17 de novembro de 2011

É caso para voltar a dizer - Fascismo nunca mais!

"A promoção de Portugal através da imagem ou do som deve ser enquadrada numa visão de política externa e portanto quase que sob a orientação ou em contrato de programa com o Ministério dos Negócios Estrangeiros”, afirmou o economista, que defendeu mesmo que a informação veiculada pelo canal internacional deve ser “filtrada” e “trabalhada” para passar a mensagem de promoção do país. Um tratamento da informação que, acrescentou, “não deve ser questionado”. “A bem da Nação”, rematou.

Estas declarações do fuinha Duque cheiram tanto ao passado nosso conhecido que tresandam. Segundo as suas propostas, o governo fará as notícias para o “exterior” e para o “interior” defende que os portugueses tenham a informação mínima. Tudo nos termos de Salazar – “A bem da Nação”.

Ao pé desta gentinha Paulo Portas é um perigoso esquerdista que até já disse que não quer ter nada a ver com a RTP Internacional.
Isto não é imbecilidade como já vi escrito; é um bando protofascista de cowboys a dar caça à democracia.

Cairão, tenho a certeza. E cairão por dentro porque este não é o PSD de Cavaco, Ferreira Leite, Sá Carneiro e muitos outros que nele votaram toda a vida.
Quanto aos estragos que farão pelo caminho, não sei se serão todos reparáveis.

16 de novembro de 2011

Virão um dia, ou não

“Amá-los (os filhos), disse, não era apenas um deleite, era uma lição sobre vulnerabilidade.”
Ian McEwan,  A Criança no Tempo

Sabemos que, neste início de década do século xxi, há muitos milhares de pessoas a sofrer em Portugal.
Porque perderam o emprego, porque perderam a casa, porque o salário não chega para as despesas ou porque nem sequer chega para alimentar a família. Essa dor passa todos os dias nos telejornais, sempre em jeito de punição para quem ainda lá não chegou, com forte apelo à lágrima ou à caridade cristã. Como se houvesse destino e esse fosse o nosso.

Há, porém, uma enorme dor, sempre bem escondida, e de que ninguém quer falar – a dos pais que vêem os seus filhos emigrar.
Meu pai costumava dizer que a vida dum menino é feita de “tomaras”: tomara que ande, tomara que vá para a escola, tomara que entre na universidade, tomara que seja independente, tomara que case, tomara que me dê netos.

Na década de 1960 a emigração partia das aldeias, com “malas de cartão”, levando na bagagem “uma mão cheia de nada e outra de coisa nenhuma”
Hoje, sai das cidades, de mochila às costas e trolley na mão, levando na bagagem um curso superior. E, mais uma vez, porque é preciso.

Filhos de pais dedicados e presentes que tudo fizeram para que tivessem a formação que dantes assegurava uma vida melhor, (e também de um país inteiro que pagou os seus estudos), partem em bandos para criar riqueza algures, deixando para trás, e sós, uns pais para quem, subitamente, se acabou o “tomara”.

Estes pertencem a uma geração que fez pinos e espargatas para que os seus filhos crescessem harmoniosamente e com pais, e esperavam morrer com filhos. Entretanto, haviam de viver tendo por perto jovens e belas criaturas a quem tinham dado o melhor de si, e em quem se poderiam rever; a velhice chegaria mais devagar com a sua presença, e ainda haveria tempo de gozar a felicidade de ver um neto a crescer.

Não foi apenas mais um sonho roubado, foi o mais simples e belo dos sonhos que lhes foi brutalmente arrancado. E a dor provocada é tão grande, tão muda, mas vivida com tanta coragem, que o desamparo quase nem se nota. Alguns deitam sal na ferida, acrescentando culpa e falhanço pessoal.
Os dias transformam-se, assim, numa sequência sem nexo; termos como alegria ou objectivos saem do vocabulário quotidiano, e o futuro parece já não existir.
Não foram eles que falharam, foi o país inteiro, como bem sabemos.

Sabemos também que os filhos não são nossos, são do mundo, mas todos gostamos de os ter perto. Hoje, milhares de pais da minha geração vivem o seu sonho estilhaçado em completo silêncio.
São corajosos anónimos deste país triste com quem me sinto solidária.

15 de novembro de 2011

Há eleições à vista?

Primeiro foi o Álvaro a anunciar o fim da crise em 2012, agora vem o Cavaco dizer que em 2013 já estaremos competitivos e a crescer.
Não sei se há eleições em breve e eu não dei por isso, se eles acham que somos todos totós ou se andam a tomar coisas esquisitas.

Humor nosso de cada dia

Este país é muito divertido. Nem sei porque é que o pessoal anda tão sorumbático se todos os dias temos um novo sketch humorístico.
Vejamos esta notícia do Público de ontem.

 A Redes Energéticas Nacionais (REN) activou um seguro que está a pagar a defesa de um antigo e de três actuais quadros que estão a ser julgados no processo Face Oculta, casos do ex-presidente da empresa José Penedos e de três funcionários que se mantêm em funções, após terem sido acusados e pronunciados por corrupção.

O mais divertido disto é que a REN é assistente no processo, logo, está do lado da acusação; contudo, como tem um seguro para todos os administradores e responsáveis pelas áreas operacionais da empresa, cobrindo o risco da existência de processos judiciais decorrentes do exercício das suas funções, accionou-o para pagar a… defesa.

Será que a hipotética corrupção é um risco decorrente do exercício de funções? Parece que, para a REN, sim. E para a companhia de seguros, também.

Diz ainda o artigo que a REN “não esconde, contudo, que, se os quatro arguidos forem condenados em tribunal, a companhia de seguros poderá pedir a restituição das verbas pagas.”

Vou tentar adivinhar quem é que, nesse caso, vai alombar com o pagamento.
Mas é tudo legal. Estranho, hilariante, mas legalíssimo.

14 de novembro de 2011

Sangue do Meu Sangue

Nem sei há quantos anos não via um filme português, mas sei que já lá vão muitos. Falta de oportunidade e também de vontade estão na raiz da ausência, coisa que, presumo, acontece com a maioria silenciosa dos portugueses que também lá não põe os pés.

Terá sido esta febre do “compre português”? terá sido a catadupa de prémios? terão sido as críticas laudatórias? Talvez tudo isso junto, e lá fui eu ver o filme.

Posso dizer, sem remorsos, que o filme é bom e eu gostei, mas chamar-lhe obra-prima parece-me tão exagerado como o moderno costume de aplaudir tudo e mais alguma coisa de pé. Ou as primas andam pela rua da amargura, ou as cadeiras são pouco cómodas, ou sentido crítico foi deixado em casa em nome do bem parecer e da paz social.

João Canijo, neste seu filme, consegue meter-nos mesmo no Bairro Padre Cruz e num Portugal que está já ali ao virar da esquina, esquina essa que, preferencialmente, não dobramos. É, no essencial, uma história sobre a força das mulheres na protecção dos mais novos, e a força do seu amor incondicional por eles. Afinal, sobre o melhor de nós – a capacidade de tomarmos conta uns dos outros, pelo menos dentro da família.

O ambiente quase claustrofóbico e sem privacidade que Canijo nos quer transmitir foi captado com grande sucesso, para o qual muito contribui o persistente som dos vizinhos e das televisões sempre ligadas.

Claro que se dispensava o tema do incesto (demasiado fácil) como se dispensavam algumas criativas opções na realização; umas são boas e outras, na minha modesta opinião, completamente falhadas.

A história é servida por muito boas prestações da maioria dos actores, exceptuando aquele cabotino que faz de dr. Alberto cujo nome desconheço.
Resumindo, vale a pena ir ver o filme. Compre português.

11 de novembro de 2011

In memoriam

Estava o século XIX a chegar ao fim quando ele nasceu numa aldeia perdia no meio do Alentejo.
Filho de pobre tinha o destino traçado – trabalho rural, a mando dos senhores da terra, mas só quando o havia; invernos de fome, verões escaldantes à soalheira no meio da seara tornada inferno.

Jovem, levaram-no para a Guerra, a 1ª das grandes, e sempre o recordo sorrindo com sarcasmo quando os noticiários, assinalando a efeméride, glorificavam o comportamento dos portugueses na batalha La Lys. De lá trouxe, para sempre, uns olhos vermelhos e lacrimejantes, e dela lhe ficou o nome que lhe deram na aldeia – João Soldado.

Foi na trincheira que aprendeu a ler, trocando a sua ração de cigarros pela aprendizagem da leitura. Não se pode dizer que lia, mas soletrava com tanto afinco que conseguia dar conta do seu jornal, o Século, de fio a pavio.
E assinava.

A guerra era assunto de que nunca ninguém o ouviu falar, e continuava a não falar mesmo quando, certa vez, um filho exaltado com a ditadura vociferou – isto só lá vai com uma guerra. A resposta veio calma mas firme e de olhos nos olhos – cala-te rapaz que não sabes do que falas. E o”rapaz” calou-se.

Num momento em que a miséria se agudizou, tentou ainda o contrabando, mas só lá foi uma vez; dizia, rindo, que se ia borrando todo de medo.

Um invulgar e apurado sentido de humor permitia-lhe rir, com um riso genuíno e contagiante, de tudo o que de caricato acontecia na vida, sobretudo se lhe acontecesse a ele.

O caminho era, então, só um - partir para a cidade; aí chegado, num rasgo de rural quase analfabeto mas inteligente, pôs os filhos a estudar e dedicou-se a mil e uma actividades, o possível, o que aparecia, o que tentava.

Dia sim, dia não, sobressaltava a família, porque, com ou sem razão, só ele enxergava a oportunidade de vender para comprar.

A sua companheira duma vida, lá ia pondo no papel o dedo com que assinava, frequentemente receosa dos devaneios do seu homem. Mas não era por submissão ao macho que o fazia. Era porque sabia que os olhos dele, vermelhos e lacrimejantes, viam mais longe e mais nítido que os dela, aqueles que a todos encantavam com a cor de céu alentejano em dia de sol e frio.

Homem que jogou sempre limpo e esqueceu as dívidas dos que estavam em dificuldades maiores que as suas, viveu feliz, mas morreu pobre. Não tão pobre como nasceu, mas pobre.

Eu disse que morreu? Bom, acho que não completamente. Pois se ainda pr’aqui estou a falar do meu avô João…

Nota final: em 11 de Novembro de 1918 (faz hoje 93 anos) terminou a 1ª Grande Guerra.






10 de novembro de 2011

E ninguém leva o senhor ao médico?



Apenas patético, ou talvez também a tristeza de ver a iconografia da nossa juventude ser comida pelo bicho.





Para mim, a manifestação dos militares deve ser, ultrapassados os limites, fazer uma operação militar e derrubar o Governo", defendeu Otelo, em entrevista à Agência Lusa, num comentário à "manifestação da família militar", no sábado, em Lisboa.
"Não gosto de militares fardados a manifestarem-se na rua. Os militares têm um poder e uma força e não é em manifestações colectivas que devem pedir e exigir coisas", defendeu.
Mas Otelo Saraiva de Carvalho diz compreender as suas razões e considera que as mesmas podem conduzir a "um novo 25 de Abril".
"Os militares têm a tendência para estabelecer um determinado limite à actuação da classe política". Esse limite, considerou, foi ultrapassado em 1974 e culminou com a "revolução dos cravos".
Hoje, Portugal está "a atingir o limite", disse, corroborando o que há seis meses dissera à Lusa: "Se soubesse o que sei hoje não teria possivelmente feito o 25 de Abril".

Notícia aqui

9 de novembro de 2011

Obrigatório ler

Como um grego ensina a um alemão a História das dívidas no blogue Aventar

Bilhar às Nove e Meia

O livro Bilhar às Nove e Meia, de Heinrich Böll (Colónia 1917-1985, Prémio Nobel da Literatura em 1972), não é um livro simples nem de fácil leitura, mas merece todo o esforço que é pedido ao leitor.

Denso e polifónico, narra a história de três gerações da família Faehmel, antes, durante e depois da guerra. Ninguém ali é completamente bom ou mau, culpado ou inocente, santo ou pecador, mas todos são desiludidos.

Todos contam a sua história desses anos em que a família foi feita em frangalhos, todos tentam fazer as pazes consigo mesmos, com o país e com a família em si. Também para todos a guerra trouxe um mundo novo em que cada um procura o seu novo lugar.

Dotado duma escrita moderna, em que todos falam ao mesmo tempo e em vários tempos, o livro não desilude - pelo contrário - quem chegar ao fim, mas nunca facilita a caminhada do leitor.

8 de novembro de 2011

Um bom rapaz

O Tó Zé é o tipo de rapaz que qualquer mãe portuguesa gostaria de ter como genro. Sempre bem-apessoado, composto, delicado, atencioso, ponderado, penteado, engravatado, desamarrotado, sorriso branco e puro.

Parece de plástico, mas não é, posso jurar eu, que já o vi; e nem é preciso apalpar, basta ver para se perceber que temos homem.

Habituada que estou à delicadeza do Tó Zé, fiquei estupefacta quando li que ele disse - os socialistas vão protagonizar uma "abstenção violenta, mas construtiva" ao Orçamento.

Eu, confesso, não percebi, mas violência, Tó Zé, isso é que não. Não desiluda as mães deste país que, coitadas, já andam tão desiludida e preocupadas e raladas e fartas de gentinha que só sabe fazer greves, como hoje, por exemplo, em que toda a gente tirou o Corsa da garagem e isto está que não se pode. Acalme-se, Tó Zé, por favor. E nada de violências, rico.

7 de novembro de 2011

Começo a ter medo de abrir o correio

Transcrevo parte do que o deputado António Filipe, do PCP, escreveu no seu mural do Facebook

Já vi que há quem use o meu mural para me insultar pelo facto de, por ser vice-presidente da Assembleia da República, dispor de uma viatura da marca BMW para deslocações em serviço. Referir-me-ei a esse assunto por uma vez e não voltarei a ele:

1.   Como vice-presidente da AR disponho de uma viatura oficial para deslocações nessa qualidade. Não me envergonho disso. Em deslocações oficiais, não vejo por que razão haveria de usar o meu carro e pagar a gasolina do meu bolso.

2.   Não levo o carro para casa e não o utilizo em deslocações particulares. É um BMW? Azar. Se fosse um míni, seria um míni. O carro já existia quando assumi funções e não mandei comprar nenhum. Se um dia se decidir que os vice-presidentes não devem dispor de carro oficial, tudo bem. Não me caem os parentes na lama.


António Filipe tem razão, e é assustador o número de e-mails que recebemos insultando todos os políticos, usando da demagogia mais rasteira, metendo tudo no mesmo saco, sem nenhum sentido crítico, sem sombra de pensamento, sequer.

A classe política tem-se posto a jeito, quer com o seu trabalho ou a falta dele, quer com as mordomias que bastas vezes a si própria atribuiu, mas alguma dignidade na representação do Estado também é desejável.
Para isso é necessário um BMW? Não, mas se existe não se deita fora. Da próxima vez é que se terá de comprar qualquer coisita mais em conta, mais conforme o país que somos, não é verdade?

É certo que todos estamos zangados com os políticos, mas fomos nós que os elegemos, eles são o nosso espelho enquanto sociedade, e na política, como em todas as profissões, há de tudo – honestos e desonestos, trabalhadores e preguiçoso, gente séria e gente sem escrúpulos.
Porém, não é raro que pessoas que deviam saber isto e ser socialmente informadas, reenviem, acefalamente, e-mails insultuosos, primários e sem qualquer laivo de discernimento.

Esta ira irracional contra tudo e contra todos, devia fazer soar rapidamente as campainhas na cabeça dos que prezam a democracia e sabem que esta não se exerce sem políticos. Por aqui, ao que parece, está tudo a perder a tramontana. E isso é preocupante, porque é perigoso.

5 de novembro de 2011

Sábado

Hoje, procurei afincadamente uma notícia mesmo boa para pôr aqui.
Não encontrei nenhuma.
Conformei-me com a capa da revista Única do Expresso, que aqui fica.


UTILITAS INTERRUPTA

O homem sonha, a obra nasce. Às vezes não serve para nada, não se completa ou, completando-se, ninguém a quer – seja desde o seu início ou com o decorrer do tempo.
UTILITAS INTERRUPTA é o título da exposição que se mostra na Mãe d’Água e no museu Vieira da Silva, no âmbito da Experimenta Design 2011.
Projectos megalómanos, espalhados um pouco por todo o mundo, uns falharam à nascença, outros foram levados até ao fim mas ficaram useless.
Impressionantes na sua grande maioria, por vezes  chegam a ser cómicos de tão disparatados, como é o caso dos 700 000 bunkers mandados construir por Enver Hoxha na Albânia dos anos 80 ( 1 para cada 4 habitantes) e que se destinavam à protecção dos albaneses em caso de invasão estrangeira.
Uma exposição para o grande público em dois locais de Lisboa onde é sempre agradável voltar.
Preço: 3 euros

4 de novembro de 2011

Inveja

Estamos sempre a ouvir dizer que a inveja é um defeito nacional. Não discordo, só não tenho a certeza se será uma especialidade lusa ou se deverá antes caber naquela vasta gama de “coisas” que dá pelo nome de “Património da Humanidade”.

Sem dúvida que sempre achamos que “o ovo da galinha da vizinha é melhor que o da minha”; além disso, desdenhar de quem se evidencia por boas razões, achar que “lá fora” está o melhor dos mundos, não atribuir mérito ao compatriota antes de ele ganhar reconhecimento “lá fora”, puxar para baixo quem tenta subir, são desportos muito apreciados “cá dentro”

Não sei se “lá fora” não se passará exactamente o mesmo, ainda que sujeito a cambiantes geográficas ou climatéricas, mas tenho a certeza de que, se formos perguntar aos portugueses, todos nos dirão que não são invejosos (ou racistas).

Eu cá sou portuguesa, logo, não sou invejosa (nem racista) e juro que não é a inveja que me move quando pasmo com os ordenados que pago a fulanos que acho medianos a atirar para o mauzinho e que, me parece, não valem tanto. Ou, se calhar, até valem, porque isto de fazer figura de tonto durante horas deve ser muito cansativo.

Eis os exemplos de vencimentos de fazer inveja, que causaram o meu mais recente pasmo:

Fátima Campos Ferreira (10 mil euros mensais), Catarina Furtado (30 mil euros), Fernando Mendes (20 mil euros), José Carlos Malato (20 mil euros), Maria Elisa (7 mil euros), Jorge Gabriel (18 mil euros), Sónia Araújo (14 mil euros), João Baião (15 mil euros), Tânia Ribas de Oliveira (10 mil euros) ou Sílvia Alberto (15 mil euros).

Bom, fica-nos o conforto (sem inveja) de saber que, ao menos eles, certamente não vivem acima das suas possibilidades.

3 de novembro de 2011

Apesar de ser sábado

Impurezas e excipientes

Na semana passada, o bastonário da Ordem dos Médicos insurgiu-se contra uma proposta de lei do Governo de “prescrição por Denominação Comum Internacional”, a qual permitirá ao farmacêutico trocar um genérico por outro com o mesmo princípio activo.

Argumenta o doutor que "os genéricos podem não ser bioequivalentes entre si: têm diferentes métodos de fabrico, têm diferentes excipientes [substâncias sem actividade terapêutica], têm diferentes impurezas e por isso muitos doentes sentem o efeito dessas modificações".

Ora, eu acredito que cada médico que prescreve um genérico sabe exactamente quais os excipientes e impurezas que cada um dos laboratórios tem no seu comprimido ou xarope. Para isso, perde noites de sono analisando cada produto, por laboratório, para depois receitar especificamente este e não aquele ao senhor António e aquele e não este à D. Joaquina. Deve ser o que se passou, por exemplo, com aquele médico algarvio que conseguiu receber do Estado, em 2009, 744 mil euros – queimou as pestanas a estudar genéricos, suas impurezas e excipientes, em muitas, muitas horas extraordinárias.

Depois da luta travada contra os próprios genéricos, esta aguerrida defesa da escolha irrevogável do médico no que toca à marca do genérico, fez-me lembrar, não sei porquê, uma situação vivida há mais de 20 anos.

Chegada a Primavera, o alergologista prescrevia a receita para o ano. Enquanto escrevia, ia dizendo: é outro, mas é exactamente igual. Eu perguntava para quê, então, mudar?, ao que ele respondia: não quero que digam na cidade que estou "feito" com um laboratório.
Homem previdente, aquele.





2 de novembro de 2011

Ir e vir

Quanto fechei a porta pensei: que bom, uns dias fora, ainda que poucos, sem Merkel, Sarkozy, Trichet, Passos e Gaspar. Enfim, uns dias sem Europa nem Portugal.
Quando abri a porta, pensei: que bom é viver na Europa, mesmo quando ela se vê grega.

Podemos e devemos reclamar com o presente, mas o que se conquistou e a nossa forma de vida são bens inestimáveis pelos quais valerá sempre a pena lutar.
Sair, ajuda a pôr em perspectiva as brigas que por aqui vamos cobrando, o nosso mal-estar mas também o nosso bem-estar. A Europa continua a ser a melhor parte do mundo para se viver, e um porto de abrigo que milhares procuram pondo em risco a própria vida
.
A Europa é uma invenção em permanente construção e é fascinante viver num tempo que nos permite ver como ela anda para a frente ou às arrecuas, cai, tropeça, levanta-se, nunca corre mas continua a andar.
Toda a construção pode ruir, é certo, sobretudo se é pioneira e inovadora como esta. Com todos os seus defeitos, o menor dos quais não será a pouca democracia usada nas decisões, continuo a pensar que vale a pena continuar a pôr tijolos e argamassa numa construção que se quer sólida mas se exige harmoniosa.

Que pensarão os gregos?
Se a Grécia foi o nosso berço no passado, eis que agora volta a ter em mãos muito do nosso futuro comum.

27 de outubro de 2011

Pedro Morais no Chiado 8


Pedro Morais
MA - A dança dos pirilampos
EXPOSIÇÃO

De 31 de Outubro a 30 de Dezembro de 2011 | Chiado 8 (Lisboa)

Curadoria Bruno Marchand

Fruto de uma muito pontual presença nos circuitos artísticos, o trabalho de Pedro Morais (Lisboa, 1944) permanece, em grande parte, desconhecido do público português. Efectivamente, entre 1982 e a actualidade, a sua obra foi apresentada em pouco mais que uma dezena de ocasiões, algumas das quais em espaços ditos alternativos ou em formatos menos evidentes, como é o caso do livro. Longe de espelhar uma eventual relutância do artista em participar nos referidos circuitos, este facto prende-se sobretudo com uma singular ética produtiva: se, por um lado, Pedro Morais entende que o gesto criativo depende de uma resposta empática ao lugar que o acolhe, por outro, não abdica de salvaguardar essa mesma resposta face aos ritmos, às exigências e aos constrangimentos que pautam habitualmente os processos expositivos.
Não é de estranhar, portanto, que as noções de tempo e de acontecimento sejam transversais ao seu trabalho. Dando continuidade a um núcleo recente de obras, o projecto que Pedro Morais traz ao Chiado 8 assume os contornos de uma viagem. Estabelecendo o caminho como parte fundamental e significante deste encontro, o artista propõe como destino as experiências de um corpo instalado no espaço e dos múltiplos estímulos que dele emanam. Entre o que vê e o que ouve, entre o que sente e o que o interpela, poderá o visitante tomar parte na construção de um amplo gesto sinestésico, em cujo lastro talvez se revele, discreta e paradoxalmente, a mais clara expressão da invisibilidade.
Inauguração: 28 de Outubro, 22h

Retirado daqui

26 de outubro de 2011

Medo

O medo é, na sociedade portuguesa, ancestral, fundo e difuso.
Inquisição e ditadura talvez no-lo tenham instilado nos genes e, se nos primeiros tempos de liberdade ele pareceu dissipar-se um pouco, aí está agora de novo tomando conta do que nunca deixou de lhe pertencer.
Não digas, não faças, não vás, fizeram parte da educação de sucessivas gerações e produziram uma sociedade cagarola que, encolhida no seu canto, tanto se atemoriza com os grandes males que já chegaram ou estão para chegar, como com os emails em que nos avisam das drogas que nos darão na rua para nos tirarem órgãos, dos malefícios da água engarrafada em plástico, e do perigo de explosão do isqueiro BIC dentro do bolso.
Estes emails chegam sempre com grandes parangonas – ATENÇÃO! PERIGO! DIVULGUEM!
O medo paralisa, atrofia, cristaliza e serve muitos propósitos políticos.
Em Portugal, hoje, somos todos precários; tudo o que tínhamos como garantido, sumiu – trabalho, reforma, casa, horário de trabalho, cuidados de saúde, escola; até o dinheiro no banco deixa os portugueses amedrontados com a hipótese de o banco falir, e esta insegurança acrescenta novos medos aos velhos medos.
Eles aí estão, cobrindo tudo com o seu manto diáfano que, infelizmente, não permite qualquer fantasia.

25 de outubro de 2011

Qualquer dia ainda me cai o queixo de tanto fazer AH!

Por uma vez sou tentada a estar de acordo com o Sindicato dos Magistrados do Ministério Público. Então não é que o deputado dos telemóveis “levados”, Ricardo Rodrigues do PS, foi escolhido, pela Assembleia da República, para o Conselho Geral do Centro de Estudos Judiciários?
Os políticos ainda não perceberam que até os mansos se cansam de estar sempre de boca aberta.
Notícia aqui

A mentira mil vezes repetida

Os portugueses endividaram-se.
Vivemos acima das nossas possibilidades.
Tantas vezes se repete a mentira que quase passa a ser verdade.
Alguém, em consciência, acredita que em algum momento Portugal deixou de ser um país pobre?
É só tirar os olhos de Lisboa (ou apenas duma parte dela).




24 de outubro de 2011

Homessa! Também vou escrever uma carta aos filhos.

Queridos filhos
Primeiro foi o Miguel Sousa Tavares e depois o José Manuel Fernandes.
Parece que agora está na moda escrever cartas aos filhos nos jornais. Como sabem, modismos é comigo mesma, e pensei - homessa, filhos meus não são menos que filhos deles. Por isso aqui estou com a cartinha a que tendes direito.
Confesso-vos que li o MST nas quanto ao JMF só dei uma olhadela - temo distúrbios gastrointestinais que se podem seguir à leitura.

Leitora medrosa, portanto, ficaram-me duas afirmações lapidares do JMF:
1-“Neste país não há profissões: há posições”
Depois de muito matutar conclui o mesmo que sempre achei: vocês dois, meus filhos, têm profissões; quem tem, e teve, e se calhar terá, posições, é JMF.
2- “A muitos da minha geração só lhes resta saírem da frente”.
De acordo, desde que ele seja o primeiro a sair-me da frente.
Contra as terríveis análises que fazem sobre esta porcaria de país, queridos filhos, nada posso. Eles são profissionais da coisa, muitas vezes têm razão embora se assemelhem bastante àqueles realejos antigos das feiras que tocavam sempre a mesma melodia. Contudo, posso contar-vos outras coisas.

Este país já passou por muitas crises. Vocês dois nasceram bem dentro delas. Lembro-me de acordar todos os dias sem saber se haveria leite ou batatas, visto que o bacalhau, só em sonhos; lembro-me de todos os dias o leite e as batatas serem mais caros, à custa duma inflação de mais de 30%. Lembro-me de “herdar" tudo o que vocês precisavam porque os amigos iam passando berços e carrinhos para outros amigos. Lembro-me dos ordenados em atraso e do subsídio de Natal que não veio.

Por incrível que pareça, nessa como noutras alturas, não desaparecemos como país. Correremos agora esse risco? Bom, o douto doutor António Barreto veio há dias profetizar que, a prazo, Portugal pode desaparece; mas eu também posso profetizar que, a prazo, estaremos todos mortos.

É certo que também eu sinto” uma força a crescer nos dedos e uma raiva a nascer nos dentes”, mas tenho a certeza que vamos sair desta, a bem ou a mal, com ou sem Europa.
No que toca à Europa, sabem o que penso – ou nos salvamos todos, ou não se salva ninguém, e por isso não contem comigo para vos incitar à emigração (o Miguel até escreveu logo a carta ao filho ausente, como se o filho presente precisasse de carta para alguma coisa); sei que para muitos não há alternativa, mas também me parece que, para muitos outros de barriga cheia, isto passou a ser uma pocilga malcheirosa onde não é chique estacionar, (e quantas vezes não foram os seus paizinhos a transformar isto em pocilga?).

É tempo de aguentar, lutando pelos direitos e cumprindo com os deveres, como alentejanos de boa cepa que são, e a quem ensinei que não se cospe no prato.
Ah, só mais uma coisa: não me mandem sair da frente, porque eu não saio.
Sem açúcar, mas com muito afecto
Vossa mãe.




21 de outubro de 2011

A rua desfila por "naipes"

Três dias depois da manifestação de 15 de Outubro, o PCP realizou também a sua “passeata do contra”, desta feita descendo o Chiado, tal como nas festas de fim de campanha eleitoral.

O PCP não gosta de misturas, nunca gostou, e se algo lhe parece ideologicamente não puro, dá um passo atrás e exorciza – arreda Satanás!
Por isso nunca dá o seu apoio ao que quer que seja que nasça fora da sua sede ou da da CGTP.
Com esta incapacidade de unir as esquerdas em Portugal, os nossos “revolucionários” instalaram-se a conversar no Facebook e, para os simples mortais, o inimigo transformou-se num vago “eles” – o governo, a troika, o patrão, o capital financeiro, as agências de rating, a Europa, em suma, o mundo.
Temos então a rua, num momento destes, a desfilar por “naipes”, sem estratégia, sem coesão, sem objectivo claro e palpável (ser só do contra não basta), o que nos faz parecer um bando de miúdos a brincar às guerras.
Se nada mudar, “eles” vão olhar e sorrir, passar-nos-ão a mãozinha pela cabeça com bonomia e pensarão – lindos meninos, é assim mesmo que os queremos.

20 de outubro de 2011

E assim foi

…Sempre defendi que Kadhafi não ia sair como os outros, antes iria matar os que fossem necessários para manter o poder; também sempre me pareceu que, por isso mesmo, tem muito mais possibilidades de morrer na rua, tipo Ceausescu.

Excerto do post publicado neste blogue em 25 de Fevereiro 2011

Meia hora (de cada vez)

No dia em que se conheceu a obrigatoriedade de trabalhar mais meia hora por dia, o jovem quadro saiu da empresa, como é muito frequente, aliás, à 1 hora da manhã. No dia seguinte, dirigiu-se à secção de pessoal e disse com ironia:
  - Ontem saí à 1 hora. Isto quer dizer que, a partir de agora, tenho que sair à 1h30?
Há muitos anos que, para uma boa parte dos portugueses, não há hora de saída. O trabalho é muito e o pessoal é pouco; por isso, sai-se quando se pode ou não se aguenta mais.
Para os que ainda têm hora de saída, esta medida da meia hora diária a mais tem exactamente o mesmo objectivo – alcançar maior lucro com menos custos de trabalho, mas à custa do esforço e da vida pessoal do trabalhador.
Há 50 anos, nos campos alentejanos trabalhava-se de sol-a-sol; contra os latifundiários, contra a ditadura e pelo direito às 8 horas de trabalho, os rurais alentejanos travaram uma heróica luta. E ganharam.
Teremos que recomeçar tudo de novo?

19 de outubro de 2011

"Uma raiva a nascer nos dentes"

Na semana passada, coloquei aqui um post sobre a miserável crónica de Henrique Monteiro no Expresso. Como o mesmo jornal é capaz do melhor e do pior, é justo, hoje, aplaudir o comentário de Nicolau Santos ao OE, publicado no sábado passado. Um comentário que vem das entranhas dum homem e jornalista que não é ainda um cadáver adiado em nenhuma das duas circunstâncias. Como tenho jornal mas não tenho link, roubei-o à descarada do blogue da Joana Lopes que teve o trabalho. Ela não se importará, certamente.



Sr. primeiro-ministro, depois das medidas que anunciou sinto uma força a crescer-me nos dedos e uma raiva a nascer-me nos dentes, como diria o Sérgio Godinho. V.Exa. dirá que está a fazer o que é preciso. Eu direi que V.Exa. faz o que disse que não faria, faz mais do que deveria e faz sempre contra os mesmos. V.Exa. disse que era um disparate a ideia de cativar o subsídio de Natal. Quando o fez por metade disse que iria vigorar apenas em 2011. Agora cativa a 100% os subsídios de férias e de Natal, como o fará até 2013. Lançou o imposto de solidariedade. Nada disto está no acordo com a troika. A lista de malfeitorias contra os trabalhadores por conta de outrem é extensa, mas V.Exa. diz que as medidas são suas, mas o défice não. É verdade que o défice não é seu, embora já leve quatro meses de manifesta dificuldade em o controlar. Mas as medidas são suas e do seu ministro das Finanças, um holograma do sr. Otmar Issing, que o incita a lançar uma terrível punição sobre este povo ignaro e gastador, obrigando-o a sorver até à última gota a cicuta que o há-de conduzir à redenção.

Não há alternativa? Há sempre alternativa mesmo com uma pistola encostada à cabeça. E o que eu esperava do meu primeiro-ministro é que ele estivesse, de forma incondicional, ao lado do povo que o elegeu e não dos credores que nos querem extrair até à última gota de sangue. O que eu esperava do meu primeiro-ministro é que ele estivesse a lutar ferozmente nas instâncias internacionais para minimizar os sacrifícios que teremos inevitavelmente de suportar. O que eu esperava do meu primeiro-ministro é que ele explicasse aos Césares que no conforto dos seus gabinetes decretam o sacrifício de povos centenários que Portugal cumprirá integralmente os seus compromissos — mas que precisa de mais tempo, melhores condições e mais algum dinheiro.

Mas V.Exa. e o seu ministro das Finanças comportam-se como diligentes diretores-gerais da troika; não têm a menor noção de como estão a destruir a delicada teia de relações que sustenta a nossa coesão social; não se preocupam com a emigração de milhares de quadros e estudantes altamente qualificados; e acreditam cegamente que a receita que tão mal está a provar na Grécia terá excelentes resultados por aqui. Não terá. Milhares de pessoas serão lançadas no desemprego e no desespero, o consumo recuará aos anos 70, o rendimento cairá 40%, o investimento vai evaporar-se e dentro de dois anos dir-nos-ão que não atingimos os resultados porque não aplicámos a receita na íntegra.

Senhor primeiro-ministro, talvez ainda possa arrepiar caminho. Até lá, sinto uma força a crescer-me nos dedos e uma raiva a nascer-me nos dentes.

Nicolau Santos, Expresso 15/10/2011

18 de outubro de 2011

Como eu vi o 15 de Outubro

Já toda a gente opinou sobre a manifestação de sábado passado. Estou atrasada, é certo, mas também lá estive e devo dizer que cheguei a casa triste, frustrada, muito longe do sentimento de sã plenitude que nos costuma abraçar depois de sermos apenas mais um na mole humana que afirma uma mesma ideia ou convicção.
Éramos muito? Sim, mas também éramos poucos, dada a gravidade do momento.
Quem ali estava era uma classe média-média, entre os 25 e os 60 anos, com um mínimo de formação política, que segue os acontecimentos, se preocupa, busca alternativas a esta política, escuta e pensa.
Estes, como já sabíamos, são poucos em Portugal, logo, éramos poucos.
Os outros estão fartos, há dez anos que ouvem falar em crise, já não se aguenta, e não vão crer antes de ver.
Quanto às guerrinhas partidárias que se esboçaram entretanto, nem comento porque apenas merecem todo o meu desprezo.
Daqui por seis meses, a gente conta outra vez.

14 de outubro de 2011

Relembrar o passado, desafiar o futuro

O futuro próximo vai exigir muito das pernas dos inconformistas.
Contudo, no sofá, podemos agora ver duas excelentes séries que começaram a ser transmitidas na Fox Life na 2ª feira, uma com 5 e outra com 7 episódios, a saber:
Downton Abbey às 21h25
Mildred Pierce às 22h30 (ou será ao contrário?, não interessa, vem uma a seguir à outra).
Vê-las, ajuda a relembrar o quanto conquistámos no século XX e o quanto nos arriscamos a perder de novo.
E sem pedidos suplementares às pernas.

13 de outubro de 2011

Conversa do casal Eixo ao almoço

  - O que há para o almoço, chéri?
 - Chucrute, liebe.
 - Que barulho é este lá fora, chéri?
 - Não te preocupes, liebe, são apenas os piquenos mal-educados da vizinhança.  
 - Mas acho que há fogo na cozinha, chéri.
 - Também me cheira a esturro, liebe.
 - Chamamos os bombeiros, chéri?
 - Podemos esperar, liebe.
 - Adiamos, então, chéri?
 - Adiamos. Vais ver que até o fogo espera por nós, liebe.
 - Vamos tirar uma fotografia para verem que almoçámos juntos, chéri?
 - Vamos, liebe, os miúdos bem-educados adoram.

12 de outubro de 2011

Podia lá ser! Sem playoff?

Podem a troika, o fisco, a banca, a EDP, o passe não social, o dentista ou o talhante levarem-nos tudo, mas o que ninguém nos vai tirar são os jogos do playoff da selecção portuguesa.
Não poderíamos passar sem aqueles jogos em que uma trémula alma lusa aguenta a taquicardia, reza desde o primeiro minuto, canta o hino com voz embargada, rói as unhas, faz promessas ao santo de sua devoção, emudece no desastre e explode de orgulho pátrio na hora do golo salvador.
Isso, ninguém nos tira; nem mortos.
Playoff, aí vamos nós com os nossos santinhos, cachecóis, bandeiras e muita, muita "fezada".

11 de outubro de 2011

Sem esforço e sem trabalho, disse ele

Na sua crónica da última página do Expresso de sábado passado, Henrique Monteiro discorre sobre “O País que já foi rico”.
Depois de escrever sobre o grande investimento que foi feito em equipamentos nas últimas década, e do dinheiro que não há hoje para os manter (tudo verdadeiro), lá mais para o fim moraliza:
“Quisemos viver bem mas nunca em função do nosso esforço e trabalho”.
E eu interrogo-me: estará falando de quem? da grande massa de portugueses que ganha, em média, 700 euros? dos patrões? dos governantes? ou de si próprio?
Como se limita a largar a sentença moral e vai embora, fiquei a pensar
como seria realmente bom se o cronista despendesse algum esforço e trabalho ao escrever as suas crónicas.
É que, para escrever banalidades e generalidades que não primam pelo rigor, já estou cá eu e mais as Selecções do Reader’s Digest.

10 de outubro de 2011

Uma mulher no seu labirinto

Declaração primeira: sou fascinada por gadgets.
Declaração segunda: não tenho nenhum.
Declaração terceira: sou ambivalente em relação a Steve Jobs.
Pela blogosfera, Facebook e jornais, tenho lido belas e tocantes homenagens a Jobs após a sua morte. Reconheço o seu génio criativo, fascino-me com os seus iqualquercoisa (gosto de todos) mas não me consigo desligar do outro lado de ver.
Já aqui escrevi sobre uma parte do outro lado; contudo, o pior mesmo, é que eu acho que ele encarnava a essência do capitalismo nonsense em que alegremente nos enredámos.
O que esse capitalismo sabe fazer de melhor para sobreviver, é criar em nós necessidades que nem sabíamos que tínhamos; inventa constantemente, manda fabricar a custo irrisório – pagando o mínimo a quem, em desespero de causa, faz qualquer coisa para sobreviver, e vende depois a preços tentadores.
Para nosso deleite, existem batalhões de escravos, meninas de dedos fininhos mas já quase cegas por trabalharem em tudo o que é micro, lixo e mais lixo no planeta. Em boa verdade, por mais voltas que dê, continuo a achar que não precisamos da maioria dos iqualquercoisa para nada. Eles apenas nos fazem felizes.
Sem deixar de reconhecer o génio inventivo de Steve Jobs, creio que, ao contrário de muitos outros, não trouxe um extraordinário benefício para a humanidade; trouxe, maioritariamente, felicidade efémera para a parte rica do planeta onde se transformou num ícone. Será isso despiciendo? Não dirá isso tudo sobre nós?
Um dia decidirei se vou continuar eternamente às voltas no labirinto ou se opto pela velha lapalissada – as coisas são como são.
Há ainda uma terceira hipótese: se o Steve for bem sucedido no seu projecto iGod, quem sabe se eu, finalmente, não serei tocada pelos dois – Steve and God.
 

8 de outubro de 2011

Coisas boas V (eh!eh!eh!)

Sarah Palin não será candidata à presidência

A antiga governadora do Alaska, Sarah Palin, anunciou na quarta-feira que não será candidata às eleições presidenciais dos Estados Unidos, uma decisão que diz ter tomado após "muitas orações" e "estudo".


Caso para dizer, “benza-a Deus”. E devolve-se o beijo por tão iluminada decisão.

Notícia aqui

7 de outubro de 2011

Umas mentes brilhantes

A troika mandou o governo cortar 195 milhões de euros na educação mas este decidiu cortar 600 milhões.
Já não é só um bom aluno, é, verdadeiramente, “Uma Mente Brilhante”, daquelas muito esquizofrénicas mas capazes de dar uma abada a qualquer professor das reputadas escolas de negócios - FMI, BCE, FEEF ou até da suprema Escola de Chicago.
Valham-nos os santos protectores dos estudantes, (ao que sei, mas talvez mal), Santa Catarina de Alexandria e Santo Expedito.
Não sei porquê, levo mais fé no último.

6 de outubro de 2011

Querido comendador

Em Junho 2007 postei este comentário em blogue alheio. Passados quatro anos lembrei-me dele, agora que Berardo estrebucha. O que mudou? Bom, agora Berardo é 930 milhões mais pobre, só por conta do BCP, porque perdeu o nosso dinheiro (via CGD) nos jogos especulativos de que tanto gosta. As questões de princípio, essas mantêm-se. Convém ainda lembrar que a fundação que leva o seu nome, entre 2007 e 2010, foi financiada em 88% pelo Estado.


Em Maio de 2007, em Nova Iorque, a leiloeira Christie’s vendeu uma enorme tela de Mark Rothko por 53,5 milhões de euros.
Tinha sido comprada em 1960 por David Rockefeller, que na altura pagou por ela 7350 euros. Houve, portanto, um lucro descomunal em 47 anos de posse da tela.
Na mesma semana realizou-se em Portugal uma Assembleia Geral do BCP, da qual o velho Jardim Gonçalves saiu claramente derrotado.
À saída da Assembleia, as televisões mostraram um homem vestido de preto, punho erguido e ar de vitória. Era Joe Berardo.
Os jornalistas perguntaram-lhe:
- Amanhã vai comprar mais acções?
- Claro que vou, amanhã compro mais.
Não comprou. Mas as acções subiram 20% e ele acordou 50 milhões de euros mais rico.
Este português milionário, amante das artes e patriota, fez de tudo para que a sua colecção de arte ficasse em Portugal, pois ficaria destroçado se tivesse que a levar para França. Com o seu espírito de “mecenas”, conseguiu que o governo de Sócrates lhe desse, para começar, o centro de exposições do CCB para que ele nos empreste a colecção por 10 anos. Durante esses 10 anos o Estado vai pensando se quer comprar, com o dinheiro de todos nós, pela módica quantia de 316 milhões de euros (não há cá descontos), visto ser esse o valor atribuído à colecção pela leiloeira Christie’s.
Foi este o negócio conseguido pelo nosso milionário amante de arte.
O que fez Rockfeller com os seus 53,5 milhões? Doou-os para obras de caridade.
Parece que o Rockfeller é meio apalermado e tem muito a aprender sobre negócios cá com o nosso milionário/mecenas/tugo-madeirense.

Junho 2007

5 de outubro de 2011

Estranheza


33ºC em Lisboa e cheira-me a castanhas assadas.
Alguma coisa não está a bater certa.
Serei eu, as castanhas, o vendedor ou o anticiclone dos Açores?

4 de outubro de 2011

Woody está de volta

É já um lugar-comum dizer que, com Meia-Noite em Paris, Woody Allen voltou no seu melhor. Se nos últimos anos houve altos e baixos, Meia-Noite em Paris não nos desilude. Ao contrário, saímos com um sorriso de satisfação. Com um humor inteligente que não dispensa alguma cultura histórica/artística por parte do espectador, este é também um filme de amor em sentido lato – amor a uma cidade, amor aos artistas, amor à fantasia, ao nosso passado comum, amor à verdade e à descoberta das nossas razões profundas e, frequentemente, desconhecidas.
Comédia romântica, sim, mas de mestre.
E mais não digo porque anda toda a gente por aí a contar a história, estragando a “festa” a quem ainda não viu. Tão mau como dizer quem é o assassino a quem ainda vai a meio do policial.

3 de outubro de 2011

Semear um peixe

Há cerca de trinta anos, numa sala de infantário de crianças de 4/5 anos, havia um pequeno aquário com um peixe, pelo qual todos eram responsáveis. Um dia, o peixe morreu. Em assembleia infantil foi decidido que o Chico, que morava numa quinta, levaria o peixe para o enterrar.
No dia seguinte, à chegada, a educadora perguntou
- Então Chico, enterraste o peixe?
- Não, semeei-o.
Fartinha de que me enterrem o futuro, fui à procura de quem o semeasse, e encontrei – na 6ª feira passada na Gulbenkian na conferência” Economia Portuguesa: uma Economia com Futuro”, e nas ruas de Lisboa na manifestação sindical de sábado.
Não estamos todos mortos nem somos todos parvos; provavelmente, o futuro espera, não que a gente o enterre, mas que a gente o semeie como o Chico fez ao peixe.

1 de outubro de 2011

Pequeno apontamento


Esta semana, Judite Sousa vestiu-se e penteou-se de freira Opus Dei e foi conversar com o seu “Papa”.

A homilia seguiu o cânone, para tranquilidade dos fiéis.