31 de março de 2014

"Os Czares e o Oriente"










 
 
 
 
 
 
 
 
 
Recomenda-se muito.
 
Uma exposição que não nos pede nada mais que os olhos, e só para os encantar.
 
Na galeria de exposições temporárias do Museu Gulbenkian, “Os Czares e o Oriente” – Ofertas da Turquia e do Irão no Kremlin de Moscovo.
 
Ao domingo de manhã a entrada é livre. E está cheia!
 
Nota: imagem retirada do site da FCG
 

28 de março de 2014

O problema genético do Livre













Simpatizei, desde o início, com a ideia do partido Livre; até ajudei a arranjar assinaturas para a sua formação. Na verdade, se o Movimento 3D tivesse decidido passar à acção em vez de se recolher sem mais explicações, teria feito exactamente o mesmo.

Esta pulverização da esquerda não me incomoda nada, visto que apenas põe à vista a sempre incómoda verdade – a divisão faz parte do ADN da própria esquerda.
O que me estava a perturbar, e muito, era a ausência de novas formações políticas depois destes 3 anos dum regime de terror.

Acabaram por surgir, mas o Movimento 3D revelou-se uma falsa partida, antes de o ser já o não era, e o Livre, apesar da persistência e empenho demonstrados para a sua criação, parece-me não possuir ele próprio o élan de que necessitaria para convencer uma sociedade profundamente desiludida e fragilizada.

Acresce que o Livre nasceu com um grave problema genético – ser “o partido do Rui Tavares” e, por mais que este o negue e actue em conformidade, os seus adversários políticos não perderão uma oportunidade para lhe chamarem oportunista e afirmarem que criou o partido apenas para continuar a ser deputado europeu.

Neste contexto, Rui Tavares só tinha uma atitude a tomar: autoexcluir-se, desde o início, da candidatura, e optar pela luta política interna.
Não o fez. Estão agora a decorrer as primárias do partido e, como era expectável, Rui Tavares é a pessoa mais votada para a lista de candidatura às eleições europeias.

E ouso o prognóstico: a lista vai formar-se, Tavares vai encabeçá-la, será eleito ou não, mas o Livre não passará dum cadáver adiado.
No estado de raiva, descrença e cinismo em que os portugueses se encontram, só actos inesperados, claramente desprendidos e contra tudo o que é habitual, os poderão acordar, devolver-lhes alguma esperança na política e nos políticos e mobilizá-los, mais que não seja, para votar.

Talvez por ingenuidade, Rui Tavares não percebeu isto.
Certo, certo, é que não teve o “rasgo”, a visão política, ou a vontade necessária para entender que, hoje, a credibilidade, para se ganhar, exige grande dose de sacrifícios.
Vaticino, pois, ainda que com enorme pena que, se o Movimento 3D antes de ser já o não era, o Livre logo depois de ser já o não será.

Mas, oxalá me engane.

26 de março de 2014

Que é que vamos fazer?




Lá venho eu outra vez com o António Guerreiro, mas o facto é que ele sempre tem alguma coisa para me ensinar.

Desta vez ensinou-me o que é a síndrome burn-out.

Citando-o, direi que “é uma doença da civilização exclusivamente ligada aos aspectos que caracterizam a organização contemporânea do trabalho”, e que apresenta os seguintes sintomas: fadiga até ao limite do esgotamento, ansiedade, incapacidade de controlar o stress, despersonalização e impotência.”

Continuando a citar o artigo de AG:

“Em média, o tempo de trabalho é hoje superior ao que vigorava no século XIX” e o progresso tecnológico em vez de libertar o homem "forneceu utensílios que acabaram por aumentar o tempo de trabalho com vista ao aumento da produção e do lucro."

Os actuais métodos de gestão “submetem, controlam, pressionam e induzem a uma competição que quebra solidariedades e cria delatores”.
“Não há exterior ao tempo de trabalho” e não há classe profissional que não sofra de burn-out, ou, em linguagem de rua, já ninguém consegue “ter uma vida”, digo eu.

A juntar a este mal global, o governo português, nos últimos três anos, legislou arduamente para aumentar o horário de trabalho, descer salários, aumentar as rendas de casa, aumentar o IMI, cortar nos apoios sociais e levar a cabo um enorme aumento de impostos.

Desregulamentar o trabalho, incitar à emigração e tornar as nossas vidas cada vez mais precárias foi uma aposta ganha pelo governo.
Assim sendo, não espanta que os dados sobre a natalidade em Portugal sejam assustadores.

Joaquim Azevedo, docente não sei do quê, disse que, a continuarmos assim, em breve estaremos nos níveis populacionais da idade média, o que torna o país inviável.

Aí o governo interroga-se: Que é que vamos fazer?

A mim apetece-me logo responder como o Pedro Abrunhosa, mas não o faço.
Primeiro, porque sou uma senhora, e segundo porque fiquei muitíssimo descansada quando li no jornal ionline:

“O docente (Joaquim Azevedo) foi apresentado recentemente pelo primeiro-ministro, Pedro Passos Coelho, como coordenador de uma equipa de trabalho sobre questões de natalidade que irá trabalhar o tema e apresentar propostas ao Governo.”

Ah, pronto, com mais um grupo de estudo isto resolve-se. Alguma dúvida?

PS: Ó mãe, não abra o link do Abrunhosa

24 de março de 2014

João Tabarra e o abismo















João Tabarra é um artista visual nascido em Lisboa em 1966.
Tem, portanto, 48 anos, e tem também agora, no CAM da Gulbenkian, uma exposição que eu ainda não vi.
Mas li o extenso artigo,de duas páginas, que  escreveu sobre o filme “Fúria de Viver”, e que o Ípsilon de 21 de Março generosamente (?) lhe publicou.
Digo “generosamente” porque dir-se-ia estarmos perante um texto de amador, caso não se soubesse que o seu trabalho inclui a escrita sobre cinema em revistas da especialidade.
Tendo por base as experiências dos seus múltiplos visionamentos do referido filme, aproveita para escrever algumas trivialidades contra a iliteracia, a decadência intelectual do país, as horríveis pipocas no cinema, e também algumas considerações pessoais e existenciais.
Tudo muito levezinho e superficial, assim tipo blogue.
Sobre o 25 de Abril escreve “Sabemos hoje que este foi o mais efémero de todos os sonhos, se é que o chegou a ser, destruído pela chegada dos políticos e pela apressada organização dos seus jogos de poder”.
Ora, então, cá está a “conversa de taxista” pela pena do respeitável artista.
Tendo o 25 de Abril chegado quando Tabarra tinha 8 anos, e sendo de família modesta como afirma, apetece-me perguntar-lhe quem terá criado, neste país, as políticas que permitiram tratar-lhe de borla as amigdalites ou o sarampo, o vacinaram de borla, lhe proporcionaram desporto de borla se o quisesse, e estudos de borla até que quisesse?
Quem terá, afinal, criado as políticas que lhe permitiram ser muito daquilo que hoje é, a custo  mais ou menos zero para a sua família de origens modestas?
Talvez tenham sido os políticos que João Tabarra despreza tão global e levianamente; desresponsabilizar-se, não fazer distinções, crucificar os políticos tout court é conversa de taxista, sim.
Lá mais para o final do artigo, conta o artista que a última vez que reviu o filme foi no dia 7 de Agosto, e escreve: “Notei muitos outros pormenores cinematográficos em que não tinha reparado antes, daqueles que é melhor deixar para os autoproclamados especialistas…”
Eu não percebo muito bem onde ele quer chegar.
Notar “pormenores que é melhor deixar para os autoproclamados especialistas” quer dizer exactamente o quê? Então ele não é especialista? Parece que é! Então e não viu antes? Mas, afinal, viu depois? E porquê autoproclamados?
Não tenho a certeza, mas parece-me que, depois de tão claramente demonstrar desgosto pela miséria intelectual a que chegámos, também João Tabarra cai no abismo, e mostra que não tinha imunidade a um vírus, altamente patogénico, que por aí circula, e que é causador de muita da nossa actual miséria intelectual – aquele que despreza, e até hostiliza, os que aprofundam conhecimentos em campos de estudo subjectivos.
Ele chama-lhes “autoproclamados especialistas”, o vulgo chama-lhes pseudo-intelectuais. É uma praga.
Terei que ir ver a exposição de João Tabarra. Talvez goste mais do seu trabalho do que das suas ideias, quem sabe.
 
Nota: artigo disponível aqui



21 de março de 2014

O trabalho que a sorte me dá




















Ontem começou a Primavera.
Numa peça do telejornal da hora de almoço, para além de se falar da efeméride, foi também dito que já existe o dia da felicidade; não percebi se coincidem, a Primavera e a felicidade, mas não me admiraria nada, porque os 365 dias do ano já não são suficientes para assinalar tudo e mais um par de botas como agora parece ser obrigatório.

A reportagem seguiu para a rua para perguntar aos “populares” o que era para eles a felicidade. As respostas foram as de sempre – ter saúde, amar a família, ter trabalho ou dinheiro, etc.

Pertencendo eu aos “populares”, se me tivessem interrogado teria dado as mesmíssimas respostas, acrescentando, talvez, a falta que me faz um Inverno mais ligeiro que este último, uma democracia mais saudável e um governo que me envergonhe menos.

Apesar destes últimos “azares”, não me queixo.

Ora, se um português não se queixa, para além de ser uma pessoa feliz, só pode ser uma pessoa que tem sorte, e isso é sempre dito ao não queixoso.
Por mim, trato logo de concordar com veemência.

Só nunca digo que ter sorte é das coisas que mais trabalho me tem dado nesta vida.

19 de março de 2014

“Um bom homem é difícil de encontrar”









 

 
 
 
 
 
“Um bom homem é difícil de encontrar” é o título dum excelente livro de contos da escritora americana Flannery O’Conner.

É também um belo título mas, tomada na generalidade, a sentença não é verdadeira.
Todas as mulheres encontram, na sua vida, pelo menos um bom homem, mas geralmente até encontram vários.
Não é raro, porém, que estejam distraídas.

Eu sou das que encontraram vários, pese embora a enorme possibilidade de também ter estado distraída algumas vezes.
O primeiro homem bom da minha vida apareceu logo cedo, porque era meu pai.

Há já 28 anos que não o abraço neste dia que inventaram para os filhos saudarem os pais, nem em qualquer outro.
Porém, não passa um único dia em que eu não reforce a certeza que foi ele, com a sua vida exemplar, que me fez  dar atenção, e  me deu  confiança para  acreditar que, afinal, um bom homem até é fácil de encontrar.

15 de março de 2014

Afinal, a vida é bela


















 
 
 
 
Durante a semana passada muito se falou no “Manifesto dos 70”, o tal que assume que a dívida portuguesa, assim, não é pagável.
Acontece que aqueles 70 portugueses querem pagar a dívida, e por isso defendem que ela tem de ser reestruturada.

Isto parece-me elementar, e tem sido prática corrente entre os homens ao longo de séculos, mas por cá gerou grande reboliço.
Não que houvesse discussão séria, isso não, que não vale a pena, mas no que toca ao insulto foi do bom e do melhor.

Partindo do princípio de que nada de novo será feito, Cavaco Silva já tinha vindo dizer que a austeridade vai manter-se até 2035, porque só então a dívida pública estará nos 60% do PIB.

Eu não me assustei nada com isso.

Hoje, o Expresso escreve que Passos faz contas diferentes e que, com números de crescimento mais modestos, conclui que a dívida é sustentável, mas que só ficará nos tais 60% do PIB em 2159, isto é, daqui a 145 anos.

Se não me tinha assustado com a conversa do Cavaco, agora então, confesso que até me apeteceu dançar.

É que, sendo assim, há esperança de que o Manoel de Oliveira ainda possa ter o subsídio por que espera para fazer o seu novo filme e eu, nessa altura, em 2159, acho que também ainda me abalanço a fazer a tal licenciatura em ciência política, mesmo que já venha a precisar de mais uns anitos para a terminar.
Afinal, a vida é bela.

7 de março de 2014

Números, números e mais números











 
 
 
 
 
 
 
Em Janeiro deste ano, 425 mil desempregados perderam o subsídio de desemprego.
Em Janeiro deste ano, 388 mil desempregados tiveram subsídio de desemprego.
O país está melhor!

Em 2013 houve 532.042 ordens de penhoras de salários e vencimentos por dívidas ao fisco.
Em 2013, o total das ordens de penhora foi de 2.070.315.
O país está melhor!

Américo Amorim, o português mais rico segundo a revista Forbes, detém o equivalente a 2,5% do produto interno bruto (PIB) português.

Por seu turno, Bill Gates, o mais rico do mundo, não consegue deitar as unhas a mais do que 0,5% do PIB norte-americano, e mesmo juntando os cinco mais ricos dos States eles não alcançam o feito do Amorim porque só têm 1,6% do PIB do país deles. (no i)

O país está melhor, portanto, e mais equitativo.

Ainda sobre números e cifrões: a Europa vai pagar metade dos dois mil milhões de dólares da dívida energética que a Ucrânia tem para com a Rússia; suponho que seja sob a forma de doação porque não ouvi falar em empréstimo.

Se assim for, é a realização dum velho sonho meu - dar dinheiro meu a fascistas para pagar dívidas de corruptos.

 
Fotografia de Tomas Brugger

5 de março de 2014

Uma mão estendida
















 
 
 
De vez em quando, muito de vez em quando, uma notícia reaviva um pouco a minha fé nos homens.

Ainda muito, mas muito mais de vez em quando, essa notícia chega pela mão dum político.
Foi o caso desta, que veio pela mão de Jorge Sampaio.

Tirar estes jovens de dentro do conflito para virem estudar, ainda que por um ano, é fazer a (boa) diferença na vida dos outros. E, para variar, em modo não assistencialista.

E foi assim que também eu ganhei qualquer coisa porque, subitamente, veio-me à memória um poema que foi quase um mantar na minha juventude, e de que há demasiado tempo me tinha perdido.

 
Et un sourire

La nuit n'est jamais complete.
Il y a toujours puisque je le dis,
Puisque je l'affirme,
Au bout du chagrin une fenêtre ouverte,
Une fenêtre éclairée.
Il y a toujours un rêve qui veille,
Désir à combler, faim à satisfaire,
Un cœur généreux,
Une main tendue, une main ouverte,
Des yeux attentifs,
Une vie, la vie à se partager.

 
Paul Eluard.

Nota: os não francófonos que me perdoem hoje.

 

3 de março de 2014

Um outro 2 de Março



 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Cumpriu-se ontem um ano sobre a segunda grande manifestação organizada pelo movimento “Que se lixe a troika”.

Alguém afirmava no Facebook que, nesse dia, éramos um milhão e meio em 40 cidades do país.
Não éramos, como foi óbvio para quem lá esteve com olhos de ver, mas os pequenos vídeos da manifestação que por aí correm relembram “aventuras”, desventuras e protagonistas deste ano passado.

Desde logo, e em tão pouco tempo, ficámos sem Relvas e ganhámos Relvas outra vez.

Victor Gaspar foi-se embora no verão dizendo que o seu plano se tinha revelado uma merda, mas já reapareceu, antes do Carnaval, dizendo que não, que não era merda nenhuma. E foi promovido.

Portas demitiu-se irrevogavelmente porque “não ia à bola” com a Albuquerque, mas revogou a irrevogável demissão e, juntinhos e cúmplices, dão conferências de imprensa auto-congratulatórias sobre o estado a que isto chegou. Também foi promovido.

O FMI mudou algumas moscas das que nos visitam regularmente mas continua a dizer que os portugueses estão bem demais. Cortem!

Muitos milhares dos jovens que se vêem nos vídeos levantando cartazes cheios de humor espalharam-se, entretanto, pelo mundo. Já cá não estão.
Os velhos, ainda cá estão, mas ficaram mais velhos, perderam reformas, certezas e, sobretudo, perderam alegria.

Não adianta escamotear a questão − não haverá mais manifestações assim, nem reais nem ficcionadas.
A energia então mobilizada esvaiu-se, foi para parte incerta, e se a verdade pode doer, mesmo assim precisa de ser encarada – eles quebraram-nos. E ganharam!

28 de fevereiro de 2014

“Filomena”



 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
A “bondade” da igreja católica sempre me deixa estarrecida.
Já as contradições dos seres humanos, a sua luz e as suas sombras sempre me fascinam.

Filomena, baseado em factos reais, conta-nos uma história que perturba mas também enternece.

Quem não gostar de rir por encomenda no Carnaval, pode ir ver este filme sem medo de se decepcionar. Se, aqui e ali, pode esboçar um sorriso genuíno, não de encomenda, portanto, também não sairá a chorar.
Melhor dizendo, pode até chorar, se lhe der para aí, mas o filme não cede nunca à tentação de puxar à lágrima fácil.

Judi Dench, maravilhosa, sempre.
Mestria e dignidade são as palavras adequadas para o modo como compôs a personagem Filomena.

27 de fevereiro de 2014

Apropriação do dia


 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
“As palavras são seres furtivos, capazes de sentidos onde não alcançam, pobres deles, os dicionários. A palavra “amor”, por exemplo, não precisa de ser pronunciada para significar, e (como se temesse mostrar-se) revela-se quase sempre sob a forma de outras palavras ou de silêncio.”

 Excerto da crónica de Manuel António Pina, publicada em 21/12/2005 no JN

26 de fevereiro de 2014

Ele não sabe, nem sonha











 
Alertada por um amigo da blogosfera e da FB, fui ler isto.
Quem tiver boa resistência ao vómito deve ler também.
Os de estômago sensível ficam isentos.

Eu, que só me queixo da bílis, li a bosta toda, e, mal acabei, desatei logo a sonhar, nem sei porquê.
Segundo o anormal, sonhar é coisa ilícita, mas o meu sonho foi coisa pouca.

Sonhei que pegava na mão do Nuno Ferreira (eu depois desinfecto), e o levava numa viagem no tempo de regresso ao Alentejo dos anos 1940, em que ele seria um menino de 6 ou 7 anos, filho de assalariado rural, atravessando transbordantes ribeiros invernais para chegar à escola, descalço todo o ano, estômago a digerir uma fatia de pão e umas azeitonas, guardando porcos lá no montado antes e depois das aulas.

E, o mais importante, impossibilitado de sonhar.

No meu sonho, eu vinha-me embora e deixava-o lá para sempre com os porcos e sem sonhos, mas acontece que houve homens bons, e sem excesso de bílis, que sonharam que nenhum menino devia viver assim.

Se bem o sonharam, melhor o fizeram, e desse belo sonho usufruíram milhões de meninos; até mesmo os anormais, como o Nuno Ferreira.
Mas ele não sabe disso, claro. Nem sonha.

 

 

 

 

24 de fevereiro de 2014

Circo sem pão












 
 
 
 
 
 
 
“Regresso de Miguel Relvas causa incómodo no PSD”, titulava ontem o Público online.
E eu digo “Não acredito”.

Aquela gente não tem incómodos, a não ser os da falta de poder; já com a falta de pudor, ao contrário, sentem-se cómodos. É, julgo, a sua zona de conforto.
Tácticas. Também têm muitas.

No Coliseu, estavam felizes. Riam, sorriam, acenavam rindo, ou então, sorrindo.

Foi bonito de ver − o sorriso de Passos por os ter “metido todos no bolso”; o sorriso de Marques Mendes, a seu lado, era o do puto que faz qualquer coisa para o deixarem jogar na equipa principal; o sorriso de Marcelo era o do acrobata no fim do número de circo em que conseguiu cair de pé e não partir as costelas; o sorriso de Menezes era o do pobrezinho, boa pessoa mas com azar na vida, que aceita qualquer esmola; finalmente, o sorriso de Santana Lopes era o da velha raposa que os “manca” a todos e nunca larga a presa. E nem o Relvas faltou.

Por mérito próprio, Passos é o rei leão naquela selva.

Pelo caminho que aquilo levava, ainda admiti que se pudesse passar da pornografia soft em que estávamos, para a pornografia hard, se se verificasse também a inopinada aparição de Ferreira Leite ou Pacheco Pereira.

Tal não chegou a acontecer, felizmente. É que os congressos do PSD sempre foram espetáculos pouco edificantes, mas classificáveis como “para toda a família”.
E assim devem continuar.

O Coliseu devia cheirar a futuro e às suas deliciosas promessas; por isso ninguém quis ficar fora da fotografia − para mais tarde recordar, se necessário for.

A esquerda que continue a apaparicar “os críticos” do PSD, citando-os, partilhando-os, louvando-os, em vez de cuidar da sua vida e de pensar uma outra vida.

Eles agradecem essa preciosa ajuda.
Ou talvez nem agradeçam, por já não precisarem.

21 de fevereiro de 2014

Olha, afinal também é daltónico



 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Sempre achei que Octávio Teixeira pertencia ao grupo minoritário de comunistas que não sofre de daltonismo e, se não consegue ver as sete cores do espectro, vê, pelo menos, umas quantas.

Foi-se-me a convicção ao ouvi-lo ontem no Conselho Superior da Antena 1.

Falando sobre a grave situação de Kiev, e também da Venezuela, Octávio Teixeira reduziu tudo aos interesses geoestratégicos das potências, e chegou a dizer que os Estados Unidos querem fazer na Venezuela o que fizeram no Chile − como se Obama fosse Nixon e nada tivesse mudado na vida, e no mundo, ao longo das vertiginosas quatro décadas que vão de 1973 e 2014.

Por sua vez, na Ucrânia, e para Octávio Teixeira, tudo se resume a uma luta entre os interesses (ilegítimos) dos Estados Unidos e da União Europeia, por um lado, e os (mais ou menos legítimos) da Rússia, por outro.

É absolutamente certo que esses interesses existem e são poderosos; é também verdade que os povos podem ser por eles instrumentalizados, mas não me parece que as pessoas, de qualquer parte do mundo, venham para a rua e lá permaneçam (sobretudo com temperaturas negativas) só porque sim.

Percebi ontem que para o comunista Octávio Teixeira há certezas que, para mim, são um pouco surpreendentes. A saber:

- os povos não “riscam” nada – é tudo geoestratégia.
- na sua visão a preto e branco, os maus são, em todas as situações, os EUA e a União Europeia.

E aqui, deixo-me rir.

É que eu ainda sou do tempo em que, sendo a União Soviética e a China irmãs desavindas, o PCP estava do lado da primeira. Quando ela se desfez em pó, passou a estar do lado do anterior inimigo, a China, indiferente ao seu capitalismo selvagem.

Agora, com a questão ucraniana, Octávio Teixeira volta à casa de partida e está do lado desse grande democrata, comunista e paladino dos direitos humanos chamado Putin.

E eu, posto isto, vou ali chorar um bocadinho que esta gente toda só me dá desgostos.

 

19 de fevereiro de 2014

Kiev não mora aqui













 
 
 
 
 
 
Ontem vi Kiev em brasa, mas também a Bósnia e a Venezuela sobre brasas, como antes o Brasil, a Turquia ou a Tailândia, locais onde as pessoas parecem determinadas a inverter o curso dos acontecimentos que lhes querem impor.

Inconformadas estão, aquelas gentes.

Enquanto ontem em Kiev se morreu e se atearam fogos, por cá esteve sol.

Deu nas televisões, e gostei muito de ver, o centrão todo à volta do Vítor Gaspar. Este fez um discurso bonito, em que, por acaso, disse o contrário do que disse no último, mas não faz mal porque o último também era muito bonito.

O Vitorino falou bem, e a Avilez estava cheia de charme a agitar a melena.

Assim, ontem, fazendo o balanço do dia antes de adormecer, verifiquei que só uma coisita me aborreceu – a notícia do Público, segundo a qual, Joana Vasconcelos “está sem tempo para intervenção nas comemorações do 25 de Abril”.

Ora, isto sim, é uma grande contrariedade.

É que precisávamos mesmo da mais rebelde (!!!) artista deste tempo para nos ajudar a comemorar aquele único momento da nossa história recente em que todos (ou quase) fomos realmente rebeldes – há 40 anos houve um dia em que nos mandaram ficar em casa e fomos logo todos para a rua.

Depois desse dia de loucura, graças a Deus, sossegámos.
Definitivamente, Kiev não mora aqui. Nem Caracas. Nem São Paulo.

17 de fevereiro de 2014

45 Milhões de euros


















Eu sou fã da Gulbenkian.

A bem dizer, gosto de tudo ali – dos jardins, do museu, dos auditórios, do CAM, da biblioteca, dos cafés e restaurantes, da livraria Almedina dentro do CAM − e continuo a achar que aquele é um espaço único na cidade.

Porém, às vezes também me merece reparos e críticas, o que nem é de estranhar, posto que é dirigida pelos mesmos de sempre, aqueles que saltitam entre governos, bancos, fundações, empresas públicas, como é agora o caso do banqueiro Artur Santos Silva, e que, obviamente, têm a cabeça orientada no sentido inverso da minha.

Vem isto a propósito das várias obras que têm vindo a ser feitas no espaço da Fundação, com destaque para a inauguração, no último fim-de-semana, do renovado Auditório 1 e zonas adjacentes.

Há cerca de um ano escrevi aqui que, nas actuais condições, cabia à Gulbenkian “voltar a ser o oásis e o motor da nossa vida cultural, com iniciativas que nos galvanizem e nos façam acreditar que há vida para além das crises. Não é o que se está a passar no CAM.” (Post de 25 Março 2013)

Pelos vistos, o dinheiro nunca faltou para que tal se concretizasse, dado que, segundo o Público, o conjunto das obras custou 45 milhões de euros; o que faltou foi fazer essa escolha. Ao contrário, a Fundação escolheu investir em si própria, em vez de investir nos criadores portugueses, que andam à míngua, ou numa programação do CAM integrada nos circuitos internacionais, coisa que nunca sai baratinha.

Temos, assim, um auditório que era muito bom e que passou a excelente.
Ao mesmo tempo, o CAM inaugura exposições quase só com a prata da casa.



















Ainda não vi as que inauguraram na semana passada, talvez até sejam boas mas, para já, quando no jardim passo por esta escultura Rui Chafes, até tenho pena de não ser pombo.

É tão triste, o tempo que vivemos…