18 de novembro de 2011

Reflexões inconsistentes

Reflexão inconsistente I: a chuva é minha amiga. Cada vez que decido sair para fazer uma coisa boa, ela diz-me: espera aí que eu vou contigo; é só ir buscar a gabardina.

Depois de ter saído enquanto a chuva foi buscar e gabardina, e ter voltado já com ela nos devidos preparos, passando os olhos pelos jornais, vejo que o João Mota aceitou o lugar do Diogo Infante no Teatro D. Maria.
Os desafios, a crise, todos temos que dar para o peditório e tal e coisa, disse.

Reflexão inconsistente II: Ó Mota, tu desculpa, mas desde quando, para ti, os desafios pessoais são mais importantes do que dizer a um governo estúpido e irracional que o orçamento é uma anedota e que vá pentear macacos? Se calhar desde há muito, eu é que não dei por isso.

A Cristas diz que quer acabar com a bandalheira da incineração de cadáveres de animais e que vai taxar a carne para financiar o novo sistema.

Reflexão inconsistente III: Ó Cristas, apoio as coisinhas bem feitas, mas para onde raio irão os meus impostos se para tudo tenho que pagar taxa?

Reflexão inconsistente IV: Não será melhor desligar o computador e dar descanso a esta pobre cabeça? Ainda para aí me ponho a achar que a cristas anda de mota ou ao mota cresceram cristas. Livra.

Pataniscas com arroz de feijão

Em Lisboa há imensos cafés e restaurantes “de esquina”. Essa localização leva-nos a reparar mais neles de cada vez que atravessamos uma rua. Ontem, passei por um que, na porta, anunciava Pataniscas com Arroz de Feijão.
Pode haver comida mais portuguesa do que essa? E quem resiste a tal pitéu na hora da fome?

Comida barata, ainda por cima - um bocadinho de bacalhau, água da cozedura, farinha, um ovo, um pouco de salsa e já está. Arroz e feijão também sempre foram comida de pobre.

Na minha terra (como noutras, certamente) aprendeu-se a cozinhar e comer com base em ingredientes muito baratos ou até selvagens. Hoje, a sopa de beldroegas ou de cação, os cardos com feijão, as cilarcas, as açordas de poejos ou coentros e as migas são realíssimos pitéus, um verdadeiro património que nos faz “aguar” e de que nos orgulhamos.
Qual nouvelle cuisine, qual carapuça? Migas de espargos com porco frito.

A criatividade gastronómica de cada povo, a sua capacidade para fazer muito ou pouco com o que tem ao seu dispor, diz-me muitíssimo sobre esse mesmo povo, e quer-me parecer que, se actualmente os nossos “manos” europeus desconfiam tanto de nós, é porque nunca comeram pataniscas com arroz de feijão.

17 de novembro de 2011

Não seria o caso de mudarmos de patrões?

Por esse mundo fora, onde trabalham, os portugueses são produtivos.
As multinacionais instaladas em Portugal, empregando portugueses e cumprindo as leis laborais do país, têm bons resultados.
Para a troika e para o governo o problema está sempre no custo do trabalho e na produtividade, ou seja, nos balúrdios de dinheiro que ganhamos para não fazermos nada.
Mudar de governo, não vale a pena; já tentámos várias vezes e cada um é pior que o outro.
E se mudássemos agora de patrões?

É caso para voltar a dizer - Fascismo nunca mais!

"A promoção de Portugal através da imagem ou do som deve ser enquadrada numa visão de política externa e portanto quase que sob a orientação ou em contrato de programa com o Ministério dos Negócios Estrangeiros”, afirmou o economista, que defendeu mesmo que a informação veiculada pelo canal internacional deve ser “filtrada” e “trabalhada” para passar a mensagem de promoção do país. Um tratamento da informação que, acrescentou, “não deve ser questionado”. “A bem da Nação”, rematou.

Estas declarações do fuinha Duque cheiram tanto ao passado nosso conhecido que tresandam. Segundo as suas propostas, o governo fará as notícias para o “exterior” e para o “interior” defende que os portugueses tenham a informação mínima. Tudo nos termos de Salazar – “A bem da Nação”.

Ao pé desta gentinha Paulo Portas é um perigoso esquerdista que até já disse que não quer ter nada a ver com a RTP Internacional.
Isto não é imbecilidade como já vi escrito; é um bando protofascista de cowboys a dar caça à democracia.

Cairão, tenho a certeza. E cairão por dentro porque este não é o PSD de Cavaco, Ferreira Leite, Sá Carneiro e muitos outros que nele votaram toda a vida.
Quanto aos estragos que farão pelo caminho, não sei se serão todos reparáveis.

16 de novembro de 2011

Virão um dia, ou não

“Amá-los (os filhos), disse, não era apenas um deleite, era uma lição sobre vulnerabilidade.”
Ian McEwan,  A Criança no Tempo

Sabemos que, neste início de década do século xxi, há muitos milhares de pessoas a sofrer em Portugal.
Porque perderam o emprego, porque perderam a casa, porque o salário não chega para as despesas ou porque nem sequer chega para alimentar a família. Essa dor passa todos os dias nos telejornais, sempre em jeito de punição para quem ainda lá não chegou, com forte apelo à lágrima ou à caridade cristã. Como se houvesse destino e esse fosse o nosso.

Há, porém, uma enorme dor, sempre bem escondida, e de que ninguém quer falar – a dos pais que vêem os seus filhos emigrar.
Meu pai costumava dizer que a vida dum menino é feita de “tomaras”: tomara que ande, tomara que vá para a escola, tomara que entre na universidade, tomara que seja independente, tomara que case, tomara que me dê netos.

Na década de 1960 a emigração partia das aldeias, com “malas de cartão”, levando na bagagem “uma mão cheia de nada e outra de coisa nenhuma”
Hoje, sai das cidades, de mochila às costas e trolley na mão, levando na bagagem um curso superior. E, mais uma vez, porque é preciso.

Filhos de pais dedicados e presentes que tudo fizeram para que tivessem a formação que dantes assegurava uma vida melhor, (e também de um país inteiro que pagou os seus estudos), partem em bandos para criar riqueza algures, deixando para trás, e sós, uns pais para quem, subitamente, se acabou o “tomara”.

Estes pertencem a uma geração que fez pinos e espargatas para que os seus filhos crescessem harmoniosamente e com pais, e esperavam morrer com filhos. Entretanto, haviam de viver tendo por perto jovens e belas criaturas a quem tinham dado o melhor de si, e em quem se poderiam rever; a velhice chegaria mais devagar com a sua presença, e ainda haveria tempo de gozar a felicidade de ver um neto a crescer.

Não foi apenas mais um sonho roubado, foi o mais simples e belo dos sonhos que lhes foi brutalmente arrancado. E a dor provocada é tão grande, tão muda, mas vivida com tanta coragem, que o desamparo quase nem se nota. Alguns deitam sal na ferida, acrescentando culpa e falhanço pessoal.
Os dias transformam-se, assim, numa sequência sem nexo; termos como alegria ou objectivos saem do vocabulário quotidiano, e o futuro parece já não existir.
Não foram eles que falharam, foi o país inteiro, como bem sabemos.

Sabemos também que os filhos não são nossos, são do mundo, mas todos gostamos de os ter perto. Hoje, milhares de pais da minha geração vivem o seu sonho estilhaçado em completo silêncio.
São corajosos anónimos deste país triste com quem me sinto solidária.

15 de novembro de 2011

Há eleições à vista?

Primeiro foi o Álvaro a anunciar o fim da crise em 2012, agora vem o Cavaco dizer que em 2013 já estaremos competitivos e a crescer.
Não sei se há eleições em breve e eu não dei por isso, se eles acham que somos todos totós ou se andam a tomar coisas esquisitas.

Humor nosso de cada dia

Este país é muito divertido. Nem sei porque é que o pessoal anda tão sorumbático se todos os dias temos um novo sketch humorístico.
Vejamos esta notícia do Público de ontem.

 A Redes Energéticas Nacionais (REN) activou um seguro que está a pagar a defesa de um antigo e de três actuais quadros que estão a ser julgados no processo Face Oculta, casos do ex-presidente da empresa José Penedos e de três funcionários que se mantêm em funções, após terem sido acusados e pronunciados por corrupção.

O mais divertido disto é que a REN é assistente no processo, logo, está do lado da acusação; contudo, como tem um seguro para todos os administradores e responsáveis pelas áreas operacionais da empresa, cobrindo o risco da existência de processos judiciais decorrentes do exercício das suas funções, accionou-o para pagar a… defesa.

Será que a hipotética corrupção é um risco decorrente do exercício de funções? Parece que, para a REN, sim. E para a companhia de seguros, também.

Diz ainda o artigo que a REN “não esconde, contudo, que, se os quatro arguidos forem condenados em tribunal, a companhia de seguros poderá pedir a restituição das verbas pagas.”

Vou tentar adivinhar quem é que, nesse caso, vai alombar com o pagamento.
Mas é tudo legal. Estranho, hilariante, mas legalíssimo.

14 de novembro de 2011

Sangue do Meu Sangue

Nem sei há quantos anos não via um filme português, mas sei que já lá vão muitos. Falta de oportunidade e também de vontade estão na raiz da ausência, coisa que, presumo, acontece com a maioria silenciosa dos portugueses que também lá não põe os pés.

Terá sido esta febre do “compre português”? terá sido a catadupa de prémios? terão sido as críticas laudatórias? Talvez tudo isso junto, e lá fui eu ver o filme.

Posso dizer, sem remorsos, que o filme é bom e eu gostei, mas chamar-lhe obra-prima parece-me tão exagerado como o moderno costume de aplaudir tudo e mais alguma coisa de pé. Ou as primas andam pela rua da amargura, ou as cadeiras são pouco cómodas, ou sentido crítico foi deixado em casa em nome do bem parecer e da paz social.

João Canijo, neste seu filme, consegue meter-nos mesmo no Bairro Padre Cruz e num Portugal que está já ali ao virar da esquina, esquina essa que, preferencialmente, não dobramos. É, no essencial, uma história sobre a força das mulheres na protecção dos mais novos, e a força do seu amor incondicional por eles. Afinal, sobre o melhor de nós – a capacidade de tomarmos conta uns dos outros, pelo menos dentro da família.

O ambiente quase claustrofóbico e sem privacidade que Canijo nos quer transmitir foi captado com grande sucesso, para o qual muito contribui o persistente som dos vizinhos e das televisões sempre ligadas.

Claro que se dispensava o tema do incesto (demasiado fácil) como se dispensavam algumas criativas opções na realização; umas são boas e outras, na minha modesta opinião, completamente falhadas.

A história é servida por muito boas prestações da maioria dos actores, exceptuando aquele cabotino que faz de dr. Alberto cujo nome desconheço.
Resumindo, vale a pena ir ver o filme. Compre português.

11 de novembro de 2011

In memoriam

Estava o século XIX a chegar ao fim quando ele nasceu numa aldeia perdia no meio do Alentejo.
Filho de pobre tinha o destino traçado – trabalho rural, a mando dos senhores da terra, mas só quando o havia; invernos de fome, verões escaldantes à soalheira no meio da seara tornada inferno.

Jovem, levaram-no para a Guerra, a 1ª das grandes, e sempre o recordo sorrindo com sarcasmo quando os noticiários, assinalando a efeméride, glorificavam o comportamento dos portugueses na batalha La Lys. De lá trouxe, para sempre, uns olhos vermelhos e lacrimejantes, e dela lhe ficou o nome que lhe deram na aldeia – João Soldado.

Foi na trincheira que aprendeu a ler, trocando a sua ração de cigarros pela aprendizagem da leitura. Não se pode dizer que lia, mas soletrava com tanto afinco que conseguia dar conta do seu jornal, o Século, de fio a pavio.
E assinava.

A guerra era assunto de que nunca ninguém o ouviu falar, e continuava a não falar mesmo quando, certa vez, um filho exaltado com a ditadura vociferou – isto só lá vai com uma guerra. A resposta veio calma mas firme e de olhos nos olhos – cala-te rapaz que não sabes do que falas. E o”rapaz” calou-se.

Num momento em que a miséria se agudizou, tentou ainda o contrabando, mas só lá foi uma vez; dizia, rindo, que se ia borrando todo de medo.

Um invulgar e apurado sentido de humor permitia-lhe rir, com um riso genuíno e contagiante, de tudo o que de caricato acontecia na vida, sobretudo se lhe acontecesse a ele.

O caminho era, então, só um - partir para a cidade; aí chegado, num rasgo de rural quase analfabeto mas inteligente, pôs os filhos a estudar e dedicou-se a mil e uma actividades, o possível, o que aparecia, o que tentava.

Dia sim, dia não, sobressaltava a família, porque, com ou sem razão, só ele enxergava a oportunidade de vender para comprar.

A sua companheira duma vida, lá ia pondo no papel o dedo com que assinava, frequentemente receosa dos devaneios do seu homem. Mas não era por submissão ao macho que o fazia. Era porque sabia que os olhos dele, vermelhos e lacrimejantes, viam mais longe e mais nítido que os dela, aqueles que a todos encantavam com a cor de céu alentejano em dia de sol e frio.

Homem que jogou sempre limpo e esqueceu as dívidas dos que estavam em dificuldades maiores que as suas, viveu feliz, mas morreu pobre. Não tão pobre como nasceu, mas pobre.

Eu disse que morreu? Bom, acho que não completamente. Pois se ainda pr’aqui estou a falar do meu avô João…

Nota final: em 11 de Novembro de 1918 (faz hoje 93 anos) terminou a 1ª Grande Guerra.






10 de novembro de 2011

E ninguém leva o senhor ao médico?



Apenas patético, ou talvez também a tristeza de ver a iconografia da nossa juventude ser comida pelo bicho.





Para mim, a manifestação dos militares deve ser, ultrapassados os limites, fazer uma operação militar e derrubar o Governo", defendeu Otelo, em entrevista à Agência Lusa, num comentário à "manifestação da família militar", no sábado, em Lisboa.
"Não gosto de militares fardados a manifestarem-se na rua. Os militares têm um poder e uma força e não é em manifestações colectivas que devem pedir e exigir coisas", defendeu.
Mas Otelo Saraiva de Carvalho diz compreender as suas razões e considera que as mesmas podem conduzir a "um novo 25 de Abril".
"Os militares têm a tendência para estabelecer um determinado limite à actuação da classe política". Esse limite, considerou, foi ultrapassado em 1974 e culminou com a "revolução dos cravos".
Hoje, Portugal está "a atingir o limite", disse, corroborando o que há seis meses dissera à Lusa: "Se soubesse o que sei hoje não teria possivelmente feito o 25 de Abril".

Notícia aqui

9 de novembro de 2011

Obrigatório ler

Como um grego ensina a um alemão a História das dívidas no blogue Aventar

Bilhar às Nove e Meia

O livro Bilhar às Nove e Meia, de Heinrich Böll (Colónia 1917-1985, Prémio Nobel da Literatura em 1972), não é um livro simples nem de fácil leitura, mas merece todo o esforço que é pedido ao leitor.

Denso e polifónico, narra a história de três gerações da família Faehmel, antes, durante e depois da guerra. Ninguém ali é completamente bom ou mau, culpado ou inocente, santo ou pecador, mas todos são desiludidos.

Todos contam a sua história desses anos em que a família foi feita em frangalhos, todos tentam fazer as pazes consigo mesmos, com o país e com a família em si. Também para todos a guerra trouxe um mundo novo em que cada um procura o seu novo lugar.

Dotado duma escrita moderna, em que todos falam ao mesmo tempo e em vários tempos, o livro não desilude - pelo contrário - quem chegar ao fim, mas nunca facilita a caminhada do leitor.

8 de novembro de 2011

Um bom rapaz

O Tó Zé é o tipo de rapaz que qualquer mãe portuguesa gostaria de ter como genro. Sempre bem-apessoado, composto, delicado, atencioso, ponderado, penteado, engravatado, desamarrotado, sorriso branco e puro.

Parece de plástico, mas não é, posso jurar eu, que já o vi; e nem é preciso apalpar, basta ver para se perceber que temos homem.

Habituada que estou à delicadeza do Tó Zé, fiquei estupefacta quando li que ele disse - os socialistas vão protagonizar uma "abstenção violenta, mas construtiva" ao Orçamento.

Eu, confesso, não percebi, mas violência, Tó Zé, isso é que não. Não desiluda as mães deste país que, coitadas, já andam tão desiludida e preocupadas e raladas e fartas de gentinha que só sabe fazer greves, como hoje, por exemplo, em que toda a gente tirou o Corsa da garagem e isto está que não se pode. Acalme-se, Tó Zé, por favor. E nada de violências, rico.

7 de novembro de 2011

Começo a ter medo de abrir o correio

Transcrevo parte do que o deputado António Filipe, do PCP, escreveu no seu mural do Facebook

Já vi que há quem use o meu mural para me insultar pelo facto de, por ser vice-presidente da Assembleia da República, dispor de uma viatura da marca BMW para deslocações em serviço. Referir-me-ei a esse assunto por uma vez e não voltarei a ele:

1.   Como vice-presidente da AR disponho de uma viatura oficial para deslocações nessa qualidade. Não me envergonho disso. Em deslocações oficiais, não vejo por que razão haveria de usar o meu carro e pagar a gasolina do meu bolso.

2.   Não levo o carro para casa e não o utilizo em deslocações particulares. É um BMW? Azar. Se fosse um míni, seria um míni. O carro já existia quando assumi funções e não mandei comprar nenhum. Se um dia se decidir que os vice-presidentes não devem dispor de carro oficial, tudo bem. Não me caem os parentes na lama.


António Filipe tem razão, e é assustador o número de e-mails que recebemos insultando todos os políticos, usando da demagogia mais rasteira, metendo tudo no mesmo saco, sem nenhum sentido crítico, sem sombra de pensamento, sequer.

A classe política tem-se posto a jeito, quer com o seu trabalho ou a falta dele, quer com as mordomias que bastas vezes a si própria atribuiu, mas alguma dignidade na representação do Estado também é desejável.
Para isso é necessário um BMW? Não, mas se existe não se deita fora. Da próxima vez é que se terá de comprar qualquer coisita mais em conta, mais conforme o país que somos, não é verdade?

É certo que todos estamos zangados com os políticos, mas fomos nós que os elegemos, eles são o nosso espelho enquanto sociedade, e na política, como em todas as profissões, há de tudo – honestos e desonestos, trabalhadores e preguiçoso, gente séria e gente sem escrúpulos.
Porém, não é raro que pessoas que deviam saber isto e ser socialmente informadas, reenviem, acefalamente, e-mails insultuosos, primários e sem qualquer laivo de discernimento.

Esta ira irracional contra tudo e contra todos, devia fazer soar rapidamente as campainhas na cabeça dos que prezam a democracia e sabem que esta não se exerce sem políticos. Por aqui, ao que parece, está tudo a perder a tramontana. E isso é preocupante, porque é perigoso.

5 de novembro de 2011

Sábado

Hoje, procurei afincadamente uma notícia mesmo boa para pôr aqui.
Não encontrei nenhuma.
Conformei-me com a capa da revista Única do Expresso, que aqui fica.


UTILITAS INTERRUPTA

O homem sonha, a obra nasce. Às vezes não serve para nada, não se completa ou, completando-se, ninguém a quer – seja desde o seu início ou com o decorrer do tempo.
UTILITAS INTERRUPTA é o título da exposição que se mostra na Mãe d’Água e no museu Vieira da Silva, no âmbito da Experimenta Design 2011.
Projectos megalómanos, espalhados um pouco por todo o mundo, uns falharam à nascença, outros foram levados até ao fim mas ficaram useless.
Impressionantes na sua grande maioria, por vezes  chegam a ser cómicos de tão disparatados, como é o caso dos 700 000 bunkers mandados construir por Enver Hoxha na Albânia dos anos 80 ( 1 para cada 4 habitantes) e que se destinavam à protecção dos albaneses em caso de invasão estrangeira.
Uma exposição para o grande público em dois locais de Lisboa onde é sempre agradável voltar.
Preço: 3 euros

4 de novembro de 2011

Inveja

Estamos sempre a ouvir dizer que a inveja é um defeito nacional. Não discordo, só não tenho a certeza se será uma especialidade lusa ou se deverá antes caber naquela vasta gama de “coisas” que dá pelo nome de “Património da Humanidade”.

Sem dúvida que sempre achamos que “o ovo da galinha da vizinha é melhor que o da minha”; além disso, desdenhar de quem se evidencia por boas razões, achar que “lá fora” está o melhor dos mundos, não atribuir mérito ao compatriota antes de ele ganhar reconhecimento “lá fora”, puxar para baixo quem tenta subir, são desportos muito apreciados “cá dentro”

Não sei se “lá fora” não se passará exactamente o mesmo, ainda que sujeito a cambiantes geográficas ou climatéricas, mas tenho a certeza de que, se formos perguntar aos portugueses, todos nos dirão que não são invejosos (ou racistas).

Eu cá sou portuguesa, logo, não sou invejosa (nem racista) e juro que não é a inveja que me move quando pasmo com os ordenados que pago a fulanos que acho medianos a atirar para o mauzinho e que, me parece, não valem tanto. Ou, se calhar, até valem, porque isto de fazer figura de tonto durante horas deve ser muito cansativo.

Eis os exemplos de vencimentos de fazer inveja, que causaram o meu mais recente pasmo:

Fátima Campos Ferreira (10 mil euros mensais), Catarina Furtado (30 mil euros), Fernando Mendes (20 mil euros), José Carlos Malato (20 mil euros), Maria Elisa (7 mil euros), Jorge Gabriel (18 mil euros), Sónia Araújo (14 mil euros), João Baião (15 mil euros), Tânia Ribas de Oliveira (10 mil euros) ou Sílvia Alberto (15 mil euros).

Bom, fica-nos o conforto (sem inveja) de saber que, ao menos eles, certamente não vivem acima das suas possibilidades.

3 de novembro de 2011

Apesar de ser sábado

Impurezas e excipientes

Na semana passada, o bastonário da Ordem dos Médicos insurgiu-se contra uma proposta de lei do Governo de “prescrição por Denominação Comum Internacional”, a qual permitirá ao farmacêutico trocar um genérico por outro com o mesmo princípio activo.

Argumenta o doutor que "os genéricos podem não ser bioequivalentes entre si: têm diferentes métodos de fabrico, têm diferentes excipientes [substâncias sem actividade terapêutica], têm diferentes impurezas e por isso muitos doentes sentem o efeito dessas modificações".

Ora, eu acredito que cada médico que prescreve um genérico sabe exactamente quais os excipientes e impurezas que cada um dos laboratórios tem no seu comprimido ou xarope. Para isso, perde noites de sono analisando cada produto, por laboratório, para depois receitar especificamente este e não aquele ao senhor António e aquele e não este à D. Joaquina. Deve ser o que se passou, por exemplo, com aquele médico algarvio que conseguiu receber do Estado, em 2009, 744 mil euros – queimou as pestanas a estudar genéricos, suas impurezas e excipientes, em muitas, muitas horas extraordinárias.

Depois da luta travada contra os próprios genéricos, esta aguerrida defesa da escolha irrevogável do médico no que toca à marca do genérico, fez-me lembrar, não sei porquê, uma situação vivida há mais de 20 anos.

Chegada a Primavera, o alergologista prescrevia a receita para o ano. Enquanto escrevia, ia dizendo: é outro, mas é exactamente igual. Eu perguntava para quê, então, mudar?, ao que ele respondia: não quero que digam na cidade que estou "feito" com um laboratório.
Homem previdente, aquele.





2 de novembro de 2011

Ir e vir

Quanto fechei a porta pensei: que bom, uns dias fora, ainda que poucos, sem Merkel, Sarkozy, Trichet, Passos e Gaspar. Enfim, uns dias sem Europa nem Portugal.
Quando abri a porta, pensei: que bom é viver na Europa, mesmo quando ela se vê grega.

Podemos e devemos reclamar com o presente, mas o que se conquistou e a nossa forma de vida são bens inestimáveis pelos quais valerá sempre a pena lutar.
Sair, ajuda a pôr em perspectiva as brigas que por aqui vamos cobrando, o nosso mal-estar mas também o nosso bem-estar. A Europa continua a ser a melhor parte do mundo para se viver, e um porto de abrigo que milhares procuram pondo em risco a própria vida
.
A Europa é uma invenção em permanente construção e é fascinante viver num tempo que nos permite ver como ela anda para a frente ou às arrecuas, cai, tropeça, levanta-se, nunca corre mas continua a andar.
Toda a construção pode ruir, é certo, sobretudo se é pioneira e inovadora como esta. Com todos os seus defeitos, o menor dos quais não será a pouca democracia usada nas decisões, continuo a pensar que vale a pena continuar a pôr tijolos e argamassa numa construção que se quer sólida mas se exige harmoniosa.

Que pensarão os gregos?
Se a Grécia foi o nosso berço no passado, eis que agora volta a ter em mãos muito do nosso futuro comum.