17 de maio de 2012

O touro e o gato

Há dias em que até o mais incréu dos incréus precisa de se convencer de qualquer coisa. A tão apressada visita do Hollande à Merkel provocou à minha volta comentários do tipo – vai ao beija-mão! servilismo!

Eu, em abstrusa fase de increia com fé, preferi pensar que senhor estava com pressa de dizer várias coisas à alemã, como por exemplo: que o eixo franco-alemão é importante mas que a capital da Europa é Bruxelas e não Berlim, que precisamos de mais democracia interna e que esta história de serem só dois a mandar está a deixar alguns povos europeus exasperados, que é preciso defender a Grécia “custe o que custar” antes que a Europa comece a apodrecer das bordas para o centro, que isto de castigar os que estão na mó de baixo já deu mau resultado se ela bem se lembra de Versalhes (será que estudou isso?), que precisamos de repor o modelo europeu e não importar o chinês etc. e, assim, decidi acreditar que ele não ia apenas ao beija-mão.

De facto, não sabemos o que se passou entre eles, mas imagino que tenham sido dois animais, com polimento civilizacional, a medirem-se um ao outro, dado que não se conheciam.
Sabemos que a Merkel é um touro (evito aqui o feminino por decoro) mas ainda não sabemos que animal será Hollande.

Contudo, no Público de ontem, cita-se uma jornalista francesa que escreveu:

“…Hollande parece-se como esses gatos (espertos e indecifráveis) que teimam em vir enroscar-se nos sofás proibidos. Impõe a sua vontade à força de insistência, de sorrisos e de obstinação.”

Que a assim seja, desde que a sua vontade seja uma boa vontade e ele não perca demasiado tempo com salamaleques; é que o touro, se puder, não perderá a oportunidade de lhe dar uma valente cornada.

15 de maio de 2012

E se a gente desempregasse o Pedro?

Ó caraças, o que eu gostava de o ver na fila do Centro de Emprego com uns papelitos na mão e a dizer aos seus parceiros – crises são oportunidades, crises são oportunidades, crises são oportunidades, crises são oportunidades, até que alguém, fartinho de o ouvir, lhe enfiasse um banano.

Mas isto é só um desabafo, porque o importante é perceber como ele mente quando diz que somos pouco empreendedores, e como é falaciosa a retórica sobre desenvolvimento e número de empresários.
Para isso vale a pena ler o post de 11 de Maio do blogue Esquerda Republicana em que se apresentam dados da OCDE relativos à taxa de trabalhadores por conta própria e onde se lê:

«E não é que Portugal é o quarto país da OCDE com mais «empreendedores», apenas ultrapassado pelo México, pela Turquia e pela Grécia? Sim, leram bem: a Grécia é o único país da UE com mais empreendedores que nós.
E os Estados Unidos da América, símbolo de uma nação rica que dá lições à Europa no que diz respeito à promoção do empreendedorismo, são o terceiro país da OCDE com menos empreendedores. Têm uma taxa de trabalhadores por conta própria cerca de três vezes menor que a portuguesa.»

Vale a pena ler tudo para percebermos melhor que o primeiro-ministro não sabe o que diz, ou mente descaradamente, quando fala desse tema chato e desinteressante que dá pelo nome de DESEMPREGO.
Gostava tanto que desempregássemos o Pedro, só mesmo para o ver a descobrir oportunidades que não fossem por conta do partido e da cunha dos amigos do partido. Seria uma novidade na vida dele.








14 de maio de 2012

Entre Fátima e Madrid

Ontem à hora de almoço, quando liguei a televisão para ver as notícias, os três canais generalistas estavam ainda a transmitir imagens de Fátima.

Lembrei-me que em 2010, com o Papa por cá, li isto, bem divertido, no blogue jugular:



O temor de um simples mortal

 A RTP 1 transmitia em directo as cerimónias de Fátima.
 A SIC transmitia em directo as cerimónias de Fátima.
 A TVI transmitia em directo as cerimónias de Fátima.
 A RTP África transmitia em directo as cerimónias de Fátima.
 A TSF transmitia em directo as cerimónias de Fátima.
 A Rádio Renascença transmitia em directo as cerimónias de Fátima.
Tive medo de ligar a torradeira.


Este ano estiveram em Fátima 300 000 pessoas, bateu-se o recorde de venda de velas, e isso diz muitíssimo sobre “o estado a que isto chegou” como diria o Salgueiro Maia.

Se há pouco tempo, e a propósito do Pingo Doce, escrevi aqui que por vezes me envergonho duma parte da sociedade portuguesa, o mesmo não sinto em relação a estes que peregrinam até Fátima.

Desprovida que sou de qualquer tipo de fé, tenho um profundo respeito por quem a tem convictamente, sem fundamentalismo ou desejo de conversão do próximo.
Este povo simples que reza, pede, agradece, promete, tem esperança e acredita é genuíno (embora passivo), e merece o meu respeito.

Isso não invalida que, no mesmo telejornal, eu me tenha sentido irmã, não dos meus compatriotas que se conformaram em Fátima, mas dos espanhóis que, inconformados, ocuparam a Puerta del Sol em Madrid.


11 de maio de 2012

Como está a Maria João?

Nas suas crónicas diárias no Público, Miguel Esteves Cardoso escreve amiúde sobre a doença da sua mulher. São escritos de amor e, parece-me, simultaneamente exercícios para exorcizar o medo. São tocantes de ternura, fragilidade, fé às vezes, humanidade.

Esta exposição pública da sua vida privada não choca. Ao contrário, vejo nela um acto de coragem. E, se esta forma de se dar pode corresponder a uma necessidade pessoal, estou certa de que também o transforma num companheiro de viagem de muitos outros que vivem a mesma situação.

E tudo é tão bem feito e escrito que a Maria João entrou definitivamente na nossa vida.
Talvez por isso, não é raro que dê comigo, nos dias em que não nos dá notícias dela, a pensar – como estará a Maria João?


10 de maio de 2012

À espera

Na Pluma Caprichosa do Expresso de 5 de Maio, Clara Ferreira Alves presta homenagem, recordando, ao seu amigo Miguel Portas.

“Trinta mil vezes” ele a deixou plantada durante horas, à espera, quando marcavam um encontro.

Há pessoas assim, incapazes de chegar à hora combinada seja em que situação for. Outras, pelo contrário, são incapazes de chegar atrasadas, e só ficam de bem consigo se chegarem um pouco antes, mesmo sabendo que as espera uma espera que às vezes as desespera.

Há na minha vida uma criatura muito querida e muito próxima que pertence à categoria dos atrasados e eu pertenço à categoria dos pontuais. Nem sempre a vida foi fácil com esta nossa “pequena” diferença.

Era normal ver os amigos que iam chegando e acabavam por formar um ruidoso grupo à porta, e à espera.

Um dia, um estrangeiro (um pragmático alemão) presenciou a cena e, perante o meu desconforto, disse-me: se eles esperam é porque acham que vale a pena.
Assim é. Na vida, não esperamos por todos, esperamos por quem (nos) vale a pena.


9 de maio de 2012

Onde pára o nosso lítio?

Aos doentes já deram vários nomes, que eu saiba – ciclotímicos, maníaco-depressivos e agora bipolares.

É do conhecimento geral que a doença se caracteriza por períodos de euforia e períodos de depressão, ou seja, há dias em que o doente assobia na rua e outros em que se mete na cama com a cabeça tapada, podendo a passagem de um estado ao outro ser bastante rápida.

Eu acho que o colectivo dos portugueses padece deste mal. Ora somos os maiores, ora nos achamos abaixo de cão. Basta ver a facilidade com que, por aqui, qualquer um passa de bstial a besta. Esta sintomatologia também se revela quando elegemos governos. Uns são eufóricos, e outros deprimidos.

O governo de Sócrates era um claro exemplo da primeira fase − pensamento positivo e em grande; ainda me lembro muito bem de o ouvir na televisão a afirmar poucos dias antes de chamar os troikos: “Portugal tem dinheiro, nós não precisamos de pedir ajuda externa”. Fase eufórica, portanto.

Seguiu-se o governo de Passos e passámos à segunda fase, a da depressão.
Começou por nos mandar empobrecer, depois mandou os nossos filhos emigrar e agora, mais recentemente, mandou que nos habituássemos a viver com elevada taxa de desemprego. Fase depressiva, óbvio.

Parece que esta doença, que já teve tantos nomes, é incurável, mas o doente pode ter uma vida estável se tomar, sem falhas, a sua dose diária de lítio (não sei se é a mesma coisa que se usa nas pilhas Duracell), mas sei que é lítio.

O que pergunto é se não haverá por aí quem abra a bocarra deste país e deite lá para dentro a dose certa de lítio, a ver se conseguimos fazer a nossa vidinha sem ataques de euforia nem de depressão? E pode ser mesmo um genérico, que sempre é mais barato, uma vez que comer pilhas deve ser indigesto.
É que esta doença não mata, mas é muito difícil de aturar.


8 de maio de 2012

Correr na relva

Nunca sabemos se o novo será melhor, pior, ou apenas diferente. Nem sequer sabemos se o novo será realmente novo.

Nunca saberemos se o que não foi seria o que dele esperávamos, e não é raro que o que é se revele diferente daquilo que era suposto ser.

Contudo, há momentos em que mudar é tudo o que queremos, e o novo traz de volta alguma leveza juvenil, limpa, clara, sem reservas.

Há momentos em que a mera mudança nos devolve uma esperança tão bem guardada que quase nem sabíamos que ainda dormia numa gaveta em nós.

As eleições em França e na Grécia abrem uma larga porta para dúvidas e conjecturas, mas também abriram uma pequena fresta dessa gaveta esquecida.

Algo se moveu e, por um momento, apenas um momento, saí do pântano e corri na relva com os pés descalços.

7 de maio de 2012

O Pedro, o Henrique e a escrita deles

Este post tem como real objectivo chamar a atenção para o excelente editorial de Pedro Santos Gurreiro publicado no Jornal de Negócios na semana passada.
É jornalismo de primeira, e eu gosto. Se faço este aviso é porque, no fim, pode já não se perceber isso muito bem, as conversas são como as cerejas e tal.

Acontece que eu também tenho uma costela masoquista, e assumo que todas as semanas leio gente que, sei-o antecipadamente, me vai deixar mal disposta.

É o caso de Henrique Raposo, rapaz endiabrado, cheio de “graça” e certezas.
As suas crónicas provam à saciedade que não é preciso ter berço para alinhar na direita parva; quando o assunto recai sobre a sua humilde família de origem, todo ele é doçura e ternura e sei lá, quase me comovo; quando fala do país oferece-nos uma taça de cinismo a boiar em graçola arrapazada.

Esta semana, escrevendo sobre o mesmo assunto que Pedro Santos Gurreiro, atira-se, mas a brincar, é sempre a brincar, a quem se indignou com a história Pingo Doce.
Esquerda caviar, diz, (como agora a direita gosta de dizer), que acharia normal uma fila para comprar um brinquedo da Apple, mas no fundo não suporta o povinho que só quer consumir barato.

Povinho esperto, o nosso. Os caviar, que por aqui também andam, é que são do piorio. Se, ao menos, o Raposo soubesse argumentar! Mas a única coisa que ele sabe é usar uma prosa chocarreira que deve achar de grande qualidade.

A minha costela masoquista, porém, não desgruda. Todas as semanas o leio e todas as semanas, quando acabo, só me apetece dizer-lhe:
Ó Henrique, vai-te catar.
E para a semana há mais.


6 de maio de 2012

E assim acontece

Todos os dias da minha vida sou mãe e sou filha.

Passo a passo, os filhos criaram asas e a mãe estendeu raízes.

Graças a eles, em cada dia que passa sou mais firme e voo mais alto.

No dia de ser mãe e filha, e todos os dias da minha vida.


Imagem: Nossa Senhora do Ó, Sé de Évora


4 de maio de 2012

Pensamento de rico em país de pobre

Cada vez percebo menos disto tudo. Depois de me terem azucrinado a cabeça durante anos dizendo que vivemos acima das nossas possibilidades, entra em vigor uma medida que não permite aos carros mais antigos e “poluentes” circularem na maior parte da cidade de Lisboa.
Qualidade do ar, dizem eles; diretivas europeias, dizem também.
Se bem conheço os portugueses, quem anda num carro de 1992 ou 1996, na maioria das vezes não o faz por amor ao objecto, mas porque não quis endividar-se para comprar outro, ou seja, não quis viver acima das suas possibilidades.

Aprendida a lição moralista, pensávamos agora que isso é que estava certo, mas, afinal, também não está, e o chicote está sempre pronto para usar nas costas dos mesmos.

Os nossos padrastos europeus, lá do alto das suas muito correctas inquietações dizem-nos: sofram, paguem as dívidas com o juro que nós quisermos, entreguem a casa ao banco, matem as galinhas poedeiras, comam da caridade e deitem fora a carripana.

Diretivas europeias, dizem os senhores da Câmara.
Pensaram em adiá-las mais um pouco? Sim, alguns pensaram, e até houve quem votasse contra a sua entrada em vigor.
Por o momento ser mau?
Ora, ora, santa ingenuidade. Não foi nada disso.
Foi apenas porque no Código da Estrada não há sinal para tal proibição.


3 de maio de 2012

Um dia lixado

Ontem foi um dia lixado.
Depois do Miguel Portas, "morre-me" o Fernando Lopes. Parece que a morte só se interessa pelos mesmos que eu, e estas afinidades perturbam-me.
Além disso, continuei a ver imagens do “caso” Pingo Doce.
O que vi e ouvi, também desmoraliza muito.
Quanto ao senhor Alexandre, neste momento (mas só neste momento) estou-me borrifando para ele; o que me machuca mesmo são as imagens terceiro-mundistas do interior e exterior dos supermercados.

A promoção levada a cabo pelo merceeiro, para além de hostilizar o dia do trabalhador, não tinha como alvo os pobres, porque esses não vão fazer compras superiores a 100 euros.

Por isso, quem acorreu foi uma classe média empobrecida mas não miserável, com emprego por agora, gananciosa, acéfala, sem um pingo de consciência cívica ou política, estupidificada pelo consumo e que, no mínimo, me deixa desconfortável quando a vejo na televisão.

Sem medo das palavras, ouso afirmar que em 2012 há uma parte da sociedade portuguesa de que me envergonho - aquela a quem falta dignidade e brio, aquela que acha normal a esmola em vez da mais básica justiça social

E isso torna-me também mais pobre, descrente, às vezes cínica, às vezes raivosa.
Não, eu não gosto nada disso.

2 de maio de 2012

Traída pelo defunto

Num exercício de puro mau gosto, Fernanda Câncio publicou no blogue jugular, o relato, análise e incómodos da sua ida ao velório de Miguel Portas.

Começa pelo sacrifício de estar meia hora à chuva e seguem-se as contrariedades.

Ao cumprimentar a família, que era o que queria fazer, teve também que cumprimentar “o comité” do Bloco.
Horrível! Homenagem ao Bloco! Dixit
Misturas destas não lhe cabem na cabeça, e, por isso, termina dizendo:

a mistura do pessoal e do político existia no miguel, claro. como, de algum modo, em todos nós. mas isto, não posso deixar de o dizer, caiu-me muito mal.

Ora que pena. Talvez um Guronsan ajudasse.
Resumindo, o morto fez-lhe uma afronta, já que sabemos que tudo foi pensado pelo Miguel.
E que não tivesse sido? Se a heterodoxa família Portas ali esteve com os dirigentes do Bloco foi porque entendeu que assim devia ser, com razões que são suas e não são da nossa conta.

Ir a um velório é um acto público – só vamos se queremos, só cumprimentamos quem queremos, e é de bom-tom não criticar em público as opções e disposições tomada, para o momento, pelos protagonistas.

Um pouco de humildade, de respeito e de aceitação da diferença, não fariam mal a Fernanda Câncio.
Se tais “dotes” tivesse, poderia ter encontrado ali apenas a Helena, o Nuno, o Paulo, a Catarina, o Francisco, o Luís, o João e, com todos eles, ter sentido a fragilidade e pequenez que todo o ser humano sente quando a morte vem buscar alguém que amamos.
Mas não, ela só viu o Bloco - ódio de estimação.

Fernanda Câncio devia experimentar tomar a família Portas como referência de tolerância e união, mas também de fractura com as normas convencionadas duma burguesia urbana mas parola.
E devia fazê-lo não só para os velórios, mas para a VIDA.


1 de maio de 2012

30 de abril de 2012

Cronistas irritados

A decisão de Mário Soares e da Associação 25 de Abril de não participarem nas comemorações oficiais do dia 25 de Abril irritou profundamente comentaristas, cronistas e afins. Afinal, não foi só Ricardo Costa, foram quase todos.

Henrique Monteiro, no Expresso de 28/04/2012, lamenta que Vasco Lourenço tenha dito que “os eleitos já não representam o povo”. Bom, eu também acho que não é bem isso, mas todos conhecemos o jeito que Vasco Lourenço tem para se comportar com elefante em loja de porcelana. Os eleitos representam sempre o povo que os elegeu, podem é, uma vez eleitos, governar contra ele. É o que está a acontecer e era o que deveria ter sido dito, mas a Associação tem o direito de tomar as posições que entender.

Henrique Monteiro diz também que Sampaio esteve presente porque, esse sim, sabe distinguir “o essencial do acessório”.
Não tenho tanta certeza disso.

Ainda hoje acho, contra tudo e contra todos, que ele é o primeiro responsável pela situação em que nos encontramos.

Ao dar posse a Santana Lopes em 2004, seguindo as ordens de Barroso, fez o país cair nos braços de Sócrates no ano seguinte. Tudo poderia ter sido diferente (ou não, quem sabe?) mas esta decisão de Sampaio tem um peso enorme na história recente do país, e parece estar completamente esquecida. Sim, também Sampaio, aí, traiu a confiança de quem nele votou, dando agora ares de virgem impoluta. Na política portuguesa não há disso.

Quanto a Mário Soares, já aqui disse que “não dá ponto sem nó”. Depois de ter andado com Passos ao colo, infletiu o caminho e quis dar um recado qualquer. Qual? A quem? A resposta pode não ser, para já, óbvia, mas, mais cedo ou mais tarde perceberemos, porque Soares pode estar velho, mas parvo é que ele não está.
Azar o de comentaristas, cronistas e afins.


27 de abril de 2012

E Ricardo Costa analisou

Este vídeo do Expresso online, em que Ricardo Costa analisa a decisão de Mário Soares de não estar presente na AR para a cerimonio do 25 de Abril, pode ser visto como um vídeo humorístico.

Com ar sério e muito compenetrado de director de jornal, o “jovem” Ricardo analisa o caso como se Mário Soares estivesse no activo, pronto para disputar o poder. Considera que era sua obrigação estar presente que “ é um dos erros mais graves da sua carreira”; termina dizendo que “é um erro grave de que Mário Soares se vai, rapidamente, arrepender”.
Já estou mesmo a ver o nosso velho Mário todo arrependidinho.

O Ricardo deve estar a precisar de férias, ou então, ainda que mal pergunte:

Será que Ricardo Costa ainda não percebeu que Mário Soares, pelo seu passado e pela sua idade, conquistou o direito de fazer e dizer tudo o que bem lhe apetecer, sem cálculos eleitorais futuros e sem preocupações de saber se parece bem ou mal?

Será que Ricardo Costa ainda não percebeu que Mário Soares sabe mais de política a dormir uma soneca no sofá do que ele numa semana de vigília?

Será que ainda não percebeu que Mário Soares nunca se arrepende de “miudezas” destas (ou doutras)?

Será que Ricardo Costa ainda não percebeu que Mário Soares “ não dá ponto sem nó”?

Apesar do ar sério de Ricardo Costa, a acentuar a gravidade do acontecimento, quem não conseguiu ficar séria, fui eu: é que, vê-lo a dar um raspanete a Mário Soares, e a avisá-lo de que se vai arrepender, pareceu-me um sketch nonsense.

26 de abril de 2012

Rasgar a apólice chega?

Nunca fui simpatizante de seguros e seguradoras. Posso mesmo dizer que, nesse aspecto, sou ferozmente desconfiada, a ponto de sempre dizer que, à cautela, prefiro ser eu a fazer o mealheiro.

Quando em 1986 aderimos à então chamada CEE, pela primeira vez achei que não seria má ideia fazer aquele “seguro”, coisa mais do tipo mutualista em que os subscritores eram solidários entre si. Pensei também que, por via dessa solidariedade, talvez nos fossemos aproximando dum melhor padrão de vida que existia lá nos outros países subscritores.

Como toda a gente faz, não li as letras pequeninas da apólice.

Esta, afinal, não cobria riscos sísmicos (financeiros) nem inundações (mesmo que todos metessem água), o mutualismo só estava previsto na bonança, e caso o padrão de vida resvalasse para o tipo africano ficava implícito que cada um devia tratar de si.

Concluo, portanto, que a minha desconfiança em relação às seguradoras continua a ter razão de existir, e que é imperioso ler as letras pequeninas.

Muito gostaria de acabar com este seguro que, para além de não me “segurar”, nem sequer me deixa vender as pratas e o ouro dos antepassados para pagar as dívidas.
Como é que faço? Basta rasgar a apólice?


24 de abril de 2012

1 Maio 1958 - 24 Abril 2012















Com a minha admiração e profundo respeito.

A pior profissão do mundo – Rei

Apesar dos meios de comunicação social não largarem o apetecível “osso” que é a vida privada das figuras públicas (com ou sem a ajuda das mesmas), penso que nunca se foi tão longe como se foi agora com o rei de Espanha. Segundo esta notícia, o rei deixa de ter agenda privada, ou seja, esta passa também a ser pública. Se tirar uns dias de férias, se lhe apetecer ficar na cama, se for jantar fora, tudo será público pelo que, a hora do banho e do corte de cabelo também o devem ser, deduzo eu.
Não conheço nenhum chefe de Estado a quem tal coisa tenha sido imposta, ou que a tal estivesse disposto.

Valerá a pena ter uma monarquia cujo rei é tratado como um menor de idade que tem de suportar uma obstinada vigilância paterna por sucessivos actos de mau comportamento?

É certo que o Juan não é nenhum santo, tem lá os seus devaneios, os seus gostos secretos que a moral vigente não tolera, mas, no conjunto, não creio que seja pior que os outros políticos – mente, finge, é hipócrita, como todos.
Porém, sendo rei, parece que tem menos perdão e vai ser obrigado a deixar escrutinar toda a sua vida privada.

Há nesta decisão um travo amargo a castigo e humilhação. Se os espanhóis não querem mais a monarquia, deviam ter a coragem de se desfazer dela porque, mesmo não se apercebendo disso, ao humilhar o rei, e assumindo o papel de seu guarda prisional, é a si próprios que humilham e prendem.

Ao menos cá nesta republica(zinha) ao fim de cinco anos podemos dar um chuto no Cavaco e ficamo-nos nas tintas se caça elefantes ou baratas.

23 de abril de 2012

Ser solidário ou ser caridoso

A campanha Desperdício Zero arrancou com estrondo e polémica, com hino e o alto patrocínio da Presidência da República.
O hino, não é apenas infeliz, como li por aí; ele traduz o sentir dum movimento de cariz assistencialista.

“Sei que andas a passar fome mesmo estando a trabalhar, o que eu não aproveito, a ti dava-te jeito….” Tralalá, tralalá, tudo muito sentido e condoído.

Será normal estar a passar fome mesmo estando a trabalhar? Será normal dar o que me sobra em vez de partilhar o que tenho? Será normal que o Tim escreva uma coisa destas? Será normal que gente como Jorge Palma se ponha a cantar isto com trejeitos de grande artista de cabeça oca?

Será normal que já ninguém perceba a diferença entre assistencialismo, caridade e solidariedade?

Dar de comer a quem tem fome é imperioso, mas podemos fazê-lo sem estardalhaço, sem palco, e sem perder de vista que as pessoas não precisam de caridade, precisam de ser respeitadas nos seus mais básicos direitos como, por exemplo, trabalhar e poderem sustentar-se com o seu trabalho. É nisso que acredito – numa sociedade que se empenhe na dignidade de todos.

Desde 2010, em Lisboa, o alemão Hunter Halder pegou numa bicicleta, pôs um chapéu na cabeça, arranjou um saco amarelo e começou a fazer exactamente o mesmo trabalho que Desperdício Zero, só que quase anonimamente. Está agora instalado nas traseiras da igreja de Nª Sr.ª de Fátima em Lisboa; chamou Re-food à sua organização e merece todo o meu respeito.

Para mim, ele é solidário; os do hino são caridosos.
Acredito que o futuro pode contar com os solidários; quanto aos caridosos, pertencem a um passado de que me lembro bem, mas de que não tenho saudades.

Se isso faz de mim um “triste traste” como diz Pedro Rolo Duarte, prefiro sê-lo a sentir-me um traste alegrete que aplaude e não (se) interroga.
É-lhe difícil perceber esta outra maneira de pensar, Pedro Rolo Duarte?

É que não se trata de negar o mérito da ideia; trata-se de entender o “espírito” com que a “coisa” ficou. Se não é capaz de o entender, então, acho normal que lhe fique difícil “distinguir a estrada da beira estrada”.
A si, mas não a mim, que sou de esquerda e rio-me muito.

20 de abril de 2012

Ai, o amor

Os jornais noticiam que, no livro com a sua biografia a sair brevemente, Otelo Saraiva de Carvalho revela que tem duas famílias. Com uma (Filomena) vive de 2ª a 5ª feira, com a outra (Dina), vive de 6ª feira a domingo.
Atendendo às declarações que vem fazendo, isto, cá para mim, tem mais ar de “guarda partilhada”.
E, mesmo assim, parece uma missão impossível.

19 de abril de 2012

Toda a nudez será premiada

É comum ouvir dizer que os jovens de hoje não se interessam por política, mas interessam-se, e muito, por causas.
Em boa verdade, causas não faltam por aí – há-as para todos os gostos e temperamentos.

Acontece que, de há um tempo para cá, as pessoas, com larga vantagem numérica para as mulheres, deram para chamar a atenção para as suas causas, despindo-se.

Não tenho dúvidas de que o método é bom e chama realmente a atenção.
Só não sei é se é mesmo, mesmo, para as causas.


18 de abril de 2012

Uns “vizinhos” com sorte

Tomei conhecimento de que a comissão Europeia abriu um processo contra Portugal por causa das condições de vida de metade das nossa galinhas poedeiras.
Elas não têm o conforto exigido pela Europa, que determina que as gaiolas têm de prever para cada galinha, pelo menos 750 cm² de superfície da gaiola, um ninho, uma cama, poleiros e dispositivos adequados para desgastar as garras, que permitam às galinhas satisfazer as suas necessidades biológicas e comportamentais". Notícia aqui

Eu acho muitíssimo bem.
Entretanto, só por curiosidade, fui deitar uma olhadela, à socapa, a dois sem-abrigo que são muito cá do sítio, para verificar se as condições em que vivem são "capazes de satisfazer as suas necessidades biológicas e comportamentais".

Verifiquei que, quando deitados, ocupam mais de 750 cm2, porém, não vi cama e muito menos poleiro. Quanto ao “dispositivo adequado para desgastar as garras” também não me parece que exista, dado o estado em que as mesmas se encontravam.

Os meus dois “vizinhos” agradecem à Europa que só se preocupe com os animais. É que parece que teremos de abater as galinhas que não têm condições de vida decentes.
Sorte a deles, hem?

Posto isto, os amigos e defensores dos direitos dos animais podem chamar-me os nomes todos que quiserem.

17 de abril de 2012

Ó Júlio, já chega

Já disse aqui, a propósito de Pedro Rosa Mendes, que tenho, há muitos anos, o hábito de ir ouvindo o programa da manhã da Antena 1.

Não sei em que ano começou o programa de Júlio Machado Vaz, “O Amor É”, nem isso interessa; sei que dura há tantos anos que deve estar em competição com “O Preço Certo”.

Se durante muito tempo o ouvi com agrado e simpatia, confesso que agora já não o aguento.
O homem já deu várias vezes a volta a tudo o que podia dizer, e aquilo actualmente mais parece uma missa diária que apela à continuação do bocejo matinal.
Não se aguenta, seis dias por semana - programas curtos de 2ª a 6ª e programa de uma hora ao domingo.

Não sei o que leva a Antena 1 a manter o programa, mas se foi tão expedita a despachar o Rosa Mendes and friends, por mim não entendo um tal apego ao Júlio.
Por outro lado, o Júlio também não se enxerga, e não percebe que ele e aquele modelo já deram o que tinham a dar. É preciso saber partir, deixar o palco quando chega a hora, mas isso é ruptura muito difícil para a maioria dos egos.

Naqueles cinco minutos, seria bom ouvir vozes diferentes com assuntos diferentes. Seria bom ouvir, por exemplo, um escritor ou crítico recomendar um livro, um artista ou um curador escolher uma exposição, um cinéfilo entusiasmar-me com um filme, um melómano apontar-me um CD.

Júlio Machado Vaz e a RDP parecem o Carreras a Brightman no dueto Amigos para Siempre; porém, como quem paga essa amizade sou eu, tenho o direito de dizer que estão a abusar da minha paciência, e todas as manhãs me apetece dizer BASTA.

16 de abril de 2012

A escola do Nuno

Não se pode negar que o Ministro da Educação tem lá as suas ideias sobre a escola. Homem certamente saudoso do tempo feliz da sua infância nos longínquos anos 50/60 do século passado, imagina as maravilhas do regresso a essa escola. Por isso decide:

- Turmas de 30 alunos, e de 26 para o 1º ciclo.
Para se aproximar mais da escola do seu tempo podia até fazer turmas com as quatro classes, como antigamente acontecia lá na aldeia onde uns aprendiam e outros iam guardar porcos.

- Exames da 4ª classe.
Antigamente a 4ª classe era o fim da linha de estudos; agora ainda vão estudar mais oito ou dez anos mas é bom que se habituem a chumbar logo cedinho.

- Turmas de crânios e turmas de burros.
Aqui o ministro foge às regras do passado – os burros lá atrás e os espertos à frente; mas talvez esta seja uma nova forma de escola inclusiva, quem sabe.

- Fim das provas especiais para alunos especiais.
Esta é mesmo inclusiva. Não queremos cá estigmas, aqui é tudo igual (e desumano) como no tempo do senhor ministro.

E pronto, com umas poucas ideias bafientas se reforma o ensino do século XXI à luz do maravilhoso ensino de meados do século XX.

Se bem entendo, para o senhor ministro a vida não mudou nada, a sociedade não mudou nada, a escola (seu reflexo) não mudou nada, e o melhor mesmo é voltarmos aos saudosos anos 1950.
Ditosa pátria que tais ministros tem.


14 de abril de 2012

Corrente






















Vem da Ana Cristina esta é daquelas correntes que não pode mesmo ser quebrada! Camaradas Bloggers, obedecei ao que é pedido na imagem e sereis felizes. Se não para sempre, pelo menos durante uns tempitos.

Recebi-o assim de Joana Lopes e eu seja ceguinha se vou quebrar a corrente.





Sem título (cada um que escolha o seu)

13 de abril de 2012

Regresso à fisga

O léxico governamental português é pobrezinho. Resume-se, de facto, a três verbos – proibir, taxar, cortar.

O verbo proibir foi na 4ª feira conjugado, mais uma vez, na Assembleia da República, desta feita pelo Dr. Macedo que, depois de, há uns anos, muito usar o verbo taxar nas finanças, passou a usar os verbos proibir e cortar na saúde.

Este homem é o paradigma.
Decidiu o Macedo que vai proibir o fumo dentro de carros particulares que levem crianças; bom, eu há muito tempo que não tinha um ataque de riso tão convulsivo.

Estou a imaginar o polícia a abeirar-se do carro e dizer – cheira-me aqui a esturro, o senhor esteve a fumar com a criança no carro, eu senhor guarda, nada disso, pela sua saudinha, eu nem fumo.

Se o ridículo matasse, o ministro tinha saído da AR levado pelo INEM (se ele chegasse a tempo, claro), mas a fúria proibicionista é de tal ordem que nem deixa margem para pensar.
Uma campanha publicitária, tendo em vista quem ainda fuma no carro com crianças lá dentro, seria bem-vinda. Mas, qual o quê, eles gostam é de proibir e pronto.

Depois disto, fico à espera que me proíbam de fumar na minha própria casa. É só já o que falta.

Nessa altura, quando a ressuscitada polícia de costumes, alertada pelo pivete ou por denúncia de vizinho malvado, me bater à porta, não a receberei de caçadeira porque tenho horror a armas, mas uma boa fisga de caçar pardais vou ter na mão, de certeza. (Para a ter sempre à mão vou passar a usá-la no pé, como se vê na imagem).

E só espero ainda ter pontaria para lhe acertar nas nalgas.
Assim mesmo, bem à alentejana.


12 de abril de 2012

Uma agenda para a humilhação

Podemos dar quinhentos “abraços” à Maternidade Alfredo da Costa, podemos gritar e espernear, podemos provar por A+B+C+X+Y que é um erro fechá-la; porque é excelente, porque nela se investiu muito, porque é património emocional dos lisboetas, porque a sua existência nos dá segurança.
Ela vai fechar na mesma, porque o governo já decidiu.

Já tínhamos percebido, neste governo, uma agenda bem definida de protecção de grandes interesses, de empobrecimento colectivo, de precarização geradora de medo. Aos poucos, vamos descobrindo uma agenda escondida para a infelicidade geral.

Uma agenda para a humilhação, sem a ajuda da troika.

Se nós gostamos, se temos orgulho, se queremos, então o governo decide que é para acabar, fechar, destruir.

São as bastonadas no orgulho, na confiança e nos afectos colectivos que nos vão destruindo por dentro, fazendo perder o ânimo e a vontade de reivindicar um futuro.

Não se estranha, pois, a apatia generalizada, a indignação que definha, deixando em seu lugar apenas a uma “austera, apagada e vil tristeza” que por todo o lado se vai sentindo.

Nós não temos apenas um mau governo. O caso do fecho da Maternidade Alfredo da Costa prova que temos um governo macabro.

11 de abril de 2012

No comboio descendente

Que diz Seguro sobre o tratado orçamental que coloca a obrigatoriedade do défice em 0,5%? Que tem ali uns pozinho não sei de quê que quer juntar à receita mas que, com pozinhos ou sem pozinhos, ele vai dizer que SIM.


Quando imagino uma reunião do governo em que se fale da oposição/PS,  apetece-me logo cantar:

No comboio descendente
Vinha tudo a gargalhada
Uns por verem rir os outros
E os outros sem ser por nada

Quando imagino uma reunião da comissão política do PS, apetece-me logo cantar:

No comboio descendente
Mas que grande reinação
Uns dormindo outros com sono
E os outros nem sim nem não

Já não há bilhetes para o comboio descendente.

10 de abril de 2012

Nós não somos a Grécia

Em Janeiro tivemos a notícia de que, entre 2010 e 2011, desapareceram dos registos do fisco 111 000 crianças que estavam “a cargo” de muitas famílias portuguesas. O desaparecimento deu-se, precisamente, quando passou a ser obrigatório atribuir número de contribuinte aos menores para os pais os poderem declarar no IRS.


Na ilha de Zakynthos (Grécia), descobriu-se que dos 700 cegos declarados e que, como tal, recebiam subsídio, apenas 50 são de facto invisuais. (DN)

Não, é claro que nós não somos a Grécia.

Haverá muitas semelhanças no caminho que levamos mas as diferenças também são óbvias - por lá abundam os cegos, enquanto por cá o que não falta é olho vivo.

É apenas um detalhe na tragicomédia que nos é comum.


9 de abril de 2012

No limbo

Parece que já toda a gente tomou uma posição definitiva sobre o Acordo Ortográfico, excepto eu.

Comecei por ficar mais ou menos indiferente, e de raciocínio mais ou menos preguiçoso, no pressuposto de que já houve outros acordos a que toda a gente se habituou. O computador tratou do assunto e mesmo agora eu escrevi excepto e ele comeu-lhe logo o p; como insisti, ele marca-me erro.

Comecei, então, a escrever segundo o acordo, mas verifiquei que não sou capaz de escrever espetador em vez de espectador, ou para em vez de pára, entre outras.

Desta feita, já que, afinal, uns dizem que está em vigor e outros dizem que não, decidi voltar à escrita antiga até que os mandantes se entendam. Porém, isto de estar sempre a desfazer o que o computador me desfaz é muito cansativo.

Às tantas, e com todas as excepções, acho que já nem sei escrever, fico cheia de dúvidas atormentadoras. Será assim? será assado? levará hífen? dobrará a consoante? perdeu o acento? Uma canseira.

Leio jornais com Acordo e jornais sem Acordo, livros com Acordo e livros sem Acordo, legendas com Acordo e legendas sem Acordo. Só ainda não testei a bula dos medicamentos.

Dantes, com regras bem definidas ainda se percebiam os erros. Agora, cada um escreve como quer está sempre bem.

Podemos estar a viver no purgatório mas quanto à escrita, já não há “pecado”. O país escrevente vive no limbo, e eu com ele.

5 de abril de 2012

A fulanização de ideias e causas

Na semana passada, circulava no FacebooK a verdadeira caça ao polícia, o tal que andou pelo Chiado à bastonada. Critiquei a atitude aqui. Segundo notícia de ontem, o MAI decidiu abrir um processo disciplinar ao referido agente da PSP, e é assim que deve ser.
Agora, a propósito da vinda ao Coliseu do repelente rapper Sizzla, que incita o público a matar homossexuais, pergunta-se se alguém sabe quem é o dono do Coliseu.
Há na pergunta uma velada ameaça, como quem diz – “vamos-te fazer a cama, porque contratas um tipo execrável, de quem não gostamos”.

Se, na política, há evidentes sinais de deterioração da democracia, na sociedade civil não há menos.

Acho normal um movimento de repúdio pela contratação de tal personagem, e também acho normal que declaremos alto e bom som que, para nós, alguns visitantes não são bem-vindos.
Porém, já não acho nada normal, ao contrário, acho preocupante, que se fulanizem assim ideias políticas e causas. E isto está a ficar demasiado frequente.

Tenho o direito de dizer que, para mim, Sizzla não é bem-vindo, e que não gosto mesmo nada dum empresário voraz que o contrata mas, é tudo; aí acabam os meus direitos.
Pode argumentar-se que tudo não passa de brincadeira ou leviandade de espíritos “revolucionários”, mas continuo a achar que, mesmo nesse caso, são coisas que passam pela cabeça das pessoas, são sinais, e de muito mau gosto.

4 de abril de 2012

Maia





















É um herói da minha geração. Faz hoje vinte anos que morreu.

Um exército de crianças

Esta pequena notícia do DN, se bem atentarmos nela, indigna tanto como outras, a que se dá grande destaque, sobre o uso e abuso de crianças. Mas, para a comunidade internacional, a Coreia do Norte só é notícia importante quando ameaça com o seu poder nuclear ou quando nos oferece o espetáculo da morte do querido líder.

Ora, segundo a notícia, o exército norte-coreano passou a aceitar mancebos com a altura de 142 cm, em vez dos anteriores 145 cm, devido ao raquitismo da nova geração provocado pela grande fome dos anos 1990.
Este exército, o quarto maior do mundo, é composto por 1,2 milhões de soldados com 16 e 17 anos, que cumprem o serviço militar por um período mínimo de 10 anos.

Quando imaginamos rapazes/meninos de 16 anos, com um metro e quarenta e dois de altura, de arma na mão, cumprindo treino militar, quais os sentimentos que nos dominam? Muitos e todos desagradáveis.
Mas são meros sentimentos individuais, porque o mundo, como um todo, nem olha; e se olha pensa – que se lixe.
São as notas de rodapé no nosso dia-a-dia.


Nota: para quem quiser saber melhor o que foi a grande fome na Coreia do Norte volto a recomendar o livro que já referi aqui.

3 de abril de 2012

Confirma-se


"Troika não descarta corte definitivo dos subsídios de férias e de natal" (JN)


Confirma-se: os gajos decidiram ficar a mandar aqui para o resto da vida.

"Vieram como andorinhas"

As minhas leituras nunca se tinham cruzado com William Maxwell; calhou agora, e só posso lamentar que tenha sido agora.
Em menos de 130 páginas o autor aborda, em “Vieram como andorinhas”, a vida duma família americana no pós-1ª Guerra Mundial e no momento da pandemia de gripe espanhola que matou milhões de pessoas em todo o mundo.
Uma mãe, um pai, dois filhos rapazes e um ou outro elemento colateral da família. A história conta-se dando a vez a cada um dos filhos e ao pai.

Bunny, o filho mais novo é tão sensível e tem uma tão forte ligação à mãe que nos lembra Proust. Robert, o mais velho mas ainda um pré-adolescente, sofreu um acidente e tem uma perna de pau. O pai, James, é um pai à maneira da época – poucas falas, um tanto temido pelos filhos, nada de exprimir afetos.

Relacionamo-nos sobretudo com os filhos e, quando ouvimos Bunny achamos Robert arrogante e agressivo; quando ouvimos Robert achamos Bunny mimado e manipulador.

Quando a mãe, epicentro quase mudo da narrativa, morre, encontramos James confrontado consigo mesmo.
O que acontece quando o elemento aglutinador da família e dos seus afetos desaparece?
É a pergunta que fica no ar com o equilíbrio perfeito da simplicidade.
De mestre.

Sextante Editora, 2011




2 de abril de 2012

Deu-lhe para ser foleiro

Quando ouvi dizer que Ribeiro e Castro tinha votado contra a nova legislação laboral, deitei as mãos à cabeça e pensei – valham-me todos os santos que o homem virou à esquerda. Depois, lá acalmei porque percebi que, afinal, ele só está contra o fim do feriado de 1 de Dezembro por ser o dia da recuperação da independência.

Vem de lá o Paulo Portas, questionado sobre o assunto, e diz, mais coisa menos coisa – “para mim, o mais importante é cada um de nós, no dia da independência de Portugal, dar o seu contributo para que Portugal recupere a sua independência”.

Ó Paulo, é bem verdade que uma desgraça nunca vem só.
Se este fosse o tempo em que você vestia a roupinha de latifundiário patriota e telúrico, a gente ria-se e havíamos de o ouvir dizer que os patriotas, consigo à cabeça, estavam escandalizados com o fim do feriado em dia por demais importante para a nação.
Agora que tanto precisamos de rir, você trata de vestir a roupa de estadista e de debitar discursos tão patrioteiros como foleiros, que nem dão para rir.

O menino não imagina o tamanho do desejo que tenho de o ver voltar rapidamente ao armário para tirar o boné e o capote da naftalina.
Isso é que eram boas notícias.