31 de agosto de 2011

Os nossos 5 sentidos


Eu escuto
Tu escutas
Ele escuta
Nós escutamos
Vós escutais
Eles escutam


E atão? qual é o mal?
São coisas lá”deles”,pá!

Moral da história: enquanto usam o ouvidinho para escutar, abocanham a democracia. Porque é que a gente não os “apalpa”?
Ora, porque gostamos de fazer de cegos e nunca nos cheira a esturro.

Sueco não bate em menino.Talvez menino bata em sueco.

Eu cá sou do tempo da lambada. Não aquela dança do século passado, mas aquela outra sinónima de estalada. A minha mãe tinha a mão leve e muita pontaria com ela; nunca caíam no chão. Umas eram justas e outras injustas, mas isso é pecado e dúvida que todos os pais carregam.
D. Luísa, da mesma geração, costumava dizer-me que até aos 5 anos há uma ligação directa do rabo ao cérebro – uma palmada no rabo e acende-se uma luz no cérebro. Criaram filhos, 10 no total, de todos se orgulham e todos se orgulham delas.
Segundo notícia do Jornal de Notícias, um italiano de sangue quente, estando de férias na gélida Suécia, deu uma estalada no filho de 12 anos que estava a fazer uma birra na rua (e provavelmente a incomodar todo o mundo à sua volta) e isso é PROIBIDO na Suécia.
Logo, o italiano foi preso e vai ter de ficar na Suécia até 6 de Setembro, dia em que vai a julgamento.
Uma coisa é espancar um filho e outra bem diferente é dar-lhe uma estalada se está a fazer uma birra, acho eu, mas os assépticos suecos acham que é tudo igual. Ou muito me engano ou eles ainda vão conseguir transpor isso para a legislação comunitária, como a calibragem dos peros, e cá a malta de sangue quente vai ficar bem lixada.


30 de agosto de 2011

Dear Steve e companhia

Eu sei que isto não interessa nada aos fervorosos adeptos de Steve Jobs e dos seus brinquedos, mas interessa-me a mim e, agora que tanto se falou dele, também eu quero lembrar algumas coisas.
É fácil fascinarmo-nos com os itudo (iPod, iPad, iPhone), mas convém não esquecer o que está por detrás deles e, lamentavelmente, não é só a criatividade do dear Steve. Se os podemos comprar relativamente baratos, dada a quantidade de habilidades que fazem, e assim encher os bolsos do Jobs e companhia, é porque centenas de milhar de chineses são escravizados nas fábricas da Foxconn.
Esta fábrica nasceu em Taiwan e é hoje a maior fabricante mundial de componentes electrónicos. Instalou-se na China em 1988 na cidade de Shenzhen. A 30 minutos desta cidade situa-se o grande complexo da fábrica onde trabalham 300 000 pessoas; não só trabalham mas também vivem, porque a fábrica oferece alojamento e outras “mordomias” como piscinas, por exemplo, que ninguém consegue usar porque é frequente cada operário ter um horário semanal de 80 horas. No ano passado, mais de uma dezena de jovens operários suicidaram-se e muitos outros o tentaram. As condições de trabalho nessas 80 horas são desumanas e de tal modo repetitivas que me fazem lembrar, segundo as descrições, os “Tempos Modernos” de Chaplin – não se consegue parar a mão quando se sai do trabalho.
Em consequência da onda de suicídios, foi ponderada a diminuição do número de horas de trabalho e um aumento do salário que, em média, é de 90 dólares por mês.
Claro que a Apple não é a única cliente, tem boas companheiras na HP e Sony, por exemplo.
Quando nos divertimos com os nossos brinquedos inventados pelo Steve e simultaneamente nos queixamos da vida, seria bom que nos lembrássemos que ainda vivemos na melhor parte do mundo mas que, se não tomarmos conta dela, há por aí muita gente com vontade de a transformar numa imensa China.
Ou talvez nem cheguemos a isso, visto que o multimilionário chinês dono da fábrica, planeia, nos próximos três anos, para reduzir custos com os trabalhadores, substituí-los por um milhão de robôs.

29 de agosto de 2011

Estranho país, Israel

No Museu do Chiado, pude ver recentemente um vídeo de Nira Pereg – Sabbath 2008, em que se assiste ao encerramento ao trânsito de zonas ultra-ortodoxas de Jerusalém, para celebração do Sabbath, encerramento levado a cabo pelos próprios judeus ultra-ortodoxos, com autorização do município.
Não deixa de ser bizarro, no século xxi, ver aqueles homens e crianças de cabeça coberta, roupa preta e trancinhas a impedir a circulação de todos os outros cidadãos.
Veio-me à memória um artigo de Amos Oz, o mais conhecido escritor Israelita, que o DN publicou não há muito tempo, em que o escritor fala dos movimentos dos jovens acampados (lá também) e da situação actual de Israel, apontando especificamente o custo destes cidadãos para o Estado como um das razões para as dificuldades sentidas, entre outras (os milhões gastos a construir colonatos e a desigualdade distributiva). Escreve ele:


…Em segundo lugar, nos montantes astronómicos canalizados para as escolas ultra-ortodoxas, onde crescem gerações de vagabundos ignorantes, cheios de desprezo para com o Estado, o seu povo e a realidade do século xxi.

Depois, ainda me lembrei que a rua de Lisboa onde se situa a embaixada de Israel também tem uma barreira que a fecha ao trânsito.
E penso ainda: estranho país este, Israel, que parece só saber viver levantando muros e barreiras.
Nota: a imagem pertence ao vídeo de Nira Pereg e foi retirada do site do MNAC.

26 de agosto de 2011

Não percebo

Ser bom repórter, em português, é dar o corpo (e a cabecita) às balas?
Ou isso é só estupidez igual à do operário machão que não usa capacete exactamente porque é muito macho e muito estúpido?
Ver para crer

Ricardo Jacinto no Chiado 8

Até 14 de Outubro, e naquele local tão simpático que é o Largo do Chiado, no belo edifício da seguradora Fidelidade, pode ver-se uma excelente exposição de Ricardo Jacinto.
Com o título O Corredor, é constituída por duas salas, inicialmente escuras que nem breu, onde se projectam vídeos, e um espaço entre elas a que se chamou Foyer. Num dos vídeos vê-se a “História do pinheiro e do lobo” e no outro a “História da água e do avião”
Os vídeos correm em simultâneo, o que não permite vê-los em simultâneo mas permite ouvi-los em simultâneo. Se no 1º há uma ligação ao exterior com a festa do pinheiro em Guimarães e o biólogo que imita a voz do lobo, no 2º o artista remete-nos para os espaços fechados duma piscina e duma câmara anecóica para treino de pilotos.
No Foyer encontram-se, num pequeno ecrã, imagens de depoimentos dos intervenientes nos vídeos e o respectivo som em simultâneo, que nos vem dos quatro cantos da pequena sala, numa perturbante cacafonia inicial; porém, aos poucos, o ouvido e a visão do espectador vão discernindo qual o som que corresponde a qual imagem. É precisamente quando o conseguimos que percebemos que isso não é o mais importante, que os vídeos não pretendem fazer nenhuma narrativa ou ter um sentido.
A subjectividade é, por ali, rainha, e os nossos sentidos e percepção são convocados pelo artista para uma experiência que exige do espectador muito mais que a disponibilidade dum olhar passivo.
É uma boa experiência; vale a pena ir até lá para a ter.

25 de agosto de 2011

Sumário




- A Madeira está falida, de propósito, para a gente pagar. lol
- O Relvas contratou um feroz comunista do blog 5Dias.net e este aceitou para ganhar dinheiro mas afinal vai perder dinheiro. Os bloggers andam todos à porrada, ou melhor, ao insulto, por causa disso. lol
- TGV outra vez? Sim, não, talvez, quem sabe? lol
- Amorim diz que não é rico, é trabalhador. lol
- Passos não tem conta bancária. E só tem um utilitário. lol
- Mário Crespo foi convidado para Washington mas afinal não foi convidado. lol
- Seguro desapareceu para parte incerta e o PS nem oferece alvíssaras. lol
- Notícia mesmo séria: o Miguel Bombarda fechou.

24 de agosto de 2011

Já sei onde é que a Moody's desembarcou

Acho que já percebi porque é que a Moody’s nos classificou como lixo. É que eles, à chegada, desembarcaram no terminal rodoviário de Sete Rios.
O espaço foi inaugurado, como provisório, claro, em 2004 e desde aí ninguém mais lhe ligou peva.
Quem é que, até aqui, viajava de autocarro? Os pobres, claro, e para esses, geralmente feios, porcos e, às vezes até maus, qualquer coisa serve.
Tudo parece intocado naquele local, excepto pelo tempo. Papeleiras e cinzeiros, ao fim de 7 anos a servir mais de 7000 pessoas por dia, apresentam-se coxas do reumático, com muitas manchas na pele, queimaduras de primeiro grau e problemas sérios de coluna. Lá para o fim do dia o lixo é tanto que elas se recusam a engolir mais e os cinzeiros, vítimas de transeuntes apressados, fumegam como chaminés de siderurgia. Ao mesmo tempo, os ecrãs de chegadas e partidas podem  entrar em descontrolo emocional sendo possível ver que um autocarro com chegada prevista para as 19h45 às 17h30 já CHEGOU.
O linóleo do chão do bar foi entregue a um pintor revivalista da Op art e, o dito bar, apesar de amplo, apresenta apenas quatro raquíticas mesas altas onde ninguém se pode sentar, não vão os estafados passageiros pensar que estão nas Docas. Na casa de banho das senhoras, o dito pintor Op também fez o seu trabalho no linóleo; além disso, cada torneira tem seu estilo, mas em comum têm o facto de todas pingarem sem interrupção. No tecto, falta um painel, pelo que, enquanto se espera na cordata fila, podemos admirar os píncaros do imóvel; quanto aos autoclismos, trabalham por turnos.
Fantástica mesmo é a sala de entrada. Muito ampla e luminosa, serve as bilheteiras e os WC, e não serve para mais nada, visto que não há um único lugar para sentar; com aquele tamanho suponho que não se pode sentar mas pode-se andar de patins. Passageiro está cansado e carregado? pois sente-se na rua, desfrutando a clemência deste clima, ou bem juntinho aos autocarros a respirar o fumo dos escapes. Mas, mesmo aí, atenção, nada de puxar do cigarrito que não se quer cá a estação poluída.
Ó senhores da gestão daquela coisa, sabemos que para pobre “bacalhau basta”, mas eu tenho a certeza que a Moody’s entrou por ali, ou não nos teria classificado como LIXO.
E eles podem voltar.

23 de agosto de 2011

O óbvio e o menos óbvio

Ao fim de 37 anos de democracia, o voto dos portugueses tornou-se mais ou menos previsível a cada acto eleitoral.
Quando, no dia 5 de Junho foram mais uma vez chamados a votar, a sua vontade de mudança era tão grande que, previsivelmente, a maioria optou pelos partidos que, com toda a certeza, garantiriam essa mudança; outros, incapazes de pôr a cruz em partidos com que não se identificam, mas desejosos de mudança e estabilidade, escolheram o voto em branco, conscientes de que o resultado seria o mesmo. Esqueceram esses que também na mudança os fins não justificam os meios, e que a estabilidade pode ter um alto preço ou não se traduzir em nada mais que uma paz social muito podre.
Mas mudar era imperioso; porém, os portugueses não perceberam, julgo que até hoje, que o PSD de Passos não tinha nada que ver com o velho PSD, esse sim, seu velho conhecido. Pois se até o velho professor Marcelo, tão perspicaz e inteligente, continua a comentar o governo como se ele fosse constituído pelo velho PSD…
Com o país ainda de férias, só mais lá para a frente a maioria será confrontada com as (poucas) medidas já em vigor e as (muitas mais) que aí vêm. A título de exemplo vale a pena referir que, hoje, 5 euros não dão para mais que duas viagens ida e volta de Metro.
Este governo, eleito com o voto desesperado dos portugueses, vai destruir o que levámos 37 anos a construir.
Com a sua fúria de ser mais duro e rápido (mas sempre com os mesmos) que a troika, vai levar os portugueses à penúria e a um passado que as novas gerações desconhecem.
Quem dera estar enganada, mas acho que é só esperar para ver.
 



22 de agosto de 2011

João Penalva no CAM

“Trabalhos com texto e imagem” é o nome da exposição antológica de João Penalva que o Centro de Arte Moderna da Gulbenkian exibe até 9 de Outubro de 2011.
Constituída por fotografias, vídeos, textos, pinturas, esculturas e instalação, nela vamos descobrindo as múltiplas facetas dum artista a quem nenhuma forma de expressão é estranha. Bailarino, pintor, actor, escritor, tradutor, gráfico, curador, cineasta, fotógrafo, poderia ter sido também escritor, porque aqui encontramos também um bom narrador e contador de histórias (reais ou imaginadas), que até nos podem fazer rir: eu ri, e ouvi um jovem que estava por perto dar umas boas gargalhadas.
Porém, visitar esta exposição que ocupa todo o CAM, excepto a Galeria -1, exige tempo, muito tempo, porque não se trata apenas de ver, mas também de ler.
Ouso por isso dizer que o tamanho desta exposição é quase um absurdo.
Por mim, estive lá duas horas e só vi uma parte. Com muita pena minha, que gostaria de ter visto mais, as pernas disseram-me para ir embora, e eu fui. Pelas minhas contas, para ver e ler tudo, precisaria de lá voltar ainda umas três vezes. A quatro euros cada vez…é fazer as contas, como dizia o outro.
Quem quiser ficar-se por uma única visita, dependendo da sua condição física e do número de vezes que vai ao ginásio, pode ficar com um visão maior ou menor do excelente trabalho dum dos nossos  mais internacionalizados artistas.
O catálogo que acompanha a exposição não desmerece; com abundantes reproduções, tem textos em português, inglês e dinamarquês de Rachel Withers, Bruno Marchand e João Nisa (cinema).
Preço, 40 euros.
Enfim, luxos.




20 de agosto de 2011

Um bom conselho

Não recomendo o deserto ao viajante que já tem o deserto dentro de si. Não há pior encontro. Para sobreviver emocionalmente ao deserto é necessário um grande cantil emocional de interesses, afectos, curiosidades e planos de futuro. Se vamos frágeis e vazios de significado para esse encontro, podemos não aguentar.
Gonçalo Cadilhe, Expresso, Única, 13/08/2011
                                                       

19 de agosto de 2011

Vestido novo

O blogue tem, a partir de hoje, um vestido novo, sujeito a novos acertos.
Espero que gostem!

Lisboa na Rua


Uma boa iniciativa que os lisboetas acolhem com agrado e boa participação. Imagens de ontem ao fim da tarde no Largo S. Carlos com a Orquestra Jazz de Matosinhos.
Aproveitemos.




18 de agosto de 2011

Ó Mourinho

 

Mourinho é um português de sucesso; Mourinho é um dos portugueses mais conhecidos no mundo; Mourinho ajuda a levantar o ego de muito português injustiçado, mas Mourinho está cada vez mais arruaceiro. Ó Mourinho, tem lá calma, pá, que para pior já basta assim e tudo o que a gente não precisa agora é de ver um português a levar um puxão de orelha dum espanhol depois de lhe teres metido o dedo no olho.
Haja paciência! E, já agora, maneiras







17 de agosto de 2011

Ana Vidigal – “the brain is deeper than the sea”.

Pode-se gostar de arte e de visitar exposições, mas ouvir os artistas visuais a falar do seu trabalho é, à partida e garantidamente, uma experiência que vale a pena ter.
O Museu do Chiado, que no primeiro semestre deste ano aumentou em 63% o número de visitantes em relação ao mesmo período do ano passado (nem tudo são más notícias), tem a decorrer um programa a que chamou “Outros Olhares, Novos Projectos”. Convidou vários artista para que cada um escolha uma obra do museu e produza outra para com ela dialogar.
Neste momento, o olhar e o projecto são de Ana Vidigal, que escolheu o quadro de José Malhoa, “Praia das Maçãs”. Colocou-o em confronto com grandes impressões a jacto de tinta de páginas do seu próprio álbum de fotografias da infância passada na mesma praia, e feito pela sua mãe. Na adolescência, Ana Vidigal retirou as fotos e distribuiu-as pelos amigos, pelo que agora vemos apenas as palavras escritas pela mãe, legendando as imagens, e os cantos que seguravam as fotografias. No texto que acompanha exposição, escrito pela artista, lê-se:


“Mostrar o vazio. Mostrar aos outros que o cérebro, a memória e o que cada um inventa para a sua própria “história” é muito mais profundo que o mar. Ver está muito para além do (nosso) olhar.”


Tudo isto e muito mais explicou Ana Vidigal numa conversa com os visitantes, na sua maneira simples, despretensiosa, directa, fluida, por vezes irónica. E, sendo a ironia um traço característico de Ana Vidigal, não se estranha o subtítulo por ela escolhido (projecto ana/malhoa) que primeiro se estranha e depois diverte. A exposição completa-se com uma fotografia actual do local pintado por José Malhoa e com a frase do poema de Emily Dickinson “the brain is deeper than the sea”. Uma vez que não há anúncio de mais conversas destas, quem visitar a exposição precisa absolutamente de ler o texto citado, escrito pela artista, e que se encontra disponível à entrada do espaço expositivo.

14 de agosto de 2011

Domingo com Tejo e tudo

Ao contrário de muitos, não me incomoda que o comércio da Baixa e Chiado esteja fechado ao domingo, sobretudo se for verão. Comércio aberto convida ao consumo, atrai para si mesmo e distrai de tantas outras coisas que, na pressa dos dias, nem notamos.
Domingo de verão na baixa de Lisboa é dia vazio de autóctones, a não ser os que vão para a missa na igreja dos Mártires, e as ruas são deixadas aos turistas. Há-os de todas as idades mas geralmente são jovens, com as suas mochilas, calções, saias largas, sandálias em pés sujos, guias na mão, fotos por tudo e por nada, risos de tudo e de nada, e linguajar em múltiplas modulações.
Os bancos á sombra das árvores no largo do S. Carlos convidam a sentar, e o convite é aceite; subitamente reparo, e pela primeira vez VEJO, a horrível escultura que se perfila diante da bela e harmoniosa fachada neoclássica do Teatro S. Carlos, junto ao prédio em que nasceu Fernando Pessoa.
Olhei-a de todos os lados, girei para a direita, para a esquerda, fui pelas costas e subi pela frente, e não mudei de opinião – horrível.
Então, investiguei
O seu autor é Jean-Michel Folon, artista belga já falecido; foi comprada pela autarquia lisboeta em 2001, andou por aí, até que em 2008 foi colocada onde agora esbarrei com ela. A coisa não é má, é péssima - uma figura de homem em bronze, hirta, com os braços atrás das costas e um livro enfiado na cabeça (e em vez dela). Na capa do livro está escrito Pessoa, e na contracapa Lisboa. O conjunto é assustador. Virei costas e continuei o caminho pela Rua Serpa Pinto abaixo, donde logo vislumbrei o rio com o seu azul limpo, puro, luminoso e mediterrânico.
Nesse exacto momento, perdoei a todos os Folon deste mundo.

11 de agosto de 2011

Nem preto, nem branco

A blogosfera e os jornais estão cheios de comentários sobre os acontecimentos de Londres. Para uns, os jovens devem ser desculpados porque a culpa é do “sistema”; para outros, são pura e simplesmente uns criminosos, desordeiros e ladrões.
Como se sabe, nada é só preto ou só branco e por isso eles são criminosos, desordeiros e ladrões, sim, mas o “sistema” também tem a sua dose de culpa.
Alguns serão toda a vida apenas criminosos, desordeiros e ladrões, porque essa é a sua natureza, e há disso em todo o mundo, outros serão apenas fruto dum multiculturalismo falhado, dum capitalismo de casino e sem vergonha, de políticas em que o futuro e a esperança não entram.
Por isso repito: a Europa deve estar preocupada com a selvajaria mas também com a raiva que nidificou no seu seio. E se não pode, de todo, viver sem os emigrantes (e as suas 2ª e 3ª gerações) tem que cuidar deles como dos seus.
O que aconteceu em Londres foi aterrador, com muitos protagonistas destituídos de quaisquer normas de conduta ou cidadania mas, por todo o mundo, jovens com causa saem à rua e enfrentam o poder, como está a acontecer no Chile ou em Israel.
Sim, o futuro já não é o que costumava ser e a insegurança e falta de perspectivas generalizadas só podem tornar cada vez mais frequentes cenas como as que vimos em Londres, pregados à cadeira em frente ao televisor.

9 de agosto de 2011

O elevador

O elevador do hotel da praia é uma espécie de Arca de Noé dos tempos modernos.
“Sobe que sobe, desce que desce”, sempre carregando gente no seu bojo, mas também tralhas, aromas e estados de alma
Pela manhã, o elevador transporta restos de sono e sonhos vestidos de calção, t-shirt e sandálias. Geralmente não tem cheiro, mas pode pairar no ar um subtil aroma a sabonete.
Ao longo do dia carrega homens, mulheres, velhos, novos, crianças de todos os tamanhos, mas também sacos de praia a abarrotar de “coisas”, toalhas, sombrinhas, cadeiras, colchões, carrinhos de bebé, cadeiras de rodas, baldes, pás, chapéus. Enfeita-se então de fato de banho ou biquíni, saída de praia, óculos de sol e chinela no pé. Cheira a sal e sol, protector solar e suor.
Leva sempre muitos, apertadinhos uns contra os outros; quase se pode apalpar a claustrofobia, o mal-estar ansioso, o desagrado pela excessiva proximidade de corpos estranhos, a sufocante ausência de espaço vital, o cansaço e o silêncio.
Ao pôr-do-sol o elevador desce já lavado; jovens de cabelo ainda molhado, senhoras bem penteadas (como o conseguirão?).
No ar misturam-se aromas de todas as águas-de-colónia da moda, e veste-se com vontade de parecer bem.
De noite, volta a subir e a cheirar de novo a sono e sonhos, mas também a sexo, álcool, erva, azia e escaldão.
Por umas horas, descansa.
Para logo recomeçar o seu interminável “sobe que sobe, desce que desce”.