28 de fevereiro de 2013

Pipocas há muitas




Nas redes sociais, e com a aproximação da manifestação de 2 de Março, começou a aparecer e a dar nas vistas uma boa dose de snobeira.

Pessoas que se julgam de esquerda, e inteligentes, e cultas, gozam com os textos de apoio à manifestação dizendo que são maus (uns são, outros não), e acham que andar por aí a cantarolar a Grândola é uma “possidonice”.

Eles acham que são de esquerda, mas eu acho que não são – na sua acidez e humor corrosivos mostram como detestam o povo, ou seja, os mais simples. Na sua falta de paciência ou tolerância para quem não tem os seus padrões de qualidade mostram que, no fundo, haver povo é uma chatice, desfeia o país.

São a versão intelectual da triste figura da Pipoca mais Doce.

27 de fevereiro de 2013

Em poucas horas ficou viral

Há, na vida, coincidências que nos deixam boquiabertos.

Hoje tinha decidido escrever sobre dois artistas visuais − Manuel João Vieira e Marina Abramovic.

Esta estranha combinação nasceu duma notícia do Expresso, segundo a qual  o artista Manuel João Vieira vai criar uma réplica da sua casa na Cordoaria Nacional para lá morar durante uns dias, e diante do público.

Pensei que, com franqueza, não me apetece nada ir ver o MJV a ler o jornal, tocar guitarra, cortar as unhas, pintar uma tela, ou a fritar uns douradinhos para o almoço.

Como os pensamentos são como as cerejas, ou pior, lembrei-me de como, pelo contrário, gostaria de ter ido ao MoMa de Nova Iorque em 2010 a quando da performance The Artist is Present de Marina Abramovic.

Há 40 anos que Marina testa os limites do seu corpo, desafia o perigo, não distingue vida e arte, e com isso perturba, gera em mim atracção e repulsa, medo e plenitude, prazer e choque.

Na referida performance, Marina sentava-se sete horas por dia no hall do museu e os visitantes iam-se sentando diante dela, em silêncio, podendo ficar o tempo que quisessem, mesmo que as filas lá fora fossem monumentais. Aconteceu de tudo um pouco com o público mas, no meu imaginário, se eu me sentasse ali diante dela, faria com o meu espírito o que fazemos com o corpo quando usamos tampões de silicone nos ouvidos – começamos a ouvir todos os ruídos do interior do nosso corpo; olhando Marina em silêncio, começaria a ouvir o mais ínfimo gemido da minha alma, e isso podia se arrasador, mas eu queria, oh se queria!

Voltando às coincidências do início da conversa, vale a pena lembrar que, se a performance foi muito falada em 2010, daí para cá parecia-me ter caído no esquecimento. Contudo, mesmo antes de começar a escrever este texto, encontrei no Facebook um post sobre um magnífico momento da The Artist is Present acompanhado dum pequeno filme que o ilustra; em poucas horas ficou viral. Espantoso.

Transcrevo o texto que alguém escreveu no Facebook, ressalvando que não era um minuto para cada pessoa, mas o tempo que cada visitante aguentasse, e deixo também o filme de 4 minutos que, a esta hora, já toda a gente viu.

E sim, há coincidências do caraças.

Retirado do Facebook

"Nos anos 70, Marina Abramovic viveu uma intensa história de amor com Ulay. Durante 5 anos viveram num furgão realizando todo tipo de performances. Quando sentiram que a relação já não valia aos dois, decidiram percorrer a Grande Muralha da China; cada um começou a caminhar de um lado, para se encontrarem no meio, dar um último grande abraço um no outro, e nunca mais se ver. 23 anos depois, em 2010, quando Marina já era uma artista consagrada, o MoMa de Nova Iorque dedicou uma retrospectiva a sua obra. Nessa retrospectiva, Marina compartilhava um minuto de silêncio com cada estranho que sentasse a sua frente. Ulay chegou sem que ela soubesse... e foi assim."

 
 

 

26 de fevereiro de 2013

Alegoria da varejeira

Quando uma varejeira me entra em casa, primeiro abro portas e janelas dando-lhe todas as oportunidades de sair; se o porco insecto resolve não sair, então persigo-o sem contemplações e com todos os meios ao meu alcance até ao estertor final.

Por fim, ponho-o no lixo, que era, em vida, o seu local favorito.

E isto vem a propósito do quê? Não sei. Só sei que, ultimamente, quando me inteiro das notícias do dia, começo a pensar nas varejeiras e no prazer assassino de ouvir a quitina a estalar debaixo do bico do meu sapato.
P****...


25 de fevereiro de 2013

Os anjinhos do ISCTE

Curto e grosso, obviamente que estou em profundo desacordo com os comentadores oficiais e oficiosos que se indignaram por “os alunos do ISCTE não deixarem falar o Relvas”. Dizem eles que foi um atentado à liberdade de expressão, à democracia, um perigo e um erro lamentável. Juntaram-se, neste coro horrorizado, uma parte do PS, comentadores dos jornais “de referência” que, ora lamentam a mansidão do povo ora se assustam se esse povo faz algo que não conseguiram prever, e ainda comentadores avulsos das redes sociais com sólida formação em democracia formal.

A coisa está a escapar ao controle dos poderes instituídos, entre os quais se incluem os meios de comunicação social, e isso incomoda-os, perturba-os e assusta-os.

Por isso, todos à uma acorreram a criticar a falta de democracia dos alunos do ISCTE. Imagine-se o que diriam se estes se tivessem lembrado de imitar os alunos da Sorbonne em Maio de 1968, deixando falar o “traidor” Relvas mas só depois de terem fechado a escola, levantado a calçada para ver se por baixo estava a praia (sous les pavés, la plage, pois claro), e de terem feito com ela uma bela intifada.

Nada disso aconteceu. Comparativamente os alunos do ISCTE são uns anjinhos, mas os poderes estão assustados na mesma; é que já perceberam que a massa mansa que os atura está farta do governo em geral e do Relvas em particular, dos sindicatos, de todos os partidos, das opiniões do Ricardo Costa ou dos ódios de estimação do Miguel Sousa Tavares que, se pudesse, mandava fechar as redes sociais, dando assim um grande contributo para a democracia.

E não é que essa massa que os atura agora lhe deu para começar a “grandolar”, coisa totalmente imprevista?
Estão preocupados, é claro que estão preocupados.


22 de fevereiro de 2013

Dormir com o porco


A leitura desta notícia deixou-me perplexa. Olhando para a senhora (ali na imagem) que escreveu o livro "Belle et Bête" depois de andar uns meses a dormir com o Dominique Strauss-Kahn, (Marcela Iacub, jurista, filósofa e cronista no jornal de esquerda "Libération") percebe-se que é uma francesa sofisticada, como, aliás, se espera de qualquer verdadeira francesa.

Lida a notícia, percebi que dormir com porcos deve ser uma tendência da moda e que a bela Marcela gosta e gostou.

Quando eu tinha direito de opção, falava-se em homens com cheiro a cavalo, mas mesmo isso nunca me atraiu – já aí eu me revelava uma pequena-burguesa sem imaginação, mas só agora, quando aprecio o desvelo linguístico usado pela madame para caracterizar o porco Dominique Strauss-Kahn, começo a realizar o que provavelmente terei perdido.

Diz ela: "O homem é horroroso, o porco é maravilhoso, mesmo se é porco (...) é um artista dos esgotos, um poeta da abjeção e da sujidade".

Olhei a foto de Strauss-Kahn e admiti a hipótese de estar a olhar, sei lá, um novo Celine, também ele um porco abjecto mas sublime escritor.

"O ideal do porco é o bacanal: ninguém é excluído da festa, nem os velhos, nem os feios, nem os pequenos (...) este comunismo sexual ao qual ele aspira como porco alegra-me". Diz a bela.

Que ternura. E que bem dito. Só não entendo o que será o comunismo sexual do DSK; ele não é socialista? Estará com desvios de esquerda?

Tudo o que a bela afirma leva-me a concluir que, bom mesmo, e sofisticado, é dormir com o porco, mas eu continuo a achar que o melhor do porco é o presunto, partido na hora, bem fininho, e comido com uma fatia de pão alentejano.

Perplexa, sim, com a minha pequenez de vistas, e também de estômago.

21 de fevereiro de 2013

Guia para um final feliz

Num das passadas tardes de Carnaval, tirei as medidas aos filmes em cartaz para escolher um que não me chateasse minimamente, mas que também não fosse completamente estúpido.

Fiz bingo com “Guia para um final feliz”.

Desconfia-se dum título destes; finais felizes não são permitidos, nem de bom gosto, e o beijo final que enche a tela acabou há décadas.

Arrisquei, e encontrei um filme com uma história bem contada, entre o drama e a comédia, feito com gente comum, cheia de problemas e desvarios, diria mesmo com grandes “pancadas”, mas que ousa criar laços entre si e acreditar em finais felizes.

Habituados que estamos a finais sem clemência ou compaixão, é com surpresa que, por uma vez, saímos dum filme mais soltos que amarfanhados, mais sorridentes que angustiados.

E o Ma Chérie Amour, do Stevie Wonder, que, no regresso a casa, não nos sai da cabeça, complementa a ousadia de termos escolhido pagar para ver uma fita com final feliz.

20 de fevereiro de 2013

"Ser autarca não é cadastro", diz ele




Pela voz do deputado António Filipe, o PCP defendeu, no parlamento, aquilo que lhe convém – a renovação ad eternum de mandatos autárquicos.

O discurso é legalista e está bem esgalhado, é cheio de seriedade e capaz de nos fazer adormecer num instante.

António Filipe diz que ser autarca não é cadastro.
Eu, por acaso, também acho que ser autarca não é profissão.

Mas quem sou eu para achar seja o que for quando bato de frente com a superioridade moral e interpretativa dos comunistas?!

19 de fevereiro de 2013

Eu (sem Peixoto) na Coreia do Norte


Tive um pesadelo. Sonhei que vivia na Coreia do Norte, que o querido líder tinha morrido há mais de um mês e o povo ainda não tinha sido informado para o poder começar a chorar.

Acordei assarapantada com o raio do sonho até porque, de facto, há imenso tempo que não vejo nem oiço o nosso querido líder.

Será que morreu e a gente não sabe?
Mas, pensando bem, que diferença nos faz que esteja morto ou vivo?!
E se é para chorar, podemos sempre chorar mais tarde.


18 de fevereiro de 2013

Uma metáfora chamada Daniel





 



Cá para mim, o verdadeiro representante de Portugal dos nossos dias é Daniel Rodrigues – 25 anos, fotógrafo, vencedor do World Press Photo na categoria "Daily Life", tão teso que teve de vender a máquina fotográfica.

Jovem, desempregado, desconhecido, talentoso, sobrevivente sem cheta com um único e inevitável destino – emigrar.

Eis o inconveniente Portugal 2013.

O conveniente e, diga-se a verdade, aquele de que os portugueses gostam e de que se orgulham, é uma casa portuguesa, com certeza, pão e vinho sobre a mesa, e tem a forma de cacilheiro.

A falar do cacilheiro não gastarei as teclas, mas há quem gaste, e bem, quer nos prós, quer contras.

Quanto ao Daniel, nunca será uma marca, felizmente, mas será um talentoso fotojornalista onde quer que a vida o leve.

Boa sorte, Daniel, vá com deus, que a gente cá fica com a Joana.

15 de fevereiro de 2013

Sem ofensa para a sua mãezinha

Em menos de dois anos, deixei muito claro neste blogue (aqui, aqui, aqui, aqui, aqui) a minha alergia, quer à personalidade, quer à actuação pública de Francisco José Viegas.

Não vou repetir argumentos, mas o muito comentado post do seu blogue A Origem das Espécies, só vem reforçar a minha convicção de que este “artista” pertence a uma espécie pouco evoluída que gosta de morder a mão do dono.

Escreve o Viegas, dirigindo-se ao seu ex-colega Secretário de Estado Paulo Núncio que, se algum fiscal lhe pedir que mostre a factura, (e passo a citar), “das despesas realizadas, lhe responderei que, com pena minha pela evidente má criação, terei de lhe pedir para ir tomar no cu, ou, em alternativa, que peça a minha detenção por desobediência.”

De alguém com um mínimo de carácter, espera-se decoro e recato face às decisões de um governo de onde se acabou de sair, e, nesses casos, o silêncio é sempre elegante.

Ora, FJV mostra que não sabe o que é decoro, nem elegância, nem recato.

Ao pronunciar-se num vernáculo populista e engraçadinho faz-me temer que as suas incursões na (baixa) política ainda não tenham terminado, e, ao mesmo tempo, reforça a minha ideia de que a política portuguesa está cada vez mais cheia de oportunistas e filhos da puta − sem ofensa para a sua mãezinha, claro está, Francisco José Viegas.

 

 

14 de fevereiro de 2013

Secretos temores

“A morte, pensou, não é essa fronteira, essa vala imóvel que imaginamos quando acaba de acontecer, mas sim um progressivo afastamento que desemboca no vazio e na deslealdade.”

Antonio Muñoz Molina
Beatus Ille.

Deve ser por saberem isso que as pessoas enchem as casas de tralha contra o esquecimento − fotografias, bibelôs, porcarias trazidas das viagens, catálogos e bilhetes de espectáculos ou exposições, toalhas da avó, candeeiros da tia, flores secas da adolescência, porcelanas da sogra, naturezas mortas da prima que tinha muito jeito.

Deslealdade e vazio são coisas que não temo.
Apenas temo viver, algum dia, no mausoléu da minha própria vida.

13 de fevereiro de 2013

A Foz no poder

Nos anos de 1970 eu não gostava nada do Porto. Só ali via uma cidade cinzenta, suja, muita pedra bruta e mal cuidada.

Depois o Porto começou a aclarar, a limpar-se, ajardinar-se, cultivar-se, a democratizar-se, com perda de poder relativo da Foz, e eu comecei a gostar.

Há 12 anos, as gentes do Porto deram em recuar, elegendo repetidamente um nortista/elitista. Eu comecei a perder-lhes um pouco o respeito, mas dei de barato que lá teriam razões que eu desconhecia.

A notícia da senhora de 79 anos que foi despejada da sua habitação social por não ter respondido ao inquérito que a Câmara do Porto lhe enviou mostra-me que não vou gostar nunca do Rio, muito menos agora que ele tem que ir embora do Norte e pode assombrar o Sul.

Porque não terá respondido a senhora? Para Rui Rio parece haver uma única resposta:

Não respondeu porque não quis, e por isso, rua.

Eu pergunto: a senhora sabe ler? E sabendo ler consegue interpretar o que está escrito? E o filho que com ela mora, toxicodependente em recuperação, é capaz de tomar conta da sua vida e da da sua mãe?

Quantas assistentes sociais tem a Câmara do Porto para acompanharem casos destes? Acompanharam? Ensinaram? Alertaram? Ajudaram? E a Junta de Freguesia, para que serve numa cidade se não for para estar mais perto e apoiar os mais desprotegidos?

Finalmente, o senhor presidente da Câmara, eleito pelo povo, não teve nenhum sobressalto cívico quando deu ordem de despejo a uma munícipe de 79 anos?

Orgulhosas gentes do Porto: ides continuar a entregar o poder à Foz?
É que, caso ainda não tenhais entendido, a Foz gosta do poder mas não gosta de vós.


11 de fevereiro de 2013

O Carnaval é triste

Hoje venho só aqui dizer que amanhã não venho aqui dizer nada, mas na 4ªfeira, se aqui vier dizer alguma coisa, estarei certamente a “palrar” num país mais rico; porque é para enriquecer o país que o governo decidiu que não há cá feriados carnavalescos para ninguém.

Mas há, porque mais de metade das autarquias decidiu mandar o governo pentear macacos e mantém a tolerância de ponto.

Assim nos dividiremos entre portugueses que amanhã NÃO trabalham e ficam em casa, e portugueses que amanhã NÃO trabalham mas vão ao local de trabalho.

Mesmo assim, estaremos mais ricos na 4ª feira, porque o Gaspar acha que é por aí que a coisa se resolve − a par dos cortes de 4 mil milhões há que cortar no lazer, na alegria e decretar um Carnaval triste.

Se ele acredita, eu acredito, porque o Victor (ou será que já cortou nas letras e passou a Vitor?) já deu sobejas provas de que nunca se engana, e no que toca a fazer previsões é tão competente como a Maya.
Ou mais!

8 de fevereiro de 2013

Terapia de relaxamento



Numa semana, que ainda não acabou, tão cheia de disparates que me fez lembrar de como o governo de Santana Lopes era assisado, resolvi dar uso ao baloiço, fechar os olhos e esperar que passe.

Sei que não passa, mas pelo menos descanso um bocado.

Bom fim-de-semana.

A imagem é, já se sabe, daqui


7 de fevereiro de 2013

Amigos do sobressalto

Tenho “amigos” e conhecidos tão dedicados que chegam a comover-me.

Mal chegam às suas caixas de correio e-mails com as palavras IMPORTANTE, URGENTE, PERIGO, AVISO DA PSP, reencaminham-nos logo para mim.

Com eles fico avisada de que os malfeitores podem duplicar os dados dos meus cartões, fazer chamadas telefónicas em meu nome, arrombar-me a porta de casa, destruírem o disco rígido do meu PC, roubar-me um rim.

São “amigos” que não me têm na sua lista de boas festas, não sabem quando faço anos, nem por onde ando; não sabem, sequer, se estou viva.

Apenas sabem que tenho uma caixa de correio electrónico onde podem verter os seus terrores diurnos e nocturnos, os seus fantasmas, a sua cagarolice tuga.

E não, está visto que não consigo “exterminá-los”; são uma praga sem antídoto.

6 de fevereiro de 2013

Obviamente, demitiu-se

Desde que o actual governo tomou posse, já perdi a conta ao número de casos em que foi pedida, com ou sem sentido, a demissão de alguém − da Jonet ao Ulrich, da “alegre” Glória ao Franquelim, sem nunca esquecer o inenarrável Relvas.

Banalizámos os pedidos de demissão, pedem-se muitas vezes, pedem-se vezes de mais, talvez porque toda a gente sabe que não serão atendidos por parte dos visados.

O poder está absolutamente seguro de que os cães (nós) ladram e a caravana (eles) passa, e assim permaneceremos entretidos, uns a ladrar e outros a passar.

Sabemos que não é assim em democracias sólidas, “velhas” e com opiniões públicas fortes e mais ou menos esclarecidas.

Prova disso é esta notícia do ex-ministro e actual deputado inglês, que foi obrigado a demitir-se por conduzir em excesso de velocidade. É claro que a totalidade da história também mete sexo e mentiras, mas Chris Huhne declarou que a sua renúncia ao Parlamento era a única atitude adequada a tomar após a condenação pela infração.

Por esse mundo fora, as pessoas não são melhores que nós, prevaricam como nós, mas demitem-se quando são apanhadas.
A diferença não é pequena, quer na qualidade da democracia, quer na do ar que se respira.

5 de fevereiro de 2013

O porco e a sua circunstância

Estamos outra vez quase, quase, a levar no toutiço porque não implementámos ainda as regras europeias para o bem-estar dos porcos e, sobretudo, das porcas.

Em suma, é uma porcaria de país, este, gente bruta que vive lindamente e não cuida dos seus porcos.

A Europa avisou e agora ameaça porque já nos ensinou as coisas que não quisemos aprender.

Por exemplo: Que os suínos” precisam de um ambiente que corresponda às suas necessidades de exercício e de comportamento exploratório”, e que é preciso garantir-lhes a concretização de “contactos sociais” que “as porcas estabelecem facilmente com outros suínos, mas para os quais precisam de “liberdade de movimentos e um ambiente variado” (retirado do Expresso de 2/2/2013).

Ora, isto é tão óbvio que nem se percebe por que a UE tem que o vir dizer. Basta a gente lembrar-se de como Miss Piggy era feliz, despachada e cheia de personalidade. Certamente pôde socializar com tanta liberdade de movimentos que raramente falhava uma estalada.

Se, por comparação, nos lembrarmos daquele nosso porco que, em plena A1 teve que levar uma biqueirada do GNR para se acomodar, logo percebemos que provinha duma ambiente malsão, onde não aprendeu a socializar nem a cumprir regras. Era, certamente, membro duma pocilga disfuncional onde não foram cumpridas as regras da EU, e o resultado, viu-se.

Vamos ser multados, e bem, porque toda a gente sabe que um porco é ele mesmo e a sua circunstância.

 

4 de fevereiro de 2013

Parecem bandos de pardais à solta

É certo que na semana passada o meu discernimento esteve um bocado afectado, deixei-me atrasar com as notícias e agora o assunto já é velho, mas foi assim que vi o acontecimento mais palpitante da semana:

Entre o Rato e o Intendente, há dois bandos de putos que parecem bandos de pardais à solta na disputa do território para as suas malfeitorias.

O do Rato tem como nome de guerra “Ninguém-tá-Seguro” e o do Intendente, “Quebra- Costas”.

O primeiro tem tido supremacia, usando e abusando de abstenções violentas, o que muito irrita o segundo que gosta de maior refrega e o acusa de, por um lado, não defender a memória histórica do bairro do Rato e, por outro, de se acagaçar com os betos da Lapa.

A coisa tem andado em banho-maria mas, de repente, a paciência acabou-se, vá-se lá saber porquê.

O grupo do Quebra- Costas acirrou o chefe e este disse: “manos”, nada temam, eu vou lá, é desta que me porto mesmo mal.

O chefe do “Ninguém-tá-Seguro” encheu o peito, mostrou a alva dentuça como é de seu costume e disse: olha, olha, qual é a pressa, pensas que tenho medo de ti? Vem cá “meu”, vem, se queres ver o “aparelho” a dar-te nas fuças.

Quebra-Costas, homem de indiscutível coragem para dar o peito às balas, foi, mas, a partir daí, não consegui perceber mais nada do que se passou. Se calhar foi o padre da igreja do Rato que os ungiu, não sei, só sei que acabaram aos abraços.

Passados tantos dias, continuo sem perceber nada, mas pouco me importa, porque, (e isto é uma confidência) pelo-me por finais felizes com abraços, e beijinhos, e “amasso” e etc. e tal.

 

1 de fevereiro de 2013

Daniel Oliveira e a moça dos copos

No seu artigo do Expresso online de ontem, intitulado "A glória do moralismo", Daniel Oliveira argumenta muito bem sobre a estupidez de exigirmos políticos sem mácula, e contra o facto de se estar a pedir a demissão da deputada Glória Araújo, apanhada a conduzir com 2,4 gramas de álcool por litro de sangue.

Diz ele a rematar: Porque corremos o risco de passar a escolher políticos que nos parecem tão perfeitos que só podem ter uma de duas características: ou não têm vida ou são excelentes mentirosos. Uma e outra são pouco recomendáveis a quem tem de decidir sobre as nossas vidas concretas.

Por mim, estou de acordo, e até acho que toda a gente deve ter uma vida que inclua, eventualmente, beber uns copos a mais se lhe apetecer.

No caso em análise, se a senhora fosse viciada em pornografia ou cocaína eu também não tinha nada com isso, desde que cumprisse bem a sua função, fosse ela deputada, enfermeira, manicura, advogada ou freira.

Porém, não se trata aqui dum vício privado, mas duma pública demonstração de desrespeito pela vida dos outros, não admissível num deputado.

Se o Daniel fosse no seu carrinho, ou na passadeira, e levasse com o carro da moçoila em cima, talvez não achasse graça a uma tal “vida”, talvez até achasse pouco recomendável que a deputada Glória decidisse assim sobre a sua vida concreta.

Enquanto continuarmos a ser complacentes com os bêbados ao volante, e não virmos nisso um grave desvio moral e cívico, como acontece em muitos países civilizados, haverá sempre gloriosas Glórias que festejam o seu aniversário indiferentes ao facto de outros poderem não festejar mais nenhum.

Tem estofo moral para ser deputada, para me representar e decidir sobre a minha vida?
Na minha perspectiva, ao conduzir embriagada, borrifando-se para o que me possa acontecer, prova que não. Na do Daniel Oliveira, sim.

Lamento mas, para mim, há casos em que o rabo tem mesmo que ver com as calças.
Moralista, eu, pelos vistos.