28 de fevereiro de 2011

Quem não quer ser lobo...


Duas notícias da semana passada:

“O senhor Armando Vara entrou aí como qualquer utente e passou à frente de toda a gente. Entrou no gabinete da médica sem avisar e sem que a médica percebesse que não estava na sua vez. Foi uma situação de abuso absolutamente inconfundível”. Declarações da directora do centro de saúde de Alvalade, Manuela Peleteiro

O INEM assistia de emergência uma idosa com suspeitas de estar a sofrer um enfarte no interior sua casa, na Rua da Quintinha, enquanto a ambulância aguardava para a transportar ao hospital. Como é norma o veículo fica ligado a assinalar a urgência enquanto os técnicos do INEM socorrem a vítima.
Enquanto a idosa era assistida, um elemento da PSP, que faz a segurança do ministro Alberto Martins, ordenou que a ambulância fosse retirada do local para o carro do ministro, que mora perto, passar. A viatura ao serviço de Alberto Martins ia buscar o ministro a casa.

O caminho que a governação tomou nos últimos tempos deixou o país zangado, com um profundo sentimento de injustiça e uma enorme desesperança. Além disso, os portugueses já perceberam que o trabalho político é bastante sujo, ou melhor dizendo, que os políticos sujam bastante o seu trabalho.
Neste contexto, as pequenas tropelias, com as acima contadas, ajudam, e muito, a minar ainda mais o clima e a opinião que as pessoas, em geral, têm da classe.
Na internet, como na mercearia da esquina, o que se diz é cada vez mais demolidor e até já corre por aí um panfleto digital a pedir um milhão na avenida contra os políticos, indiscriminadamente.
Ora, sem políticos não há democracia, mas uma boa parte dos portugueses não entende isto, e até talvez ache que não é importante – nem a democracia nem os políticos. As pessoas estão sedentas de alguma demonstração de decência por parte de quem as governa e, na sua ausência, e com a vida cada vez mais difícil, aumentam a sua sanha contra os chamados “ricos e poderosos” entre os quais incluem os políticos.
Quem entende que os políticos são peças fundamentais da democracia não deve ficar calado nem deixar que o desespero e o ódio primário se apoderem da opinião pública, porque o clima que actualmente vigora é demasiado perigoso para o regime.
Mas, convenhamos, fica cada vez mais difícil defender, em abstrato, uma classe que, em concreto, faz tudo para ficar indefensável.

26 de fevereiro de 2011

Coisas boas II


Alunos do Conservatório Nacional arrecadaram dez medalhas e a professora Catarina Moreira obteve o Prémio para a Melhor Coreógrafa no 8.º Dancing Olymp que terminou domingo em Berlim.
No total os alunos da Escola de Dança do Conservatório Nacional foram distinguidos com três medalhas de ouro, duas de prata e cinco de bronze, no Concurso Internacional de Dança Tanzolymp.
Na categoria de dança clássica, na faixa etária dos 13 aos 15 anos, Francisco Sebastião obteve a medalha de ouro e Ricardo Macedo a de bronze.
Na faixa etária dos 16 aos 18 anos Ryo Kato foi ouro e Kaori Koiwai, bronze.
Pedro Carneiro entre os membros do júri
Na faixa etária dos 19 aos 21 Kei Sekiguchi recebeu a medalha de bronze.
Na categoria de dança contemporânea, na faixa etária dos 13 aos 15 anos, o pódio em pleno foi português: Ricardo Macedo (ouro), Francisco Sebastião (prata), e Tiago Coelho (bronze).
Na faixa etária dos 16 aos 18 anos Andreia Mota recebeu a medalha de prata e Carlota Carreira a de bronze.
Catarina Moreira, professora da Escola de Dança, obteve o Prémio para a Melhor Coreógrafa.
O júri de 14 elementos foi presidido por Vladimir Malakhov, diretor da Staats Oper de Berlim, tendo sido integrado também pelo diretor da escola de dança do Conservatório, Pedro Carneiro

Notícia retirada do Expresso online de 24 Fevereiro 2011

25 de fevereiro de 2011

A piada das secretas


Ouvi José Sócrates responder, quando perguntado sobre as nossas relações com Kadhafi e companhia, que eram relações de Estado e que o governo, há tempo, tinha decidido voltar-se para os países do Magrebe.
Presumo que tomou como certa a continuação dos ditadores nos seus postos, provavelmente com base em informações mais ou menos secretas como aquelas de que o Público dava conta, num artigo da sua edição de 25 de Fevereiro.
No referido artigo, transcrevem-se excertos dum documento “confidencial” de 20 de Janeiro, elaborado com base em informações do adido de defesa da embaixada portuguesa em Rabat e dos serviços de informação dum país aliado.
O Cismil (Centro de Informações e Segurança Militar) elaborou um relatório sobre a situação no Norte de África e Egipto em que podemos observar a agudeza das observações e perspicácia de quem o elaborou. São ditas coisas como:
A revolta na Tunísia iria “ afectar marginalmente a situação noutros países do Norte de África, sendo improvável que situações semelhantes ocorram a curto prazo” ou “ o povo líbio parece não sentir um mal-estar por viver em ditadura”. Noutro relatório, de 31 de Janeiro, os protestos no Egipto eram “algumas tentativas oportunistas de imitar o levantamento tunisino”.
Parece que estes relatórios tomam como fontes os jornais e a internet.
Conclusões:
 - Para que teremos adidos militares nestes países? É que para ler jornais e internet não faltam assessores ao governo.
 - Quem tem secretas assim pode dormir descansado.
 - Se o ridículo matasse, já não havia adidos militares portugueses.

Os ratos abandonam o navio


Sabemos como a Europa “dormiu” com os ditadores árabes, fosse pelo petróleo, por interesse geoestratégico ou outros. Que a Europa se prostitui, não é segredo para ninguém. Infelizmente, não é a única.
Segundo notícia do Público online de ontem “Hassan al-Barghati resignou à representação diplomática da Líbia na Jordânia, onde era embaixador desde 2007, avança a agência oficial Petra. O mesmo sucedeu com os embaixadores na Índia, nos Estados Unidos, na Liga Árabe, na China, na Indonésia, e nas Nações Unidas.”
Quer isto dizer que a tradição continua ser o que era, ou seja, os ratos são os primeiros a abandonar o navio que se afunda.
Gostaria de saber se, a estes senhores, o navio nunca cheirou a podre enquanto o representavam, bem longe, e com as mordomias de embaixadores.
Sempre defendi que Kadhafi não ia sair como os outros, antes iria matar os que fossem necessários para manter o poder; também sempre me pareceu que, por isso mesmo, tem muito mais possibilidades de morrer na rua, tipo Ceausescu.
A primeira profecia já se cumpriu; espero que não se cumpra a segunda.
A propósito de ratos a abandonarem os navios, também li que José Alberto Carvalho - 16 mil euros por mês e Judite de Sousa 14 923 euros por mês, pagos por mim, pela reforma(zinha) da minha mãe e por mais uns milhões como nós), vão partir para a TVI. Desejo-lhes boa viagem, porque os ratos independentes têm todo o direito de procurar lugares onde o queijo seja mais saboroso e onde sobre muito dinheiro para as bolachinhas. Já agora, gostaria que, com a sua saída, aqueles abomináveis programas da RTP1 nos saíssem um pouco mais baratinhos.
Ora, eu sei que é difícil mas, como dizia a minha avó, “quem não pede não ouve deus”.

24 de fevereiro de 2011

Eles querem tudo


Maria João Rodrigues, ex-ministra de António Guterres e conselheira económica da União Europeia, parece ter o perfil de quem não pode ser anti-Alemanha, e por isso as suas palavras são insuspeitas.
No dia 21 de Fevereiro deu uma entrevista ao Público, da qual retiro um excerto para se perceber melhor o que a Alemanha quer e não quer com o pacto de competitividade que propõe.
“ O pacto, tal como está a ser proposto pela Alemanha, pode gerar uma dinâmica de desequilíbrios na Europa. se se continuar a insistir que só temos que convergir em matéria de défice, dívida e custos unitários de produção, vamos ter uma Europa com países a crescerem 3 por cento e outros em recessão.
(…)
Do mesmo modo que se pede um esforço aos países que têm um défice externo, tem de se pedir aos que têm superavit que expandam a sua procura, de modo a absorver a oferta daqueles países. Não faz sentido pedir à Alemanha que seja menos competitiva. Mas faz sentido pedir-lhe que consuma mais e aumente mais os salários.
No pacto, a Alemanha propõe ainda um reconhecimento das qualificações para promover a mobilidade. Estou a favor desse ponto, mas é preciso reconhecer que ele tem um risco. Tal como está desenhado, este pacto vai induzir riscos de recessão e desemprego em alguns países. Ora, esse reconhecimento das qualificações visa criar a possibilidade de os desempregados portugueses irem para onde há oferta de emprego. Levado ao extremo, isso pode traduzir-se numa fuga de cérebros de regiões em recessão em direção à Alemanha”.

Ou seja, Frau Merkel quer que a gente se dane, quer continuar a sua política de Tio Patinhas e ainda quer levar os nossos engenheiros, arquitectos e informáticos cuja formação nós pagámos.
Eu gosto muito desta senhora, tanto... que gostava que ela se dedicasse à jardinagem!

23 de fevereiro de 2011

O Amor em tempos incertos


No momento em que o sul do Mediterrâneo ora nos alegra, ora nos deixa apreensivos, opto por uma certa visão do amor através da bela prosa de Sándor Márai, par quem tiver paciência para ler tantas palavras.

“Continuo sem saber o que é amar…mas é possível saber? E saber para quê? Isso nada tem a ver com a razão. Seguramente o amor é mais do que conhecimento. Conhecer é muito pouco. Há sempre um limite…Amar é, talvez, viver ao mesmo ritmo. Um acaso maravilhoso, como se, no universo, dois planetas tivessem a mesma órbita, a mesma atmosfera e a mesma matéria. Um acaso com que não devemos contar. Talvez nem exista. Vi já algo semelhante? Sim, talvez…muito raramente…mas não estava muito seguro. Identidade na vida e no amor. Gostar dos mesmos pratos, da mesma música, da mesma maneira, rápida ou lenta, de ir na rua, do mesmo ritmo com que se buscam na cama…talvez seja isso. Como isso deve ser raro! Um milagre…Esses encontros, eu imagino-os místicos. Mas a vida real não se alicerça em tais probabilidades. Julgo que segregar hormonas simultaneamente, pensar o mesmo das coisas, exprimindo-se com palavras idênticas…eis o que eu entendo por ritmo. Mas isso não existe. Uns são mais lentos, outros, mais rápidos, uns têm medo, outros arriscam, uns são ardentes, outros, mornos. Tem de se levar assim a vida, e o mesmo para os encontros…é assim, no seu estado de imperfeição, que temos que agarrar a felicidade.”

Sándor Márai
Divórcio em Buda
Ed. D. Quixote, 2010

22 de fevereiro de 2011

Era uma vez um funâmbulo


Numa madrugada do final do verão, os habitantes de Manhattan observaram incrédulos e em silêncio as Torres Gémeas. Estamos em Agosto de 1974 e um misterioso funâmbulo corre, dança e salta entre as torres, suspenso a 400 metros do chão.

Excerto do texto de contracapa do livro “Deixa o Grande Mundo Girar” de Colum McCann, editora Civilização, 2010, vencedor do National Book Award 2009.

A 7 de Agosto de 1974, confesso que pouco liguei à notícia e dela guardo uma muito vaga recordação. Por essa altura, os que não tinham ido para o estrangeiro tinham uma revolução para fazer; por aqui aconteciam demasiadas coisas todos os dias, vivíamos o “verão quente” e pouco nos interessava o que se passava no resto do mundo. Muito mais importante era perceber, hora a hora, minuto a minuto, se a liberdade tinha vindo para ficar ou se ainda nos podia ser confiscada.
Este livro de Colum McCann pega no dia desse inusitado acontecimento, levado a cabo pelo francês Philippe Petit, para traçar um vasto quadro de Nova Iorque dos anos de 1970.
Agarrando em meia dúzia de personagens que construiu e transformou, cada uma delas, numa peça de puzzle, monta o dito puzzle inteirinho, onde tudo se encaixa no final.
O Bronx, o terrível Bronx dos anos de1970, em que tudo era miséria, droga, crime, medo, prostituição, sujidade, lugar de vida de todos os deserdados da grande cidade, é o epicentro da (s) história (s). Lá, somos apresentados às prostitutas Tillie e Jazzlyn, mãe e filha, ao padre católico Corrigon que o seu irmão tenta salvar de Deus e que cairá de amores por uma Guatemalteca clandestina, e a Gloria, que perdeu três filhos na guerra do Vietname.
Pelo caminho, conheceremos também moradores de Park Avenue, isto é, Claire, que também perdeu o seu filho único no Vietname, casada com o juiz judeu Soderberg, que acabará por julgar o funâmbulo, libertando-o a troco da realização de um espectáculo para crianças em Central Park.
Inventor de histórias pessoais muito ricas, Colum McCann, é mestre a cruzá-las, produzindo 430 páginas de texto que nunca nos aborrece, que nos pode comover mas que nunca é lamechas.
No final, numa nota do autor, ele escreve – “A literatura faz-nos lembrar que a vida não está já toda escrita: existem ainda muitas histórias para serem contadas”.
Não sendo um livro inesquecível é, sem dúvida, um grande romance.
Palavras que dele reterei por muito tempo:

NINGUÉM CAI ATÉ METADE

21 de fevereiro de 2011

Palavras de Richard Zimler

Li, na revista Única do Expresso, um artigo sobre escritores estrangeiros que vivem em Portugal.
Richard Zimler, que vive no Porto há 20 anos, diz três frases corajosas.
Assim:
 - Um dia tive uma revelação: nunca mais vou pedir desculpas por ser eu.
 - Não quero ser adaptado, tenho a lata de pensar que, às vezes, tenho razão.
 - Ficar zangado é a minha bateria.

Se pensarmos bem, ao longo da vida, é frequente não sermos nós próprios; abdicamos de o ser para corresponder às expectativas dos outros - nossos pais, filhos, companheiros, colegas, patrões, amigos, vizinhos etc.
O momento em que decidimos “nunca mais pedir desculpa por ser eu” é, como Zimler diz, um momento de revelação, o momento da verdade, da maturidade, o momento de deitar fora os antidepressivos de que, ao que parece, somos grandes consumidores. E se esse corresponder, de facto, ao momento duma vida, é impossível que se transforme no muito frequente autismo com que nos deparemos e que, com arrogância, nos dispara: “eu sou assim, e pronto”. Pelo contrário, a autêntica aceitação e afirmação do que somos conduz directamente à aceitação do que o outro é, logo, à facilidade de harmonizar posturas distintas, quando não, em conflito.
A segunda declaração está profundamente ligada com a primeira porque ter “a lata de pensar que tenho razão” é também não ter medo de se ser o que se é. Umas vezes vem a provar-se que tínhamos razão, outras vezes nem tanto, mas, em qualquer das duas situações, quem “não pede desculpas por ser eu”, nunca exige uma medalha por ter razão nem vai esconder-se debaixo da cama por não a ter.
Finalmente, ficar zangado não é só uma bateria, é frequentemente o próprio, e bendito, motor para resistir sem antidepressivos, e para cada um no seu “quarteirão” tentar melhorar um pouco a vida de todos e de cada um.
Nunca li nada de Richard Zimler, mas acho que vou ler.   

18 de fevereiro de 2011

Por aqui, alegremente, vamos


Ouvi hoje na Antena 1, que um grupo de empresas americanas se juntou e decidiu fazer, julgo que apenas aos candidatos a emprego, mas não tenho a certeza, análises de sangue, urina e saliva para detetar vestígios de nicotina.
Fumador não entra, porque fumar diminui a produtividade, dadas a interrupções para matar o abominável vício.
Igualmente ouvi que, em Espanha, se uma qualquer Pilar contratar uma qualquer Cármen para trabalhar lá em casa, a Pilar não poderá fumar em sua casa. Já tinha ouvido que, também em Espanha, vai ser proibido fumar em ruas ou parques perto de instituições de saúde ou de ensino, ou em parques infantis ao ar livre.
Não deve dar para rir, mesmo aos não fumadores, porque é demasiado perigoso.
Aceito, pacificamente, que ninguém deve fumar os cigarros dos outros, mas, aqui, o caso é outro. É fácil dizer que há uma paranoia antitabaco, e é verdade, mas a coisa vai muito para além da simples paranoia.
Os empregadores americanos alegam, para além das quebras de produtividade, com as despesas de saúde pagas pelos seguros que são obrigados a fazer para os seus empregados (perdão, para os seus colaboradores, visto que empregados já não há, e trabalhadores muito menos). Ou seja, as empresas americanas cada vez olham mais para os homens e mulheres que lá trabalham como pequenas peças da engrenagem de ganhar dinheiro, com poucos custos e muito lucro. Já não são pessoas, valem tanto como uma broca ou um parafuso. Não podem ter defeito ou partir, porque lá se vai a produtividade e, com ela, o maior lucro.
Que para isso se mandem às malvas as liberdades individuais, que os americanos tanto prezam, não importa.
Os nossos vizinhos espanhóis estão também alucinados. O legislador lá não fuma, toma LSD. A Cármen tem todo o direito de não querer trabalhar em casa de fumadores, mas usando da sua liberdade, poderia perguntar “ a dona fuma?” antes de aceitar o trabalho. A Cármen não precisa perguntar, porque a Pilar precisa de saber que está proibida de fumar na sua casa enquanto a Cármen lá estiver, seja esta fumadora, ou não.
Os Estados desistiram de controlar o que deviam – mercados, banca, bolsa, negócios financeiros esdrúxulos, e dedicaram-se a regulamentar toda a nossa vida privada.
Em Portugal, o sal do pão já tem dose certa; em breve será o açúcar nos bolos, a gordura nos queijos e por aí fora.
Na América, por agora, não se pode ser fumador mas, em breve, não se poderá ser gordo, diabético, míope ou ter uma unha encravada, para não dar gastos às seguradoras nem diminuir a produtividade. E o Estado vai estar de acordo, porque as seguradoras podem muito.
As nossas liberdades individuais, que pareciam conquistas irreversíveis da civilização ocidental, estão, com mais ou menos alarido, a serem-nos confiscadas, sob o disfarce de ser tudo para o nosso “bem”.
Ora, era bom que todos nós, fumadores e não fumadores, gordos e magros, doentes e saudáveis, tomássemos consciência desta coisa nova e terrível que nos está a acontecer.

16 de fevereiro de 2011

Aí está

A 9 de Fevereiro escrevi que esta geração não é parva, escrevi também “organizem-se porque só o coletivo pode” e eles estão-se a organizar, talvez pela primeira vez nas suas vidas.


“São 14 horas e 4 minutos de sábado, 12 de Fevereiro, e 1377 pessoas já anunciaram que vão participar no protesto da geração à rasca, marcado para 12 de Março, na Avenida da Liberdade, em Lisboa. No Facebook lê-se que o protesto vai ser "apartidário, laico e pacífico". A ideia é juntar todos os que não têm emprego, nem salários. Os que se arrastam de estágio em estágio e nunca receberam um subsídio de férias, sequer de desemprego porque nunca descontaram para isso. Os que adiam a vida na incerteza dos recibos verdes. Os que, mesmo superqualificados, resistem a emigrar. Os milhares de jovens que compõem a "geração sem remuneração" de que fala a música dos Deolinda, cuja letra surge transformada em canção de protesto, hino geracional, o que se lhe queira chamar, o importante é juntar muita gente no dia 12 de Março, para mostrar que chegou o momento de dizer basta.”
Ler toda a notícia aqui

Fascinantes gadgets


"É mais um passo da Igreja Católica no mundo digital. O bispo Kevin Rhoades da diocese de Fort Wayn, no estado de Indiana, EUA, aprovou uma aplicação para o popular smartphone da Apple, o iPhone , que tem como principal objetivo ajudar os fiéis a confessarem os seus pecados. "Confession", está à venda na Apple Store, a loja online, desde a semana passada e custa 1,99 dólares (€1,47).
Desenvolvida pela Little iApps , esta aplicação tem como principal objetivo guiar o católico através do sacramento da confissão , permitindo registar detalhadamente todos os seus pecados.
Em seguida, a aplicação pretende levar os fiéis a realizarem um exame de consciência com base na sua idade, sexo e estado civil. Mas em nenhum momento pretende substituir-se ao contacto com um padre, até porque só ele poderá absolver o católico dos seus pecados."

Expresso online, 9/02/2011

É o mercado, estúpido, e o dear Steve não perde uma.
Nada nem ninguém pode ficar de fora. Nem a fé.

15 de fevereiro de 2011

Palavras perdidas


O telefone toca
 - Estou?!
Uma voz masculina diz:
 - Estou a falar da empresa tal, que está a fazer um estudo de mercado sobre transportes para a União Europeia, e queria saber se andou de comboio no último ano.
 - Como?
Ele repete.
 - Quantas perguntas vai ainda fazer?
 - Vou perguntar sobre transportes, estações e seu uso. Aí mais ou menos meia dúzia. Queria saber se andou de comboio no último ano.
 - Como não me perguntou se me importo ou não de responder, se tenho tempo ou não, se tenho vontade ou não, a resposta é: não respondo e sugiro que ganhe maneiras. Boa tarde.
Fim da comunicação
Isto é o pão nosso de cada dia. Não acontece sempre, é certo, há empresas que já investiram muito na formação de quem nos liga, mas acontece demasiadas vezes.
Palavras como obrigado, com licença, se faz favor, não se importa, desculpe e até bom dia, caíram em desuso.
São coisas básicas dum convívio social civilizado mas, curiosamente, parece que estamos a retroceder em termos civilizacionais.
E não me venham dizer que a culpa é do dono do call centre que não investiu na formação, o que até pode ser verdade, mas esta formação deveria vir de casa e do berço, devia ter tido continuação na escola, portanto, devia estar adquirida há muitos anos.
Quando oiço dizer que os jovens só encontram trabalho no call centre, ao desligar o telefone eu penso, com pena, que, para alguns, até isso é demais. A culpa não será deles, concordo. Ninguém nasce ensinado; a culpa é dos pais e da escola que deixaram de lado as regras básicas da convivialidade.
Mais grave é verificar que adultos de mais de 50 anos, que não foram assim educados, resolveram actuar de modo semelhante. Responder a um e-mail ou a um telefonema que não seja do seu exclusivo interesse, é coisa que está fora de questão. Dar alguma satisfação a outro pelos seus actos, ou lembrar que alguém colaborou com eles, idem.
Não raro, são pessoas que se acham acima de tudo o que os rodeia, tudo criticam e de tudo desdenham. Pior ainda, às vezes são eles próprios formadores, ou, melhor dizendo, contactam com jovens a quem devem transmitir saberes vários, na sala de aula ou nos corredores da escola. 
É óbvio que a vida não volta para trás e que nunca recuperaremos o que se perdeu, mas é pena, porque são pequenos nadas que tornavam a vida bem mais agradável e confiável, sem gastar um tostão e sem perder um pingo de modernidade.

14 de fevereiro de 2011

Resposta a um amigo, com Tony Judt


A propósito do comentário colocado no dia 9 de Fevereiro,(Que enganados que estão) um amigo disse que o seu teor era passadista, parcial e com uma visão esterotipada. Como foi um Amigo, daí resultou uma animada e saudável troca de ideias.
Resumindo um pouco, o meu amigo achou que eu estava com ideias muito próximas da esquerda radical e recordou o sofrimento dos povos que viveram sob o regime preconizado pelo PCP ou BE. Achou também que incitar à contestação colectiva podia descambar em violência e que eu estava a ser incoerente porque criticava um regime em que vivo muito confortavelmente.
Ora bem, eu respondi que não esqueço o que foram os regimes comunistas, que, aliás, estão mortos e enterrados (quase), mas não pertenço ao lote dos politicamente corretos que acham que têm de estar sempre a pedir desculpa da história que aconteceu a determinado momento porque houve condições para isso (falo da escravatura, da colonização ou dos regimes comunistas com os seus gulags ou da perseguição e extermínio dos judeus, ciganos, comunistas, homossexuais etc. na 2ª guerra mundial) A história existiu, é para aprendermos com ela e não repetirmos os mesmos erros; não temos que pedir desculpa a toda a hora, nem temos que nos servir das partes terríveis do nosso passado comum para ficarmos paralisados de medo face a novos desafios da mesma história.
Não pretendi incitarar à violência mas não sou, nem nunca fui, pacifista. Defendo o debate e a concertação, sou contra guerras injustas e pela paz, mas também acho que às vezes a guerra é o último recurso para defender a dignidade dos seres humanos. Se assim não fosse o Hitler não teria sido derrotado. Pacifista sim, mas não a qualquer preço.
É certo que vivo confortavelmente mas isso não me deixa cega ou incapaz de me indignar com o facto de se poder ganhar milhões à custa de pagar salários (precários) de €500; sou apenas contra o capitalismo sem regras nem vergonha.
Foi por termos permitido a cada vez mais desigual repartição da riqueza que chegámos até aqui. Quanto mais desigual a sociedade, mais infeliz, ressentida, invejosa e violenta.
Quando escrevi que só o coletivo PODE, acho que os inúmeros exemplos falam por si - Egipto e Tunísia agora, revolução de veludo em Praga, queda do muro de Berlim, Maio de 68 e o nosso 25 de Abril que, se não fosse o coletivo que tomou as ruas não teria, talvez, passado dum golpe militar para acabar com a guerra. Reafirmo que sozinhos não valemos um pataco para o poder político e económico.
Finalmente, recomendo a leitura do livro de Tony Judt “ Um Tratado Sobre os Nossos Actuais Descontentamentos” que, não me trazendo fantásticas revelações, me ajudou a organizar o pensamento.
Na última frase do livro ele diz”…até aqui os filósofos apenas interpretaram o mundo de várias maneiras; a questão é mudá-lo.” Eu concordo.



12 de fevereiro de 2011

Vamos ficar chocados?


É uma jovem afegã de 18 anos, Bibi Aisha, a quem o marido cortou o nariz e as orelhas por ela ter voltado para a família acusando-o de maus tratos.
Esta imagem, da autoria da fotógrafa sul-africana Jodi Bieber, foi capa da revista Time de Agosto 2010 e ganhou o prémio World Press Photo 2010.
Coloco-a no meu blogue para chocar, sobretudo as mulheres que acham que ser feminista é coisa do passado, de gente que queimava o sutiã nos idos de 60 e 70 do outro século, e que isso agora não tem sentido nem é sexy.
Por mim, enquanto houver no mundo alguém que ache que pode fazer isto, e mulheres que não têm os mesmos direitos que eu, serei sempre solidária e FEMINISTA com todas as letras, e maiúsculas.

11 de fevereiro de 2011

E Mubarak partiu




Quando há uns dias escrevi que SÓ O COLECTIVO PODE, muito provavelmente alguns acharam-me extremista e incitadora da violência. Aí está a prova. Um povo inteiro, pacificamente, mesmo tendo de enfrentar arruaceiros a soldo, uniu-se e venceu.

Eu e meu computador


O meu computador ganhou vida própria, emancipou-se e decidiu que é ele quem manda.
Se eu escrevo activo, ele nem se dá ao trabalho de assinalar o erro – muda imediatamente para ativo, se escrevo factura, decide por si e escreve fatura, e segue por aí fora numa fúria corretiva, e não correctiva, qual professor paciente mas implacável.
Percebi que me tomou a dianteira e, sem aviso prévio, aderiu de alma e coração ao acordo ortográfico.
Não tomo isso como uma afronta porque não creio que daí venha algum mal ao mundo, embora também me pareça que não virá grande ganho.
Olho para as novas regras ortográficas e parece-me que este é um acordo em perda, quero dizer, é um fartote de perdas. Ele é consoantes mudas, hifenes, acentos, maiúsculas e, talvez, um monte de outras coisas que ainda desconheço.
O que sei, por agora, é que nunca mais escreverei que passei a mão pelo pêlo do gato, mas sim que passei a mão pelo pelo do gato; também nunca mais ninguém pára para ver a banda passar, só para para ver a banda passar.
Perdem-se hífenes mas ganham-se muitos erres e esses que criam novas estruturas estranhas para os olhos do leitor, como será antirregulamentar ou antissocialista.
Tudo bem, havemos de nos habituar, como sempre nos habituamos a tudo mas, cá por mim, nunca vou deixar de lamentar a perda do hífen nas formas monossilábicas do verbo haver quando estão antes de preposição. Toda a gente há-de escrever há de e eu hei-de (ou hei de) sempre achar aquilo estranho, até porque me deu uma trabalheira a aprender na escola primária e não foram poucas as vezes em que uma professora (essa também implacável mas pouco paciente) me gritou aos ouvidos – “há, tracinho, de”
Agora, adeus tracinho.
A despromoção dos meses também não me é simpática e acho mesmo que eles não a mereciam. Já não faço anos em Junho mas sim em junho e o Natal deixou de ser em Dezembro e passou a ser em dezembro.
Bom mesmo, é que ganhámos três novas letras – K, W,Y, o que nos dá muito jeito.
Acredito que me falta aprender quase tudo sobre o acordo ortográfico, mas garanto que este texto já me deu muitíssimo trabalho a escrever. É que isto de estar sempre a corrigir o computador tem o seu quê de mundo às avessas.
Assim, a partir de hoje, ele escreverá como quiser e eu obedeço.

10 de fevereiro de 2011

Os "candeeiros" de Dan Flavian



 Na sua edição de Fevereiro, a revista L+Arte publica um artigo da autoria do jurista Rui Carvalho da Silva que tem tanto de surpreendente como de divertido.
Conta ele a história da importação, em 2006, por parte de uma famosa galeria de arte inglesa, de uma escultura do também famoso artista Dan Flavin, conhecido pelos trabalhos realizados com tubos de luzes florescentes comerciais.
Sendo uma escultura, e para efeitos fiscais, deveria ser-lhe aplicada uma taxa de 5%, mas não foi o que aconteceu e a tributação foi de 20%, ou seja, a módica quantia de 36 mil libras. A galeria recorreu para o Tribunal Tributário Britânico que lhe deu razão declarando que a taxa devida era de 5%.
Contudo, a questão foi levada à Comissão Europeia que acaba de declarar que aquilo não é arte e diz mesmo “ tem as características dos acessórios de iluminação e, como tal, deve ser tratado como iluminação de parede”, ao que o advogado da galeria responde, cheio de razão, numa revista da espacialidade “ dizer que o trabalho de Dan Flavin só se torna uma obra de arte quando ligado à corrente só pode ser uma piada.”
Rui Carvalho da Silva dá o seu parecer sobre como resolver estas questões e termina, com graça, chamando a atenção para o facto de se poder considerar que” uma peça que custa 180 000 libras, não passa de um candeeiro”.
São conhecidas histórias de várias empregadas de limpeza de galerias e museus, briosas no trabalho que executam, terem posto no lixo algumas instalações feitas, exactamente, com lixo.
Contudo, na Comissão Europeia as empregadas de limpeza não mandam nada; ao contrário, não faltam por lá assessores, adjuntos, juristas, comissários, cérebros de alto gabarito  de todos os países, palrando todas as línguas do nosso continente, que se dedicam a meter-se nas nossas vidas e a regular os mais ínfimos pormenores dos nossos comportamentos diários. Ganham bem, vestem fato e gravata do nascer ao pôr-do-sol e decidem.
Nada tenho nada contra ganhar bem, falar línguas ou usar fato e gravata mas, se gastamos tanto com eles, quando não sabem porque é que não perguntam? 


9 de fevereiro de 2011

Notícia

APPLETON RECESS #2
EDUARDO BATARDA | MIGUEL-MANSO | ANA YOKOCHI 
Curadoria: Ana Anacleto e Bruno Marchand


Inauguração: Quinta-feira, 10 de Fevereiro 2011 às 22h00
Patente até 26 de Fevereiro 2011

 


 APPLETON RECESS


Appleton Recess é um ciclo de exposições colectivas assente em premissas curatoriais que privilegiam o encontro entre gerações de autores, programas artísticos e meios de produção distintos. A cada edição serão apresentadas obras de três artistas, cuja selecção pretende estabelecer um diálogo – por vezes mesmo um confronto – entre peças especificamente desenvolvidas para este evento e outras que recuperam alguma da produção menos acessível das últimas décadas da arte portuguesa. Todas as exposições serão acompanhadas por uma publicação que reúne textos, ensaios visuais ou outra documentação, e que se assume como um corpo autónomo que procura ampliar ou complementar a experiência expositiva.


Que enganados que estão


Primeiro, nos anos 1990, foi a geração rasca, “decretada” por Vicente Jorge Silva no Público. Numa manifestação de estudantes, alguém se lembrou de baixar as calças contra a ministra da educação Manuela Ferreira Leite, e aí estava o título de que ainda hoje se fala, e que para tanta coisa serve. Logo no dia seguinte veio o Ivan Nunes, então uma jovem mas muito brilhante cabeça, também no Público, pôr os pontos nos ii e chamar-lhe, corretamente, geração à rasca.
Agora vêm os Deolinda com a geração parva, mas ainda não apareceu ninguém para os rebater. Estaremos a perder qualidades se uma geração deixar, sem resposta, que a muito fraquinha cançoneta chamada “Que Parva que Sou” se transforme na sua bandeira.
Aquilo não é um hino nem pode ser uma bandeira; aquilo é apenas um lamento conformista.
Ora, eu não acredito que esta geração “precária” seja parva, porque ela já provou o contrário, mas lá que é individualista, isso é.
 Estudados, licenciados, mestrados, doutorados, saberão certamente que ninguém dá nada a ninguém, que as sociedades têm crises, que às vezes é preciso encontrar os outros que estão na mesma situação e FAZER ALGUMA COISA, é preciso dizer basta, é preciso lutar.
Sempre foi assim, e sempre foi pelo conflito, e pelo temor dele, que os governos se mexeram, e que o homem aprendeu a defender-se do homem.
A direita que tem governado o ocidente (mesmo que se chame socialista ou trabalhista) desde a era da senhora Thatcher, privatizando, liberalizando os mercados, incentivando uma sociedade individualista de sucesso a qualquer preço, sub-repticiamente tem estado a fazer o trabalhinho de meter na cabeça destes jovens que a culpa é dos pais deles, instalados em empregos seguros e com direito a reforma. Parece que, para a nova geração ter emprego os pais deviam ser despedidos e sem reforma, para não serem depois acusados de estarem pendurados nas contribuições dos filhos. O que devemos nós fazer quando chegarmos aos 60? Harakiri?
Esta retórica é perigosa e mentirosa, e vem dos mesmos que decretaram o fim da luta de classes e da diferença entre direita e esquerda, tudo isso agora alegremente substituído por uma benévola luta de gerações.
O coletivo deixou de existir, só o “eu” conta mas, de facto, só o coletivo PODE.
Esta geração não é parva, não, e vai, mais cedo ou mais tarde, perceber essa verdade simples mas de todos os tempos
Organizem-se, ou o poder político e económico não se moverá um milímetro. Aprendam a reconhecer quem vos trama e agradeçam aos pais todo o conforto de que, mesmo assim, dispõem.
Felizmente há “casinha dos pais”, esses maus da fita que, na sua juventude, também tiveram que lutar por mais justiça social e melhores condições de vida, muitas vezes fugindo à frente da polícia ou batendo com os ossos na cadeia.
Não há almoços grátis, mesmo. Para ninguém.