26 de agosto de 2011

Ricardo Jacinto no Chiado 8

Até 14 de Outubro, e naquele local tão simpático que é o Largo do Chiado, no belo edifício da seguradora Fidelidade, pode ver-se uma excelente exposição de Ricardo Jacinto.
Com o título O Corredor, é constituída por duas salas, inicialmente escuras que nem breu, onde se projectam vídeos, e um espaço entre elas a que se chamou Foyer. Num dos vídeos vê-se a “História do pinheiro e do lobo” e no outro a “História da água e do avião”
Os vídeos correm em simultâneo, o que não permite vê-los em simultâneo mas permite ouvi-los em simultâneo. Se no 1º há uma ligação ao exterior com a festa do pinheiro em Guimarães e o biólogo que imita a voz do lobo, no 2º o artista remete-nos para os espaços fechados duma piscina e duma câmara anecóica para treino de pilotos.
No Foyer encontram-se, num pequeno ecrã, imagens de depoimentos dos intervenientes nos vídeos e o respectivo som em simultâneo, que nos vem dos quatro cantos da pequena sala, numa perturbante cacafonia inicial; porém, aos poucos, o ouvido e a visão do espectador vão discernindo qual o som que corresponde a qual imagem. É precisamente quando o conseguimos que percebemos que isso não é o mais importante, que os vídeos não pretendem fazer nenhuma narrativa ou ter um sentido.
A subjectividade é, por ali, rainha, e os nossos sentidos e percepção são convocados pelo artista para uma experiência que exige do espectador muito mais que a disponibilidade dum olhar passivo.
É uma boa experiência; vale a pena ir até lá para a ter.

25 de agosto de 2011

Sumário




- A Madeira está falida, de propósito, para a gente pagar. lol
- O Relvas contratou um feroz comunista do blog 5Dias.net e este aceitou para ganhar dinheiro mas afinal vai perder dinheiro. Os bloggers andam todos à porrada, ou melhor, ao insulto, por causa disso. lol
- TGV outra vez? Sim, não, talvez, quem sabe? lol
- Amorim diz que não é rico, é trabalhador. lol
- Passos não tem conta bancária. E só tem um utilitário. lol
- Mário Crespo foi convidado para Washington mas afinal não foi convidado. lol
- Seguro desapareceu para parte incerta e o PS nem oferece alvíssaras. lol
- Notícia mesmo séria: o Miguel Bombarda fechou.

24 de agosto de 2011

Já sei onde é que a Moody's desembarcou

Acho que já percebi porque é que a Moody’s nos classificou como lixo. É que eles, à chegada, desembarcaram no terminal rodoviário de Sete Rios.
O espaço foi inaugurado, como provisório, claro, em 2004 e desde aí ninguém mais lhe ligou peva.
Quem é que, até aqui, viajava de autocarro? Os pobres, claro, e para esses, geralmente feios, porcos e, às vezes até maus, qualquer coisa serve.
Tudo parece intocado naquele local, excepto pelo tempo. Papeleiras e cinzeiros, ao fim de 7 anos a servir mais de 7000 pessoas por dia, apresentam-se coxas do reumático, com muitas manchas na pele, queimaduras de primeiro grau e problemas sérios de coluna. Lá para o fim do dia o lixo é tanto que elas se recusam a engolir mais e os cinzeiros, vítimas de transeuntes apressados, fumegam como chaminés de siderurgia. Ao mesmo tempo, os ecrãs de chegadas e partidas podem  entrar em descontrolo emocional sendo possível ver que um autocarro com chegada prevista para as 19h45 às 17h30 já CHEGOU.
O linóleo do chão do bar foi entregue a um pintor revivalista da Op art e, o dito bar, apesar de amplo, apresenta apenas quatro raquíticas mesas altas onde ninguém se pode sentar, não vão os estafados passageiros pensar que estão nas Docas. Na casa de banho das senhoras, o dito pintor Op também fez o seu trabalho no linóleo; além disso, cada torneira tem seu estilo, mas em comum têm o facto de todas pingarem sem interrupção. No tecto, falta um painel, pelo que, enquanto se espera na cordata fila, podemos admirar os píncaros do imóvel; quanto aos autoclismos, trabalham por turnos.
Fantástica mesmo é a sala de entrada. Muito ampla e luminosa, serve as bilheteiras e os WC, e não serve para mais nada, visto que não há um único lugar para sentar; com aquele tamanho suponho que não se pode sentar mas pode-se andar de patins. Passageiro está cansado e carregado? pois sente-se na rua, desfrutando a clemência deste clima, ou bem juntinho aos autocarros a respirar o fumo dos escapes. Mas, mesmo aí, atenção, nada de puxar do cigarrito que não se quer cá a estação poluída.
Ó senhores da gestão daquela coisa, sabemos que para pobre “bacalhau basta”, mas eu tenho a certeza que a Moody’s entrou por ali, ou não nos teria classificado como LIXO.
E eles podem voltar.

23 de agosto de 2011

O óbvio e o menos óbvio

Ao fim de 37 anos de democracia, o voto dos portugueses tornou-se mais ou menos previsível a cada acto eleitoral.
Quando, no dia 5 de Junho foram mais uma vez chamados a votar, a sua vontade de mudança era tão grande que, previsivelmente, a maioria optou pelos partidos que, com toda a certeza, garantiriam essa mudança; outros, incapazes de pôr a cruz em partidos com que não se identificam, mas desejosos de mudança e estabilidade, escolheram o voto em branco, conscientes de que o resultado seria o mesmo. Esqueceram esses que também na mudança os fins não justificam os meios, e que a estabilidade pode ter um alto preço ou não se traduzir em nada mais que uma paz social muito podre.
Mas mudar era imperioso; porém, os portugueses não perceberam, julgo que até hoje, que o PSD de Passos não tinha nada que ver com o velho PSD, esse sim, seu velho conhecido. Pois se até o velho professor Marcelo, tão perspicaz e inteligente, continua a comentar o governo como se ele fosse constituído pelo velho PSD…
Com o país ainda de férias, só mais lá para a frente a maioria será confrontada com as (poucas) medidas já em vigor e as (muitas mais) que aí vêm. A título de exemplo vale a pena referir que, hoje, 5 euros não dão para mais que duas viagens ida e volta de Metro.
Este governo, eleito com o voto desesperado dos portugueses, vai destruir o que levámos 37 anos a construir.
Com a sua fúria de ser mais duro e rápido (mas sempre com os mesmos) que a troika, vai levar os portugueses à penúria e a um passado que as novas gerações desconhecem.
Quem dera estar enganada, mas acho que é só esperar para ver.
 



22 de agosto de 2011

João Penalva no CAM

“Trabalhos com texto e imagem” é o nome da exposição antológica de João Penalva que o Centro de Arte Moderna da Gulbenkian exibe até 9 de Outubro de 2011.
Constituída por fotografias, vídeos, textos, pinturas, esculturas e instalação, nela vamos descobrindo as múltiplas facetas dum artista a quem nenhuma forma de expressão é estranha. Bailarino, pintor, actor, escritor, tradutor, gráfico, curador, cineasta, fotógrafo, poderia ter sido também escritor, porque aqui encontramos também um bom narrador e contador de histórias (reais ou imaginadas), que até nos podem fazer rir: eu ri, e ouvi um jovem que estava por perto dar umas boas gargalhadas.
Porém, visitar esta exposição que ocupa todo o CAM, excepto a Galeria -1, exige tempo, muito tempo, porque não se trata apenas de ver, mas também de ler.
Ouso por isso dizer que o tamanho desta exposição é quase um absurdo.
Por mim, estive lá duas horas e só vi uma parte. Com muita pena minha, que gostaria de ter visto mais, as pernas disseram-me para ir embora, e eu fui. Pelas minhas contas, para ver e ler tudo, precisaria de lá voltar ainda umas três vezes. A quatro euros cada vez…é fazer as contas, como dizia o outro.
Quem quiser ficar-se por uma única visita, dependendo da sua condição física e do número de vezes que vai ao ginásio, pode ficar com um visão maior ou menor do excelente trabalho dum dos nossos  mais internacionalizados artistas.
O catálogo que acompanha a exposição não desmerece; com abundantes reproduções, tem textos em português, inglês e dinamarquês de Rachel Withers, Bruno Marchand e João Nisa (cinema).
Preço, 40 euros.
Enfim, luxos.




20 de agosto de 2011

Um bom conselho

Não recomendo o deserto ao viajante que já tem o deserto dentro de si. Não há pior encontro. Para sobreviver emocionalmente ao deserto é necessário um grande cantil emocional de interesses, afectos, curiosidades e planos de futuro. Se vamos frágeis e vazios de significado para esse encontro, podemos não aguentar.
Gonçalo Cadilhe, Expresso, Única, 13/08/2011
                                                       

19 de agosto de 2011

Vestido novo

O blogue tem, a partir de hoje, um vestido novo, sujeito a novos acertos.
Espero que gostem!

Lisboa na Rua


Uma boa iniciativa que os lisboetas acolhem com agrado e boa participação. Imagens de ontem ao fim da tarde no Largo S. Carlos com a Orquestra Jazz de Matosinhos.
Aproveitemos.




18 de agosto de 2011

Ó Mourinho

 

Mourinho é um português de sucesso; Mourinho é um dos portugueses mais conhecidos no mundo; Mourinho ajuda a levantar o ego de muito português injustiçado, mas Mourinho está cada vez mais arruaceiro. Ó Mourinho, tem lá calma, pá, que para pior já basta assim e tudo o que a gente não precisa agora é de ver um português a levar um puxão de orelha dum espanhol depois de lhe teres metido o dedo no olho.
Haja paciência! E, já agora, maneiras







17 de agosto de 2011

Ana Vidigal – “the brain is deeper than the sea”.

Pode-se gostar de arte e de visitar exposições, mas ouvir os artistas visuais a falar do seu trabalho é, à partida e garantidamente, uma experiência que vale a pena ter.
O Museu do Chiado, que no primeiro semestre deste ano aumentou em 63% o número de visitantes em relação ao mesmo período do ano passado (nem tudo são más notícias), tem a decorrer um programa a que chamou “Outros Olhares, Novos Projectos”. Convidou vários artista para que cada um escolha uma obra do museu e produza outra para com ela dialogar.
Neste momento, o olhar e o projecto são de Ana Vidigal, que escolheu o quadro de José Malhoa, “Praia das Maçãs”. Colocou-o em confronto com grandes impressões a jacto de tinta de páginas do seu próprio álbum de fotografias da infância passada na mesma praia, e feito pela sua mãe. Na adolescência, Ana Vidigal retirou as fotos e distribuiu-as pelos amigos, pelo que agora vemos apenas as palavras escritas pela mãe, legendando as imagens, e os cantos que seguravam as fotografias. No texto que acompanha exposição, escrito pela artista, lê-se:


“Mostrar o vazio. Mostrar aos outros que o cérebro, a memória e o que cada um inventa para a sua própria “história” é muito mais profundo que o mar. Ver está muito para além do (nosso) olhar.”


Tudo isto e muito mais explicou Ana Vidigal numa conversa com os visitantes, na sua maneira simples, despretensiosa, directa, fluida, por vezes irónica. E, sendo a ironia um traço característico de Ana Vidigal, não se estranha o subtítulo por ela escolhido (projecto ana/malhoa) que primeiro se estranha e depois diverte. A exposição completa-se com uma fotografia actual do local pintado por José Malhoa e com a frase do poema de Emily Dickinson “the brain is deeper than the sea”. Uma vez que não há anúncio de mais conversas destas, quem visitar a exposição precisa absolutamente de ler o texto citado, escrito pela artista, e que se encontra disponível à entrada do espaço expositivo.

14 de agosto de 2011

Domingo com Tejo e tudo

Ao contrário de muitos, não me incomoda que o comércio da Baixa e Chiado esteja fechado ao domingo, sobretudo se for verão. Comércio aberto convida ao consumo, atrai para si mesmo e distrai de tantas outras coisas que, na pressa dos dias, nem notamos.
Domingo de verão na baixa de Lisboa é dia vazio de autóctones, a não ser os que vão para a missa na igreja dos Mártires, e as ruas são deixadas aos turistas. Há-os de todas as idades mas geralmente são jovens, com as suas mochilas, calções, saias largas, sandálias em pés sujos, guias na mão, fotos por tudo e por nada, risos de tudo e de nada, e linguajar em múltiplas modulações.
Os bancos á sombra das árvores no largo do S. Carlos convidam a sentar, e o convite é aceite; subitamente reparo, e pela primeira vez VEJO, a horrível escultura que se perfila diante da bela e harmoniosa fachada neoclássica do Teatro S. Carlos, junto ao prédio em que nasceu Fernando Pessoa.
Olhei-a de todos os lados, girei para a direita, para a esquerda, fui pelas costas e subi pela frente, e não mudei de opinião – horrível.
Então, investiguei
O seu autor é Jean-Michel Folon, artista belga já falecido; foi comprada pela autarquia lisboeta em 2001, andou por aí, até que em 2008 foi colocada onde agora esbarrei com ela. A coisa não é má, é péssima - uma figura de homem em bronze, hirta, com os braços atrás das costas e um livro enfiado na cabeça (e em vez dela). Na capa do livro está escrito Pessoa, e na contracapa Lisboa. O conjunto é assustador. Virei costas e continuei o caminho pela Rua Serpa Pinto abaixo, donde logo vislumbrei o rio com o seu azul limpo, puro, luminoso e mediterrânico.
Nesse exacto momento, perdoei a todos os Folon deste mundo.

11 de agosto de 2011

Nem preto, nem branco

A blogosfera e os jornais estão cheios de comentários sobre os acontecimentos de Londres. Para uns, os jovens devem ser desculpados porque a culpa é do “sistema”; para outros, são pura e simplesmente uns criminosos, desordeiros e ladrões.
Como se sabe, nada é só preto ou só branco e por isso eles são criminosos, desordeiros e ladrões, sim, mas o “sistema” também tem a sua dose de culpa.
Alguns serão toda a vida apenas criminosos, desordeiros e ladrões, porque essa é a sua natureza, e há disso em todo o mundo, outros serão apenas fruto dum multiculturalismo falhado, dum capitalismo de casino e sem vergonha, de políticas em que o futuro e a esperança não entram.
Por isso repito: a Europa deve estar preocupada com a selvajaria mas também com a raiva que nidificou no seu seio. E se não pode, de todo, viver sem os emigrantes (e as suas 2ª e 3ª gerações) tem que cuidar deles como dos seus.
O que aconteceu em Londres foi aterrador, com muitos protagonistas destituídos de quaisquer normas de conduta ou cidadania mas, por todo o mundo, jovens com causa saem à rua e enfrentam o poder, como está a acontecer no Chile ou em Israel.
Sim, o futuro já não é o que costumava ser e a insegurança e falta de perspectivas generalizadas só podem tornar cada vez mais frequentes cenas como as que vimos em Londres, pregados à cadeira em frente ao televisor.

9 de agosto de 2011

O elevador

O elevador do hotel da praia é uma espécie de Arca de Noé dos tempos modernos.
“Sobe que sobe, desce que desce”, sempre carregando gente no seu bojo, mas também tralhas, aromas e estados de alma
Pela manhã, o elevador transporta restos de sono e sonhos vestidos de calção, t-shirt e sandálias. Geralmente não tem cheiro, mas pode pairar no ar um subtil aroma a sabonete.
Ao longo do dia carrega homens, mulheres, velhos, novos, crianças de todos os tamanhos, mas também sacos de praia a abarrotar de “coisas”, toalhas, sombrinhas, cadeiras, colchões, carrinhos de bebé, cadeiras de rodas, baldes, pás, chapéus. Enfeita-se então de fato de banho ou biquíni, saída de praia, óculos de sol e chinela no pé. Cheira a sal e sol, protector solar e suor.
Leva sempre muitos, apertadinhos uns contra os outros; quase se pode apalpar a claustrofobia, o mal-estar ansioso, o desagrado pela excessiva proximidade de corpos estranhos, a sufocante ausência de espaço vital, o cansaço e o silêncio.
Ao pôr-do-sol o elevador desce já lavado; jovens de cabelo ainda molhado, senhoras bem penteadas (como o conseguirão?).
No ar misturam-se aromas de todas as águas-de-colónia da moda, e veste-se com vontade de parecer bem.
De noite, volta a subir e a cheirar de novo a sono e sonhos, mas também a sexo, álcool, erva, azia e escaldão.
Por umas horas, descansa.
Para logo recomeçar o seu interminável “sobe que sobe, desce que desce”.

8 de agosto de 2011

Estado-providência

O Estado-providência, em suma, nasceu dum consenso transpartidário do século xx. Foi implementado, na maioria dos casos, por liberais ou conservadores que haviam entrado na vida pública muito antes de 1914, e para quem o fornecimento público de serviços médicos universais, pensões de velhice, subsídios de desemprego e doença, educação gratuita, transportes públicos subsidiados, e outros pré-requisitos de uma ordem civil estável, representavam não o primeiro estádio do socialismo do século xx mas o culminar do liberalismo reformista do fim do século xx.
…os Estados-providência “socialistas” do século xx construíram-se não como uma guarda avançada da revolução igualitária, mas para proporcionar uma barreira contra o regresso do passado: contra a depressão económica e o seu resultado político polarizador na política desesperada, tanto do fascismo como do comunismo. Os Estados-providência eram portanto Estados profilácticos. Foram concebidos de forma muito consciente para responder ao anseio generalizado de segurança e estabilidade…
Graças a meio século de prosperidade e segurança, no Ocidente esquecemos os traumas políticos e sociais da insegurança em massa. E assim nos esquecemos do porquê de herdarmos esses Estados-providência, e o que os justificou.
Retirado de:
O Século XX Esquecido
Lugares e Memórias
Tony Judt, Tradução de Marcelo Felix, Edições 70, LDA., 2010

Está na hora de recordar ou aprender, digo eu, agora que tudo aponta para um regresso ao passado. O Estado-providência não foi uma boa invenção de políticos dados à caridade e que os estados hoje já não podem suportar; foi terapêutica profiláctica contra males, para nós inimagináveis, mas que nos espreitam de novo.

5 de agosto de 2011

E Pitta anima a silly season

Conhecido bloguista foi a Roma passar uns diazitos e comemorar 1 ano de casamento.
À chegada aqui à parvónia (ou será que reporta ainda de Roma? pelo menos ameaça com um continua), num post a que chama Férias Romanas 1, faz o relato pormenorizado de hotéis, cafés, esplanadas, preço de chá e bolo, dá nota a restaurantes numa escala de zero a vinte, escolhe a geladaria da sua preferência, analisa a “canalização” das empregadas da casa de chá achando-a em pior estado que a das freiras que viu no Vaticano e vai por aí fora até ao já anunciado jantar comemorativo. Termina nesse ponto para, segundo ele, “evitar provocar urticária à matilha soixante-huitard.”
Ó Eduardo, eu se calhar pertenço à matilha, mas olhe que urticária provoca-me o Sol, que é uma Estrela.
Posts destes mandam-me directa para o Kompensan.

Escalas do Levante

Quando me apetece um livro que me agarre desde a primeira frase e me envolta até ao fim, posso escolher vários autores, mas um valor seguro que nunca me desilude é Amin Maalouf.
Grande escritor e superlativo contador de histórias, libanês por nascimento e francês por adopção, faz como nenhum a ligação histórica e cultural do oriente/ocidente. As suas personagens corajosas, às vezes trágicas, são carregadas de humanidade e em todas podemos encontrar um pouco de nós
Neste livro, na página 170, encontrei uma frase do personagem principal que sabe bem ler nos tempos que vivemos – Mesmo quando não se vê luz ao fundo do túnel, é preciso continuar a acreditar que há uma luz, e que ela surgirá.
Quem não gosta duma boa história, ainda por cima bem contada?
Recomenda-se:
Escalas do Levante
Amin Maalouf
Difel

4 de agosto de 2011

Refugiados 2

Ouvi ontem dizer num telejornal que, actualmente, existem no mundo 44 milhões de refugiados.
O número é brutal mas António Guterres, Alto-comissário da ONU para os Refugiados, disse que este estava a ser um bom ano porque os países vizinhos dos emissores de refugiados (países árabes, sobretudo) estavam de fronteiras abertas e com boa colaboração, ao contrário da Europa.
Acrescentar o quê? Já aqui escrevi sobre isso e os Anders Breivik deste nosso velho continente mostram como é forte a nossa tendência para escolhermos os caminhos das trevas já bastas vezes trilhados.

3 de agosto de 2011

Dúvidas climáticas

Desde 2006, quando Al Gore apresentou Uma Verdade Inconveniente sobre as alterações climáticas, a paranóia tem vindo em crescendo na retórica, e quase exclusivamente na retórica.
Não duvido que podíamos ser muito melhores zeladores desta casa que a todos aloja e que se chama planeta Terra, mas parece-me que muitos vão ganhando bom dinheiro com a questão ecológica que se transformou, por um lado em medo (mais um medo), por outro em moda, e por outro ainda em negócio rentável.
Sempre me pareceu que o Homem, nos seus infinitos sonhos de grandeza, se considera muito mais importante do que aquilo que de facto é, talvez por ter sido tão marcada por Carl Sagan, que foi a primeira pessoa a dizer-me que nada mais somos que pó de estrela.
A revista Única do Expresso desta semana traz um interessante entrevista com Luís Carlos Molión, climatologista brasileiro, que vai bem mais longe que eu no seu cepticismo. Afirma ele que os responsáveis pelas alterações climáticas (que não são de agora, mas de sempre), são os oceanos e o sol, e que a terra vai arrefecer nos próximos 20 anos.
Quando lhe é perguntado se não há influência da actividade humana nas alterações climáticas da Terra responde que não, porque apenas 7% da superfície da Terra é manipulada pelo homem, e este apenas modifica o ambiente local em que vive.
Eu prefiro ter dúvidas a ter medo, detesto fundamentalistas de qualquer causa e penso – talvez Molión não tenha razão mas, e se tiver?
Bom, se tiver ninguém lha dará. Os negócios iniciados devem continuar, tal como o medo, não muito palpável mas já bem instalado, que sempre torna os homens mais pacíficos e acomodados.

2 de agosto de 2011

Liberdade

Quando se pretende vender alguma coisa com o artigo O em vez de UM, geralmente é conversa manifestamente exagerada.
Vem isto a propósito do romance Liberdade de Jonathan Franzen, lançado com grande estrondo em Abril deste ano. Quando em 2001 li Correcções do mesmo autor, achei que era um bom romance mas nunca mais ouvi falar em Franzen. Percebo agora que levou nove anos a publicar de novo e talvez com a pretensão de escrever O grande romance americano do século XXI.
Conseguiu-o mas apenas em tamanho; quase 700 páginas com a vida duma família americana na era Bush. Se tivesse menos 300 páginas não se teria perdido nada, ouso até pensar que seria mais difícil de realizar e mais estimulante para o leitor.
Lê-se com agrado mas está longe de ser um livro que nos fique na memória por muito tempo. Quanto a mim, também não cumpre o objectivo de Franzen em tocar o que, numa entrevista ao jornal brasileiro O Globo, classifica como o leitor ideal - alguém que “anda por aí sentindo que todo mundo parece saber o que fazer, menos ele, que todos estão seguros enquanto ele está cheio de conflitos, e que ninguém parece incomodado com as coisas que o incomodam”.
Um leitor assim sabe, mesmo sem ser cínico, que os finais felizes como o que o autor escolheu geralmente só acontecem nos filmes de domingo à tarde.
Mas, mesmo assim, vale a pena ler.

Ed. D. Quixote, 2011

1 de agosto de 2011

Ponham os olhos no Viola e metam a viola no saco

Deu-me a curiosidade para ir espreitar aqui as nomeações do governo para a Secretaria de Estado da Cultura.
Ao todo são 10 nomeações, menos que para a Caixa Geral de Depósitos, o que se percebe – cultura é cultura, Dinheiro é Dinheiro e não há cá comparações possíveis.
Foram nomeados:
3 Secretárias
2 Especialistas jurídicas
4 Colaborador/Especialista
1 Motorista
Tudo mais ou menos normal, se não se desse o caso de um colaborador/especialista ganhar 474,12€ e os outros três ganharem todos um pouco mais de 3000€.
Será especialista de quê, para ganhar tão mal, coitado? Se calhar do sabonete a usar nos WC.
Em compensação temos um motorista que deve ter abandonado a Fórmula 1 para conduzir o Viegas; é que o rapaz, de 21 anos, vai ganhar, como ordenado-base obviamente, 1866,73€.
Chama-se André Viola e é um exemplo para toda essa juventude que para aí anda a dizer que está à rasca. Vá, meninos, ponham os olhos no Viola que certamente foi à luta, não se acomodou, foi criativo e empreendedor, e por isso teve o justo prémio.
Ah, houvesse muitos Violas neste país e nem teríamos cá troikas nem coisas dessas com nomes esquisitos.

29 de julho de 2011

Pessoinhas



Sou como todos os portugueses. Se me perguntarem, respondo logo que sou contra toda e qualquer violência, mas não é assim tão raro ter vontade de bater em algumas criaturas. Lá me aconteceu hoje outra vez.
No Pessoas do Público de hoje diz-se sobre Rachel Zoe (para quem não se lembre é uma americana loira, enjoada, malcriada e neurótica que tem um programa que passa na SIC Mulher em que briga com os empregados, limpa os pés ao marido e, de vez em quando, veste umas celebridades lá do sítio), o seguinte e resumindo: o seu filho de quatro meses tem “pelo menos 14 pares de sapatos, de marcas como Ralph Lauren, ou seja, milhares de euros em sapatos que deixarão de servir ao bebé dentro de pouco tempo. Do guarda-roupa faz ainda parte um casaco de pele da Gucci.”
Ora digam lá se não apetece dar-lhe uns valentes tabefes naquela cara enjoada, seguidos de umas boas palmadas no sítio que eu cá sei. Só para ela acordar, claro.
E o Público bem podia criar uma rubrica para pessoas assim que se chamasse Pessoinhas.

28 de julho de 2011

Estamos cansados, ó bilionários!

Os 25 mais ricos de Portugal aumentaram fortunas para 17,4 mil milhões

Estamos cansados de ler sempre as mesmas notícias.
Estamos cansados de vós, ó bilionários, não por serem ricos, mas porque a vossa riqueza não produz nem redistribui riqueza.
Estamos cansados de 10 anos de crise enquanto vocês engordam.
Estamos cansados de impostos, enquanto vocês engordam.
Estamos cansados de “cortes”, enquanto vocês engordam.
Estamos cansados de aumentos, enquanto vocês engordam.
Estamos cansados de taxas, enquanto vocês engordam.
Estamos cansados de carregar a culpa, enquanto vocês engordam.
Estamos cansados. Estamos cansados. Estamos cansados.
Mas, povos cansados também fazem história. É só ler a História.

27 de julho de 2011

Olhando os outros

Elas chegavam impreterivelmente às 18h30. Todos os dias.
Iguais. Apenas separadas por trinta anos de vida vivida, ou por viver.
As cadeiras de praia e a sombrinha previamente alugadas lá estavam à espera,
paralelas mas ligeiramente oblíquas em relação ao mar. Procuravam o sentido do sol, uma um pouco atrás da outra.
O ritual começava então.
Dos enormes sacos saiam duas toalhas rigorosamente iguais, com riscas azuis e amarelas, que eram estendidas nas cadeiras e presas na parte superior da lona com gestos precisos e domésticos. Os sacos eram colocados nos assentos e tapados com a parte restante da toalha. A filha tirava rapidamente a “saída de praia”, calçava os sapatos de plástico, alinhava com o elástico o cabelo já alinhado, e dirigia-se para a beira da água. Para lá e para cá, trinta passos de cada vez. Tinha a posição corporal do atleta nos momentos de concentração antes da prova que preparou durante todo o ano. Cabeça ligeiramente flectida, passos certos e cadenciados, a suave palmada na coxa, como que para descontrair a mão, ou afugentar o medo de falhar.
Contudo, o seu corpo não tinha nada de atlético. Miúdo e magro, razoavelmente moldado no biquíni discreto.
De vez em quando permitia-se sair da concentração e, com um olhar furtivo, averiguava o estado de preparação de sua mãe para o banho de mar.
Esta, tomava o seu tempo. Despia a bata, colocava o boné verde, calçava uns ténis, punha batom protector, arrumava e tornava a arrumar. Quando terminava, com inequívoco sinal de maior minúcia materna, quebrava a sintonia recolhendo os cantos da toalha sob o saco, como quem faz a cama.
Finalmente pronta.
A filha prontamente acorria, dava-lhe um esvoaçante mas terno beijo no ombro, pegava-lhe na mão e caminhavam assim, durante muito tempo, por dentro do mar chão e prata do entardecer.
Nunca vi a mãe beijar a filha.

26 de julho de 2011

Bom apetite!

Podem homens inteligentes, subitamente, transformar-se em adoradores de nabos?
Podem. É só ver a devoção com que alguns, na disputa eleitoral do PS, se entregaram ao TÓ ZÉ. E que felizes ficaram!
Aqui deixo, para todos, sinceros votos de boa digestão do tubérculo que tanto apreciam.

25 de julho de 2011

Trilhos (ou o amor aos livros)

No meu caso, não há maneira mais rápida de fazer amigos que encontrar alguém que ame os livros; será assunto encerrado se amarmos os mesmos livros.
Começamos por os referir, depois trocamo-los, e por fim comentamo-los com aquele sorriso largo e cúmplice de puro deleite partilhado.
Recentemente, uma amiga assim ofereceu-me um livro que já me tinha emprestado há uns bons anos. Não foi um livro igual àquele, não, foi o mesmo livro, aquele cujas páginas eu já tinha percorrido bem envolvida na escrita, na aventura, na “moral da história”.
Pego-lhe, manuseio-o já bem usado, cheiro-o, acho que o acaricio até, olho de novo as palavras manuscritas de fresco e, nesse exacto momento, sou feliz.
Tem por título Trilhos – No deserto australiano com quatro camelos e um cão.
A autora é Robyn Davidson, foi escrito em 1980 e publicado em Portugal pela Quetzal em 1999.
Sobre ele Doris Lessing escreveu:
“Um livro forte e estimulante escrito por uma jovem e original escritora (…). Este livro figurará entre os melhores livros de exploração e viagem e, como eles, é um testemunho de auto-descoberta e auto-avaliação”.
É isso mesmo.
Talvez ainda se encontre por aí, não é certo, mas agora eu tenho-o.
A Paula ofereceu-mo.

24 de julho de 2011

Coisa ruim

Saí daqui há uma semana e parece que, entretanto, coisa ruim tomou conta da situação.
A Europa, como diria o Gedeão, "faz que anda mas não anda, parece de brincadeira"
Morreu Amy Winehouse.
Morreu Lucian Freud.
O atentado de Oslo matou quase 100 pessoas.
Portugal não escapou ao desastre e o PS acaba de eleger para secretário-geral António José Seguro.
Livra !

13 de julho de 2011

A TMN e as suas manigâncias

Há cerca de um ano comprei uma pen de banda larga da TMN.
As condições obrigavam-me a fazer um carregamento de 10 euros a cada seis meses.
Em contacto telefónico, feito por mim e por outros motivos, vim a saber que as regras mudaram e que agora é obrigatório o carregamento de 10 euros mas a cada 3 MESES.
Eu acho que isto tem um nome feio mas, como toda a gente sabe qual é nem vale a pena escrevê-lo.
Vale a pena é confirmar que a PT (e a sua TMN) é mesmo LIXO.

Um país às avessas

Eu nem sou admiradora do pensamento do João César das Neves mas este artigo de opinião que publicou no dia 11 de Julho no DN, e que transcrevo, tem muito de verdadeiro e mostra bem um país às avessas

Há dias um pobre pediu-me esmola. Depois, encorajado pela minha generosidade e esperançoso na minha gravata, perguntou se eu fazia o favor de entregar uma carta ao senhor ministro. Perguntei-lhe qual ministro e ele, depois de pensar um pouco, acabou por dizer que era ao ministro que o andava a ajudar. O texto é este:
"Senhor ministro, queria pedir-lhe uma grande ajuda: veja lá se deixa de me ajudar. Não me conhece, mas tenho 72 anos, fui pobre e trabalhei toda a vida. Vivia até há uns meses num lar com a minha magra reforma. Tudo ia quase bem, até o senhor me querer ajudar.
Há dois anos vierem uns inspectores ao lar. Disseram que eram de uma coisa chamada Azai. Não sei o que seja. O que sei é que destruíram a marmelada oferecida pelos vizinhos e levaram frangos e doces dados como esmola. Até os pastelinhos da senhora Francisca, de que eu gostava tanto, foram deitados fora. Falei com um deles, e ele disse-me que tudo era para nosso bem, porque aqueles produtos, que não estavam devidamente embalados, etiquetados e refrigerados, podiam criar graves problemas sanitários e alimentares. Não percebi nada e perguntei-lhe se achava bem roubar a comida dos pobres. Ele ficou calado e acabou por dizer que seguia ordens. Fiquei então a saber que a culpa era sua e decidi escrever-lhe. Nessa noite todos nós ali passámos fome, felizmente sem problemas sanitários e alimentares graves.
Ah! É verdade. Os tais fiscais exigiram obras caras na cozinha e noutros locais. O senhor director falou em fechar tudo e pôr-nos na rua, mas lá conseguiu uns dinheiritos e tudo voltou ao normal. Como os inspectores não regressaram e os vizinhos continuaram a dar-nos marmelada, frangos e até, de vez em quando, os belos pastéis da tia Francisca, esqueci-me de lhe escrever. Até há seis meses, quando destruíram tudo.
Estes não eram da Azai. Como lhe queria escrever, procurei saber tudo certinho. Disseram-me que vinham do Instituto da Segurança Social. Descobriram que estava tudo mal no lar. O gabinete da direcção tinha menos de 12 m2 e na instalação sanitária do refeitório faltava a bancada com dois lavatórios apoiados sobre poleias e sanita com apoios laterais. Os homens andaram com fitas métricas em todas as janelas e portas e abanaram a cabeça muitas vezes. Havia também um problema qualquer com o sabonete, que devia ser líquido

12 de julho de 2011

Dublinesca

Há livros que compramos sem entusiasmo, vá-se lá saber porquê. Pegamos-lhes também sem entusiasmo e, quando assim é, muito raramente eles nos conseguem agarrar.
Foi o que me aconteceu com Dublinesca de Enrique Vila-Matas, lido durante um ror de tempo mais por teimosia do que por cumplicidade.
Ele é considerado o grande autor contemporâneo espanhol (ou catalão), e esta já é a segunda vez que faço o esforço para gostar dos seus livros, mas agora acho que já chega.
O resumo do livro apresentado pelo editor está por toda a parte para quem quiser ter uma ideia sobre o seu conteúdo, e nem vale a pena falar dele aqui, mas vale a pena relembrar algumas frases proferidas pelo autor numa entrevista concedida a José Riço Direitinho no ípsilon  de 23/02/2011..

"a situação actual da literatura não poderia ser mais lamentável".
“O Auster decidiu que esse passado em comum nos unia. Creio que decidiu isso porque tinha vontade de encontrar um motivo razoável para começar a ser meu amigo.”
“O curioso é que no final do meu romance a pobre literatura acaba por estar mais viva do que nunca, como se o seu funeral em Dublin - ou o meu romance - a tivessem trazido de novo à vida, a tivessem ressuscitado.”
Ora aí está um homem/escritor contente consigo e que se tem em alta consideração; pois se até o Paul Auster quis à força encontrar um motivo para ser seu amigo e se o seu romance ressuscitou a literatura...

E acrescenta também:
"Não sabemos se a literatura está em crise, mas a crise do juízo literário salta à vista."
Não tenho dúvidas – é esse o mal de que padeço.

11 de julho de 2011

E agora, Tristane

Dominique Strauss-Kahn tem o seu assunto quase arrumado lá nas Américas, embora, para o comum dos mortais, todas as dúvidas sejam legítimas, qualquer que seja o resultado final, dada a enormidade de meios utilizados pelas partes.
Posto isto, eis que lhe aparece uma tal Tristane Banon, apresentando queixa em França por tentativa de violação em 2003, ou seja, há 8 anos.
Dá que pensar o que pode levar uma mulher, com as condições dela, a denunciar o caso apenas 8 anos depois, e como é que ela vai provar, ao fim de todo este tempo, a acusação que faz.
Diz Tristane que avançou com o processo por “não suportar ver as imagens de Dominique Strauss-Kahn a comer tranquilamente, com amigos, em restaurantes de luxo de Nova Iorque.” 
E nos outros oito anos ele levou vida de monge tibetano?
Diz também que foi aconselhada a calar-se mas, há 8 anos, Tristane já era uma mulher com meios para, em seu nome e em nome de outras mulheres com menos meios, apresentar queixa dum crime grave como é a tentativa de violação.
Acobardou-se, no caso de estar a falar verdade, mas na vida há um tempo para tudo.
DSK não é “flor que se cheire”, já o sabemos, mas esta queixa parece-me fora de prazo e desconfio que, num país misógino e machista como a França é, Tristane vai sair-se mal e terminará arrasada.
Quanto a DSK, provavelmente não será presidente de França nem qualquer outra coisa que valha a pena, mas vai continuar por aí a viver muito confortavelmente e a ser o velho baboso que já todos sabemos que é.
Teorias da conspiração? Neste caso não me convencem.

8 de julho de 2011

Lição prática sobre isto de ser LIXO

O país, finalmente, indignou-se por o classificarem como lixo. Por mim, já ando indignada desde aqui
Convém, contudo, juntar ao sentimento de ofensa algum conhecimento sobre os efeitos práticos da coisa.
Aqui fica uma liçãozinha que transcrevo dum artigo do Público de hoje, 8 de Julho:

A RTP assumiu ontem ao Público que foi obrigada a renegociar o pagamento da dívida devido às decisões anteriores da Moody’s que em Abril já tinha cortado a notação financeira da empresa. Esta renegociação fez disparar os empréstimos que a empresa terá de pagar já este ano, de 47,5 para 208 milhões de euros.
O credor é o DEPFA Bank, com sede na Irlanda.

O negócio do lixo é bom, por isso há tantos sucateiros.
Mas estes, nem um saco de robalos nos oferecem.

As saídas nocturnas de Passos Coelho

No dia em que, de manhã, levou um murro no estômago, à noite Passos Coelho foi ao teatro com a mulher e algumas filhas.
A escolha recaiu sobre "VIP Manicure - A Crise", com Maria Rueff e Ana Bola, no Casino de Lisboa. (Notícia e foto daqui)
Ainda pensei que, para uma primeira aparição, o Francisco José Viegas lhe recomendasse uma ida ao Teatro Nacional D. Maria, ou ao Teatro Camões para ver a Companhia Nacional de Bailado, ou mesmo ao Festival Ao Largo do S. Carlos que é mais levezinho mas muito agradável. Caramba, sempre são todos pagos por ele com o dinheiro que lhe entregamos, mas, pelos vistos o Francisco José Viegas estava distraído, ou não risca nada p’ra aí, e o príncipe de Massamá ficou-se com a manicure.
Parece que se riram muito. Oxalá não lhe tenha piorado a dor no estômago. Cruzes!

7 de julho de 2011

Choque e pavor

Tenho aprendido muito de economia nos últimos tempos; sobretudo palavras. Cá em casa é tudo mais para o lado da microeconomia, mas o país inteiro viu-se obrigado a aprender macroeconomia por via dos doutos economistas que nos enchem os écrans á hora da sopa, do café ou até do “digestivo”.
Rating, default, alavancagem, dívida soberana, eurobonds, são termos que entraram na nossa vida e se tornaram tão normais de ouvir ou dizer como pepino, amigdalite, virose ou “bica”
Segundo as agências de rating, há muito que nos aproximávamos do “lixo” mas agora  já está. Tudo LIXO. (Cá na minha rua, o carro do lixo só leva lixo doméstico 3 vezes por semana mas na rua do rating deve passar 7 dias na semana e fazer horas extraordinérias.)
Os queridos políticos e comentadores impingiram-nos, atempada e prolongadamente, que mudar para um governo de direita, aumentar impostos, impor mais sacrifícios, cortar direitos a quem trabalha e a TSU para os patrões, iria ajudar muito a que as ditas agências tivessem calminha. Isso era o que eles nos diziam porque era o que, de facto, queriam fazer, mas sabiam muito bem que a coisa não ia parar. Pois se até eu sabia! Sabiam que somos apenas amendoins para macaco e o que está em curso, há muito tempo, é o ataque ao euro e à UE. As vozes dos que hoje nos comandam nunca se fizeram ouvir quando esta brincadeira começou. Mas ouvem-se agora que já estão no poder.
Nunca antes ouvi Faria de Oliveira dizer que a descida do rating é “imoral e insultuosa” ou Mira Amaral proclamar que a decisão de descer o rating é “infeliz e terrorista” e, se não fossemos nós a pagar as favas, até seria divertido ver aquelas duas marionetas do sistema, Passos Coelho e o chefe da claque dos patrões a dizerem, os dois na mesma manhã, que levaram um murro no estômago.
Eles ficaram à rasca mas o principal, ou seja, as medidas draconianas que eles queriam, estão garantidas. Já chegaram umas e o resto vem a caminho, sempre para aplacar a ira dos mercados.
São assim as lutas pelo poder e pelo capital. A direita portuguesa lutou e ganhou. As agências de rating, verdadeira infantaria dos mercados, continuam a luta pelos seus clientes lá no assento etéreo onde quer que eles se assentem.
Operação "Choque e Pavor" foi o que ontem provaram governantes e empresários.
Nós? bom, para nós esse já é o estado natural.

6 de julho de 2011

Danos colaterais

Quem lê este blogue, já percebeu que tenho pouco apreço por Fernando Nobre e que ele consegue até bulir-me com os nervos.
Volto e ele, mas espero que seja a última vez.
Há cerca de dois anos, numa tarde tórrida de verão, suportei estoicamente o calor e fui até uma livraria de província para assistir ao lançamento dum dos seus livros, com a presença do autor.
Foi a primeira grande desilusão. Não ouvi falar de mais nada que não fosse o número de universidades pelas quais era doutor honoris causa e das suas "boas"origens familiares.
Quando anunciou a candidatura à Presidência da República pensei que raio teria passado pela cabeça do homem. A campanha foi o que se sabe, ficando-me a ideia duma cabeça cheia de nada, frases feitas e populistas, e uma consciência de si muito para além da realidade.
O episódio da candidatura pelo PSD mostrou um homem com práticas muito distantes dos princípios que nos quis fazer acreditar que eram os seus, e também com uma grande sede de poder e protagonismo.
Abandonou agora o lugar de deputado, o que se compreende à luz do seu passado recente, mas, se optasse por ficar, ainda poderia redimir-se um pouco, tentando ser no Parlamento uma voz independente em defesa dos mais desprotegidos, como prometeu na campanha presidencial.
Diz que volta para a acção humanitária, onde se sente mais útil, e eu acho que nunca devia ter de lá saído.
Contudo, a AMI está inexoravelmente ligada a Fernando Nobre, e vice-versa, o que a fará ressentir-se da actuação pública do seu presidente.
Acredito que o homem faz o lugar, e não o contrário. Ora, atendendo ao conhecimento que agora temos de Fernando Nobre, e depois de conhecer o organigrama da AMI, julgo que não serei a única a, de futuro, pensar muito bem a quem entrego aquilo que puder dar.
Será, contudo, uma pena que seja a AMI a sofrer os danos colaterais.

5 de julho de 2011

Anestesia geral

A 5 de Junho, os portugueses foram a votos apenas com vontade de mudar as pessoas. Já sabiam aquilo que comentadores e jornalistas parecem não saber ainda, visto mostrarem-se tão indignados com os últimos anúncios governamentais – que os políticos mentem em campanha, que mal tomam posse fazem exactamente o contrário do que disseram, que as contas são sempre mais alarmantes do que eles pensavam e que a culpa toda é de quem governou antes.
A este saber popular acresce uma campanha de muitos meses, antes das eleições, feita por economistas e comentadores em estereofonia, determinados em meterem-nos na cabeça que o caminho era só um – o dos sacrifícios.
A coisa foi tão bem feita que conduziu a uma enorme anestesia geral do tipo “porradão na cabeça” de que todos padecemos agora.
A juntar a isso, é verão; às vezes está calor, pensamos em férias, sol, praia, sesta e outras coisas próprias da época. Queremos partir por uns dias e “semear” o corpo moído na areia.
Havemos de acordar da anestesia geral com dor de cabeça lá para Setembro. Até lá, bebe-se uma cerveja e comem-se uns tremoços; depois? ora, depois logo se vê.

4 de julho de 2011

Good night and good luck


Vida portuguesa(Guedes, Moniz, Bairrão e etc.)

Era uma vez um senhor, chamado Bernardo Bairrão, que era administrador duma TV onde também trabalhava um casal de nome Moniz/Guedes. Eram próximos, muito próximos. A senhora Guedes tinha um programa de má-língua à sexta-feira onde dizia tudo e mais um par de botas do primeiro-ministro (o outro, o anterior). Digo isto porque me contaram; eu nunca vi porque tenho por norma nunca me aproximar duma boa peixeirada (cobardia minha).
No ano passado, não sei como, nem porquê, nem quem mandou, mas sei que a senhora Guedes foi despedida e acabou-se o palanque da má-língua. O extremoso marido saiu também daquela TV mas o senhor Bernardo lá continuou, impávido e sereno, sentado na mesa da administração, assistindo (talvez até participando) da saída do mega-casal. Suponho que o super-mega-casal não gostou. Com a chegada dum novo governo, o senhor administrador Bernardo B. foi convidado para secretário de estado do ministério das polícias e fogos e cheias e bombeiros e essas coisas todas, e aceitou. O casal ressentido parece que espreitou a oportunidade e insinuou, junto de quem de direito, algo mais nebuloso sobre o passado do ex-amigo. Resultado – o senhor Bernardo foi desconvidado.
A senhora Guedes, que tinha ficado desempregada, apressou-se a anunciar que ia para a outra TV, mas nunca mais ia. A outra TV manteve-a em banho-maria desde Novembro a ver em que paravam as modas e agora, com a chegada dum novo governo, argumentando com “uma alteração de contexto”, desconvidou-a. Acho normal. De facto, para que quer um homem na sua TV uma senhora a dizer mal do seu partido e do seu governo? Ainda se lá estivesse o outro, podia continuar a peixeirada.
Resumindo: em vez de uma desempregada, ficámos com dois.
Resumindo mais: a traição e a vingança fazem parte do código genético da humanidade.
Resumindo mais ainda: histórias assim, de tão banais, não são histórias não são nada.

Nota: estas instrutivas informações foram todas colhidas no Expresso de 2 de Julho.

1 de julho de 2011

Uma imagem vale mais que mil palavras


Esta imagem de satélite foi roubada ao blogue A Terceira Noite por a considerar tão impressionante. Integra, a preto e branco e com muito má qualidade, o livro A Longa Noite de um Povo, A vida na Coreia do Norte da jornalista Barbara Demick, e mostra a região da Coreia do Norte mergulhada na escuridão, ao lado da Coreia do Sul e do Japão imersos em luz (talvez até demasiada).
Apesar de a leitura do livro ainda estar no começo, parece ser um bom documento sobre um país de que, afinal, sabemos tão pouco.

A Longa Noite de um Povo
A vida na Coreia do Norte
Barbara Demick
Temas e Debates/Círculo de Leitores

O livro foi vencedor do prémio Samuel Johnson 2010, a mais importante distinção britânica para a não-ficção.