15 de janeiro de 2013
Procurei
Há dias em que tenho um desejo quase pornográfico de boas notícias.
Um David Bowie melancólico foi o melhor que encontrei, e já não é de hoje.
Where are we now?
14 de janeiro de 2013
Falemos, então, de putas

A expressão
não é original, mas o plágio é deliberado. Quando Josef Skvorecky escreveu o
livro República das Putas, havia na então Checoslováquia o sentimento dum país
traído, entregue ou vendido a uma ideologia questionável, por uma classe
dominante corrupta e por políticos que eram de facto putas, metafórica e
literalmente. No caso de Portugal não houve tanques a entrar pelo país e a
ideologia a que fomos vendidos será outra, supostamente oposta. Mas de resto a
história é tal e qual, especialmente no que diz respeito à qualidade e
moralidade dos políticos.
Ocorrem-me
algumas notícias recentes que provam como vivemos, digamos, num sítio mal
frequentado, só para não repetir palavras que a minha mãe não gosta que eu use.
1 -
Novo director do departamento de supervisão da CMVM criou, para o BCP de Jardim
Gonçalves, cinco off-shores nas ilhas
Caimão.
Como
não quero levar com uma queixa-crime como aconteceu com a Associação
Transparência e Integridade, vou dizer que concordo porque o homem deve ser
muito competente, fez muito bem o que lhe mandaram e nunca foi arguido.Viva a CMVM.
2 - Lobo Xavier vai liderar a Comissão para a reforma do IRC. Pode parecer que se vai meter a raposa no galinheiro, mas Lobo Xavier é alto quadro da Sonae e é muito competente. Faz o que lhe mandam (ou pagam) e até vai à televisão.
Viva a Sonae.
Este homem disse do PS o que Mafoma não disse do toucinho, mas pronto, é supercarismático (!), experiente e competente. Dará um magnífico presidente de câmara porque a mulher de Seguro é sua colega na ANF.
Viva o Seguro.
4 - A presidente da Câmara de Palmela, eleita pelo PCP, vai reformar-se aos 47 anos.
Tem direito, sim senhor, e político não tira direito a político, só a quem o elege.
Viva "a superioridade moral dos comunistas".
República
das putas, isto?
Não,
o Magueijo exagera; antes diria − república com muitas putas mas muitíssimos
mais tansos.
Bolas,
até me esqueci que a minha mãe não gosta que eu use este palavreado.
11 de janeiro de 2013
O caso da mala Chanel
Ontem, o “caso” no ciberespaço, logo a seguir ao documento-catana
do FMI, foi o vídeo de promoção Samsung com a blogger de moda Filipa Xavier (houve outras).
A jovem deseja, para 2013, poder comprar “com o seu dinheiro”
uma carteira clássica e preta da Chanel, e di-lo, entre outras coisas igualmente
de grande interesse, com todo um linguajar de tia de Cascais.
O que se passou nas redes sociais (eu própria partilhei o
vídeo) não é mais do que a prova de que
em Portugal a luta de classes e a dicotomia direita/esquerda, existem e estão,
até, com demasiada saúde.
Por enquanto apenas se manifestam virtualmente, mas não
restam dúvidas de que existem, e podem passar ao plano do real assim que o
momento se afigurar propício.
Meio-termo e conciliação são, hoje, sonhos; as posições
extremaram-se e já não há nenhuma tolerância para com uma menina apalermada que
deseja uma carteira Chanel para 2013, quando dezenas de milhares de portugueses
só desejam que não lhes falte a sopa, ou que possam comprar uma aspirina.
Não há tolerância para quem vive fora da dura realidade.
Quanto mais desiguais as sociedades, mais intolerantes, é
sabido.
“A coisa aqui está preta”, e vai ficar pior.10 de janeiro de 2013
Aniversário
9 de janeiro de 2013
Já tomou seu Toddy hoje?
Isto está com um cheirinho a fim de ciclo.
Os corredores posicionam-se antes do tiro de partida –
ninguém quer ficar fora da corrida.
Primeiro foi Cavaco Silva a pedir a fiscalização sucessiva
do OE 2013.
Logo de seguida arrancou o PS com uma equipa de 50
corredores.Seguiu-se o núcleo duro de todas as corridas − PCP, BE e Verdes.
O Provedor de Justiça saiu sozinho mas em representação de muitos, segundo afirma.
Finalmente, a Procuradoria-Geral da República está ainda a ajeitar os calções e a fita autocolante com o nº 5; não lhe importa chegar tarde, desde que chegue.
Apetece perguntar a cada funcionário público, polícia,
professor, militar, médico, trabalhador da Autoeuropa, artista de circo ou
variedades, actor de telenovela, cozinheiro, maquinista, arqueólogo, protésico,
arrumador, figuras públicas ou privadas:
- Já pediu a sua fiscalização sucessiva hoje?
É que estou farta de me lembrar do anúncio da Toddy, bebida
achocolatada do meu tempo de menina, em que, na rádio, alguém cantava:
- “Já tomou seu Toddy hoje?”E acrescentar:
- Um Toddy ou uma fiscalização por dia nem sabe o bem que lhe fazia.
Que paciência é precisa para viver aqui, livra!
8 de janeiro de 2013
Passado e presente
Existe no Facebook uma página dos Antigos Alunos do Liceu
Nacional de Évora, página que subscrevi, e Liceu que frequentei.
Não sou dada a saudosismos, nunca fui a um almoço ou jantar
das comemorações do 1º Dezembro (comemoração antiga dos alunos do Liceu, de que
se apropriaram, mais tarde, os alunos da Universidade) e esqueci uma enormidade
de colegas – a uns conheço a cara e não sei o nome, com outros é ao contrário.
Certo é que, também graças ao FB e a esta página,
reencontrei alguns com enorme satisfação.
Existem por lá polémicas, como é natural, e pontos de vista
muito diferentes dentro da “agremiação”. Uns vão pelo nacional- porreirismo do
somos todos amigos, vamos ver quem tem fotos, quem identifica os fotografados,
e por aí.
Outros exprimem opiniões sobre alguns intervenientes no seu
passado de estudantes, o que nem sempre é muito bem visto por quem tem opinião
diferente, ou até não tem opinião nenhuma mas acha que nunca se devem agitar as
águas.
A maioria das pessoas parece ter saudades do tempo que
passou naquele magnífico edifício seiscentista, mas esse não é o meu caso.
Aquilo não foi o terror do orfanato britânico do século XIX,
mas também não foi o tempo de uma adolescência livre e descuidada que todas as vidas
merecem.
Havia por lá muito mais medo do que respeito.
Rapazes e raparigas estavam rigorosamente separados, e se dessem
um passo fora da linha de demarcação os contínuos enxotavam-nos como a um bando
de cães tinhosos, e ameaçavam com o reitor (homem tão tenebroso como
salazarista). Mesmo os encontros mistos fora do Liceu eram carregados de
sentimentos de culpa, porque podia haver um professor que nos visse ou um
vizinho que nos denunciasse aos pais (Évora, por esse tempo, era das cidades
mais machistas e retrógradas deste país).
Recordo-me ainda de, em Junho, com trinta e muitos graus de
temperatura, pelas duas da tarde, esperar pelo toque de entrada, e mais dois ou
três minutos depois dele, para atravessar os claustros numa correria louca,
direita à sala de aula e fugindo dos contínuos, só porque não levava meias nas
pernas.
A repressão espreitava em cada sala, e fora delas; valia-nos
a condição de adolescentes para espantar o medo e fintar o poder.
Havia bons professores, mas também os havia péssimos; esses,
geralmente, acumulavam incompetência com um enorme talento para déspotas e
bufos.
Saudades, não tenho. Esse não foi o melhor tempo da minha
vida, como me era devido. Esse foi um tempo que os nossos filhos têm
dificuldade até de imaginar, felizmente. Pelo caminho novo que se abriu em
Abril, sacudimos o medo e aprendemos a exprimir opiniões, muitas formadas logo
nesse tempo de Liceu em que também fomos forjando o que somos hoje.
Entendo a página do AALNE como uma mini-sociedade em que
todos se devem poder expressar livremente, sem, porém, nunca esquecer que, como
dizia Bob Marley “a liberdade de expressão implica também alguma liberdade de
audição”.
Era bom que ela fosse, no presente, o espaço de liberdade
que o “meu” Liceu nunca foi no passado.
7 de janeiro de 2013
Mau feitio, graças a Deus
É o meu.
Já aqui e aqui demonstrei a minha embirração com o Francisco José Viegas e não tinha intenção de bater mais neste ceguinho, mas ontem lembrei-me de ter lido que, depois da sua fulgurante passagem pelo governo, o amigo de Joana Vasconcelos reabriu o seu blogue A Origem das Espécies
Logo, não sabia o que fazer.
Pronto, já disse.
Imagem daqui
Já aqui e aqui demonstrei a minha embirração com o Francisco José Viegas e não tinha intenção de bater mais neste ceguinho, mas ontem lembrei-me de ter lido que, depois da sua fulgurante passagem pelo governo, o amigo de Joana Vasconcelos reabriu o seu blogue A Origem das Espécies
Fui ver. Li vários posts
e até teria alguma coisinha para dizer mas, naquela "rua”, nunca ninguém pode comentar nada – só partilhar ou
pôr nos favoritos.
E embirrei com aquilo.
E embirrei com aquilo.
A mim ensinaram-se que só se partilha o que é bom, e continuo a respeitar esse
conspícuo ensinamento.
Nos favoritos guardo coisas úteis, como o Google Maps, o horário dos comboios ou as farmácias
de serviço.Logo, não sabia o que fazer.
Pronto, já disse.
Imagem daqui
4 de janeiro de 2013
Sem nome
Há
dias em que leio as notícias e tenho a sensação de estar a entrar num túnel do
tempo que me conduzirá à idade das trevas.
Foi
assim quando li que os taliban estão a impedir (a tiro) a vacinação contra a
poliomielite de 240 000 crianças no Paquistão.
Porém,
das notícias recentes, a mais nauseante, a que dá volta ao estômago pela
barbaridade do acto, foi a da violação e posterior morte da jovem indiana cujo
nome não foi revelado (na Índia, pelos vistos, uma mulher não tem identidade
própria nem depois de morta).
Habituados
que estamos a saber que, numa grande parte do mundo, nascer mulher é uma
maldição e, sendo-o, ousar lutar por direitos básicos é um acto de coragem com
consequente perigo de vida, mesmo assim, a ferocidade do que aconteceu naquele
autocarro não pode ser ignorada por se passar longe, ou branqueada em nome duma
“cultura”.
Daí
que a solidariedade com as manifestações de milhares de mulheres indianas que
reclamam, tão só, segurança para andar na rua, seja um mero imperativo moral.
Porém,
os apóstolos do regresso às trevas estão por todo o lado, como se constata num
artigo de Naomi Wolf, no Público, em que a autora escreve que em Itália está a
haver um debate sobre “se o vestuário e o comportamento das mulheres encorajam
a violação” e “até mesmo na Suécia, os violadores que conhecem as mulheres que
atacam não são processados, porque as vítimas não são vistas como “meninas
bem-comportadas”.
Cuidemo-nos,
pois. Cuidemos deste legado das nossas avós, porque os direitos que temos hoje
não nos foram dados, antes foram conquistados a pulso, − o poder (aqui
congregado nos homens), mas, de facto, qualquer poder, nunca dá nada, apenas se
conforma e cede.
O
que temos hoje pode desaparecer a qualquer momento; como o último ano português
se encarregou de nos mostra muito claramente, não há direitos adquiridos.
Sobretudo para quem, a cada momento, for o elo mais fraco.
3 de janeiro de 2013
Sair a uivar
Fui ver o filme “Amor” no 1ºdia do ano.
Tinha saudades do Trintignant, e o filme está a ser muito aplaudido.
Sim, eu já vi aquilo, e bem próximo, não preciso que me expliquem, nem que mo mostrem, nem que me aticem um medo que, hoje, é de todos.
Uivar curto e longo, agudo e grave, angustiado e enfurecido.
Um uivo de tristeza (pela morte) de terror (pelo futuro), de raiva (pelo presente), de dor (pela humanidade), de irritação (com quem se apropria da indignidade da velhice e ainda consegue fazer disso uma obra de arte).
Não invento − eu só queria uivar. E ainda quero.
Tinha saudades do Trintignant, e o filme está a ser muito aplaudido.
Devia ter ficado com ciática dez minutos antes de sair de
casa.
Resumindo, pode dizer-se que o filme é bom, mas também o
achei voyeur e às vezes sádico.
O realizador mete-se (nos) em casa dum casal de idosos
(donde não mais saímos) e faz-nos assistir ao colapso dela e à sua lenta perda
de capacidades, humanidade e dignidade; simultaneamente, Georges passa de
marido a devotado cuidador.
Uma história de todos os dias, multiplicada por milhões,
fruto da longevidade característica da época contemporânea.
Ouso dizer que o filme de Haneke é neo-realista, o que não é
aqui um elogio.Sim, eu já vi aquilo, e bem próximo, não preciso que me expliquem, nem que mo mostrem, nem que me aticem um medo que, hoje, é de todos.
Por isso, quando saí, só me apetecia uivar.
Um uivo de tristeza (pela morte) de terror (pelo futuro), de raiva (pelo presente), de dor (pela humanidade), de irritação (com quem se apropria da indignidade da velhice e ainda consegue fazer disso uma obra de arte).
Não invento − eu só queria uivar. E ainda quero.
2 de janeiro de 2013
Recado a Camilo
Ando aqui com um recado para o Camilo Lourenço atrasado uma
porção de dias, tudo por culpa das Festas. Mas de hoje não passa.
Para quem não sabe, a actriz Maria do Céu Guerra, mulher com
décadas de guerras pelo teatro português e anti-salazarista convicta, lamentou
no Facebook que, com tantos actores sem trabalho, Paulo Futre tenha sido
chamado para dobrar um filme infantil.
Vem de lá o querido Camilo e verte no Diário de Negócios uma
pérola do seu iluminado pensamento que intitula “O Salazar que habita em cada
português...”
Atira-se então à actriz, dizendo que “No fundo, Céu Guerra
está a defender aquilo que o dr. Salazar implementou em Portugal durante 40
anos: a primazia das corporações sobre a sociedade”, e que ele, o querido
Camilo, não está “disposto a tolerar práticas salazarentas mais de 40 anos
depois da morte do seu principal promotor.” (naco de prosa a ser lido aqui)
Ó Camilo, eu, por acaso também acho que as corporações são
do piorio, e se há profissão de que me lembro logo, assim que se fala em
corporação, é a dos médicos.
Por isso, aí vai o recado que tem andado adiado:
Se você tiver uma diarreia, daquelas a sério, e não apenas daquelas
diarreias mentais que em si são diárias, não caia na asneira de ir ao médico.
Por morte, infelizmente, da nossa mui virtuosa Santa da Ladeira, vá até Vilar
de Perdizes e procure por lá o Futre dos curandeiros. Assim provará, na prática,
que não está disposto a tolerar práticas salazarentas.
Mas pronto, como ir até Vilar de Perdizes sempre o faz
perder umas horas, tempo em que ficaríamos sem um dos turbo-néscios que acorrem
a tudo o que é rádio, jornal ou TV, daqui lhe desejo, convictamente e do
coração, que as diarreias não lhe desçam da mente para o intestino.
1 de janeiro de 2013
Palavras roubadas para iniciar 2013
“Fiz uma revisão do que aprendera. Tinha descoberto
capacidades e forças que nunca teria imaginado possíveis, naqueles tempos
quiméricos e distantes, anteriores à viagem.
Tinha entendido o que era a liberdade e a segurança e que havia necessidade de abalar os alicerces do hábito. Que para sermos livres precisamos duma vigilância constante e inflexível sobre as nossas fraquezas. Uma vigilância que requer uma energia moral que a maior parte de nós é incapaz de produzir. Acomodamo-nos aos moldes do hábito. São seguros, amarram-nos e refreiam-nos, com sacrifício da liberdade.
Quebrar esses moldes, ficar indiferente às seduções da segurança é uma luta impossível, mas uma das poucas que valem a pena.
Ser livre é aprender, pormo-nos constantemente à prova, apostar.
Não é seguro.”
No deserto australiano com quatro camelos e um cão
Quetzal
Tinha redescoberto pessoas no meu passado e chegado a uma
conclusão quanto aos meus sentimentos para com elas. Tinha aprendido que o amor
significava desejar tudo de bom para aqueles de quem gostávamos, mesmo que isso
nos excluísse a nós próprios.
…Tinha entendido o que era a liberdade e a segurança e que havia necessidade de abalar os alicerces do hábito. Que para sermos livres precisamos duma vigilância constante e inflexível sobre as nossas fraquezas. Uma vigilância que requer uma energia moral que a maior parte de nós é incapaz de produzir. Acomodamo-nos aos moldes do hábito. São seguros, amarram-nos e refreiam-nos, com sacrifício da liberdade.
Quebrar esses moldes, ficar indiferente às seduções da segurança é uma luta impossível, mas uma das poucas que valem a pena.
Ser livre é aprender, pormo-nos constantemente à prova, apostar.
Não é seguro.”
Robyn Davidson
TrilhosNo deserto australiano com quatro camelos e um cão
Quetzal
Um maravilhoso livro de viagem. Se temos que viajar apenas
sentados, então que seja em 1ª classe. É este o caso.
29 de dezembro de 2012
Ano Novo
Há quantos anos andamos, por esta altura, a dizer uns aos
outros – “Bom Ano Novo, já que este não deixa saudades. Esperemos que o próximo
seja melhor!”?
Talvez há mais de uma década. E as nossas esperanças num ano melhor foram sempre adiadas… por mais um ano.
2013 será aquilo que estivermos dispostos a fazer dele, em termos pessoais e, talvez sobretudo, colectivos.
Talvez há mais de uma década. E as nossas esperanças num ano melhor foram sempre adiadas… por mais um ano.
Chegados ao final deste insano 2012, quase parece uma piada
de mau gosto desejar um bom ano de 2013 a alguém.
Porém, se já sabemos dos mimos que os governantes nos preparam,
nada sabemos ainda de como este povo, velho e paciente, a eles reagirá.
Nada é para sempre.
Não quero o medo. Não acredito no destino nem em
inevitabilidades.2013 será aquilo que estivermos dispostos a fazer dele, em termos pessoais e, talvez sobretudo, colectivos.
Por agora, é apenas tempo de desejarmos uns aos outros, num
exercício de liberdade e insolência, aquilo que, de facto, nos é devido − um BOM ANO NOVO.
Temos 365 dias para o reclamar a quem de direito.
27 de dezembro de 2012
O silêncio das pantufas
Na sua página do Facebook, o Pedro escreveu:
“este não foi o Natal que merecíamos”
Num e-mail recebido há poucos dias, a minha amiga Paula
escreveu:
“da estrumeira nacional não
falo, que estes cabrões não nos merecem.”
Ora aí está: um
primeiro-ministro PIEGAS, desapoiado por um povo que está aficar ao estilo “de
atacar pelos queixos”. Lol.
26 de dezembro de 2012
“Aconteceu no Oeste”
No final da tarde do dia de Natal, um qualquer canal
televisivo passou o filme “Aconteceu no Oeste” que estive a rever.
Ganância pessoal e a soldo dominam o enredo, mas também a coragem e a justiça.
A distribuição das características dos personagens do filme pelos indígenas deste país, deixo por conta de cada um.
Realizado por Sergio Leone, com música de Ennio Morricone e
protagonizado por Henry Fonda, Charles Bronson, Jason Robards e Claudia Cardinale
é um dos melhores western de sempre.
Entretida com o filme, não vi nem ouvi Passos Coelho (acho
que fiz de propósito, mas não tenho a a certeza). Certo é que o filme pode ser
uma metáfora do que por aqui se passa – temos um bandido sem escrúpulos nem alma,
um plácido tocador de harmónica que espera o seu momento de acertar as contas
com o bandido sem alma, uma mulher de coragem e ainda o bandido Cheyenne que,
por não gostar que lhe atribuam culpas que não tem, acaba por evoluir para
bandido “bom” e justiceiro.
Ganância pessoal e a soldo dominam o enredo, mas também a coragem e a justiça.
A distribuição das características dos personagens do filme pelos indígenas deste país, deixo por conta de cada um.
Certo, certo, é que gosto muito do
personagem Harmónica, e também de metáforas.
E isto aqui não costumava ser a west coast?
21 de dezembro de 2012
Natal, pois claro
Reivindico agora, para mim própria, um breve período com
direito ao esquecimento, e a uma normalidade perdida no meu país.
Faz-se a árvore de Natal, compra-se o bacalhau, confeccionam-se
doces que nos darão o conforto do açúcar sem pecado.
Natal é a celebração por excelência da cultura e civilização
em que nos inserimos. Crentes, ateus ou agnósticos, poucos lhe escapam.
Como é próprio de todas as celebrações, o Natal é agregador,
às vezes até reconciliador, reforça laços, une, quebra rotinas.
Terminado (à força) o tempo da lamúria contra o consumismo da
época, e terminado, para muitíssimos, qualquer tipo de consumo, só a sua parte
imaterial nos pode agregar como colectivo.
Celebremos então o imaterial – os afectos, a magia da luz, o
sentimento de pertença.
Por estes dias, o importante, mesmo, é que cada um celebre
um Natal que seja verdadeiramente o seu.
É o que vou fazer.
BOM NATAL.
20 de dezembro de 2012
Amigas
Amigas
são melhores que irmãs − Amigas não trazem na bagagem histórias de família,
competição pelos afectos, roupa, beleza ou homem.
Amigas interessam-se. E cuidam. Sempre.
O
calendário não manda nas Amigas, salvo se elas assim o decidirem.
Amigas
riem, choram, concordam, discordam, contradizem, viram do avesso.
As
melhores amigas são muito diferentes de nós, e entre si também.
Há
uma dor que as Amigas nunca têm, é no cotovelo, porque Amiga nunca tem inveja
de nada em nós.Amigas interessam-se. E cuidam. Sempre.
Não
importa que as Amigas estejam longe muito tempo porque, quando chegam perto,
são a negação do próprio tempo.
Mesmo
assim ele passa, e é quando deixam de pedir café e optam pela tisana ou pela
água que descobrem, juntas e estupefactas, quão pouco mudaram, e como as
grandes questões das suas vidas, toscamente “descascadas” anos antes,
permanecem quase inalteradas. Voltam repetidamente as elas, acompanhando a
tisana ou a água, mas sem pressas, sem pinças e sem luvas.
E
falam, falam, falam, cavalgando as horas; e riem, choram, concordam, discordam,
contradizem, viram do avesso.
A
vida, na sua muito própria sabedoria − que por vezes não descarta a injustiça,
não anda por aí a distribuir Amigas ao desbarato. Nem outras Graças.
Para
as conceder exige atenção, porque, como muito bem percebeu o Vinícius −
Amigo(a) a gente não faz, Amigo(a) a
gente reconhece.
19 de dezembro de 2012
Em tempo de cólera
Quando, há tempo, Passos Coelho disse “que se lixem as eleições”, eu,
por uma vez, acreditei nele, e continuo a acreditar.
Passos veio para cumprir um programa ideológico de destruição do que de
melhor tínhamos construído, deixando ficar e fortalecendo tudo o que é tóxico
na nossa sociedade. Uma legislatura chega para isso.
Até sobra. Depois do trabalhinho feito, ele não quererá mais ser
político, coisa que só dá chatices, e certamente terá bons lugares à sua
espera. Talvez até fora do país, talvez até sonhe com a Goldman Sachs, quem
sabe.
É por isso que acredito nele quando brama - “que se lixem as
eleições”.
Os jornais escrevem: Passos garante que a venda da TAP ficará decidida
na quinta- feira. Em que condições, não sabemos. Mas é amanhã.18 de dezembro de 2012
Havemos de ser todos alemães
Querida Senhora Merkel
No passado domingo li e ouvi que a senhora está preocupada
com a lentidão do nosso “ajustamento”.
Antes de mais, deixe-me dizer-lhe o quanto admiro a sua
capacidade de trabalho – nem ao domingo descansa. Só tenho pena que também não
nos deixe a nós descansar de si.
Somos um pouco lentos, é certo, mas já percebemos que, para
seu contento, um dia havemos de ser todos alemães.
Eu, para aprender mais depressa, até fiz uns bonecos que
tenho sempre diante de mim e que lhe venho mostrar; à esquerda, o que somos, à
direita, o que seremos.
Por isso, tenha calma. Havemos de lá chegar.
Auf wiedersehen, liebe frau.
PS: imagens recebidas por e-mail
17 de dezembro de 2012
Suportes que ele não suporta
Um bom indicador do envelhecimento é a incapacidade para ser,
no mínimo, tolerante com o novo, mesmo que não o entendamos completamente ou
não nos consigamos adaptar a ele.
Llosa afirma : “se os tablets e os ecrãs roubarem todo o protagonismo ao livro, assistiremos a um extraordinário empobrecimento da linguagem, haverá uma deterioração da comunicação e da racionalidade, as máquinas passarão a pensar por nossa conta e isso poderá trazer consequências gravíssimas, nomeadamente o desaparecimento da liberdade”.
Quem é mais novo, quem é?
E, já agora, quem parece mais inteligente e disponível para a vida?
Essa é uma das razões por que a entrevista que Vargas Liosa
dá ao Ípsilon da passada sexta-feira é tão deprimente.
Apocalíptico em sentido lato, reserva para si e para a
literatura o papel de salvadores do
pensamento e da escrita, mas apenas, e repito APENAS, no formato de livro.Llosa afirma : “se os tablets e os ecrãs roubarem todo o protagonismo ao livro, assistiremos a um extraordinário empobrecimento da linguagem, haverá uma deterioração da comunicação e da racionalidade, as máquinas passarão a pensar por nossa conta e isso poderá trazer consequências gravíssimas, nomeadamente o desaparecimento da liberdade”.
Um susto, estas afirmações (reiteradas), vindas dum Nobel da
Literatura que só tem 76 anos.
No que me diz respeito, gosto de livros. Gosto mesmo muito.
E, apesar de reconhecer o prazer quase sensual de os manusear, cheirar etc. não
fujo do digital como o diabo foge da cruz. Há livros que quero ter fisicamente
ao pé de mim. Sempre. Esses, quero-os em papel. Há muitos outros que leio e
esqueço. São os que podem vir em suporte digital − um dia vou apagá-los para
dar lugar a outros. Esta mania de que as coisas não podem coexistir, nunca a
entendi, até porque o passar do tempo nos vai mostrando que é o contrário que é
verdadeiro.
Vargas Llosa ficou, precocemente, velho.
Compare-se a sua postura face ao ecrã com a da minha mãe,
que no dia dos seus 86 anos recebeu livros, mas também foi à internet descobrir
um truque para fazer crescer as farófias.Quem é mais novo, quem é?
E, já agora, quem parece mais inteligente e disponível para a vida?
PS: sobre o mesmo assunto, recomendo o post de Rui Bebiano no seu blog A Terceira Noite
14 de dezembro de 2012
Há silêncios que entristecem
A TAP é mais um “luxo” que
não podemos ter, está visto, e 20 milhões chegam para nos resgatar do vício.
O que eu estranho mesmo, é o silêncio dos pilotos e outros
profissionais da TAP sempre tão prontos (desde o 25 de Abril) a fazer greve
quando mais doesse aos passageiros e, sobretudo, às tentativas de recuperação
financeira da empresa.
Não há uma grevezinha para o Natal? Nem sequer uma ameaça
clara ou velada? Nem um comunicado com uma tomada de posição? Estarão contentes
de ir trabalhar para o tal Efromovich, ou estarão a
enfiar o rabinho entre as pernas?
Dúvidas, dúvidas, dúvidas. Mas que
o silêncio deles é ensurdecedor, lá isso é. E triste!
Boa informação sobre as contas desta venda, aqui
13 de dezembro de 2012
De Caranguejo para Sagitário
Que laço tão forte é esse que nos une, apesar das diferenças tão grandes que nos separam?
Quem o deu?
Quem o apertou assim?
A ciência não explica, mãe.
Talvez, afinal, nem precise.
Imagem daqui
12 de dezembro de 2012
O Caderno Vermelho
A propósito do post
de ontem, e das coisas estranhas ou difíceis de explicar que nos acontecem,
lembrei-me do livro “O Caderno Vermelho”
de Paul Auster.
São pequenas histórias, todas verídicas, segundo o autor,
que assentam, sobretudo, no acaso (tema que lhe é caro), narrando
acontecimentos bizarros e coincidências quase do outro mundo. São histórias que
em algum momento da vida podem acontecer a qualquer pessoa, que impressionam no
momento, mas depois esquecemos. Contudo, o escritor não esqueceu, e com elas
compôs um pequeno e delicioso livro.
Quando, nos dias que correm, entro numa livraria, tenho
frequentemente a sensação de que o mundo da edição, por aqui, é consumidor
regular de cogumelos alucinogénicos; outras vezes, penso que adoptaram o modelo
das fábricas de enchidos – entra porco e, logo, logo, sai salsicha.
Tantos livros, tantos autores, tanto colorido, tanto design
kitsch, tudo reduzido a picado daí a poucas semanas.
Não estranhei, por isso, não ter encontrado, nas buscas que
fiz na internet, “O Caderno Vermelho”,
livro publicado há já um bom par de anos, mesmo sendo este um país de leitores
fiéis de Paul Auster.
Apenas a livraria Bulhosa me diz: “Disponível entre 3 a 5
semanas (sujeito a confirmação) ”, pelo preço de 1,50 €.
Assim sendo, este é um daqueles livros que vale a pena
procurar na biblioteca pública. É tão pequeno que podemos ficar lá a lê-lo, e
sair daí por uma hora com sentimentos misturados de encantamento e espanto.
E ainda com um sorriso nos lábios.
11 de dezembro de 2012
Eu não acredito em bruxas
Um destes dias, saí lampeira com o meu carrinho de compras
para ir ao Pingo Doce cá do sítio comprar pão, legumes, fruta e pouco mais.
Não é uma loja grande, nem tinha muita gente.
Feitas as compras, escolhi, para pagar, a caixa central, que
é a terceira de cinco. Larguei o meu cesto cinzento com rodinhas atrás da
senhora que ia começar a fazer o seu pagamento e fui buscar o meu carrinho de
compras, deixado na entrada a não mais de 7 ou 8 metros. Podia vê-lo, e devo
ter demorado 30 segundos, ou menos.
Quando voltei, o meu cesto já não estava onde o tinha
deixado. Olhei à volta e não o vi, perguntei ao segurança, ali especado como de
costume, se tinha reparado em alguém que levasse o cesto por engano; que não.
As pessoas à volta, ouvindo a conversa, em todas as filas de caixa começaram a
olhar os seus cestos para verificar se não se teriam enganado. Nada.
Esperei um pouco. Que diabo, quem pegou no cesto por engano
rapidamente se havia de dar conta disso. Nada. Resolvi eu própria dar uma vista
de olhos aos cestos dos clientes que estavam nas filas. Nada. Venci a inércia e
percorri todos os corredores do supermercado a olhar todos os cestos. Nada. Decidi
voltar a fazer todas as compras sempre de olho nos cestos dos outros. Nada. Já
de cesto cheio, voltei a percorrer todos os corredores, sempre espiando cestos.
Nada. Voltei para a caixa e perguntei de novo ao segurança se alguém tinha dado
sinal de se ter enganado. Nada. Paguei e saí.
Esta é uma daquelas situações em que, se persistirmos em
encontrar uma explicação razoável, dado que compras não pagas não podiam
interessar a ninguém, corremos o risco de ficar maluquinhos. O melhor mesmo é
pôr uma pedra no assunto. É o que tenho tentado fazer, mas sem lograr completo
sucesso – volta cá, volta lá, lá estou outra vez a pensar no mistério da cesta
desaparecida.
Resolvi, pois, contá-la, como quem exorciza fantasmas.
É que eu não acredito em bruxas, mas lá que as há, há!
10 de dezembro de 2012
Barroso Twist, um contorcionista português
Há dez anos, foi como a foto mostra – Barroso Twist a fazer
de porteiro aos três delinquentes que nas Lajes, nesse dia, decidiram a invasão
do Iraque.
Hoje, Barroso Twist, ou o grande contorcionista português, igualmente
bem acompanhado, vai receber em Oslo o Prémio Nobel da Paz, atribuído à Europa.
Do trio de presidentes (Barroso, presidentes da Comissão Europeia; Herman Van
Rompuy, presidente do Conselho Europeu e Martin Schulz, presidente do Parlamento
Europeu), dois não foram eleitos por ninguém. A Europa que eles
representam, por sua vez, que já foi o território da esperança de milhões de
homens e mulheres tem hoje 120 milhões de pessoas em risco de emergência social
e 26 milhões de desempregados.
Uma verdadeira fábrica de fazer pobres em permanente
laboração.
Barroso, Rompuy e Schultz são três bostas, dignos
representantes da bosta que criaram.
Vou desligar a televisão. Esta não é a minha Europa e eles
não me representam.
Quanto à Academia Sueca, depois de velha virou prostituta.
Como se pode ver, hoje a minha tolerância resolveu não se
levantar.
7 de dezembro de 2012
Calafrios
No DN online de hoje, duas notícias provocam-me calafrios.
Acho que encontro demasiadas semelhanças nos objectivos.
Gostava de estar só a ver "coisas".
Pussy Riot colocada em cela isolada para reeducação
Nuno Santos foi suspenso da RTP (depois das declarações que fez no Parlamento)
Dois casos em que poder não olha a meios para dar o exemplo.
Acho que encontro demasiadas semelhanças nos objectivos.
Gostava de estar só a ver "coisas".
Pussy Riot colocada em cela isolada para reeducação
Nuno Santos foi suspenso da RTP (depois das declarações que fez no Parlamento)
Dois casos em que poder não olha a meios para dar o exemplo.
Filha de Rousseau
Deixando de lado as questões da pedagogia e do saber, e apesar de já
ter idade para ter juízo, sei que ainda hoje, lá bem no fundo do fundo, sou um
pouco “filha de Rousseau”, no sentido de acreditar que o homem é naturalmente
bom.
Estúpido isto, eu sei que é estúpido, porque a toda a hora se demonstra
que o contrário é que é verdadeiro, mas, como cada um tem direito à sua dose de
parvoíce, eu tendo a tomar como seguro que os gestos bonitos nascem da bondade
de corações puros. Pois!
O exemplo mais recente foi o da tal Adriana na manifestação de 15 de
Setembro; achei que o sortudo do fotógrafo tinha conseguido captar um momento
de fraternidade universal, em que o coração duma boa (!) garota ansiava pela
paz e concórdia entre os homens, não temendo botas cardadas, bastões ou
viseiras para alcançar tão nobre objectivo.
Vai na volta, viu-se que afinal a miúda tinha inclinação para o showbiz.
Daí que tenha estremecido quando li esta frase no Público, a propósito
do polícia nova-iorquino que foi comprar umas botas para o sem-abrigo descalço:
Jeffrey Hillman ficou famoso como o
sem-abrigo descalço a quem um polícia ofereceu um par de botas numa noite fria.
A fotografia do momento emocionou o mundo.
Mas nem tudo é o que parece.
Pensei: lá vem bomba de fragmentação para cima da minha fé nos homens.
Até tive medo de ler. Mas li, e ainda bem. Afinal o polícia é mesmo um polícia
bom, de coração puro e compassivo, e o sem-abrigo é apenas alguém,
ou mais um, que perdeu o tino durante uma das muitas guerras americanas. Ufff…
Bom fim-de-semana para todos os corações bons e compassivos.
6 de dezembro de 2012
Coragem, gosto
Coragem intelectual é um bem escasso por aí.
Coragem física, idem.
Mas aprecio as duas, quer nos homens, quer nas mulheres.
Coragem física, idem.
Mas aprecio as duas, quer nos homens, quer nas mulheres.
Há dias critiquei aqui a “coragem” do fulano que chegou a
mandar, num só dia, mais de 100 SMS a um outro que lhe assediou a mulher. Tinha
a coragem toda na ponta dos dedos e atrás do telemóvel.
A José Mourinho, pelo contrário, não se pode negar coragem.
Não encontrei o vídeo que vi num noticiário mas encontrei a
notícia. Resumindo-a, “o treinador do Real Madrid avisou que ia
entrar sozinho em campo antes do dérbi com o Atlético para ser “assobiado à
vontade”.
E assim fez. Quarenta minutos antes de o jogo começar,
Mourinho ofereceu o “peito às balas” e ali ficou sozinho, especado, ouvindo
assobios e aplausos. Entendeu que, se a causa da discórdia é ele, então ele vai
aparecer sozinho para que a equipa não sofra os assobios que o têm como
destinatário.
Teatral? Talvez, mas todo o espetáculo vive disso também.
Porém, se coragem se define como firmeza de ânimo na adversidade, goste-se ou não do estilo (e eu até nem sou fã), não se
poderá nunca dizer que este homem não tem tudo en su sitio.
5 de dezembro de 2012
O Henrique e as malhas da Ti’ Maria
No sábado passado, voltou às origens e às camisolas de malha
da Ti’ Maria, que lhe eram oferecidas no Natal e na Páscoa, e davam um jeitaço
porque eram quentinhas e coloridas e tricotadas com amor e passavam de tronco
para tronco.
Eram bons tempos, na perspetiva do Raposo, e estão de volta,
com a graça de deus.
Então ter as tias todas a tricotar furiosamente para os
ganapos ali à volta da braseira não é um ideal para o século XXI, para a
refundação da família cristã e do próprio país?
Se o Henrique fosse um pouco mais velho ainda se havia de
lembrar, com prazer, dum texto do livro único do Salazar para a escola
primária.
Mas eu conto: era uma vez um menino mau que foi aos ninhos e
rasgou as suas únicas calças. A irmã, depois de o admoestar por tão feia acção,
e para que a mãe não percebesse, pegou na agulha, não a de tricotar da Ti’ Maria,
mas a outra, a de coser, e arranjou as calças na perfeição. O texto terminava
dizendo: “Que lindas que são as meninas que sabem costurar”.
Ó Henrique, caraças, isso é que eram bons tempos. Já viu só,
se conseguisse juntar a Ti’ Maria a tricotar e a mana a coser para si? Era o
paraíso na terra.
Porcaria de país este, que meteu na cabeça que havia de ir à
Benetton comprar malhas.
Mas os “ontem que cantam” na cabeça do Henrique são um
verdadeiro farol para o futuro do país.
4 de dezembro de 2012
A senhora na nuvem
Durante uns bons vinte anos, todos somos filhos de alguém. O
menino ou a menina A ou B são filhos do senhor C e da senhora D.
Algures num tempo incerto, tudo se inverte − o senhor C e a
senhora D passam a ser os pais de A ou B.
Profunda alteração, esta, que, muito prosaicamente, se pode resumir
dizendo que os meninos já são adultos e os pais já estão a ficar velhos.
Se isto não tem lá grande piada, certo é que também pode
proporcionar uma segunda e insuspeitada “existência”.
Por exemplo, a mãe do Herman José não teria existência
pública sem o filho; Helena Sacadura Cabral sempre a teve, e continua a ter,
mas ela foi potenciada pela subida à ribalta dos seus dois filhos.
Contudo, para o resto das suas vidas, ambas permanecerão, em
grande medida, as mães do Herman, do Miguel e do Paulo.
Mesmo a um nível isento de exposição mediática, um filho respeitado
e estimado no seu meio, quer pela seriedade e qualidade do trabalho que
desenvolve quer pelo seu carácter, pode transformar o aparecimento da sua mãe
numa espécie de descida à terra de Nossa Senhora da Conceição poisada na nuvem.
Dar-lhe uma “existência” não expectável.
E isso é bom para quê, pode perguntar-se.
Pois, é bom para a alma, seja lá isso o que for.
Verdade, verdadinha, que dispenso o séquito de anjinhos e
querubins que sempre acompanham a imagem da santa, mas lá que eu gosto muito de
descer à terra encarrapitada na nuvem, lá isso gosto. E ponto final.
3 de dezembro de 2012
Posso escolher com quem ando?
O peditório do Banco Alimentar contra a Fome correu bem.
Ainda bem.
Esta organização sempre foi muito acarinhada cá na família,
com doações e respeito.
As já célebres declarações de Isabel Jonet que, aos meus
olhos, não foram nada infelizes mas completamente genuínas, fizeram abanar os
alicerces do afecto e empatia.
Afinal, as ideias dela nada tinham que ver com as minhas; eu
pensava que o Banco era uma organização movida pela solidariedade e fiquei a
perceber que o combustível era a caridade.
Nunca fui adepta da caridade, mas respeito-a como um pilar da
fé católica – cada um gosta do que gosta.
Nestes tempos difíceis, é preciso acorrer a quem não tem
comida no prato e por isso nem me passa pela cabeça deixar de o fazer. Tenho,
porém, o direito de participar como e com quem eu quiser, e decidi ser
preferível fazê-lo com quem nunca quis parecer aquilo que não é. Refiro-me à
Igreja, através da sua organização Cáritas, que faz um trabalho que em nada
fica a dever ao Banco, só que em surdina, sem happenings bianuais.
Assiste-me ou não o direito de escolher a companhia para
atravessar o pântano? Entendo que sim, e por isso acho triste ver um certo
fanatismo alarve, beato e leviano vertido para texto, como neste caso:
“Ser solidário é importante.
...e não se preocupem com a maltinha bem-pensante que vos vai dizer que ajudar o Banco Alimentar (eles dirão "tia Jonet") é fazer caridadezinha.
De facto, eles estão mais preocupados em ser coerentes com o próprio e adorado umbigo e é gente que nunca deu nem dará nada a ninguém, nem um beijo, nem um abraço, nem a ponta de um corno, nem nada...” (retirado do Facebook)
...e não se preocupem com a maltinha bem-pensante que vos vai dizer que ajudar o Banco Alimentar (eles dirão "tia Jonet") é fazer caridadezinha.
De facto, eles estão mais preocupados em ser coerentes com o próprio e adorado umbigo e é gente que nunca deu nem dará nada a ninguém, nem um beijo, nem um abraço, nem a ponta de um corno, nem nada...” (retirado do Facebook)
Pensar pela própria cabeça e fazer escolhas de acordo com
as convicções de toda uma vida parece transformar-nos em “bem-pensantes”, termo
sempre usado com enorme carga negativa, e, simultaneamente, nuns estupores que
nunca deram nada a ninguém.
Se é costume dizer que as acções ficam com quem as
pratica, eu acrescento que as palavras desnudam quem as profere − seja a Isabel
Jonet na televisão ou um cidadão anónimo no Facebook.
É por isso que elas, as palavras, são tão perigosas.
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