29 de maio de 2013

O incorruptível contra a corrupção

Paulo Morais é figura incontornável das redes sociais. Ele escreve e as pessoas partilham.

Não sei muito sobre este português, a não ser o que li aqui, mas parece-me que tomou a peito travar uma inquebrantável luta contra a corrupção.

Só tem um problema, para mim: é que essa luta parece ser travada contra a corrupção real, a putativa e a imaginada.
O seu artigo de ontem no Correio da Manhã é, como outros, todo um exercício prático sobre a teoria da conspiração, e um elencar de males que o destino nos reserva.
Contra o destino, como se sabe, nada podemos.

Ler sistematicamente Paulo Morais pode levar qualquer cidadão a:
- Cortar os pulsos.
- Tomar drogas duras tipo Valium ou Xanax, e outras cujo nome desconheço, por incapacidade de conciliar o sono.
- Sair de casa sempre armado porque nunca se sabe quando se vai encontrar um corrupto ou uma despesa inútil.

Porém, atenção, caros compatriotas: quem entrar por estes caminhos não verá, como eu tenciono ver, Paulo Morais chegar primeiro a secretário de estado, e, lá mais para a frente, a ministro, que ele ainda é novo e como se diz na minha terra, “faz-se”.

28 de maio de 2013

Trindade santíssima

Estava o Ministro dos Negócios Estrangeiros dum sítio sem liquidez às voltas com o magno problema de saber como resolver, sem cheta, a questão da representação do sítio na Bienal mais famosa da Europa quando lhe surge, vinda do tudo, a artista Joana que lhe diz duma assentada:

- Olhe, senhor ministro, aqui no sítio, como toda a gente sabe, “a artista sou eu” e eu quero ajudar a resolver o seu problema; por isso desde já me ofereço para representar a pátria lá na Bienal e o senhor ministro pode deixar de se preocupar que eu arranjo os patrocínios e tudo. Só lhe peço que indigite também o Miguel como comissário do nada, porque ele é um comissário muito lá de casa, sabe, e gostava.

Como todo o sítio já pôde observar, tudo em Joana é grande, incluindo o coração de talheres de plástico, e por isso ela acrescentou palavras vindas do dito:

− E olhe que ainda lhe faço mais uma atençãozinha, porque vou oferecer à sua mana Catarina a loja no deck do barquito para ela lá vender as bugigangas da A Vida portuguesa.

O Ministro dos Negócios Estrangeiros soltou um suspiro que se ouviu na laguna e fechou o dossiê, não sem antes agradecer a mais que certa intervenção de Nossa Senhora de Fátima (este ministro, quando a coisa mete água e barcos agradece-lhe sempre, desde que em 2003, sendo também ministro, a mesma Senhora nos livrou do derrame de crude do Prestige, segundo o próprio).

Pessoalmente acho que, com um final feliz assim, o país inteiro deve agradecer à Senhora de Fátima mas eu não ficaria bem com a minha consciência se não lhe recomendasse também muito cuidado e olho vivo.

É que, sendo ela tão portuguesa, arrisca-se a que a Catarina a meta no cacilheiro e a venda em Veneza entre vinhos, enchidos, bordados e andorinhas.
Ou que a Joana a forre com renda de bilros.

PS: acho tudo uma vergonha.


27 de maio de 2013

Jornalismo de investigação

Quando há poucos anos o WikiLeaks fez o seu estrondoso aparecimento nas nossas vidas, sob o aplauso quase geral dos jornalistas e ocupando imenso espaço na informação, não percebi tanto entusiasmo sem pitada de dúvida.

Sem negar a relevância da informação exposta, sempre me pareceu que ela tinha sido obtida como quem espreita o vizinho pelo buraquinho na parede.

Se calhar, até hoje ainda não percebi nada, visto que, até hoje, continuo a achar a mesmíssima coisa.

Ora, essa mesmíssima coisa não aconteceu quando este fim de semana, através do Expresso, tomei conhecimento da existência duma organização de jornalistas que dá pelo nome de International Consortium of Investigative Journalists (ICIJ).

Com sede em Washington, congrega 160 jornalistas de 60 países e está a fazer um importante trabalho sobre offshores, seus criadores e utilizadores.

Esta organização dedica-se ao sector (talvez) mais nobre do jornalismo − o jornalismo de investigação, cada vez mais escasso nos meios de comunicação social de todo o mundo.

Rui Araújo, jornalista português pertencente ao ICIJ desde o seu início, afirma no Expresso – “sem jornalismo não há democracia”, e eu acho que sem jornalismo de investigação ela fica pobrezita e periclitante.

Provavelmente, esta escassez de jornalismo de investigação tem que ver com o seu elevado custo face ao baixo interesse do chamado “público”, que, na sua imensa maioria, e cada vez mais, se está borrifando para a investigação e a informação séria e rigorosa.

Sei muito bem que o que estou para aqui a escrever também não interessa nada ao estimado “público”; por isso este post serve apenas para dizer que gostei muito de tomar conhecimento da existência do International Consortium of Investigative Journalists (ICIJ), e que, às vezes, gosto mesmo de ainda gastar dinheiro a comprar jornais.

24 de maio de 2013

A dona da greve

Ontem vi na televisão Ana Avoila, de CGTP, a dizer que marca a greve da função pública quando quiser e não tem que dar contas a ninguém, naquele jeito um bocado labrego que lhe é peculiar.

Quando ela desapareceu do ecrã fiquei a pensar que já não me basta indignar-me diariamente com o governo, com a oposição, com o Presidente da República, com a Justiça, com os bancos, com a Europa etc., ainda tenho de passar a indignar-me também com os sindicalistas. Malapata.

As Avoilas que povoam os nossos sindicatos são, mais ou menos, como os jotinhas, isto é, fazem toda a sua vida dentro da organização que os sustenta, vão ganhando poder, e quando já ocupam lugares com poder de decisão também não se atrapalham - decidem de acordo com o parecer do seu umbigo, indiferentes a uma realidade que desconhecem porque não a frequentam.

Ana Avoila é apenas mais uma que parece não entender nada do sentimento dos portugueses que ainda têm trabalho, e que querem uma greve tão grande quanto possível, para que tenha significado, peso político, e para que valha a pena o sacrifício que fazem e o que impõem.

Ana Avoila quer apenas a sua grevezinha, por si decidida e manobrada.
Ana Avoila é poucochinha.
Ana Avoila, a sindicalista, está tão impreparada para o tempo que vivemos como o governo.
Ana Avoila está há demasiados anos sem trabalhar.
Está só no sindicato.


23 de maio de 2013

Quem sai aos seus...

A entrevista que o pai de Passos Coelho deu ontem ao i é todo um programa do que não se deve dizer e, bem pior, do que não se deve ser.

Falta de tacto, de inteligência, de respeito, de chá, de carácter, mas muita vontade de ter os seus quinze minutos de fama.

Com um pai assim, um filho poderia ser diferente daquele que conhecemos?
Podia, mas era necessária, ao longo dos anos de educação, a intervenção e inspiração divinas de Nossa Senhora de Fátima, o que, manifestamente, não aconteceu.
Merecem-se.


22 de maio de 2013

Ó meus, é tudo para partir!

















Canoagem "chocada" com "corte cego" de 20 por cento no alto rendimento


Eu não percebo porque é que ainda se chocam. Estavam à espera que o quintal deles fosse poupado? Ainda não perceberam que é tudo para partir?
Que é para voltarmos a ser pobrezinhos, analfabetos, doentes e, ainda por cima, agradecidos?

Ó raios, tem povo que é cego.

21 de maio de 2013

Um cascudo no Cascada, ou a Alemanha na Eurovisão

Como a maioria dos portugueses, julgo, não pus nem um olho nem um ouvido no Festival da Eurovisão. Porém, ontem li uma divertida notícia no Público. Parece que a Alemanha foi olimpicamente ignorada por 34 países dum conjunto de 39, donde resultou uma classificação fraca e que produziu desconforto em quem se julgava favorito.

Thomas Schreiber, coordenador da estação de televisão pública ARD, comentou que “há obviamente uma situação política a ter em conta. Não quero dizer que foram 18 pontos para Merkel, mas temos de ter noção de que não foram apenas os Cascada [a banda concorrente] a serem julgados naquele palco, mas toda a Alemanha”, comentou, citado pela agência Reuters.
“É inexplicável”, disse o comentador Peter Urban. “Será que as pessoas não gostam de nós?”, perguntou Urban, antes de responder “há alguma verdade nisso.”

Foi bom rir com esta notícia, imaginando os alemães com uma casca de ovo na cabeça, armados em Calimero, choramingando que “é uma injustiça”.

Percebo que depois de intoxicados com a propaganda da Merkel e companhia, que lhes enfiou pelas goelas abaixo a ideia de que somos preguiçosos e que eles estão a gastar imenso dinheirinho connosco, não percebam o desamor demonstrado (coisa que nem sei se foi verdadeira mas, pelo menos, os homens citados sentiram com tal).

Não tenho muitas esperanças, mas gostava que, aos poucos, o povo alemão fosse deixando de acreditar em tudo, mas absolutamente tudo, o que os políticos lhe dizem.
Até porque já se viu que isso pode dar maus resultados.


20 de maio de 2013

Às vezes, o que se escreve é triste

No Expresso online de ontem, Henrique Monteiro compara os chorudos salários e prémios duma gestora do falido Banif, em que o povinho meteu recentemente 1100 milhões de euros, com os disparatados salários dos treinadores de futebol, e pretende dizer-nos que é tudo igual, só que nós, pobres tontos, nem damos por isso.

Ora, acontece que não é tudo igual.

O falido Banif e a sua gestora Conceição Leal, não fizeram nada por ninguém a não ser por si próprios; quanto aos clubes de futebol, se é certo que pagam salários extravagantes e que também vão recebendo apoios do Estado, não é menos certo que, melhor ou pior, e com muito desporto gratuito para crianças e jovens, os vão retribuindo à sociedade.

Os clubes não são só futebol, longe disso, embora o dinheiro venha, sobretudo, do que o futebol conseguir gerar.

Querer comparar o retorno do trabalho de Conceição Leal, que foi um desastre, com o retorno do trabalho de Jesus ou Pereira é mais ou menos o mesmo que querer “comparar o cu com a feira de Borba”.

A importância social do Banif não é comparável à do Benfica, Porto, Sporting ou mesmo do Clube da Ervilha.
Henrique Monteiro sabe-o melhor que eu, mas deve achar que ser populista não tem mal, desde que o seja com os ordenados do futebol que toda a gente critica porque são, de facto, criticáveis.
E se, pelo meio, der um ar de esperteza e de homem que vê mais longe do que os outros todos, tanto melhor.
Não, futebol não é santo, como já vi por aí, e pratica salários pornográficos, mas não, também, Henrique, não é a mesma coisa.

Quem está interessado em branquear a banca e os bancários de luxo que tanto agradam aos banqueiros, usando candidamente os seus próprios (deles) argumentos?

 

16 de maio de 2013

Estão à espera do quê para fazer a revolução?

Hoje de manhã, na Antena 1, ouvi apenas o final do comentário político semanal de Octávio Teixeira. Dizia ele que o povo precisava de reagir rapidamente contra esta indignidade – não sei qual era mas, tanto faz… era só mais uma.

Parece-me que há estudos que já provaram que, quanto mais se humilha  um povo e mais direitos se lhe retira, mais difícil fica que aconteça a sua revolta. Na prática, temos o exemplo da Grécia, que começou com uma violente reacção à austeridade e, passados 5 anos, está sem reacção nenhuma, como um cordeirinho na Páscoa.

Assim, do povo, preocupado com a subsistência no dia-a-dia, não me parece que se possa esperar grande reacção; porém, ainda que mal pergunte, o PCP, a que Octávio Teixeira pertence, não continua a definir-se  como um partido operário e REVOLUCIONÁRIO ?

Então, estão à espera de quê para fazer a revolução, ó camaradas?
Que o povo se levante, é? E depois, vão à frente ou atrás do povo?

Fartinha de conversa de chacha e sem inspiração divina para os continuar a ouvir.

15 de maio de 2013

Algumas (poucas) convicções


 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Todos somos donos do nosso corpo.

As decisões que sobre ele tomamos são, na sua maioria, do foro íntimo e assim devem permanecer.

Na vida, controlamos muito pouco, bem menos do que pensamos; feitas as contas, quase nada.

Assim, e no caso Angelina Jolie:

A actriz tem todo o direito de se desfazer das partes do corpo que entender; espero, sinceramente, que valha a pena; dispenso a informação.

14 de maio de 2013

Os loucos, o asilo, Nossa Senhora, eu e a Constança

Há no Facebook uma página que se chama Nossa Senhora, cuida de mim.
Acho uma ternura.

Ontem, 13 de Maio, a imagem da Santa circulou bastante, e eu cada vez tenho mais pena de não ter nascido com o chip da fé.
Deve ser um descanso dizer Nossa Senhora, cuida de mim, e pronto.

Nos últimos dias, por exemplo, tinha-me dado muito jeito confiar que Nossa Senhora estava a cuidar de mim, em vez de pensar que, ou eu estava a enlouquecer por não conseguir processar tanta informação contraditória, ou estava a ficar parecida com a Constança Cunha e Sá por achar tudo surreal como ela acha. Ora, entre estes dois males, venha o diabo e escolha.

É então que sou salva por um post do blogue Aspirina B em que eles compilaram, e até linkaram, toda a informação que me estava a confundir.

Sob o título “Os loucos tomaram conta do asilo” o blogger enumera:

- PSD congratula-se com acordo entre Governo e troika

- CDS «aceitou excecionalmente» contribuição sobre pensões

- Pires de Lima garante que quem cedeu foi a troika

- CDS recusa cedência e reclama vitória na taxa sobre pensões

- ‘Troika’ exige “clareza” e não dá por fechada sétima missão

- Cavaco convoca Conselho de Estado para dia 20 às 17h

- Passos garante que “não há divergência no Governo”

- Marques Guedes chama CDS “principal partido da oposição”

Concluí, então, que com chip ou sem chip Nossa Senhora deve estar a cuidar de mim, porque ainda não estou louca − os verdadeiros loucos são os que tomaram conta do asilo mas, face ao exposto, até a mim me apetece pedir com muito fervor - NOSSA SENHORA, CUIDA DE NÓS E LIVRA-NOS DOS LOUCOS. Please!

 

 

 

 

13 de maio de 2013

Ando só a lembrar-me disto




Não me apetece falar de Paulo Portas.

Mas lembro-me muito deste filme; transposto para hoje, nele teríamos Paulo Portas de smoking entre a assistência, sempre garantindo que o seu coração sangrava com os concorrentes e que os iria defender até à morte – deles, concorrentes, claro.

Filme de 1969, realizado por Sydney Pollack, com Jane Fonda e Michael Sarrazin baseado no livro “Os cavalos também se abatem” de Horace Maccoy

Sinopse do livro “Os cavalos também se abatem” de Horace Maccoy
 
É um clássico do romance negro americano. É uma história cruel que decorre na época da Grande Depressão dos E. U. A. Toda ela à volta de uma maratona de dança em Hollywood, onde os pares se agitam numa competição louca por forma a ganharem um prémio em dinheiro, ou, por vezes, simplesmente para se alimentarem à custa do concurso enquanto puderem.

 Quem não viu devia ver.

10 de maio de 2013

O bolçado de VPV

Hoje o nosso merceeiro mais popular resolveu fazer saldos, e por isso as filas para as caixas estavam longas e morosas.

Para matar o tempo, saquei do Público disposta a olhar a primeira e a última páginas, de modo a não ter de abrir o jornal. Tive tempo de ler o Vasco Pulido Valente que, a certa altura escreve: “…porque, dada a atitude de Cavaco Silva, só ele, Paulo Portas, está em posição para remover o Governo, como Jerónimo de Sousa e o sr. Seguro, e a miuçalha que os segue, ardentemente desejam (não se percebe bem porquê).

Sobre isto, quero dizer duas coisas:

1 – Apesar de eu não seguir ninguém acho que aquela de “miuçalha” deve ser comigo, e parece-me conter um indisfarçável tom de desprezo. Retribuído. Done.

2- Ao contrário dele, VPV, que começa por avisar que é amigo de Paulo Portas, eu termino já avisando que não conheço este homem de parte nenhuma, nunca o vi, nunca me cruzei com ele (sou miuçalha) mas sempre ouvi dizer que ele bebe que nem uma esponja.

Pelos vistos, e apesar da crise, continua. E depois, claro, vomita.

9 de maio de 2013

Levai a Crato as criancinhas

Os nossos comentadores geralmente conotados com o pensamento de direita têm-se empenhado bastante em demonstrar que os exames do 4º ano são uma bênção para a educação que, Deus nos acuda, tem andado entregue a um bando de incompetentes de esquerda.

Se eu fiz eles também podem fazer.
Se ficam nervosos, habituem-se.
É este o discurso, que me parece pobre como justificação.
Se é certo que temos exagerado um bocado no experimentalismo educacional, é também certo que ele não tem impedido a aprendizagem; vejam-se os milhares de jovens licenciados que, recentemente emigrados, têm encontrado trabalho compatível com as suas habilitações em muitos países que lhes louvam a excelente formação, desfazendo, duma penada, os discursos do “não sabem nada” e do “ter um curso não adianta”.

Sou da geração que fez todos os exames, começando na 4ª classe e até ao fim dos estudos.

Esse exame, aos 10 anos, serviu-me para alguma coisa?
Sim, serviu para ter medo – medo do poder e medo de falhar.

Incutir medo logo cedinho era uma estratégia que muito convinha à ditadura, que o acompanhava como o “encornanço” acéfalo das matérias do livro único. Assim se começava a garantir um rebanho pacífico e acrítico com consequências colectivas que ainda hoje se fazem sentir.

Ir para a escola e aprender sem medo foi uma conquista de Abril, de que os meus filhos usufruíram.
Não fizeram exame no 4º ano mas não estudaram menos que eu, ao contrário, e nem sabem menos que eu, ao contrário também.

Mas, como diria a outra, isso agora não interessa nada; Crato tem a sua agenda própria e quer cumpri-la, ainda que ela nos faça retroceder meio século.
Se o deixarmos ficar lá muito mais tempo, talvez ainda o vejamos a ordenar o regresso do crucifixo e da reza matinal à sala de aula.

 

8 de maio de 2013

Ler













Considero-me uma razoável leitora, mas não sei quanto livros leio por ano.

Uns são grossos e outros finos, uns são fáceis e outros não, o que torna a “coisa” certamente muito variável; além do mais, a contabilidade é ramo do saber que não me entusiasma.

Uma coisa, porém, de há muito eu sabia – o meu conhecimento da literatura de Espanha é altamente deficitário.
Retirando o Vila-Matas, de quem até li duas ou três obras, o resto era um imenso buraco negro de ignorância.

Vai daí, pedi a uma amiga que me emprestasse três livros de escritores espanhóis. Ela escolheu (e, logo nessa escolha, dois terços eram catalães), e emprestou-me:
“O Prémio” de Manuel Vázquez Montalbán
“Beatus Ille” de Antonio Muñoz Molina
“A Sombra do Vento” de Carlos Ruiz Zafón

Ocorre-me dizer que pronto, está bem, tomei conhecimento.
Eles contam muitas histórias, e eu até gosto de histórias bem contadas mas aquilo, de facto, não é a minha praia.
A minha praia é, por exemplo, ao terceiro parágrafo dum livro, topar com isto:

“ A história faz-se de anseios em grande escala. Trata-se de um mero garoto com um desejo bem restrito, mas faz parte de uma multidão que não cessa de engrossar, milhares de indivíduos anónimos que emergem dos autocarros e dos comboios, pessoas em colunas estreitas que calcorreiam a ponte giratória sobre o rio e, embora não formem uma migração nem uma revolução, um vasto abalo de alma colectiva, trazem consigo o calor do corpo de uma grande cidade e os seus próprios devaneios e desesperos insignificantes, essa coisa invisível que assombra o dia – homens de chapéu de feltro e marujos de licença, o tropel caótico dos seus pensamentos, a caminho duma partida de basebol.”

Don DeLillo
Submundo
Sextante Editora

Cumprida uma daquelas obrigações que inventamos para nós mesmos sem saber porquê, congratulo-me por ali na prateleira, escolhidos por mim e à minha espera, estarem livros de Philip Roth, Paul Auster, Lawrence Durrell e E.L. Doctorow.

Benza-a Deus, que aquela é uma prateleira que carrega consigo a promessa de muitas horas felizes enquanto não acontece por aqui um vasto abalo de alma colectiva nas palavras de Don DeLillo.

 

 

 

 

7 de maio de 2013

Mike










 
 
 
Michael Biberstein morreu no domingo, vítima dum súbito AVC.
Tinha 64 anos.

Pintor suíço radicado em Portugal desde os anos 1970, mas realizando exposições pelo mundo inteiro, as palavras mais associadas à sua pintura são “paisagem”, “romantismo”, “sublime”.

Quem leu este meu post talvez tenha percebido que ele era um artista que eu muito admirava. Porém, o homem simples que também era conquistou a minha simpatia logo à primeira vista, em 2004, ano em que, para grande surpresa minha, acedeu a fazer uma exposição em Évora.

No primeiro telefonema que me fez, disse:
- Está, Maria, daqui Mike.
Percebendo o meu silêncio, próprio de quem acha que há ali um engano, ele acrescenta rápido – Biberstein. A partir de aí foi assim que nos tuteámos.

Para a exposição, primeiro entrou um homem com um enorme tapete vermelho que esticou no chão. Dias depois, entrou o Mike com uma pedra e umas tintas que, depois de preparadas, deitou sobre a pedra, e foi embora.
 
 
 











De seguida, chegou Manuel Mesquita, com a instalação sonora que tinha preparado para acompanhar a exposição, e fez o seu trabalho.
E assim ficámos por vários dias.

Mike tinha algumas ideias vagas sobre o que queria fazer mais. Nada muito concreto ainda, ou arrumado na cabeça, mas eu percebia que estava à procura, que o seu cérebro estava em permanente laboração para aquela exposição.
Contudo, dali não saiu mais nada até ao dia da inauguração da mesma, quando Mike apareceu, depois de almoço, com papéis brancos, telas pretas e algumas aguarelas. Pegou no martelo, colocou tudo em cinco minutos, e foi embora até à hora marcada para a inauguração.

Eu olhava e só pensava: “olha que coisa mais linda”.
 
 
No final da exposição, Mike perguntou-me se gostava das aguarelas, e perante o meu entusiasmo com elas disse: escolhe uma, Maria, que te quero oferecer. Pouco habituada a generosidades destas, perguntei porquê ao que ele respondeu que eu o tinha deixado fazer tudo o que queria, no tempo em que quis, aguentando firme, e por isso merecia.
 
As aguarelas tinham um preço de venda ao público quase pornográfico, mas era o preço de mercado de Michael Biberstein. Eu escolhi, claro; ela está e estará comigo como recordação viva dum dos raros encontros inesquecíveis que acontecem nas nossas vidas.

Mike partiu no domingo, muito cedo. Demasiado cedo.
Talvez por isso, para além do que acabo de contar, lembrei-me ainda do título que ele escolheu para esta exposição.
A partir da célebre afirmação de Einstein sobre as leis da física – “God doesn’t  throw dice” (Deus não joga aos dados), Michael resolveu perguntar: “…so what about marbles, Albert, did he play with those?” (…e berlindes, Albert, ele jogou com eles?”).

A pergunta continua pertinente, mas talvez Mike já tenha a resposta.
Oxalá.


6 de maio de 2013

Siga o baile

No fim-de-smana:
Um jovem de 24 anos morre no Porto durante um assalto aos dinheiros da Queima das Fitas.
Atirar a matar por um punhado de euros.

A academia, estarrecida, disse “pára o baile”?
Não, a academia não se estarreceu e disse “siga o baile”.

Marques Mendes, comentador político e conselheiro de estado nas horas vagas, em directo na TV, calça os seus sapatos altos da torpeza e anuncia, em primeiríssima mão, um próximo Conselho de Estado que o gajo que sustentamos lá em Belém parece que vai convocar.

Haverá nestes factos alguma coisa de anormal?
Para mim, tudo. Para os responsáveis, nada.

Oiço, vejo, e uma estranheza se me instalada como se eu já não fosse daqui.
Depois percebo: pertenço à praga grisalha que não só não se despacha a morrer como, ainda por cima, insiste na burrice de não querer perceber que a vida muda, ora essa, e tudo é relativo, pois claro.


3 de maio de 2013

Dos dias que passam

Todos os dias, numa ou noutra rua, encontro uma mudança.

Os funcionários nunca estão a tirar os móveis do carro para a casa. É sempre precisamente no sentido inverso que trabalham – da casa para o carro.
Parece que sempre alguém está de partida.

As plantas, nos seus vasos, trazidas aos solavancos pela mão forte e desprovida de afectos dum funcionário, perdendo terra e tremelicando a sua fragilidade, quase sempre encontram lugar entre um sofá deitado e um colchão de pé. E eu sempre temo por elas.

Porém, o que mais me aflige é que nunca reconheço o dono dos móveis, alguém que se preocupe e cuide da comodidade e arrumação das suas coisas, alguém que se inquiete com a posição do sofá ou com o lugar que destinaram ao colchão, alguém que salve as plantas, alguém que tenha com aqueles objectos uma clara relação de cumplicidade e posse.

E é precisamente nessa ausência que eles, os objectos, perdem toda uma dignidade que lhes advinha de terem enquadrado uma vida, de terem sido pertença, quando não amor, de alguém.

Dentro duma camioneta de mudanças, como fora dela, pode sentir-se o abandono e a vulnerabilidade próprios dum fim de linha, ou de época, ou de vida.

 

2 de maio de 2013

Guantánamo

Várias vezes me tinha já interrogado sobre a continuação da prisão de Guantánamo.

Se Obama tinha o seu encerramento como bandeira logo na primeira eleição (2008) e se passados mais de quatro anos tudo estava na mesma, Obama mentira.

Certamente cruzei-me com esta informação várias vezes sem lhe prestar atenção. Até hoje.
E com ela mais uma vez se prova que, afinal, o “homem mais poderoso do mundo” não tem tanto poder assim.

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Notícia do Expresso online de ontem

O Presidente dos EUA está preocupado com a greve de fome dos detidos de Guantánamo, em Cuba, e voltou hoje a insistir que a prisão deve ser encerrada.

"Não é uma surpresa que tenhamos problemas em Guantánamo, por isso é que quero encerrar o centro prisional. Como é óbvio estamos preocupados com esta greve de fome e não queremos que os prisioneiros morram", disse Barack Obama, durante uma conferência de imprensa em direto da Casa Branca.

Metade dos detidos de Guantánamo está, desde fevereiro, em greve de fome, sendo que um em cada dez prisioneiros está a ser alimentado à força.

"A prisão de Guantánamo não é necessária para manter a América segura, é cara, fragiliza-nos a nível internacional e é um centro de recruta para extremistas", frisou Obama que desde o primeiro mandato tenta encerrar aquele centro prisional.

Logo após a sua eleição, em janeiro de 2009, o Presidente assinou um decreto para que a prisão fosse encerrada, contudo, o Congresso tem votado leis e resoluções que não permitem que os presos sejam libertados.

"A ideia de mantermos para sempre detido um grupo de indivíduos sem ser julgado é contrária àquilo em que acreditamos e ao que somos", sublinhou.

 

 

1 de maio de 2013

1º Maio












 
Viver e morrer por 40 dólares/mês

"O colapso do edifício foi o último de uma série de acidentes em fábricas de roupas de Bangladesh", ressalta Brad Adams, da ONG Human Rights Watch. "O governo, donos de fábricas e a indústria internacional de vestuário pagam os trabalhadores em Bangladesh com salários que estão entre os mais baixos do mundo. Mas não têm a decência de criar condições seguras de trabalho para aqueles que costuram as roupas de pessoas de todo o mundo". (daqui)