.

Vem de lá o querido Camilo e verte no Diário de Negócios uma pérola do seu iluminado pensamento que intitula “O Salazar que habita em cada português...”

Atira-se então à actriz, dizendo que “No fundo, Céu Guerra está a defender aquilo que o dr. Salazar implementou em Portugal durante 40 anos: a primazia das corporações sobre a sociedade”, e que ele, o querido Camilo, não está “disposto a tolerar práticas salazarentas mais de 40 anos depois da morte do seu principal promotor.” (naco de prosa a ser lido aqui)

Ó Camilo, eu, por acaso também acho que as corporações são do piorio, e se há profissão de que me lembro logo, assim que se fala em corporação, é a dos médicos.

Por isso, aí vai o recado que tem andado adiado:

Se você tiver uma diarreia, daquelas a sério, e não apenas daquelas diarreias mentais que em si são diárias, não caia na asneira de ir ao médico. Por morte, infelizmente, da nossa mui virtuosa Santa da Ladeira, vá até Vilar de Perdizes e procure por lá o Futre dos curandeiros. Assim provará, na prática, que não está disposto a tolerar práticas salazarentas.

Mas pronto, como ir até Vilar de Perdizes sempre o faz perder umas horas, tempo em que ficaríamos sem um dos turbo-néscios que acorrem a tudo o que é rádio, jornal ou TV, daqui lhe desejo, convictamente e do coração, que as diarreias não lhe desçam da mente para o intestino.

 

1 de janeiro de 2013

Palavras roubadas para iniciar 2013

“Fiz uma revisão do que aprendera. Tinha descoberto capacidades e forças que nunca teria imaginado possíveis, naqueles tempos quiméricos e distantes, anteriores à viagem.

Tinha redescoberto pessoas no meu passado e chegado a uma conclusão quanto aos meus sentimentos para com elas. Tinha aprendido que o amor significava desejar tudo de bom para aqueles de quem gostávamos, mesmo que isso nos excluísse a nós próprios.


Tinha entendido o que era a liberdade e a segurança e que havia necessidade de abalar os alicerces do hábito. Que para sermos livres precisamos duma vigilância constante e inflexível sobre as nossas fraquezas. Uma vigilância que requer uma energia moral que a maior parte de nós é incapaz de produzir. Acomodamo-nos aos moldes do hábito. São seguros, amarram-nos e refreiam-nos, com sacrifício da liberdade.
Quebrar esses moldes, ficar indiferente às seduções da segurança é uma luta impossível, mas uma das poucas que valem a pena.
Ser livre é aprender, pormo-nos constantemente à prova, apostar.
Não é seguro.”

Robyn Davidson
Trilhos
No deserto australiano com quatro camelos e um cão
Quetzal

Um maravilhoso livro de viagem. Se temos que viajar apenas sentados, então que seja em 1ª classe. É este o caso.

29 de dezembro de 2012

Ano Novo

Há quantos anos andamos, por esta altura, a dizer uns aos outros – “Bom Ano Novo, já que este não deixa saudades. Esperemos que o próximo seja melhor!”?
Talvez há mais de uma década. E as nossas esperanças num ano melhor foram sempre adiadas… por mais um ano.

Chegados ao final deste insano 2012, quase parece uma piada de mau gosto desejar um bom ano de 2013 a alguém.

Porém, se já sabemos dos mimos que os governantes nos preparam, nada sabemos ainda de como este povo, velho e paciente, a eles reagirá.

Nada é para sempre.
Não quero o medo. Não acredito no destino nem em inevitabilidades.
2013 será aquilo que estivermos dispostos a fazer dele, em termos pessoais e, talvez sobretudo, colectivos.

Por agora, é apenas tempo de desejarmos uns aos outros, num exercício de liberdade e insolência, aquilo que, de facto, nos é devido − um BOM ANO NOVO.
Temos 365 dias para o reclamar a quem de direito.


27 de dezembro de 2012

O silêncio das pantufas

Na sua página do Facebook, o Pedro escreveu:

“este não foi o Natal que merecíamos”

Num e-mail recebido há poucos dias, a minha amiga Paula escreveu:

da estrumeira nacional não falo, que estes cabrões não nos merecem.”

Ora aí está: um primeiro-ministro PIEGAS, desapoiado por um povo que está aficar ao estilo “de atacar pelos queixos”. Lol.

26 de dezembro de 2012

“Aconteceu no Oeste”

No final da tarde do dia de Natal, um qualquer canal televisivo passou o filme “Aconteceu no Oeste” que estive a rever.

Realizado por Sergio Leone, com música de Ennio Morricone e protagonizado por Henry Fonda, Charles Bronson, Jason Robards e Claudia Cardinale é um dos melhores western de sempre.

Entretida com o filme, não vi nem ouvi Passos Coelho (acho que fiz de propósito, mas não tenho a a certeza). Certo é que o filme pode ser uma metáfora do que por aqui se passa – temos um bandido sem escrúpulos nem alma, um plácido tocador de harmónica que espera o seu momento de acertar as contas com o bandido sem alma, uma mulher de coragem e ainda o bandido Cheyenne que, por não gostar que lhe atribuam culpas que não tem, acaba por evoluir para bandido “bom” e justiceiro.

Ganância pessoal e a soldo dominam o enredo, mas também a coragem e a justiça.
A distribuição das características dos personagens do filme pelos indígenas deste país, deixo por conta de cada um.

Certo, certo, é que gosto muito do personagem Harmónica, e também de metáforas.
E isto aqui não costumava ser a west coast?


21 de dezembro de 2012

Natal, pois claro


Termina um ano carregado de desencanto e indignação.

Reivindico agora, para mim própria, um breve período com direito ao esquecimento, e a uma normalidade perdida no meu país.

Faz-se a árvore de Natal, compra-se o bacalhau, confeccionam-se doces que nos darão o conforto do açúcar sem pecado.

Natal é a celebração por excelência da cultura e civilização em que nos inserimos. Crentes, ateus ou agnósticos, poucos lhe escapam.

Como é próprio de todas as celebrações, o Natal é agregador, às vezes até reconciliador, reforça laços, une, quebra rotinas.

Terminado (à força) o tempo da lamúria contra o consumismo da época, e terminado, para muitíssimos, qualquer tipo de consumo, só a sua parte imaterial nos pode agregar como colectivo.

Celebremos então o imaterial – os afectos, a magia da luz, o sentimento de pertença.

Por estes dias, o importante, mesmo, é que cada um celebre um Natal que seja verdadeiramente o seu.
É o que vou fazer.

BOM NATAL.

20 de dezembro de 2012

Amigas

Amigas são melhores que irmãs − Amigas não trazem na bagagem histórias de família, competição pelos afectos, roupa, beleza ou homem.

O calendário não manda nas Amigas, salvo se elas assim o decidirem.
Amigas riem, choram, concordam, discordam, contradizem, viram do avesso.

As melhores amigas são muito diferentes de nós, e entre si também.
Há uma dor que as Amigas nunca têm, é no cotovelo, porque Amiga nunca tem inveja de nada em nós.
Amigas interessam-se. E cuidam. Sempre.

Não importa que as Amigas estejam longe muito tempo porque, quando chegam perto, são a negação do próprio tempo.

Mesmo assim ele passa, e é quando deixam de pedir café e optam pela tisana ou pela água que descobrem, juntas e estupefactas, quão pouco mudaram, e como as grandes questões das suas vidas, toscamente “descascadas” anos antes, permanecem quase inalteradas. Voltam repetidamente as elas, acompanhando a tisana ou a água, mas sem pressas, sem pinças e sem luvas.

E falam, falam, falam, cavalgando as horas; e riem, choram, concordam, discordam, contradizem, viram do avesso.

A vida, na sua muito própria sabedoria − que por vezes não descarta a injustiça, não anda por aí a distribuir Amigas ao desbarato. Nem outras Graças.

Para as conceder exige atenção, porque, como muito bem percebeu o Vinícius − Amigo(a) a gente não faz, Amigo(a) a gente reconhece.

 

19 de dezembro de 2012

Em tempo de cólera


Quando, há tempo, Passos Coelho disse “que se lixem as eleições”, eu, por uma vez, acreditei nele, e continuo a acreditar.

Passos veio para cumprir um programa ideológico de destruição do que de melhor tínhamos construído, deixando ficar e fortalecendo tudo o que é tóxico na nossa sociedade. Uma legislatura chega para isso.

Até sobra. Depois do trabalhinho feito, ele não quererá mais ser político, coisa que só dá chatices, e certamente terá bons lugares à sua espera. Talvez até fora do país, talvez até sonhe com a Goldman Sachs, quem sabe.

É por isso que acredito nele quando brama - “que se lixem as eleições”.
Os jornais escrevem: Passos garante que a venda da TAP ficará decidida na quinta- feira. Em que condições, não sabemos. Mas é amanhã.

18 de dezembro de 2012

Havemos de ser todos alemães


Querida Senhora Merkel

No passado domingo li e ouvi que a senhora está preocupada com a lentidão do nosso “ajustamento”.

Antes de mais, deixe-me dizer-lhe o quanto admiro a sua capacidade de trabalho – nem ao domingo descansa. Só tenho pena que também não nos deixe a nós descansar de si.

Somos um pouco lentos, é certo, mas já percebemos que, para seu contento, um dia havemos de ser todos alemães.

Eu, para aprender mais depressa, até fiz uns bonecos que tenho sempre diante de mim e que lhe venho mostrar; à esquerda, o que somos, à direita, o que seremos.

Por isso, tenha calma. Havemos de lá chegar.
Auf wiedersehen, liebe frau.

 
 
 
 
 






PS: imagens recebidas por e-mail
 
 
 
 
 

17 de dezembro de 2012

Suportes que ele não suporta

Um bom indicador do envelhecimento é a incapacidade para ser, no mínimo, tolerante com o novo, mesmo que não o entendamos completamente ou não nos consigamos adaptar a ele.

Essa é uma das razões por que a entrevista que Vargas Liosa dá ao Ípsilon da passada sexta-feira é tão deprimente.
Apocalíptico em sentido lato, reserva para si e para a literatura o papel de  salvadores do pensamento e da escrita, mas apenas, e repito APENAS, no formato de livro.

Llosa afirma : se os tablets e os ecrãs roubarem todo o protagonismo ao livro, assistiremos a um extraordinário empobrecimento da linguagem, haverá uma deterioração da comunicação e da racionalidade, as máquinas passarão a pensar por nossa conta e isso poderá trazer consequências gravíssimas, nomeadamente o desaparecimento da liberdade”.

Um susto, estas afirmações (reiteradas), vindas dum Nobel da Literatura que só tem 76 anos.

No que me diz respeito, gosto de livros. Gosto mesmo muito. E, apesar de reconhecer o prazer quase sensual de os manusear, cheirar etc. não fujo do digital como o diabo foge da cruz. Há livros que quero ter fisicamente ao pé de mim. Sempre. Esses, quero-os em papel. Há muitos outros que leio e esqueço. São os que podem vir em suporte digital − um dia vou apagá-los para dar lugar a outros. Esta mania de que as coisas não podem coexistir, nunca a entendi, até porque o passar do tempo nos vai mostrando que é o contrário que é verdadeiro.

Vargas Llosa ficou, precocemente, velho.
Compare-se a sua postura face ao ecrã com a da minha mãe, que no dia dos seus 86 anos recebeu livros, mas também foi à internet descobrir um truque para fazer crescer as farófias.
Quem é mais novo, quem é?
E, já agora, quem parece mais inteligente e disponível para a vida?

PS: sobre o mesmo assunto, recomendo o post de Rui Bebiano no seu blog A Terceira Noite

14 de dezembro de 2012

Há silêncios que entristecem

A TAP é mais um “luxo” que não podemos ter, está visto, e 20 milhões chegam para nos resgatar do vício.

O que eu estranho mesmo, é o silêncio dos pilotos e outros profissionais da TAP sempre tão prontos (desde o 25 de Abril) a fazer greve quando mais doesse aos passageiros e, sobretudo, às tentativas de recuperação financeira da empresa.

Não há uma grevezinha para o Natal? Nem sequer uma ameaça clara ou velada? Nem um comunicado com uma tomada de posição? Estarão contentes de ir trabalhar para o tal Efromovich, ou estarão a enfiar o rabinho entre as pernas?

Dúvidas, dúvidas, dúvidas. Mas que o silêncio deles é ensurdecedor, lá isso é. E triste!

Boa informação sobre as contas desta venda, aqui

13 de dezembro de 2012

De Caranguejo para Sagitário














Que laço tão forte é esse que nos une, apesar das diferenças tão grandes que nos separam?
Quem o deu?
Quem o apertou assim?
A ciência não explica, mãe.
Talvez, afinal, nem precise.

Imagem daqui


12 de dezembro de 2012

O Caderno Vermelho

A propósito do post de ontem, e das coisas estranhas ou difíceis de explicar que nos acontecem, lembrei-me do livro “O Caderno Vermelho” de Paul Auster.

São pequenas histórias, todas verídicas, segundo o autor, que assentam, sobretudo, no acaso (tema que lhe é caro), narrando acontecimentos bizarros e coincidências quase do outro mundo. São histórias que em algum momento da vida podem acontecer a qualquer pessoa, que impressionam no momento, mas depois esquecemos. Contudo, o escritor não esqueceu, e com elas compôs um pequeno e delicioso livro.

Quando, nos dias que correm, entro numa livraria, tenho frequentemente a sensação de que o mundo da edição, por aqui, é consumidor regular de cogumelos alucinogénicos; outras vezes, penso que adoptaram o modelo das fábricas de enchidos – entra porco e, logo, logo, sai salsicha.
Tantos livros, tantos autores, tanto colorido, tanto design kitsch, tudo reduzido a picado daí a poucas semanas.

Não estranhei, por isso, não ter encontrado, nas buscas que fiz na internet, O Caderno Vermelho”, livro publicado há já um bom par de anos, mesmo sendo este um país de leitores fiéis de Paul Auster.
Apenas a livraria Bulhosa me diz: “Disponível entre 3 a 5 semanas (sujeito a confirmação) ”, pelo preço de 1,50 €.

Assim sendo, este é um daqueles livros que vale a pena procurar na biblioteca pública. É tão pequeno que podemos ficar lá a lê-lo, e sair daí por uma hora com sentimentos misturados de encantamento e espanto.
E ainda com um sorriso nos lábios.

11 de dezembro de 2012

Eu não acredito em bruxas

Um destes dias, saí lampeira com o meu carrinho de compras para ir ao Pingo Doce cá do sítio comprar pão, legumes, fruta e pouco mais.

Não é uma loja grande, nem tinha muita gente.
Feitas as compras, escolhi, para pagar, a caixa central, que é a terceira de cinco. Larguei o meu cesto cinzento com rodinhas atrás da senhora que ia começar a fazer o seu pagamento e fui buscar o meu carrinho de compras, deixado na entrada a não mais de 7 ou 8 metros. Podia vê-lo, e devo ter demorado 30 segundos, ou menos.

Quando voltei, o meu cesto já não estava onde o tinha deixado. Olhei à volta e não o vi, perguntei ao segurança, ali especado como de costume, se tinha reparado em alguém que levasse o cesto por engano; que não. As pessoas à volta, ouvindo a conversa, em todas as filas de caixa começaram a olhar os seus cestos para verificar se não se teriam enganado. Nada.

Esperei um pouco. Que diabo, quem pegou no cesto por engano rapidamente se havia de dar conta disso. Nada. Resolvi eu própria dar uma vista de olhos aos cestos dos clientes que estavam nas filas. Nada. Venci a inércia e percorri todos os corredores do supermercado a olhar todos os cestos. Nada. Decidi voltar a fazer todas as compras sempre de olho nos cestos dos outros. Nada. Já de cesto cheio, voltei a percorrer todos os corredores, sempre espiando cestos. Nada. Voltei para a caixa e perguntei de novo ao segurança se alguém tinha dado sinal de se ter enganado. Nada. Paguei e saí.

Esta é uma daquelas situações em que, se persistirmos em encontrar uma explicação razoável, dado que compras não pagas não podiam interessar a ninguém, corremos o risco de ficar maluquinhos. O melhor mesmo é pôr uma pedra no assunto. É o que tenho tentado fazer, mas sem lograr completo sucesso – volta cá, volta lá, lá estou outra vez a pensar no mistério da cesta desaparecida.

Resolvi, pois, contá-la, como quem exorciza fantasmas.
É que eu não acredito em bruxas, mas lá que as há, há!

10 de dezembro de 2012

Barroso Twist, um contorcionista português

Há dez anos, foi como a foto mostra – Barroso Twist a fazer de porteiro aos três delinquentes que nas Lajes, nesse dia, decidiram a invasão do Iraque.

Hoje, Barroso Twist, ou o grande contorcionista português, igualmente bem acompanhado, vai receber em Oslo o Prémio Nobel da Paz, atribuído à Europa.

Do trio de presidentes (Barroso, presidentes da Comissão Europeia; Herman Van Rompuy, presidente do Conselho Europeu e Martin Schulz, presidente do Parlamento Europeu), dois não foram eleitos por ninguém. A Europa que eles representam, por sua vez, que já foi o território da esperança de milhões de homens e mulheres tem hoje 120 milhões de pessoas em risco de emergência social e 26 milhões de desempregados.

Uma verdadeira fábrica de fazer pobres em permanente laboração.

Barroso, Rompuy e Schultz são três bostas, dignos representantes da bosta que criaram.
Vou desligar a televisão. Esta não é a minha Europa e eles não me representam.

Quanto à Academia Sueca, depois de velha virou prostituta.
Como se pode ver, hoje a minha tolerância resolveu não se levantar.


7 de dezembro de 2012

Calafrios

No DN online de hoje, duas notícias  provocam-me calafrios.
Acho que encontro demasiadas semelhanças nos objectivos.
Gostava de estar só a ver "coisas".
















Pussy Riot colocada em cela isolada para reeducação

















Nuno Santos foi suspenso da RTP  (depois das declarações que fez no Parlamento)

Dois casos em que poder não olha a meios para dar o exemplo.

Filha de Rousseau

Deixando de lado as questões da pedagogia e do saber, e apesar de já ter idade para ter juízo, sei que ainda hoje, lá bem no fundo do fundo, sou um pouco “filha de Rousseau”, no sentido de acreditar que o homem é naturalmente bom.

Estúpido isto, eu sei que é estúpido, porque a toda a hora se demonstra que o contrário é que é verdadeiro, mas, como cada um tem direito à sua dose de parvoíce, eu tendo a tomar como seguro que os gestos bonitos nascem da bondade de corações puros. Pois!

O exemplo mais recente foi o da tal Adriana na manifestação de 15 de Setembro; achei que o sortudo do fotógrafo tinha conseguido captar um momento de fraternidade universal, em que o coração duma boa (!) garota ansiava pela paz e concórdia entre os homens, não temendo botas cardadas, bastões ou viseiras para alcançar tão nobre objectivo.
Vai na volta, viu-se que afinal a miúda tinha inclinação para o showbiz.

Daí que tenha estremecido quando li esta frase no Público, a propósito do polícia nova-iorquino que foi comprar umas botas para o sem-abrigo descalço:

Jeffrey Hillman ficou famoso como o sem-abrigo descalço a quem um polícia ofereceu um par de botas numa noite fria. A fotografia do momento emocionou o mundo. Mas nem tudo é o que parece.

Pensei: lá vem bomba de fragmentação para cima da minha fé nos homens. Até tive medo de ler. Mas li, e ainda bem. Afinal o polícia é mesmo um polícia bom, de coração puro e compassivo, e o sem-abrigo é apenas alguém, ou mais um, que perdeu o tino durante uma das muitas guerras americanas. Ufff…

Bom fim-de-semana para todos os corações bons e compassivos.

6 de dezembro de 2012

Coragem, gosto

Coragem intelectual é um bem escasso por aí.
Coragem física, idem.
Mas aprecio as duas, quer nos homens, quer nas mulheres.

Há dias critiquei aqui a “coragem” do fulano que chegou a mandar, num só dia, mais de 100 SMS a um outro que lhe assediou a mulher. Tinha a coragem toda na ponta dos dedos e atrás do telemóvel.

A José Mourinho, pelo contrário, não se pode negar coragem.
Não encontrei o vídeo que vi num noticiário mas encontrei a notícia. Resumindo-a, “o treinador do Real Madrid avisou que ia entrar sozinho em campo antes do dérbi com o Atlético para ser “assobiado à vontade”.

E assim fez. Quarenta minutos antes de o jogo começar, Mourinho ofereceu o “peito às balas” e ali ficou sozinho, especado, ouvindo assobios e aplausos. Entendeu que, se a causa da discórdia é ele, então ele vai aparecer sozinho para que a equipa não sofra os assobios que o têm como destinatário.

Teatral? Talvez, mas todo o espetáculo vive disso também.
 
Porém, se coragem se define como firmeza de ânimo na adversidade, goste-se ou não do estilo (e eu até nem sou fã), não se poderá nunca dizer que este homem não tem tudo en su sitio.

5 de dezembro de 2012

O Henrique e as malhas da Ti’ Maria


Quando eu levava a sério o Henrique Raposo, embirrava um bocado com ele mas, no momento em que percebi que o rapaz não podia ser levado a sério e que aquilo era mais ou menos um intermezzo humorístico do Expresso, passou a ser, para mim, o autor da semanal croniqueta light.

No sábado passado, voltou às origens e às camisolas de malha da Ti’ Maria, que lhe eram oferecidas no Natal e na Páscoa, e davam um jeitaço porque eram quentinhas e coloridas e tricotadas com amor e passavam de tronco para tronco.

Eram bons tempos, na perspetiva do Raposo, e estão de volta, com a graça de deus.

Então ter as tias todas a tricotar furiosamente para os ganapos ali à volta da braseira não é um ideal para o século XXI, para a refundação da família cristã e do próprio país?

Se o Henrique fosse um pouco mais velho ainda se havia de lembrar, com prazer, dum texto do livro único do Salazar para a escola primária.

Mas eu conto: era uma vez um menino mau que foi aos ninhos e rasgou as suas únicas calças. A irmã, depois de o admoestar por tão feia acção, e para que a mãe não percebesse, pegou na agulha, não a de tricotar da Ti’ Maria, mas a outra, a de coser, e arranjou as calças na perfeição. O texto terminava dizendo: “Que lindas que são as meninas que sabem costurar”.

Ó Henrique, caraças, isso é que eram bons tempos. Já viu só, se conseguisse juntar a Ti’ Maria a tricotar e a mana a coser para si? Era o paraíso na terra.

Porcaria de país este, que meteu na cabeça que havia de ir à Benetton comprar malhas.
Mas os “ontem que cantam” na cabeça do Henrique são um verdadeiro farol para o futuro do país.


4 de dezembro de 2012

A senhora na nuvem

Durante uns bons vinte anos, todos somos filhos de alguém. O menino ou a menina A ou B são filhos do senhor C e da senhora D.

Algures num tempo incerto, tudo se inverte − o senhor C e a senhora D passam a ser os pais de A ou B.

Profunda alteração, esta, que, muito prosaicamente, se pode resumir dizendo que os meninos já são adultos e os pais já estão a ficar velhos.

Se isto não tem lá grande piada, certo é que também pode proporcionar uma segunda e insuspeitada “existência”.

Por exemplo, a mãe do Herman José não teria existência pública sem o filho; Helena Sacadura Cabral sempre a teve, e continua a ter, mas ela foi potenciada pela subida à ribalta dos seus dois filhos.
Contudo, para o resto das suas vidas, ambas permanecerão, em grande medida, as mães do Herman, do Miguel e do Paulo.

Mesmo a um nível isento de exposição mediática, um filho respeitado e estimado no seu meio, quer pela seriedade e qualidade do trabalho que desenvolve quer pelo seu carácter, pode transformar o aparecimento da sua mãe numa espécie de descida à terra de Nossa Senhora da Conceição poisada na nuvem. Dar-lhe uma “existência” não expectável.

E isso é bom para quê, pode perguntar-se.
Pois, é bom para a alma, seja lá isso o que for.

Verdade, verdadinha, que dispenso o séquito de anjinhos e querubins que sempre acompanham a imagem da santa, mas lá que eu gosto muito de descer à terra encarrapitada na nuvem, lá isso gosto. E ponto final.

 

3 de dezembro de 2012

Posso escolher com quem ando?

O peditório do Banco Alimentar contra a Fome correu bem. Ainda bem.

Esta organização sempre foi muito acarinhada cá na família, com doações e respeito.
As já célebres declarações de Isabel Jonet que, aos meus olhos, não foram nada infelizes mas completamente genuínas, fizeram abanar os alicerces do afecto e empatia.

Afinal, as ideias dela nada tinham que ver com as minhas; eu pensava que o Banco era uma organização movida pela solidariedade e fiquei a perceber que o combustível era a caridade.

Nunca fui adepta da caridade, mas respeito-a como um pilar da fé católica – cada um gosta do que gosta.

Nestes tempos difíceis, é preciso acorrer a quem não tem comida no prato e por isso nem me passa pela cabeça deixar de o fazer. Tenho, porém, o direito de participar como e com quem eu quiser, e decidi ser preferível fazê-lo com quem nunca quis parecer aquilo que não é. Refiro-me à Igreja, através da sua organização Cáritas, que faz um trabalho que em nada fica a dever ao Banco, só que em surdina, sem happenings bianuais.

Assiste-me ou não o direito de escolher a companhia para atravessar o pântano? Entendo que sim, e por isso acho triste ver um certo fanatismo alarve, beato e leviano vertido para texto, como neste caso:

“Ser solidário é importante.
...e não se preocupem com a maltinha bem-pensante que vos vai dizer que ajudar o Banco Alimentar (eles dirão "tia Jonet") é fazer caridadezinha.
De facto, eles estão mais preocupados em ser coerentes com o próprio e adorado umbigo e é gente que nunca deu nem dará nada a ninguém, nem um beijo, nem um abraço, nem a ponta de um corno, nem nada...”
(retirado do Facebook)

Pensar pela própria cabeça e fazer escolhas de acordo com as convicções de toda uma vida parece transformar-nos em “bem-pensantes”, termo sempre usado com enorme carga negativa, e, simultaneamente, nuns estupores que nunca deram nada a ninguém.

Se é costume dizer que as acções ficam com quem as pratica, eu acrescento que as palavras desnudam quem as profere − seja a Isabel Jonet na televisão ou um cidadão anónimo no Facebook.
É por isso que elas, as palavras, são tão perigosas.
 


 

30 de novembro de 2012

É hoje



“Para quem há já demasiado tempo vive sob o jugo da especialização e daquela singela, porém brutal, ideia de que o caminho para a verdade das coisas não admite nem inflexões críticas nem deslumbramentos superficiais, o trabalho de Pedro Sousa Vieira (Porto, 1963) é uma espécie de grande exercício herético.”
Excerto do texto do convite.

Pedro Sousa Vieira, hoje às 22h00 no Chiado 8, até 15/02/2013


Eu também


















Roubado aqui a uma jovem
Bom fim-de-semana


29 de novembro de 2012

O pecado do gasto improdutivo


O que António Guerreiro escreve no Atual do Expresso é, para mim, de leitura obrigatória, e com grande prazer.

No passado sábado, escreveu sobre a moderna e perigosa “mania” de se dizer o preço de tudo, o que conduz a que se considere ” intolerável o que faz parte de uma economia não produtiva”. Referindo a teoria de Mauss, e simplificando eu o que ele escreve, assinala que não é possível uma sociedade sem a “festa”, mas o discurso político atual exclui-a liminarmente.

Deve ser esse facto o grande responsável pela mesquinhez e miopia que tomou de assalto os portugueses, levando-os a tudo considerarem má despesa pública.

Fico boquiaberta com o interesse que as pessoas têm pelo cardápio do restaurante da Assembleia da República, pelo café que as Câmaras compram e pela rápida quantificação dos gastos com as iluminações de Natal, por exemplo, tudo envolto num diáfano manto de censura moralista.

Estou cansada do desastre político bordado de mesquinhez cívica, e acredito que “não é possível uma sociedade sem o elemento heterogéneo, o gasto improdutivo, que transgride a homogeneidade da lógica da produção”, segundo a teoria do dom de Mauss, e segundo António Guerreiro.

Por mim, mesmo que ela não caiba no “elemento heterogéneo”, sinto absoluta saudade da alegria tout court.

 

28 de novembro de 2012

Habemus Orçamento


E pronto, temos Orçamento.

Parece que ter um mau Orçamento é melhor do que não ter Orçamento nenhum – acho que foi isso, mais ou menos, o que disse o deputado João Almeida do CDS.

Entregues que estamos a dois perigosos homens de mão – Passos e Gaspar, com uma oposição que foge da governação como o diabo foge da cruz, e um PR que não existe, ou, quando existe é para se fazer uma anedota, estamos por nossa conta.

A imensa teia de solidariedade que vai segurando centenas de milhares de vidas por aqui, corre o risco de ruir em breve, quando os reformados, hoje suporte de filhos e netos, verificarem que o que recebem não chega para continuar o apoio que lhes estão a prestar; o mesmo se passará com quem tem trabalho mas passará a não ganha para viver.

Não acredito que Passos e Gaspar acreditem na bondade do que estão a fazer.
Pois se ninguém acredita e já tantos demonstraram que este é o caminho do desastre, como podem acreditar eles? Não, não acreditam também.

Acredito, sim, que ambos estão a cumprir um programa que lhes foi encomendado por alguém, com a promessa de boa recompensa no final.
A isso chamo traição; espero que, no fim, lhes caiba o tradicional destino dos traidores.

27 de novembro de 2012

Coisas que fui lendo

“As pessoas destras tendem a ouvir os sons agudos do lado direito e os graves no esquerdo, venham eles de onde vierem.

Os canhotos são muito diferentes entre si, e existem neles muitos modelos de percepção.

Uma orquestra tem os músicos posicionados para que ouçam os sons mais agudos do seu lado direito e os graves do seu lado esquerdo.

O que quer dizer que o público, esse, está todo ao contrário, a menos que se pendurasse de cabeça para baixo.”

 
“Frente a frente com a vida, a mente e o universo”
De Eduardo Punset, divulgador científico entre outras coisas; mas é esta a parte dele de que gosto.


26 de novembro de 2012

Da conservação dos dinossauros

Não, não é em formol que se conservam.
É através do uso de leis moldadas em redes de pesca.

A Comissão Nacional de Eleições decidiu, finalmente, que a limitação de mandatos dos autarcas, expressa na lei, se refere ao território e não à função. Assim, Menezes vai para o Porto, Rui Rio pode ir para Gaia se lhe apetecer, Mário de Almeida pode ir para Viseu, Fernando Ruas para Vila do Conde, e assim sempre pelo país afora.

Por mim, de facto, até podiam ir todos para um sítio que eu cá sei, a povoá-lo de rotundas e fontanários, mas mais uma vez se confirma que o legislador português de hoje é mestre na redacção de leis pouco claras, se não mesmo obtusas, que acabam por servir não menos obtusos propósitos.

Paulo Rangel, redactor da lei de limitação de mandatos autárquicos, vai afirmando, com boca pequenina, que não foi esse o espírito com que a escreveu.
Ora, espírito é coisa etérea, e as leis devem ser bem terra-a-terra, acho eu. Não o sendo, deixam a porta aberta para o que der e vier, vai-se-lhe o espírito e a letra e, neste caso, segue o baile com a muito popular dança das cadeiras.

With a little help from Paulo Rangel, que assim alcança o merecido estatuto de grande engenheiro da conservação de dinossauros sem formol.

23 de novembro de 2012

Hard times

 
No degrau da porta ao lado da escola profissional está sentado um adolescente, isolado dos outros, com os braços cruzados sobre os joelhos e a cabeça escondida sobre eles.
 
Pergunto-me: estará com dor de cabeça, com sono, com problemas domésticos, mal de amores, a ressacar qualquer coisa, caiu-lhe mal o almoço? Ou terá FOME?
 
Há não muito tempo, e desde há muitos anos, tal hipótese nunca se me poria, pelo menos ali, onde o presenciei.
Mas ontem, literalmente, estoirou-me na cabeça com um misto de espanto, pânico, possibilidade e repulsa.
 
Não estava preparada para isto, e julgo que nunca estarei.
Porque não posso, e também não quero.
 
Nota: imagem roubada ao blogue Delito de Opinião


22 de novembro de 2012

"Uma história de amor e trevas"

Face ao recrudescimento do conflito israelo-palestiniano, e apesar do cessar-fogo anunciado, talvez seja boa altura para relembrar aqui um magnífico livro de Amos Oz − “Uma história de amor e trevas”.

Misto de autobiografia e romance, o livro leva-nos pelos caminhos da criação do Estado de Israel, da diáspora judaica à história do sionismo, sempre através do olhar do menino que se vai fazendo homem e criando a sua identidade a par da do seu país.

É uma bela história, comovente, trágica e, por vezes divertida, contada por um escritor (eterno candidato ao Nobel, mais um) que sempre se opôs ao fanatismo, e que afirma que a luta lá, como noutros lugares, não é entre judeus e árabes, mas entre fanatismo e tolerância.

Posso até estar de acordo com ele, mas também  nunca me poderei esquecer das inúmeras resoluções da ONU que Israel nunca cumpriu, bem como da desproporção de meios e danos que sempre se verifica de cada um dos lados do conflito e que tão bem conhecemos
Um belo livro que, em 2004, ganhou, entre outros, o Prémio France Culture.


Uma história de amor e trevas
Amos Oz

Asa Editores, S.A., 2007



21 de novembro de 2012

O velho "chega pra lá" foi substituído pelo SMS


As generalizações são perigosas, como é sabido, mas posso garantir que, na minha juventude, os homens, pelo menos a maioria deles, encarnava com gosto a figura do macho latino − durão, engatatão, marialva, dono da mulher, arrotador de postas de pescada do tipo “lá em casa quem veste as calças sou eu”.

Nunca apreciei o género, mas reconheço que, apesar de tanta parvoíce, nos momentos cruciais iam directos ao assunto e resolviam-no, geralmente dando o corpo ao manifesto, com limpeza e de cara destapada, não sendo sequer normal o uso de violência.

Vem isto a propósito da condenação dum homem que enviou inúmeros SMS (só num dia foram 110) ao fulano que lhe assediou a mulher.

Situações destas sempre aconteceram, e os tais durões de antigamente resolviam-nas com a chamada “conversa de pé de orelha” ou com um “chega pra lá” em que ficava claro que se tinha tomado conhecimento e que tal não era admissível para nenhuma das partes – nem para o homem nem para a mulher.

Não deixa de ser estranho para mim que, nos tempos actuais, quando tantos homens batem nas mulheres, chegando demasiadas vezes a matá-las, alguns, para resolver uma questão tão comezinha com outro homem, não usem a orelha, nem o largo peito, nem a cara descoberta, mas apenas as pontinhas dos dedos nas teclas do telemóvel.
Mudam-se os tempos…

 

20 de novembro de 2012

Sede

O presidente da Câmara de Silves pediu ajuda à população para, em conjunto com os serviços municipais, proceder à limpeza da cidade depois do tornado que a varreu.

Rapidamente apareceram mais de mil pessoas e rapidamente a cidade ficou limpa.
O presidente agradeceu e falou em bondade,"um tornado de bondade", disse.

O dicionário Houaiss define bondade como a “qualidade de quem tem alma nobre e generosa, é sensível aos males do próximo e naturalmente inclinado a fazer o bem “

Terá sido, então, a bondade que levou as pessoas a responderem em massa, mas, neste momento, creio que não foi só bondade – foi sede.

Sede de fazer parte de alguma coisa maior que cada um individualmente, sede de colectivo, sede de resolver, sede de entreajuda, sede de comunidade, sede de objetivos, sede de serem chamadas a qualquer coisa para a qual encontrem um sentido, sede do melhor que os homens e as comunidades podem conter, sede de um propósito para aquilo que lhes é pedido.

Os portugueses estão descrentes e vulneráveis, humilhados por um Estado que parece que os odeia, que os esmifra, que os recrimina, que, por vezes, parece que se compraz no seu sofrimento.

Os portugueses precisam urgentemente de acreditar, de fazer, de se sentirem membros duma comunidade que se levanta, que é capaz, que se mobiliza.
Que pena os políticos não perceberem isto.