4 de junho de 2012

Borges e Sachs e FMI e etc.

As histórias sobre António Borges que vieram a lume recentemente são várias e com narrativas também variadas.

Tentando separar factos de interpretação e de teorias da conspiração, apurei que, na verdade, António Borges ganhou, em 2011, enquanto esteve ao serviço do FMI, 225 mil euros livres de impostos.

Não tenho nada contra quem ganha bem; costumo até advogar que políticos e polícias, por exemplo, deviam ser bem pagos para serem menos permeáveis às tentações.

Acontece que, trabalhar para alguns organismos internacionais transforma as pessoas numa espécie de deuses que não se regem pelas regras dos outros mortais e, por isso, estão isentos de imposto - caso de Borges e Lagarde.

Acresce a isto que a arrogância que o poder do lugar lhes traz os torna execráveis, deixando-lhes “o coração ao pé da boca”, livres para dizerem tudo que lhes der na real gana.
Lagarde está-se nas tintas para as crianças gregas e Borges acha indispensável baixar salários em Portugal.

Quem ganha 225 mil euros por ano não faz a menor ideia do que seja viver o mesmo período de tempo com 6 ou 7 mil euros, mas também não quer saber, não pára para pensar, não quer imaginar, não quer pôr-se no lugar de, e muito menos quer saber se as suas palavras ofendem os mais fracos do seu país.

Por mim, também não quero saber se Borges é competente. Sobre isso há muitas dúvidas, e há até quem diga e escreva que foi despedido do FMI por incompetência. Além disso, a competência pela competência não me interessa nada; o que me interessa é a ideologia que o competente vai pôr em prática.

Também não quero discutir as suas ligações à máfia do Goldman Sachs, mas essas ligações deixam-me muito intranquila quando sei que tem em mãos o dossiê das privatizações que vão deixar o meu país mais pobre e permitem muitas negociatas.

Posso decidir enfiar a cabeça na areia e não querer saber de nada disto, mas um sujeito de 63 anos que não tem, ao menos, pudor nas palavras usadas, merece toda a minha desconfiança e antipatia.

1 de junho de 2012

Cosmópolis

Li, há poucos meses, a novela Cosmopólis, de Don DeLillo, sem fazer a menor ideia de que, com base nela, Cronenberg estava a fazer um filme; porém, agora que o filme chegou, não fico espantada.

Quando percebi que Cosmópolis foi escrita em 2000, antes da queda das torres de Nova Iorque e muito antes da crise financeira global – dois marcos importantes da contemporaneidade - impressionou-me a capacidade visionária de Don Delillo sobre a nossa sociedade e o desastre anunciado.

Não é um livro macio ou afável, antes um livro que incomoda mas também fascina. A um ritmo alucinante, a escrita leva-nos numa cavalgada demente por Manhattan, na pele dum jovem milionário que a atravessa dentro duma limusina.

O retrato quase grotesco do dia de Eric Packer numa cidade de que a loucura se apossou, fascina e ofende, provoca sorrisos de ironia e arrepios de medo.
Excesso, poder, ganância, desconstrução e apocalipse social, tecnologia, individualismo e efemeridade são manejados por DeLillo com enorme mestria neste livro.

Não posso estar mais de acordo com Salman Rushdie quando ele diz que DeLillo é o “poeta da nossa desumanização”.
Um livro que se recomenda (muito) para ler, e agora um filme que estou mortinha por ver.


Cosmópolis
Don DeLillo
Relógio d’Água, 2003


31 de maio de 2012

Resumo

Numa homenagem tardia a Fernando Lopes, que ele próprio decerto dispensaria, podemos resumir a conversa de Passos Coelho ontem no Parlamento sobre o tema das secretas com um simples frase:

 NÓS POR CÁ, TODOS BEM

É suposto podermos ficar descansados, não é?
Então porque é que não estou?

30 de maio de 2012

Um mix

Christine Lagarde está tão preocupada com as crianças do Niger como eu o estou com as da Quinta do Lago, e a tirada demagógica pró-África contra os gregos saiu-lhe mal.

Fico a olhar para aquilo e instala-se-me uma estranheza; aquela conversa  não é nem de macho nem de fêmea.

Christine Lagarde, como Margaret Tatcher, Golda Meir, Indira Gandhi ou Angela Merkel, tudo mulheres que chegaram ao topo na política, pertence a um género híbrido – cabeça de homem em corpo de mulher (preferências sexuais não cabem nesta observação, obviamente).

De Golda Meir, David Bem-Gurion chegou a dizer: “é o único homem do meu gabinete”.

As referidas senhoras só chegaram onde chegaram porque os homens as DEIXARAM chegar lá, cientes de que, uma vez no lugar, conseguem ser mais duras do que eles próprios.

Elas não são Mulheres na política, são um mix desagradável que, que eu tenha dado por isso, nunca trouxe ao mundo nada de realmente inovador ou, sequer, diferente.

29 de maio de 2012

O pior de nós

Por estes dias, um dos homens que mais vezes cruza o ecrã da minha televisão é o ex-espião Jorge Silva Carvalho.

Corpo avantajado e passada a condizer, coberto de fato completo “sem pregas no peito nem rugas no colarinho”, ele passa e olha fugazmente a câmara. Não sorri, mas também não está sério, antes dá um ar de homem sem angústias existenciais e senhor do seu (muito pequeno) mundo que, no entanto, parece entender como o mundo todo.

Quando ele olha a câmara de relance, aquele olhar faz tocar as minhas campainhas que alertam para “perigo”.

Ao longo dos seus 46 anos de vida, patita aqui patita ali, foi trepando na hierarquia do poder até se instalar no lugar que achou confortável – o lugar de toda a informação, que pode ser dada ou vendida, conforme a ocasião e o objectivo a alcançar.
Sem a menor noção do valor do Estado numa sociedade democrática, frio e calculista, exercitou a conjugação reflexa do verbo servir enquanto pôde, e o mais que pôde.

Não esteve, certamente, sozinho; usufruiu de muitas cumplicidades por parte daqueles que também almejavam o seu quinhão de poder e dinheiro num país minado por espertalhaços que medraram nas berças e desembarcaram na capital.

Ambicioso, venal, sem escrúpulos, este espião que veio do quente (Moçambique), e também gosta de usar avental maçónico, personifica exemplarmente o que de pior há em nós.


28 de maio de 2012

Ladeira da Boa-Morte




Numa das estradas de acesso à minha cidade há um troço chamado Ladeira da Boa-Morte

Não sei por que raio de associação só penso nisso desde que ouvi a troika dizer que “Portugal vai no bom caminho”.

25 de maio de 2012

Merkel com dores nos pés

Frau Merkel nasceu, cresceu e tornou-se adulta na ex-RDA, e isso não acontece impunemente. A minha geração também nasceu, cresceu e tornou-se adulta sob uma ditadura.

Porém, a minha geração lutou contra a ditadura, o que não me lembro de ter acontecido com a dela. Enquanto por aqui se organizaram lutas colectivas que abanaram o regime, a dissidência da Merkel limitou-se, segundo li há tempo numa entrevista, a conseguir não integrar a Stasi argumentando que era incapaz de guardar um segredo.
Mulherzinha esperta!

A sua fixação no défice zero, e na “casa arrumada” fazem-me pensar que o que ela acharia mesmo bom era um plano quinquenal para a Europa, controlado por ela mesma, com atribuição de medalhas, não ao trabalhador do ano, mas ao país do ano.
Aos alemães vendeu a receita das contas certas e castigo para quem o não conseguir, sem mais explicações, e eles compraram. Passaram todos até a dizer em coro que o óleo de fígado de bacalhau da chanceler era um muito bom óleo de fígado de bacalhau.

Agora que o discurso na Europa está a mudar, ainda que muito ligeiramente, e a senhora percebeu que vai ter que vender um produto um pouco diferente ao seu povo, começa a sentir um apertozito nos calos e precisa de “descalçar a bota”.

Segundo o JN, Merkel já ontem afirmou em Berlim:
“…a fragilidade de países parceiros do euro acabará por concorrer para a fragilidade da Alemanha. Citada pela Bloomberg, Angela Merkel disse, em Berlim, que a Alemanha só pode ser forte se os seus vizinhos estiverem bem.” (notícia aqui)

Ainda a ouviremos dizer muitas outras coisas, e não sei se vai conseguir “descalçar a bota”, mas lá que ela está com dores nos pés, lá isso está.
O que, não sei porquê, me provoca uma inusitada alegria.

24 de maio de 2012

O pensamento estratégico do Magnífico Reitor

A escola, e sobretudo a Universidade, para além de nos transmitir saberes teóricos, técnicos ou práticos sobre várias matérias, dá-nos, sobretudo, ferramentas para continuarmos a aprender ao longo da vida se assim o quisermos.
Todo o ensino, mas o universitário ainda mais, deve transformar a “massa mais ou menos bruta” que lá chega em seres com capacidade de raciocínio, pensamento estruturado, capacidade de análise das questões profissionais ou sociais que iremos encontrar pela vida fora.
Por via disso, a universidade deve formar seres pensantes e, também por via disso, seres livres, com capacidade de intervenção e decisão. É assim que se criam sociedades avançadas e prósperas.
E os professores que nos marcam, os que constituem um verdadeiro ganho no nosso percurso académico, são exatamente aqueles que são capazes de nos estimular o pensamento e que incitam à participação e opinião.
Sabemos que as universidades estão longe de ser aquilo que deviam ser, mas fiquei estarrecida com o apelo ao silêncio por parte do Reitor da Universidade do Porto, Marques dos Santos.
Disse ele:
"Acho que se estivéssemos seis meses todos calados, não criássemos mais problemas do que os que já existem e deixássemos as coisas correr, daqui a seis meses, trabalhando, veríamos que as coisas até evoluíram melhor do que o que pensámos". (notícia aqui)
Quem pensa que o silêncio é melhor que o debate de ideias, que o conformismo é melhor que a mobilização, que deixar correr resolve os problemas, não pode ser Reitor duma grande Universidade.
Não tenho por hábito pedir a demissão de ninguém, nem é agora que o vou fazer, mas apetece-me dizer:
Ó gente da Invicta, deixar esse homem no lugar nem parece coisa vossa mas, para começar, e com gentileza, podiam sussurrar-lhe ao ouvido o que está escrito na imagem ali de cima - Sólo los besos nos taparán la boca.


23 de maio de 2012

Já nem cínicos podem ser























Quem não frequenta as redes sociais provavelmente não viu este anúncio que por lá circula abundantemente e merece ser conhecido.
Ele é o retrato perfeito do desastre de país que é o nosso.

Pede-se arquiteto(a), que fale e escreva línguas, com viatura própria, muita disponibilidade, desenho 3D e Auto Cad, horário de trabalho de 10 horas por dia.
Oferece-se emprego por 6 meses, com o estímulo do governo, e um ordenado de 500 euros.

Para mim, é escravatura, para Passos Coelho deve ser uma oportunidade.
Melhor pagar para trabalhar do que não trabalhar de todo, certo?

Aos nossos governantes e empregadores assenta-lhe que nem um luva a frase: “Quando alguém deixa de usar a consciência, já nem sequer cínico pode ser.”

(“Bilhar às Nove e Meia”

Heinrich Böll)


22 de maio de 2012

Imprensa

Quem ontem à tarde passasse da leitura do Público online para o ionline tinha motivos para tentar lembrar-se do que bebera ao almoço.

O Público titulava ao cimo da página Peso dos impostos cobrados em Portugal em 2010 abaixo da média europeia; já o i dava destaque ao título

Portugal tem taxas máximas de IRS, IRC e IVA acima da média europeia

Desfeita a dúvida do almoço, verifiquei que o Público começa o artigo, e valoriza os dados de 2010, só começando a apresentar os dados de 2012 lá para meio do mesmo, sendo estes (2012) os únicos referidos pelo i.

Fui leitora do Público desde o primeiro número e durante muitos anos até que desisti dele. Não foi por acaso nem porque sim, foi porque o jornal deixou de corresponder às minhas expectativas e era frequente eu não entender os seus critérios editoriais, como ontem não percebi. Passei a comprá-lo apenas à 6ª feira e por causa o suplemento Ípsilon, mas também esse creio que tem os dias contados.

Aquilo está cheio de gente que faz música que não conheço nem vou conhecer, e parece cada vez mais direccionado para uma faixa etária que não é a minha, mas que também não compra o jornal. Critérios editoriais que continuo a não perceber.

Mas, a propósito destes, o que eu gostava mesmo muito de perceber um dia era o que se passou entre o ministro Relvas, a jornalista Maria José Oliveira e a direcção do jornal.
Gostava, mas acho que não vou ter sorte nenhuma.


21 de maio de 2012

Tralalá é já aqui

Os últimos dias foram, mais uma vez, alucinantes
Depois das confissões de grandes lavagens de negócios sujos, o querido Duarte Lima volta ao remanso do lar. Durma bem na sua caminha, rico.

Ainda me assustei com as histórias das Secretas mas passou-me depressa; se o governo não acha grave é porque, certamente, o não é, e eu também gosto de dormir descansada na minha caminha.

Além disso, aqui tudo passa depressa e a gente esquece; mesmo quando leva muitos anos, tudo acaba em bem.
Parabéns Isaltino.

Depois, o ministro Relvas pediu desculpa do que, afinal, diz que não fez.
Quanto aos SMS que Jorge Silva Carvalho lhe enviou, parece que “fumou mas não inalou”. Tudo má-vontade contra o ministro, como de costume.

Ainda veio o coiso do Álvaro, mas a isso nem liguei; mero lapsus linguae de alguém que anda estafadinho de tanto trabalhar para a economia e emprego. Tenham dó do Álvaro.

Entretanto, li o muito publicitado livro Viagem a Tralalá de Wladimir Kaminer. Levezinho mas muito agradável, coisa a que me sinto com direito de vez em quando. E por mais que o Wladimir queira dizer-me que o avião de Josef Beuys caiu em Tralalá, na Crimeia, eu continuo a achar que Tralalá é aqui mesmo.


18 de maio de 2012

A produtividade explicada às crianças nem-nem

Hoje, por conta das coisas que me aconteceram, e influenciada pelos recentes sucessos editoriais, apeteceu-me escrever, não um livro, mas umas palavrinhas sob o título “A produtividade explicada às crianças nem-nem, ou seja, nem de direita nem de esquerda”
Amiguinhos, isto por aqui funciona mais ou menos assim:

Se mandarmos fazer uma chave, é muito raro que ela rode na fechadura; geralmente temos que voltar à loja para dar “uma afinadela”,

Se chamarmos um operário ou técnico a casa, não falha que nos peça qualquer coisa; pode ser o martelo, o escadote ou a chave inglesa, e se não tivermos ele vai buscar e só volta quando deus quiser.

Quando chega a altura do IRS há um monte de telefonemas que é preciso fazer porque ninguém enviou os papéis que a lei diz que tem que enviar. Quando vamos buscar qualquer coisa no dia aprazado é muito raro que esteja pronta. Venha amanhã, pode ser?

Quando vamos a uma repartição pública, nunca vamos só uma vez porque falta sempre qualquer documento ou oficiozinho.

Se pretendermos contactar fulano ou sicrano ele está sempre em reunião; isso exige vários telefonemas mas alguma vez ele há-de atender.

Se se precisar preencher um formulário na internet, o servidor está sempre demasiado ocupado.

Daí, quando perguntamos a alguém “como está?” a resposta é, só pode ser, “vamos andando”. E podem acreditar que andamos mesmo muito.
Como vêem, amiguinhos, os números da produtividade que nos mostram são muito mentirosos, porque nós não paramos e andamos sempre cansados.
Sei que é assim, mas sobre as causas disto tudo nada digo porque só tenho umas desconfianças que podem nem ser verdadeiras, e eu não Minto, não Engano, não Ludibrio.

Quê, não sabem o que é “ludibrio”?
Meus queridos, perguntem ao avô porque o vosso pai deve estar em reunião e eu agora tenho que ir “afinar” a chave.


17 de maio de 2012

O touro e o gato

Há dias em que até o mais incréu dos incréus precisa de se convencer de qualquer coisa. A tão apressada visita do Hollande à Merkel provocou à minha volta comentários do tipo – vai ao beija-mão! servilismo!

Eu, em abstrusa fase de increia com fé, preferi pensar que senhor estava com pressa de dizer várias coisas à alemã, como por exemplo: que o eixo franco-alemão é importante mas que a capital da Europa é Bruxelas e não Berlim, que precisamos de mais democracia interna e que esta história de serem só dois a mandar está a deixar alguns povos europeus exasperados, que é preciso defender a Grécia “custe o que custar” antes que a Europa comece a apodrecer das bordas para o centro, que isto de castigar os que estão na mó de baixo já deu mau resultado se ela bem se lembra de Versalhes (será que estudou isso?), que precisamos de repor o modelo europeu e não importar o chinês etc. e, assim, decidi acreditar que ele não ia apenas ao beija-mão.

De facto, não sabemos o que se passou entre eles, mas imagino que tenham sido dois animais, com polimento civilizacional, a medirem-se um ao outro, dado que não se conheciam.
Sabemos que a Merkel é um touro (evito aqui o feminino por decoro) mas ainda não sabemos que animal será Hollande.

Contudo, no Público de ontem, cita-se uma jornalista francesa que escreveu:

“…Hollande parece-se como esses gatos (espertos e indecifráveis) que teimam em vir enroscar-se nos sofás proibidos. Impõe a sua vontade à força de insistência, de sorrisos e de obstinação.”

Que a assim seja, desde que a sua vontade seja uma boa vontade e ele não perca demasiado tempo com salamaleques; é que o touro, se puder, não perderá a oportunidade de lhe dar uma valente cornada.

15 de maio de 2012

E se a gente desempregasse o Pedro?

Ó caraças, o que eu gostava de o ver na fila do Centro de Emprego com uns papelitos na mão e a dizer aos seus parceiros – crises são oportunidades, crises são oportunidades, crises são oportunidades, crises são oportunidades, até que alguém, fartinho de o ouvir, lhe enfiasse um banano.

Mas isto é só um desabafo, porque o importante é perceber como ele mente quando diz que somos pouco empreendedores, e como é falaciosa a retórica sobre desenvolvimento e número de empresários.
Para isso vale a pena ler o post de 11 de Maio do blogue Esquerda Republicana em que se apresentam dados da OCDE relativos à taxa de trabalhadores por conta própria e onde se lê:

«E não é que Portugal é o quarto país da OCDE com mais «empreendedores», apenas ultrapassado pelo México, pela Turquia e pela Grécia? Sim, leram bem: a Grécia é o único país da UE com mais empreendedores que nós.
E os Estados Unidos da América, símbolo de uma nação rica que dá lições à Europa no que diz respeito à promoção do empreendedorismo, são o terceiro país da OCDE com menos empreendedores. Têm uma taxa de trabalhadores por conta própria cerca de três vezes menor que a portuguesa.»

Vale a pena ler tudo para percebermos melhor que o primeiro-ministro não sabe o que diz, ou mente descaradamente, quando fala desse tema chato e desinteressante que dá pelo nome de DESEMPREGO.
Gostava tanto que desempregássemos o Pedro, só mesmo para o ver a descobrir oportunidades que não fossem por conta do partido e da cunha dos amigos do partido. Seria uma novidade na vida dele.








14 de maio de 2012

Entre Fátima e Madrid

Ontem à hora de almoço, quando liguei a televisão para ver as notícias, os três canais generalistas estavam ainda a transmitir imagens de Fátima.

Lembrei-me que em 2010, com o Papa por cá, li isto, bem divertido, no blogue jugular:



O temor de um simples mortal

 A RTP 1 transmitia em directo as cerimónias de Fátima.
 A SIC transmitia em directo as cerimónias de Fátima.
 A TVI transmitia em directo as cerimónias de Fátima.
 A RTP África transmitia em directo as cerimónias de Fátima.
 A TSF transmitia em directo as cerimónias de Fátima.
 A Rádio Renascença transmitia em directo as cerimónias de Fátima.
Tive medo de ligar a torradeira.


Este ano estiveram em Fátima 300 000 pessoas, bateu-se o recorde de venda de velas, e isso diz muitíssimo sobre “o estado a que isto chegou” como diria o Salgueiro Maia.

Se há pouco tempo, e a propósito do Pingo Doce, escrevi aqui que por vezes me envergonho duma parte da sociedade portuguesa, o mesmo não sinto em relação a estes que peregrinam até Fátima.

Desprovida que sou de qualquer tipo de fé, tenho um profundo respeito por quem a tem convictamente, sem fundamentalismo ou desejo de conversão do próximo.
Este povo simples que reza, pede, agradece, promete, tem esperança e acredita é genuíno (embora passivo), e merece o meu respeito.

Isso não invalida que, no mesmo telejornal, eu me tenha sentido irmã, não dos meus compatriotas que se conformaram em Fátima, mas dos espanhóis que, inconformados, ocuparam a Puerta del Sol em Madrid.


11 de maio de 2012

Como está a Maria João?

Nas suas crónicas diárias no Público, Miguel Esteves Cardoso escreve amiúde sobre a doença da sua mulher. São escritos de amor e, parece-me, simultaneamente exercícios para exorcizar o medo. São tocantes de ternura, fragilidade, fé às vezes, humanidade.

Esta exposição pública da sua vida privada não choca. Ao contrário, vejo nela um acto de coragem. E, se esta forma de se dar pode corresponder a uma necessidade pessoal, estou certa de que também o transforma num companheiro de viagem de muitos outros que vivem a mesma situação.

E tudo é tão bem feito e escrito que a Maria João entrou definitivamente na nossa vida.
Talvez por isso, não é raro que dê comigo, nos dias em que não nos dá notícias dela, a pensar – como estará a Maria João?


10 de maio de 2012

À espera

Na Pluma Caprichosa do Expresso de 5 de Maio, Clara Ferreira Alves presta homenagem, recordando, ao seu amigo Miguel Portas.

“Trinta mil vezes” ele a deixou plantada durante horas, à espera, quando marcavam um encontro.

Há pessoas assim, incapazes de chegar à hora combinada seja em que situação for. Outras, pelo contrário, são incapazes de chegar atrasadas, e só ficam de bem consigo se chegarem um pouco antes, mesmo sabendo que as espera uma espera que às vezes as desespera.

Há na minha vida uma criatura muito querida e muito próxima que pertence à categoria dos atrasados e eu pertenço à categoria dos pontuais. Nem sempre a vida foi fácil com esta nossa “pequena” diferença.

Era normal ver os amigos que iam chegando e acabavam por formar um ruidoso grupo à porta, e à espera.

Um dia, um estrangeiro (um pragmático alemão) presenciou a cena e, perante o meu desconforto, disse-me: se eles esperam é porque acham que vale a pena.
Assim é. Na vida, não esperamos por todos, esperamos por quem (nos) vale a pena.


9 de maio de 2012

Onde pára o nosso lítio?

Aos doentes já deram vários nomes, que eu saiba – ciclotímicos, maníaco-depressivos e agora bipolares.

É do conhecimento geral que a doença se caracteriza por períodos de euforia e períodos de depressão, ou seja, há dias em que o doente assobia na rua e outros em que se mete na cama com a cabeça tapada, podendo a passagem de um estado ao outro ser bastante rápida.

Eu acho que o colectivo dos portugueses padece deste mal. Ora somos os maiores, ora nos achamos abaixo de cão. Basta ver a facilidade com que, por aqui, qualquer um passa de bstial a besta. Esta sintomatologia também se revela quando elegemos governos. Uns são eufóricos, e outros deprimidos.

O governo de Sócrates era um claro exemplo da primeira fase − pensamento positivo e em grande; ainda me lembro muito bem de o ouvir na televisão a afirmar poucos dias antes de chamar os troikos: “Portugal tem dinheiro, nós não precisamos de pedir ajuda externa”. Fase eufórica, portanto.

Seguiu-se o governo de Passos e passámos à segunda fase, a da depressão.
Começou por nos mandar empobrecer, depois mandou os nossos filhos emigrar e agora, mais recentemente, mandou que nos habituássemos a viver com elevada taxa de desemprego. Fase depressiva, óbvio.

Parece que esta doença, que já teve tantos nomes, é incurável, mas o doente pode ter uma vida estável se tomar, sem falhas, a sua dose diária de lítio (não sei se é a mesma coisa que se usa nas pilhas Duracell), mas sei que é lítio.

O que pergunto é se não haverá por aí quem abra a bocarra deste país e deite lá para dentro a dose certa de lítio, a ver se conseguimos fazer a nossa vidinha sem ataques de euforia nem de depressão? E pode ser mesmo um genérico, que sempre é mais barato, uma vez que comer pilhas deve ser indigesto.
É que esta doença não mata, mas é muito difícil de aturar.


8 de maio de 2012

Correr na relva

Nunca sabemos se o novo será melhor, pior, ou apenas diferente. Nem sequer sabemos se o novo será realmente novo.

Nunca saberemos se o que não foi seria o que dele esperávamos, e não é raro que o que é se revele diferente daquilo que era suposto ser.

Contudo, há momentos em que mudar é tudo o que queremos, e o novo traz de volta alguma leveza juvenil, limpa, clara, sem reservas.

Há momentos em que a mera mudança nos devolve uma esperança tão bem guardada que quase nem sabíamos que ainda dormia numa gaveta em nós.

As eleições em França e na Grécia abrem uma larga porta para dúvidas e conjecturas, mas também abriram uma pequena fresta dessa gaveta esquecida.

Algo se moveu e, por um momento, apenas um momento, saí do pântano e corri na relva com os pés descalços.

7 de maio de 2012

O Pedro, o Henrique e a escrita deles

Este post tem como real objectivo chamar a atenção para o excelente editorial de Pedro Santos Gurreiro publicado no Jornal de Negócios na semana passada.
É jornalismo de primeira, e eu gosto. Se faço este aviso é porque, no fim, pode já não se perceber isso muito bem, as conversas são como as cerejas e tal.

Acontece que eu também tenho uma costela masoquista, e assumo que todas as semanas leio gente que, sei-o antecipadamente, me vai deixar mal disposta.

É o caso de Henrique Raposo, rapaz endiabrado, cheio de “graça” e certezas.
As suas crónicas provam à saciedade que não é preciso ter berço para alinhar na direita parva; quando o assunto recai sobre a sua humilde família de origem, todo ele é doçura e ternura e sei lá, quase me comovo; quando fala do país oferece-nos uma taça de cinismo a boiar em graçola arrapazada.

Esta semana, escrevendo sobre o mesmo assunto que Pedro Santos Gurreiro, atira-se, mas a brincar, é sempre a brincar, a quem se indignou com a história Pingo Doce.
Esquerda caviar, diz, (como agora a direita gosta de dizer), que acharia normal uma fila para comprar um brinquedo da Apple, mas no fundo não suporta o povinho que só quer consumir barato.

Povinho esperto, o nosso. Os caviar, que por aqui também andam, é que são do piorio. Se, ao menos, o Raposo soubesse argumentar! Mas a única coisa que ele sabe é usar uma prosa chocarreira que deve achar de grande qualidade.

A minha costela masoquista, porém, não desgruda. Todas as semanas o leio e todas as semanas, quando acabo, só me apetece dizer-lhe:
Ó Henrique, vai-te catar.
E para a semana há mais.


6 de maio de 2012

E assim acontece

Todos os dias da minha vida sou mãe e sou filha.

Passo a passo, os filhos criaram asas e a mãe estendeu raízes.

Graças a eles, em cada dia que passa sou mais firme e voo mais alto.

No dia de ser mãe e filha, e todos os dias da minha vida.


Imagem: Nossa Senhora do Ó, Sé de Évora


4 de maio de 2012

Pensamento de rico em país de pobre

Cada vez percebo menos disto tudo. Depois de me terem azucrinado a cabeça durante anos dizendo que vivemos acima das nossas possibilidades, entra em vigor uma medida que não permite aos carros mais antigos e “poluentes” circularem na maior parte da cidade de Lisboa.
Qualidade do ar, dizem eles; diretivas europeias, dizem também.
Se bem conheço os portugueses, quem anda num carro de 1992 ou 1996, na maioria das vezes não o faz por amor ao objecto, mas porque não quis endividar-se para comprar outro, ou seja, não quis viver acima das suas possibilidades.

Aprendida a lição moralista, pensávamos agora que isso é que estava certo, mas, afinal, também não está, e o chicote está sempre pronto para usar nas costas dos mesmos.

Os nossos padrastos europeus, lá do alto das suas muito correctas inquietações dizem-nos: sofram, paguem as dívidas com o juro que nós quisermos, entreguem a casa ao banco, matem as galinhas poedeiras, comam da caridade e deitem fora a carripana.

Diretivas europeias, dizem os senhores da Câmara.
Pensaram em adiá-las mais um pouco? Sim, alguns pensaram, e até houve quem votasse contra a sua entrada em vigor.
Por o momento ser mau?
Ora, ora, santa ingenuidade. Não foi nada disso.
Foi apenas porque no Código da Estrada não há sinal para tal proibição.


3 de maio de 2012

Um dia lixado

Ontem foi um dia lixado.
Depois do Miguel Portas, "morre-me" o Fernando Lopes. Parece que a morte só se interessa pelos mesmos que eu, e estas afinidades perturbam-me.
Além disso, continuei a ver imagens do “caso” Pingo Doce.
O que vi e ouvi, também desmoraliza muito.
Quanto ao senhor Alexandre, neste momento (mas só neste momento) estou-me borrifando para ele; o que me machuca mesmo são as imagens terceiro-mundistas do interior e exterior dos supermercados.

A promoção levada a cabo pelo merceeiro, para além de hostilizar o dia do trabalhador, não tinha como alvo os pobres, porque esses não vão fazer compras superiores a 100 euros.

Por isso, quem acorreu foi uma classe média empobrecida mas não miserável, com emprego por agora, gananciosa, acéfala, sem um pingo de consciência cívica ou política, estupidificada pelo consumo e que, no mínimo, me deixa desconfortável quando a vejo na televisão.

Sem medo das palavras, ouso afirmar que em 2012 há uma parte da sociedade portuguesa de que me envergonho - aquela a quem falta dignidade e brio, aquela que acha normal a esmola em vez da mais básica justiça social

E isso torna-me também mais pobre, descrente, às vezes cínica, às vezes raivosa.
Não, eu não gosto nada disso.

2 de maio de 2012

Traída pelo defunto

Num exercício de puro mau gosto, Fernanda Câncio publicou no blogue jugular, o relato, análise e incómodos da sua ida ao velório de Miguel Portas.

Começa pelo sacrifício de estar meia hora à chuva e seguem-se as contrariedades.

Ao cumprimentar a família, que era o que queria fazer, teve também que cumprimentar “o comité” do Bloco.
Horrível! Homenagem ao Bloco! Dixit
Misturas destas não lhe cabem na cabeça, e, por isso, termina dizendo:

a mistura do pessoal e do político existia no miguel, claro. como, de algum modo, em todos nós. mas isto, não posso deixar de o dizer, caiu-me muito mal.

Ora que pena. Talvez um Guronsan ajudasse.
Resumindo, o morto fez-lhe uma afronta, já que sabemos que tudo foi pensado pelo Miguel.
E que não tivesse sido? Se a heterodoxa família Portas ali esteve com os dirigentes do Bloco foi porque entendeu que assim devia ser, com razões que são suas e não são da nossa conta.

Ir a um velório é um acto público – só vamos se queremos, só cumprimentamos quem queremos, e é de bom-tom não criticar em público as opções e disposições tomada, para o momento, pelos protagonistas.

Um pouco de humildade, de respeito e de aceitação da diferença, não fariam mal a Fernanda Câncio.
Se tais “dotes” tivesse, poderia ter encontrado ali apenas a Helena, o Nuno, o Paulo, a Catarina, o Francisco, o Luís, o João e, com todos eles, ter sentido a fragilidade e pequenez que todo o ser humano sente quando a morte vem buscar alguém que amamos.
Mas não, ela só viu o Bloco - ódio de estimação.

Fernanda Câncio devia experimentar tomar a família Portas como referência de tolerância e união, mas também de fractura com as normas convencionadas duma burguesia urbana mas parola.
E devia fazê-lo não só para os velórios, mas para a VIDA.


1 de maio de 2012

30 de abril de 2012

Cronistas irritados

A decisão de Mário Soares e da Associação 25 de Abril de não participarem nas comemorações oficiais do dia 25 de Abril irritou profundamente comentaristas, cronistas e afins. Afinal, não foi só Ricardo Costa, foram quase todos.

Henrique Monteiro, no Expresso de 28/04/2012, lamenta que Vasco Lourenço tenha dito que “os eleitos já não representam o povo”. Bom, eu também acho que não é bem isso, mas todos conhecemos o jeito que Vasco Lourenço tem para se comportar com elefante em loja de porcelana. Os eleitos representam sempre o povo que os elegeu, podem é, uma vez eleitos, governar contra ele. É o que está a acontecer e era o que deveria ter sido dito, mas a Associação tem o direito de tomar as posições que entender.

Henrique Monteiro diz também que Sampaio esteve presente porque, esse sim, sabe distinguir “o essencial do acessório”.
Não tenho tanta certeza disso.

Ainda hoje acho, contra tudo e contra todos, que ele é o primeiro responsável pela situação em que nos encontramos.

Ao dar posse a Santana Lopes em 2004, seguindo as ordens de Barroso, fez o país cair nos braços de Sócrates no ano seguinte. Tudo poderia ter sido diferente (ou não, quem sabe?) mas esta decisão de Sampaio tem um peso enorme na história recente do país, e parece estar completamente esquecida. Sim, também Sampaio, aí, traiu a confiança de quem nele votou, dando agora ares de virgem impoluta. Na política portuguesa não há disso.

Quanto a Mário Soares, já aqui disse que “não dá ponto sem nó”. Depois de ter andado com Passos ao colo, infletiu o caminho e quis dar um recado qualquer. Qual? A quem? A resposta pode não ser, para já, óbvia, mas, mais cedo ou mais tarde perceberemos, porque Soares pode estar velho, mas parvo é que ele não está.
Azar o de comentaristas, cronistas e afins.


27 de abril de 2012

E Ricardo Costa analisou

Este vídeo do Expresso online, em que Ricardo Costa analisa a decisão de Mário Soares de não estar presente na AR para a cerimonio do 25 de Abril, pode ser visto como um vídeo humorístico.

Com ar sério e muito compenetrado de director de jornal, o “jovem” Ricardo analisa o caso como se Mário Soares estivesse no activo, pronto para disputar o poder. Considera que era sua obrigação estar presente que “ é um dos erros mais graves da sua carreira”; termina dizendo que “é um erro grave de que Mário Soares se vai, rapidamente, arrepender”.
Já estou mesmo a ver o nosso velho Mário todo arrependidinho.

O Ricardo deve estar a precisar de férias, ou então, ainda que mal pergunte:

Será que Ricardo Costa ainda não percebeu que Mário Soares, pelo seu passado e pela sua idade, conquistou o direito de fazer e dizer tudo o que bem lhe apetecer, sem cálculos eleitorais futuros e sem preocupações de saber se parece bem ou mal?

Será que Ricardo Costa ainda não percebeu que Mário Soares sabe mais de política a dormir uma soneca no sofá do que ele numa semana de vigília?

Será que ainda não percebeu que Mário Soares nunca se arrepende de “miudezas” destas (ou doutras)?

Será que Ricardo Costa ainda não percebeu que Mário Soares “ não dá ponto sem nó”?

Apesar do ar sério de Ricardo Costa, a acentuar a gravidade do acontecimento, quem não conseguiu ficar séria, fui eu: é que, vê-lo a dar um raspanete a Mário Soares, e a avisá-lo de que se vai arrepender, pareceu-me um sketch nonsense.

26 de abril de 2012

Rasgar a apólice chega?

Nunca fui simpatizante de seguros e seguradoras. Posso mesmo dizer que, nesse aspecto, sou ferozmente desconfiada, a ponto de sempre dizer que, à cautela, prefiro ser eu a fazer o mealheiro.

Quando em 1986 aderimos à então chamada CEE, pela primeira vez achei que não seria má ideia fazer aquele “seguro”, coisa mais do tipo mutualista em que os subscritores eram solidários entre si. Pensei também que, por via dessa solidariedade, talvez nos fossemos aproximando dum melhor padrão de vida que existia lá nos outros países subscritores.

Como toda a gente faz, não li as letras pequeninas da apólice.

Esta, afinal, não cobria riscos sísmicos (financeiros) nem inundações (mesmo que todos metessem água), o mutualismo só estava previsto na bonança, e caso o padrão de vida resvalasse para o tipo africano ficava implícito que cada um devia tratar de si.

Concluo, portanto, que a minha desconfiança em relação às seguradoras continua a ter razão de existir, e que é imperioso ler as letras pequeninas.

Muito gostaria de acabar com este seguro que, para além de não me “segurar”, nem sequer me deixa vender as pratas e o ouro dos antepassados para pagar as dívidas.
Como é que faço? Basta rasgar a apólice?


24 de abril de 2012

1 Maio 1958 - 24 Abril 2012















Com a minha admiração e profundo respeito.

A pior profissão do mundo – Rei

Apesar dos meios de comunicação social não largarem o apetecível “osso” que é a vida privada das figuras públicas (com ou sem a ajuda das mesmas), penso que nunca se foi tão longe como se foi agora com o rei de Espanha. Segundo esta notícia, o rei deixa de ter agenda privada, ou seja, esta passa também a ser pública. Se tirar uns dias de férias, se lhe apetecer ficar na cama, se for jantar fora, tudo será público pelo que, a hora do banho e do corte de cabelo também o devem ser, deduzo eu.
Não conheço nenhum chefe de Estado a quem tal coisa tenha sido imposta, ou que a tal estivesse disposto.

Valerá a pena ter uma monarquia cujo rei é tratado como um menor de idade que tem de suportar uma obstinada vigilância paterna por sucessivos actos de mau comportamento?

É certo que o Juan não é nenhum santo, tem lá os seus devaneios, os seus gostos secretos que a moral vigente não tolera, mas, no conjunto, não creio que seja pior que os outros políticos – mente, finge, é hipócrita, como todos.
Porém, sendo rei, parece que tem menos perdão e vai ser obrigado a deixar escrutinar toda a sua vida privada.

Há nesta decisão um travo amargo a castigo e humilhação. Se os espanhóis não querem mais a monarquia, deviam ter a coragem de se desfazer dela porque, mesmo não se apercebendo disso, ao humilhar o rei, e assumindo o papel de seu guarda prisional, é a si próprios que humilham e prendem.

Ao menos cá nesta republica(zinha) ao fim de cinco anos podemos dar um chuto no Cavaco e ficamo-nos nas tintas se caça elefantes ou baratas.

23 de abril de 2012

Ser solidário ou ser caridoso

A campanha Desperdício Zero arrancou com estrondo e polémica, com hino e o alto patrocínio da Presidência da República.
O hino, não é apenas infeliz, como li por aí; ele traduz o sentir dum movimento de cariz assistencialista.

“Sei que andas a passar fome mesmo estando a trabalhar, o que eu não aproveito, a ti dava-te jeito….” Tralalá, tralalá, tudo muito sentido e condoído.

Será normal estar a passar fome mesmo estando a trabalhar? Será normal dar o que me sobra em vez de partilhar o que tenho? Será normal que o Tim escreva uma coisa destas? Será normal que gente como Jorge Palma se ponha a cantar isto com trejeitos de grande artista de cabeça oca?

Será normal que já ninguém perceba a diferença entre assistencialismo, caridade e solidariedade?

Dar de comer a quem tem fome é imperioso, mas podemos fazê-lo sem estardalhaço, sem palco, e sem perder de vista que as pessoas não precisam de caridade, precisam de ser respeitadas nos seus mais básicos direitos como, por exemplo, trabalhar e poderem sustentar-se com o seu trabalho. É nisso que acredito – numa sociedade que se empenhe na dignidade de todos.

Desde 2010, em Lisboa, o alemão Hunter Halder pegou numa bicicleta, pôs um chapéu na cabeça, arranjou um saco amarelo e começou a fazer exactamente o mesmo trabalho que Desperdício Zero, só que quase anonimamente. Está agora instalado nas traseiras da igreja de Nª Sr.ª de Fátima em Lisboa; chamou Re-food à sua organização e merece todo o meu respeito.

Para mim, ele é solidário; os do hino são caridosos.
Acredito que o futuro pode contar com os solidários; quanto aos caridosos, pertencem a um passado de que me lembro bem, mas de que não tenho saudades.

Se isso faz de mim um “triste traste” como diz Pedro Rolo Duarte, prefiro sê-lo a sentir-me um traste alegrete que aplaude e não (se) interroga.
É-lhe difícil perceber esta outra maneira de pensar, Pedro Rolo Duarte?

É que não se trata de negar o mérito da ideia; trata-se de entender o “espírito” com que a “coisa” ficou. Se não é capaz de o entender, então, acho normal que lhe fique difícil “distinguir a estrada da beira estrada”.
A si, mas não a mim, que sou de esquerda e rio-me muito.

20 de abril de 2012

Ai, o amor

Os jornais noticiam que, no livro com a sua biografia a sair brevemente, Otelo Saraiva de Carvalho revela que tem duas famílias. Com uma (Filomena) vive de 2ª a 5ª feira, com a outra (Dina), vive de 6ª feira a domingo.
Atendendo às declarações que vem fazendo, isto, cá para mim, tem mais ar de “guarda partilhada”.
E, mesmo assim, parece uma missão impossível.

19 de abril de 2012

Toda a nudez será premiada

É comum ouvir dizer que os jovens de hoje não se interessam por política, mas interessam-se, e muito, por causas.
Em boa verdade, causas não faltam por aí – há-as para todos os gostos e temperamentos.

Acontece que, de há um tempo para cá, as pessoas, com larga vantagem numérica para as mulheres, deram para chamar a atenção para as suas causas, despindo-se.

Não tenho dúvidas de que o método é bom e chama realmente a atenção.
Só não sei é se é mesmo, mesmo, para as causas.


18 de abril de 2012

Uns “vizinhos” com sorte

Tomei conhecimento de que a comissão Europeia abriu um processo contra Portugal por causa das condições de vida de metade das nossa galinhas poedeiras.
Elas não têm o conforto exigido pela Europa, que determina que as gaiolas têm de prever para cada galinha, pelo menos 750 cm² de superfície da gaiola, um ninho, uma cama, poleiros e dispositivos adequados para desgastar as garras, que permitam às galinhas satisfazer as suas necessidades biológicas e comportamentais". Notícia aqui

Eu acho muitíssimo bem.
Entretanto, só por curiosidade, fui deitar uma olhadela, à socapa, a dois sem-abrigo que são muito cá do sítio, para verificar se as condições em que vivem são "capazes de satisfazer as suas necessidades biológicas e comportamentais".

Verifiquei que, quando deitados, ocupam mais de 750 cm2, porém, não vi cama e muito menos poleiro. Quanto ao “dispositivo adequado para desgastar as garras” também não me parece que exista, dado o estado em que as mesmas se encontravam.

Os meus dois “vizinhos” agradecem à Europa que só se preocupe com os animais. É que parece que teremos de abater as galinhas que não têm condições de vida decentes.
Sorte a deles, hem?

Posto isto, os amigos e defensores dos direitos dos animais podem chamar-me os nomes todos que quiserem.