29 de agosto de 2013

Trabalhar para aquecer


 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Hoje encontrei na minha caixa de correio o papelinho que aqui deixo reproduzido.
Como se pode verificar, os portugueses preparam-se para, no próximo inverno, diminuírem os seus gastos de energia − trabalharão apenas para aquecer.

27 de agosto de 2013

Consumidos pelo ódio

Desde domingo que padeço duma persistente náusea.

Chegada a casa depois de um tão simples quanto excelente almoço em excelente companhia e em paisagem privilegiada, ligo o computador e tomo conhecimento de que António Borges morreu.

Nada de particular tinha a dizer na sua morte.

Era antes de mais, e sobretudo naquela hora, um homem como qualquer outro, isto é, marido, pai, avô e talvez ainda filho de alguém que, inevitavelmente estava sofrendo uma perda.

Para além disso, era um homem que, sobre sociedade e política pensava o oposto do que eu penso, dizia-o, e desse conjunto de pensamentos e palavras nascia uma figura que me era muito antipática.

Contudo, o poder de que alguma vez dispôs para nos fazer mal não lhe caiu do céu, nem foi usurpado, antes lhe foi outorgado por aqueles a quem nós próprios confiámos o poder.

A dita náusea, porém, nasceu e cresceu à medida que fui lendo o que se publicava nas redes sociais.

Cheguei a ler agradecimentos ao cancro, vi evocar o castigo divino, e vi também desferir violentos ataques sobre quem, não lamentando a morte do homem, ousou, porém, insurgir-se contra tanta intolerância e ódio.

Como é feio de ver este meu povo de esquerda que, impotente para sacudir as cangas que periodicamente lhe põem ao pescoço, se acoita no ódio e se  alivia  chafurdando num sórdido e generalizado rancor.

Um homem e um político que defende o que António Borges defendeu é, para mim, um homem desprezível, sem sombra de dúvida.

Mas, e daí? Temos mesmo de ser iguais a ele?

 

24 de agosto de 2013

Notícias do Verão VIII - O Fogo

















 
 
Da esquerda para a direita:
Exaustão, Derrota, Dor.
Imagem da 1ª página do Expresso de 24 Agosto 2013

António Pinho Vargas escreveu hoje, sobre o assunto, um post no Facebook em que fala de "falhanço colectivo"; esta pode ser a sua imagem.

23 de agosto de 2013

Notícias do Verão VII - O Mar

















 
 
 
Fernando Calhau - 1948/2002
Mar III A (Remake)
DVD video, DVCAM video, Mini-DVD video, Super 8 video and Mini DV video  IM9

Artista representado na exposição do Centro de Arte Moderna da Fundação Gulbenkian comemorativa dos 30 anos do CAM – “Sob o Signo de Amadeo”.
Até 19 Janeiro 2014

“Avançou até um local onde a água lhe dava um pouco acima da cintura e esperou, com os braços erguidos e as mãos enclavinhadas na nuca, que os círculos na água se dissolvessem e o seu corpo de dezoito anos se refletisse na suave ondulação.
Depois mergulhou, deu algumas braçadas e pôs-se a flutuar sobre as profundezas cor de esmeralda.”

O Jogo Sério
Hjalmar Söderberg (1869-1941)
Ed: Relógio d’Água

22 de agosto de 2013

Notícias do Verão VI
















 
 
 
 
"Nunca ninguém, através de fotografias, descobriu a fealdade. Mas houve muito quem, através de fotografias, tenha descoberto a beleza. O que leva as pessoas a fotografar, com excepção das situações em que a câmara é utilizada para documentar ou para registar ritos sociais, é a procura da beleza.
...
Não há ninguém que diga: “Que coisa feia! Tenho que lhe tirar uma fotografia.” E mesmo que alguém o dissesse tudo o que isso significava era "Acho aquela coisa feia [...] bonita.”

Susan Sontag
Ensaios sobre fotografia

20 de agosto de 2013

Notícias do Verão V


 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
“Verdade é que a qualidade desses acontecimentos era tal, que não se podia rememorá-los falando. Nem mesmo pensando com palavras. Só parando um instante e sentindo de novo.”

19 de agosto de 2013

Notícias do Verão IV


 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
A comédia é um género difícil, parece-me.

Para a fazer bem, é muito conveniente que nunca o pé fuja para a chinela, que nunca do humor se passe à caricatura a traço grosso, e que nunca se abuse dos estereótipos.

Por outro lado, convém que tudo se “cozinhe "com uma boa dose de inteligência, bom gosto e sensibilidade.

A comédia é um género muito difícil, eu acho.

16 de agosto de 2013

Notícias do Verão III


 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
"Era muito cedo para fazer a mala, mas prosseguiu, mesmo assim.
O nosso lar é o lugar onde têm de nos acolher, queiram ou não, disse o poeta, ou disse o pai de Marian, parafraseando o poeta, e o nosso lar é também o lugar de onde estamos sempre mortinhos por nos pôr a milhas."

Don DeLillo, “Submundo”

Imagem  daqui

14 de agosto de 2013

Notícias do Verão II


 
Olhou-o aflita:

- Olhe, a coisa de que eu mais gosto no mundo… eu sinto aqui dentro, assim se abrindo…Quase, quase posso dizer o que é mas não posso…
- Tente explicar, disse ele de sobrancelhas franzidas.
- É como uma coisa que vai ser…É como…
- É como?...inclinou-se ele, exigindo sério.
- É como uma vontade de respirar muito, mas também o medo…Não sei…Não sei, quase dói. É tudo…É tudo.
 
Clarice Lispector, “Perto do Coração Selvagem”

13 de agosto de 2013

Notícias do Verão I



















A tecnologia tornou possível uma crescente difusão da mentalidade que vê o mundo como um conjunto de potenciais fotografias.

Susan Sontag,  Ensaios sobre fotografia

12 de agosto de 2013

Sem Lomba

Informa-me o jornal que se acabaram os briefings do Lomba.

Ou melhor, foram descontinuados, que é a maneira de conjugar o verbo acabar na era dPC.

Voltará a haver?

Humm, se houver briefings já não serão do Lomba, serão de outra coisa qualquer.

E eu que, verdadeiramente, nunca cheguei a prestar atenção.

Moral da história: temos que estar sempre atentos, porque os briefings hoje quase que fecham antes de abrir.

 

 

9 de agosto de 2013

A culpa é do Sócrates


Magnífico Montenegro (MM) veio hoje, já usando uma estival camisa azul-bebé, desencasacado e desengravatado, perguntar se o PS aceitaria os swaps que “seu Jorge” quis vender, porque um actual conselheiro de Seguro, que também o foi de Sócrates, até se interessou pelo assunto nesse tempo.

Não vou jurar que a pergunta foi exactamente esta, porque eu tinha apanhado sol, estava a partir tomates e o azul-bebé enterneceu-me, mas acho que foi.

Quem quiser certificar-se e tiver paciência pode ir aqui.

Confesso que achei que tinha perdido algum capítulo da novela, porque o episódio estava difícil de perceber, mas também me pareceu que não teria muita importância porque no fim disto, e depois de tudinho bem visto e revisto, acho que ainda vamos chegar a uma inevitável conclusão − a culpa de “seu Jorge” trabalhar no CITIBANDO e fazer propostas desonestas aos governos foi, é, e será sempre, única e exclusivamente, do Sócrates.

Grande salada (a que eu fiz, claro).

8 de agosto de 2013

A mão por trás do arbusto


A minha interpretação sobre o mais famoso papel dos últimos dias não coincide com a dos meus amigos que reputo de inteligentes e que costumo ler.

Acham eles que o papel com o nome de “seu Jorge” foi posto cá fora pelo gabinete DESTE primeiro-ministro. Não é a minha interpretação. Também ouvi ontem a SIC e José Gomes Ferreira deu uma plausível razão para as diferenças no papel que não interessam para esta história.

Sabemos que o CITIBANDO tentou vender uns produtos marados ao governo de José Sócrates e que este os recusou.

O que a SIC diz em comunicado é:

“O documento a que a SIC teve acesso veio da residência oficial do primeiro-ministro e aquele que o Ministério das Finanças divulgou veio do IGCP”

Isto quererá obrigatoriamente dizer que foi o gabinete de Passos que meteu os pés pelas mãos?

Não acredito. Acredito, sim, que não é só Paulo Portas que faz milhares de fotocópias quando sai do governo, e que a vingança de Sócrates pode tardar, mas não falha.

E funciona assim a modos que como “a mão por trás do arbusto”; porém, se Sócrates, ou alguém por ele, conseguir tirar o sono à quadrilha nem que seja por uma ou duas noites, eu já agradeço (mas não esqueço).

A propósito, o Tozé deve estar a banhos, não?

7 de agosto de 2013

A ajudinha de “seu Jorge”


Desde que percebi que ninguém ia parar este governo, legitimamente eleito com base num chorrilho de mentiras, e que já era impossível salvar o que eu pensava que devia mesmo ser salvo, passei a defender o que antes abominava – o velho quanto pior, melhor!
 
É bom mesmo que tudo apodreça o mais depressa possível, porque quando já não se aguentar o fedor alguma coisa vai ter que acontecer.
 
Este último caso de “seu Jorge” tem dado uma boa ajuda. Primeiro “seu Jorge” negou, depois não se lembrou, finalmente lembrou mas disse que fumou mas não inalou, depois o Lomba disse que ia investigá-lo até ao fim do dia (vergonha, chiça), depois o dia todo não chegou, depois veio a madrugada e os documentos forjados, depois lá pelas onze da manhã “seu Jorge” demite-se “de consciência limpa” e farto de injustiças no tratamento. Diz, em comunicado, que a sua “disponibilidade para servir o país sempre foi total” e a gente acredita, porque percebemos que tanto lhe quis vender swaps tóxicos como lhe quis guardar o tesouro.
 
O homem faz qualquer coisa pelo país, mas como o país é ingrato, “seu Jorge” lá vai agora de requitó para o Citibank, para a Parpública ou para o raio que o parta, e a Albuquerque, que também não mente, Deus a livre, mas fica com o pescoço encarnado de raiva, terá que arranjar outro patriota para guardião do tesouro.
 
Deve ser isto a podridão da política de que falava o Machete, que está, aceleradamente, a tomar conta de todo o espaço vital da sociedade.
 
Como já disse, acho isso bom, porque quando já não se aguentar o cheiro vai ter que se limpar a casa.
Acontece que, depois de dois anos nisto acho que o país inteiro está viciado em” casos” e podridão.
Ainda estará disponível para tentar viver limpo? Pergunto-me.

 

5 de agosto de 2013

Um Putin alentejano e fofinho

Um amigo do Facebook “levantou-me esta lebre” que, de tão inacreditável, me levou à necessidade de ver para crer.

E que vi eu? Isto:
Rondão Almeida é presidente da Câmara de Elvas, pelo PS, desde 1994.
Praticamente, toda a obra feita naquela terra e no concelho leva o seu nome.

Na impossibilidade de se candidatar este ano, escolhe para o substituir o seu vice-presidente, entra ele próprio na lista em 3º lugar e ainda encabeça a lista para a Assembleia Municipal.

Tudo legal, pelos vistos, tudo muito fixe e tudo com o apoio do PS.

Nem sei por que raio me fui lembrar de Putin e Medvedev mais a sua dança de cadeiras lá na longínqua Rússia – ora agora presides tu, ora agora presido eu.

Pensamentos estapafúrdios, os meus. E tão ruins. E imperdoáveis.
Ah, se não fosse o PS a moralizar estas candidaturas autárquicas nem sei que seria de nós.

2 de agosto de 2013

Serão só dificuldades de aprendizagem ou será mesmo burrice?














daqui

Ao fim de dois anos governados por uma incompetente comissão liquidatária do PSD, se houvesse hoje eleições os portugueses deixariam o PSD a três míseros pontinhos do PS.

Alguém que arranje umas explicações para os miúdos lá no Rato porque eles estão com sérias dificuldades em assimilar a matéria.
Ainda chumbam.


31 de julho de 2013

Se não fosse a minha mãe…



























Minha mãe tem 86 anos.

Lendo a Expresso de sábado passado, a certa altura mostra-me esta imagem e pergunta: não achas que esta fotografia é um sinal de esperança para nós?
Perante a minha estupefação, desatou a rir na minha cara.

Por mim, nem tinha percebido que era a imagem do “novo ciclo”.
Quando for grande quero ser assim viva como ela.

30 de julho de 2013

Onde pára o Álvaro?

Já não há ironia nesta pergunta; agora é literal – onde pára Álvaro Santos Pereira?

Saiu de ministro, não foi à tomada de posse da remodelação e nunca mais ouvimos falar dele.

Das duas, uma: ou já voltou para Vancouver ou, mais mês menos mês teremos notícias sobre a empresa que o acolheu e que lugar nela ocupa.

A opção que tiver tomado vai dar-nos a conhecer, finalmente, o verdadeiro Álvaro.

O Raposinho tem andado ocupadíssimo, em papel e online, a tecer a defesa do Álvaro, o que logo me dá ideias… como direi? Melhor não dizer!

Argumenta ele, o Henrique, entre outras coisas muito perspicazes e inteligentes, que a snobeira lisboeta achou que o Álvaro era um totó por pedir que o chamassem pelo nome próprio, como no Canadá.

Ora, a snobeira existe, de facto, mas não neste caso, e até eu, que sou alentejana, acho o Álvaro um verdadeiro totó, porque só um verdadeiro totó aceita ser ministro dum país que desconhece.

A mania dos doutores que existe por aqui, sim senhor, tem razões históricas e não desaparecerá só porque os Álvaros e Raposinhos acham que deve desaparecer; nem desaparecerá se se fizerem mil decretos. Desaparecerá a prazo, quando as razões que a criaram deixarem de existir.

Que o Henrique não perceba isto, não é grave, porque o rapaz se limita a escrever umas coisas que acha engraçadas e que, às vezes, também me fazem rir, mas para ser ministro, valha-nos a santa, não dá.

O Álvaro é um totó, sim, mas onde andará?

É esta a questão que agora me inquieta; temo que se deixe enrolar por alguma onda grande no mar português.
Queira Deus que não, e que a gente tenha notícias dele bem depressa. Já tenho saudades. É que, na verdade, era um ministro totó, mas era fofinho – ria-se das piadas dos deputados e até chegou a anunciar-nos o fim da crise. Só não disse quando. E continuamos sem saber.

29 de julho de 2013

Também posso brincar, Cristina?

É maravilhoso ver como os ricos deste país estão felizes e descontraídos.

Deve dizer-se, em abono da verdade, que os nossos ricos nunca foram exibicionistas, sempre deixaram isso para os novos-ricos.

Para eles, a riqueza é sua por desígnio divino, é coisa que não se discute nem há necessidade de exibir.

Há muitos, muitos anos, quase no tempo em que os animais falavam, apanharam uns sustos, mas tudo isso passou, graças a Deus, e a vida voltou a ser como sempre foi e deve ser – segura, mansa e discreta.

E assim continua, podendo até dizer-se que está cada vez mais segura.

Poucas vezes os nossos ricos aparecem, mas esta semana deram um ar de sua graça na Revista do Expresso.

Instalados nas suas casas muito simples da Comporta, o que lhes apraz dizer é que estar lá, nessas casinhas, com a natureza em estado puro, “é como brincar aos pobrezinhos”, nas palavras de Cristina Espírito Santo, que Deus a proteja.

Não é uma ternura? Eu adorei.

Nota: a imagem aqui reproduzida acompanha a reportagem do Expresso e mostra as delícias dum champanhe no areal. Também posso brincar, Cristina?