25 de abril de 2013

25 de Abril


 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Aquele dia começou cinzento, mas fomo-lo colorindo.
Depois, sem razão, desaprendemos o uso da cor.

Dias a preto e branco, nunca mais!

BOM DIA, DIA!


24 de abril de 2013

Eu gostava que eles fossem














Eu gostava que eles fossem, os militares do 25 de Abril, que fossem ao Parlamento amanhã, com as suas fardas de gala, com o seu cravo vermelho ao peito, com dignidade, orgulho e brio.

Olhar para eles iria fazer-me bem.

Vê-los na casa da democracia e da liberdade, naquela NOSSA casa, seria reconfortante.
Sim, eu gostava que eles fossem.

Mariquices …

23 de abril de 2013

Mais uma boca da alemã


“Merkel diz que países do euro devem estar preparados para ceder soberania”

Público


Não sei de que é que ela estava falando, nem percebo a agitação provocada por mais uma boca da alemã, mas isso também pouco me interessa, porque para esse “peditório”, o de ceder soberania, nós já demos tudo.

Não temos nenhuma, estamos de calças na mão; ela, se quer cedências de soberania, agora vai ter de procurar noutra colónia.

A mim, o que me pode interessar é exactamente o contrário − reaver alguma soberania, porque me sinto num clube de ricos onde não posso jantar.
Entrego o cartão de sócia com a maior das boas vontades, e volto para a lusa tasca onde ao menos posso escolher entre jantar pipis, caracóis ou jaquinzinhos.

E a alemã que continue a jantar soberanias, a ver se eu me importo com a prisão de ventre dela. Pfff.

Nota: na imagem ali de cima, retirada do Público, aparecia a Merkel, mas cortei-a porque me desfeava o blogue.

22 de abril de 2013

Contra os artistas intelectuais, viva a Joana e mais o Zé Luís

Na sua crónica no Ípsilon de 19 de Abril 2013, António Guerreiro pergunta no título, e a propósito de José Luís Peixoto, O que é um escritor?

Não há link para este texto, mas a blogger Joana Lopes deu-se ao trabalho de o transcrever aqui e vale a pena ler.

Tudo o que o autor escreve sobre José Luís Peixoto, entendo eu que é    aplicável à escultora Joana Vasconcelos.

Resumindo algumas ideias expostas por António Guerreiro, pode dizer-se que dantes o reconhecimento do escritor (ou artista) fazia-se dentro da instituição literária (ou artística), isto é, o critério primeiro da consagração era o reconhecimento do escritor (ou artista) pelos seus pares.

Hoje, pelo contrário, a consagração destes artistas “faz-se na rua, na esfera pública mediática”, e “o monopólio da autoridade para dizer quem é escritor (ou artista, acrescento eu) e quem não é, já não está do lado daquilo a que se chamou instituição literária, com as suas diversas instâncias; está do lado de quem vende…”

Apesar de entender esta assinalável alteração de paradigma, pessoalmente acredito que para a história das artes ficarão apenas aqueles que forem “reconhecidos pelos seus pares”, e que o mercado (que, para funcionar bem, precisa de contar e anunciar quantas camionetas de gente o senhor Covões consegue levar a Queluz para ver a exposição de Joana Vasconcelos, ou quantas revistas Visão se vão vender enquanto o Peixoto estraçalha os Lusíadas) é apenas isso – o mercado, que nada tem que ver com literatura ou arte.

É nisso que acredito, mas também entendo as mudanças e o ar do tempo.

Só não entendo por que razão algumas pessoas se encarniçam tanto a adjectivar de cagança intelectual, ressabiados, “bem pensantes”, invejosos, ciumentos, elitistas, presunçosos, vaidosos, manientos da superioridade do gosto etc., aqueles que se limitam a achar que lá por o grande público amar apaixonadamente Peixotos e Vasconcelos − direito que obviamente lhe assiste, ora essa − o que eles fazem não deixa de ser uma merda.

Que será que tanto incomoda essas pessoas?

 

 

18 de abril de 2013

Pode ser-se intelectual e parolo? Pode!

Dantes, os portugueses tinham imenso medo dos juízos morais dos vizinhos.

Agora, que ninguém conhece os vizinhos, passámos a ter imenso medo dos juízos dos de “lá fora”.

É muito triste ver esse medo a vergar a espinha daqueles que deviam ser exemplo de espírito independente: os intelectuais.

Atentemos no que escreveu Vasco Graça Moura a propósito de declarações (infelizes) de Mário Soares e choremos, irmãos.

“Em plena democracia, um ex-presidente da República de Portugal não pode dizer coisas dessas. Já se imaginou como isso turvará o seu prestígio dentro e fora do país? E tratando-se de quem se trata, como nos atinge a todos? Não faltará quem se pergunte por essa Europa fora (e, claro, entre as instituições mandantes da troika e dos credores), que raio de democracia é a portuguesa, cujo primeiro ex-presidente socialista profere tais enormidades?”

Submissão e parolice de meter dó.
Infelizmente não é o único intelectual que ainda por aí com o nariz quase a bater no chão. .


17 de abril de 2013

Um amor feliz


Há dez anos que os observo.
 
Ontem pararam lado a lado no semáforo. De trás e de cima, vejo duas motoretas citadinas, dois capacetes, duas mochilas nas costas.
 
Primeiro olham-se, depois inclinam-se e beijam-se, endireitam-se, conferem a cor do semáforo, e cada um estende uma mão para segurar a do outro.
 
Ao sinal verde arrancam lentamente, ainda lado a lado, pela avenida que há poucos dias explodiu de verde, atravessando a luz dourada do poente que cheira, por fim, a primavera.
 
Há dez anos que observo os grandes e pequenos sinais dum amor feliz.
Há dez anos que os observo − desde que chegaram a casa.


15 de abril de 2013

D. Manuela, faça um blogue


D. Manuela Ferreira Leite, faça um blogue.
A senhora precisa de o fazer rapidamente para ficar em pé de igualdade com o José Pacheco Pereira que há muito se assumiu como o verdadeiro líder da oposição através da Quadratura do Círculo e do seu blogue Abrupto.

Dispondo agora a senhora também de um espaço televisivo só seu em que, basicamente, “desfaz” o governo, os portugueses passaram a ter mais uma liderança bicéfala na oposição – já tínhamos o Bloco de Esquerda e agora temos a dupla Manuela/Pacheco.

Nos dias a seguir às vossas aparições, é ver a esquerda toda nas redes sociais a louvar-vos e a partilhar os vossos discursos metodicamente preparados para fazer golpes no tecido governamental onde, depois, vão deitando sal e vinagre semana a semana.

Não é que eu não goste de ver, porque gosto, mas não me parece que esse caminho nos sirva para alguma coisa, a nós, como colectivo.

Sempre achei que este governo haveria de cair “por dentro”, ou seja, apeado por Pachecos e Manuelas, no dia em que não suportassem mais ver desvirtuar a sacrossanta herança social-democrata de Sá Carneiro e antes que estivéssemos todos mortos, mas começo a duvidar de mim mesma.

Quando vos oiço, apesar de gostar, repito, sempre me lembro do velho sketch do Ricardo Araújo Pereira em que ele dizia com carinha de tolo:
- Eles falam, falam, falam, mas eu não os vejo a fazer nada…
Então, é isso!


12 de abril de 2013

Fartinha da excepção


Estou fartinha do “estado de excepção”.

Pensava eu que um estado desses tinha o nome com ele e seria excepcional, mas, no fim de contas, parece que pode ser uma moenga que serve para tudo e não tem prazo.

Há dois anos que me dizem que estamos “num estado de excepção”, mas todos os dias continuo a ouvir o mesmo dito com vozes e maneirismos de quem me está a avisar que vou cair no buraco se.

Outro dia até ouvi o José Gomes Ferreira da Sic, que, valha-nos a santa, também “tem dias”, afirmar que estamos num estado de excepção tão perigoso como aquele em que estávamos nas vésperas de pedir ajuda externa.

Ora bolas! Então de quem será a culpa? Ainda será nossa?

Mandaram-nos empobrecer, empobrecemos.
Mandaram-nos emigrar, emigrámos.
Mandaram-nos pagar mais impostos, pagámos.
Obedecemos sempre porque somos brandos e cordatos.
Então, por que estamos ainda num estado de excepção?

A resposta, todos a sabemos, mas lá que estes gajos, que saíram não se sabe de que esgoto, têm uma grande lata, lá isso têm.

Era tão bom que nós conseguíssemos inventar um estado de excepção novinho em folha, com p e tudo, em que os enfiássemos todos…
É que estão mesmo a pedi-lo – um estado de excepção.

 

11 de abril de 2013

Uma casa chamada Europa

 
 
Então, é assim que, hoje em dia, eu vejo a Europa e a sua construção.
 
Era uma casa muito engraçada
Não tinha tecto, não tinha nada
 
Ninguém podia entrar nela não
Porque na casa não tinha chão
 
Ninguém podia dormir na rede
Porque na casa não tinha parede
 
Ninguém podia fazer pipi
Porque penico não tinha ali
 
Mas era feita com muito esmero
Na rua dos bobos, número zero
 
A Casa
Vinicius de Moraes


10 de abril de 2013

Dois em um

Sentada na minha cadeira, e diante do meu computador, posso observar claramente a existência de dois países num só, um pouco como o “dois em um” do champô e amaciador.

As redes sociais são uma janela aberta para a sociedade, ou, pelo menos, para uma parte dela, que já não é tão pequena assim.

De um lado, o que vejo é a minha faixa etária, acompanhada por alguns mais novos, completamente obcecada com a situação política, económica e social do país.

Do outro lado vejo os mais novos, acompanhados por alguns mais velhos, que continuam entregues quase exclusivamente aos seus interesses de sempre, sejam a música, a arte, o futebol, a saúde, a moda, enfim, a normalidade.

Para estes últimos, parece que nada de novo está acontecendo por aqui e a vida continua no seu percurso doce e previsível.

Ao contrário, para o primeiro grupo, a vida transformou-se no ovo da serpente onde diariamente incubam novas ameaças, medos, inseguranças e pérfidos desígnios políticos.

A Pátria está com dupla personalidade.

9 de abril de 2013

Das bolachadas em falta


O discurso que Passos Coelho proferiu no domingo passado deixou-me, como é costume, muito mal disposta.

A questão nem é de conteúdo. Não gosto desse conteúdo, já se sabe, penso exactamento ao contrário do primeiro-ministro e do governo em geral mas, paciência, é a vida (democrática).

O que me deixa mesmo, mas mesmo muito desconfortável, é a forma e o tom.

Voltou a acontecer no discurso pós-decisão do Tribunal Constitucional − ai pensavam que se ficavam a rir, pois vão ver como vos vou castigar, seus palermas.

Desde que tomou posse, vai para dois anos, que Pedro Passos Coelho se nos dirige como se falasse com súbditos que não lhe merecem nenhum respeito, não exigem quaisquer cuidados de linguagem e devem ser permanentemente amedrontados.

Os dislates são incontáveis, mas, por mim, guardarei como afronta maior e imperdoável o ter mandado os meus filhos emigrar, coisa que uma mãe não poderá admitir a ninguém, muito menos a um imbecil qualquer que começou a trabalhar quase aos quarenta anos.

Como a inteligência também não fixou residência por ali, não consegue analisar-se nem extrair algum ensinamento das críticas que lhe têm sido feitas; por isso continua com o seu estilo de madrasta incompetente a distribuir bofetadas pelos enteados indesejáveis.

Sei que os políticos vão e vêm e os povos permanecem.

Não sei quanto tempo faltará para o Coelho ser obrigado a conjugar o verbo ir, mas duma coisa eu já tenho a certeza: daqui até lá não mudaremos, ou seja, ele vai continuar a achar que eu sou lixo e eu vou continuar a achar que ele é um rapazola grosseiro, desprezível, incompetente e a quem faltaram umas boas bolachadas na hora exacta.

8 de abril de 2013

A hora negra dum país



 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Sempre me pareceu que o sonho de Sá Carneiro – Um Governo, Uma Maioria, Um Presidente, seria o nosso pesadelo.
Confirma-se.

Imagem de Alex Gozblau retirada do Facebook


5 de abril de 2013

À janela


Foi ontem que o Relvas foi à sua vida e é hoje que o Tribunal Constitucional vai dar as respostas que esperamos há três meses, não é?

Bom, então vou falar de outra coisa.

O meu amigo Luís P. começou a escrever num novo blogue colectivo com um nome impronunciável – O Inaniloquente

Nos dois posts que escreveu até agora contou estórias da sua infância, e revelou-se um bom contador das mesmas. Diria que a sua narrativa nos agarra, mas não digo, porque suspeito que essa palavra está já proscrita.

Fiquei a pensar o que teria eu para contar da minha infância. Pouco.

Ao tempo, a infância duma menina em cidade de província tinha como espaço certo, seguro, e quase único, a casa e a sua janela.
Eu usava-a tanto, a janela, claro, que tinha calos nos cotovelos.
Era uma janela de peito, num rés-do-chão, e para poder “estar à janela” os meus pais tinham colocado a meia altura um estrado onde eu punha os pés.

Daí  observava épicas lutas de bandidos e cowboys, bem como jogos de hóquei em patins (com stiques e bola comprados na feira lá da terra mas, obviamente, sem patins). Eram os gloriosos tempos da equipa portuguesa de Moreira, Vaz Guedes, Adrião, Velasco e Bouçós, salvo erro.

Jogos e coboiadas eram protagonizados pelo bando de miúdos das redondezas onde plenamente se integrava o meu irmão que, esse sim, podia brincar na rua.

O incansável labor das formigas, que constantemente passavam carregadas a caminho do formigueiro por baixo da minha janela, também era por mim observado com a atenção da cientista que não fui, ou filósofa que não filosofou, durante horas, isto é, sempre que os xerifes iam dar tiros para a rua do lado.

Não vou aqui dizer que as formigas e os seus denodados esforços me ensinaram alguma coisa para a vida, porque isso seria uma rotunda mentira; eu era dona duma cabecinha infantil que não especulava sobre o bem e o mal, certo e o errado.

Essas aprendizagens, aliás, tinham um código simples – para bem e certo, silêncio, para o contrário, uma estalada. E a gente aprendia rapidinho, juro.
Também sei que já então não era uma santa, porque me lembro muito bem de cuspir repetidamente para ver se acertava nalguma formiga com que calhava a embirrar, sabe-se lá porquê.

Claro que conhecia as lojas das redondezas e os seus proprietários; a minha mãe, de vez em quando, mandava-me lá “fazer um mandado”, mas o meu reino era a janela. E não foram poucas as vezes em que, na correria para lá chegar, porque me parecia que algo de excitante se estava a passar na minha rua, esbarrei no dito estrado que tinha que subir e esfolei os joelhos ou as canelas.

Era normal que os rapazes aparecessem com mazelas/troféus após as suas brincadeiras vigorosas de pré-machos latinos, mas, como se vê, da vida à janela duma menina também podiam resultar sequelas que solicitavam o uso do garrido mercurocromo, e que depois competiam, cromaticamente, com os joelhos do rapaz da casa.

Tudo isto faz da minha infância um tempo infeliz? Nem por sombras. Era assim, e pronto. E cada um(a) sabia sempre encontrar no que “era”, o seu naco de felicidade.

PS: na foto ali de cima, sou mesmo eu à janela.
E bom fim de semana.


4 de abril de 2013

Sr. Crato/Sr. Relvas


Em verdade vos digo, meus amigos, que já nem os posso ver.
Estou farta deles todos, e cada vez mais me sinto à espera que caiam − da cadeira, da escada, ou mesmo da cama, tanto faz, o que é preciso é que caiam.

Exceptuando Paulo Macedo, não há ninguém naquele bando, que se intitula “governo de Portugal”, que me mereça um pingo de respeito, ou simpatia, ou consideração.

Quando o governo foi formado, alguns dos seus ministros deixavam-me uma pequena esperança de que talvez, pelo seu carácter ou competência profissional, pudessem melhorar um governo que já me parecia muito mau e iria aplicar políticas de desastre.

Afinal, também esses o integraram apenas porque o seu nível não destoava do conjunto.

Falo de, por exemplo, de Nuno Crato. Homem das matemáticas e crítico do sistema educativo, talvez aligeirasse a mediocridade governativa, pensei.

Ó mulher ingénua, ó grande lorpa!

Para além de outras suas malfeitorias que, por vezes, raiam a crueldade, acabámos de saber que tem na gaveta, há dois meses, o relatório sobre a licenciatura do Relvas, caso de que falou, e fala, o país inteiro.

Entre dar aos portugueses as respostas que eles esperam há demasiado tempo e a solidariedade com o trafulha do colega ministro, que escolhe o cretino do Crato?

A segunda hipótese, claro!
E porquê?
Porque, um com curso e outro sem ele, ambos são farinha do mesmo saco e merecem-se.
Eu é que, tenho a certeza, não os mereço a eles.

PS: a foto é pequenina porque, reafirmo, já nem os posso ver.


3 de abril de 2013

Modos de ajustar

Já faz um bom tempo que o Facebook me bombardeia, na coluna da direita, com publicidade a um produto para “Perder Barriga” que remete para o site barrigalinda.com.

O nome do site é uma beleza, e por ele dão a cara todas as “famosas” deste país, como, por exemplo, Alexandra Lencastre, Maya, Rita Pereira, Sónia Araújo, Fátima Lopes, Júlia Pinheiro, Luciana Abreu e mais uma infinidade delas cujo nome desconheço.

Todas afirmam: “eu perdi 12 kg em 30 dias” e, ainda por cima, anuncia-se que foi tudo conseguido sem dietas nem ginásio.

Caraças, que inveja. Poder ficar assim linda e maravilhosa sentada à mesa do restaurante!

Deixando de lado esta coincidência quase esotérica de todas estarem gordas e de todas terem perdido o mesmo peso no mesmo número de dias, a isto eu chamo o verdadeiro milagre do “ajustamento” sem dor.

No sec XIX, a elegância alcançava-se ajustando cinturas com espartilhos, que ora partiam as costelas, ora quase matavam por asfixia.

E é ainda esse o método que os troikos estão a usar para o nosso “ajustamentos” – falta de ar e costelas partidas.
Cambada de incompetentes.

Se não gostam da Alexandra Lencastre devem, ao menos, gostar da Soraia Chaves, que também por lá anda e é do melhorzinho que temos; tenho a certeza de que ela lhes poderia dar umas pistas de como nos obrigar a abater as gorduras do Estado, (coisa de que nunca mais ouvi falar mas que deve existir), com um sorriso nos lábios e uma apetitosa feijoada no bucho.

 

2 de abril de 2013

O mundo ao contrário


Faz hoje 30 anos, no Hospital de Évora, nasceram várias crianças. Não sei quantas foram, mas sei que começaram a nascer cedinho e continuaram pelo dia fora.

Uma dessas crianças era minha.

Estivemos lá cinco dias, como era prática nesse tempo, e, apesar de ser Páscoa, não nos faltou nada; nem médicos, nem cuidados de enfermagem, nem fraldas, nem medicamentos, nem vacinas, nem o teste do pezinho. À saída, também não pagámos nem um tostão.

Daí para a frente, o SNS sempre nos acolheu quando precisámos, a escola e universidade públicas também ensinaram a criança feita menino, depois adolescente e, finalmente, homem.

Há trinta anos éramos um país pobre e atrasado, o 25 de Abril estava a fazer apenas nove anos, o FMI andava por cá tal como agora anda a troika, mas as crianças continuavam a nascer.

E o Estado nunca deixou de cumprir as suas obrigações.

Saímos dessa crise e de outras; por várias vezes prosperámos.

A crise que agora vivemos, apesar de violenta, encontrou à chegada um país inegavelmente diferente do de 1983; um país que entretanto evoluiu, se modernizou e ficou, literalmente, mais rico.

Porém, é agora que nos vêm dizer que não há dinheiro para o SNS ou que é preciso pagar e degradar a escola pública.

E é também agora que as crianças não nascem.
É o fim da linha e dá vertigens − é o mundo ao contrário.


29 de março de 2013

“Páscoa Feliz”

“Páscoa Feliz” é o título esquecido de um também esquecido, mas muito recomendável, escritor português – José Rodrigues Miguéis (Lisboa 1901 – Nova Iorque 1980).

Li este romance há muitos, muitos anos, e ficou para sempre comigo.

Nada tendo que ver com a doçura duma amêndoa ou dum ovo de Páscoa, mas pertencendo ao grupo de coisas de que mais gosto na vida – livros, sirvo-me dele hoje, eu que não sou cristã, para aqui poder escrever PÁSCOA FELIZ.

28 de março de 2013

27 de março de 2013

Cara de pau e peito de ferro


Quando, em 2011, perdeu as eleições e saiu do país, José Sócrates deixou atrás de si um clima de ódio e crispação contra a sua pessoa como eu nunca tinha visto no Portugal democrático.

Dois anos não foram suficientes para atenuar esse clima; diria mesmo que, por cá, tudo continua em carne viva e que é muito cedo, mas Sócrates regressa.

Regressa, não para uma vida simples e normal de quem tem todo o direito de viver no seu país, mas para o espaço público, para nele opinar sobre a vida política portuguesa cujo palco central desocupou há tão pouco tempo.
É também um direito que lhe assiste.

Multiplicam-se os insultos e os palpites sobre os seus reais objectivos.
Pessoalmente estou apenas curiosa para perceber o que terá para nos dizer hoje este homem “com cara de pau e peito de ferro”, nas palavras de Pedro Santos Guerreiro.

As nuvens adensam-se sobre a nossa cabeça – Chipre, uma nave de loucos no comando da União Europeia, hegemonia da Alemanha e consequente ressentimento a alastrar pelo continente, o fim do silêncio ensimesmado do Tribunal Constitucional, as contas sempre a piorarem e, finalmente, o que parece uma ninharia mas não o é, este regresso de Sócrates.
 
Será esta a tempestade perfeita?
Mesdames et messieurs, faites vos jeux.


26 de março de 2013

Com ou sem toalha


Há uma senhora deputada do PSD que há muito tempo, e certamente por distracção, pôs uma toalha de mesa ao pescoço e nunca mais se lembrou de a tirar. Chama-se Teresa qualquer coisa, e o PSD chegou a uma tal lástima que até a deixa falar em seu nome.

Quando ela abre a boca, eu lago tudo e fico atenta porque, nos dias que correm, temos que aproveitar o que nos possa fazer rir de borla.

Na sua última tirada a senhora da toalha acusou “o secretário-geral do PS de colocar a ordem constitucional em causa com o "anúncio não consumado" de uma moção de censura.

Confesso que desta vez me deixou a pensar; habituada que estou a tentar decifrar os discursos redondos do Coelho, em que ele fala muito em “calibragem” e até em coisas moralmente elevadas como seja a “constância na persistência”, pensei, pensei, e acho que o que a Teresa nos quis dizer foi simplesmente isto:

- Exijo a imediata consumação do acto! Os preliminares são inconstitucionais.

Gosto de mulheres assim despachadas. Com ou sem toalha.

25 de março de 2013

Pobrezinha mas honrada?


A exposição da australiana Narelle Jubelin (Sydney, 1960), patente no Centro de Arte Moderna da Gulbenkian, podia perfeitamente ser uma exposição apresentada num qualquer Centro Cultural duma capital de distrito.

Saímos dela com uma sensação de quase nada, entre bordados, uns vídeos com as reflexões da artista sobre arquitetura e uma suposta tensão criada entre a obra e a arquitetura do CAM, como vi escrito algures mas não descortinei.

A exposição não envergonha, mas só isso. Não é o que precisamos nem o que a Gulbenkian nos pode dar neste momento de definhamento geral e cultural em particular.

Se é certo que nos últimos vinte anos a Fundação Gulbenkian deixou de ter, no panorama cultural português, a centralidade que teve desde o seu início, isso deve-se em grande medida à existência de novas centralidades que foram surgindo à medida que o país se desenvolvia e modernizava.

Com a profunda crise que nos tomou de assalto, o desaparecimento de organizações culturais menos sólidas e mais dependentes de apoios foi uma fatalidade.

Julgo que é em momentos destes que uma instituição sólida, e com meios próprios, como a Gulbenkian, tem um papel, e quase um dever patriótico, de remar contra a maré, contra o miserabilismo, contra as poupanças de chacha, contra o ideário do “pobrezinho mas honrado” , contra o imaginário tacanho do Portugal dos pequeninos.

Cabe-lhe fazer exactamente o contrário: voltar a ser o oásis e o motor da nossa vida cultural, com iniciativas que nos galvanizem e nos façam acreditar que há vida para além das crises. Não é o que se está a passar no CAM.
 
Culpa da curadora Isabel Carlos ou da tesouraria?
Não sei. Apenas sinto que a Gulbenkian ameaça ficar mais um cadáver entre tantos que a crise vai deixando pelo caminho.
Oxalá me engane.


23 de março de 2013

O retorno

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Eu estava a pensar escrever alguma coisinha sobre o regresso de Sócrates, mas depois li este artigo de Pedro Santos Guerreiro e desanimei logo. É que ele escreve exactamente e o que eu penso, e ainda por cima tão bem, que um amador mete logo a viola no saco.
É ler.
Começa assim:
O homem é um colosso. Só alguém tão carismático como José Sócrates poderia regressar menos de dois anos depois. Mas mesmo isso não bastaria se as actuais lideranças políticas fossem fortes. Não o são: no Rato e na Lapa só há pão-de-ló. Em Belém, chá.
 
A imagem é de Yronikamente

22 de março de 2013

Antes Fria


Eu acho que a “coisa” está a ficar, subitamente, muito preta.

É assim como uma enorme trovoada, daquelas que chegam quase sem aviso, enegrecem o céu e produzem enxurradas capazes duma enorme devastação.

O Eurogrupo, (que é como quem diz, Merkel, o seu ministro das finanças e alguns países/boys), resolveu tratar Chipre à estalada, mas com humilhação pública. Não era costume. O costume era fazer como tem sido feito connosco: na ferida vai-se deitando sal e vinagre, um pouco todos os dias. O doente geme, a ferida vai gangrenando, mas não há escândalos públicos, é tudo em família.

Desta vez, em relação a Chipre, devem ter fumado umas ganzas pela noite fora, decidiram resolver o assunto à chapada mas, no meio da trip esqueceram-se de duas coisas importantes.

A primeira é que os cipriotas podiam ter alguma coisa a dizer sobre a sua vida, mas isso já é habitual neles; mais grave é que se esqueceram que do outro lado da cerca está uma vizinha, chamada Rússia, que gosta de soltar os cães

Agora está tudo à nora.

O metro e meio de Medvedev já chama burros aos europeus nas bochechas do Barroso (felizmente este é homem de grande estômago e tudo engole desde que o deixem ficar onde está), o BCE avisa que ou cipriotas fazem como lhes mandam ou fecha a torneira na segunda-feira, os ministros das Finanças reúnem de urgência por teleconferência, e a democracia na Europa está cada vez mais semelhante a uma batata.

Parece que toda a gente está a medir forças com toda a gente. Voltaremos à Guerra Fria? Estou tentada a desejar que sim: é que temo que “isto” aqueça.
Antes fria. Chiça!


21 de março de 2013

E o título de mais criminoso vai para…


Passaram agora (20 de Março) dez anos sobre o início da guerra do Iraque.

Esta notícia diz-nos que pelo menos 112.000 civis morreram nos últimos 10 anos no Iraque após a invasão das forças internacionais lideradas pelos Estados Unidos que derrubaram Saddam Hussein.”

As ditas forças internacionais iam à procura das armas de destruição maciça e também apear Saddam, o criminoso governante do pedaço.

Das primeiras, nem o rasto, e quanto ao criminoso, mesmo sendo criminoso encartado, duvido que conseguisse matar 112.000 dos seus em dez anos.

Para quem vai então o título de mais criminoso?
Sem dúvidas para o trio Bush, Blair e Aznar, e mais o porteiro – Durão Barroso.

20 de março de 2013

No reino animal


No mundo dos negócios e da finança em Portugal há dois grupos dominantes de animais: o das araras emplumadas que não se calam, e o das doninhas malcheirosas escondidas nas moitas mas silenciosas.

No primeiro grupo inserem-se Fernando Ulrich e Belmiro de Azevedo; sempre que lhes põem um microfone à frente não resistem a produzir o discurso do palhaço rico com o qual as televisões providenciam tempo de antena de baixo custo, e as redes sociais conseguem uma semana de ofendida cavaqueira.

Acontece, porém, que são discursos sentidos, e as araras acreditam no que dizem.

No outro grupo, o das doninhas, estão os que sabem a música toda mas preferem o silêncio, continuando a fazer os seus negócios, claros ou escuros, sempre que possível longe das luzes da ribalta; são, por exemplo, Ricardo Salgado e Américo Amorim.

Quando araras e doninhas, com a cultura que lhes é própria, viram elite económica e financeira dum país, fácil se torna perceber por que nele a finança estoira e a economia não medra.

19 de março de 2013

Outro Francisco, o meu


Foste-te embora há tantos anos!
Partiste sem aviso e sem tempo para despedidas.

Foi como se, de repente, tirassem uma perna à nossa velha mesa, aquela onde nos sentávamos e em que, desde cedo, nos falaste de política − ditadura e democracia, justiça e injustiça, igualdade e desigualdade, e onde também contaste de livros, valores, heróis, e outras grandezas.

Com essa tua saída apressada perdeste uma infinidade de coisas boas, e também algumas más.
Diria que merecias tê-las visto todas, mas não me parece que merecimento deva entrar nesta equação.

Hoje, 19 de Março 2013, acredita que não tenho a menor vontade de te falar das coisas desagradáveis que por aqui vão acontecendo.
Não trago pedras no bolso, não as quero.

Dentro do envelope apenas meia dúzia de palavras descuidadas, próprias de vidas simples e tempos normais:

“Allô pai, bom dia!
Acho que o teu Benfica é bem capaz de ganhar o campeonato este ano.
Beijos.”