14 de setembro de 2011

Protectorado e seu protector

Percorrendo os títulos dos jornais de 13 de Setembro

Um protectorado chamado Portugal:
- Troika quer medidas adicionais de corte na despesa equivalentes a 0,6% do PIB em 2012- Público online
- Troika adia reforço do poder dos reguladores para final de 2012 - Público online.
- Técnicos da troika em Lisboa para discutir redução da Taxa Social Única – Público online.
- Governo disponível para tomar mais medidas de austeridade - JN online
- Carlos Moedas: "Vamos enfrentar mais dificuldades" – JN online
- Troika avisa que Portugal está em falta na TSU - Expresso online

O protector tem a casa a arder e recusa chamar os bombeiros:
- Risco de default da Grécia salta para 98% - Público online
- Juros da dívida grega a dois anos ultrapassam os 90% . Público online
- Merkel recusa insolvência descontrolada da Grécia – Público online
- Grécia diz que só tem dinheiro até Outubro - Público online
- Obama diz que Espanha e Itália são o “maior problema” da zona euro Público online
- Europa está "à beira do precipício", diz Felipe Gonzales - Expresso online

Nem sei se deva começar já a deprimir ou se espere mais um pouco para quando cairmos no precipício.
Acho que espero. O antidepressivo só perde a validade daqui por seis meses.

13 de setembro de 2011

Isto vai


É com grande satisfação que vejo, em 2011, uma mulher na presidência da Assembleia da República e outra Presidente do PS.
Isto vai, e no tempo das netas que um dia terei, a paridade na política será total.
Tenho a certeza, e com ela me conforto.

12 de setembro de 2011

O pecado mora em todo o lado

Como se sabe, a descoberta da pílula anticoncepcional foi um importante contributo para a independência das mulheres. O seu uso generalizou-se mas, em Portugal, há demasiadas mulheres demasiado pobres para a poderem comprar sem comparticipação.
A direitíssima que temos no poder em Portugal, munida de tesoura de poda, bisturi, serrote, machado e instrumentos cortantes afins, colou uma venda nos olhos e desatou a cortar na gordura do Estado.
A pílula anticoncepcional passou a ser gordura da saúde e vai daí, corta-se, ou seja, quem a quiser que a pague por inteiro. Para a direitíssima religiosa portuguesa, usá-la até será um pecado e todo o pecado deve ser castigado, como se sabe.
O pecado mora em todo o lado, como se sabe também, e por isso vão acontecer duas coisas: quem tiver dinheiro para a comprar, compra, quem não tiver, aborta.
Logo de seguida a direitíssima portuguesa gritará aqui d’el rei que o número de abortos está a aumentar e isso não é bom; por um lado, a santa madre igreja desaprova, e por outro isto está a sair muito caro ao SNS.
Será então a hora de cortar essa gordura e vermos Paulo Macedo a dizer – não há cá mais abortos grátis. Por fim irá à missa, comungará e dormirá na paz dos justos, com a certeza do dever cumprido como católico e ministro deste baldio estéril e abandonado por Deus.

9 de setembro de 2011

"O Factor Humano"

Ao contrário do que se pode levianamente pensar, “O Factor Humano” não é mais um livro de espionagem de Graham Greene. Antes de mais porque Graham Greene não é mais um escritor – é um grande escritor, e depois, porque não é um livro de espionagem – é um romance sobre homens que são espiões. Daí o título ser tão apropriado.
Tendo por pano de fundo o MI6 e a fria, cinzenta e brumosa cidade de Londres nos anos 1970, portanto durante a guerra fria, Greene vai desenrolando as histórias desses homens que são espiões – suas fragilidades, coragem, personalidades, afectos, solidão, sonhos.
Os caminhos que a vida de cada um de nós leva, são, frequentemente, fruto do acaso e do amor, e isso é-nos soberbamente mostrado através de Castle, o principal personagem. Este, tendo-se apaixonado por uma negra na África do Sul no tempo do apartheid, aceita ajuda dum comunista para a tirar do país e, como retribuição e por amizade, transforma-se num agente duplo que passa informações para Moscovo através duma complicada teia de contactos quase todos desconhecidos.
A descoberta da fuga de informações vai levar Castle para um fim que, não sendo o fim da vida, é o fim da vida sonhada, e à amputação dos laços afectivos pelos quais correu tantos riscos.
Foi por amor que Castle se tornou agente duplo e não por qualquer convicção política.
Assim são os homens. Assim escreve um grande senhor das letras europeias do século xx.

“O Factor Humano”
Graham Greene
Tradução – Maria João Freire de Andrade
Casa das Letras
2ª edição, Março 2011

8 de setembro de 2011

Play

Realidade melhor que ficção

Sabia-se que Steve Jobs tinha sido adoptado, mas agora que a sua vida parece estar a chegar ao fim apareceu o seu pai biológico a contar uma rocambolesca história de amores contrariados que se pode ler aqui.
Menos conhecida será a história do premiado escritor inglês Ian McEwan, e da sua descoberta da existência dum irmão mais velho, que veio contada em várias publicações e que se pode ler, por exemplo, aqui.

A mãe de McEwan, Rose, engravidou de um oficial do exército britânico, David McEwan, enquanto seu marido estava distante, em combate na Segunda Guerra Mundial. Desesperada para se livrar da prova do adultério, ela decidiu entregar o bebé para adopção.

O marido da mãe de McEwan foi morto na guerra, e ela então casou-se com o seu amante. Até à morte, nunca revelou que tinha tido outro filho. Só a sua irmã partilhava o segredo e foi ela quem narrou os factos ao sobrinho que tinha conhecido apenas como recém-nascido.
Em Junho de 1948 o casal teve outro filho, Ian.
Ian estudou em boas escolas e é um escritor de sucesso. David é pedreiro e nunca conheceu os pais biológicos.
Se lêssemos estas histórias num livro, na melhor das hipóteses diríamos que faziam chorar as pedrinhas da calçada, mas o facto é que a realidade sempre excede a ficção.

7 de setembro de 2011

Alô, Presidente

Nunca, até hoje, tinha ido ver a página do Facebook do nosso PR.
Embora não me pareça que o modernaço meio seja o mais adequado para comunicar com essa entidade abstracta, mas não virtual, chamada povo, pensei que, ao menos lá, escrevesse alguma coisa sobre o que, neste momento, preocupa o tal povo.
Nada. Fala das festas de Campo Maior, do turismo e do Algarve, do jovem que ganhou uma medalha nas olimpíadas da matemática, das férias para recuperar porque Portugal não pode falhar o esforço de recuperação da economia e da confiança dos investidores internacionais, para o que é fundamental o contributo, a energia e a determinação de todos nós.
Ora bolas, senhor Presidente, isso até um qualquer senhor Silva básico e “passista” é capaz de dizer; é só retórica.
Então e a carga fiscal, e as gorduras, e a Madeira, e os tumultos vindouros, e a reforma do Estado, e a banca, e a economia, e a Europa, enfim, a substância?
O Sr. Presidente parece o meu boletim do euromilhões semana após semana - BRANCO.

6 de setembro de 2011

O frenesim do professor Nogueira

Nunca vi um ministro tratar tão mal um sindicalista como Maria de Lourdes Rodrigues tratou Mário Nogueira da FENPROF. Lembro-me de um célebre e animado Prós e Contras (ou prós e prós, como se preferir) em que a ministra respondeu às questões colocadas por todos os participantes e, olimpicamente, ignorou Mário Nogueira como se ele nem lá estivesse.
Nesse tempo estava imbuída do espírito Thatcher e achava que ia “partir a espinha aos sindicatos”
Mário Nogueira manteve a compostura, passado algum tempo pôs 100 000 professores na rua e a Dra. Rodrigues encostou às boxes em 2009 depois de se arrastar penosamente já com o motor gripado e os pneus esfarrapados.
Mário Nogueira, seguindo a cartilha, certamente dirá que as grandes realizações são sempre do colectivo; porém, lá bem no seu íntimo não terá acreditado um pouco que aquelas manifestações foram também um êxito pessoal, e que conseguiria pôr 100 000 na rua cada vez que quisesse?
Puro engano. Os professores foram para a rua porque estavam profundamente feridos no seu orgulho pessoal e de classe, transformados em mangas-de-alpaca da senhora ministra, veladamente acusados de classe preguiçosa e cheia de mordomias imerecidas. Muitos nunca lá tinham estado, nem nunca tiveram qualquer ligação ao sindicato, e este apenas organizou (bem) um enorme descontentamento
Não sei se Mário Nogueira percebeu isto ou não, só sei que, desde aí, desatou a marca protestos atrás de protestos (o próximo é dia 16 de Setembro), sem cuidar de saber se há “condições objectivas e subjectivas” para os realizar com êxito, isto é, com impacto social, grande adesão, e no tempo certo; em suma, vai banalizando o próprio protesto. Afigura-se-me que este imoderado frenesim vai fazer com que também ele, a prazo, encoste às boxes com o motor gripado e os pneus em frangalhos.
Será uma pena. Bons sindicatos e bons sindicalistas fazem agora mais falta do que nunca.

5 de setembro de 2011

Gordura localizada

O “velho” PSD começa a não aguentar mais o rabo na cadeira, parece que ela tem picos. Manuela Ferreira Leite, Vasco Graça Moura, Marques Mendes, já vieram dizer que assim não dá e que o “rapaz” está a esticar tanto a corda que ela vai partir.
O “rapaz”, ex-jotinha cheio de traquejo partidário, sabia que tinha que mentir muito para levar a sua avante (salvo seja) e foi o que fez. Disse em campanha tudo ao contrário do que planeava, disse uma coisa cá dentro e o seu contrário lá fora, tomou o freio nos dentes à boleia da troika que chamou com o chumbo do PEC IV (é bom lembrar que, logo aí, para dentro disse que era por ser demais e no dia seguinte, para fora, disse que era por ser de menos) e parece agora um elefante numa loja de porcelanas.
Depois de aumentar impostos até ao limite, atirou-se finalmente à “gordura do Estado”. Esta, afinal, estava toda na cintura, como é habitual; era gordura localizada – na saúde, educação, segurança social.
Manda o ministro das finanças anunciar uma cirurgia rápida e a frio (é preciso poupar) e…já está!
Não deu a cara? E para que havia de dar? Já sabemos que a culpa é toda do anterior governo. Não é sempre assim governo após governo?
Dra. Manuel Ferreira Leite, a senhora foi a primeira a chamar mentiroso a Sócrates com todas as letras; pois aqui estou, sentada, à espera de ouvir mais alguma coisita que ache por bem dizer.
Sabemos que se acha diferente, e melhor; por isso lhe deixo a pergunta - 
será capaz de repetir a vernacular proeza e chamar mentiroso a Passos Coelho com todas as letras?

2 de setembro de 2011

À esquina

Apareceu há alguns dias à esquina duma importante avenida de Lisboa.
Que idade terá? Setenta? oitenta? tanto faz. Pequenina, encolhida e enrugada, dispõe sobre uma caixa da EDP meia dúzia de pares de cuecas de senhora; num modelo fora de moda, exibem cores também elas fora de moda, mas que insinuam alguma alegria na intimidade – rosa, amarelo, azul, verde.
Sentada num banquinho, se lhe apetece o sol frouxo deste verão encosta-se ao semáforo; se está a chover, senta-se ao lado das suas cuecas, todas elas protegidas pela varanda cimeira.
Não anuncia, não oferece, não pede. Apenas está, e espera.
Vê-se que nunca aprendeu a vender, que não tem jeito nem gosto pelo negócio; vê-se que não quer esmolas, que apenas quer continuar a viver.
Parece uma folha seca, pronta para ser levada pelo vendaval da crise.
Ao vê-la apetece gritar; é que eu também sou ela, e um país que trata assim os seus velhos não se dá ao respeito, não se respeita nem merece respeito.

1 de setembro de 2011

E?

Ontem, quando ouvi Passos Coelho a perorar na televisão, já depois daquela conferência de imprensa do ministro das finanças cheia de chama e boas notícias como de costume, apeteceu-me truncar uma célebre frase. Tirando um acento e mudando a pontuação, fica apropriadamente:


E a economia, estúpido?

A casa

Não me apetece falar da Líbia, nem das secretas, nem do Álvaro, nem do Pedro, nem do Gaspar, nem do comércio a fechar, nem do atestado de pobreza que é preciso ter para comprar o passe social, nem do furacão que o não foi, nem da alegria da UE por sermos tão atinados, só me apetece fazer um post muito politicamente incorrecto sobre a Casa das Histórias de Paula Rego em Cascais.
Hoje em dia, quando vamos a um museu construído de raiz, parece que o edifício está em competição com a arte que tem dentro. Todo ele é um “olhem para mim” e, em verdade se diga, geralmente vale mesmo a pena olhar, e olhar, e olhar, e deixarmo-nos envolver com a criativa e bela arquitectura de alguns dos nossos arquitectos. Estes, ainda aspiram ao belo; a arte há muito que se deixou disso. Por isso as romarias de visitantes fazem-se mais para ver o edifício do que o que ele contém.
A Casa das Histórias não é excepção. Quanto ao conteúdo, calhou-me ser preenchido por duas exposições de Paula Rego – “Oratório” e “O Corpo tem mais cotovelos” e nenhuma traz novidades de maior.
Sem deixar de lhe reconhecer a mestria da técnica e a força que caracteriza todo o seu trabalho, sempre acho que ele é produto duma mente povoada por agressivos fantasmas que nunca de lá sairão. Imaginação a rodos carregada de sexualidade mas sempre (ou cada vez mais) perversa. Tudo o que é mau e feio nos humanos, lá está.
Quando saí, e a doçura dum sol que nem parecia de Agosto me bateu na cara, respirei fundo e perguntei-me: mas afinal acabo de sair da Casa das Histórias ou da casa dos horrores?
É inconveniente dizer estas coisas, eu sei, mas mesmo assim, eu digo.
Je m’en fous

31 de agosto de 2011

Os nossos 5 sentidos


Eu escuto
Tu escutas
Ele escuta
Nós escutamos
Vós escutais
Eles escutam


E atão? qual é o mal?
São coisas lá”deles”,pá!

Moral da história: enquanto usam o ouvidinho para escutar, abocanham a democracia. Porque é que a gente não os “apalpa”?
Ora, porque gostamos de fazer de cegos e nunca nos cheira a esturro.

Sueco não bate em menino.Talvez menino bata em sueco.

Eu cá sou do tempo da lambada. Não aquela dança do século passado, mas aquela outra sinónima de estalada. A minha mãe tinha a mão leve e muita pontaria com ela; nunca caíam no chão. Umas eram justas e outras injustas, mas isso é pecado e dúvida que todos os pais carregam.
D. Luísa, da mesma geração, costumava dizer-me que até aos 5 anos há uma ligação directa do rabo ao cérebro – uma palmada no rabo e acende-se uma luz no cérebro. Criaram filhos, 10 no total, de todos se orgulham e todos se orgulham delas.
Segundo notícia do Jornal de Notícias, um italiano de sangue quente, estando de férias na gélida Suécia, deu uma estalada no filho de 12 anos que estava a fazer uma birra na rua (e provavelmente a incomodar todo o mundo à sua volta) e isso é PROIBIDO na Suécia.
Logo, o italiano foi preso e vai ter de ficar na Suécia até 6 de Setembro, dia em que vai a julgamento.
Uma coisa é espancar um filho e outra bem diferente é dar-lhe uma estalada se está a fazer uma birra, acho eu, mas os assépticos suecos acham que é tudo igual. Ou muito me engano ou eles ainda vão conseguir transpor isso para a legislação comunitária, como a calibragem dos peros, e cá a malta de sangue quente vai ficar bem lixada.


30 de agosto de 2011

Dear Steve e companhia

Eu sei que isto não interessa nada aos fervorosos adeptos de Steve Jobs e dos seus brinquedos, mas interessa-me a mim e, agora que tanto se falou dele, também eu quero lembrar algumas coisas.
É fácil fascinarmo-nos com os itudo (iPod, iPad, iPhone), mas convém não esquecer o que está por detrás deles e, lamentavelmente, não é só a criatividade do dear Steve. Se os podemos comprar relativamente baratos, dada a quantidade de habilidades que fazem, e assim encher os bolsos do Jobs e companhia, é porque centenas de milhar de chineses são escravizados nas fábricas da Foxconn.
Esta fábrica nasceu em Taiwan e é hoje a maior fabricante mundial de componentes electrónicos. Instalou-se na China em 1988 na cidade de Shenzhen. A 30 minutos desta cidade situa-se o grande complexo da fábrica onde trabalham 300 000 pessoas; não só trabalham mas também vivem, porque a fábrica oferece alojamento e outras “mordomias” como piscinas, por exemplo, que ninguém consegue usar porque é frequente cada operário ter um horário semanal de 80 horas. No ano passado, mais de uma dezena de jovens operários suicidaram-se e muitos outros o tentaram. As condições de trabalho nessas 80 horas são desumanas e de tal modo repetitivas que me fazem lembrar, segundo as descrições, os “Tempos Modernos” de Chaplin – não se consegue parar a mão quando se sai do trabalho.
Em consequência da onda de suicídios, foi ponderada a diminuição do número de horas de trabalho e um aumento do salário que, em média, é de 90 dólares por mês.
Claro que a Apple não é a única cliente, tem boas companheiras na HP e Sony, por exemplo.
Quando nos divertimos com os nossos brinquedos inventados pelo Steve e simultaneamente nos queixamos da vida, seria bom que nos lembrássemos que ainda vivemos na melhor parte do mundo mas que, se não tomarmos conta dela, há por aí muita gente com vontade de a transformar numa imensa China.
Ou talvez nem cheguemos a isso, visto que o multimilionário chinês dono da fábrica, planeia, nos próximos três anos, para reduzir custos com os trabalhadores, substituí-los por um milhão de robôs.

29 de agosto de 2011

Estranho país, Israel

No Museu do Chiado, pude ver recentemente um vídeo de Nira Pereg – Sabbath 2008, em que se assiste ao encerramento ao trânsito de zonas ultra-ortodoxas de Jerusalém, para celebração do Sabbath, encerramento levado a cabo pelos próprios judeus ultra-ortodoxos, com autorização do município.
Não deixa de ser bizarro, no século xxi, ver aqueles homens e crianças de cabeça coberta, roupa preta e trancinhas a impedir a circulação de todos os outros cidadãos.
Veio-me à memória um artigo de Amos Oz, o mais conhecido escritor Israelita, que o DN publicou não há muito tempo, em que o escritor fala dos movimentos dos jovens acampados (lá também) e da situação actual de Israel, apontando especificamente o custo destes cidadãos para o Estado como um das razões para as dificuldades sentidas, entre outras (os milhões gastos a construir colonatos e a desigualdade distributiva). Escreve ele:


…Em segundo lugar, nos montantes astronómicos canalizados para as escolas ultra-ortodoxas, onde crescem gerações de vagabundos ignorantes, cheios de desprezo para com o Estado, o seu povo e a realidade do século xxi.

Depois, ainda me lembrei que a rua de Lisboa onde se situa a embaixada de Israel também tem uma barreira que a fecha ao trânsito.
E penso ainda: estranho país este, Israel, que parece só saber viver levantando muros e barreiras.
Nota: a imagem pertence ao vídeo de Nira Pereg e foi retirada do site do MNAC.

26 de agosto de 2011

Não percebo

Ser bom repórter, em português, é dar o corpo (e a cabecita) às balas?
Ou isso é só estupidez igual à do operário machão que não usa capacete exactamente porque é muito macho e muito estúpido?
Ver para crer

Ricardo Jacinto no Chiado 8

Até 14 de Outubro, e naquele local tão simpático que é o Largo do Chiado, no belo edifício da seguradora Fidelidade, pode ver-se uma excelente exposição de Ricardo Jacinto.
Com o título O Corredor, é constituída por duas salas, inicialmente escuras que nem breu, onde se projectam vídeos, e um espaço entre elas a que se chamou Foyer. Num dos vídeos vê-se a “História do pinheiro e do lobo” e no outro a “História da água e do avião”
Os vídeos correm em simultâneo, o que não permite vê-los em simultâneo mas permite ouvi-los em simultâneo. Se no 1º há uma ligação ao exterior com a festa do pinheiro em Guimarães e o biólogo que imita a voz do lobo, no 2º o artista remete-nos para os espaços fechados duma piscina e duma câmara anecóica para treino de pilotos.
No Foyer encontram-se, num pequeno ecrã, imagens de depoimentos dos intervenientes nos vídeos e o respectivo som em simultâneo, que nos vem dos quatro cantos da pequena sala, numa perturbante cacafonia inicial; porém, aos poucos, o ouvido e a visão do espectador vão discernindo qual o som que corresponde a qual imagem. É precisamente quando o conseguimos que percebemos que isso não é o mais importante, que os vídeos não pretendem fazer nenhuma narrativa ou ter um sentido.
A subjectividade é, por ali, rainha, e os nossos sentidos e percepção são convocados pelo artista para uma experiência que exige do espectador muito mais que a disponibilidade dum olhar passivo.
É uma boa experiência; vale a pena ir até lá para a ter.

25 de agosto de 2011

Sumário




- A Madeira está falida, de propósito, para a gente pagar. lol
- O Relvas contratou um feroz comunista do blog 5Dias.net e este aceitou para ganhar dinheiro mas afinal vai perder dinheiro. Os bloggers andam todos à porrada, ou melhor, ao insulto, por causa disso. lol
- TGV outra vez? Sim, não, talvez, quem sabe? lol
- Amorim diz que não é rico, é trabalhador. lol
- Passos não tem conta bancária. E só tem um utilitário. lol
- Mário Crespo foi convidado para Washington mas afinal não foi convidado. lol
- Seguro desapareceu para parte incerta e o PS nem oferece alvíssaras. lol
- Notícia mesmo séria: o Miguel Bombarda fechou.

24 de agosto de 2011

Já sei onde é que a Moody's desembarcou

Acho que já percebi porque é que a Moody’s nos classificou como lixo. É que eles, à chegada, desembarcaram no terminal rodoviário de Sete Rios.
O espaço foi inaugurado, como provisório, claro, em 2004 e desde aí ninguém mais lhe ligou peva.
Quem é que, até aqui, viajava de autocarro? Os pobres, claro, e para esses, geralmente feios, porcos e, às vezes até maus, qualquer coisa serve.
Tudo parece intocado naquele local, excepto pelo tempo. Papeleiras e cinzeiros, ao fim de 7 anos a servir mais de 7000 pessoas por dia, apresentam-se coxas do reumático, com muitas manchas na pele, queimaduras de primeiro grau e problemas sérios de coluna. Lá para o fim do dia o lixo é tanto que elas se recusam a engolir mais e os cinzeiros, vítimas de transeuntes apressados, fumegam como chaminés de siderurgia. Ao mesmo tempo, os ecrãs de chegadas e partidas podem  entrar em descontrolo emocional sendo possível ver que um autocarro com chegada prevista para as 19h45 às 17h30 já CHEGOU.
O linóleo do chão do bar foi entregue a um pintor revivalista da Op art e, o dito bar, apesar de amplo, apresenta apenas quatro raquíticas mesas altas onde ninguém se pode sentar, não vão os estafados passageiros pensar que estão nas Docas. Na casa de banho das senhoras, o dito pintor Op também fez o seu trabalho no linóleo; além disso, cada torneira tem seu estilo, mas em comum têm o facto de todas pingarem sem interrupção. No tecto, falta um painel, pelo que, enquanto se espera na cordata fila, podemos admirar os píncaros do imóvel; quanto aos autoclismos, trabalham por turnos.
Fantástica mesmo é a sala de entrada. Muito ampla e luminosa, serve as bilheteiras e os WC, e não serve para mais nada, visto que não há um único lugar para sentar; com aquele tamanho suponho que não se pode sentar mas pode-se andar de patins. Passageiro está cansado e carregado? pois sente-se na rua, desfrutando a clemência deste clima, ou bem juntinho aos autocarros a respirar o fumo dos escapes. Mas, mesmo aí, atenção, nada de puxar do cigarrito que não se quer cá a estação poluída.
Ó senhores da gestão daquela coisa, sabemos que para pobre “bacalhau basta”, mas eu tenho a certeza que a Moody’s entrou por ali, ou não nos teria classificado como LIXO.
E eles podem voltar.

23 de agosto de 2011

O óbvio e o menos óbvio

Ao fim de 37 anos de democracia, o voto dos portugueses tornou-se mais ou menos previsível a cada acto eleitoral.
Quando, no dia 5 de Junho foram mais uma vez chamados a votar, a sua vontade de mudança era tão grande que, previsivelmente, a maioria optou pelos partidos que, com toda a certeza, garantiriam essa mudança; outros, incapazes de pôr a cruz em partidos com que não se identificam, mas desejosos de mudança e estabilidade, escolheram o voto em branco, conscientes de que o resultado seria o mesmo. Esqueceram esses que também na mudança os fins não justificam os meios, e que a estabilidade pode ter um alto preço ou não se traduzir em nada mais que uma paz social muito podre.
Mas mudar era imperioso; porém, os portugueses não perceberam, julgo que até hoje, que o PSD de Passos não tinha nada que ver com o velho PSD, esse sim, seu velho conhecido. Pois se até o velho professor Marcelo, tão perspicaz e inteligente, continua a comentar o governo como se ele fosse constituído pelo velho PSD…
Com o país ainda de férias, só mais lá para a frente a maioria será confrontada com as (poucas) medidas já em vigor e as (muitas mais) que aí vêm. A título de exemplo vale a pena referir que, hoje, 5 euros não dão para mais que duas viagens ida e volta de Metro.
Este governo, eleito com o voto desesperado dos portugueses, vai destruir o que levámos 37 anos a construir.
Com a sua fúria de ser mais duro e rápido (mas sempre com os mesmos) que a troika, vai levar os portugueses à penúria e a um passado que as novas gerações desconhecem.
Quem dera estar enganada, mas acho que é só esperar para ver.
 



22 de agosto de 2011

João Penalva no CAM

“Trabalhos com texto e imagem” é o nome da exposição antológica de João Penalva que o Centro de Arte Moderna da Gulbenkian exibe até 9 de Outubro de 2011.
Constituída por fotografias, vídeos, textos, pinturas, esculturas e instalação, nela vamos descobrindo as múltiplas facetas dum artista a quem nenhuma forma de expressão é estranha. Bailarino, pintor, actor, escritor, tradutor, gráfico, curador, cineasta, fotógrafo, poderia ter sido também escritor, porque aqui encontramos também um bom narrador e contador de histórias (reais ou imaginadas), que até nos podem fazer rir: eu ri, e ouvi um jovem que estava por perto dar umas boas gargalhadas.
Porém, visitar esta exposição que ocupa todo o CAM, excepto a Galeria -1, exige tempo, muito tempo, porque não se trata apenas de ver, mas também de ler.
Ouso por isso dizer que o tamanho desta exposição é quase um absurdo.
Por mim, estive lá duas horas e só vi uma parte. Com muita pena minha, que gostaria de ter visto mais, as pernas disseram-me para ir embora, e eu fui. Pelas minhas contas, para ver e ler tudo, precisaria de lá voltar ainda umas três vezes. A quatro euros cada vez…é fazer as contas, como dizia o outro.
Quem quiser ficar-se por uma única visita, dependendo da sua condição física e do número de vezes que vai ao ginásio, pode ficar com um visão maior ou menor do excelente trabalho dum dos nossos  mais internacionalizados artistas.
O catálogo que acompanha a exposição não desmerece; com abundantes reproduções, tem textos em português, inglês e dinamarquês de Rachel Withers, Bruno Marchand e João Nisa (cinema).
Preço, 40 euros.
Enfim, luxos.




20 de agosto de 2011

Um bom conselho

Não recomendo o deserto ao viajante que já tem o deserto dentro de si. Não há pior encontro. Para sobreviver emocionalmente ao deserto é necessário um grande cantil emocional de interesses, afectos, curiosidades e planos de futuro. Se vamos frágeis e vazios de significado para esse encontro, podemos não aguentar.
Gonçalo Cadilhe, Expresso, Única, 13/08/2011
                                                       

19 de agosto de 2011

Vestido novo

O blogue tem, a partir de hoje, um vestido novo, sujeito a novos acertos.
Espero que gostem!

Lisboa na Rua


Uma boa iniciativa que os lisboetas acolhem com agrado e boa participação. Imagens de ontem ao fim da tarde no Largo S. Carlos com a Orquestra Jazz de Matosinhos.
Aproveitemos.




18 de agosto de 2011

Ó Mourinho

 

Mourinho é um português de sucesso; Mourinho é um dos portugueses mais conhecidos no mundo; Mourinho ajuda a levantar o ego de muito português injustiçado, mas Mourinho está cada vez mais arruaceiro. Ó Mourinho, tem lá calma, pá, que para pior já basta assim e tudo o que a gente não precisa agora é de ver um português a levar um puxão de orelha dum espanhol depois de lhe teres metido o dedo no olho.
Haja paciência! E, já agora, maneiras







17 de agosto de 2011

Ana Vidigal – “the brain is deeper than the sea”.

Pode-se gostar de arte e de visitar exposições, mas ouvir os artistas visuais a falar do seu trabalho é, à partida e garantidamente, uma experiência que vale a pena ter.
O Museu do Chiado, que no primeiro semestre deste ano aumentou em 63% o número de visitantes em relação ao mesmo período do ano passado (nem tudo são más notícias), tem a decorrer um programa a que chamou “Outros Olhares, Novos Projectos”. Convidou vários artista para que cada um escolha uma obra do museu e produza outra para com ela dialogar.
Neste momento, o olhar e o projecto são de Ana Vidigal, que escolheu o quadro de José Malhoa, “Praia das Maçãs”. Colocou-o em confronto com grandes impressões a jacto de tinta de páginas do seu próprio álbum de fotografias da infância passada na mesma praia, e feito pela sua mãe. Na adolescência, Ana Vidigal retirou as fotos e distribuiu-as pelos amigos, pelo que agora vemos apenas as palavras escritas pela mãe, legendando as imagens, e os cantos que seguravam as fotografias. No texto que acompanha exposição, escrito pela artista, lê-se:


“Mostrar o vazio. Mostrar aos outros que o cérebro, a memória e o que cada um inventa para a sua própria “história” é muito mais profundo que o mar. Ver está muito para além do (nosso) olhar.”


Tudo isto e muito mais explicou Ana Vidigal numa conversa com os visitantes, na sua maneira simples, despretensiosa, directa, fluida, por vezes irónica. E, sendo a ironia um traço característico de Ana Vidigal, não se estranha o subtítulo por ela escolhido (projecto ana/malhoa) que primeiro se estranha e depois diverte. A exposição completa-se com uma fotografia actual do local pintado por José Malhoa e com a frase do poema de Emily Dickinson “the brain is deeper than the sea”. Uma vez que não há anúncio de mais conversas destas, quem visitar a exposição precisa absolutamente de ler o texto citado, escrito pela artista, e que se encontra disponível à entrada do espaço expositivo.

14 de agosto de 2011

Domingo com Tejo e tudo

Ao contrário de muitos, não me incomoda que o comércio da Baixa e Chiado esteja fechado ao domingo, sobretudo se for verão. Comércio aberto convida ao consumo, atrai para si mesmo e distrai de tantas outras coisas que, na pressa dos dias, nem notamos.
Domingo de verão na baixa de Lisboa é dia vazio de autóctones, a não ser os que vão para a missa na igreja dos Mártires, e as ruas são deixadas aos turistas. Há-os de todas as idades mas geralmente são jovens, com as suas mochilas, calções, saias largas, sandálias em pés sujos, guias na mão, fotos por tudo e por nada, risos de tudo e de nada, e linguajar em múltiplas modulações.
Os bancos á sombra das árvores no largo do S. Carlos convidam a sentar, e o convite é aceite; subitamente reparo, e pela primeira vez VEJO, a horrível escultura que se perfila diante da bela e harmoniosa fachada neoclássica do Teatro S. Carlos, junto ao prédio em que nasceu Fernando Pessoa.
Olhei-a de todos os lados, girei para a direita, para a esquerda, fui pelas costas e subi pela frente, e não mudei de opinião – horrível.
Então, investiguei
O seu autor é Jean-Michel Folon, artista belga já falecido; foi comprada pela autarquia lisboeta em 2001, andou por aí, até que em 2008 foi colocada onde agora esbarrei com ela. A coisa não é má, é péssima - uma figura de homem em bronze, hirta, com os braços atrás das costas e um livro enfiado na cabeça (e em vez dela). Na capa do livro está escrito Pessoa, e na contracapa Lisboa. O conjunto é assustador. Virei costas e continuei o caminho pela Rua Serpa Pinto abaixo, donde logo vislumbrei o rio com o seu azul limpo, puro, luminoso e mediterrânico.
Nesse exacto momento, perdoei a todos os Folon deste mundo.

11 de agosto de 2011

Nem preto, nem branco

A blogosfera e os jornais estão cheios de comentários sobre os acontecimentos de Londres. Para uns, os jovens devem ser desculpados porque a culpa é do “sistema”; para outros, são pura e simplesmente uns criminosos, desordeiros e ladrões.
Como se sabe, nada é só preto ou só branco e por isso eles são criminosos, desordeiros e ladrões, sim, mas o “sistema” também tem a sua dose de culpa.
Alguns serão toda a vida apenas criminosos, desordeiros e ladrões, porque essa é a sua natureza, e há disso em todo o mundo, outros serão apenas fruto dum multiculturalismo falhado, dum capitalismo de casino e sem vergonha, de políticas em que o futuro e a esperança não entram.
Por isso repito: a Europa deve estar preocupada com a selvajaria mas também com a raiva que nidificou no seu seio. E se não pode, de todo, viver sem os emigrantes (e as suas 2ª e 3ª gerações) tem que cuidar deles como dos seus.
O que aconteceu em Londres foi aterrador, com muitos protagonistas destituídos de quaisquer normas de conduta ou cidadania mas, por todo o mundo, jovens com causa saem à rua e enfrentam o poder, como está a acontecer no Chile ou em Israel.
Sim, o futuro já não é o que costumava ser e a insegurança e falta de perspectivas generalizadas só podem tornar cada vez mais frequentes cenas como as que vimos em Londres, pregados à cadeira em frente ao televisor.

9 de agosto de 2011

O elevador

O elevador do hotel da praia é uma espécie de Arca de Noé dos tempos modernos.
“Sobe que sobe, desce que desce”, sempre carregando gente no seu bojo, mas também tralhas, aromas e estados de alma
Pela manhã, o elevador transporta restos de sono e sonhos vestidos de calção, t-shirt e sandálias. Geralmente não tem cheiro, mas pode pairar no ar um subtil aroma a sabonete.
Ao longo do dia carrega homens, mulheres, velhos, novos, crianças de todos os tamanhos, mas também sacos de praia a abarrotar de “coisas”, toalhas, sombrinhas, cadeiras, colchões, carrinhos de bebé, cadeiras de rodas, baldes, pás, chapéus. Enfeita-se então de fato de banho ou biquíni, saída de praia, óculos de sol e chinela no pé. Cheira a sal e sol, protector solar e suor.
Leva sempre muitos, apertadinhos uns contra os outros; quase se pode apalpar a claustrofobia, o mal-estar ansioso, o desagrado pela excessiva proximidade de corpos estranhos, a sufocante ausência de espaço vital, o cansaço e o silêncio.
Ao pôr-do-sol o elevador desce já lavado; jovens de cabelo ainda molhado, senhoras bem penteadas (como o conseguirão?).
No ar misturam-se aromas de todas as águas-de-colónia da moda, e veste-se com vontade de parecer bem.
De noite, volta a subir e a cheirar de novo a sono e sonhos, mas também a sexo, álcool, erva, azia e escaldão.
Por umas horas, descansa.
Para logo recomeçar o seu interminável “sobe que sobe, desce que desce”.

8 de agosto de 2011

Estado-providência

O Estado-providência, em suma, nasceu dum consenso transpartidário do século xx. Foi implementado, na maioria dos casos, por liberais ou conservadores que haviam entrado na vida pública muito antes de 1914, e para quem o fornecimento público de serviços médicos universais, pensões de velhice, subsídios de desemprego e doença, educação gratuita, transportes públicos subsidiados, e outros pré-requisitos de uma ordem civil estável, representavam não o primeiro estádio do socialismo do século xx mas o culminar do liberalismo reformista do fim do século xx.
…os Estados-providência “socialistas” do século xx construíram-se não como uma guarda avançada da revolução igualitária, mas para proporcionar uma barreira contra o regresso do passado: contra a depressão económica e o seu resultado político polarizador na política desesperada, tanto do fascismo como do comunismo. Os Estados-providência eram portanto Estados profilácticos. Foram concebidos de forma muito consciente para responder ao anseio generalizado de segurança e estabilidade…
Graças a meio século de prosperidade e segurança, no Ocidente esquecemos os traumas políticos e sociais da insegurança em massa. E assim nos esquecemos do porquê de herdarmos esses Estados-providência, e o que os justificou.
Retirado de:
O Século XX Esquecido
Lugares e Memórias
Tony Judt, Tradução de Marcelo Felix, Edições 70, LDA., 2010

Está na hora de recordar ou aprender, digo eu, agora que tudo aponta para um regresso ao passado. O Estado-providência não foi uma boa invenção de políticos dados à caridade e que os estados hoje já não podem suportar; foi terapêutica profiláctica contra males, para nós inimagináveis, mas que nos espreitam de novo.

5 de agosto de 2011

E Pitta anima a silly season

Conhecido bloguista foi a Roma passar uns diazitos e comemorar 1 ano de casamento.
À chegada aqui à parvónia (ou será que reporta ainda de Roma? pelo menos ameaça com um continua), num post a que chama Férias Romanas 1, faz o relato pormenorizado de hotéis, cafés, esplanadas, preço de chá e bolo, dá nota a restaurantes numa escala de zero a vinte, escolhe a geladaria da sua preferência, analisa a “canalização” das empregadas da casa de chá achando-a em pior estado que a das freiras que viu no Vaticano e vai por aí fora até ao já anunciado jantar comemorativo. Termina nesse ponto para, segundo ele, “evitar provocar urticária à matilha soixante-huitard.”
Ó Eduardo, eu se calhar pertenço à matilha, mas olhe que urticária provoca-me o Sol, que é uma Estrela.
Posts destes mandam-me directa para o Kompensan.

Escalas do Levante

Quando me apetece um livro que me agarre desde a primeira frase e me envolta até ao fim, posso escolher vários autores, mas um valor seguro que nunca me desilude é Amin Maalouf.
Grande escritor e superlativo contador de histórias, libanês por nascimento e francês por adopção, faz como nenhum a ligação histórica e cultural do oriente/ocidente. As suas personagens corajosas, às vezes trágicas, são carregadas de humanidade e em todas podemos encontrar um pouco de nós
Neste livro, na página 170, encontrei uma frase do personagem principal que sabe bem ler nos tempos que vivemos – Mesmo quando não se vê luz ao fundo do túnel, é preciso continuar a acreditar que há uma luz, e que ela surgirá.
Quem não gosta duma boa história, ainda por cima bem contada?
Recomenda-se:
Escalas do Levante
Amin Maalouf
Difel

4 de agosto de 2011

Refugiados 2

Ouvi ontem dizer num telejornal que, actualmente, existem no mundo 44 milhões de refugiados.
O número é brutal mas António Guterres, Alto-comissário da ONU para os Refugiados, disse que este estava a ser um bom ano porque os países vizinhos dos emissores de refugiados (países árabes, sobretudo) estavam de fronteiras abertas e com boa colaboração, ao contrário da Europa.
Acrescentar o quê? Já aqui escrevi sobre isso e os Anders Breivik deste nosso velho continente mostram como é forte a nossa tendência para escolhermos os caminhos das trevas já bastas vezes trilhados.

3 de agosto de 2011

Dúvidas climáticas

Desde 2006, quando Al Gore apresentou Uma Verdade Inconveniente sobre as alterações climáticas, a paranóia tem vindo em crescendo na retórica, e quase exclusivamente na retórica.
Não duvido que podíamos ser muito melhores zeladores desta casa que a todos aloja e que se chama planeta Terra, mas parece-me que muitos vão ganhando bom dinheiro com a questão ecológica que se transformou, por um lado em medo (mais um medo), por outro em moda, e por outro ainda em negócio rentável.
Sempre me pareceu que o Homem, nos seus infinitos sonhos de grandeza, se considera muito mais importante do que aquilo que de facto é, talvez por ter sido tão marcada por Carl Sagan, que foi a primeira pessoa a dizer-me que nada mais somos que pó de estrela.
A revista Única do Expresso desta semana traz um interessante entrevista com Luís Carlos Molión, climatologista brasileiro, que vai bem mais longe que eu no seu cepticismo. Afirma ele que os responsáveis pelas alterações climáticas (que não são de agora, mas de sempre), são os oceanos e o sol, e que a terra vai arrefecer nos próximos 20 anos.
Quando lhe é perguntado se não há influência da actividade humana nas alterações climáticas da Terra responde que não, porque apenas 7% da superfície da Terra é manipulada pelo homem, e este apenas modifica o ambiente local em que vive.
Eu prefiro ter dúvidas a ter medo, detesto fundamentalistas de qualquer causa e penso – talvez Molión não tenha razão mas, e se tiver?
Bom, se tiver ninguém lha dará. Os negócios iniciados devem continuar, tal como o medo, não muito palpável mas já bem instalado, que sempre torna os homens mais pacíficos e acomodados.

2 de agosto de 2011

Liberdade

Quando se pretende vender alguma coisa com o artigo O em vez de UM, geralmente é conversa manifestamente exagerada.
Vem isto a propósito do romance Liberdade de Jonathan Franzen, lançado com grande estrondo em Abril deste ano. Quando em 2001 li Correcções do mesmo autor, achei que era um bom romance mas nunca mais ouvi falar em Franzen. Percebo agora que levou nove anos a publicar de novo e talvez com a pretensão de escrever O grande romance americano do século XXI.
Conseguiu-o mas apenas em tamanho; quase 700 páginas com a vida duma família americana na era Bush. Se tivesse menos 300 páginas não se teria perdido nada, ouso até pensar que seria mais difícil de realizar e mais estimulante para o leitor.
Lê-se com agrado mas está longe de ser um livro que nos fique na memória por muito tempo. Quanto a mim, também não cumpre o objectivo de Franzen em tocar o que, numa entrevista ao jornal brasileiro O Globo, classifica como o leitor ideal - alguém que “anda por aí sentindo que todo mundo parece saber o que fazer, menos ele, que todos estão seguros enquanto ele está cheio de conflitos, e que ninguém parece incomodado com as coisas que o incomodam”.
Um leitor assim sabe, mesmo sem ser cínico, que os finais felizes como o que o autor escolheu geralmente só acontecem nos filmes de domingo à tarde.
Mas, mesmo assim, vale a pena ler.

Ed. D. Quixote, 2011

1 de agosto de 2011

Ponham os olhos no Viola e metam a viola no saco

Deu-me a curiosidade para ir espreitar aqui as nomeações do governo para a Secretaria de Estado da Cultura.
Ao todo são 10 nomeações, menos que para a Caixa Geral de Depósitos, o que se percebe – cultura é cultura, Dinheiro é Dinheiro e não há cá comparações possíveis.
Foram nomeados:
3 Secretárias
2 Especialistas jurídicas
4 Colaborador/Especialista
1 Motorista
Tudo mais ou menos normal, se não se desse o caso de um colaborador/especialista ganhar 474,12€ e os outros três ganharem todos um pouco mais de 3000€.
Será especialista de quê, para ganhar tão mal, coitado? Se calhar do sabonete a usar nos WC.
Em compensação temos um motorista que deve ter abandonado a Fórmula 1 para conduzir o Viegas; é que o rapaz, de 21 anos, vai ganhar, como ordenado-base obviamente, 1866,73€.
Chama-se André Viola e é um exemplo para toda essa juventude que para aí anda a dizer que está à rasca. Vá, meninos, ponham os olhos no Viola que certamente foi à luta, não se acomodou, foi criativo e empreendedor, e por isso teve o justo prémio.
Ah, houvesse muitos Violas neste país e nem teríamos cá troikas nem coisas dessas com nomes esquisitos.

29 de julho de 2011

Pessoinhas



Sou como todos os portugueses. Se me perguntarem, respondo logo que sou contra toda e qualquer violência, mas não é assim tão raro ter vontade de bater em algumas criaturas. Lá me aconteceu hoje outra vez.
No Pessoas do Público de hoje diz-se sobre Rachel Zoe (para quem não se lembre é uma americana loira, enjoada, malcriada e neurótica que tem um programa que passa na SIC Mulher em que briga com os empregados, limpa os pés ao marido e, de vez em quando, veste umas celebridades lá do sítio), o seguinte e resumindo: o seu filho de quatro meses tem “pelo menos 14 pares de sapatos, de marcas como Ralph Lauren, ou seja, milhares de euros em sapatos que deixarão de servir ao bebé dentro de pouco tempo. Do guarda-roupa faz ainda parte um casaco de pele da Gucci.”
Ora digam lá se não apetece dar-lhe uns valentes tabefes naquela cara enjoada, seguidos de umas boas palmadas no sítio que eu cá sei. Só para ela acordar, claro.
E o Público bem podia criar uma rubrica para pessoas assim que se chamasse Pessoinhas.

28 de julho de 2011

Estamos cansados, ó bilionários!

Os 25 mais ricos de Portugal aumentaram fortunas para 17,4 mil milhões

Estamos cansados de ler sempre as mesmas notícias.
Estamos cansados de vós, ó bilionários, não por serem ricos, mas porque a vossa riqueza não produz nem redistribui riqueza.
Estamos cansados de 10 anos de crise enquanto vocês engordam.
Estamos cansados de impostos, enquanto vocês engordam.
Estamos cansados de “cortes”, enquanto vocês engordam.
Estamos cansados de aumentos, enquanto vocês engordam.
Estamos cansados de taxas, enquanto vocês engordam.
Estamos cansados de carregar a culpa, enquanto vocês engordam.
Estamos cansados. Estamos cansados. Estamos cansados.
Mas, povos cansados também fazem história. É só ler a História.