31 de maio de 2012

Resumo

Numa homenagem tardia a Fernando Lopes, que ele próprio decerto dispensaria, podemos resumir a conversa de Passos Coelho ontem no Parlamento sobre o tema das secretas com um simples frase:

 NÓS POR CÁ, TODOS BEM

É suposto podermos ficar descansados, não é?
Então porque é que não estou?

30 de maio de 2012

Um mix

Christine Lagarde está tão preocupada com as crianças do Niger como eu o estou com as da Quinta do Lago, e a tirada demagógica pró-África contra os gregos saiu-lhe mal.

Fico a olhar para aquilo e instala-se-me uma estranheza; aquela conversa  não é nem de macho nem de fêmea.

Christine Lagarde, como Margaret Tatcher, Golda Meir, Indira Gandhi ou Angela Merkel, tudo mulheres que chegaram ao topo na política, pertence a um género híbrido – cabeça de homem em corpo de mulher (preferências sexuais não cabem nesta observação, obviamente).

De Golda Meir, David Bem-Gurion chegou a dizer: “é o único homem do meu gabinete”.

As referidas senhoras só chegaram onde chegaram porque os homens as DEIXARAM chegar lá, cientes de que, uma vez no lugar, conseguem ser mais duras do que eles próprios.

Elas não são Mulheres na política, são um mix desagradável que, que eu tenha dado por isso, nunca trouxe ao mundo nada de realmente inovador ou, sequer, diferente.

29 de maio de 2012

O pior de nós

Por estes dias, um dos homens que mais vezes cruza o ecrã da minha televisão é o ex-espião Jorge Silva Carvalho.

Corpo avantajado e passada a condizer, coberto de fato completo “sem pregas no peito nem rugas no colarinho”, ele passa e olha fugazmente a câmara. Não sorri, mas também não está sério, antes dá um ar de homem sem angústias existenciais e senhor do seu (muito pequeno) mundo que, no entanto, parece entender como o mundo todo.

Quando ele olha a câmara de relance, aquele olhar faz tocar as minhas campainhas que alertam para “perigo”.

Ao longo dos seus 46 anos de vida, patita aqui patita ali, foi trepando na hierarquia do poder até se instalar no lugar que achou confortável – o lugar de toda a informação, que pode ser dada ou vendida, conforme a ocasião e o objectivo a alcançar.
Sem a menor noção do valor do Estado numa sociedade democrática, frio e calculista, exercitou a conjugação reflexa do verbo servir enquanto pôde, e o mais que pôde.

Não esteve, certamente, sozinho; usufruiu de muitas cumplicidades por parte daqueles que também almejavam o seu quinhão de poder e dinheiro num país minado por espertalhaços que medraram nas berças e desembarcaram na capital.

Ambicioso, venal, sem escrúpulos, este espião que veio do quente (Moçambique), e também gosta de usar avental maçónico, personifica exemplarmente o que de pior há em nós.


28 de maio de 2012

Ladeira da Boa-Morte




Numa das estradas de acesso à minha cidade há um troço chamado Ladeira da Boa-Morte

Não sei por que raio de associação só penso nisso desde que ouvi a troika dizer que “Portugal vai no bom caminho”.

25 de maio de 2012

Merkel com dores nos pés

Frau Merkel nasceu, cresceu e tornou-se adulta na ex-RDA, e isso não acontece impunemente. A minha geração também nasceu, cresceu e tornou-se adulta sob uma ditadura.

Porém, a minha geração lutou contra a ditadura, o que não me lembro de ter acontecido com a dela. Enquanto por aqui se organizaram lutas colectivas que abanaram o regime, a dissidência da Merkel limitou-se, segundo li há tempo numa entrevista, a conseguir não integrar a Stasi argumentando que era incapaz de guardar um segredo.
Mulherzinha esperta!

A sua fixação no défice zero, e na “casa arrumada” fazem-me pensar que o que ela acharia mesmo bom era um plano quinquenal para a Europa, controlado por ela mesma, com atribuição de medalhas, não ao trabalhador do ano, mas ao país do ano.
Aos alemães vendeu a receita das contas certas e castigo para quem o não conseguir, sem mais explicações, e eles compraram. Passaram todos até a dizer em coro que o óleo de fígado de bacalhau da chanceler era um muito bom óleo de fígado de bacalhau.

Agora que o discurso na Europa está a mudar, ainda que muito ligeiramente, e a senhora percebeu que vai ter que vender um produto um pouco diferente ao seu povo, começa a sentir um apertozito nos calos e precisa de “descalçar a bota”.

Segundo o JN, Merkel já ontem afirmou em Berlim:
“…a fragilidade de países parceiros do euro acabará por concorrer para a fragilidade da Alemanha. Citada pela Bloomberg, Angela Merkel disse, em Berlim, que a Alemanha só pode ser forte se os seus vizinhos estiverem bem.” (notícia aqui)

Ainda a ouviremos dizer muitas outras coisas, e não sei se vai conseguir “descalçar a bota”, mas lá que ela está com dores nos pés, lá isso está.
O que, não sei porquê, me provoca uma inusitada alegria.

24 de maio de 2012

O pensamento estratégico do Magnífico Reitor

A escola, e sobretudo a Universidade, para além de nos transmitir saberes teóricos, técnicos ou práticos sobre várias matérias, dá-nos, sobretudo, ferramentas para continuarmos a aprender ao longo da vida se assim o quisermos.
Todo o ensino, mas o universitário ainda mais, deve transformar a “massa mais ou menos bruta” que lá chega em seres com capacidade de raciocínio, pensamento estruturado, capacidade de análise das questões profissionais ou sociais que iremos encontrar pela vida fora.
Por via disso, a universidade deve formar seres pensantes e, também por via disso, seres livres, com capacidade de intervenção e decisão. É assim que se criam sociedades avançadas e prósperas.
E os professores que nos marcam, os que constituem um verdadeiro ganho no nosso percurso académico, são exatamente aqueles que são capazes de nos estimular o pensamento e que incitam à participação e opinião.
Sabemos que as universidades estão longe de ser aquilo que deviam ser, mas fiquei estarrecida com o apelo ao silêncio por parte do Reitor da Universidade do Porto, Marques dos Santos.
Disse ele:
"Acho que se estivéssemos seis meses todos calados, não criássemos mais problemas do que os que já existem e deixássemos as coisas correr, daqui a seis meses, trabalhando, veríamos que as coisas até evoluíram melhor do que o que pensámos". (notícia aqui)
Quem pensa que o silêncio é melhor que o debate de ideias, que o conformismo é melhor que a mobilização, que deixar correr resolve os problemas, não pode ser Reitor duma grande Universidade.
Não tenho por hábito pedir a demissão de ninguém, nem é agora que o vou fazer, mas apetece-me dizer:
Ó gente da Invicta, deixar esse homem no lugar nem parece coisa vossa mas, para começar, e com gentileza, podiam sussurrar-lhe ao ouvido o que está escrito na imagem ali de cima - Sólo los besos nos taparán la boca.


23 de maio de 2012

Já nem cínicos podem ser























Quem não frequenta as redes sociais provavelmente não viu este anúncio que por lá circula abundantemente e merece ser conhecido.
Ele é o retrato perfeito do desastre de país que é o nosso.

Pede-se arquiteto(a), que fale e escreva línguas, com viatura própria, muita disponibilidade, desenho 3D e Auto Cad, horário de trabalho de 10 horas por dia.
Oferece-se emprego por 6 meses, com o estímulo do governo, e um ordenado de 500 euros.

Para mim, é escravatura, para Passos Coelho deve ser uma oportunidade.
Melhor pagar para trabalhar do que não trabalhar de todo, certo?

Aos nossos governantes e empregadores assenta-lhe que nem um luva a frase: “Quando alguém deixa de usar a consciência, já nem sequer cínico pode ser.”

(“Bilhar às Nove e Meia”

Heinrich Böll)


22 de maio de 2012

Imprensa

Quem ontem à tarde passasse da leitura do Público online para o ionline tinha motivos para tentar lembrar-se do que bebera ao almoço.

O Público titulava ao cimo da página Peso dos impostos cobrados em Portugal em 2010 abaixo da média europeia; já o i dava destaque ao título

Portugal tem taxas máximas de IRS, IRC e IVA acima da média europeia

Desfeita a dúvida do almoço, verifiquei que o Público começa o artigo, e valoriza os dados de 2010, só começando a apresentar os dados de 2012 lá para meio do mesmo, sendo estes (2012) os únicos referidos pelo i.

Fui leitora do Público desde o primeiro número e durante muitos anos até que desisti dele. Não foi por acaso nem porque sim, foi porque o jornal deixou de corresponder às minhas expectativas e era frequente eu não entender os seus critérios editoriais, como ontem não percebi. Passei a comprá-lo apenas à 6ª feira e por causa o suplemento Ípsilon, mas também esse creio que tem os dias contados.

Aquilo está cheio de gente que faz música que não conheço nem vou conhecer, e parece cada vez mais direccionado para uma faixa etária que não é a minha, mas que também não compra o jornal. Critérios editoriais que continuo a não perceber.

Mas, a propósito destes, o que eu gostava mesmo muito de perceber um dia era o que se passou entre o ministro Relvas, a jornalista Maria José Oliveira e a direcção do jornal.
Gostava, mas acho que não vou ter sorte nenhuma.


21 de maio de 2012

Tralalá é já aqui

Os últimos dias foram, mais uma vez, alucinantes
Depois das confissões de grandes lavagens de negócios sujos, o querido Duarte Lima volta ao remanso do lar. Durma bem na sua caminha, rico.

Ainda me assustei com as histórias das Secretas mas passou-me depressa; se o governo não acha grave é porque, certamente, o não é, e eu também gosto de dormir descansada na minha caminha.

Além disso, aqui tudo passa depressa e a gente esquece; mesmo quando leva muitos anos, tudo acaba em bem.
Parabéns Isaltino.

Depois, o ministro Relvas pediu desculpa do que, afinal, diz que não fez.
Quanto aos SMS que Jorge Silva Carvalho lhe enviou, parece que “fumou mas não inalou”. Tudo má-vontade contra o ministro, como de costume.

Ainda veio o coiso do Álvaro, mas a isso nem liguei; mero lapsus linguae de alguém que anda estafadinho de tanto trabalhar para a economia e emprego. Tenham dó do Álvaro.

Entretanto, li o muito publicitado livro Viagem a Tralalá de Wladimir Kaminer. Levezinho mas muito agradável, coisa a que me sinto com direito de vez em quando. E por mais que o Wladimir queira dizer-me que o avião de Josef Beuys caiu em Tralalá, na Crimeia, eu continuo a achar que Tralalá é aqui mesmo.


18 de maio de 2012

A produtividade explicada às crianças nem-nem

Hoje, por conta das coisas que me aconteceram, e influenciada pelos recentes sucessos editoriais, apeteceu-me escrever, não um livro, mas umas palavrinhas sob o título “A produtividade explicada às crianças nem-nem, ou seja, nem de direita nem de esquerda”
Amiguinhos, isto por aqui funciona mais ou menos assim:

Se mandarmos fazer uma chave, é muito raro que ela rode na fechadura; geralmente temos que voltar à loja para dar “uma afinadela”,

Se chamarmos um operário ou técnico a casa, não falha que nos peça qualquer coisa; pode ser o martelo, o escadote ou a chave inglesa, e se não tivermos ele vai buscar e só volta quando deus quiser.

Quando chega a altura do IRS há um monte de telefonemas que é preciso fazer porque ninguém enviou os papéis que a lei diz que tem que enviar. Quando vamos buscar qualquer coisa no dia aprazado é muito raro que esteja pronta. Venha amanhã, pode ser?

Quando vamos a uma repartição pública, nunca vamos só uma vez porque falta sempre qualquer documento ou oficiozinho.

Se pretendermos contactar fulano ou sicrano ele está sempre em reunião; isso exige vários telefonemas mas alguma vez ele há-de atender.

Se se precisar preencher um formulário na internet, o servidor está sempre demasiado ocupado.

Daí, quando perguntamos a alguém “como está?” a resposta é, só pode ser, “vamos andando”. E podem acreditar que andamos mesmo muito.
Como vêem, amiguinhos, os números da produtividade que nos mostram são muito mentirosos, porque nós não paramos e andamos sempre cansados.
Sei que é assim, mas sobre as causas disto tudo nada digo porque só tenho umas desconfianças que podem nem ser verdadeiras, e eu não Minto, não Engano, não Ludibrio.

Quê, não sabem o que é “ludibrio”?
Meus queridos, perguntem ao avô porque o vosso pai deve estar em reunião e eu agora tenho que ir “afinar” a chave.


17 de maio de 2012

O touro e o gato

Há dias em que até o mais incréu dos incréus precisa de se convencer de qualquer coisa. A tão apressada visita do Hollande à Merkel provocou à minha volta comentários do tipo – vai ao beija-mão! servilismo!

Eu, em abstrusa fase de increia com fé, preferi pensar que senhor estava com pressa de dizer várias coisas à alemã, como por exemplo: que o eixo franco-alemão é importante mas que a capital da Europa é Bruxelas e não Berlim, que precisamos de mais democracia interna e que esta história de serem só dois a mandar está a deixar alguns povos europeus exasperados, que é preciso defender a Grécia “custe o que custar” antes que a Europa comece a apodrecer das bordas para o centro, que isto de castigar os que estão na mó de baixo já deu mau resultado se ela bem se lembra de Versalhes (será que estudou isso?), que precisamos de repor o modelo europeu e não importar o chinês etc. e, assim, decidi acreditar que ele não ia apenas ao beija-mão.

De facto, não sabemos o que se passou entre eles, mas imagino que tenham sido dois animais, com polimento civilizacional, a medirem-se um ao outro, dado que não se conheciam.
Sabemos que a Merkel é um touro (evito aqui o feminino por decoro) mas ainda não sabemos que animal será Hollande.

Contudo, no Público de ontem, cita-se uma jornalista francesa que escreveu:

“…Hollande parece-se como esses gatos (espertos e indecifráveis) que teimam em vir enroscar-se nos sofás proibidos. Impõe a sua vontade à força de insistência, de sorrisos e de obstinação.”

Que a assim seja, desde que a sua vontade seja uma boa vontade e ele não perca demasiado tempo com salamaleques; é que o touro, se puder, não perderá a oportunidade de lhe dar uma valente cornada.

15 de maio de 2012

E se a gente desempregasse o Pedro?

Ó caraças, o que eu gostava de o ver na fila do Centro de Emprego com uns papelitos na mão e a dizer aos seus parceiros – crises são oportunidades, crises são oportunidades, crises são oportunidades, crises são oportunidades, até que alguém, fartinho de o ouvir, lhe enfiasse um banano.

Mas isto é só um desabafo, porque o importante é perceber como ele mente quando diz que somos pouco empreendedores, e como é falaciosa a retórica sobre desenvolvimento e número de empresários.
Para isso vale a pena ler o post de 11 de Maio do blogue Esquerda Republicana em que se apresentam dados da OCDE relativos à taxa de trabalhadores por conta própria e onde se lê:

«E não é que Portugal é o quarto país da OCDE com mais «empreendedores», apenas ultrapassado pelo México, pela Turquia e pela Grécia? Sim, leram bem: a Grécia é o único país da UE com mais empreendedores que nós.
E os Estados Unidos da América, símbolo de uma nação rica que dá lições à Europa no que diz respeito à promoção do empreendedorismo, são o terceiro país da OCDE com menos empreendedores. Têm uma taxa de trabalhadores por conta própria cerca de três vezes menor que a portuguesa.»

Vale a pena ler tudo para percebermos melhor que o primeiro-ministro não sabe o que diz, ou mente descaradamente, quando fala desse tema chato e desinteressante que dá pelo nome de DESEMPREGO.
Gostava tanto que desempregássemos o Pedro, só mesmo para o ver a descobrir oportunidades que não fossem por conta do partido e da cunha dos amigos do partido. Seria uma novidade na vida dele.








14 de maio de 2012

Entre Fátima e Madrid

Ontem à hora de almoço, quando liguei a televisão para ver as notícias, os três canais generalistas estavam ainda a transmitir imagens de Fátima.

Lembrei-me que em 2010, com o Papa por cá, li isto, bem divertido, no blogue jugular:



O temor de um simples mortal

 A RTP 1 transmitia em directo as cerimónias de Fátima.
 A SIC transmitia em directo as cerimónias de Fátima.
 A TVI transmitia em directo as cerimónias de Fátima.
 A RTP África transmitia em directo as cerimónias de Fátima.
 A TSF transmitia em directo as cerimónias de Fátima.
 A Rádio Renascença transmitia em directo as cerimónias de Fátima.
Tive medo de ligar a torradeira.


Este ano estiveram em Fátima 300 000 pessoas, bateu-se o recorde de venda de velas, e isso diz muitíssimo sobre “o estado a que isto chegou” como diria o Salgueiro Maia.

Se há pouco tempo, e a propósito do Pingo Doce, escrevi aqui que por vezes me envergonho duma parte da sociedade portuguesa, o mesmo não sinto em relação a estes que peregrinam até Fátima.

Desprovida que sou de qualquer tipo de fé, tenho um profundo respeito por quem a tem convictamente, sem fundamentalismo ou desejo de conversão do próximo.
Este povo simples que reza, pede, agradece, promete, tem esperança e acredita é genuíno (embora passivo), e merece o meu respeito.

Isso não invalida que, no mesmo telejornal, eu me tenha sentido irmã, não dos meus compatriotas que se conformaram em Fátima, mas dos espanhóis que, inconformados, ocuparam a Puerta del Sol em Madrid.


11 de maio de 2012

Como está a Maria João?

Nas suas crónicas diárias no Público, Miguel Esteves Cardoso escreve amiúde sobre a doença da sua mulher. São escritos de amor e, parece-me, simultaneamente exercícios para exorcizar o medo. São tocantes de ternura, fragilidade, fé às vezes, humanidade.

Esta exposição pública da sua vida privada não choca. Ao contrário, vejo nela um acto de coragem. E, se esta forma de se dar pode corresponder a uma necessidade pessoal, estou certa de que também o transforma num companheiro de viagem de muitos outros que vivem a mesma situação.

E tudo é tão bem feito e escrito que a Maria João entrou definitivamente na nossa vida.
Talvez por isso, não é raro que dê comigo, nos dias em que não nos dá notícias dela, a pensar – como estará a Maria João?


10 de maio de 2012

À espera

Na Pluma Caprichosa do Expresso de 5 de Maio, Clara Ferreira Alves presta homenagem, recordando, ao seu amigo Miguel Portas.

“Trinta mil vezes” ele a deixou plantada durante horas, à espera, quando marcavam um encontro.

Há pessoas assim, incapazes de chegar à hora combinada seja em que situação for. Outras, pelo contrário, são incapazes de chegar atrasadas, e só ficam de bem consigo se chegarem um pouco antes, mesmo sabendo que as espera uma espera que às vezes as desespera.

Há na minha vida uma criatura muito querida e muito próxima que pertence à categoria dos atrasados e eu pertenço à categoria dos pontuais. Nem sempre a vida foi fácil com esta nossa “pequena” diferença.

Era normal ver os amigos que iam chegando e acabavam por formar um ruidoso grupo à porta, e à espera.

Um dia, um estrangeiro (um pragmático alemão) presenciou a cena e, perante o meu desconforto, disse-me: se eles esperam é porque acham que vale a pena.
Assim é. Na vida, não esperamos por todos, esperamos por quem (nos) vale a pena.


9 de maio de 2012

Onde pára o nosso lítio?

Aos doentes já deram vários nomes, que eu saiba – ciclotímicos, maníaco-depressivos e agora bipolares.

É do conhecimento geral que a doença se caracteriza por períodos de euforia e períodos de depressão, ou seja, há dias em que o doente assobia na rua e outros em que se mete na cama com a cabeça tapada, podendo a passagem de um estado ao outro ser bastante rápida.

Eu acho que o colectivo dos portugueses padece deste mal. Ora somos os maiores, ora nos achamos abaixo de cão. Basta ver a facilidade com que, por aqui, qualquer um passa de bstial a besta. Esta sintomatologia também se revela quando elegemos governos. Uns são eufóricos, e outros deprimidos.

O governo de Sócrates era um claro exemplo da primeira fase − pensamento positivo e em grande; ainda me lembro muito bem de o ouvir na televisão a afirmar poucos dias antes de chamar os troikos: “Portugal tem dinheiro, nós não precisamos de pedir ajuda externa”. Fase eufórica, portanto.

Seguiu-se o governo de Passos e passámos à segunda fase, a da depressão.
Começou por nos mandar empobrecer, depois mandou os nossos filhos emigrar e agora, mais recentemente, mandou que nos habituássemos a viver com elevada taxa de desemprego. Fase depressiva, óbvio.

Parece que esta doença, que já teve tantos nomes, é incurável, mas o doente pode ter uma vida estável se tomar, sem falhas, a sua dose diária de lítio (não sei se é a mesma coisa que se usa nas pilhas Duracell), mas sei que é lítio.

O que pergunto é se não haverá por aí quem abra a bocarra deste país e deite lá para dentro a dose certa de lítio, a ver se conseguimos fazer a nossa vidinha sem ataques de euforia nem de depressão? E pode ser mesmo um genérico, que sempre é mais barato, uma vez que comer pilhas deve ser indigesto.
É que esta doença não mata, mas é muito difícil de aturar.


8 de maio de 2012

Correr na relva

Nunca sabemos se o novo será melhor, pior, ou apenas diferente. Nem sequer sabemos se o novo será realmente novo.

Nunca saberemos se o que não foi seria o que dele esperávamos, e não é raro que o que é se revele diferente daquilo que era suposto ser.

Contudo, há momentos em que mudar é tudo o que queremos, e o novo traz de volta alguma leveza juvenil, limpa, clara, sem reservas.

Há momentos em que a mera mudança nos devolve uma esperança tão bem guardada que quase nem sabíamos que ainda dormia numa gaveta em nós.

As eleições em França e na Grécia abrem uma larga porta para dúvidas e conjecturas, mas também abriram uma pequena fresta dessa gaveta esquecida.

Algo se moveu e, por um momento, apenas um momento, saí do pântano e corri na relva com os pés descalços.

7 de maio de 2012

O Pedro, o Henrique e a escrita deles

Este post tem como real objectivo chamar a atenção para o excelente editorial de Pedro Santos Gurreiro publicado no Jornal de Negócios na semana passada.
É jornalismo de primeira, e eu gosto. Se faço este aviso é porque, no fim, pode já não se perceber isso muito bem, as conversas são como as cerejas e tal.

Acontece que eu também tenho uma costela masoquista, e assumo que todas as semanas leio gente que, sei-o antecipadamente, me vai deixar mal disposta.

É o caso de Henrique Raposo, rapaz endiabrado, cheio de “graça” e certezas.
As suas crónicas provam à saciedade que não é preciso ter berço para alinhar na direita parva; quando o assunto recai sobre a sua humilde família de origem, todo ele é doçura e ternura e sei lá, quase me comovo; quando fala do país oferece-nos uma taça de cinismo a boiar em graçola arrapazada.

Esta semana, escrevendo sobre o mesmo assunto que Pedro Santos Gurreiro, atira-se, mas a brincar, é sempre a brincar, a quem se indignou com a história Pingo Doce.
Esquerda caviar, diz, (como agora a direita gosta de dizer), que acharia normal uma fila para comprar um brinquedo da Apple, mas no fundo não suporta o povinho que só quer consumir barato.

Povinho esperto, o nosso. Os caviar, que por aqui também andam, é que são do piorio. Se, ao menos, o Raposo soubesse argumentar! Mas a única coisa que ele sabe é usar uma prosa chocarreira que deve achar de grande qualidade.

A minha costela masoquista, porém, não desgruda. Todas as semanas o leio e todas as semanas, quando acabo, só me apetece dizer-lhe:
Ó Henrique, vai-te catar.
E para a semana há mais.


6 de maio de 2012

E assim acontece

Todos os dias da minha vida sou mãe e sou filha.

Passo a passo, os filhos criaram asas e a mãe estendeu raízes.

Graças a eles, em cada dia que passa sou mais firme e voo mais alto.

No dia de ser mãe e filha, e todos os dias da minha vida.


Imagem: Nossa Senhora do Ó, Sé de Évora


4 de maio de 2012

Pensamento de rico em país de pobre

Cada vez percebo menos disto tudo. Depois de me terem azucrinado a cabeça durante anos dizendo que vivemos acima das nossas possibilidades, entra em vigor uma medida que não permite aos carros mais antigos e “poluentes” circularem na maior parte da cidade de Lisboa.
Qualidade do ar, dizem eles; diretivas europeias, dizem também.
Se bem conheço os portugueses, quem anda num carro de 1992 ou 1996, na maioria das vezes não o faz por amor ao objecto, mas porque não quis endividar-se para comprar outro, ou seja, não quis viver acima das suas possibilidades.

Aprendida a lição moralista, pensávamos agora que isso é que estava certo, mas, afinal, também não está, e o chicote está sempre pronto para usar nas costas dos mesmos.

Os nossos padrastos europeus, lá do alto das suas muito correctas inquietações dizem-nos: sofram, paguem as dívidas com o juro que nós quisermos, entreguem a casa ao banco, matem as galinhas poedeiras, comam da caridade e deitem fora a carripana.

Diretivas europeias, dizem os senhores da Câmara.
Pensaram em adiá-las mais um pouco? Sim, alguns pensaram, e até houve quem votasse contra a sua entrada em vigor.
Por o momento ser mau?
Ora, ora, santa ingenuidade. Não foi nada disso.
Foi apenas porque no Código da Estrada não há sinal para tal proibição.


3 de maio de 2012

Um dia lixado

Ontem foi um dia lixado.
Depois do Miguel Portas, "morre-me" o Fernando Lopes. Parece que a morte só se interessa pelos mesmos que eu, e estas afinidades perturbam-me.
Além disso, continuei a ver imagens do “caso” Pingo Doce.
O que vi e ouvi, também desmoraliza muito.
Quanto ao senhor Alexandre, neste momento (mas só neste momento) estou-me borrifando para ele; o que me machuca mesmo são as imagens terceiro-mundistas do interior e exterior dos supermercados.

A promoção levada a cabo pelo merceeiro, para além de hostilizar o dia do trabalhador, não tinha como alvo os pobres, porque esses não vão fazer compras superiores a 100 euros.

Por isso, quem acorreu foi uma classe média empobrecida mas não miserável, com emprego por agora, gananciosa, acéfala, sem um pingo de consciência cívica ou política, estupidificada pelo consumo e que, no mínimo, me deixa desconfortável quando a vejo na televisão.

Sem medo das palavras, ouso afirmar que em 2012 há uma parte da sociedade portuguesa de que me envergonho - aquela a quem falta dignidade e brio, aquela que acha normal a esmola em vez da mais básica justiça social

E isso torna-me também mais pobre, descrente, às vezes cínica, às vezes raivosa.
Não, eu não gosto nada disso.

2 de maio de 2012

Traída pelo defunto

Num exercício de puro mau gosto, Fernanda Câncio publicou no blogue jugular, o relato, análise e incómodos da sua ida ao velório de Miguel Portas.

Começa pelo sacrifício de estar meia hora à chuva e seguem-se as contrariedades.

Ao cumprimentar a família, que era o que queria fazer, teve também que cumprimentar “o comité” do Bloco.
Horrível! Homenagem ao Bloco! Dixit
Misturas destas não lhe cabem na cabeça, e, por isso, termina dizendo:

a mistura do pessoal e do político existia no miguel, claro. como, de algum modo, em todos nós. mas isto, não posso deixar de o dizer, caiu-me muito mal.

Ora que pena. Talvez um Guronsan ajudasse.
Resumindo, o morto fez-lhe uma afronta, já que sabemos que tudo foi pensado pelo Miguel.
E que não tivesse sido? Se a heterodoxa família Portas ali esteve com os dirigentes do Bloco foi porque entendeu que assim devia ser, com razões que são suas e não são da nossa conta.

Ir a um velório é um acto público – só vamos se queremos, só cumprimentamos quem queremos, e é de bom-tom não criticar em público as opções e disposições tomada, para o momento, pelos protagonistas.

Um pouco de humildade, de respeito e de aceitação da diferença, não fariam mal a Fernanda Câncio.
Se tais “dotes” tivesse, poderia ter encontrado ali apenas a Helena, o Nuno, o Paulo, a Catarina, o Francisco, o Luís, o João e, com todos eles, ter sentido a fragilidade e pequenez que todo o ser humano sente quando a morte vem buscar alguém que amamos.
Mas não, ela só viu o Bloco - ódio de estimação.

Fernanda Câncio devia experimentar tomar a família Portas como referência de tolerância e união, mas também de fractura com as normas convencionadas duma burguesia urbana mas parola.
E devia fazê-lo não só para os velórios, mas para a VIDA.


1 de maio de 2012