30 de dezembro de 2011

Princesas e desempregados

No dia 4 de Maio 2011 publiquei um pequeno post sobre o hobby de fazer plásticas que Letízia Ortiz adquiriu, enquanto o número de desempregados em Espanha ia subindo, e já era de 5 milhões na altura.

Nunca imaginei que a realeza tivesse tanta procura. Passados todos estes meses, continua a ser um dos meus escritos mais vistos, o que quer dizer que a procura no Google é grande.
Em verdade se diga que o maior número de pesquisas vem do Brasil e vem às revoadas, ou seja, há dias de acalmia e dias de loucura. Presumo que isso tenha que ver com as notícias que vão saindo na imprensa cor-de-rosa, mas só presumo.

Pesquisa-se sobre o biquíni, as mãos, as brigas com a sogra e as cunhadas, as fotos do Natal, o casamento malparado e eu, confesso, acho muito esquisito estar metida no meio disto só por ter um blog(uinho) que fala quase sempre de política.
Certo é que ninguém me mandou misturar alhos com bugalhos, neste caso, princesas com desempregados.

Agora já aprendi que há temas que não se devem misturar sob pena de estar a defraudar o incauto leitor, se não mesmo a fazê-lo perder o seu belo tempo que podia e devia ser, exclusivamente, gasto com as princesas.
Os desempregados formam um grupo chato e não pesquisável, ao contrário das princesas.
Aprendi.

29 de dezembro de 2011

Dores

No blogue pegada, Luís Moreira escreve sobre a falta de planeamento no Serviço Nacional de Saúde e os seus malefícios.
Ao que ele escreve, eu acrescentaria “desvios”, corporativismos, má gestão e abusos graves da parte de todos – prestadores do serviço e seus utentes.

O nosso SNS foi-se tornando, em 30 anos, a menina dos nossos olhos, com médicos e outro técnicos competentes e atualizados, tecnologia moderna, atendimento universal e quase gratuito.
Era algo de que todos nos orgulhávamos e que, na generalidade, merecia a nossa confiança, mas estamos agora a começar a despedirmo-nos dele tal como o conhecemos.
Acredito que se pudesse fazer o mesmo com menos, mas dizer que se vai fazer “mais com menos” é demagogia rasteira e relapsa, e o resultado está a começar a aparecer.

Como já disse, acho que desperdícios e abusos são da responsabilidade de todos, tendo-se tornado os utentes, ao longo dos anos, tão abusadores como os restantes agentes envolvidos.
Mas esse é o meu lado da barricada, e por isso me sinto à vontade para contar esta história verídica e bem ilustrativa do que digo.

Passou-se nos Açores, não interessa em que ilha, mas poderia passar-se em qualquer ponto do país.
Às 3 horas da madrugada os bombeiros recebem uma chamada dum homem que pede para o irem buscar porque está muito doente. Tentam saber o que sente mas o homem apenas repete que está muito mal.

Os bombeiros iniciam uma viagem de 30 quilómetros (por estradas açorianas correspondem a uma muito razoável viagem) e, chegados ao local, um homem abre a porta e identifica-se como sendo o doente urgente.
Quando os bombeiros perguntam o que sente responde com prontidão:
− Dói-me um dente.

Oxalá daqui em diante não nos doa mais que a alma, porque os padres ainda não cobram pela confissão mas os bombeiros já não têm dinheiro para o transporte.

28 de dezembro de 2011

Cupidez alemã

Na nossa imparável marcha para vendermos os dedos depois dos anéis, a EDP lá foi vendida aos chineses. O governo disse que ia privatizar, mas apenas mentiu mais uma vez; aquilo foi apenas a venda dum Estado a outro Estado.

Não lamento a venda à China, apenas lamento a própria venda.

Todos temos alguma desconfiança em relação à China, e eu não sou exceção. Sabemos que é um gigante, que crescerá cada vez mais, que em breve será o país mais poderoso do mundo, mas também sabemos que é uma ditadura de partido único, dito comunista, onde vigora o mais puro dos capitalismos selvagens. Tudo, portanto, um pouco estranho e muito, muito assustador.

Porém, fiquei contente por a venda não se ter feito à alemã E.ON.
As políticas punitivas e de miséria que a Alemanha nos impõe, mais os juros usurários que nos cobra, devem ter levado os alemães a pensar que aos miseráveis, aos famintos e aos sem esperança se compra tudo por bom preço e que, chegando a hora, eles abocanhariam a EDP por tuta e meia.

O chairman da E.ON, de seu nome Teyssen, chegou a dizer que “a criação de valor do investimento na EDP não justificava um aumento da oferta”.
Pois! Estão verdes… E eles só nos queriam fazer um favor.

Fico desconfortável com os chineses na EDP?
Fico.
E se fossem os alemães?
Bom, se fossem os alemães também.
A verdade é que, hoje em dia, confio tanto num membro da União a que pertencemos como num chinês.

27 de dezembro de 2011

Elites saloias








A Fundação Champalimaud foi criada por um doador português, a sua presidente é portuguesa, a sua sede é em Lisboa, capital da República onde se fala português, língua falada também, e em números redondos, por mais 250 milhões de almas em cinco continentes.

Porém, a identificar o edifício pode ver-se escrito, como a imagem o comprova - CHAMPALIMAUD CENTRE FOR THE UNKNOWN.
Mais adiante, como a imagem também o comprova, lê-se Champalimaud Centre.

Nada tenho contra a identificação em inglês dum Centro que se pretende internacional, mas achava natural que a identificação viesse em português e também em inglês. Contudo, de português, nem sombra.

Sinais de soberba saloia, estes de tão apressadamente abandonarmos  o nosso mais poderoso aglutinador – a língua.
Rejeitar a língua em que todos nos entendemos substituindo-a por outra (que é franca mas não deixa de ser outra) é rejeitar, à partida, uma parte de nós, é empurrar para baixo achando, levianamente, que se está a empurrar para cima.

O pensamento das nossas elites é, demasiadas vezes, tosco e apagado.
Nelas, só a ambição individual é grande.

26 de dezembro de 2011

A ver os comboios parados

Em época de Festas, os maquinistas da CP ofereceram uma bofetada e uma cuspidela aos portugueses pobres que queriam ir a casa no Natal.

Só os trabalhadores realmente pobres e deslocados foram seriamente afetados. Os outros, resolveram com outros meios.
IMPERDOÁVEL.

23 de dezembro de 2011

Faz de conta que é um conto

Natalino não era isento de defeitos, mas também não era um homem sem qualidades.
Era banal.
Nem alto nem baixo, nem gordo nem magro, nem novo nem velho, nem bonito nem feio. Tinha família, trabalho, um T2 acanhado, uma gabardina para os dias de chuva, um blusão para os dias amenos, um bigode aparado ao domingo, uns sapatos para a semana e outros para os dias santos.
Português típico, portanto, porque tinha dois pares de sapatos podendo e devendo ter só um.
Funcionário sem rasgos, sem angústias, sem paixões, amava pai e mãe, mulher e filhos com amor comedido, nem grande nem pequeno, nem quente nem frio. Banal amor parental que, nem muitas nem poucas vezes, o levava a desejar ser sozinho, livre, sem compromissos nem dependências penduradas na aba do casaco. O pior era o jantar, raio, quem é que depois lhe faria o jantar?

Em sonhos voava baixinho; só um deles o fazia voar longe e alto como um grou – o que eu gostava de ver uma aurora boreal, o maior espectáculo do mundo.
Sonhou no sono, sonhou na vigília, e até estranhou tão estranho e persistente sonho.
Achava, puro engano, que nunca tinha vivido acima das suas possibilidades e ponderou seriamente fazê-lo por uma vez.

P’ro Alasca e em força, Natalino, gritou calado na Portela num dia de Outono, cego com sol baixo do sul.
Na viagem, entre pratos e copos de plástico, a perna do vizinho e o jornal desfeito, dava palmadinhas na barriga, satisfeito, antevendo a enormidade do espaço, do tempo e da liberdade. Tudo seu.

Quando a tão esperada noite limpa chegou, com luzes de todas as cores voando-lhe sobre a cabeça, no meio dum encantamento pueril, perguntou gritando - Digam lá se não é mesmo o maior espectáculo que já viram?!
Ali não havia montanha, nem eco; apenas o mais imaculado e eloquente silêncio que já ouvira. De súbito, sentiu que aquele espaço, tempo e liberdade talvez fossem, afinal, demasiado grandes e agrestes. Pela primeira vez, sentiu frio, um frio às avessas, que vinha de dentro para fora.

Na viagem de regresso, já sem palmadinhas na barriga nem jornal desfeito, mas ainda com a perna do vizinho, os grafos que não espetam e as facas que não cortam, lembrou-se dum escritor esquisito. Quando o leu, há muito tempo, pensou, “mariquices”, mas afinal o esquisito talvez tivesse razão.
Quem era o homem e que é ele dizia mesmo, Natalino? Agora não me lembro mas com tanta lonjura tenho tempo de me lembrar.

Ao acordar, torcido, seco, e cheio de dores pela espinha toda, senhora hospedeira, por favor, um copinho de água, ah! já sei, era o tal Beckett que dizia A estrada é longa quando viajamos sós.”
Vamos lá, senhor comandante, prego a fundo, estou cansado, o vento está de feição e daqui a pouco é Natal.

22 de dezembro de 2011

Aprender a escrever, de novo

Em 11 de Fevereiro 2011, publiquei neste blogue um post sobre o Acordo Ortográfico mas, quem me leu de Fevereiro a Dezembro, percebeu que acabei por não obedecer nem ao computador nem ao Acordo.

Sei que a escrita já mudou muitas vezes e ainda mudará muitas mais mas, sinceramente, não vejo a utilidade deste acordo que serve, supostamente, para aproximar as escritas de Portugal e Brasil quando, de facto, o que nos separa, e dificulta o entendimento, é o léxico, e muitas vezes a sintaxe e a morfologia. (Daí os brasileiros já legendarem os filmes portugueses).

No que toca à ortografia em si, também não se percebe que raio de “unificação” é esta que permite milhares de grafias diferentes entre a variante europeia e a brasileira.

Tendo resistido, até aqui, ao uso da nova grafia, parece que não terei outro remédio senão adoptá-la (ou adotá-la), porque é oficial – em Janeiro (ou janeiro) entregaremos o ouro ao bandido (entenda-se aqui ouro como a língua portuguesa e bandido o negociador medíocre).

Trata-se, portanto, de encerrar o ciclo da resistência, o que talvez até nem seja mau de todo; talvez seja sensato que se guardem as forças de “resistência” para a outras coisas bem mais importantes e urgentes que um apalermado Acordo Ortográfico.


Nota: No Portal da Língua portuguesa encontra-se o Vocabulário da Mudança, que pode ser útil a todos no início deste tempo em que teremos que aprender a escrever, de novo.

21 de dezembro de 2011

Submarino ao fundo

Segundo notícia do Público de ontem, terminou na Alemanha o processo contra a Ferrostaal, empresa que vendeu submarinos a Portugal e Grécia. A empresa (que reconheceu as práticas ilegais) bem como dois seus ex-gestores, foram condenados, e deu-se como provado que gastaram 62 milhões de euros, entre 2000 e 2003, a corromper alguém nos dois países.

O tribunal também deu como provado que os mesmos senhores pagaram como suborno 1,6 milhões de euros ao ex-cônsul honorário de Portugal em Munique, Juergen Adolff.

Bom, mas aqui, como diria o outro, é só fazer as contas: se o sr. Juergen Adolff recebeu 1,6 milhões dum total de 62 milhões, ainda sobram 60,4 milhões. Para onde foram? Mesmo admitindo que os corrompidos gregos são mais caros que os portugueses, parece lícito admitir, como mera hipótese teórica, que alguns milhões terão servido para corromper alguns portugueses no tempo do governo Durão/Portas.

Este meu raciocínio – se há corruptores, há corrompidos e seria bom investigar, deve ser completamente estúpido; tanto quanto sei, o nosso Ministério Público não entendeu nada disso e apenas tem a decorrer um processo relacionado com as prometidas contrapartidas alemãs.
Entende-se. É apenas uma questão de submarinos.
Ainda se houvesse robalos!

  

20 de dezembro de 2011

"A Natureza-Morta na Europa

Já não há muito tempo para ver esta imperdível exposição que o Museu Calouste Gulbenkiam exibe só até 8 de Janeiro 2012.

Com obras que vão de 1840 a 1955, não é todos os dias que podemos ver originais de Van Gogh, Cézanne, Magritte, Monet, Manet, Matisse, Juan Gris, Renoir, Picasso ou Braque.

Quanto à organização da exposição, pode ler-se no desdobrável (gratuito) que a acompanha:

A mostra não está organizada cronologicamente. Preferiu-se uma distribuição por temas, abordados em doze núcleos que exploram a diversidade de representação das “coisas”, deixando a escolha de um itinerário ao visitante.

Talvez por haver muito público, e a circulação não ser fácil, fica-me a dúvida se esta opção terá sido a melhor. Nada de novo, portanto; as opções do curador são sempre tão discutíveis como importantes para a leitura da exposição.

O público é muito e de todas as idades, felizmente, pelo que, a fila para entrar custou-me cerca de meia hora. Nos últimos dias promete ser pior.

Poderia agora puxar para aqui velhos lugares-comuns referindo a importância do “alimento do espírito” na dureza dos dias. Não o vou fazer.
Só que, por acaso, é mesmo verdade.


19 de dezembro de 2011

As meninas e as suas crónicas

Quando digo que nunca vi, nem passei perto, da Casa dos Segredos, as pessoas dividem-se em três grupos:
- As que acham que estou a mentir
- As que acham que sou snobe
- As que acham que estou a mentir e sou snobe.

Porém, é completamente verdade. A partir do primeiro Big Brother, percebi que, no género, as coisas só podiam piorar, e passei a seguir à letra a resposta que os liberais gostam de dar: ninguém é obrigado a ver, é só mudar de canal. Assim faço, mas ninguém acredita.

Contudo, também tenho a minha costela masoquista, que me leva a ler, todas as semanas, as crónicas de Ana Markl e de Inês Lopes Gonçalves, no Atual do Expresso.

A primeira baptizou a sua coluna de Procrastino Amanhã, o que me devia fazer logo procrastinar a leitura; mas não, teimo em meter-me por dentro daquilo que talvez seja “cultura pop”, sei lá, não tenho a certeza, ainda não percebi.
A segunda dedica-se à televisão, em crónicas ligeiríssimas sobre programas de alto gabarito, ao que me parece.

Ambas pretendem ser modernas, mordazes nas suas veladas ou claras críticas, mas cá a mim parece-me que estão a escrever um blogue dirigido a uma faixa etária que vai dos 18 aos 30.
Se a ideia é essa, juro que encontro na internet uma mão cheia de gente que o faz melhor; se a ideia não é essa…então, não sei qual será.

Porque continuo a lê-las todas as semanas? Bom, talvez eu não seja só masoquista; talvez esteja a torcer para que melhorem e sejam sinal duma nova geração de mulheres jornalistas com escrita forte e pensamento estruturado.

Ainda não aconteceu, mas nem por isso perco a esperança.
Força meninas, ao trabalho.
Eu, cota, vou continuar a autoflagelação até que um dia, que não hoje, as possa aplaudir.

18 de dezembro de 2011

Repulsa

Já é segunda vez que nos mandam emigrar. Desta vez foi o primeiro-ministro em recado aos professores.

Único sentimento possível: repulsa, por um governo que está morto por se livrar da nova geração, ou seja, morto por se livrar do futuro.

Este governo é doente, psicótico, autista, maníaco e desumano.

Já não basta a desgraça de termos caído num buraco, ainda faltava o salva-vidas a empurrar para baixo.

Repulsa e nojo por este governo. O tempo da indignação, já foi.

17 de dezembro de 2011

Ó p'ra ele


















Expressão e enquadramento.

Eu não resisti a rapinar esta imagem do Público de ontem, pensando no delicioso percurso deste homem: de jornalista traulireiro a homem da lavoura, de ministro dos submarinos a Paulinho das feiras e daí para Ministro dos Negócios Estrangeiros e Homem de Estado.
Um dia se fará a história.
Fará?

16 de dezembro de 2011

"O Chalet da Memória"

“ A seriedade moral na vida pública é como a pornografia, difícil de descrever mas imediatamente identificável quando a vemos.”, diz Tony Judt neste livrinho.  Já imobilizado, vai abrindo gavetas da sua memória e dita pequenos ensaios sobre o que o que viveu e pensou. Os temas são tão variados como: Maio 68, Comida, Crise da Meia-idade; Kibbutz, Cambridge ou Comboios.

Delicioso, para maiores de 50.


15 de dezembro de 2011

Lixo para debaixo do tapete

Segundo li há dias, o novo governo espanhol de Mariano Rajoy prepara-se para aceitar a prestimosa sugestão de BCE para baixar o salário mínimo em Espanha, que é actualmente de 641 euros, para 400 euros.
Estou mortinha por ver como vão os espanhóis responder a isto. Espanhol “tem pelo na venta”, não é cordeiro manso como o português, daí a minha curiosidade pela sua reacção se se vier a confirmar a redução do salário mínimo.

Ao contrário do que costumo ler por aí, parece-me que, dentro desta crise, e quando há eleições, os povos não querem simplesmente castigar o governo que está, querem mudar seja para o que for. Se o governo é de “esquerda” socialista, muda-se para o de direita e, com o passar do tempo, estou convencida que a maioria dos governos de direita que têm governado o continente europeu, quando tiverem eleições cairá também, optando os eleitores pelos que se dizem de esquerda, seja lá isso o que for.

Mudar, mudar, é só o que as pessoas querem, não prestando grande atenção ao que a mudança trará no ventre.
As viragens à direita nos casos de Portugal, Espanha ou Reino Unido deviam vir com o slogan – “Os Pobres que Paguem a Crise”, para que ninguém fosse ao engano.

Mas isto só se aplicaria aos que ainda ganham alguma coisa, pois os que perderam tudo e caíram na rua estão a ser tratados como lixo que se empurra para debaixo do tapete, como acontece em Marselha, Hamburgo e na Hungria.

A governação europeia pode, hoje em dia, resumir-se em três simples decisões:
Os pobres pagarão a crise, o lixo varre-se para debaixo do tapete mas salvaremos a City!


Nota: foto retirado do blogue ESQUERDA.NET com link neste post.

14 de dezembro de 2011

Íntimos conflitos

Na cultura de esquerda, em que julgo incluir-me, entende-se que ninguém deve precisar de pedir esmola. Os que são menos capazes de tomar conta de si (que os há em todas as sociedades e não são meros preguiçosos) devem poder contar com estruturas de apoio criadas pelo Estado, isto é, todos nós, quer para as necessidades mais imediatas, quer para ajudar a restruturar a vida e a criar uma via autónoma para ela.

A esmola, sempre a entendi como a humilhação do pedinte e um acto de alívio da consciência do próprio doador.
Caridade, irmã consanguínea da desigualdade

Durante anos, num Portugal democrático que foi construindo o seu estado social, pude conviver pacificamente com estas convicções, até porque o confirmava observando vizinhos que, sendo bastante pobres, tinham o básico para uma subsistência digna recorrendo a algum trabalho (o possível), mas também a apoios que a sociedade lhes disponibilizava.

Pagando todos os impostos que me cabiam, foram anos felizes, sem conflitos entre a consciência e o seu mero alívio.
Os tempos mudaram e os pedintes são cada vez mais nas ruas das nossas cidades. Calculo que a situação irá ainda piorar, e aqui estou eu, de novo, com os meus dilemas esquerdistas.

Mais frequentemente do que julgaria possível, dou comigo a procurar uma moeda para dar a alguém. Como os escolho entre tantos? Não sei, é um mistério para mim; fico mais bem-disposta com a acção praticada? Nem por sombras.

E vêm-me à memória palavras de Ian McEwan em “A Criança no Tempo”:

Não dar implicava um certo afastamento de olhos do infortúnio privado.
A arte de mal governar consistia em cortar o cordão entre actuação pública e sentimento íntimo, o instinto do que estava certo.

13 de dezembro de 2011

"Um Método Perigoso"

Como não sou uma Cronenbergiana, ao contrário dos que o são, achei “ Um Método Perigoso” um filme não apenas bom, mas perfeito.

Sendo uma adaptação duma peça de teatro, há nele, de facto, qualquer coisa de teatral, o que não me impede de o achar um filme belíssimo, denso e inquietante.

Da direcção de actores à reconstituição de ambientes da Belle Époque, da luz aos figurinos (ai os vestidos brancos da Keira Knightley) dos diálogos às interpretações, tudo tem o charme discreto da perfeição.

Se o filme parece plácido, é puro engano. Por baixo da aparência fervilha o mundo das contradições e pulsões do ser humano, nas pessoas de dois homens que a partir do início do século XX influenciaram de maneira drástica a forma de ver as pessoas, a sociedade, a religião, o sexo, as perturbações mentais – Sigmund Freud e Carl Jung.

Estes dois homens, que criam uma amizade e sintonia de pensamento que, aos poucos, se vai esboroando, são encarnados na tela por dois actores, Viggo Mortensen e Michael Fassbender, que nunca se afastam da excelência no seu trabalho. Já Keira Knightley, no papel de Sabina Spielrein, fica muito lá para trás como, subjectiva opinião minha, é claro, sempre acontece.
(Ela parece não saber o que fazer com tanto maxilar inferior).

Há quem goste, e quem saia desiludido. Para mim, é um dos grandes filmes do ano. Mas eu não sou Cronenbergiana, já disse.

12 de dezembro de 2011

Facebook

Ser figura pública no Facebook é ter o ego permanentemente no spa.
Ele (ou ela) levanta-se de manhã, escreve "bom dia" e tem logo 200 Gosto.
Se insinuar que está vagamente aborrecido tem 100 comentários a animar (que isso sempre dá um pouco mais de trabalho e pede investimento).
Se fizer anos, é felicitado por metade do país. Se tiver uma obra em gestação já tem 500 Gosto antes de se saber o que sairá dali.
Salamaleque, salamaleque, salamaleque.

Como, por lá, a privacidade é uma batata, a gente pode saltar do amigo para o amigo do amigo do amigo, sempre por aí afora, e ficamos a saber o que cada um quiser dizer da sua vida, mesmo que não façamos a menor ideia de quem seja a criatura.
É isso que eu faço, e assim me divirto, porque no Facebook sou uma verdadeira misantropa – 59 "amigos", imagine-se.

Opto, então, por saltitar e assim percebo que há alguns “amigos” e amigos dos amigos que só publicam política, e fazem do FB um verdadeiro e militante palanque partidário; outros, só falam de futebol; outros, devem passar o dia agarrados ao YouTube a descobrir o vídeo mais giro de todos e que ainda ninguém viu; outros, gostam de frases que aconchegam a alma; outros, publicam fotos do seu presente e passado; outros, entregam-se aos astros e seja o que os astros quiserem (são os do futuro); outros, só lhes interessa a moda e o físico; outros são mudos, isto é, não publicam uma linha e só temos notícias deles porque “são agora amigos de fulano e beltrano e sicrano”.

O Facebook é um livro aberto ao estudo psicossociológico.
Deuses, o que eu tenho perdido por só me ter "matriculado" há uns meses.