É suposto podermos ficar descansados, não é?
Então porque é que não estou?31 de maio de 2012
Resumo
30 de maio de 2012
Um mix
Christine Lagarde está tão preocupada com as crianças do
Niger como eu o estou com as da Quinta do Lago, e a tirada demagógica pró-África
contra os gregos saiu-lhe mal.
Fico a olhar para aquilo e instala-se-me uma estranheza; aquela
conversa não é nem de macho nem de
fêmea.
Christine Lagarde, como Margaret Tatcher, Golda Meir, Indira Gandhi
ou Angela Merkel, tudo mulheres que chegaram ao topo na política, pertence a um
género híbrido – cabeça de homem em corpo de mulher (preferências sexuais não
cabem nesta observação, obviamente).
De Golda Meir, David Bem-Gurion chegou a dizer: “é o único
homem do meu gabinete”.
As referidas senhoras só chegaram onde chegaram porque os
homens as DEIXARAM chegar lá, cientes de que, uma vez no lugar, conseguem ser
mais duras do que eles próprios.
Elas não são Mulheres na política, são um mix desagradável que, que eu tenha dado
por isso, nunca trouxe ao mundo nada de realmente inovador ou, sequer,
diferente.
29 de maio de 2012
O pior de nós
Por estes dias, um dos homens que mais vezes cruza o ecrã da
minha televisão é o ex-espião Jorge Silva Carvalho.
Corpo avantajado e passada a condizer, coberto de fato
completo “sem pregas no peito nem rugas no colarinho”, ele passa e olha
fugazmente a câmara. Não sorri, mas também não está sério, antes dá um ar de
homem sem angústias existenciais e senhor do seu (muito pequeno) mundo que, no
entanto, parece entender como o mundo todo.
Quando ele olha a câmara de relance, aquele olhar faz tocar
as minhas campainhas que alertam para “perigo”.
Ao longo dos seus 46 anos de vida, patita aqui patita ali,
foi trepando na hierarquia do poder até se instalar no lugar que achou
confortável – o lugar de toda a informação, que pode ser dada ou vendida,
conforme a ocasião e o objectivo a alcançar.
Sem a menor noção do valor do Estado numa sociedade
democrática, frio e calculista, exercitou a conjugação reflexa do verbo servir
enquanto pôde, e o mais que pôde.
Não esteve, certamente, sozinho; usufruiu de muitas
cumplicidades por parte daqueles que também almejavam o seu quinhão de poder e
dinheiro num país minado por espertalhaços que medraram nas berças e
desembarcaram na capital.
Ambicioso, venal, sem escrúpulos, este espião que veio do
quente (Moçambique), e também gosta de usar avental maçónico, personifica
exemplarmente o que de pior há em nós.
28 de maio de 2012
Ladeira da Boa-Morte
Numa das estradas de acesso à minha cidade há um troço
chamado Ladeira da Boa-Morte
Não sei por que raio de associação só penso nisso desde que
ouvi a troika dizer que “Portugal vai
no bom caminho”.
27 de maio de 2012
25 de maio de 2012
Merkel com dores nos pés
Frau Merkel nasceu, cresceu e tornou-se adulta na ex-RDA, e
isso não acontece impunemente. A minha geração também nasceu, cresceu e
tornou-se adulta sob uma ditadura.
Porém, a minha geração lutou contra a ditadura, o que não me
lembro de ter acontecido com a dela. Enquanto por aqui se organizaram lutas colectivas
que abanaram o regime, a dissidência da Merkel limitou-se, segundo li há tempo
numa entrevista, a conseguir não integrar a Stasi argumentando que era incapaz
de guardar um segredo.
Mulherzinha esperta!
A sua fixação no défice zero, e na “casa arrumada” fazem-me
pensar que o que ela acharia mesmo bom era um plano quinquenal para a Europa,
controlado por ela mesma, com atribuição de medalhas, não ao trabalhador do ano,
mas ao país do ano.
Aos alemães vendeu a receita das contas certas e castigo
para quem o não conseguir, sem mais explicações, e eles compraram. Passaram
todos até a dizer em coro que o óleo de fígado de bacalhau da chanceler era um
muito bom óleo de fígado de bacalhau.
Agora que o discurso na Europa está a mudar, ainda que muito
ligeiramente, e a senhora percebeu que vai ter que vender um produto um pouco
diferente ao seu povo, começa a sentir um apertozito nos calos e precisa de “descalçar
a bota”.
Segundo o JN, Merkel já ontem afirmou em Berlim:
“…a fragilidade de
países parceiros do euro acabará por concorrer para a fragilidade da Alemanha.
Citada pela Bloomberg, Angela Merkel disse, em Berlim, que a Alemanha só pode
ser forte se os seus vizinhos estiverem bem.” (notícia aqui)
Ainda a ouviremos dizer muitas outras coisas, e não sei se
vai conseguir “descalçar a bota”, mas lá que ela está com dores nos pés, lá
isso está.
O que, não sei porquê, me provoca uma inusitada alegria.
24 de maio de 2012
O pensamento estratégico do Magnífico Reitor
A escola, e sobretudo a Universidade, para além de nos
transmitir saberes teóricos, técnicos ou práticos sobre várias matérias,
dá-nos, sobretudo, ferramentas para continuarmos a aprender ao longo da vida se
assim o quisermos.
Todo o ensino, mas o universitário ainda mais, deve
transformar a “massa mais ou menos bruta” que lá chega em seres com capacidade
de raciocínio, pensamento estruturado, capacidade de análise das questões
profissionais ou sociais que iremos encontrar pela vida fora.
Por via disso, a universidade deve formar seres pensantes e,
também por via disso, seres livres, com capacidade de intervenção e decisão. É
assim que se criam sociedades avançadas e prósperas.
E os professores que nos marcam, os que constituem um
verdadeiro ganho no nosso percurso académico, são exatamente aqueles que são
capazes de nos estimular o pensamento e que incitam à participação e opinião.
Sabemos que as universidades estão longe de ser aquilo que
deviam ser, mas fiquei estarrecida com o apelo ao silêncio por parte do Reitor
da Universidade do Porto, Marques dos Santos.
Disse ele:
"Acho que se
estivéssemos seis meses todos calados, não criássemos mais problemas do que os
que já existem e deixássemos as coisas correr, daqui a seis meses, trabalhando,
veríamos que as coisas até evoluíram melhor do que o que pensámos". (notícia aqui)
Quem pensa que o silêncio é melhor que o debate de ideias,
que o conformismo é melhor que a mobilização, que deixar correr resolve os
problemas, não pode ser Reitor duma grande Universidade.
Não tenho por hábito pedir a demissão de ninguém, nem é
agora que o vou fazer, mas apetece-me dizer:
Ó gente da Invicta, deixar esse homem no lugar nem parece
coisa vossa mas, para começar, e com gentileza, podiam sussurrar-lhe ao ouvido
o que está escrito na imagem ali de cima - Sólo
los besos nos taparán la boca.
23 de maio de 2012
Já nem cínicos podem ser
Quem não frequenta as redes sociais provavelmente não viu
este anúncio que por lá circula abundantemente e merece ser conhecido.
Ele é o retrato perfeito do desastre de país que é o nosso.
Pede-se arquiteto(a), que fale e escreva línguas, com
viatura própria, muita disponibilidade, desenho 3D e Auto Cad, horário de
trabalho de 10 horas por dia.
Oferece-se emprego por 6 meses, com o estímulo do governo, e
um ordenado de 500 euros.
Para mim, é escravatura, para Passos Coelho deve ser uma
oportunidade.
Melhor pagar para trabalhar do que não trabalhar de todo,
certo?
Aos nossos governantes e empregadores assenta-lhe que nem um
luva a frase: “Quando alguém deixa de usar a consciência, já nem sequer cínico
pode ser.”
(“Bilhar às Nove e Meia”
Heinrich Böll)
22 de maio de 2012
Imprensa
Quem ontem à tarde passasse da leitura do Público online para o ionline tinha motivos para tentar
lembrar-se do que bebera ao almoço.
Portugal tem taxas máximas de IRS, IRC e IVA acima da média europeia
Desfeita a dúvida do almoço, verifiquei que o Público começa
o artigo, e valoriza os dados de 2010, só começando a apresentar os dados de
2012 lá para meio do mesmo, sendo estes (2012) os únicos referidos pelo i.
O Público titulava
ao cimo da página Peso dos impostos cobrados em Portugal em 2010 abaixo da média europeia; já o i dava destaque
ao título
Fui leitora do Público desde o primeiro número e durante
muitos anos até que desisti dele. Não foi por acaso nem porque sim, foi porque
o jornal deixou de corresponder às minhas expectativas e era frequente eu não
entender os seus critérios editoriais, como ontem não percebi. Passei a
comprá-lo apenas à 6ª feira e por causa o suplemento Ípsilon, mas também esse creio que tem os dias contados.
Aquilo está cheio de gente que faz música que não conheço nem
vou conhecer, e parece cada vez mais direccionado para uma faixa etária que não
é a minha, mas que também não compra o jornal. Critérios editoriais que continuo
a não perceber.
Mas, a propósito destes, o que eu gostava mesmo muito de perceber um dia era o
que se passou entre o ministro Relvas, a jornalista Maria José Oliveira e a direcção
do jornal.
Gostava, mas acho que não vou ter sorte nenhuma.
21 de maio de 2012
Tralalá é já aqui
Os últimos dias foram, mais uma vez, alucinantes
Depois das confissões de grandes lavagens de negócios sujos, o querido Duarte Lima volta ao remanso do lar. Durma bem na sua caminha, rico.
Além disso, aqui tudo passa depressa e a gente esquece;
mesmo quando leva muitos anos, tudo acaba em bem.
Parabéns Isaltino.
Depois das confissões de grandes lavagens de negócios sujos, o querido Duarte Lima volta ao remanso do lar. Durma bem na sua caminha, rico.
Ainda me assustei com as histórias das Secretas mas
passou-me depressa; se o governo não acha grave é porque, certamente, o não é,
e eu também gosto de dormir descansada na minha caminha.
Parabéns Isaltino.
Depois, o ministro Relvas pediu desculpa do que, afinal, diz
que não fez.
Quanto aos SMS que Jorge Silva Carvalho lhe enviou, parece
que “fumou mas não inalou”. Tudo má-vontade contra o ministro, como de costume.
Ainda veio o coiso
do Álvaro, mas a isso nem liguei; mero lapsus
linguae de alguém que anda estafadinho de tanto trabalhar para a economia e
emprego. Tenham dó do Álvaro.
Entretanto, li o muito publicitado livro Viagem a Tralalá de Wladimir Kaminer.
Levezinho mas muito agradável, coisa a que me sinto com direito de vez em quando.
E por mais que o Wladimir queira dizer-me que o avião de Josef Beuys caiu em
Tralalá, na Crimeia, eu continuo a achar que Tralalá é aqui mesmo.
18 de maio de 2012
A produtividade explicada às crianças nem-nem
Hoje, por conta das coisas que me aconteceram, e
influenciada pelos recentes sucessos editoriais, apeteceu-me escrever, não um
livro, mas umas palavrinhas sob o título “A
produtividade explicada às crianças nem-nem, ou seja, nem de direita nem de
esquerda”
Amiguinhos, isto por aqui funciona mais ou menos assim:
Se mandarmos fazer uma chave, é muito raro que ela rode na fechadura; geralmente temos que voltar à loja para dar “uma afinadela”,
Daí, quando perguntamos a alguém “como está?” a resposta é, só pode ser, “vamos andando”. E podem acreditar que andamos mesmo muito.
Como vêem, amiguinhos, os números da produtividade que nos
mostram são muito mentirosos, porque nós não paramos e andamos sempre cansados.
Sei que é assim, mas sobre as causas disto tudo nada digo porque só tenho umas desconfianças que podem nem ser verdadeiras, e eu não Minto, não Engano, não Ludibrio.
Amiguinhos, isto por aqui funciona mais ou menos assim:
Se mandarmos fazer uma chave, é muito raro que ela rode na fechadura; geralmente temos que voltar à loja para dar “uma afinadela”,
Se chamarmos um operário ou técnico a casa, não falha que
nos peça qualquer coisa; pode ser o martelo, o escadote ou a chave inglesa, e
se não tivermos ele vai buscar e só volta quando deus quiser.
Quando chega a altura do IRS há um monte de telefonemas que
é preciso fazer porque ninguém enviou os papéis que a lei diz que tem que enviar.
Quando vamos buscar qualquer coisa no dia aprazado é muito raro que esteja
pronta. Venha amanhã, pode ser?
Quando vamos a uma repartição pública, nunca vamos só uma
vez porque falta sempre qualquer documento ou oficiozinho.
Se pretendermos contactar fulano ou sicrano ele está sempre
em reunião; isso exige vários telefonemas mas alguma vez ele há-de atender.
Se se precisar preencher um formulário na internet, o
servidor está sempre demasiado ocupado.
Daí, quando perguntamos a alguém “como está?” a resposta é, só pode ser, “vamos andando”. E podem acreditar que andamos mesmo muito.
Sei que é assim, mas sobre as causas disto tudo nada digo porque só tenho umas desconfianças que podem nem ser verdadeiras, e eu não Minto, não Engano, não Ludibrio.
Quê, não sabem o que é “ludibrio”?
Meus queridos, perguntem ao avô porque o vosso pai deve
estar em reunião e eu agora tenho que ir “afinar” a chave.
17 de maio de 2012
O touro e o gato
Há dias em que até o mais incréu dos incréus precisa de se
convencer de qualquer coisa. A tão apressada visita do Hollande à Merkel
provocou à minha volta comentários do tipo – vai ao beija-mão! servilismo!
Eu, em abstrusa fase de increia com fé, preferi pensar que
senhor estava com pressa de dizer várias coisas à alemã, como por exemplo: que
o eixo franco-alemão é importante mas que a capital da Europa é Bruxelas e não
Berlim, que precisamos de mais democracia interna e que esta história de serem
só dois a mandar está a deixar alguns povos europeus exasperados, que é preciso
defender a Grécia “custe o que custar” antes que a Europa comece a apodrecer
das bordas para o centro, que isto de castigar os que estão na mó de baixo já deu
mau resultado se ela bem se lembra de Versalhes (será que estudou isso?), que
precisamos de repor o modelo europeu e não importar o chinês etc. e, assim, decidi
acreditar que ele não ia apenas ao beija-mão.
De facto, não sabemos o que se passou entre eles, mas
imagino que tenham sido dois animais, com polimento civilizacional, a
medirem-se um ao outro, dado que não se conheciam.
Sabemos que a Merkel é um touro (evito aqui o feminino por
decoro) mas ainda não sabemos que animal será Hollande.
Contudo, no Público
de ontem, cita-se uma jornalista francesa que escreveu:
“…Hollande parece-se como esses gatos (espertos e indecifráveis) que teimam em vir enroscar-se nos sofás
proibidos. Impõe a sua vontade à força de insistência, de sorrisos e de
obstinação.”
Que a assim seja, desde que a sua vontade seja uma boa vontade e ele não perca
demasiado tempo com salamaleques; é que o touro, se puder, não perderá a oportunidade
de lhe dar uma valente cornada.
16 de maio de 2012
15 de maio de 2012
E se a gente desempregasse o Pedro?
Ó caraças, o que eu gostava de o ver na fila do Centro
de Emprego com uns papelitos na mão e a dizer aos seus parceiros – crises são
oportunidades, crises são oportunidades, crises são oportunidades, crises são
oportunidades, até que alguém, fartinho de o ouvir, lhe enfiasse um banano.
«E não é que Portugal é o quarto país da OCDE com mais «empreendedores», apenas ultrapassado pelo México, pela Turquia e pela Grécia? Sim, leram bem: a Grécia é o único país da UE com mais empreendedores que nós.
E os Estados Unidos da América, símbolo de uma nação rica que dá lições à Europa no que diz respeito à promoção do empreendedorismo, são o terceiro país da OCDE com menos empreendedores. Têm uma taxa de trabalhadores por conta própria cerca de três vezes menor que a portuguesa.»
Mas isto é só um desabafo, porque o importante é
perceber como ele mente quando diz que somos pouco empreendedores, e como é
falaciosa a retórica sobre desenvolvimento e número de empresários.
Para isso vale a pena ler o post de 11 de Maio do
blogue Esquerda Republicana em que se apresentam dados da OCDE relativos à taxa
de trabalhadores por conta própria e onde se lê:«E não é que Portugal é o quarto país da OCDE com mais «empreendedores», apenas ultrapassado pelo México, pela Turquia e pela Grécia? Sim, leram bem: a Grécia é o único país da UE com mais empreendedores que nós.
E os Estados Unidos da América, símbolo de uma nação rica que dá lições à Europa no que diz respeito à promoção do empreendedorismo, são o terceiro país da OCDE com menos empreendedores. Têm uma taxa de trabalhadores por conta própria cerca de três vezes menor que a portuguesa.»
Vale a pena ler tudo para percebermos melhor que o
primeiro-ministro não sabe o que diz, ou mente descaradamente, quando fala
desse tema chato e desinteressante que dá pelo nome de DESEMPREGO.
Gostava tanto que desempregássemos o Pedro, só mesmo
para o ver a descobrir oportunidades que não fossem por conta do partido e da
cunha dos amigos do partido. Seria uma novidade na vida dele.14 de maio de 2012
Entre Fátima e Madrid
Ontem à hora de almoço, quando liguei a televisão para ver
as notícias, os três canais generalistas estavam ainda a transmitir imagens de
Fátima.
A RTP 1 transmitia em
directo as cerimónias de Fátima.
A SIC transmitia em directo as cerimónias de Fátima.
A TVI transmitia em directo as cerimónias de Fátima.
A RTP África transmitia em directo as cerimónias de Fátima.
A TSF transmitia em directo as cerimónias de Fátima.
A Rádio Renascença transmitia em directo as cerimónias de Fátima.
Tive medo de ligar a torradeira.
Este ano estiveram
em Fátima 300 000 pessoas, bateu-se o recorde de venda de velas, e isso diz
muitíssimo sobre “o estado a que isto chegou” como diria o Salgueiro Maia.
Lembrei-me que em 2010, com o Papa por cá, li isto, bem
divertido, no blogue jugular:
O temor de um simples mortal
A SIC transmitia em directo as cerimónias de Fátima.
A TVI transmitia em directo as cerimónias de Fátima.
A RTP África transmitia em directo as cerimónias de Fátima.
A TSF transmitia em directo as cerimónias de Fátima.
A Rádio Renascença transmitia em directo as cerimónias de Fátima.
Tive medo de ligar a torradeira.
Se há pouco tempo, e
a propósito do Pingo Doce, escrevi aqui que por vezes me envergonho duma parte da
sociedade portuguesa, o mesmo não sinto em relação a estes que peregrinam até
Fátima.
Desprovida que sou
de qualquer tipo de fé, tenho um profundo respeito por quem a tem
convictamente, sem fundamentalismo ou desejo de conversão do próximo.
Este povo simples
que reza, pede, agradece, promete, tem esperança e acredita é genuíno (embora
passivo), e merece o meu respeito.
Isso não invalida
que, no mesmo telejornal, eu me tenha sentido irmã, não dos meus compatriotas
que se conformaram em Fátima, mas dos espanhóis que, inconformados, ocuparam a
Puerta del Sol em Madrid.
11 de maio de 2012
Como está a Maria João?
Nas suas crónicas diárias no Público, Miguel Esteves Cardoso escreve amiúde sobre a doença da
sua mulher. São escritos de amor e, parece-me, simultaneamente exercícios para
exorcizar o medo. São tocantes de ternura, fragilidade, fé às vezes,
humanidade.
Esta exposição pública da sua vida privada não choca. Ao
contrário, vejo nela um acto de coragem. E, se esta forma de se dar pode corresponder
a uma necessidade pessoal, estou certa de que também o transforma num
companheiro de viagem de muitos outros que vivem a mesma situação.
E tudo é tão bem feito e escrito que a Maria João entrou
definitivamente na nossa vida.
Talvez por isso, não é raro que dê comigo, nos dias em que
não nos dá notícias dela, a pensar – como estará a Maria João?
10 de maio de 2012
À espera
Na Pluma Caprichosa do
Expresso de 5 de Maio, Clara Ferreira Alves presta homenagem, recordando,
ao seu amigo Miguel Portas.
“Trinta mil vezes” ele a deixou plantada durante horas, à
espera, quando marcavam um encontro.
Há pessoas assim, incapazes de chegar à hora combinada seja
em que situação for. Outras, pelo contrário, são incapazes de chegar atrasadas,
e só ficam de bem consigo se chegarem um pouco antes, mesmo sabendo que as
espera uma espera que às vezes as desespera.
Há na minha vida uma criatura muito querida e muito próxima
que pertence à categoria dos atrasados e eu pertenço à categoria dos pontuais.
Nem sempre a vida foi fácil com esta nossa “pequena” diferença.
Era normal ver os amigos que iam chegando e acabavam por
formar um ruidoso grupo à porta, e à espera.
Um dia, um estrangeiro (um pragmático alemão) presenciou a
cena e, perante o meu desconforto, disse-me: se eles esperam é porque acham que vale a pena.
Assim é. Na vida, não esperamos por todos, esperamos por quem (nos)
vale a pena.
9 de maio de 2012
Onde pára o nosso lítio?
Aos doentes já deram vários nomes, que eu saiba –
ciclotímicos, maníaco-depressivos e agora bipolares.
É do conhecimento geral que a doença se caracteriza por
períodos de euforia e períodos de depressão, ou seja, há dias em que o doente
assobia na rua e outros em que se mete na cama com a cabeça tapada, podendo a
passagem de um estado ao outro ser bastante rápida.
Eu acho que o colectivo dos portugueses padece deste mal.
Ora somos os maiores, ora nos achamos abaixo de cão. Basta ver a facilidade com
que, por aqui, qualquer um passa de bstial a besta. Esta sintomatologia também
se revela quando elegemos governos. Uns são eufóricos, e outros deprimidos.
O governo de Sócrates era um claro exemplo da primeira fase
− pensamento positivo e em grande; ainda me lembro muito bem de o ouvir na
televisão a afirmar poucos dias antes de chamar os troikos: “Portugal tem
dinheiro, nós não precisamos de pedir ajuda externa”. Fase eufórica, portanto.
Seguiu-se o governo de Passos e passámos à segunda fase, a
da depressão.
Começou por nos mandar empobrecer, depois mandou os nossos
filhos emigrar e agora, mais recentemente, mandou que nos habituássemos a viver
com elevada taxa de desemprego. Fase depressiva, óbvio.
Parece que esta doença, que já teve tantos nomes, é
incurável, mas o doente pode ter uma vida estável se tomar, sem falhas, a sua
dose diária de lítio (não sei se é a mesma coisa que se usa nas pilhas
Duracell), mas sei que é lítio.
O que pergunto é se não haverá por aí quem abra a bocarra
deste país e deite lá para dentro a dose certa de lítio, a ver se conseguimos
fazer a nossa vidinha sem ataques de euforia nem de depressão? E pode ser mesmo
um genérico, que sempre é mais barato, uma vez que comer pilhas deve ser
indigesto.
É que esta doença não mata, mas é muito difícil de aturar.
8 de maio de 2012
Correr na relva
Nunca sabemos se o novo será melhor, pior, ou apenas
diferente. Nem sequer sabemos se o novo será realmente novo.
Nunca saberemos se o que não foi seria o que dele
esperávamos, e não é raro que o que é se revele diferente daquilo que era
suposto ser.
Contudo, há momentos em que mudar é tudo o que queremos, e o novo traz de volta alguma leveza juvenil, limpa, clara, sem reservas.
Há momentos em que a mera mudança nos devolve uma esperança
tão bem guardada que quase nem sabíamos que ainda dormia numa gaveta em nós.
As eleições em França e na Grécia abrem uma larga porta para
dúvidas e conjecturas, mas também abriram uma pequena fresta dessa gaveta
esquecida.
Algo se moveu e, por um momento, apenas um momento, saí do
pântano e corri na relva com os pés descalços.
7 de maio de 2012
O Pedro, o Henrique e a escrita deles
Este post tem como
real objectivo chamar a atenção para o excelente editorial de Pedro Santos Gurreiro publicado no Jornal de Negócios na semana passada.
É jornalismo de primeira, e eu gosto. Se faço este aviso é porque, no fim, pode já não se perceber isso muito bem, as conversas são como as cerejas e tal.
E para a semana há mais.
É jornalismo de primeira, e eu gosto. Se faço este aviso é porque, no fim, pode já não se perceber isso muito bem, as conversas são como as cerejas e tal.
Acontece que eu também tenho uma costela masoquista, e
assumo que todas as semanas leio gente que, sei-o antecipadamente, me vai
deixar mal disposta.
É o caso de Henrique Raposo, rapaz endiabrado, cheio de “graça”
e certezas.
As suas crónicas provam à saciedade que não é preciso ter
berço para alinhar na direita parva; quando o assunto recai sobre a sua humilde
família de origem, todo ele é doçura e ternura e sei lá, quase me comovo;
quando fala do país oferece-nos uma taça de cinismo a boiar em graçola
arrapazada.
Esta semana, escrevendo sobre o mesmo assunto que Pedro Santos Gurreiro, atira-se, mas a brincar, é sempre a brincar, a
quem se indignou com a história Pingo Doce.
Esquerda caviar,
diz, (como agora a direita gosta de dizer), que acharia normal uma fila para
comprar um brinquedo da Apple, mas no fundo não suporta o povinho que só quer
consumir barato.
Povinho esperto, o nosso. Os caviar, que por aqui também andam, é que são do piorio. Se, ao
menos, o Raposo soubesse argumentar! Mas a única coisa que ele sabe é usar uma
prosa chocarreira que deve achar de grande qualidade.
A minha costela masoquista, porém, não desgruda. Todas as
semanas o leio e todas as semanas, quando acabo, só me apetece dizer-lhe:
Ó Henrique, vai-te catar.E para a semana há mais.
6 de maio de 2012
E assim acontece
Todos os dias da minha vida sou mãe e sou filha.
Graças a eles, em cada dia que passa sou mais firme e voo mais alto.
Imagem: Nossa Senhora do Ó, Sé de Évora
Passo a passo, os filhos criaram asas e a mãe estendeu
raízes.
Graças a eles, em cada dia que passa sou mais firme e voo mais alto.
No dia de ser mãe e filha, e todos os dias da minha vida.
Imagem: Nossa Senhora do Ó, Sé de Évora
5 de maio de 2012
4 de maio de 2012
Pensamento de rico em país de pobre
Cada vez percebo menos disto tudo. Depois de me terem
azucrinado a cabeça durante anos dizendo que vivemos acima das nossas
possibilidades, entra em vigor uma medida que não permite aos carros mais
antigos e “poluentes” circularem na maior parte da cidade de Lisboa.
Qualidade do ar, dizem eles; diretivas europeias, dizem também.
Se bem conheço os portugueses, quem anda num carro de 1992 ou 1996, na maioria das vezes não o faz por amor ao objecto, mas porque não quis endividar-se para comprar outro, ou seja, não quis viver acima das suas possibilidades.
Por o momento ser mau?
Ora, ora, santa ingenuidade. Não foi nada disso.
Foi apenas porque no Código da Estrada não há sinal para tal proibição.
Qualidade do ar, dizem eles; diretivas europeias, dizem também.
Se bem conheço os portugueses, quem anda num carro de 1992 ou 1996, na maioria das vezes não o faz por amor ao objecto, mas porque não quis endividar-se para comprar outro, ou seja, não quis viver acima das suas possibilidades.
Aprendida a lição moralista, pensávamos agora que isso é que
estava certo, mas, afinal, também não está, e o chicote está sempre pronto para
usar nas costas dos mesmos.
Os nossos padrastos europeus, lá do alto das suas muito
correctas inquietações dizem-nos: sofram, paguem as dívidas com o juro que nós
quisermos, entreguem a casa ao banco, matem as galinhas poedeiras, comam da
caridade e deitem fora a carripana.
Diretivas europeias, dizem os senhores da Câmara.
Pensaram em adiá-las mais um pouco? Sim, alguns pensaram, e
até houve quem votasse contra a sua entrada em vigor.Por o momento ser mau?
Ora, ora, santa ingenuidade. Não foi nada disso.
Foi apenas porque no Código da Estrada não há sinal para tal proibição.
3 de maio de 2012
Um dia lixado
Ontem foi um dia lixado.
Depois do Miguel Portas, "morre-me" o Fernando Lopes. Parece que a morte só se interessa pelos mesmos que eu, e estas afinidades perturbam-me.
Além disso, continuei a ver imagens do “caso” Pingo Doce.
O que vi e ouvi, também desmoraliza muito.
Quanto ao senhor Alexandre, neste momento (mas só neste momento) estou-me borrifando para ele; o que me machuca mesmo são as imagens terceiro-mundistas do interior e exterior dos supermercados.
A promoção levada a cabo pelo merceeiro, para além de hostilizar o dia do trabalhador, não tinha como alvo os pobres, porque esses não vão fazer compras superiores a 100 euros.
Por isso, quem acorreu foi uma classe média empobrecida mas não miserável, com emprego por agora, gananciosa, acéfala, sem um pingo de consciência cívica ou política, estupidificada pelo consumo e que, no mínimo, me deixa desconfortável quando a vejo na televisão.
Sem medo das palavras, ouso afirmar que em 2012 há uma parte da sociedade portuguesa de que me envergonho - aquela a quem falta dignidade e brio, aquela que acha normal a esmola em vez da mais básica justiça social
E isso torna-me também mais pobre, descrente, às vezes cínica, às vezes raivosa.
Não, eu não gosto nada disso.
Depois do Miguel Portas, "morre-me" o Fernando Lopes. Parece que a morte só se interessa pelos mesmos que eu, e estas afinidades perturbam-me.
Além disso, continuei a ver imagens do “caso” Pingo Doce.
O que vi e ouvi, também desmoraliza muito.
Quanto ao senhor Alexandre, neste momento (mas só neste momento) estou-me borrifando para ele; o que me machuca mesmo são as imagens terceiro-mundistas do interior e exterior dos supermercados.
A promoção levada a cabo pelo merceeiro, para além de hostilizar o dia do trabalhador, não tinha como alvo os pobres, porque esses não vão fazer compras superiores a 100 euros.
Por isso, quem acorreu foi uma classe média empobrecida mas não miserável, com emprego por agora, gananciosa, acéfala, sem um pingo de consciência cívica ou política, estupidificada pelo consumo e que, no mínimo, me deixa desconfortável quando a vejo na televisão.
Sem medo das palavras, ouso afirmar que em 2012 há uma parte da sociedade portuguesa de que me envergonho - aquela a quem falta dignidade e brio, aquela que acha normal a esmola em vez da mais básica justiça social
E isso torna-me também mais pobre, descrente, às vezes cínica, às vezes raivosa.
Não, eu não gosto nada disso.
2 de maio de 2012
Traída pelo defunto
Num exercício de puro mau gosto, Fernanda Câncio publicou no blogue
jugular, o relato, análise e incómodos da sua ida ao velório de Miguel Portas.
Misturas destas não lhe cabem na cabeça, e, por isso, termina dizendo:
E que não tivesse sido? Se a heterodoxa família Portas ali esteve com os dirigentes do Bloco foi porque entendeu que assim devia ser, com razões que são suas e não são da nossa conta.
Mas não, ela só viu o Bloco - ódio de estimação.
Começa pelo sacrifício de estar meia hora à chuva e seguem-se
as contrariedades.
Ao cumprimentar a família, que era o que queria fazer, teve
também que cumprimentar “o comité” do Bloco.
Horrível! Homenagem ao Bloco! DixitMisturas destas não lhe cabem na cabeça, e, por isso, termina dizendo:
a mistura do pessoal e do político existia no miguel, claro. como, de
algum modo, em todos nós. mas isto, não posso deixar de o dizer, caiu-me muito
mal.
Ora que pena. Talvez um Guronsan ajudasse.
Resumindo, o morto fez-lhe uma afronta, já que sabemos que
tudo foi pensado pelo Miguel.E que não tivesse sido? Se a heterodoxa família Portas ali esteve com os dirigentes do Bloco foi porque entendeu que assim devia ser, com razões que são suas e não são da nossa conta.
Ir a um velório é um acto público – só vamos se queremos, só
cumprimentamos quem queremos, e é de bom-tom não criticar em público as opções
e disposições tomada, para o momento, pelos protagonistas.
Um pouco de humildade, de respeito e de aceitação da
diferença, não fariam mal a Fernanda Câncio.
Se tais “dotes” tivesse, poderia ter encontrado ali apenas a
Helena, o Nuno, o Paulo, a Catarina, o Francisco, o Luís, o João e, com todos
eles, ter sentido a fragilidade e pequenez que todo o ser humano sente quando a
morte vem buscar alguém que amamos.Mas não, ela só viu o Bloco - ódio de estimação.
Fernanda Câncio devia experimentar tomar a família Portas
como referência de tolerância e união, mas também de fractura com as normas
convencionadas duma burguesia urbana mas parola.
E devia fazê-lo não só para os velórios, mas para a VIDA.
1 de maio de 2012
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