17 de julho de 2012

Anedotário

Por essa Europa fora, estamos fartos de ver casos de políticos afastados dos seus lugares por terem amigos “errados”, por aceitarem dinheiro “errado” para si ou para o seu partido, por estarem no sítio “errado” à hora “errada”, por terem mentido, ou por plagiarem uma tese de doutoramento. A Europa política está podre mas ainda teme os juízos morais das suas populações.
Estes homens e mulheres demitem-se ou são demitidos.

Em Portugal temos um poderoso ministro, o número dois do governo, que já mentiu ao Parlamento, já pressionou intoleravelmente jornalistas e que agora tem nos braços uma licenciatura ganha como brinde do bolo-rei.

Que acontece por aqui?
O primeiro-ministro acha que é um não-assunto, uma parte do seu partido achincalha (caso de Alberto João) e outra parte dá conselhos de substituição apresentando substituto e tudo (caso de “vigário” Marcelo).
Estão lindos, estão, e o desnorte é total.

Que faz o bom povo português?
Na sua esmagadora maioria faz anedotas, ri-se muito e o homem vai ficando.
Um povo do caraças, este.

Nota: a foto usada é do Público, corre nas redes sociais, data de 2004 e é uma pérola.


16 de julho de 2012

Os professores


Confesso que tenho por hábito não perder nada do que António Guerreiro escreve no Atual do Expresso e, que me lembre, as minhas expectativas nunca saíram defraudadas.

Na última edição do jornal, escreve um longo artigo em que analisa os exames do 12º ano, a que deu o título “Os exames e a comédia do rigor”.

É um texto que merece ser lido por todos, os que estão no sistema de ensino e os que estão de fora mas que gostam de opinar sobre o que não conhecem.

Como declaração de interesses, esclareço que nunca fui professora, mas a maior parte dos meus amigos são-no, ou foram.

Também nunca esqueço os professores que marcaram positivamente a minha vida, e foi com grande mágoa que vi Maria de Lourdes Rodrigues começar a destruir a dignidade de toda uma classe fundamental para o futuro do país, transformando os professores em burocratas stressados e indisponíveis para a cultura e investigação na sua área de trabalho.

Para entender o que vale hoje um professor para o Ministério da Educação, atrevo-me a publicar um (longo) excerto do artigo de António Guerreiro.

Lamento profundamente que tenhamos chegado aqui, mas o que vai escrito é tão exacto quanto indigno:

 “Chegados a este ponto, seria altura de entrar num longo capítulo de descrição do que tem acontecido à mais desventurada e vilipendiada classe profissional: a dos professores. Resumindo bastante uma longa história, podemos dizer que os professores estão desde há bastante tempo sujeitos a estas duas regras que não passam de alíneas nos tratados de domesticação: fazer com que a sua legitimidade não tenha uma fonte mais elevada - por exemplo, o saber, algo que não move nem comove a escola atual - do que a dos próprios gestores do ministério; fazer com que eles não acedam a nenhuma espécie de autonomia. Deste modo, se outrora o tempo de trabalho do professor se dividia entre o tempo controlado e o tempo autónomo, hoje todo o seu tempo de trabalho é controlado (à hora, aliás). A única autoridade que conta hoje na escola é de ordem administrativa. Para perceber isto em toda a sua dimensão (que é a dimensão grotesca da caricatura), basta ler as "normas relativas aos professores vigilantes".

Aí, em quatro páginas de normas, algumas delas insultuosas, fabrica-se o professor como um suspeito, um indivíduo propenso ao crime que é preciso vigiar (ficando assim no lugar do vigilante vigiado), de tal modo que justifica o uso de uma severa linguagem normativa, cheia de proibições (e até incitando, num determinado caso, a que seja policiado), onde é fácil descobrir um paradigma criminológico.

Depois de identificarmos a parte mais visível da máquina implacável que, em todos os domínios, destituiu a autonomia dos professores e os fez entrar numa mecânica da subordinação, poderíamos pensar que lhes resta ainda o poder autónomo que advém da tarefa da correção dos exames.

Nada mais falso. Os critérios de correção, lavrados em verdadeiros tratados (os critérios de correção têm mais páginas do que o enunciado do exame), fundam-se numa ciência para a qual não temas nome parque trata de hipóteses e de "cenários de resposta". Eles preveem tudo - todos os desvios, todas as incorreções, todas as imperfeições e incompletudes das respostas dos alunos - e para tudo o que preveem têm uma quantificação.

Se, ainda assim, o professor, presumindo-se um avaliador competente, quiser operar um pequeno desvio e introduzir o seu critério de quantificação, lago saberá que a grelha Excel onde vai lançando a pontuação das respostas só aceita os números previstos pela ciência que projeta "cenários de resposta".

No fim de todos os mecanismos de vigilância por que passou, há uma grelha Excel que lhe diz que ele não é nada e nunca será nada.” 

António Guerreiro, Atual, 14/07/2012


13 de julho de 2012

Sem título




O nosso Primeiro-ministro disse na 4ªfeira no Parlamento esta frase de fino recorte retórico:

“Não vou pôr porcaria no ventilador”.

Deduzi que vai de férias, porque até agora ainda não fez outra coisa.

Imagem a dedicada ao PM, tirada daqui

12 de julho de 2012

Coitada, está uma lástima

Ontem foi dia de discutir o Estado da Nação no Parlamento.

Eu também conheço a Nação, mas ninguém me chamou para falar sobre ela.
Metediça que sou, vou falar, queiram ou não.

Acho que a Nação está uma lástima, envelheceu imenso em pouco tempo e, ainda por cima, envelheceu mal, pois nem sequer ganhou sabedoria (que é aquela coisa que substitui, com grande desvantagem, a juventude).

A pobre da Nação está cheia de papos nos olhos, joelhos e cotovelos cheios de rugas, pele flácida e com manchas, cabelo e unhas quebradiços, um pneu à volta da cintura (são as gorduras do Estado), cataratas, hérnias discais e um a infinidade de outras maleitas conhecidas e desconhecidas.

Com o pretexto de que a eletricidade está cara, a Nação começou a apagar a luz do espelho, e por isso continua, tristemente, a “borrar a pintura”.

Está magrita (exceptuando o pneu, claro) porque ganhou o hábito de falar mais de comida do que de comer. Dantes, comia fora muitas vezes, não tinha paciência para cozinhar, dizia, e estava até a afeiçoar-se ao gourmet e sushi. Ainda há pouco me disse que agora fica bem com um Nestum ao almoço e uma banana ao jantar.

Também tinha o hábito de ir à urgência porque lhe doía um dente, mas agora não vai lá nem com as crises da hérnia discal que a deixam cada vez mais alquebrada.

Ainda me lembro de a ver com um belo saco de marca a caminho do ginásio; porém, de repente, começou a dizer que já não tem pernas para ir a manifestações, e fica em casa.
Também perdeu a vontade de ir à Zara, e passou a usar o que, graças a deus, nunca deitou fora nem deu.

Vê mal, mas o oftalmologista está caro; ontem, quando viu imagens da manifestação nocturna de espanhóis acompanhando os mineiros em greve (como aquela ali em cima), percebendo que havia muita luz, perguntou-se, apalermada que está – “já será Natal?”.

Na minha perspectiva, a Nação está a precisar dum lifting total, realizado por alguém que soubesse o que anda a fazer, alguém que tivesse feito um curso inteiro mas, provavelmente, não o vai conseguir - não tem dinheiro, nem vontade, nem esperança.

Por este andar, qualquer dia acorda morta.
Eu tenho muita pena da Nação.


11 de julho de 2012

Doações

Este vídeo é chocante, e, por isso mesmo, aconselho vivamente a que seja visto, bem como a ler a curta notícia que o acompanha – uma mulher a ser executada no Afeganistão, acusada de adultério.

Conta o artigo que a mulher foi executada porque seria disputada por dois comandantes talibãs que teriam "alguma forma de relacionamento" com a vítima. "Para salvar a face", acusaram-na de adultério, explica o governador da província de Parwan, onde foi filmado o vídeo amador. Depois, "fingiram um julgamento para decidir o destino desta mulher e, numa hora, executaram-na", acrescenta.

Há poucos dias li também que mais de 80 países e organizações, reunidos na conferência de doadores em Tóquio, prometeram doar quatro mil milhões de dólares ao Afeganistão, todos os anos e até 2015.

Li, há mais dias, que Portugal se comprometeu a doar 1 milhão de euros às forças armadas afegãs. É dinheiro que não nos faz falta e será, certamente, bem usado.

Os doadores exigem em troca do seu dinheiro “compromissos de combate à corrupção e de garantias de transparência”, ou seja, coisas vagas, muito vagas.

O Afeganistão continuará a ser um inferno na terra para quem lá nasce mulher, perante a complacência de doadores muito civilizados, correctos e, na sua maioria, cristãos.


10 de julho de 2012

Abre-se a porta, mas só metade

A Universidade Lusófona concedeu meia hora aos jornalistas para consultarem o processo de licenciatura de Relvas; e supervisionados pelo Provedor do Aluno.

Ah, também os proibiu de captar imagens do dossiê.

Numa desesperada tentativa de guardar alguma credibilidade, aqueles iluminados cérebros universitários resolveram que tinham que “abrir a porta”, mas só até metade

Este é, definitivamente, um país de segredos. Até para sabermos o terceiro segredo de Fátima tivemos de esperar para aí 80 anos, e no fim ficámos na mesma porque ninguém percebeu nada.

O mesmo não se passa neste caso. Com segredo ou sem segredo já todos percebemos que eles deram a licenciatura ao homem.

Para salvar a credibilidade, caíram no ridículo.
Cada cavadela, sua minhoca.


9 de julho de 2012

Macário, miúdas e cinzeiros

O Supremo Tribunal Administrativo condenou Macário Correia à perda de mandato face a umas “complicaçõezinhas” que arranjou enquanto presidente da Câmara de Tavira.

Este insigne autarca, ex-deputado do PSD e ex-Secretário de Estado do Ambiente de Cavaco Silva, proferiu há uns anos uma frase linda e digna de antologia de que nunca me esqueci. Disse o homem:

“Beijar uma miúda que fuma é como lamber um cinzeiro.”

Imaginei então um Macariozinho  pré-púbere , muito traquinas mas um bocado estúpido, a experienciar a arte de lamber cinzeiros, treino sem o qual não poderia avaliar o beijo da fumadora quando púbere.

Depois deste intenso, mas não inopinado, chocho que o tribunal lhe pregou, apetece-me mesmo perguntar-lhe:
- Macário, agora sente-se a lamber o quê?
Ainda bem que não deu cadeia (livra!), foi só perda de mandato.

Macário fez longa caminhada desde que lambia cinzeiros; deixou de ser estúpido mas é ainda um traquinas capaz de antecipar os acontecimentos.
Por isso, atempadamente, pediu a reforma - tem direito a duas (2) vitalícias - e aos 57 anos pode dormir descansado.

Os cortes suplementares na saúde e educação seguem dentro de momentos.
Tem de ser. É que não há mais por onde cortar nas despesas do Estado.

6 de julho de 2012

Bons sem bola III

O excerto do texto que se segue foi publicado por CC no seu blogue Ardósia Azul com título “Prémio”.

É mais um “Bom (boa) sem bola”, heróis anónimos e esquecidos no torvelinho do nosso difícil quotidiano.
Percursos académicos e de vida há muitos. Por estes dias, debaixo dos holofotes está o de um governante. É comparar.

Parabéns CC.

Querem saber do que me orgulho mais? Não é da tese propriamente...mas de ter tido uma mãe doméstica, um pai polícia (ambos pobres), de eles se terem divorciado, de eu ser retornada, de ter morado numa casa ocupada e depois num quarto alugado onde viviam quatro pessoas, de ter mudado depois de casa várias vezes, de por vezes não ter um tostão que fosse nem para livros nem para mais coisa nenhuma. O orgulho está no corte com o estigma da pobreza e da desgraça, é isso que vale este prémio, a hipótese de que o mérito pode valer alguma coisa mesmo num país como este.

5 de julho de 2012

Leio coisas extraordinárias

Victor Constâncio disse hoje em conferência de imprensa:

A 'troika' considera que o programa de assistência a Portugal continua a correr bem".

Ora então, não continua? Com mais 311.000 desempregados desde o início, o pessoal a emigrar, a natalidade a cair, os imigrantes a partirem, o povo a entregar a casa ao banco, as lojas a fecharem, os estudantes a deixarem de estudar, os médicos e enfermeiro a ganharem 3 euros à hora, os impostos o subirem, os subsídios a definharem ou mesmo a morrerem, as empresas a falirem, o défice (enfim, um) a subir, isto não podia mesmo estar a correr melhor.

Candidatamos esta choça à 8ª Maravilha do Mundo, ó Constâncio?

Tempo de cortar a relva

A perseguição a José Sócrates começou com o “caso” da sua licenciatura.
Como a vingança se serve fria, o poderoso ministro Relvas começa agora a provar do mesmo veneno.

Para começar, aqui na parvónia, não se pode ser político sem uma licenciatura, e por isso, se ela não existe, arranja-se; basta ter connections.

Levantada a questão, aí está de novo o manto de silêncio e secretismo que cobre as nossas instituições. As pautas são públicas, mas a Universidade Lusófona, quando questionada sobre o percurso académico do ministro, nada diz. Segredo, mais um segredo.

Tenho para mim que Sócrates e Relvas não fizeram cursos, pediram-nos aos amigos que foram arranjando nos meios políticos e empresarias.

Não serão os únicos neste país de “compadres”, mas lástima mesmo
é verificar, todos os dias, que este modo tão português  de estar na vida, com base no desenrascanço e no expediente, invadiu o topo da hierarquia política.

Para concluir a composição do ramalhete, falta apenas acrescentar que, segundo o jornal i, Feliciano Barreiras Duarte, actual secretário de Estado de Relvas, “era professor do curso de Relvas na Lusófona” e, enquanto deputado, foi coordenador dos deputados do PSD na Comissão Parlamentar de Ética Sociedade e Cultura. Tal qual o Rodrigues dos gravadores.

Ele há coincidências, oh!, se há!


4 de julho de 2012

Eu vou

Inauguração da exposição de Pedro Casqueiro.

"Tríptico", de Pedro Casqueiro | Exposição | Chiado 8 | Curadoria: Bruno Marchand | Até 31 de agosto
Entrada Gratuita
Inauguração: 6 de julho, às 22h

Imagem "Augenblick" (pormenor), 200


Uma questão de vistas

No Expresso de sábado passado li esta frase:

“A Grécia está no olho do furacão da crise das dívidas soberanas mas um problema numa vista afastou o PM da cimeira”.

Apeteceu-me logo perguntar ao jornalista João Dias, que assina o artigo, como vai de vistas. É melhor a da sala ou a do quarto? E o serviço de pratos é Vista Alegre? E que me diz dos de vistas curtas que por aí andam? E dos que fazem vista grossa? E dos que só pensam em fazer vista?

Bem vistas as coisas, o jornalista não deu nenhum pontapé na língua, limitou-se a usar o termo popular, mas fez-me lembrar a tia Ermelinda lá da aldeia, sempre a lacrimejar por causa dum problema numa “vista”.

Ela diz sempre assim, talvez porque tenha medo que a palavra olho ofenda, e todos sabemos porquê; acontece que ela nunca foi à escola e por isso não sabe que não há confusão possível – “aquele”, o tal que a faz temer a confusão e a ofensa, tem outro nome, e o órgão da visão, o que tem retina, chama-se OLHO.
Era desse que padecia o PM grego.

Ora, um jornalista do Expresso não deve escrever como fala a tia Ermelinda, acho eu, é o meu ponto de vista.
E será que o Expresso já não tem revisor, ou ele é dos que só dá uma vista de olhos? Ou terá vista cansada?

Eu gosto muito da tia Ermelinda mas, quando leio o jornal, caramba, gostava mesmo que chamassem olho ao OLHO.
Até à vista.

3 de julho de 2012

Bons sem bola II

A Antena 1, no seu programa matinal e diário “Antena Aberta”, com participação dos ouvintes, tratou ontem o tema - Em tempo de crise qual é a importância da prestação do Rendimento Social de Inserção?

Como habitualmente, as opiniões foram diversas, e sabemos como a direita se tem empenhado, ao longo dos anos, a denegrir esta prestação social, chegando ao ponto de dizer que convida à preguiça.
Lá mais para o fim do programa foi possível ouvir alguém dizer mais ou menos isto:

Antes de mais, quero agradecer à sociedade em geral porque durante algum tempo beneficiei do Rendimento Social de Inserção; hoje estou a trabalhar, com todos os meus descontos em ordem, e estou a retribuir para quem precisa; e isso enche-me de orgulho”.

O nome deste excelente português (sem bola) é Carlos Gonçalves, e vive no Pinhal Novo.
Um exemplo de dignidade, brio e consciência cívica.


2 de julho de 2012

Anne Sinclair

Somos mulheres que, com toda a probabilidade, pouco ou nada teremos em comum; também quase nada sei dela, porém, respeito-a. Talvez até a admire um pouco.

Refiro-me a Anne Sinclair, mulher de Dominique Strauss-Khan há mais de vinte anos.

Se meio mundo sabia das “fragilidades” de Khan, era óbvio que Sinclair também saberia, mas a vida e entendimentos dum casal, por mais estranhos que possam parecer, só aos próprios dizem respeito.

Sinclair deixou isso bem claro ao fazer tudo o que pôde para ajudar o marido no processo de Nova Iorque.

A revista Closer anunciou agora que o casal está em processo de divórcio e que Anne Sinclair expulsou o marido de casa. A resposta não se fez esperar e o casal anunciou que vai processar a revista por “atentado à vida privada”.
Questionados sobre a hipotética separação, nada responderam.(notícia aqui).

Inteligente, bonita, rica, Anne Sinclair amou um homem “complicado”; provavelmente também foi amada por ele, e foi apenas isso que o mundo pôde ver. Haverá sempre quem especule sobre a sua vida privada e quem sobre ela teça juízos morais, mas não porque Anne Sinclair para tal tenha dado algum pretexto.

Assim se prova que as figuras públicas também podem, se quiserem, salvaguardar a sua vida privada. O seu silêncio diz uma coisa muito simples – a nossa vida não é da vossa conta.


1 de julho de 2012

Bons sem bola
















Dulce Félix ganhou a medalha de ouro na corrida
dos 10 mil metros nos Europeus de Atletismo em Helsínquia.

28 de junho de 2012

Todos contra todos


António Mega Ferreira foi contratado pele Câmara Municipal de Lisboa para fazer um trabalho sobre os museus da cidade.

Segundo Catarina Vaz Pinto, vereadora com o pelouro da cultura, pede-se “um programa criativo, uma estratégia”, elaborada por “alguém que esteja habituado a pensar a cultura e a cidade”.

Como seria de esperar, esta decisão camarária levantou polémica; como é óbvio também, arranjou-se trabalho para um amigo que tinha caído no desemprego.

Contudo, num tempo normal, ninguém teria dado por nada ou até se acharia positivo, porque o trabalho encomendado é necessário e Mega Ferreira é capaz de o fazer bem.

Num tempo desesperadamente anormal como o que estamos a viver, com todas as sensibilidades à flor da pele, tudo parece resumir-se ao favor ao amigo, e gastar com a cultura passa a ser um “desperdício” – mensagem subliminar que o governo se tem encarregado de transmitir.

E assim vamos ficando, todos contra todos.
Casa onde não há pão…

27 de junho de 2012

Aljubarrota revisitada

Hoje não vou escrever nada. Prescrevi-me repouso absoluto. À noite teremos a batalha de Aljubarrota parte II, e eu preciso de estar em boa condição física para a refrega. Não estou disposta a ter descolamentos de retina como o Samaras nem desmaios ou dores de estômago como Rapanos, o seu putativo ministro das finanças.

Com o stress não se brinca, que ele é pai e mãe de muita desgraça por aí; na Grécia então, é uma razia, como se está ver.

Se me der para isso, faço uma soneca prévia e talvez consiga sonhar com o Paulo Bento em vestes de Nuno Álvares Pereira e a usar a técnica do quadrado futebolístico para levar de vencida a cavalaria castelhana.

Se fosse possível encomendar sonhos, para mim reservaria o papel da Brites, a tal, a Padeira; não que eu queira matar espanhóis, mas acho que agarrar numa pá e começar a dar pancadaria em tudo o que mexe deve dar um gozo do caraças, além de evitar ataques de nervos e descolamentos de retina.

Até amanhã, então.

26 de junho de 2012

Foi como um relâmpago na mente

Venho agradecer, senhor primeiro-ministro. Pela primeira vez num ano do seu mandato, e com as suas palavras, eu tive uma iluminação. Até me apeteceu aplaudir, assobiar, cabriolar, dar graças, eu sei lá, tal foi o impacto revelador em mim.
A propósito da moção de censura do PCP o senhor disse:

“Moção de censura do PCP é contra o mundo e a realidade" (lido aqui)

Foi então que eu percebi como estava desejosa de que alguém fizesse uma moção de censura ao estado do mundo e à realidade. Ela aí está. Eu nem tinha percebido, e estou certa que o PCP também não, mas era isso mesmo que eu queria.
Há-de concordar que o mundo está num estado que merece censura e que esta realidade é tão feia que nos empurra para os braços duma perigosa fantasia.

Eu percebi o subtexto − é óbvio que o senhor acha que a moção não serve para nada, e até pode ter razão, mas, deixe-me perguntar-lhe: então e na vida a gente só faz o que serve para alguma coisa? É que, a ser assim, é melhor o senhor precaver-se, visto já ter dado sobejas provas de que não nos serve para nada; apertou-nos o garrote o mais que pôde e, mesmo assim, não vai conseguir cumprir o défice que os seus amigos lhe impuseram.

Diria mais, o senhor não serve nem a nós nem aos seus amigos (esses, os troikos), logo, se não serve para nada, é como a moção de censura do PCP tal como o senhor a entende – uma perfeita inutilidade.

25 de junho de 2012

Cristiano Ronaldo

Esta é uma velha embirração, caturrice, talvez, mas sempre achei que a Cristiano Ronaldo falta quase tudo, excepto habilidade nos pés.

Para desespero das massas apreciadoras do futebol, dos que acham que ele é o melhor jogador do mundo para além de qualquer dúvida razoável, e também dos simples portugueses que se sentam a ver um jogo da selecção do seu país, o Ronaldo parecia estar em divórcio litigioso com a baliza.

Não faltaram explicações de alto gabarito psicológico para tanto falhanço, se calhar todas boas, mas o facto é que o homem não marcava golos.

Na noite do jogo com a República Checa vi, num canal de notícias e já um pouco para o fim da noite, imagens em câmara lentíssima de todas as expressões faciais do jogador nos segundos após o golo que marcou.

O grito libertador, a comoção, quase as lágrimas, a alegria pura de menino, o orgulho, o expurgar dum feitiço mau, o alívio do fim da dor, sofrimento e frustração de muitos dias, a realização pessoal do homem, o esforço, o gosto por satisfazer também os outros, tudo passou, em breves instantes, na cara daquele rapaz.

Por breves instantes também, senti empatia, e lamentei que por perto nunca tenha tido ninguém que soubesse puxar pelo que terá de melhor, excluindo os pés, claro.


22 de junho de 2012

Já é verão





…mas continuamos à espera de dias de verdadeiro sol. Numa boa companhia.

Bom fim de semana.



21 de junho de 2012

A ambição da "rainha Joana"

Joana Vasconcelos inaugurou a sua exposição em Versalhes bem acompanhada pelos meios de comunicação social, e até levou “à pendura” um ministro e um presidente de Câmara.

Correu tudo bem. Ela é a “rainha Joana”, escandalizou os ultraconservadores como se esperava, agradou aos “progressistas” como também se esperava, tralalá e tralalá.

Acontece que Joana Vasconcelos viu um dos seus mais conhecidos trabalhos -  Noiva, feito de tampões - ser vetado pela directora do palácio e com isso ficou “mais do que decepcionada”.

Curto e grosso, eu diria que, para mim, artista que aceita censura ao seu trabalho e fica só mais que decepcionado, não é artista, não é nada.
Será, quanto muito, um artesão competente e ambicioso que procura satisfazer o cliente, receber o dinheiro e partir para outra.

Os devotos da” rainha” (que não é santa) ” Joana”, que me perdoem estas picuinhices.

20 de junho de 2012

A "lebre"

Quando o Dr. Medina Carreira começou a aparecer na televisão era um senhor de idade com um aspecto um pouco amarrotado.

Lá foi ganhando um lugar confortável com as suas profecias da desgraça e afirmações populista que a direita (e não só) aplaudia entusiasmada. “Medina carreiradas”, chamou-lhe Daniel Oliveira. Eu sempre o achei a fazer papel de “lebre”.
Esse lugar rendeu bastante, e agora temos um doutor bem-posto, com fato de bom corte, camisa e gravata a condizer.

Não sei se estará já com medo de que os cortes também lhe batam à porta, veio ontem dizer que é tempo de acabar com “a política dos cortes”.
Não sei se estará com medo de ser assaltado, mas lembrou-se também de dizer que o Estado Social é o “último reduto de alguma ordem social”. É por isso que com “machadadas”, com um “corte aqui e acolá” chegaremos a 2015 ou 2020 numa situação de “enorme precariedade [social]”. (aqui )

Apesar do medo que parece já lhe ter tocado com indelével mão, ainda assim, afirma: “a soberania do Estado hoje é inexistente” e portanto “não vale a pena pregar contra o neoliberalismo”.

Aprendamos, então, com o Medina Carreira:
1 – Soberania perdida jamais será recuperada.
2 – O neoliberalismo é uma inevitabilidade para todo o sempre. Ámen.

Mudará de ideias quando lhe tirarem o fato novo e a gravata? Ou se lhe roubarem o relógio?
Vou esperar para ver porque me parece que, em breve, até Medina Carreira entrará também no role dos descartáveis por se ter alcançado o objetivo pretendido.
As “lebres” sempre se abatem.

19 de junho de 2012

Imperdoável

A fina camada de verniz que foi cobrindo a sociedade portuguesa nos últimos anos, é, em muitos pontos, tão fina que só levou uma demão, e mesmo essa, muito, muito aguada. Por isso estala por quase nada.

A violenta desagregação do tecido social a que estamos a assistir não é “um quase nada”; é grave, sulcada de golpes profundos, feia e assustadora, mas, mesmo assim, não é desculpa para aquilo a que assistimos.

Os homens portugueses desataram a matar as suas mulheres como quem mata mosquitos incómodos e persistentes.

Só na semana passada, em cinco dias, duas mulheres morreram e outras duas ficaram em perigo de vida.

Estalado o fino verniz, por isto ou por aquilo, eis-nos confrontados com o esplendor da bestialidade masculina, mais o seu cortejo de tiros e facadas, disfarçada de paixão, vida sem esperança, amores canalhas, desemprego ou desnorte.

Tudo mentira. Trata-se apenas de pequenos tiranos de opereta, mas com a arma carregada, que se sentem donos das suas mulheres e autorizados a dispor das suas vidas.

Nada neste mundo, nenhuma desgraça pessoal ou social, pode justificar o assassínio das mulheres. Esta prática apenas sinaliza uma sociedade troglodita e machista - dum machismo desprezível, repugnante, e IMPERDOÁVEL.

18 de junho de 2012

Um magazine chamado Diário de Notícias


Na página de entrada do DN online de hoje podem ler-se títulos assim:


'Ex' de Rui Patrício processa mãe de Liliana Aguiar.

Ex-mulher de Djaló defende o futebolista.

Nova namorada de Baía é nutricionista na RTP1.

Tânia Ribas de Oliveira está grávida do primeiro filho.

Veja o bolo de anos do filho de Ronaldo.


Já ninguém precisa de dizer que leu no dentista ou no cabeleireiro.
Está tudo no Diário de Notícias, o grande jornal português que escolheu a fofoca.
Lástima.

Esquecimentos

David Cameron esqueceu-se da filha mais velha num pub.
Obama esqueceu-se de pagar o almoço.
A ERC esqueceu-se do relatório Relvas.
Gaspar esqueceu-se do que ouviu no Eurogrupo.
44% dos franceses esqueceram-se que havia eleições.
Os gregos esqueceram-se da fantasia.
A Europa continuará a esquecer-se de si mesma.

Porcaria de notícias que li nos últimos dias.

15 de junho de 2012

O cansaço da tartaruga Bibi

Viveram juntas 115 anos mas já não se podem ver

Segundo esta notícia, é o que se passa com um casal de tartarugas que vive num jardim zoológico da Austrália.

115 anos é obra, e por isso acho mal que as queiram reconciliar à força com afrodisíacos e terapia de casal. Se a Bibi quer a separação e a sua liberdade há tanto tempo perdida, ora essa, é um direito que lhe assiste.

Pensando bem, acho que elas só se aguentaram tanto tempo porque não falam; o dom da palavra, tão precioso para os humanos, pode, no casamento, mantê-lo ou dar-lhe a estocada mortal.
Os psicólogos aconselham diálogo, mas, cá para mim, o silêncio das tartarugas foi fundamental para a longevidade da relação, porque uma tartaruga nunca tem que engolir o que disse no “diálogo”.

Contudo, Bibi, depois de tantos anos, também não é preciso andar à dentada na carapaça do Poldi.
Não sei como é aí pela Austrália mas, por cá, o divórcio é fácil, enquanto os cuidados de saúde estão cada vez mais difíceis de obter.

Por isso, Bibi, aqui te deixo um conselho de amiga: vai com calma menina, procura um bom advogado e continua calada. Se calhar ainda vais a tempo de recomeçar a tua vida. Felicidades para ti.

14 de junho de 2012

Ele só fica se valer a pena

O carnaval futebolístico voltou em força.
Centenas de horas de emissões de rádio e televisão, quilómetros de folhas de jornal, dezenas de repórteres no local para noticiarem cada bocejo do Ronaldo e companhia.

Estamos, apesar de tudo e felizmente, longe dos paranoicos tempos de Scolari, com o seu cortejo de santinhos e o seu estranho sentido de Pátria.

Porém, vindas das mais altas esferas, continuamos a ver estupidezes embrulhadas em celofane verde e rubro.

É esse o caso do inenarrável anúncio da Galp Energia em que um rapazinho lê uma espécie de discurso aos jogadores, no qual afirma, entre muitas outras “pérolas”, que, no futuro, só fica em Portugal se valer a pena. Depreende-se, então, que isso está nos pés daqueles homens, e que ele próprio não é para aí chamado.

É tudo mau demais naquele anúncio.

Num excelente artigo do Expresso de 9 de Junho, Fernando Madrinha responde-lhe à letra não deixando nada por dizer.
Nem sequer deixa de referir aquela lamentável cena em Belém, com a qual ninguém ousou bulir – Cristiano Ronaldo a tratar o Presidente por “você” e a terminar o convite com um singelo “tá?”.
Tanta gente na Federação e ninguém que ensine o trivial das boas maneiras ao capitão?

E não, ó senhores da Galp, eu não me sinto (nem nunca me senti) representada por um grupo de toscos ricos que apenas sabem jogar à bola, e mesmo isso…tem dias.
O pior do nacionalismo e mau gosto chegou a este anúncio e parou.

Posto isto, pode até nem parecer, mas eu também torço pela selecção de futebol.
Isso! Futebol, apenas futebol.


13 de junho de 2012

Divertido e assustador

Redacção - Declaração de Amor à Língua Portuguesa

Vale a pena ler este divertido e assustador texto da escritora Teolinda Gersão para sabermos de que falamos quando falamos do ensino da Língua Portuguesa.

12 de junho de 2012

Quanto mais te baixas

Quando a Irlanda ouviu sobre as condições do empréstimo à Espanha, logo pôs o dedo no ar e disse “Também quero”.
Por aqui o primeiro-ministro continua a dizer que não sabe de nada, não precisamos de nada, e está-se bem.

Pena ele não ter sido criado por uma boa mãe alentejana que cedo lhe ensinasse que “quanto mais uma pessoa se baixa mais lhe aparece o cu”.

A imagem é de Gui Castro Felga

11 de junho de 2012

Google e pulgas

Ontem, quando acabei de enviar um e-mail da minha conta gmail, deu-me nas vistas num pequeno anúncio à direita, só texto, que dizia – Elimine as pulgas. Bioactivação, a derradeira novidade no controlo das pulgas; seguia-se o link.

Logo por baixo, estava um outro que anunciava Mudança Internacional, Orçamento Mudanças Internacionais / Transportes Marítimos e Aéreos.
O anúncio das pulgas, sobretudo, deixou-me a pensar por que raio me apareceria aquilo.

Olhei de novo e vi que por cima deles dizia: Porquê estes anúncios? Sentindo que ali estaria a resposta à minha perplexidade, abri o link que me informava: Estes anúncios baseiam-se nos e-mails da sua caixa de correio.

Cruzes, credo, como é que isso pode ser?
Não tendo animais domésticos, e sendo uma alentejana asseada como (quase) todas, como é que eu enviei ou recebi e-mails que levassem o Google a deduzir que eu preciso de controlar pulgas?

Pela internet podem-me chegar chatos, e às vezes chegam, mas pulgas…jamais!

Quanto às Mudanças Internacionais, confesso que também nunca pensei em “emalar a trouxa e zarpar”, embora às vezes apeteça.

Está-me a parecer que o Google anda a enganar o freguês mas, mesmo assim, deixou-me em pulgas para tentar perceber o que terei escrito que o levou a pensar que preciso de ajuda para lidar com…pulgas.

8 de junho de 2012

Lamber etiquetas e colar

Hoje em dia, é pecado:
- Ser de esquerda e não passar fome.
- Ter uma linha de pensamento estruturada mas independente dos partidos.
- Ter princípios bem definidos e defendê-los sempre.

Quem se encaixar neste perfil está tramado. Vêm de lá os guardiões do livre pensamento, ou os militantes apaixonados, e começam a distribuir as suas etiquetas predilectas:
Os primeiros gritam - FORMATADO! Os segundos escarnecem - ESQUERDA CAVIAR! Esta ordem é, porém, arbitrária, e até pode acontecer que todos gritem tudo e ainda mais.

Para estes espécimes, quem fizer exatamente o mesmo sendo de direita, é apenas coerente.

Os que tenho mais dificuldade em entender são os do pensamento livre. Este, geralmente, é tão livre, mas tão livre, que nenhum fio condutor o consegue segurar.
Com as ilimitadas e brilhantes ideias atadas num nó górdio, acabam a escrever umas coisas e o seu contrário, continuando sempre, e afanosamente, a colar etiquetas na testa dos outros; desde que esses outros assumam posições de esquerda, claro.
Mas afinal, se virmos bem, lamber etiquetas e colar é um passatempo tão bom como qualquer outro.

7 de junho de 2012

Para quem vem chegando

Vieste um dia com o teu sorriso franco e leal, mas tímido, e eu gostei.
Anos passados, preparas-te para levar uma das minhas joias, e eu estou pronta para a deixar ir.

Não te faço um empréstimo, nem uma doação, antes te passo o testemunho, porque filhos são joias, sim, mas não são nossas; a vida apenas os pôs à nossa guarda, por breves instantes e, talvez, por acaso.

Cumpram-se então as leis da natureza, que ordenam que a energia nova substitua a que se foi perdendo.

Passo-te o testemunho com satisfação, por perceber que, ao encontrar o outro, e no percurso, cada um se encontrou um pouco mais.
Passo-te o testemunho com grande paz, por saber que cada um não estará só na longa estrada por percorrer.
Passo-te o testemunho também com alguma vaidade, porque as escolhas dos nossos filhos também refletem um pouco daquilo que somos, e no grande jogo de espelhos que vivemos os meus olhos gostam do que vêem.

Sei que cuidarás bem do que agora te passo; não porque ache que essa seja a tua missão, nada disso, mas porque como diz o Caetano, “Quando a gente gosta, é claro que a gente cuida.”

Cá te esperamos, neste clã às vezes um tanto tresloucado, pouco tímido, mas franco e leal como o teu sorriso.


6 de junho de 2012

O nosso homem da maratona

Eu oiço muito pouco do que diz o ministro Gaspar. Dá-me sono, e a “ficha” solta-se sem aviso. Não tem importância, porque depois os telejornais dizem-me mil vezes o que eu não ouvi, e tudo fica bem quando acaba bem.

Victor Gaspar parece-me um corredor da maratona, disposto a correr muito e durante muito tempo (já lá vai um ano) só para nos trazer más notícias.

Porém, há qualquer coisa de anómalo num ministro que vem, pressuroso, como na semana passada aconteceu, prever que, se agora o desemprego é grande, para o ano será pior, como quem diz - esperem para ver se não acreditam em mim.

Isto é esquisito, e é tal a correria que, às vezes, apetece-me dizer-lhe que pare um bocadinho, descanse e nos deixe descansar a nós.

É que temo que lhe aconteça o mesmo que ao guerreiro ateniense que correu 42 quilómetros para dar a boa-nova da victória sobre os persas e caiu mortinho à chegada.

Claro que haveria sempre uma diferença; o ateniense ainda conseguiu, antes de morrer, dizer “Vencemos”, coisa que, desgraçadamente, nunca ouviremos ao Gaspar.

5 de junho de 2012

Eu fui

Há na nossa vida um período, quase um hiato temporal, com o seu quê de estranho mas muito saboroso.
Quem tiver a sorte de lá chegar, viverá o tempo em que os filhos são adultos e independentes, mas ainda são jovens; esse jovens, por sua vez, olham para nós e, mais por actos do que por palavras, dizem-nos – tu ainda és jovem.
Por isso fomos, juntos, para aquilo que, seja qual for a forma assumida, pode unir e conciliar até o que parece de todo inconciliável – a música.
Neste caso era, especificamente, o rock já património de pelo menos duas gerações, o rock de Bruce Springsteen - trabalhador forte e incansável, amigo e companheiro de dias de glória ou queda, verdadeira força da natureza.
Cantar em coro, assobiar, beber uma cerveja, comer uma fartura, dançar, bater o pé, sincronizar o corpo ou levantar o punho num grito, de tudo isso se faz um concerto.
Dizem que estavam oitenta mil; eu digo que éramos oitenta mil e seis.
Nós éramos seis e, por todos os lados, cercavam-nos, para aí, uns oitenta mil.
Glory night.

4 de junho de 2012

Borges e Sachs e FMI e etc.

As histórias sobre António Borges que vieram a lume recentemente são várias e com narrativas também variadas.

Tentando separar factos de interpretação e de teorias da conspiração, apurei que, na verdade, António Borges ganhou, em 2011, enquanto esteve ao serviço do FMI, 225 mil euros livres de impostos.

Não tenho nada contra quem ganha bem; costumo até advogar que políticos e polícias, por exemplo, deviam ser bem pagos para serem menos permeáveis às tentações.

Acontece que, trabalhar para alguns organismos internacionais transforma as pessoas numa espécie de deuses que não se regem pelas regras dos outros mortais e, por isso, estão isentos de imposto - caso de Borges e Lagarde.

Acresce a isto que a arrogância que o poder do lugar lhes traz os torna execráveis, deixando-lhes “o coração ao pé da boca”, livres para dizerem tudo que lhes der na real gana.
Lagarde está-se nas tintas para as crianças gregas e Borges acha indispensável baixar salários em Portugal.

Quem ganha 225 mil euros por ano não faz a menor ideia do que seja viver o mesmo período de tempo com 6 ou 7 mil euros, mas também não quer saber, não pára para pensar, não quer imaginar, não quer pôr-se no lugar de, e muito menos quer saber se as suas palavras ofendem os mais fracos do seu país.

Por mim, também não quero saber se Borges é competente. Sobre isso há muitas dúvidas, e há até quem diga e escreva que foi despedido do FMI por incompetência. Além disso, a competência pela competência não me interessa nada; o que me interessa é a ideologia que o competente vai pôr em prática.

Também não quero discutir as suas ligações à máfia do Goldman Sachs, mas essas ligações deixam-me muito intranquila quando sei que tem em mãos o dossiê das privatizações que vão deixar o meu país mais pobre e permitem muitas negociatas.

Posso decidir enfiar a cabeça na areia e não querer saber de nada disto, mas um sujeito de 63 anos que não tem, ao menos, pudor nas palavras usadas, merece toda a minha desconfiança e antipatia.

1 de junho de 2012

Cosmópolis

Li, há poucos meses, a novela Cosmopólis, de Don DeLillo, sem fazer a menor ideia de que, com base nela, Cronenberg estava a fazer um filme; porém, agora que o filme chegou, não fico espantada.

Quando percebi que Cosmópolis foi escrita em 2000, antes da queda das torres de Nova Iorque e muito antes da crise financeira global – dois marcos importantes da contemporaneidade - impressionou-me a capacidade visionária de Don Delillo sobre a nossa sociedade e o desastre anunciado.

Não é um livro macio ou afável, antes um livro que incomoda mas também fascina. A um ritmo alucinante, a escrita leva-nos numa cavalgada demente por Manhattan, na pele dum jovem milionário que a atravessa dentro duma limusina.

O retrato quase grotesco do dia de Eric Packer numa cidade de que a loucura se apossou, fascina e ofende, provoca sorrisos de ironia e arrepios de medo.
Excesso, poder, ganância, desconstrução e apocalipse social, tecnologia, individualismo e efemeridade são manejados por DeLillo com enorme mestria neste livro.

Não posso estar mais de acordo com Salman Rushdie quando ele diz que DeLillo é o “poeta da nossa desumanização”.
Um livro que se recomenda (muito) para ler, e agora um filme que estou mortinha por ver.


Cosmópolis
Don DeLillo
Relógio d’Água, 2003