4 de novembro de 2011

Inveja

Estamos sempre a ouvir dizer que a inveja é um defeito nacional. Não discordo, só não tenho a certeza se será uma especialidade lusa ou se deverá antes caber naquela vasta gama de “coisas” que dá pelo nome de “Património da Humanidade”.

Sem dúvida que sempre achamos que “o ovo da galinha da vizinha é melhor que o da minha”; além disso, desdenhar de quem se evidencia por boas razões, achar que “lá fora” está o melhor dos mundos, não atribuir mérito ao compatriota antes de ele ganhar reconhecimento “lá fora”, puxar para baixo quem tenta subir, são desportos muito apreciados “cá dentro”

Não sei se “lá fora” não se passará exactamente o mesmo, ainda que sujeito a cambiantes geográficas ou climatéricas, mas tenho a certeza de que, se formos perguntar aos portugueses, todos nos dirão que não são invejosos (ou racistas).

Eu cá sou portuguesa, logo, não sou invejosa (nem racista) e juro que não é a inveja que me move quando pasmo com os ordenados que pago a fulanos que acho medianos a atirar para o mauzinho e que, me parece, não valem tanto. Ou, se calhar, até valem, porque isto de fazer figura de tonto durante horas deve ser muito cansativo.

Eis os exemplos de vencimentos de fazer inveja, que causaram o meu mais recente pasmo:

Fátima Campos Ferreira (10 mil euros mensais), Catarina Furtado (30 mil euros), Fernando Mendes (20 mil euros), José Carlos Malato (20 mil euros), Maria Elisa (7 mil euros), Jorge Gabriel (18 mil euros), Sónia Araújo (14 mil euros), João Baião (15 mil euros), Tânia Ribas de Oliveira (10 mil euros) ou Sílvia Alberto (15 mil euros).

Bom, fica-nos o conforto (sem inveja) de saber que, ao menos eles, certamente não vivem acima das suas possibilidades.

3 de novembro de 2011

Apesar de ser sábado

Impurezas e excipientes

Na semana passada, o bastonário da Ordem dos Médicos insurgiu-se contra uma proposta de lei do Governo de “prescrição por Denominação Comum Internacional”, a qual permitirá ao farmacêutico trocar um genérico por outro com o mesmo princípio activo.

Argumenta o doutor que "os genéricos podem não ser bioequivalentes entre si: têm diferentes métodos de fabrico, têm diferentes excipientes [substâncias sem actividade terapêutica], têm diferentes impurezas e por isso muitos doentes sentem o efeito dessas modificações".

Ora, eu acredito que cada médico que prescreve um genérico sabe exactamente quais os excipientes e impurezas que cada um dos laboratórios tem no seu comprimido ou xarope. Para isso, perde noites de sono analisando cada produto, por laboratório, para depois receitar especificamente este e não aquele ao senhor António e aquele e não este à D. Joaquina. Deve ser o que se passou, por exemplo, com aquele médico algarvio que conseguiu receber do Estado, em 2009, 744 mil euros – queimou as pestanas a estudar genéricos, suas impurezas e excipientes, em muitas, muitas horas extraordinárias.

Depois da luta travada contra os próprios genéricos, esta aguerrida defesa da escolha irrevogável do médico no que toca à marca do genérico, fez-me lembrar, não sei porquê, uma situação vivida há mais de 20 anos.

Chegada a Primavera, o alergologista prescrevia a receita para o ano. Enquanto escrevia, ia dizendo: é outro, mas é exactamente igual. Eu perguntava para quê, então, mudar?, ao que ele respondia: não quero que digam na cidade que estou "feito" com um laboratório.
Homem previdente, aquele.





2 de novembro de 2011

Ir e vir

Quanto fechei a porta pensei: que bom, uns dias fora, ainda que poucos, sem Merkel, Sarkozy, Trichet, Passos e Gaspar. Enfim, uns dias sem Europa nem Portugal.
Quando abri a porta, pensei: que bom é viver na Europa, mesmo quando ela se vê grega.

Podemos e devemos reclamar com o presente, mas o que se conquistou e a nossa forma de vida são bens inestimáveis pelos quais valerá sempre a pena lutar.
Sair, ajuda a pôr em perspectiva as brigas que por aqui vamos cobrando, o nosso mal-estar mas também o nosso bem-estar. A Europa continua a ser a melhor parte do mundo para se viver, e um porto de abrigo que milhares procuram pondo em risco a própria vida
.
A Europa é uma invenção em permanente construção e é fascinante viver num tempo que nos permite ver como ela anda para a frente ou às arrecuas, cai, tropeça, levanta-se, nunca corre mas continua a andar.
Toda a construção pode ruir, é certo, sobretudo se é pioneira e inovadora como esta. Com todos os seus defeitos, o menor dos quais não será a pouca democracia usada nas decisões, continuo a pensar que vale a pena continuar a pôr tijolos e argamassa numa construção que se quer sólida mas se exige harmoniosa.

Que pensarão os gregos?
Se a Grécia foi o nosso berço no passado, eis que agora volta a ter em mãos muito do nosso futuro comum.

27 de outubro de 2011

Pedro Morais no Chiado 8


Pedro Morais
MA - A dança dos pirilampos
EXPOSIÇÃO

De 31 de Outubro a 30 de Dezembro de 2011 | Chiado 8 (Lisboa)

Curadoria Bruno Marchand

Fruto de uma muito pontual presença nos circuitos artísticos, o trabalho de Pedro Morais (Lisboa, 1944) permanece, em grande parte, desconhecido do público português. Efectivamente, entre 1982 e a actualidade, a sua obra foi apresentada em pouco mais que uma dezena de ocasiões, algumas das quais em espaços ditos alternativos ou em formatos menos evidentes, como é o caso do livro. Longe de espelhar uma eventual relutância do artista em participar nos referidos circuitos, este facto prende-se sobretudo com uma singular ética produtiva: se, por um lado, Pedro Morais entende que o gesto criativo depende de uma resposta empática ao lugar que o acolhe, por outro, não abdica de salvaguardar essa mesma resposta face aos ritmos, às exigências e aos constrangimentos que pautam habitualmente os processos expositivos.
Não é de estranhar, portanto, que as noções de tempo e de acontecimento sejam transversais ao seu trabalho. Dando continuidade a um núcleo recente de obras, o projecto que Pedro Morais traz ao Chiado 8 assume os contornos de uma viagem. Estabelecendo o caminho como parte fundamental e significante deste encontro, o artista propõe como destino as experiências de um corpo instalado no espaço e dos múltiplos estímulos que dele emanam. Entre o que vê e o que ouve, entre o que sente e o que o interpela, poderá o visitante tomar parte na construção de um amplo gesto sinestésico, em cujo lastro talvez se revele, discreta e paradoxalmente, a mais clara expressão da invisibilidade.
Inauguração: 28 de Outubro, 22h

Retirado daqui

26 de outubro de 2011

Medo

O medo é, na sociedade portuguesa, ancestral, fundo e difuso.
Inquisição e ditadura talvez no-lo tenham instilado nos genes e, se nos primeiros tempos de liberdade ele pareceu dissipar-se um pouco, aí está agora de novo tomando conta do que nunca deixou de lhe pertencer.
Não digas, não faças, não vás, fizeram parte da educação de sucessivas gerações e produziram uma sociedade cagarola que, encolhida no seu canto, tanto se atemoriza com os grandes males que já chegaram ou estão para chegar, como com os emails em que nos avisam das drogas que nos darão na rua para nos tirarem órgãos, dos malefícios da água engarrafada em plástico, e do perigo de explosão do isqueiro BIC dentro do bolso.
Estes emails chegam sempre com grandes parangonas – ATENÇÃO! PERIGO! DIVULGUEM!
O medo paralisa, atrofia, cristaliza e serve muitos propósitos políticos.
Em Portugal, hoje, somos todos precários; tudo o que tínhamos como garantido, sumiu – trabalho, reforma, casa, horário de trabalho, cuidados de saúde, escola; até o dinheiro no banco deixa os portugueses amedrontados com a hipótese de o banco falir, e esta insegurança acrescenta novos medos aos velhos medos.
Eles aí estão, cobrindo tudo com o seu manto diáfano que, infelizmente, não permite qualquer fantasia.

25 de outubro de 2011

Qualquer dia ainda me cai o queixo de tanto fazer AH!

Por uma vez sou tentada a estar de acordo com o Sindicato dos Magistrados do Ministério Público. Então não é que o deputado dos telemóveis “levados”, Ricardo Rodrigues do PS, foi escolhido, pela Assembleia da República, para o Conselho Geral do Centro de Estudos Judiciários?
Os políticos ainda não perceberam que até os mansos se cansam de estar sempre de boca aberta.
Notícia aqui

A mentira mil vezes repetida

Os portugueses endividaram-se.
Vivemos acima das nossas possibilidades.
Tantas vezes se repete a mentira que quase passa a ser verdade.
Alguém, em consciência, acredita que em algum momento Portugal deixou de ser um país pobre?
É só tirar os olhos de Lisboa (ou apenas duma parte dela).




24 de outubro de 2011

Homessa! Também vou escrever uma carta aos filhos.

Queridos filhos
Primeiro foi o Miguel Sousa Tavares e depois o José Manuel Fernandes.
Parece que agora está na moda escrever cartas aos filhos nos jornais. Como sabem, modismos é comigo mesma, e pensei - homessa, filhos meus não são menos que filhos deles. Por isso aqui estou com a cartinha a que tendes direito.
Confesso-vos que li o MST nas quanto ao JMF só dei uma olhadela - temo distúrbios gastrointestinais que se podem seguir à leitura.

Leitora medrosa, portanto, ficaram-me duas afirmações lapidares do JMF:
1-“Neste país não há profissões: há posições”
Depois de muito matutar conclui o mesmo que sempre achei: vocês dois, meus filhos, têm profissões; quem tem, e teve, e se calhar terá, posições, é JMF.
2- “A muitos da minha geração só lhes resta saírem da frente”.
De acordo, desde que ele seja o primeiro a sair-me da frente.
Contra as terríveis análises que fazem sobre esta porcaria de país, queridos filhos, nada posso. Eles são profissionais da coisa, muitas vezes têm razão embora se assemelhem bastante àqueles realejos antigos das feiras que tocavam sempre a mesma melodia. Contudo, posso contar-vos outras coisas.

Este país já passou por muitas crises. Vocês dois nasceram bem dentro delas. Lembro-me de acordar todos os dias sem saber se haveria leite ou batatas, visto que o bacalhau, só em sonhos; lembro-me de todos os dias o leite e as batatas serem mais caros, à custa duma inflação de mais de 30%. Lembro-me de “herdar" tudo o que vocês precisavam porque os amigos iam passando berços e carrinhos para outros amigos. Lembro-me dos ordenados em atraso e do subsídio de Natal que não veio.

Por incrível que pareça, nessa como noutras alturas, não desaparecemos como país. Correremos agora esse risco? Bom, o douto doutor António Barreto veio há dias profetizar que, a prazo, Portugal pode desaparece; mas eu também posso profetizar que, a prazo, estaremos todos mortos.

É certo que também eu sinto” uma força a crescer nos dedos e uma raiva a nascer nos dentes”, mas tenho a certeza que vamos sair desta, a bem ou a mal, com ou sem Europa.
No que toca à Europa, sabem o que penso – ou nos salvamos todos, ou não se salva ninguém, e por isso não contem comigo para vos incitar à emigração (o Miguel até escreveu logo a carta ao filho ausente, como se o filho presente precisasse de carta para alguma coisa); sei que para muitos não há alternativa, mas também me parece que, para muitos outros de barriga cheia, isto passou a ser uma pocilga malcheirosa onde não é chique estacionar, (e quantas vezes não foram os seus paizinhos a transformar isto em pocilga?).

É tempo de aguentar, lutando pelos direitos e cumprindo com os deveres, como alentejanos de boa cepa que são, e a quem ensinei que não se cospe no prato.
Ah, só mais uma coisa: não me mandem sair da frente, porque eu não saio.
Sem açúcar, mas com muito afecto
Vossa mãe.




21 de outubro de 2011

A rua desfila por "naipes"

Três dias depois da manifestação de 15 de Outubro, o PCP realizou também a sua “passeata do contra”, desta feita descendo o Chiado, tal como nas festas de fim de campanha eleitoral.

O PCP não gosta de misturas, nunca gostou, e se algo lhe parece ideologicamente não puro, dá um passo atrás e exorciza – arreda Satanás!
Por isso nunca dá o seu apoio ao que quer que seja que nasça fora da sua sede ou da da CGTP.
Com esta incapacidade de unir as esquerdas em Portugal, os nossos “revolucionários” instalaram-se a conversar no Facebook e, para os simples mortais, o inimigo transformou-se num vago “eles” – o governo, a troika, o patrão, o capital financeiro, as agências de rating, a Europa, em suma, o mundo.
Temos então a rua, num momento destes, a desfilar por “naipes”, sem estratégia, sem coesão, sem objectivo claro e palpável (ser só do contra não basta), o que nos faz parecer um bando de miúdos a brincar às guerras.
Se nada mudar, “eles” vão olhar e sorrir, passar-nos-ão a mãozinha pela cabeça com bonomia e pensarão – lindos meninos, é assim mesmo que os queremos.

20 de outubro de 2011

E assim foi

…Sempre defendi que Kadhafi não ia sair como os outros, antes iria matar os que fossem necessários para manter o poder; também sempre me pareceu que, por isso mesmo, tem muito mais possibilidades de morrer na rua, tipo Ceausescu.

Excerto do post publicado neste blogue em 25 de Fevereiro 2011

Meia hora (de cada vez)

No dia em que se conheceu a obrigatoriedade de trabalhar mais meia hora por dia, o jovem quadro saiu da empresa, como é muito frequente, aliás, à 1 hora da manhã. No dia seguinte, dirigiu-se à secção de pessoal e disse com ironia:
  - Ontem saí à 1 hora. Isto quer dizer que, a partir de agora, tenho que sair à 1h30?
Há muitos anos que, para uma boa parte dos portugueses, não há hora de saída. O trabalho é muito e o pessoal é pouco; por isso, sai-se quando se pode ou não se aguenta mais.
Para os que ainda têm hora de saída, esta medida da meia hora diária a mais tem exactamente o mesmo objectivo – alcançar maior lucro com menos custos de trabalho, mas à custa do esforço e da vida pessoal do trabalhador.
Há 50 anos, nos campos alentejanos trabalhava-se de sol-a-sol; contra os latifundiários, contra a ditadura e pelo direito às 8 horas de trabalho, os rurais alentejanos travaram uma heróica luta. E ganharam.
Teremos que recomeçar tudo de novo?

19 de outubro de 2011

"Uma raiva a nascer nos dentes"

Na semana passada, coloquei aqui um post sobre a miserável crónica de Henrique Monteiro no Expresso. Como o mesmo jornal é capaz do melhor e do pior, é justo, hoje, aplaudir o comentário de Nicolau Santos ao OE, publicado no sábado passado. Um comentário que vem das entranhas dum homem e jornalista que não é ainda um cadáver adiado em nenhuma das duas circunstâncias. Como tenho jornal mas não tenho link, roubei-o à descarada do blogue da Joana Lopes que teve o trabalho. Ela não se importará, certamente.



Sr. primeiro-ministro, depois das medidas que anunciou sinto uma força a crescer-me nos dedos e uma raiva a nascer-me nos dentes, como diria o Sérgio Godinho. V.Exa. dirá que está a fazer o que é preciso. Eu direi que V.Exa. faz o que disse que não faria, faz mais do que deveria e faz sempre contra os mesmos. V.Exa. disse que era um disparate a ideia de cativar o subsídio de Natal. Quando o fez por metade disse que iria vigorar apenas em 2011. Agora cativa a 100% os subsídios de férias e de Natal, como o fará até 2013. Lançou o imposto de solidariedade. Nada disto está no acordo com a troika. A lista de malfeitorias contra os trabalhadores por conta de outrem é extensa, mas V.Exa. diz que as medidas são suas, mas o défice não. É verdade que o défice não é seu, embora já leve quatro meses de manifesta dificuldade em o controlar. Mas as medidas são suas e do seu ministro das Finanças, um holograma do sr. Otmar Issing, que o incita a lançar uma terrível punição sobre este povo ignaro e gastador, obrigando-o a sorver até à última gota a cicuta que o há-de conduzir à redenção.

Não há alternativa? Há sempre alternativa mesmo com uma pistola encostada à cabeça. E o que eu esperava do meu primeiro-ministro é que ele estivesse, de forma incondicional, ao lado do povo que o elegeu e não dos credores que nos querem extrair até à última gota de sangue. O que eu esperava do meu primeiro-ministro é que ele estivesse a lutar ferozmente nas instâncias internacionais para minimizar os sacrifícios que teremos inevitavelmente de suportar. O que eu esperava do meu primeiro-ministro é que ele explicasse aos Césares que no conforto dos seus gabinetes decretam o sacrifício de povos centenários que Portugal cumprirá integralmente os seus compromissos — mas que precisa de mais tempo, melhores condições e mais algum dinheiro.

Mas V.Exa. e o seu ministro das Finanças comportam-se como diligentes diretores-gerais da troika; não têm a menor noção de como estão a destruir a delicada teia de relações que sustenta a nossa coesão social; não se preocupam com a emigração de milhares de quadros e estudantes altamente qualificados; e acreditam cegamente que a receita que tão mal está a provar na Grécia terá excelentes resultados por aqui. Não terá. Milhares de pessoas serão lançadas no desemprego e no desespero, o consumo recuará aos anos 70, o rendimento cairá 40%, o investimento vai evaporar-se e dentro de dois anos dir-nos-ão que não atingimos os resultados porque não aplicámos a receita na íntegra.

Senhor primeiro-ministro, talvez ainda possa arrepiar caminho. Até lá, sinto uma força a crescer-me nos dedos e uma raiva a nascer-me nos dentes.

Nicolau Santos, Expresso 15/10/2011

18 de outubro de 2011

Como eu vi o 15 de Outubro

Já toda a gente opinou sobre a manifestação de sábado passado. Estou atrasada, é certo, mas também lá estive e devo dizer que cheguei a casa triste, frustrada, muito longe do sentimento de sã plenitude que nos costuma abraçar depois de sermos apenas mais um na mole humana que afirma uma mesma ideia ou convicção.
Éramos muito? Sim, mas também éramos poucos, dada a gravidade do momento.
Quem ali estava era uma classe média-média, entre os 25 e os 60 anos, com um mínimo de formação política, que segue os acontecimentos, se preocupa, busca alternativas a esta política, escuta e pensa.
Estes, como já sabíamos, são poucos em Portugal, logo, éramos poucos.
Os outros estão fartos, há dez anos que ouvem falar em crise, já não se aguenta, e não vão crer antes de ver.
Quanto às guerrinhas partidárias que se esboçaram entretanto, nem comento porque apenas merecem todo o meu desprezo.
Daqui por seis meses, a gente conta outra vez.

14 de outubro de 2011

Relembrar o passado, desafiar o futuro

O futuro próximo vai exigir muito das pernas dos inconformistas.
Contudo, no sofá, podemos agora ver duas excelentes séries que começaram a ser transmitidas na Fox Life na 2ª feira, uma com 5 e outra com 7 episódios, a saber:
Downton Abbey às 21h25
Mildred Pierce às 22h30 (ou será ao contrário?, não interessa, vem uma a seguir à outra).
Vê-las, ajuda a relembrar o quanto conquistámos no século XX e o quanto nos arriscamos a perder de novo.
E sem pedidos suplementares às pernas.

13 de outubro de 2011

Conversa do casal Eixo ao almoço

  - O que há para o almoço, chéri?
 - Chucrute, liebe.
 - Que barulho é este lá fora, chéri?
 - Não te preocupes, liebe, são apenas os piquenos mal-educados da vizinhança.  
 - Mas acho que há fogo na cozinha, chéri.
 - Também me cheira a esturro, liebe.
 - Chamamos os bombeiros, chéri?
 - Podemos esperar, liebe.
 - Adiamos, então, chéri?
 - Adiamos. Vais ver que até o fogo espera por nós, liebe.
 - Vamos tirar uma fotografia para verem que almoçámos juntos, chéri?
 - Vamos, liebe, os miúdos bem-educados adoram.

12 de outubro de 2011

Podia lá ser! Sem playoff?

Podem a troika, o fisco, a banca, a EDP, o passe não social, o dentista ou o talhante levarem-nos tudo, mas o que ninguém nos vai tirar são os jogos do playoff da selecção portuguesa.
Não poderíamos passar sem aqueles jogos em que uma trémula alma lusa aguenta a taquicardia, reza desde o primeiro minuto, canta o hino com voz embargada, rói as unhas, faz promessas ao santo de sua devoção, emudece no desastre e explode de orgulho pátrio na hora do golo salvador.
Isso, ninguém nos tira; nem mortos.
Playoff, aí vamos nós com os nossos santinhos, cachecóis, bandeiras e muita, muita "fezada".

11 de outubro de 2011

Sem esforço e sem trabalho, disse ele

Na sua crónica da última página do Expresso de sábado passado, Henrique Monteiro discorre sobre “O País que já foi rico”.
Depois de escrever sobre o grande investimento que foi feito em equipamentos nas últimas década, e do dinheiro que não há hoje para os manter (tudo verdadeiro), lá mais para o fim moraliza:
“Quisemos viver bem mas nunca em função do nosso esforço e trabalho”.
E eu interrogo-me: estará falando de quem? da grande massa de portugueses que ganha, em média, 700 euros? dos patrões? dos governantes? ou de si próprio?
Como se limita a largar a sentença moral e vai embora, fiquei a pensar
como seria realmente bom se o cronista despendesse algum esforço e trabalho ao escrever as suas crónicas.
É que, para escrever banalidades e generalidades que não primam pelo rigor, já estou cá eu e mais as Selecções do Reader’s Digest.

10 de outubro de 2011

Uma mulher no seu labirinto

Declaração primeira: sou fascinada por gadgets.
Declaração segunda: não tenho nenhum.
Declaração terceira: sou ambivalente em relação a Steve Jobs.
Pela blogosfera, Facebook e jornais, tenho lido belas e tocantes homenagens a Jobs após a sua morte. Reconheço o seu génio criativo, fascino-me com os seus iqualquercoisa (gosto de todos) mas não me consigo desligar do outro lado de ver.
Já aqui escrevi sobre uma parte do outro lado; contudo, o pior mesmo, é que eu acho que ele encarnava a essência do capitalismo nonsense em que alegremente nos enredámos.
O que esse capitalismo sabe fazer de melhor para sobreviver, é criar em nós necessidades que nem sabíamos que tínhamos; inventa constantemente, manda fabricar a custo irrisório – pagando o mínimo a quem, em desespero de causa, faz qualquer coisa para sobreviver, e vende depois a preços tentadores.
Para nosso deleite, existem batalhões de escravos, meninas de dedos fininhos mas já quase cegas por trabalharem em tudo o que é micro, lixo e mais lixo no planeta. Em boa verdade, por mais voltas que dê, continuo a achar que não precisamos da maioria dos iqualquercoisa para nada. Eles apenas nos fazem felizes.
Sem deixar de reconhecer o génio inventivo de Steve Jobs, creio que, ao contrário de muitos outros, não trouxe um extraordinário benefício para a humanidade; trouxe, maioritariamente, felicidade efémera para a parte rica do planeta onde se transformou num ícone. Será isso despiciendo? Não dirá isso tudo sobre nós?
Um dia decidirei se vou continuar eternamente às voltas no labirinto ou se opto pela velha lapalissada – as coisas são como são.
Há ainda uma terceira hipótese: se o Steve for bem sucedido no seu projecto iGod, quem sabe se eu, finalmente, não serei tocada pelos dois – Steve and God.
 

8 de outubro de 2011

Coisas boas V (eh!eh!eh!)

Sarah Palin não será candidata à presidência

A antiga governadora do Alaska, Sarah Palin, anunciou na quarta-feira que não será candidata às eleições presidenciais dos Estados Unidos, uma decisão que diz ter tomado após "muitas orações" e "estudo".


Caso para dizer, “benza-a Deus”. E devolve-se o beijo por tão iluminada decisão.

Notícia aqui

7 de outubro de 2011

Umas mentes brilhantes

A troika mandou o governo cortar 195 milhões de euros na educação mas este decidiu cortar 600 milhões.
Já não é só um bom aluno, é, verdadeiramente, “Uma Mente Brilhante”, daquelas muito esquizofrénicas mas capazes de dar uma abada a qualquer professor das reputadas escolas de negócios - FMI, BCE, FEEF ou até da suprema Escola de Chicago.
Valham-nos os santos protectores dos estudantes, (ao que sei, mas talvez mal), Santa Catarina de Alexandria e Santo Expedito.
Não sei porquê, levo mais fé no último.

6 de outubro de 2011

Querido comendador

Em Junho 2007 postei este comentário em blogue alheio. Passados quatro anos lembrei-me dele, agora que Berardo estrebucha. O que mudou? Bom, agora Berardo é 930 milhões mais pobre, só por conta do BCP, porque perdeu o nosso dinheiro (via CGD) nos jogos especulativos de que tanto gosta. As questões de princípio, essas mantêm-se. Convém ainda lembrar que a fundação que leva o seu nome, entre 2007 e 2010, foi financiada em 88% pelo Estado.


Em Maio de 2007, em Nova Iorque, a leiloeira Christie’s vendeu uma enorme tela de Mark Rothko por 53,5 milhões de euros.
Tinha sido comprada em 1960 por David Rockefeller, que na altura pagou por ela 7350 euros. Houve, portanto, um lucro descomunal em 47 anos de posse da tela.
Na mesma semana realizou-se em Portugal uma Assembleia Geral do BCP, da qual o velho Jardim Gonçalves saiu claramente derrotado.
À saída da Assembleia, as televisões mostraram um homem vestido de preto, punho erguido e ar de vitória. Era Joe Berardo.
Os jornalistas perguntaram-lhe:
- Amanhã vai comprar mais acções?
- Claro que vou, amanhã compro mais.
Não comprou. Mas as acções subiram 20% e ele acordou 50 milhões de euros mais rico.
Este português milionário, amante das artes e patriota, fez de tudo para que a sua colecção de arte ficasse em Portugal, pois ficaria destroçado se tivesse que a levar para França. Com o seu espírito de “mecenas”, conseguiu que o governo de Sócrates lhe desse, para começar, o centro de exposições do CCB para que ele nos empreste a colecção por 10 anos. Durante esses 10 anos o Estado vai pensando se quer comprar, com o dinheiro de todos nós, pela módica quantia de 316 milhões de euros (não há cá descontos), visto ser esse o valor atribuído à colecção pela leiloeira Christie’s.
Foi este o negócio conseguido pelo nosso milionário amante de arte.
O que fez Rockfeller com os seus 53,5 milhões? Doou-os para obras de caridade.
Parece que o Rockfeller é meio apalermado e tem muito a aprender sobre negócios cá com o nosso milionário/mecenas/tugo-madeirense.

Junho 2007

5 de outubro de 2011

Estranheza


33ºC em Lisboa e cheira-me a castanhas assadas.
Alguma coisa não está a bater certa.
Serei eu, as castanhas, o vendedor ou o anticiclone dos Açores?

4 de outubro de 2011

Woody está de volta

É já um lugar-comum dizer que, com Meia-Noite em Paris, Woody Allen voltou no seu melhor. Se nos últimos anos houve altos e baixos, Meia-Noite em Paris não nos desilude. Ao contrário, saímos com um sorriso de satisfação. Com um humor inteligente que não dispensa alguma cultura histórica/artística por parte do espectador, este é também um filme de amor em sentido lato – amor a uma cidade, amor aos artistas, amor à fantasia, ao nosso passado comum, amor à verdade e à descoberta das nossas razões profundas e, frequentemente, desconhecidas.
Comédia romântica, sim, mas de mestre.
E mais não digo porque anda toda a gente por aí a contar a história, estragando a “festa” a quem ainda não viu. Tão mau como dizer quem é o assassino a quem ainda vai a meio do policial.

3 de outubro de 2011

Semear um peixe

Há cerca de trinta anos, numa sala de infantário de crianças de 4/5 anos, havia um pequeno aquário com um peixe, pelo qual todos eram responsáveis. Um dia, o peixe morreu. Em assembleia infantil foi decidido que o Chico, que morava numa quinta, levaria o peixe para o enterrar.
No dia seguinte, à chegada, a educadora perguntou
- Então Chico, enterraste o peixe?
- Não, semeei-o.
Fartinha de que me enterrem o futuro, fui à procura de quem o semeasse, e encontrei – na 6ª feira passada na Gulbenkian na conferência” Economia Portuguesa: uma Economia com Futuro”, e nas ruas de Lisboa na manifestação sindical de sábado.
Não estamos todos mortos nem somos todos parvos; provavelmente, o futuro espera, não que a gente o enterre, mas que a gente o semeie como o Chico fez ao peixe.

1 de outubro de 2011

Pequeno apontamento


Esta semana, Judite Sousa vestiu-se e penteou-se de freira Opus Dei e foi conversar com o seu “Papa”.

A homilia seguiu o cânone, para tranquilidade dos fiéis.

30 de setembro de 2011

“Apenas Miúdos”

“Apenas Miúdos” de Patti Smith, é um enorme fresco sobre a cidade de Nova Iorque dos anos 1960/1970 e os seus artistas. É também a história do crescimento duma rapariga de Chicago, ingénua e higiénica, que se transforma num ícone dessa geração.
“Apenas Miúdos” é ainda, e talvez sobretudo, a história da relação de Patti Smith e Robert Mapplethorpe, história intensa de amizade e amor, no mais lato sentido do termo, do seu crescimento em conjunto, quando tomavam conta um do outro e viviam numa sintonia rara.
Um bom livro, mas apenas para quem tem memórias e referências desse tempo e gosta de as ver contadas na primeira pessoa.

29 de setembro de 2011

Ministro da (des)educação



O ministro Nuno Crato, soube-se ontem, decidiu cancelar a entrega de 500 euros aos melhores alunos do secundário, como prémio de mérito, e canalizar essas verbas para ajuda às famílias dos alunos carenciados ou para projecto das escolas, conforme as variadas versões que correm. Tudo nesta situação cheira a história mal contada e a desnorte ministerial.
Um prémio pecuniário para o sucesso académico nestes níveis de ensino sempre foi para mim uma má política, quer em casa quer na escola. Se o aluno faz o melhor que pode, não faz mais que a sua obrigação e sabemos que uns podem mais que outros intelectualmente. O esforço deve ser apreciado, mas não com euros.
Professor e já entradote no tempo, Nuno Crato devia saber que, quando se faz uma promessa a um jovem ou criança, devemos cumprir, porque nesse cumprimento está todo um exemplo de vida. A sua decisão mais não faz do que pretender mascarar um mero corte na despesa com a uma hipotética melhor ideia. Há dinheiro, mas afinal vamos dá-lo aos pobrezinhos ou a projectos, ou à compra de material, diz o ministro aos estudantes.
Pois se há dinheiro, há que cumprir a promessa, embora o ministro tenha toda a legitimidade para anunciar, desde já, que tal coisa não se fará mais, porque dela discorda
Esta decisão, completamente deseducativa, é para estes jovens o início de um longo e doloroso processo de aprendizagem sobre uma trágica verdade – o Estado, em Portugal, não é uma pessoa de bem, diz e desdiz, dá e tira, baralha e dá de novo, conforme a conjuntura e o que passa pela cabeça de cada governante. Dói.

28 de setembro de 2011

Finalmente o Álvaro, não ao vivo, mas a cores

Depois de, na semana passada, ter aqui falado duas vezes sobre o sumiço do Álvaro, preocupação partilhadas por milhões de portugueses, o homem lá apareceu na 2ªfeira nos Prós e Contras.
A Fátima estava contente, conseguiu o” furo”, nessa noite ia acabar a desgraça habitual e alguém nos iria dizer que há luz ao fundo do túnel. Apareceu o empresário de sucesso dos sapatos, o senhor da COTEC um tanto entorpecedor, a malta do turismo, verdadeiramente à rasca, o empresário português que vai para Silicon Valley (esperemos que pague aqui alguns impostos) e aquele inevitável rapaz especialista em expertise que me parece sempre uma mistura de Tino de Rãs do empreendedorismo com um Jel de sinal contrário. Disse o rapaz uma coisa que pôs toda a gente a rir e a abanar a cabeça – no mundo há 2 grupos, os que choram e os que vendem os lenços. Foi preciso vir o sindicalista para lembrar que também há os que fazem os lenços, mas percebeu-se logo que a plateia e o ministro pensavam como a D. Teresa, ou seja, ” isso agora não interessa nada”.
O ministro falou dos investimentos da bitola europeia, dos portos, dos 35000 desempregados que vão trabalhar por 420 euros (diz que é para fazer formação), da fila de empresas estrangeira que há na porta do seu ministério a quererem investir em Portugal e garantiu que, em poucos anos, o país nunca mais será o mesmo.
Também me parece.
E não, não dormi mais descansada depois da “aparição” do Álvaro.

27 de setembro de 2011

Fazer mais com menos? Chamem a turma do Harry Potter

Na revista Única do Expresso de 24 de Setembro, Luciana Leiderfarb escreve um longo artigo dedicado à cultura, a que chamou “Será este o outono das artes?”
Transcrevo parte do último parágrafo porque o subscrevo:


“…a conversa de mau taxista, nas palavras de António Pinto Ribeiro, chegou à boca dos governantes. Para este ensaísta e programador, é o momento de a comunidade artística apresentar propostas concretas. O momento de se começar a reconhecer cabalmente que a “marca” Portugal vende mal ou não vende em muitos domínios “excepto no da cultura, dos criadores, escritores e cientistas”. Sabe o contribuinte que a sua comparticipação anual para a cultura, em termos de impostos directos, ronda os três euros por mês? E que a economia da cultura é hoje das mais rentáveis e mais capazes de gerar trabalho?”, questiona Pinto Ribeiro. Tudo mudaria, é claro, se quem detém o poder consumisse cultura como uma prática normal. Haveria então a percepção de que, sem a intervenção do Estado, o tecido artístico do país “não sobreviverá, como não sobreviveria em França, na Alemanha ou no Brasil. Como a agricultura, as pescas ou o comércio não subsistem sem políticas económicas de investimento…”

“Fazer mais com menos”, eis a grande divisa dos nossos governantes. Será que alguém acredita nisso quando o menos já é tão menos que até a troika achou que não se podia cortar nada na cultura e na ciência?
Parece que o FJ Viegas acredita, e como tem muitos amigos no meio todos se estão a fazer de cegos, surdos e mudos. Eu não acredito nem na divisa nem no Viegas. Mas decidi dar o benefício da dúvida mais um tempo, esperando estar redondamente enganada.
Pelo sim, pelo não, se é para fazer magia o governo devia chamar o Harry Potter a ver se ele conseguia fazer mais... de quase nada.

26 de setembro de 2011

A mulher ensandeceu

Disse ela, segundo o Expresso online:

Angela Merkel defendeu o agravamento de sanções a países da zona euro que não cumpram os critérios de estabilidade, incluindo a perda de soberania, em entrevista no domingo à televisão pública ARD.
"Quem não cumprir, tem de ser obrigado a cumprir", afirmou a chefe do governo alemão, sugerindo ainda alterações aos tratados europeus para que os países prevaricadores possam ser processados no tribunal europeu de justiça, se necessário.

Com toda a soberania que já perdemos, só nos falta mesmo que ela escolha um alemão para nosso primeiro-ministro.

Nós e a chinela

Muito se tem escrito ultimamente sobre a Madeira e o seu governo.
Há quem conheça bem a realidade do arquipélago, como aqui, e nos mostre as razões para o que por lá acontece.
Aqui, pensa-se que a democracia não permite criminalizar os responsáveis políticos e que devem ser os eleitores a puni-los.
São pontos de vista válidos e que podem enriquecer o conhecimento e o pensamento de quem os lê mas, creio, ninguém tem dúvidas de que Alberto João Jardim vai renovar a sua maioria absoluta.
Para além de todas as boas razões apresentadas, do real défice democrático na Madeira e do sentimento de vitimização que os madeirenses devem estar a experimentar neste momento, creio que há uma outra poderosa razão para a reeleição de Jardim – o pouco ou nenhum valor que os portugueses, hoje em dia, dão à ética e à moral, parceiras indispensáveis dum julgamento político em democracia.
Somos muito moralistas e indignamo-nos quando sabemos de compadrios e favorecimentos, corrupção dos “poderosos” e ganhos ilícitos mas, ao pé da nossa porta, e em concreto, preferimos esquecer. Não é nosso hábito reeleger Isaltinos, Felgueiras, Loureiros ou Avelinos? Desde que façam obra, a gente quer lá saber. São todos iguais, e este, ao menos faz. Também é frequente que nos seja transmitida uma ideia do tipo - tens é inveja do sucesso deles.
Há um fatalismo egoísta e amoral em afirmações destas que, em síntese, desprezam os valores democráticos e escondem uma outra característica dos portugueses: demasiadas vezes “foge-nos o pé para a chinela”.

24 de setembro de 2011

English spoken

A rapariguinha do shopping, tendo sido interrogada por uma colega sobre o paradeiro duma outra, responde lampeira:
 
- Está lá fora a fazer o break
 
Criticar a educação em Portugal, só mesmo por má vontade
   






23 de setembro de 2011

Tribos e nostalgias

No passado dia 19, muitos se lembraram que 30 anos antes acontecera o memorável concerto de Simon e Garfunkel em Central Park.
A propósito dessa pequena e ternurenta nostalgia, lembrei-me duma conversa tida, não há muito tempo, com jovens agora na casa dos 30. Dizia-lhes eu que nunca tinha existido uma geração que ficasse nostálgica tão cedo, dado que todos cantam em uníssono as músicas dos desenhos animados da sua infância, evocam e comentam os heróis dos mesmos, numa vívida orgia de prazer revivalista.
Eles explicaram-me que eram a última geração a fazer tal coisa (daí, se calhar, o gozo), porque, havendo só dois canais de televisão mas já massificados, foram os últimos a viver a situação de todos verem exactamente o mesmo; depois deles, cada um passou a ver o que quer, tal a quantidade da oferta de canais televisivos, internet, DVD etc. Com eles acaba esse sentimento de pertença a um tempo unificado; não haverá outra geração unida pelos desenhos animados, a ida para a escola a pé e em bandos, o jogo da bola na rua, a queda das bicicletas no meio do nada. Eles são, talvez, a última tribo geracional.
Nós, os que, a 19 de Setembro de 1981 assistimos pela televisão ao concerto de Simon e Garfunkel em Central Park, também fizemos parte duma (muito mais pequena) tribo, para quem alguns discos de vinil e alguns (poucos) concertos, ajudaram a cimentar a identidade e a pertença.
No dia 1 de Setembro de 2011, a velha tribo também teve o seu momento de nostalgia e celebrou-o no ciberespaço. Mas, claro, sem coro.

22 de setembro de 2011

Cow Parade

Descoberto o fraquinho do Presidente, proponho que se instale em Belém, e até 2015, uma Cow Parade permanente para uso exclusivo do locatário mas com abertura ao povo aos domingos.

O Ministro, o jornalista, sua crónica e eu.

Há neste país jornalistas que, na ânsia de defesa dos governos do seu coração, chegam a ser patéticos
Logo depois de ter posto o pequeno post de ontem sobre o “desaparecimento” de Álvaro Santos Pereira, ministro da Economia, calhou ler a crónica de João Vieira Pereira no caderno de Economia do Expresso de 17 de Setembro a que deu o título "Aguenta Pereira"
Escreve o referido jornalista (será?) que é conversa de café comentar que o ministro não anda a fazer nada, visto que “anda longe dos holofotes mediáticos”, e sai em defesa do governo, e sobretudo dos ministros ditos independentes, que certamente andam todos a trabalhar muitíssimo e que não têm tempo para aparecer nem paciência para agendas mediáticas (ao contrário dos energúmenos anteriores, como se depreende).
Respondo, como é óbvio, só por mim. Para começar, tomo o café ao balcão, raramente vejo televisão mas dou-me ao trabalho de ler crónicas patéticas como as de João Vieira Pereira, “parva que sou”.
E sim, acredito que o ministro esteja a trabalhar, até porque foi para isso que o elegeram e é para isso que todos lhe pagamos, mas também estou preocupada que um homem que escreveu tantos livros e que para tudo tinha solução, ao fim de 3 meses ainda não nos tenha dito nada. É que, por um lado, ao acho normal que esteja a trabalhar, mas também acho normal que vá prestando contas desse trabalho aos palermas que por aqui andam sem fazer nada. Sei que isto é uma esquisitice, ou até mau feitio, mas cada um tem lá as suas manias.
Por outro lado, estou farta de ouvir e ler que “até com contas de merceeiro” se percebe que não vamos conseguir pagar aos agiotas com quem nos metemos, e por isso eu gostava que o Sr. Ministro partilhasse connosco as suas ideias sobre como vamos dinamizar a economia e criar mais riqueza. Até agora, ainda só ouvi falar de finanças mas, na minha santa ignorância, acho que finanças e economia são quase gémeas univitelinas, são muito unidas e quase não fazem nada uma sem a outra.
Com todo o respeito pelo Álvaro e o seu trabalho longe dos holofotes, parece-me que vai sendo tempo de ele arranjar tempo para falar com a malta, com ou sem agenda mediática, ou lá como é que isso se chama.
E ainda lhe digo mais, João, os jornalistas de serviço ao governo começam a não ser suficientes para manterem sossegaditos os “comentadores esporádicos” e os “especialistas em conversa de café” como lhes chama.

21 de setembro de 2011

SMS para o Álvaro

Olá Álvaro, que é feito de si?
Dê notícias ou, de preferência, apareça quando puder.
Sabemos que a TSU o anda a afastar dos amigos mas cá em casa todos estamos cheios de saudades.
Sua sempre amiga
Economia

20 de setembro de 2011

Muitas perguntas e uma resposta (torta)

No seu blogue 2 Dedos de Conversa, Helena, que vive na Alemanha, publicou no dia 18 de Setembro, um post com o título “não é preciso que tenham pena dos alemães, mas…”, em que escreve a determinado momento:

Entretanto a notícia do dia é esta: se as coisas correrem mal, pode ser que os contribuintes alemães tenham de entrar com 465 mil milhões de euros para salvar o euro. Em dinheiro vivo, se bem entendi.

Fiquei a pensar que isso não é nada comparado com os 1,3 biliões de euros que já custou a reunificação alemã.
E pergunto:
O resto da Europa não contribuiu para essa pequena despesa da Alemanha? Foi toda paga pelos alemães ocidentais?
“Salvar” 18 milhões de alemães de leste é mais importante que salvar todo um continente belicoso com 500 milhões de indígenas?
E pergunto ainda:
Quem construiu o euro à sua medida? Foi Portugal? Foi a Grécia? Ou terá sido a Alemanha?
Não admitiu já o presidente do BCE que se tem andado sempre a fazer com o euro e as taxas de juro o que convém à Alemanha e à França?
Quem, verdadeiramente, lucrou com o euro até agora?
E ainda faço outra pergunta:
Não é a direita, que está no poder em quase toda a Europa, que defende sempre o princípio do “Utilizador/Pagador”?
E agora não pergunto, respondo:
Se é essa a máxima, cumpra-se.

19 de setembro de 2011

Confirmadas as piores previsões de Van Zeller

Segundo os jornais, o Ministério da Administração Interna será o único a não ter cortes, antes pelo contrário. Pretende-se acalmar os polícias, vítimas de muitas injustiças, ao contrário de todos os outros portugueses. E porque devem estar calmos e bem dispostos? Porque se avizinham motins, ruas incendiadas, protestos, e é preciso que estejam prontos e com disposição para a bordoada.
Este é o pensamento governamental. Por mim, acho que se vão arrepender de fazer essa despesa porque ela não será necessária. Já se viu povo mais ordeiro, cumpridor e pagador? Veja-se o caso da dívida destapada da Madeira. Esperei durante todo o fim-de-semana que alguém tivesse uma ideiazita para exprimir a indignação colectiva; não precisava de ser nada muito elaborado nem de nos tirar o rabo da cadeira, e até os polícias podiam participar numa brincadeira do tipo daquela que fizemos com o Bill Clinton por causa de Timor. Lembrei-me que, por exemplo, podíamos entupir as caixas de correio electrónico do governo regional com minutas de facturas do tipo:
Festas com palhaços – 1700 milhões de euros
Festas com fogo-de-artifício – 1700 milhões de euros
Festas diárias durante 31 anos - 1700 milhões de euros
Mas não, não aconteceu nada, a não ser quilómetros de douta prosa sobre o assunto.
Quando vi as declarações do ex-patrão dos patrões Francisco Van Zeller que disse:
“O povo tem de ir para a rua protestar contra os "sacrifícios" impostos pelo Governo e as políticas de austeridade da 'troika'. Se não for feito, "ou somos parvos ou estamos mortos", confirmei que somos parvos e estamos mortos; só o governo ainda não percebeu. Sorte a dos polícias.

17 de setembro de 2011

Humor

"Troika desbloqueia mais 11 mil milhões: Jardim diz que dá para chegar até meados de Setembro"

Em Imprensa Falsa, um blogue para o alívio da dor de cabeça.

16 de setembro de 2011

Nós por cá, todos na mesma (ou quase)

Neste post do seu blogue A Terceira Noite Rui Bebiano analisa um estudo recente sobre o crescente interesse dos jovens portugueses pela leitura. Desconfia do dito estudo, e eu com ele, mas permito-me discordar, quando pergunta o que acontecerá nas outras áreas de estudo se na das letras (que conhece melhor) se lê tão pouco; pela minha experiência pessoal de contacto com jovens, posso garantir que os das áreas científicas são mais interessados, curiosos, lêem mais e fazem perguntas mais pertinentes.
Logo de seguida li a notícia do Expresso online com o título Plágio alastra nas universidades portuguesas em que se diz que 70% dos universitários portugueses confessam já ter copiado.
O que há de comum nesta notícia do Expresso e no post de Rui Bebiano ? Nada e quase tudo.
Se é certo que se lê pouco agora, também o era no tempo em que Rui Bebiano e eu própria éramos estudantes – a maioria não punha o olho num livro a menos que a isso fosse obrigada. Havia excepções, havia até grandes leitores, tal como hoje.
No mesmo tempo passado também se copiava, por vezes com muita arte e imaginação, tal como se copia hoje.
Contudo, com 100% de jovens no ensino obrigatório e quase 400 000 no ensino superior (e com o esforço financeiro que fazemos para que tal aconteça), seria de esperar uma muito mais profunda transformação dos comportamentos no que respeita à leitura e à busca de conhecimento.
Quanto ao copianço, é do domínio da ética e essa, como se sabe, já há muito tempo que saiu da generalidade da sociedade portuguesa viajando para parte incerta. Duvido mesmo que volte.
Assim sendo, e foi aí que encontrei afinidades entre o post e a notícia, podemos concluir que, pesar das inúmeras melhorias, a nossa evolução em muitos domínios é mínima, ou seja, nós por cá estamos na mesma (ou quase). A diferença é apenas de escala.